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Mata do

adernal único na Europa

Bussaco report The woods of the Bussaco Forest bring together Biodiversity and Historic Buildings, among other points of interest. It has 105 hectares with an altitude ranging from 100 to 500 metres. Under the canopy of hundreds of plant species, water flows everywhere. This forest joins together a special heritage of historical, religious, military, nature, landscaping, architectural and cultural significance.

Na parte Noroeste da serra do Bussaco, entre Coimbra e o Caramulo, contam-se 105 hectares de mata dispostos sensivelmente entre os cem e os 500 metros de altitude: memorial de antigos monges, militares e poetas, hoje marca diferença pela sua biodiversidade em várias unidades de paisagem — a floresta-relíquia, o arboreto, os jardins e o vale dos fetos...

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U

m ácer cobre o trilho atapetado de folhas amareladas, encharcadas ainda de uma chuva recente. Estamos no arboreto da mata. Milene Matos, investigadora do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro em serviço na mata do Bussaco, acompanha-nos e acentua: «Esta mata marca a primeira descrição da salamandralusitânica para a ciência». Refere-se a um anfíbio que, em todo o mundo, existe apenas no Noroeste da Península Ibérica. Em 1864, Bocage foi o cientista que lhe deu o nome pelo qual é hoje conhecida, Chioglossa lusitanica. Longe de ser caso único entre endemismos


Joaquim Pedro Ferreira

Também no trilho religioso a biodiversidade domina

Salamandra-lusitânica

Cogumelo Xylaria hypoxylon

ibéricos aqui presentes, juntam-se-lhe outros mais habituais. É o caso do tritãode-ventre-laranja, da rã-ibérica ou do lagarto-de-água. Esta manhã não é a altura adequada para estas pérolas de biodiversidade se mostrarem, mas «de noite, abundam pelo trilho, e temos de ter cuidado para não as calcar». A caminhada não quer despacho no bosque luxuriante. É tempo de olhar os raios de sol que conseguem fugir ao bloqueio da folhagem densa do arvoredo que se atira ao céu e cria um ar tépido onde a humidade brilha por toda a parte. Nota-se uma vegetação de transição, onde predominam espécies mediterrânicas, ainda

Milene Matos, bióloga

com lugar para o carvalho-alvarinho e o azevinho. O folhado, Viburnum tinus, a uva-de-cão, Tamus communis, a salsaparrilha-bastarda, Smilax aspera, os medronheiros e os muitos adernos antigos, Phillyrea latifolia, coexistem sem guerra maior pela luz, cada um no seu nicho climácico. Estes últimos estão distribuídos pela encosta Sudoeste da mata, onde se centra o domínio da floresta-relíquia. No clímax da sucessão ecológica, este bosque mediterrânico dá uma ideia de como seria o relevo antes da transformação operada pelo ser humano. Hoje, sob o cuidado do projeto Bright,

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O Vale dos Fetos está a ser reabilitado e apresenta alguns exemplares arbóreos da espécie Dicksonia antarctica

incluído no programa LIFE/Natureza e Biodiversidade, empreende-se «a conservação das áreas de adernal, habitat que em toda a Europa apenas se conhece na Mata Nacional do Bussaco». Não há pressa pelo caminho. Uma pedra na berma segue o exemplo geral. Cobre-se de camadas de musgo, sob as folhas redondas dos umbigos-de-vénus, as folhas penteadas dos fetos, hospedando pequenos cogumelos e sabe-se lá que mais — nem uma nesga da rocha se avista! Adiante uma placa explica o bosque e a poucos metros um dos adernos exibe um tronco ainda mais largo do que o dos arbustos vizinhos. Retorce-se num voltear oblíquo, tão caprichoso que não se consegue ignorar. Fica a ideia de muita idade. Quantos anos poderá ter esta planta de porte arbóreo? Milene Matos fixa os olhos claros no colosso e estima: «Talvez uns 400 anos...». Outra dúvida se impõe — terá sido esta a parte da mata que despoletou do Nobel português da literatura, José Saramago, o breve dizer «Mata do Buçaco, não se descreve, o melhor é perdernos nela»? Para se perceber este património luso multifacetado, estão em curso medidas de conservação, abrigando algumas delas a participação de voluntariado.

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Um dos exemplos decorre do controlo e erradicação de espécies invasoras, que podem deitar a perder o oásis de biodiversidade que é o Bussaco, agora cercado de pobres florestas exóticas: «Gostamos de envolver vários públicos, desde visitantes, residentes e entidades públicas e privadas», introduzindo-os, explica Milene Matos, «em atividades práticas de conservação, nomeadamente no combate controlado de espécies vegetais invasoras ou na recolha e propagação de sementes». Entre as plantas invasoras contam-se sobretudo duas acácias australianas, a tradescância sul-americana e o louro-cerejo, curiosamente este último «disseminado em boa escala por fuinhas»... Na mata há viveiros cujo produto é replantado para reabilitar os bosques autóctones onde se evidencie maior vulnerabilidade. Cheio de história, «os primeiros registos sobre o Bussaco remontam ao século II», diz Milene Matos. «Poderia ainda não haver ocupação humana nessa época e teria servido de refúgio a cristãos em fuga». No século XVII, «a mata foi procurada pela ordem dos Carmelitas Descalços com a ideia de estabelecerem o seu deserto», um espaço distante do mundanismo, centrado na busca de Deus e da natureza. «Construíram o convento de Santa Cruz» e foi graças ao seu domínio que os adernos antigos

não desapareceram: impedia a população de obter lenha nesta mata. O fervor religioso recriou o percurso da via-sacra, à escala real do que aconteceu em Jerusalém, um dos trilhos ainda existentes, palmilhado em pleno bosque. Os monges plantaram um cipreste oriundo da América Central, o chamado cipreste-do-bussaco, Cupressus lusitanica, a árvore exótica que domina o arboreto: «Era semelhante a um cipreste do Líbano, presente na Terra Santa». A restante vegetação exótica foi introduzida na mata «pelos antigos serviços florestais, a partir de 1856. Hoje contam-se 257 espécies lenhosas». As características climáticas, geológicas e a vegetação luxuriante são amigas da água. Na verdade, funciona como uma gigantesca esponja, com ecossistemas que purificam a água e a conservam, soltando-a em fontes e linhas de água que se ouvem no trilho. Escondidos de olhares pouco especializados, bordalos, Squalius alburnoides, e ruivacos, Achondrostoma oligolepis, são pequenos peixes ameaçados de extinção que dão por ali à barbatana. Pelo bosque voam, furtivos, gaviões e açores. Acautelem-se esquilos e pássaros com estes guardiões do bosque. A noite é das corujas e das ginetas, das raposas e dos javalis, neste oásis de biodiversidade, cheio


S Folhado, uma planta mediterrânica Arquivo FMB

S O bosque retém a água por toda a parte, nos lençóis freáticos e à superfície, em sintonia com a Década da Biodiversidade

de espécies protegidas por legislação nacional e internacional. A mata pode também ser percorrida por mais dois trilhos, o da água e o militar, este último ligado às Invasões Francesas de 1810. A velha oliveira, chantada no meio da estrada, é intocável. Corre a lenda que o duque de Wellington, comandante aliado das tropas luso-inglesas, ali terá atado o seu cavalo. Na mata do Bussaco, em cada estação do ano, os ritmos renovam-se numa paleta de matizes próprios com o condão de perdurar e, mesmo que se mudem os tempos e as vontades, quando ali passear não tenha pressa, apure o ouvido, o olfato, e observe para além dos limites da luz: perceberá por que faz sentido ali ir e, mais tarde, voltar.

Texto Jorge Gomes Fotos João L. Teixeira S A multiplicação de acácias leva à perda de muitas espécies nativas: uma equipa de voluntários trata de controlar as invasoras

* Optou-se pela grafia antiga de Bussaco.

T Convento de Santa Cruz do Bussaco – o remanescente na zona à direita

Mata do Bussaco Fundação Mata do Bussaco Mata do Bussaco 3050-261 Luso Telefone 231937000 Correio eletrónico gabpresidencia@fmb.pt www.fmb.pt

40º 33’N e 8º 28’W

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