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50 ENTREVISTA

Na pista dos dinossaur A lesson from the dinosaurs

Portugal está entre os dez países com

Some of the dinosaurs were small, but the ones we remember are the largest ones, with a size that nothing seemed to be able to topple. We spoke to Palaeontologist Octávio Mateus, who has made many and varied studies about dinosaurs.

melhores jazidas de fósseis de dinossauros no mundo: quem o afirma é Octávio Mateus, paleontólogo e professor auxiliar da Universidade Nova de Lisboa A conversa decorre no Museu da Lourinhã, no Núcleo de Paleontologia, pelo que, de repente, vê-se um ninho fossilizado com ovos deste predador, encontrado ali perto, em Paimogo. Parece argiloso... A conversa continua: Octávio Mateus — É verdade, é mesmo um ninho de Lourinhanossaurus antunesi. E temos crias, dentro dos ovos. Vê ali um ossinho de embrião? Isto é raríssimo. Na altura em que foram descobertos, estes eram os únicos embriões de dinossauro de toda a Europa. Foram também os mais antigos do mundo, mas entretanto já descobriram outros. Seja como for este é um ninho bastante grande e permite perceber a sua evolução, a sua nidificação, o seu comportamento, etc. É tão raro que no ano em que foi anunciado, em 97, entrou para a lista das cem descobertas mais importantes em todos os domínios da ciência para esse ano. Nestes casos será possível extrair ADN?

Octávio Mateus — Depende da conservação mas diria que sim. É muito difícil extrair ADN com qualidade de um dinossauro com 150 milhões de anos! É preciso que esteja preservado ao detalhe. Em todo o caso, estes ossinhos estão tão bem preservados que até temos células individuais que formam o osso. Está tudo impecável. O osso não está petrificado? Octávio Mateus — Está petrificado mas mesmo assim... sabe que a fossilização ainda não é completamente compreendida. Não se trata de algo que é orgânico e, num estalar de dedos, se transforme em mineral. É gradual e leva seguramente milhões de anos. Nalguns casos até continua a preservar a matéria orgânica original apesar de ter mais de 100 milhões de anos. Nunca o fizemos, mas a julgar pelo aspeto aposto

Simão Mateus

Carla Cerejo | CIID 2002

J

uvenil? Está bem, mas não deixa de intimidar! Mede de comprimento quatro metros e a réplica mexe com os sentidos. Trata-se do esqueleto de uma das várias espécies de dinossauro encontradas apenas na Lourinhã. O réptil tinha uma cabeça grande e andava apoiado nas patas traseiras. O nome, Lourinhanossaurus antunesi, foi dado em homenagem ao paleontólogo Telles Antunes por Octávio Mateus. O investigador elucida com a paixão que nutre desde criança pelo tema: «Era um dinossauro carnívoro e, em adulto, poderia medir nove metros». O que torna ainda mais interessante esta conversa é que o nosso interlocutor descobriu na Lourinhã a capital lusitana dos dinossauros. E, para que não haja dúvida, sublinha que «Portugal, face ao seu tamanho, é talvez o país com mais espécies de dinossauros por metro quadrado! Os cinco países mais destacados neste aspeto são os EUA, a China, o Canadá, a Argentina e a Mongólia. Países gigantescos – a China é cem vezes maior que o nosso país». Bem, contra factos não há argumentos.

Embrião de Lourinhanossaurus

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Ninho de Lourinhanossaurus


MilhĂľes de anos

PerĂ­odo QuaternĂĄrio













Neogeno

TerciĂĄrio

ros lusitanos

Era

0



 

Paleogeno

65

que hå alguma matÊria orgânica ali. Em matÊria de conhecimento científico estamos ainda hoje numa fase de provar o que Ê e o que não Ê matÊria orgânica. Mesmo que consigamos recolher ADN, este Ê uma cadeia complexa e frågil. O måximo que vamos conseguir dizer Ê que usa o mesmo sistema que os outros vertebrados. Isso jå sabemos. É a mesma coisa que termos um livro comido pelos bichos e conseguimos ler umas quantas frases ou palavras. Sim, estå bem, podemos perceber a grafia um bocado diferente, podemos talvez compreender a língua, mas nunca vamos conseguir compreender a prosa. É impossível saber se cuidavam das crias? Octåvio Mateus — Não Ê impossível. Neste caso hå vårias indicaçþes. Temos mais de cem ovos, aposto que eram 150 ovos pelo menos. É muita coisa! Haveria talvez vårias fêmeas a pôr ovos no mesmo ninho, como as avestruzes fazem hoje. Isto Ê possível. Penso que seria difícil os dinossauros não presta-

rem alguma atenção a um ninho destes: era um sítio tão importante! Havia tanto esforço ali, e depois iam deixå-lo à sua sorte? Repare que os crocodilos tambÊm cuidam do ninho e das crias. Outra curiosidade: no meio de cem ovos de dinossauro havia três ovos diferentes, distintos, bem mais pequenos, com um terço do volume e uma casca mais fina. A estrutura era diferente: parecem ser ovos de crocodilo. O que fazem estes ovos de crocodilo no meio de cem ovos de dinossauro? Para jå, Ê difícil que seja coincidência. São os mais antigos ovos de crocodilo de todo o mundo! Isso Ê um parasitismo de nidificação tipo‌ O do cuco? Octåvio Mateus — A cria de cuco lança fora os ovos da ave hospedeira e esta começa a alimentå-la apenas a ela. Estes crocodilos dificilmente conseguiriam fazer algo idêntico. Os ovos destes dinossauros eram três vezes maiores... O que parece acontecer Ê um comensalismo em

CretĂĄceo



144 















JurĂĄssico

206

TriĂĄssico 250

PĂŠrmico 290

CarbonĂ­fero

360

DevĂłnico 410













SilĂşrico



440

OrdovĂ­cico

510

Câmbrico Lourinhanossaurus antunesi, um carnívoro bípede

570 

Extinçþes massivas


















SO supercontinente Pangea no Jurássico já se tinha separado e o território português atual estaria na posição assinalada no mapa com um círculo, próximo dos atuais Canadá e EUA

que o crocodilo punha os ovos no ninho deste dinossauro – na minha opinião devia ser o sítio mais bem guardado à face da Terra. Quem se atreveria a mexer num ninho de dinossauros carnívoros daquele tamanho? Beneficiavam assim dessa proteção. Podemos pensar que este pensamento é rocambolesco, que é difícil de ocorrer, mas hoje há tartarugas que põem ovos em ninhos de crocodilo! Beneficiam da sua proteção. Esse comportamento existe. Ora se isto estiver correto só faz sentido se houver cuidados parentais. É curioso que este Lourinhanossaurus foi o primeiro dinossauro a que dei nome científico. Os fósseis de dinossauros do nosso país não são as mesmas espécies que se divulga na televisão a partir do património paleontológico dos EUA? Octávio Mateus — É fauna muito parecida com a dos EUA. A nível genérico é idêntica, a nível específico é diferente. A réplica do esqueleto que está à entrada desta secção do museu é do Miragaia longicollum. Não tem nada a ver com Miragaia no Porto, mas tem a ver com a aldeia de Miragaia na Lourinhã. Além disso, mira vem de mirabilis, maravilhoso, e gaia equivale a deusa da Terra. Portanto, “maravilhosa deusa da Terra”; longicollum, pescoço comprido. Nós descobrimos toda a parte da frente deste dinossauro e o original está aqui. Estes são os ossos originais com 150 milhões de anos! Uma das coisas impressionantes nesta descoberta é a sua anatomia: repare que os estegossauros – isto é um tipo de estegossauro – nos EUA tinham placas muito grandes e um pescoço curto. O nosso tem placas pequenas e um pescoço muito longo. Tem 17 vértebras cervicais, o que dá dez a mais que uma girafa. Os estegossauros tinham 9 e este tinha 17. Estão em circulação miniaturas feitas pelo

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Octávio Mateus explica X as diferenças entre o dinossauro lusitano Miragaia longicollum e os estegossauros da América do Norte

Carnegie Museum, nos EUA, famoso pelo rigor das miniaturas que fazem para as crianças: há dois bonecos diferentes cujo original se encontra neste museu e está já a ser comercializado para todo o mundo. Se se quisesse promover Portugal desta forma quanto custaria fazer isso? É o valor que temos em património. Por exemplo, a Discovery fez o ano passado um documentário só sobre os dinossauros na Lourinhã. Já passou nos EUA. Quanto nos custaria produzir isso? E é resultado direto desta pesquisa científica... Octávio Mateus — Sim, por vezes as pessoas perguntam que utilidade tem esta investigação, a própria ciência – é a mesma utilidade de um recém-nascido. Que utilidade tem? Pode vir com um potencial gigantesco. Um recém-nascido pode ser o próximo Mozart, o próximo Newton ou Einstein... Não sabemos. A ciência é a mesma coisa. Os dados que recolhemos agora podem revelar-se de grande interesse no futuro. Já se sabe que a Lourinhã centraliza muitas novidades fósseis de dinossauros, não é? Octávio Mateus — É verdade, e isso ocorre por várias razões. Realmente havia cá muitos dinossauros mas

aqui também existem os terrenos certos, na idade certa, com os ambientes certos. Noutros sítios, na mesma altura era mar – os dinossauros não eram marinhos. No Jurássico aqui havia um sítio com muita água, vegetação luxuriante, muitos rios, era um sítio onde os dinossauros facilmente podiam viver. Basicamente, temos um ecossistema muito rico com herbívoros e carnívoros. A biodiversidade cria recursos e o padrão repete-se na época dos dinossauros. Aliás, estamos na Década da Biodiversidade... Octávio Mateus — Isto mostra a grande paleodiversidade de Portugal. Embora haja muito trabalho pela frente, temos duas dúzias de espécies. Por exemplo, não tão conhecido como outros dinossauros, temos aqui no museu o Draconyx loureiroi. É uma espécie única, um holótipo. Trata-se de um espécime de referência para se classificar uma espécie. Sabe que sempre que surge uma nova espécie temos de ter o exemplar de referência. No fundo é o padrão perante o qual todos os outros são comparáveis. Neste museu temos cinco padrões. Veja: o Dinheirossaurus lourinhanensis, Miragaia longicollum, Draconyx loureiroi, Lourinhanossaurus antunesi e o Allosaurus europaeus. Todos eles batizados por mim, são parte do património


SAllosaurus fragilis

SPegada fóssil de dinossauro com escamas perfeitamente definidas: uma impressão digital

português e é impressionante como um museu de pequena dimensão como o da Lourinhã tem este número de holótipos. Soubemos também que descobriu o primeiro fóssil de dinossauro de Angola e da Bulgária... Octávio Mateus — Angola é um terreno espetacular. Está no começo. Um paleontólogo deve ter uma costela de engenharia mecânica? É que a partir de uma vértebra vir a alcançar uma boa parte de um esqueleto de dinossauro... Octávio Mateus — É preciso realizar muita anatomia comparada. Um dos dinossauros tem um nome estranho: Dinheirossaurus... Octávio Mateus — Tem este nome bizarro porque foi descoberto na praia de Porto Dinheiro nos anos 80 e início de 90. Em termos de grandes escavações de dinossauros foi das minhas primeiras. Bons tempos. Este dinossauro tinha 25 metros de comprimento e foi uma nova espécie para a ciência. Conseguimos saber que o corpo era, em grande parte, constituído por sacos de ar. Eles eram ocos! As vértebras tinham buracos onde entravam literalmente sacos de ar, o que os tornava relativamente leves para o tamanho que tinham.

Continuavam a ter toneladas de peso, é claro, mas para o volume enorme dos seus corpos eram mais leves do que seria de esperar. Isso permitia-lhes ter um grande tamanho sem terem de investir em matéria orgânica, osso, músculo, etc. Ossos ocos como os das aves? Octávio Mateus — Exato. Na verdade as aves descendem de dinossauros que tinham estas estruturas. Esse pormenor permitiu duas coisas: uma, serem mais leves para poderem voar; depois, os sacos de ar estão ligados à respiração. Enquanto o nosso sistema respiratório é simples, inspiramos e expiramos, as aves inspiram para dentro desses sacos de ar, o ar passa então pelos pulmões e só depois é expelido. Isso permite às aves ter uma respiração de longe mais eficaz que a nossa. Outro detalhe: estes dinossauros não tinham molares, não conseguiam mastigar. O que faziam é o que as aves fazem hoje. Engolem areia para a moela esmagar os alimentos. Eles também comiam areia, só que em tamanho dinossáurico! Os gastrólitos que eles ingeriam serviam para esmagar os alimentos e encontramo-los hoje fossilizados. Além do Allosaurus europaeus, em Portugal há outros fósseis de grandes predadores?

Octávio Mateus — Não havia maior que o Torvosaurus tanneri. Toda a gente pensa que é o Tyrannosaurus rex. Ele tem essa dimensão, toda a estrutura é de T. rex – só que este fóssil é do Jurássico superior e o T. rex é do Cretáceo superior. Pensará que é tudo a mesma coisa, mas não é assim. Quando o primeiro T. rex apareceu já este era fóssil há 80 milhões de anos. Veja que é maior a distância de tempo deste para o T. rex do que do T. rex para nós. Impressionante! Era o maior predador terrestre do Jurássico. Como distingue um e outro? Octávio Mateus — Entre outras coisas, o T. rex possui dentes mais adaptados para cortar, enquanto o Torvosaurus tinha dentes mais adaptados para esmagar. Em Portugal, as espécies de dinossauro descobertas já passaram as duas dúzias e recordam que a vida na Terra, por maior que seja o domínio que algum ser aparente ter, é sempre frágil e pode sucumbir perante perdas de biodiversidade.

Texto Jorge Gomes Fotos João L. Teixeira

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Na pista dos dinossauros lusitanos