Issuu on Google+

a parada nĂşmero seis

belo horizonte 2008


boirboletra

em maio deste ano, durante uma

sos pelo esforço dos poetas em

sua produção poética entre 1977 e

palestra que integrou o projeto ofício

recolocá-los (ou reconhecê-los) num

2007.

da palavra, no museu de artes e ofíci-

outro contexto. ao contrário: através

variados como os 21 cortes possí-

os, o poeta e agitador cultural chacal

de uma perspectiva urbana e contem-

veis do boi, os autores que aqui se

falou, dentre outros assuntos, sobre as

porânea, indicam outras direções que

apresentam constroem, no conjunto,

potencialidades da palavra. comparan-

não aquelas que lhes seriam naturais.

essa figura familiar e mitológica, cuja

do-a ao boi, afirmou que dela tudo se

e a propósito dos sete anos de sua

aproveita: som, sentido e visualidade.

publicação em livro, sete fragmentos

traduzindo numa só expressão a

de anu são aqui reproduzidos junta-

os editores

relação apontada por chacal, o termo

mente com um trecho da crítica feita

jornal.a.parada@gmail.com

boirboletra, extraído do poema-livro

por alécio cunha (publicada no jornal

anu, de wilmar silva, é o título deste

hoje em dia) à época do lançamento.

número seis de a parada. a versatili-

revisitando o poema de wilmar e pen-

dade da palavra como matéria-prima

sando sobre a crítica literária em belo

é explorada nesta edição por meio da

horizonte e minas, alécio é um dos

variedade de autores e linguagens que

entrevistados desta edição.

aqui convivem, ora de forma

também conversou conosco o poe-

contrastante, ora de forma harmonio-

ta nascido em cuiabá e radicado em

sa – tal qual anu e boi.

brasília, nicolas behr, representante da

o termo boirboletra refere-se ain-

poesia marginal da década de 70. fa-

da, por indução, a um universo simbó-

zendo um rápido passeio por sua obra,

lico compartilhado pelos trabalhos reu-

o poeta traça paralelos entre épocas e

nidos nesse número. porém o boi, o

gerações. recentemente, nicolas lan-

santo, o sol ou a pedra não passam ile-

çou laranja seleta, uma coletânea de

musculatura é a própria linguagem.

edição daniel bilac e valquíria rabelo conselho editorial chico loppes, daniel bilac, deivid junio, flávio gonçalves e valquíria

p

rabelo textos chico loppes, deivid junio, flávia almeida, jovino machado, luiz edmundo alves, marco anhapoci, marcos coletta, nicolas behr, tá morelo, valquíria rabelo e wilmar silva revisão textual flávia almeida capa e ilustrações daniel bilac artista convidado leandro figueiredo projeto gráfico daniel bilac e valquíria rabelo / tiragem 4.000 exemplares

.2

jul /

2008


.marco anhapoci penas voando histórias na brisa, minha camisa pendurada na cerca. o paladar de meu olho às vezes delira, diz coisas descabidas como por exemplo: o boi. o boi é um animal mitológico; não existe

em

minha

cidade.

o

trombamento de dois bois numa estrada que em verdade está entre minha nuca e minhas vistas é tão somente uma idéia e nada mais; meu bucolismo mora entre fendas na calçada: quero uma casa no campo ali, na sombra entre pedras soltas de onde possa ver, sem esforço, o sol branqueando as casas, fuzilando as pessoas; o sol como tudo o que arde como sol que morde como o sol que é sol como mil agulhas na pele, nas vistas. quero as ervas da beira da pista, o mar que se ergue do asfalto, elefantes cruzando a avenida e os cães, como bois no campo, deitados na esquina onde um dia plantei meus pés e pensava ter plantado sonhos.

3.


.4


.chico loppes Menos miragem, mais vertigem, o

aço e seiva bruta. O santo é de pe-

avança ilesa o sinal vermelho e so-

bafo úmido do asfalto sussurra em

dra, o santo é de ferro. O santo não

brevoa marquises de edifícios enru-

seus ouvidos palavras profanas e em-

existe. E a procissão segue muda en-

gados, sentados às suas próprias por-

pedernidas. O verde que lhe resta é o

quanto entre o seu e o meu caminho

tas, embebidos em lembranças mu-

tom fosco e pálido do lodo igualmen-

vociferam palavras dúbias ao tilintar

das que não lançam luzes sobre uma

te úmido de um canto tanto mais

de ossos e raízes transpostas e expos-

face perdida entre poeira e obeliscos.

úmido e escuro que guarda sob escom-

tas ao sal do meio-dia. Os cães ladram

Nessa história não há mais espaço para

bros seu velho caderno de poesia.

de medo, ora de dor. Outras vezes,

mim ou ti, você ou eu. Fatos consu-

Menos poeira, mais fuligem, folhas

silenciam de modo abrupto, entreme-

mados, debruço meus galhos envelhe-

acinzentadas ladeiam estrelas susten-

ados por ruídos sufocantes e dióxidos

cidos para que se banhem nas espu-

tadas por fios, ligadas por fios, uni-

e monóxidos exalados pela doçura

mas tóxicas daquele mesmo leito

das por fios, fios de onde um bem-te-

ácida de seus versos. Nostálgico e dis-

onde, numa ilha deserta de cravos e

vi cegado e rouco pouco avista e nada

tante, o berrante se anuncia. Desafi-

lixo, ainda vejo seu sorriso plúmbeo

canta. Os carros passam na frente dos

nado, se aproxima em melodia fúne-

feito pétalas a esperar que o grito de

bois, na frente dos homens, na fren-

bre, troteando cambaleante entre

um galo silencie o mundo e lhe anun-

te das horas, na frente de tudo. O

becos e ruelas onde seus cavalos não

cie o nascer do dia.

andor não é de barro, o andor é de

sabem marchar. Ao norte, uma pluma

5.


.tá morelo O estilhaço da folha seca de samba sob meus pés distraídos que seguem inertes e pesados, graves os olhos permanecem na imagem anterior atônitos como se pela primeira olhada o traço fino ainda escorre pelo meu dorso tenso as perguntas parar de se formular reformula fórmicas a palavra não chega ao céu da boca (suspiro) respiro a fumaça estagnada na faringe as folhas detrás indiferentes segundo primeiro.

.6


poesia pra morder pedra num verso de uma aresta só .deivid junio em léguas de sol ar quem te faz bem eu quero a próxima área as distâncias entre nós sem pudor na carne bruta pesada na balança dos braços num abra aço de bater e ouvir cobre no alto das torres de minas pra santa catar e na dor de não ter nada alçar vôo em teus pulmões e ficar no teu peito pra sempre qual joão em santo pra lá e tanto eu só quero ter um momento meu sendo todo teu minha pedra linda, pedro.

7.


prenez garde à l’amour .jovino machado

.8

o meu anjo

o meu anjo

o meu anjo

torto e louco

toca banjo

beija o bar na boca

manca da asa

numa orquestra de frevo

sem cadeira tem colo

bom de bola

bom de briga

intuição e sorte

ponta esquerda

joga no bicho

bom de cama

mora na esquina

faz serenata na lua

ama egos e éguas


o meu anjo

o meu anjo

é arcaico

é menina

fala aramaico

esconde meus brincos

bom de papo

e me recita no ouvido

é moderno

prenez garde à l’amour

não quer ser eterno

tome cuidado com o amor

e eu não tomei

9.


.flávia almeida

.10

Para onde vai, para onde vai o meu

e você nada. Depressa, depressa.

lho, verde, amarelo, são tantas as

barco no meio da rua das ondas so-

Para onde vai o seu barquinho de

cores no cruzamento - meu

noras. Para onde vão meus passos,

papel, seu coração de papel

riachozinho que vai pro seu mar de-

pés cheios de areia e britas e pedras

reciclável e tantas vezes rasgado e

mais. E o seu mar vai, vem, mas nun-

ainda maiores no meu sapato, no meu

jogado no mar. Navega. Eu te encon-

ca sai do lugar. O meu barco naufra-

barco que afunda e navega e eu nado

tro e você nem olha. Sinal verme-

ga, eu me entrego e você nada.


.marco anhapoci e mesmo minha visão indo colher perfumes para além da serra do tempo, ou para além do tempo e da serra, mesmo minha voz voando em papéis; mesmo coisas sempre serão coisas atadas a essa minha boca que fede inda mais outras tardes, todas as tardes de minha vida; minhas palavras; tudo que cuspi ou engoli; minha boca fermenta restos de outras bocas e sujeiras velhas; cheira a feijão e bananas e saudades essa minha boca fedendo as comidas de outros dias que só mesmo minha boca alcança; nunca mais minhas mãos, meus pés pisando o terreiro de galinhas e canas e abricós apodrecendo na terra (sua terra entre meus dedos) como o alimento que apodrece nas costas da língua enquanto morre lentamente o meio dia arrastando as horas e as preces que estiveram noutras bocas sem serem ditas, que envelheceram em meio a coisas, enterradas nos dias. meu hálito se exibe como um pavão de idéias,

11.


onde .valquíria rabelo quero uma casa em Belo Horizonte, c/ vista para Sabará, 1 corredor que dê em São Paulo e porta dos fundos para o mar.

.12


.nicolas behr nossa senhora do cerrado, protetora dos pedestres que atravessam o eixão às seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo na casa da noélia.

13.


. marcos coletta o sol cortando a pedra o sol salpicando a sombra minha penumbra pesa a pedra minha ferrugem amarela o sol

.14


15.


.16 os cuteleiros as bordadeiras os vaqueiros

os cruzeirenses as atleticanas os ativistas

as araquãs os araraquarenses as ariranhas

os crepúsculos as auroras os almenarenses

os símbolos as metáforas os sinos as sandices

os desertos as previsões os becos as bacantes

as lambidas os lenitivos as árias os arinás

as assadeiras

os ossudos

as cantoras

os cântaros

as migalhas

os milhões

os ovos

as uvas

os arquétipos

as arrivistas

os assuntos

as assonâncias

os pontos as reticências os tremas as vírgulas

as interjeições os artigos as interrogações

os substantivos os advérbios os adjetivos

as memórias os papéis os afetos as palavras


as e os .luiz edmundo alves

17.

as.

os

os fins

as finalidades

os arranha-céus as arandelas as artérias os artistas

os véus as vezes as vozes os avós as avoadas

os paralelepípedos as auréolas os alvéolos as velas

as tempestades

os templos

as iscas

os is

as anas

os anos

os erros

as ervas

as asmáticas os ventos as rosáceas os ladrilhos as trilhas

os joelhos as curvas os cotovelos as cismas as armas

os clavicórdios as liras os delírios as faces os espelhos

os temas os fonemas os oitis os bem-te-vis

os superlativos as fezes as fases as aspas


Muitos poetas da sua geração também fizeram e venderam seus livros de forma independente, tanto é que vocês são chamados de geração mimeógrafo. Mas o que nós queremos saber é: vocês se reconheciam como parte de um mesmo movimento, de uma mesma corrente, ou as iniciativas, além de independentes, eram também isoladas?

NICOLAS BEHR PRO QUE DER E VIER

Tudo bem, um movimento, mas sem líder. Tudo bem, um movimento, mas sem manifesto. Tudo bem, um movimento, mas sem dogmas e regras. Tudo bem, um movimento, mas movido pelo vento. Tinha de tudo. Sabíamos que fazíamos parte de um movimento poético (meados dos anos 70, início dos 80), mas as fronteiras eram assim bem tênues, nada demarcado, entende? Tudo muito solto, naquele vale-tudo que tanto engrandeceu a poesia brasileira no século passado. Que diferenças e semelhanças você identifica entre a Poesia Jovem dos Anos 70 (título da antologia de que você fez parte, organizada por Heloísa Buarque) e a produção poética contemporânea?

Nicolas Behr, natural de Cuiabá, Mato Grosso, vive em Brasília desde 1974. Integrante da chamada Geração Mimeógrafo, publica seus livros desde 1977. Sua poesia é conhecida por, dentre outras coisas, ser bastante simples, irreverente e adotar a cidade de Brasília como um de seus temas principais. Nicolas foi publicitário e hoje é produtor de mudas de espécies nativas do cerrado. Laranja Seleta, que traz uma seleção de seus poemas produzidos entre 1977 e 2007, é seu primeiro livro lançado por uma editora, a Língua Geral. Em maio deste ano, Nicolas concedeu uma entrevista por e-mail a Daniel Bilac e Valquíria Rabelo, do jornal A Parada. Na página seguinte, está a reprodução da capa de seu livro Restos Vitais, de 2005.

.18

Produção poética contemporânea? Não existe. Ainda. Como que por encanto tudo se atomizou, tudo se pulverizou, tudo explodiu. E isso é bom. Ninguém sabe o que está acontecendo, talvez daqui a 30 anos saberemos. Agora, eu digo uma coisa: hoje, maio de 2008, a poesia passa pela internet e não fica. Passa. O blog de hoje é o mimeógrafo dos anos 70. Na orelha de Primeira Pessoa, você diz que seus livros agora são impressos em off-set e que sua poesia começava a merecer tratamento melhor. O mimeógrafo maltratava sua poesia? Olha, a poesia já sofreu muito na minha mão. Olha, e logo a poesia que salvou a minha vida na adolescência. Pode parecer dramático e é. Se estou aqui hoje, respondendo estas

perguntas, é porque aos 16-18 anos comecei a escrever poesia, do meu jeito. Muitos diziam que aquilo não era poesia, que os meus livros não eram livros, que não tinham lombada. Precisei abrir o caminho na base da porrada, pra ter o direito de fazer a poesia que eu queria fazer. Sem pedir autorização, sem pedir prefácio a ninguém. Em muitos de seus livros, você coloca algum elemento associado à sua identidade, como uma fotografia sua, sua digital ou mesmo seu umbigo (!). Fale mais sobre isso. Sim, talvez seja uma das características da nossa geração, que começou a escrever nos anos 70, mimeografou seus livros, vendeu de mão-em-mão. É essa relação orgânica com o objeto livro. Uma relação forte mesmo. E


tato: paubrasilia@paubrasilia.com.br. A poesia é a minha forma de compartilhar minha vida com as pessoas. E gosto. E não vou parar mais. Vou sempre publicar, mesmo achando que já estou plagiando a mim mesmo. Minha poesia sempre foi remoção de entulho literário, para chegar ao poema-diamante, ao poema inexistente. Em 1978, você foi preso e processado pelo DOPS, tendo sido absolvido no ano seguinte. O que te levou a publicar o processo no seu livro Restos Vitais? No livro Restos Vitais, uma reunião dos meus 5 primeiros livrinhos, publicados entre 1978 e 1979, resolvi colocar uma parte do processo que o DOPS me moveu, por “posse de material pornográfico”. O documento que ali está mostra o ridículo da censura, o ridículo da ditadura, e mostra também como a poesia pode ser algo perigoso, mesmo feita em mimeógrafo por um garoto que acabara de completar 20 anos de idade.

sempre com uma tentativa de individualizar o livro, dar a ele uma cara. Ok, livro de autor. O Iogurte com Farinha (seu primeiro bestseller) teve 8.000 exemplares vendidos de mão-em-mão, numa época em que quase tudo era considerado “material pornográfico” pelas autoridades. Além do risco que você correu, fazer artesanalmente cada livro deve ter demandado muito tempo e trabalho. Naquela época, quais eram as suas motivações pra continuar? E hoje? Ah, essa é fácil de responder: a poesia me dava valor. A poesia me dá valor. A poesia sempre me aproximou das pessoas, e eu sou um poeta que gosta de gente! Gosto de ser lido, gosto de ser entendido. Gosto do con-

Depois de lançar 10 livros mimeografados, você deixou de publicar em 1980 pra só voltar em 1993 com Porque Construí Braxília, não é isso? O que aconteceu em 80 que fez você parar e o que aconteceu em 93 que fez você voltar?

Laranja Seleta me deu muitas alegrias. Porque o meu editor na Língua Geral, Eduardo Coelho, um cara que conhece poesia, foi muito sensível ao acatar minhas sugestões ao fazer o livro. Isso foi muito bom, caiu do céu. O livro é uma reunião do melhor (o que seria melhor, meu deus?!) da minha produção poética de 1977 a 2007. Estou muito feliz com o livro e recomendo-o. Se não o encontrarem nas livrarias, peçam pelo site: www.linguageral.com.br. Para encerrarmos, duas dúvidas: Nicolas, dinheiro nasce em poesia? E em árvores? Dinheiro é um dos meus fios-terra. Todo poeta precisa de um fio-terra. Meus filhos também são meu fio-terra. Mas não sei porque caí no comércio. Pra criar mini-couraças? Tenho uma floricultura em Brasília, compro e vendo vasos, adubos e plantas. E, assim, tenho contato com uma gama enorme de pessoas, de todos os níveis sociais. E isso é muito enriquecedor pro poeta, sair do seu mundinho, do seu gueto e cair no mundo! Valeu, gente. Abração, Nicolas Behr.

Em Brasília, entre 77 e 80, ninguém se expôs mais que eu, fisicamente até. Resolvi submergir e parti pra outras: fui ser ecologista militante, de carteirinha. Fundei ONG’s, trabalhei em fundações do meio ambiente, estudei a fauna brasileira e comecei a produzir mudas de espécies nativas. E aí, aos poucos, voltei a publicar, a partir de 93; aos poucos retomando os caminhos, publicando livros pequenos em xerox e reunindo outros antigos em antologias. E gostei de voltar e estou aí pro que der e vier. Conte-nos um pouco sobre seu novo livro, Laranja Seleta.

19.


anu 07 anos

Em 2008, Anu, de Wilmar Silva, completa 7 anos de publicação. A propósito dessa data, 7 fragmentos do poema são aqui reproduzidos (p. 21~27), juntamente com um trecho da resenha publicada por Alécio Cunha no jornal Hoje em Dia, à época do lançamento (p. 20). Além disso, Alécio conversa conosco sobre Anu e crítica literária em geral (p. 28 e 29).

nu”, novo livro do poeta mineiro Wilmar Silva, que está sendo lançado pela Orobó Edições, de Belo Horizonte, marca um salto radical nas experiências lingüísticas do autor, um dos destaques da atual cena poética em Minas e no Brasil. O título da obra poderia ser tolo trocadilho se não ocultasse uma aventura estética de grandes proporções. Podendo significar tanto o despir-se do poeta como o nome de uma ave, a denominação abre espaço para um vôo lírico, dando asas para a materialidade de sua linguagem, conforme os preceitos do lingüista Roman Jakobson, aqui transmutados ao território da palavra. Silva, autor de “Cilada” e “Seiva”, busca aqui a pré-história da palavra, em um permanente jogo de desconstrução vocabular e síntese semântica. À procura da primeira dentição do poema, ele não se importa em corporificar o balbucio, a palavra em formação, o gesto vocabular inaugural. O resultado pode causar estranhamento, dar a impressão de um enigma cifrado, mas o poeta quer mesmo é demonstrar a força da letra, mesmo em um estado morfológico.

“A

As influências de Wilmar Silva passam necessariamente pelas experiências neoconcretistas de Ferreira Gullar, em especial, o final de “Poema Sujo” e as peripécias gráfico-espaciais de “As Formigas”. O aspecto sensorial de seus poemas aproxima-se mais da gramática do neoconcreto. Há uma preocupação com o rigor da palavra, mas não de forma exacerbadamente racional como no concretismo dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, embora sem a existência deste projeto poético não seria possível suas derivações e antíteses. Silva define sua atual produção como “biopoesia”, uma nova definição para o conceito de Mário Faustino de “vida toda linguagem”. Ator, o poeta sempre teve uma grande preocupação com a mescla de linguagens, levando a palavra ao palco e ao vídeo. Com projeto gráfico do poeta e editor Anelito de Oliveira, “Anu” radicaliza as propostas iniciais do autor, sempre preocupado com questões ecológicas e ambientais, sem nunca cair na cilada panfletária pura e simples.

CUNHA, Alécio. Silva define “Anu” como exemplar da “biopoesia”. Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, 23 out. 2001. Caderno Cultura, p.8.

.20


anuéaladoqarvoaervaraiz marsemfimcorpodpázsaro insetaérãjiadbrejalqréptil ervadteuolhardpervérticio anuimalrompdialibelualo irromplísberdalocadotatu rãdivivacrisálidanachuva

.wilmar silva 21.


cornfinsarandisqmebugre eucãosóteubicoqafluiaflar maspercoteubaruilhodave erisónárioédsdiomaviltup érioentrespiantarpássaros bosqddríadesnãoéviveirio primevoiderramezvôoanu

.22


spingáridasouarmasdilha gorjeioésólvergelavesienas relviadsvgstasãocerrânsia violáctilémeuolhardilince terraléteuventremeupúbis carpolodolodaçalhácarpir rêsdividomeandrosdcútez

23.


teiadvlisgoqvistoinvisífero corlheitadgizrãssóiséourio rentefloemaflorsoldcórion vozlúzpiaqchilrasóislume bocamentalínguaqlinflap nisvilcioqânusdcaisracóis outonauparcomerárvorês

.24


letralécãoniçarbagreágua perderteuvôoérisciodvidia sinaurpocanuavdomaulto ainuelrmoeuplanqtoêsódo teualvobrilhantquasejade vsgonessaselviadserrocéus ondeabelhasoutodoeumel

25.


digopiássariomelnoscorvo arblhaqfênixnascioplúmel tezmanrtilhaqgmioaolong nevraljiavéuntoveladsnevo eironenhumcervoeucervau inlisívelpaupirodpazpoula ondmalbemtvinéctariópio

.26


boirboletraqmeucãotoária noiteqíndicodasírisargilha midcornchapérolasímtara euinsômiobeirapáuqpebra sculpidodcílioscarliaterum ébreubrenhabodemáusculo cabraéteucaisbeloervamart

27.


alécio cunha sobre Anu e Crítica Literária

Alécio Cunha, mineiro de Boa Esperança, é jornalista e poeta. Atua na Editoria de Cultura do jornal Hoje em Dia desde 1995. É autor dos livros Lírica Caduca (Por Ora, 1999) e Mínima Memória (Scriptum, 2007), ambos de poesia. Publicou também Mário Mariano, ensaio de crítica de arte sobre o pintor mineiro (V&M do Brasil, 2007). Participou das antologias Cinema em Palavras (CRAV, 1996), O Achamento de Portugal (Anome/Instituto Camões, 2005) e Terças Poéticas - jardins internos (Fundação Clóvis Salgado, 2006). Em junho deste ano, Alécio concedeu uma entrevista por e-mail a Daniel Bilac e Valquíria Rabelo, do jornal A Parada. Nessa conversa, o poeta e jornalista revisita Anu, poema de Wilmar Silva, e, a partir dele, comenta sobre a Crítica Literária em Belo Horizonte e Minas Gerais.

.28

De acordo com suas impressões, como foi a recepção de Anu pela crítica, em 2001? Pelo que pude acompanhar, à época, o livro de Wilmar teve uma repercussão maior nos sítios da Internet do que na mídia impressa. Foi uma maldade, porque se trata de uma obra muito importante no processo evolutivo deste poeta. É sua obra mais experimental até aquele exato instante. E, a partir dela, ele teve que, simplesmente, se reinventar. Que motivos você atribui à forma como ele foi recebido? Creio que houve dificuldade em compreender a proposta do poeta. Foi mais isso, apesar de que sempre há uma dose de má vontade e desinteresse quando o assunto é a poesia.

Hoje, como você acredita que o Anu é recebido, em comparação ao primeiro momento? Não sei se chegou a ocorrer alguma reavaliação, mas tenho a impressão de que o Wilmar é mais valorizado hoje do que há alguns anos. Se o que escrevi ajudou esta avaliação em algum momento, fico feliz, mas o mérito, ressalto, é do poeta, sua obra e, claro, sua perseverança. É bem comum encontrar comentários que dizem respeito da dificuldade de ler Anu. Diante disso, muitos afirmam que é preciso decifrar o poema para que ele seja apreendido. Qual a sua opinião sobre isso? Existem vários níveis de leitura, mas não creio que o Anu seja assim tão difícil. É uma lúdica


fala

pode ter mudado também. Veja só, isto não é um delírio. Todo texto tem a cara que nós damos a ele. Toda vez que se lê o Anu, a gente percebe o trabalho precioso em torno da linguagem, desenvolvido pelo Wilmar. Dá gosto contemplar esta procura incessante. Qual a contribuição da crítica, de um modo geral, para a poesia? E para os poetas? Além disso, que repercussões você observa após a publicação de uma resenha? A importância maior é a do diálogo. O fato de ser poeta auxilia muito nesta interlocução. No meu caso, soa como uma experiência natural. Algumas resenhas minhas têm fragmentos que podem ser lidos, de forma isolada, como um poema. Um poema em cima do poema alheio, da reverberação do outro, simultaneamente espelho e espanto. A repercussão também ocorre de modo natural, sem nenhum tipo de forçação de barra. Para mim, é sempre estimulante escrever sobre poesia. É uma atitude que me retroalimenta.

e deliciosa brincadeira com a linguagem, desconstruindo e reconstruindo as palavras. A sua resenha de 2001 sobre Anu, publicada no caderno de cultura do jornal Hoje em Dia, traz trechos de uma entrevista com o autor, Wilmar Silva. Qual a importância de inserir a fala do poeta na crítica? Quando o poeta tem algo a dizer, além do próprio poema, sua fala pode ser acessória, suplementar. Mas nunca substitui a lavra literária original. Em relação à resenha de 2001, o que você gostaria de acrescentar, ou mesmo de modificar, sete anos depois? Todos nós mudamos. O poeta mudou, o crí tico também. O texto, de alguma maneira,

Como colunista do caderno de cultura do Hoje em Dia, você aborda assuntos diversos, como música, cinema e poesia. Dentro do tema bastante amplo que é a cultura, qual a posição que a poesia ocupa nas mídias voltadas para essa temática e qual a que você gostaria que ocupasse? A poesia é mesmo a “prima pobre”, como afirmam alguns escritores e críticos? Infelizmente, o clichê da prima pobre é real. O motivo maior para o desinteresse é a falta de vontade de aprofundamento em torno do extrato poético. Perceber a poesia é bem mais complexo do que se pensa. Gostaria que a poesia e a literatura em geral tivessem maior espaço. No entanto, o que vejo é a preponderância cada vez maior do entretenimento sobre a reflexão. Isto é empobrecedor e, ao que tudo indica, sem data para acabar...

Anu foi publicado em livro pela editora mineira Orobó. Se tivesse sido publicado por uma editora de maior capacidade de distribuição, você acredita que a recepção pela crítica seria outra? Na sua opinião, a editora que publica o livro contribui para o reconhecimento do texto ou o alcance do poema depende apenas dele mesmo? Se a editora tiver o porte de uma Companhia das Letras e seu poder em relação à grande imprensa, sim. Há uma rede de relacionamentos nem sempre escusos que faz com que certas editoras e autores consigam mais espaço. No mais, os problemas das editoras menores são crônicos, sobretudo no que tange à distribuição. Acredito que os blogs e sites literários são, hoje, uma alternativa aos esquemas editoriais tradicionais. Anu apresenta elementos regionais e interioranos, como o próprio pássaro que dá título ao livro, por exemplo. No entanto, talvez não possa ser encarado como um texto estritamente regionalista. Na sua opinião, como a linguagem e a temática se relacionam nesse caso? Anu é, umbilicalmente, regional e universal. Ao falar da paisagem pobre, de si mesmo e da capacidade de tudo isso se metamorfosear na beleza e riqueza da linguagem, muitas fronteiras são abolidas. Bem diferente do senso comum que cerca a poesia, Anu é, como o próprio Wilmar Silva diz, um não-poema. Apresenta uma linguagem bastante própria e uma proposta visual particularizada, o que acontece também em outras produções contemporâneas. Para você, como esses trabalhos convivem com outras obras da poesia, no seu sentido mais tradicional? O experimental não elimina o tradicional. São dialógicos mesmo quando são antagônicos ou suplementares.

29.


s/ tĂ­tulo leandro figueiredo ĂĄgua-forte, 30 x 40 cm.

.30


.alécio cunha

(20, 28 e 29)

mineiro de boa esperança, é jornalista e poeta. atua na editoria de cultura do hoje em dia. autor do livros mínima memória (scriptum,

.marcos coletta

escritor, graduando em ciência da computação e um apaixonado por livros, filmes e músicas. moryart@pop.com.br

nasceu em belo horizonte, em 1987. é ator e cursa teatro pela ufmg. publica seus rabiscos no blog impressões digitais. impressoesd.blogspot.com

2007), dentre outros.

(5)

.chico loppes

tem 22 anos e é de belo horizonte. integra o conselho editorial do a parada desde 2007, tendo textos publicados nesse jornal e no dezfaces.

.jovino machado

(8 e 9)

nasceu em formiga (mg), em 1963. é autor de balacobaco (1999), fratura exposta (2005), entre outros. jovinomachado@yahoo.com.br

.leandro figueiredo

(2)

natural de belo horizonte, é estudante de graduação em artes visuais pela ufmg e editor do jornal de poesia e literatura a parada. bilac.daniel@yahoo.com.br

.deivid junio

(7)

nasceu em 85. publicações nos jornais a parada e dezfaces e no catálogo terças poéticas. 1º lugar no concurso de poesia rogério salgado/ 2007. deividjunio@gmail.com www.paralelepipedopoema.blogspot.com

.flávia almeida

marcoscoletta@gmail.com

.nicolas behr

(13, 18 e 19)

nasceu em cuiabá, vivendo em brasilia desde 1974. publica seus livros de poesia desde 1977. paubrasilia@paubrasilia.com.br

daviflg@yahoo.com.br

.daniel bilac

(14)

.flávio gonçalves 1

(10)

20 anos, nascida em bh. cursa letras na ufmg e teatro profissional no palácio das artes.

(30)

nascido em sete lagoas (mg), é bacharel em gravura e pintura pela eba (ufmg). atualmente, desenvolve gravuras que têm como temática a figura do boi.

.tá morelo

(6)

estudante na escola guingnard e na faculdade de letras da ufmg (fale). tabatavianna@hotmail.com

le_artes@yahoo.com.br

.luiz edmundo alves

(16 e 17)

já publicou 5 livros de poesia, entre eles fotogramas de agosto (anome, 2005). é videomaker e edita o site de literatura tanto. www.tanto.com.br

.marco anhapoci

(3 e 11)

21 anos, 63 quilos, contém cenas de sexo e violência e não é recomendado para menores de 3 anos por conter peças pequenas que podem ser engolidas.

.valquíria rabelo

(2 e 12)

editora do jornal a parada, ao lado de daniel bilac. estuda comunicação na ufmg e design gráfico na uemg. val.rabelo@gmail.com formalguma.blogger.com.br

.wilmar silva

(21~27)

é autor de yguarani, prelo, cosmorama edições, portugal. curador do projeto terças poéticas. wilmarsilva@wilmarsilva.com.br www.cachaprego.blogspot.com

anhapoci@yahoo.com.br

flaviaskene@gmail.com

____________ 1

flávio gonçalves é integrante do conselho editorial do a parada.

31.


Realizado com os benefĂ­cios da Lei Municipal de Incentivo Ă  Cultura de Belo Horizonte.


Jornal A Parada n.6 - boirboletra