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REVISTA GRATUITA DE MODA E CULTURA URBANA. PARQ. NÚMERO 10. MARÇO 2009. www.parqmag.com

MARK WAGNER JACINTO LUCAS PIRES WATCHMEN


Real People especial porto

Director Francisco Vaz Fernandes francisco@parqmag.com

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editora

Coqluxe

por Francisco Vaz Fernandes

Carla Isidoro carla@parqmag.com

Valdemar Lamego valdemar@parqmag.com

Mário Nascimento mario@parqmag.com

tradução Roger Winstanley roger@parqmag.com

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por Pedro Pinto

mark wagner

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José cardoso por Júlio Dolbeth

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publicidade

You must shopping

Francisco Vaz Fernandes francisco@parqmag.com Cláudia Santos claudia@parqmag.com

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PARQ Número 10 Março 2009

PARQ. NÚMERO 10. MARÇO 2009. REVISTA GRATUITA DE MODA E CULTURA URBANA.

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REVISTA GRATUITA DE MODA E CULTURA URBANA. PARQ. NÚMERO 10. MARÇO 2009. www.parqmag.com

periocidade

textos

Mensal

Bruno pires Carla Carbone cristina parga Cláudia Matos Silva eliana silva flávia santos joão telmo dias john almeida Josine Crispim júlio dolbeth luísa ribas manuel teixeira mário freitas miguel fernandes nuno sousa pedro pinto Roger Winstanley Rui Miguel Abreu Sofia Saunders

Depósito legal

© 2009 adidas AG. adidas, the Trefoil, and the 3-Stripes mark are registered trademarks of the adidas Group.

272758/08 Registo ERC 125392

Edição

adidas.com/originals

MARK WAGNER JACINTO LUCAS PIRES WATCHMEN

parq91here

por Francisco Vaz Fernandes

viewpoint

Conforto Moderno Uni, Lda. número de contribuinte: 508 399 289 PARQ Rua Quirino da Fonseca, 25 – 2ºesq. 1000-251 Lisboa 00351.218 473 379

Impressão BeProfit / SOGAPAL Rua Mário Castelhano · Queluz de Baixo 2730-120 Barcarena 20.000 exemplares

distribuição

fotos

Conforto Moderno Uni, Lda.

ana pereira joão braz Mário príncipe pedro janeiro pedro matos pedro pacheco ricardo quaresma vieira

A reprodução de todo o material é expressamente proibida sem a permissão da Parq.Todos os direitos reservados. Copyright © 2008 Parq. Assinatura anual 15€.

editorial

Mudar

Enquanto lia a entrevista de Jacinto Lucas Pires e me entretinha com todo o simbolismo de uma avalanche de gente a assobiar no Terreiro do Paço (apelo colectivo a uma mudança na sociedade portuguesa), apercebia-me como toda uma geração foi privada de heróis românticos. Mesmo a Revolução do 25 de Abril, que não ocorreu há tanto tempo, representa muito pouco para as novas gerações para que seja um exemplo de conduta moral. Extraordinariamente, há toda uma sociedade não soube capitalizar a dose de idealismo que precisamos. Pelo contrário, o dinheiro fácil da Comunidade Europeia trouxe ao de cima o oportunismo e corrupção que chega hoje até nós. Temo que este novo proteccionismo do Estado não nos possa salvar do egoísmo quando a sobrevivência individual e de grupos é posta em causa. Uma nova sociedade mais moralizada só poderá nascer de um tecido criativo e inovador, sem que antes se prepare terreno fértil para germinar. Criar uma estrutura de oportunidades não implica excesso de dirigismo nem de espírito messiânico cheio de promessas de salvação. Exige um exercício de confiança nas novas gerações, no espírito crítico, na criatividade que permitam restaurar aos portugueses uma visão moralizada do futuro partindo do dado essencial de que tudo será diferente. Ficará melhor preparado quem antecipar o novo paradigma não sacrificando o futuro à demagogia do presente. O tempo já melhorou. Não se esqueça de levar a PARQ para uma zona verde e subir a uma árvore para mudar de perspectivas. É apenas um começo.

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por John Almeida

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por Pedro Pacheco

i feel like dancing

andré cepeda

Trendscout

Deserto Rosso

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fua

Direcção de arte

Moda 72

aquaparque por Nuno Sousa

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b-fachada

por Miguel Fernandes

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makongo

por Rui Miguel Abreu

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lenine

por Cristina Parga

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Viewpoint mark wagner

por Ricardo Quaresma Vieira

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murmur + machado joalheiro places

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james martin + águas gourmet + tay tea gourmet

english version 96

lenine

by Cristina Parga (english version by Roger Winstanley)

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jacinto lucas pires by Carla Isidoro (english version by Roger Winstanley)

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watchmen

by Mário Freitas (english version by Roger Winstanley)

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johan creten

by Francisco Vaz Fernandes (english version by Roger Winstanley)

dia positivo 99

um prepúcio na escuridão Crónica de Cláudia Matos Silva ilustrado por Vanessa Teodoro

por Francisco Vaz Fernandes

central parq 50 Jacinto lucas pires por Carla Isidoro

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werner herzog por João Telmo Dias

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watchmen por Mário Freitas

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Sandra Barata Belo & Pedro lima por Carla Isidoro

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www.parqmag.com

por Francisco Vaz Fernandes

capa

styling

fotografia: pedro matos styling: Conforto moderno make-up: vera pimentão Sandra Barata Belo veste vestido Storytailors Atelier, brincos Chaumet.

Conforto Moderno Helga Carvalho

Agradecimentos ao Fontana Park Hotel www.fontanaparkhotel.com

ilustração

dima loginoff por Carla Carbone

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johan creten

por Francisco Vaz Fernandes

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transmediale 09 por Luísa Ribas

vanessa teodoro

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shop diesel.com


texto: Francisco Vaz Fernandes / fotografia: Ana Pereira

al eci E s p r to po

Os sapatos CoqLuxe são a paixão das irmãs Sar a Rocha & Inês Gonçalves. Enquanto estudantes aventuraram-se a criar sapatos de luxo para clientes exigentes. Pretendem almejar a alta-costura e têm um ateliê e espaço de atendimento na Casa do Almada, no centro do Porto. A tradição foi importante quando começaram as criações numa perspectiva de negócio? A tradição deu origem ao nome da marca: coq vem de galo (de Barcelos), luxe de luxo, exclusivo. A junção destas palavras cria por si a palavra CoqLuxe, que significa artigo português de luxo, algo único e especial. Fomos inspiradas pela tradição quando criámos o logótipo da marca, bordado em ponto de cruz. A nossa vontade de fazer sapatos é ajudada pelo facto de estarmos num país com forte tradição e capacidades para a produção do calçado. Daí que a CoqLuxe nasça da possibilidade de aliar as nossas capacidades enquanto designers à capacidade produtora de calçado do nosso país.

Quando criaram a empresa pensavam chegar tão longe? Quais foram as etapas que definiram e quais as que procuram vencer? A boa evolução da marca possibilitou que valesse a pena dedicarmo-nos integralmente à CoqLuxe. Já atingimos algumas etapas que nos parecem importantes: desfile próprio da marca, media, comercialização eficaz, qualidade do produto, identidade reconhecida, internacionalização, mas pretendemos chegar mais longe e criar novas etapas.

Quem é que gostavam de calçar? A fã nº1 da CoqLuxe... a nossa mãe linda! O quotidiano do Porto marca as vossas criações? De que forma? Sem dúvida! A cidade exerce sobre nós uma grande influência, desde as pessoas à arquitectura, o temperamento, a gastronomia (temos a Coq-au-vin collection). No entanto, quando criamos uma colecção pensamos num contexto mais global e na forma de transmitir os valores portugueses ao Mundo.

www.coqluxe.com

REal PEople

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shop diesel.com


texto: john almeida / fotografia: Ana Pereira

al eci E s p r to po

A lovers&lollypops surgiu há quatro anos atacando a cena musical no norte do país como editora, distribuidora de discos, promotora de concertos e festas. Conversámos com o seu impulsionador, Fua, e ficámos a conhecer melhor uma das pessoas que fez do Porto o centro cultural e artístico mais interessante de Portugal. Como descreverias o que fazes? Amor constante e incompleto. Houve algum momento decisivo para ti , em relação àquilo a que te irias dedicar? Já desde os tempos do secundário que organizava concertos e dedicava o meu tempo a uma fanzine chamada "Imolação da Mente", dedicada às sonoridades mais extremas. Mas o ponto decisivo foi ter visto o concerto de Lightning Bolt em Barcelona em 2004. Senti uma tremenda energia positiva nesse concerto e quis trazer um pouco desse encanto para Portugal. Na música , em Portugal, quais são as maiores vantagens e desvantagens , seja para músicos ou organizadores? Há imensas vantagens e muitas mais desvantagens. A maior vantagem é conhecer pessoas incríveis, autênticas lições de vida andantes. A maior desvantagem será o pouco tempo disponível para outras coisas que não a música.

Como vês o futuro para ti e para a lovers&lollypops? O futuro é incerto mas espero estar daqui a 30/40/50 anos com a Lovers&Lollypops a editar e a promover bandas e projectos que realmente gosto. Tens outra ocupação que não esteja relacionada com a música? Neste momento não. O meu escape passa pela literatura e pelo cinema. Actualmente não me vejo a fazer nada para além disto. A minha formação académica passa pelo vídeo e é algo que tenho vindo lentamente a recuperar, mas sempre com a música como pano de fundo. Fala-se muito de crise. Como é que ela tem afectado a música , as festas , etc? Até agora não tenho sofrido com esta crise evidente em todos os restantes sectores. Se uma banda tem uma pequena base de culto, ela terá sempre público. Se calhar sente‑se mais na venda de bebidas dos bares onde promovo os concertos do que propriamente no público que vai aos concertos.

Faz-nos o teu TOP 10: coisas preferidas , música , tv , qualquer coisa … Catarina Pinto Simpsons Julien Cope MC5 - Kick Out the Jams Sun Ra - Calling Planet Earth Youtube Barcelona Fellini Salvador do Campo Stooges - Raw Power (Ron Asheton RIP) Acho que amanhã faria uma lista totalmente diferente.

www.myspace.com/loversandlollypops

REal PEople

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texto: Francisco vaz fernandes / fotografia: ana pereira

al eci E s p r to po

É limitativo dizer que André Cepeda é um fotógrafo. Os seus interesses vagueiam, como as suas imagens, pelo jazz e pelo vintage, sem nunca encontrarem um porto seguro. As tuas fotografias não se prendem a temas e parecem chegar de várias proveniências. Como te surge essa disposição para fotografar e em que momento? Fotografar faz parte do meu dia-a-dia e da minha vida. É natural que se sinta nas imagens coisas muito diferentes. Tem a ver com a minha própria evolução, mas não é algo que eu controle. Enquadras-te em algum género fotográfico ou sentes pertencer a uma certa tradição fotográfica? Como convives com os géneros? Nunca tinha pensado nas coisas assim. Aquilo que de facto procuro é encontrar novas formas de olhar para a realidade que me é apresentada, tentar evoluir, construir a minha própria linguagem. As minhas influências não vêm só da fotografia, mas da música e literatura, do cinema, culinária... Mas não tens um fotógrafo de referência? Robert Frank, é o fotógrafo que me acompanha desde sempre.

O que te faz pensar teres conseguido um conjunto interessante de fotografias e expô-las? Como se faz o processo de selecção? Quando começo um projecto nunca sei quando ele vai acabar. Pode demorar um ano ou mais. Naturalmente vai haver um dia em que diga “acho que já chega!” E isso acontece muitas vezes quando estou a seleccionar ou a imprimir o trabalho. O processo de selecção é muito interessante e dos mais difíceis. Vejo as coisas como na montagem de um filme, mas de uma forma mais abstracta. Costuma ser um processo demorado e é quando vejo o que estive a fazer e percebo o que as imagens representam para mim.

Como te sentes ao passar para a frente da câmara , neste caso , a da Ana Pereira? Um retrato é também um auto-retrato.

As tuas fotografias têm sempre um certo lirismo e melancolia. Consegues dar uma explicação? Sad is good.

www.AndreCepeda.com

Fotografar é sempre um exercício estimulante? Fotografar faz parte da minha vida há muitos anos, tornou-se uma necessidade ou até mais do que isso. É a minha profissão e à qual me dedico todos os dias. A primeira coisa que faço quando acordo é ver a luz que está na janela.

André Cepeda expõem na Galeria Pedro Cera até 11 de Abril.

www.PedroCera.com

+info em www.parqmag.com/blog

REal PEople

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texto: pedro pinto / fotografia: ana pereira

al eci E s p r to po

Quem conhece Lizá R amalho & Artur Rebelo —os dois érres de R 2— sabe que a devoção do casal ao seu projecto tem-lhes trazido muitos prémios. Algumas pessoas vêem nele o rosto do design gráfico português. Sabendo que são um casal, gostava de saber se o facto de passarem muitas horas juntos prejudica o processo criativo ou , pelo contrário , é uma vantagem? As ideias não escolhem locais nem horas para aparecerem, logo é uma vantagem discuti‑las quando surgem. É com base nesse diálogo que construímos os projectos. Temos um entendimento profundo que advém também do facto de sermos um casal. É prático! Muitas viagens de carro e alguns pequenos-almoços têm se revelado extremamente produtivos. Nota-se em todo o vosso trabalho um cuidado especial na tipografia e uma vertente mais plástica no tratamento das imagens. Trata-se da conjugação das vossas "especialidades" ou é algo comum aos dois? Ambos gostamos de imagem e tipografia. O contributo que cada um dá é difícil de separar porque trabalhamos juntos nos projectos. Tanto a racionalidade e o sistema, como a materialidade e a plasticidade interessam-nos. As especificidades do projecto é que determinam a abordagem.

A vossa carteira de clientes está claramente virada para áreas da cultura como teatro , arquitectura , fotografia. É algo pelo qual batalharam ou simplesmente obra do acaso? Sempre nos interessámos pela cultura. Gostamos muito de arquitectura, design, fotografia, cinema, literatura, arte... por isso sempre fez sentido trabalhar esta área. Voltando ao ponto de serem um casal: quando saem do escritório obrigam‑se a não falar de trabalho ou é algo do qual não se conseguem distanciar e assumem-no com naturalidade? Fora do escritório só falamos do que gostamos, das ideias. Essa parte do trabalho é um prazer, adoramos o que fazemos, em particular o desenvolvimento do conceito e a experimentação. Existe uma vertente de jogo, desafio e descoberta que nos diverte.

Os prémios que têm recebido ao longo destes anos , tanto cá dentro como a nível internacional, fazem-vos relaxar ou querer mais e procurar novos caminhos? Os maiores críticos do nosso trabalho somos nós próprios, queremos sempre ir mais longe. Os prémios são o reconhecimento do que já está feito, quando acontecem já estamos no projecto seguinte. Esta pergunta é "completamente imparcial". O Porto é uma cidade óptima para se viver e fazer design , não é? É uma cidade calma, com uma escala simpática, onde criamos raiz. Uma cidade com uma paisagem gráfica interessante que teve ao longo da história recente figuras incríveis. O Porto tem muito potencial desaproveitado, mas há muitas pessoas a trabalhar para inverter esta situação.

www.R2Design.pt

+info em www.parqmag.com/blog

REal PEople

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texto: júlio dolbeth / fotografia: Ana Pereira

al eci E s p r to po

Licenciou-se em Design de Comunicação nas Belas Artes da Universidade do Porto mas o curso não teve grande influência no seu trajecto de ilustrador. Vêse mais como um auto-didacta. Fomos conhecer um dos ilustradores da face artística da cidade Invicta. O teu trabalho reflete um rigor e uma obsessão pelo detalhe , onde o processo é assumido também como efeito narrativo. Estou longe da verdade? Esta obsessão pelo detalhe começou a fazer parte dos trabalhos quase como uma maldição! Já não consigo fazer um desenho que não seja obrigatoriamente rico em detalhe. É impossível evitar: o pormenor nos desenhos manuais veio para ficar, para bem de uma identidade estável. Mesmo os trabalhos mais minimais exigem um grande investimento, de tal forma que muitos deles apenas fazem sentido pela complexidade da trama ou do padrão. Nas tuas ilustrações hápersonagens por vezes recorrentes. Surgem de forma inesperada ou tens uma explicação cósmica? Pertencem a um arquivo que pode ser visitado conforme a situação a ser ilustrada. Antes da ilustração existe uma espécie de "casting" onde as personagens mais adequadas podem ser seleccionadas. Se cada uma tiver as suas próprias qualidades então parece-me uma boa estratégia a ideia de construir uma equipa.

No teu trabalho sente-se uma oscilação entre duas expressões demarcadas: o desenho vectorial, onde exploras a síntese , e o desenho manual onde predomina o detalhe. Estás à procura ou já encontraste uma expressão visual? Vou tentando experimentar o máximo possível, quer numa quer noutra vertente, e espero ter oportunidade de continuar a explorar outros campos. Quando chego a um resultado que me satisfaz, então é altura de divulgá-lo. É o mais importante, conseguir manter a mesma identidade. Muitas vezes é difícil explorar a síntese nos desenhos manuais e o detalhe nos desenhos vectoriais. Tenho muito medo de arriscar e quando chego ao tal ponto satisfatório do processo de experimentação prefiro deixar o trabalho aí do que pô-lo em risco. Por isso é que vou começando outros projectos dos quais fazem parte a colagem digital, o tricot e a costura! Qual é o protagonismo da máscara nos teus desenhos? A máscara permite uma adaptação rápida a certa situação, como uma camuflagem que deixa a personagem pertencer e actuar em diversos contextos sem ter que sacrificar a sua identidade. Nos desenhos é frequente a máscara assumir o papel de personagem. Qual seria o teu emprego ideal? Trabalhar exclusivamente no Salão Cóbói, um atelier de design que ainda está para nascer e que é constituído pelo Apolinário, pela Inês Ferreira e por mim.

Qual foi o teu trabalho mais bem sucedido? Não sei... poderia dar muitos exemplos mas, para dizer a verdade, tenho andado entusiasmado com umas experiências relacionadas com o tropicalismo de Gauguin. São umas montagens que misturam imagens de paraísos tropicais com desenho vectorial. Acho que ainda precisam de muito trabalho mas os testes que já fiz correram bastante bem. O que mais me agrada neste work in progress é o facto de ainda ser um projecto muito verde. As possibilidades de evolução são imensas. Se tivesses que escolher uma equipa de sonho para um trabalho a uma escala mundial, a quem recorrias? Aos Flaming Lips com o Salão Cóbói a fazer uma Magical Mystery Tour inter-continental. Por vezes vemos listas nas tuas exposições , de personagens , de espécies , de géneros. Faz-nos uma lista de 10 coisas/pensamentos/pessoas. Pandora Complexa Imprensa Canalha New Weird America Fear and Loathing in Hawaii Mark Dion Billy Wilder Coca-Cola Nascar 007 Live and Let Die Macaulay Culkin

+info em www.parqmag.com/blog

REal PEople

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Pe

Grey City

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texto: carla isidoro

Jesus Never Fails A colecção de fotos que António Júlio Duarte tirou em Goa leva-nos a um lugar desconhecido. Esta Goa, afinal, não é a cidade da língua portuguesa gravada nas memórias dos lugares, dos resquícios culturais e da arquitectura colonial. António Júlio Duarte registou estados de estagnação, inércia e resídio que contrastam com a exuberância vegetal, a abundância das cores e os pequenos ritmos quotidianos. As pessoas confundem-se com o lugar e o lugar respira por si próprio através das manifestações da natureza, da acumulação do tempo que passa devagar, de uma história quotidiana que não se renova. Apoiado pela Fundação Oriente para desenvolver esta pesquisa fotográfica, o autor apresenta-nos um retrato social onde não sabemos encaixar-nos. Ruas sujas e húmidas, desperdícios que exalam vida, paredes descascadas pelo tempo. João Pinharanda, comissário, reflecte assim sobre «Jesus Never Fails»: “António Júlio Duarte expõe em toda a sua crueza tudo aquilo que falhou: regista poses animais que se copiam para nada, encontra seres humanos que coincidem com formas vegetais como se lhes faltasse também ânimo, estabelece pares de volumes que se repetem sem estabelecerem equilíbrios e harmonias, encontra linhas construtivas onde os elementos, arrumados de modo aleatório, tornam inútil qualquer disciplina." Até dia 15, Fundação EDP/Museu da Electricidade - Belém De 3ª a Dom, entre as 10h e a 01h Entrada gratuita

you must

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texto: francisco vaz fernandes

Alexander Gutke Exploded View, 2005 Projecção de diapositivos, projector de carrossel Kodak, 81 diapositivos Dimensões variáveis © Raymond Hejdström Cortesia Galeria Gregor Podnar, Berlim/Liubliana

Caracas 1966-2000, 2000 Postal ilustrado, projector de vídeo e tripé; projecção de vídeo (em repetição) Dimensões variáveis Cortesia Galeria Gregor Podnar, Berlim/Liubliana

Comissariada pelo editor da revista «Flash Art», Chris Sharp, esta é a primeira exposição extensa do trabalho de Alexander Gutke, que vive e trabalha em Malmö. A exposição reúne uma selecção de obras em filme e diapositivo, de 2000 até hoje. Gutke trabalha sobre o carácter ilusionista da nossa sociedade socorrendo-se de vários tipos de aparelhos de reprodução da realidade. Gotke não os coloca apenas como meios auxiliares de reprodução mas como centro expositivo da sua reflexão. Um exemplo é a sua obra mais conhecida, Exploded View, de 2005, uma instalação formada por um projector com 81 slides que vai passando imagens do seu próprio interior. A passagem das imagens surge como um striptease que vai do lado

físico dos componentes mecânicos à abstracção da luz. Usando meios técnicos minimalistas e repetitivos, o artista joga com os mecanismos e as funções dos objectos que cercam o nosso quotidiano. Coisas tão banais como um projector de slide ou um postal são estudados minuciosamente e manipulados. As investigações do artista visam compreender a atenção dialéctica entre dito e não dito, concreto e abstracto, realidade e função, acto e sonho.

«Caracas 2000», outra das obras presentes na exposição, é também exemplo disso. Trata-se de um postal de uma avenida da capital venezuelana colado a uma parede onde é projectado um céu em movimento enquanto em primeiro plano a ala de edifícios permanece estática. O que interessa ao artista é ver como um postal pode ainda estabelecer uma relação com o tempo e continuar a representar uma realidade muitos anos depois da sua imagem ter sido feita e enviada.

Culturgest, Porto Até 4 de Abril

you must

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texto: carla isidoro

Alan silva & Burton Greene

Ópera Crioulo

A Mãe Dia 5 na ZDB – Bairro Alto

www.zedosbois.org

A «Ópera ‘Crioulo’» nasceu da obra musical «Lágrimas na Paraíso» que Vasco Martins compôs por encomenda para a Universidade de Paris VIII.

Martins, um dos maiores compositores e musicólogos

do arquipélago de Cabo Verde, dedica-se há vários anos ao estudo e investigação da identidade da música crioula, suas raízes e génese. São de sua autoria sinfonias como a belíssima «Buddha Dharma» - peça composta em 10 dias depois de Martins descobrir (e ficar fascinado por) Buddha num livro. «A procura da Luz» ou «Memória da Água» são somente mais alguns exemplos de sinfonias deste compositor que consegue dividir-se, da mesma forma exímia, pelos solos de piano e música electrónica.

Em 1994 compôs a ópera «Lágrimas na Paraíso» para uma cerimónia francesa de celebração da abolição da escravatura. Quando a cidade do Mindelo, capital da ilha de S. Vicente, sobe a Capital Lusófona da Cultura em 2002, o coreógrafo António Tavares faz a produção artística de «Lágrimas na Paraíso» introduzindo-lhe novos elementos. Isto dá origem a um novo nome para a peça, e assim nasce a «Ópera ‘Crioulo’».

Até Janeiro de 2008 Vasco Martins introduziu alterações, acrescentos e revisões no libreto, actualizando a identidade da peça —que tem por base a história e o crioulo falado no país. Divide‑se em 3 actos, é cantada em crioulo, dirigida e coreografada por António Tavares, e conta, no núcleo de intérpretes principais, com Sara Tavares. Uma genuína pérola da cultura contemporânea cabo-verdiana.

Dois dos mais geniais insurrectos da história do jazz, Alan Silva (contrabaixo, sintetizadores) e Burton Greene (piano, sintetizadores) exploram há mais de cinquenta anos todo o campo de possibilidades criativas. Figuras nucleares do desenvolvimento identitário do free-jazz (Nova Iorque anos 60), Silva e Greene formaram em 1963 o Free Form Improvisation Ensemble, pioneiro colectivo centrado nas novas ideias de livre improvisação e composição espontânea. Ao longo dessa década, tanto um como outro gravaram em nome próprio álbuns lendários para a ESP-Disk, participando também noutras gravações em sessões lideradas por visionários como Sun Ra, Cecil Taylor ou Albert Ayler e actuando regularmente em espaços como o mítico Judson Hall.

Alan Silva, baixista, pianista, tem vivido em Paris desde os anos 70. Aí juntou a fantástica Celestial Communication Orchestra, um delírio multi-instrumental virado para os céus onde todos os vanguardistas expatriados dos EUA encontraram refúgio (Dave Burrell, Lester Bowie, Gracham Moncur III, etc.

Burton Greene, experimentador das múltiplas capaci-

Vamos imaginar uma guerra perpétua entre ricos e pobres. E no meio dessa guerra vamos seguir uma heroína: Pelagea Vlassova, «A Mãe». Ela já foi de Gorki e de Brecht, agora é colocada num futuro próximo. Escolhe de forma violenta lutar por um ideal que embala como se fosse um filho, um ideal mais importante que o próprio filho. Sendo uma peça de interiores, «A Mãe» tem um forte eco do que vem do exterior, das ruas. Nesta encenação o eco é dado pela música e pelo vídeo. O espaço cénico trabalha a dicotomia peso/leveza, materializada na possibilidade de o ar ser um elemento cenográfico.

De 19 a 22 Março Grande Auditório Culturgest- Lisboa

www.culturgest.pt

Esta versão de «A Mãe» de Bertold Brecht tem música de Hanns Eisler e encenação de Gonçalo Amorim. Amorim nasceu no Porto em 1976, é membro dos Primeiros Sintomas e cooperante do Teatro O Bando, com os quais tem desenvolvido grande parte da sua actividade teatral. Em 2007 ganhou ex-aequo o Prémio da Crítica pela encenação de «Foder e ir às compras» de Mark Ravenhill.

dades dos sintetizadores, tem editado recentemente (através da Tzadik de John Zorn) espantosas sessões imbuídas na tradição musical Klezmer, na qual se envolveu a partir da década de 80.

Estreia dia 27 – Grande Auditório, CCB

www.vascomartins.com

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texto: Francisco vaz fernandes

texto: Francisco vaz fernandes

Thomas Feichtner

Baltasar

Axiome date: 2006 type: chair material: aluminium, powder coated size: 85 x 52 x 50 cm design: Thomas Feichtner producer: Designwerkstätte Schatzl, Austria

Quando o arquitecto Pedro Gadanho aceitou este projecto de remodelação, tinha como ponto de partida uma pequena casa no centro do Porto, de arquitectura modesta, quase vernacular, mas bem posicionada e com uma vista deslumbrante para o rio Douro. O objectivo foi manter todo o exterior e transformar o interior dando-lhe uma segunda pele, uma nova lógica espacial que lhe permitisse multiplicar o espaço útil. Aproveitou o sótão e uma escada rompeu o interior da casa tornando‑se simultaneamente clarabóia, como tanto vemos nas casas antigas do Porto. Com esta solução o interior ganhou maior plasticidade e orgânica, sendo os volumes e a cor o centro da atenção.

Já num dos projectos anteriores de Pedro Gadanho —a Fundação Elipse— se notava o uso da cor para marcar os elementos centrais e de ligação das diferentes partes do espaço. Este projecto de remodelação, radicalmente oposto ao minimalismo da escola do Porto que tanto marca o panorama nacional, é já um importante sintoma de inconformismo e mudança.

Thomas Feichtner fundou, em 2001, em conjunto com os designers gráficos Bernhard Buchegger e Michael Denoth, o estúdio de design e comunicação visual "Thomas Feichtner Industrial Design". Os três têm colaborado para a marcas e autores como Adidas, Bogner, Head, Ron Arad e Swarovski.

www.thomasfeichtner.com

Pixel Chair date: 2009 type: chair material: stainless steel, polished size: 70x 85x 64mm design: Thomas Feichtner producer: Schinko GmbH one-off piece

Ultimamente Feichtner tem voltado a sua atenção, a pouco e pouco, para uma abordagem mais experimental do design, como se verificou na aceitação que teve do público de Milão em 2006. O designer procura alternativas que resultam habitualmente em produções em massa ou globalizadas. Circunscreve-se nos aspectos artísticos e formais do design, mais do que no papel a eles associados de meros repositórios de funções práticas. Vemos isso em alguns dos seus trabalhos que parecem instalações e esculturas de artistas aparentados com os minimalistas americanos. Algumas das suas estruturas casam muito bem com os espaços e ambientes expositivos das galerias e com um certo gosto erudito de decoração de interiores.

+info em www.parqmag.com/blog

+info em www.parqmag.com/blog

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texto: Eliana Silva (em Londres)

texto: bruno pires

texto: Sofia Saunders

Hussein Punk Chalayan Sprouse Para Londres, com Tecnologia

O estilista Hussein Chalayan expõe pela primeira vez parte das suas colecções, desde 1993 até à colecção de Outono/Inverno 2009. Depois de quinze anos de trabalho, está de volta à terra que o educou. Num edifício caiado de branco, o designer cipriota traz a Inglaterra um pouco da sua cor e pensamento internacional. Lá dentro, na exposição, ouvem-se justaposições de músicas. Muitas. Desconexas mas incompreensivelmente apelativas. Tal como o espaço. A panóplia de cores não varia muito, tanto na passerelle como no próprio cenário. Ao longo destes anos de trabalho, o actual director criativo da Puma manteve-se fiel à paleta de cores: os brancos, os pretos, cinzentos e alguns beges. A exposição de Chalayan é um retrato do seu trabalho. Mini salas com diferentes apresentações, vários meios de transmissão e diferentes sons. Conhecido internacionalmente pela concepção da saia-mesa de madeira em 2000, o designer estrutura peças de roupa que sofrem mutações: um vestido que se transforma num look nocturno, um vestido de noiva que encolhe e surge num baby-doll, ou uma leve camisa de noite que simplesmente desaparece.

A Louis Vuitton, através de Marc Jacobs, fez da colecção Stephen Sprouse uma autêntica homenagem ao criador nova-iorquino falecido em 2004. Toda a colecção reflecte o universo punk de Sprouse e o seu olhar único sobre a cultura underground de Nova Iorque (que Marc Jacobs também cultiva e admira) e esforçou-se por retratar isso mesmo através de malas e bolsas com grafites em cores fortes sobre o clássico monograma da marca parisiense. As referências ao trabalho de Sprouse estão actualmente em todas as lojas da marca, mas a de Nova Iorque foi coroada com uma espectacular fachada de grafiti. Sprouse, que era um fã da obra de Andy Warhol, chegou mesmo a trabalhar com o génio da pop art, tornou-se famoso na década de 80 por fazer chegar a cultura punk ao mundo da moda com cores berrantes, tecidos de alta tecnologia, sedas pintadas à mão, tudo com um corte e um design soberbos. O designer e artista também contribuiu com as suas criações para o guarda roupa de artistas como Mick Jagger, Axl Rose, Trent Reznor, Courtney Love, David Bowie e Duran Duran.

www.LouisVuitton.com

Aero Bang Morgan

A interactividade do espaço leva-nos a percorrer os temas que mais o influenciam; desde as novas tecnologias, a migração do ser humano ou as identidades culturais. De um tema para o outro, de um estilo para o outro, o trabalho de Hussein Chalayan é uma constante interacção com o público. Se as suas peças são simples coordenados de algodão ou peças altamente trabalhadas e rebuscadas, os seus desfiles são reais espectáculos. Com violinos de verdade e pessoas de todas as idades. E com conceitos reais.

Para comemorar o centésimo aniversário da fábrica de automóveis Morgan, a Hublot criou o modelo especial Aero Bang Morgan, inspirado no AeroMax da marca automóvel. Ao que se sabe, esta série de automóveis feitos à mão tem prevista uma produção de 100 unidades que personificam a perfeição, o luxo e a elegância, valores de que a marca de relógios suíça comunga. A sinergia entre as duas empresas traduz-se na preocupação de um trabalho minucioso, desportivo e artesanal, arraigado a uma tradição europeia.

Até 17 de Maio, Museu do Design de Londres

www.DesignMuseum.org

www.Hublot.com

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Totem Os motivos africanos marcam a nova colecção da Longchamp, que tem a terra e o exotismo como elementos inspiradores para este Verão. Gostamos em particular desta mala, modelo Cosmos Patch. Oferecenos várias visões : por um lado a leveza e o humor, seguidos da evocação directa às máscaras tribais que nas suas linhas estruturais reforçam o toque retro da mala. Por tudo isso revela-se uma excepcional confiança na capacidade de recriar os eternos clássicos e garantir uma frescura que nasce de roupagens e leituras completamente novas.

www.LongChamp.com

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texto: Francisco vaz fernandes

texto: bruno pires

A colecção Hugo by Hugo Boss foi uma das estreias mais esperadas na semana da moda masculina em Paris. Neste desfile, o belga Bruno Prieters misturou um certo futurismo 2 tecnológico com referências artísticas da Alemanha nos anos 30, nomeadamente o construtivismo da Bauhaus. O resultado foi 3 uma imagem forte, precisa, geométrica, com uma modelagem mais ajustada ao corpo. As calças skinny acompanhavam casacos de proporções reduzidas, alguns quase pareciam boleros com cortes angulares. No entanto foi nos coordenados apresentados no final, onde imperaram o estampado xadrez e listado, que o desfile ganhou uma imagem nova mais radical e imprevista para o standard da Hugo Boss.

Foi em Paris que Gareth Pugh nos brindou com a sua primeira colecção masculina, Fall 2010. O jovem estilista tinha até então sido aclamado pelas suas colecções femininas. Na Fall 2010 é indiscutível o ar gótico, a julgar pelas peças em negro, pelas aplicações de picos de metal, sobretudos em couro e toda a produção de maquilhagem e cabelos que dão aos modelos um ar sombrio. Alguns críticos já se apressaram a apelidar este ambiente de zombie 4 chic. Gosta do uso de peles de animais, do prolongamento para cima das mangas em relação ao nível dos ombros (em blaser, sobretudos e calças prateadas) com um padrão a fazer lembrar a pirâmide do Louvre. Apesar de ser uma colecção monocromática, Gareth consegue inovar nos cortes, nas textura. No seu conjunto é uma lição de criatividade a saudar depois de termos visto mais do mesmo em Milão. Rumores dizem que este senhor com apenas 27 anos tem atrás dele o grupo LVMH de marcas de luxo onde se engloba a Louis Vuitton e a Dior Homme, entre outras.

texto: Sofia Saunders

Jill Rankin

Hugo by Gareth Prieters Pugh 1

www.HugoBoss.com www.GarethPugh.net

Axiome date: 2006 type: chair material: aluminium, powder coated size: 85 x 52 x 50 cm design: Thomas Feichtner producer: Designwerkstätte Schatzl, Austria

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Pixel Chair date: 2009 type: chair material: stainless steel, polished size: 70x 85x 64mm design: Thomas Feichtner producer: Schinko GmbH one-off piece

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Jill Rankin, célebre fotografo de moda e co-fundador da revista Dazed and Confused, foi convidado a desen-

volver uma campanha que celebrasse simultaneamente o V de vitória (primeiro objectivo em alta competição) e Eugene Track, um dos ícones da Nike Sportswear. Ao contrário de outras campanhas sobre o mesmo tema onde o casaco se tornava naturalmente o protagonista

www.Nike.com/Sportswear

da imagem, Rankin optou por fotografar um “V” desenhado no torso nu de Didier Drogba, Vincent Clerc, Rafael Nadal, André Arshavin e Cesc Fabregas, os atletas que dão a cara por esta campanha. O efeito do corpo tenso durante grito de vitória e a detonação de um pó azul, vermelho ou amarelo, criam um efeito de explosão impressionante. Jill Rankin defendeu o seu projecto afirmando que V desenhado no corpo remete directamente para a costura frontal de Eugene Track, a principal característica distintiva do casaco. Criado para atletas de alta competição, este casaco com zip à frente tornou-se ao longo dos tempos num dos emblemas do streetwear.

produção da campanha Victory com André Arshavin

+info em www.parqmag.com/blog

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texto:Bruno pires

texto:sofia saunders

Laurel

Clubmaster

A colecção masculina primavera-verão 09 Laurel da Fred Perry tem a cultura musical negra como principal inspiração, nomeadamente estilos como o ska, o soul e o reggae. A colecção é bem conseguida nas vertentes de cor, tecidos e corte. A paleta de cores incluem o prateado, o verde azeitona, o amarelo e o vermelho. Os quadros são padrão omnipresente em toda a colecção, tanto na versão tartan aplicado no forro dum casaco como numa versão oversized colorida impressa num pólo branco. Com uma qualidade de fabrico e pormenores de alta qualidade, a colecção traz-nos a malha “waffle” inspirada nas malhas dos anos sessenta e botões de blaser feitos de chifre verdadeiro. Fred Perry é o exemplo de uma empresa histórica que se reinventa e que marca as últimas tendências propondo a conjugação de quadros com riscas, a par das cores saturadas.

Para aqueles que procuram recuperar a magia dos anos 50 aderindo a uma tendência futura, a RayBan reeditou o Clubmaster original. Actualizado nas cores, este modelo prepara-se para obter de novo a coroa do rock n’roll. Com acabamento vintage, utilizando materiais tradicionais, é a grande tendência da próxima estação.

www.FredPerry.com

www.RayBan.com

A atenção colocada nos pormenores técnicos, combinada com um estilo requintado, fazem do Clubmaster o modelo clássico da colecção The Icons da Ray-Ban. Tem linhas simples e sofisticadas, é perfeito tanto para homens como para mulheres e pode ser usado com lentes graduadas. Este óculos são um ícone intemporal, transmitem a ideia de sucesso e estilo já definida por estrelas de cinema como Matt Damon em «O Bom Pastor» e «O Talentoso Mr. Ripley» ou Tom Hanks em «Apanha-me se Puderes», entre outros.

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texto: sofia saunders

Lancôme Hermès YSL Genifique baunilha La Nuit dε L'hommε

Fiat 500C texto: sofia saunders

No próximo Salão de Genebra será apresentado em antestreia mundial o Fiat 500C, cuja comercialização a nível europeu se realizará na Primavera. A versão cabriolé presta homenagem ao descapotável de 1957 conservando as mesmas dimensões do modelo de base (mede 3,55 metros de comprimento, 1,65 de largura e 1,49 de altura), propondo os mesmos três motores: turbodiesel 1.3 Multijet de 75 cv e a gasolina 1.2 de 69 cv e 1.4 de 100 cv). Disponível nas cores marfim, vermelho e preto, a original capota poderá ser combinada com inúmeras cores de carroçaria, duas das quais criadas ad hoc para o 500C: um fabuloso vermelho Perlato e um especial Cinzento Caldo, típico dos carros super desportivos.

www.Fiat.com

Vai ser lançado no mercado no final deste mês e pretende tornar-se um complemento à rotina normal de beleza, para ser usado antes de tudo. Trata-se de um sérum de rejuvenescimento para homens e mulheres e o seu uso é recomendado para depois dos 30 anos. O produto adapta-se às necessidades de qualquer tipo de pele ativando os genes e as proteínas cuja produção vai diminuindo com a idade. O aplicador é um conta-gotas e o produto é fluido, com uma textura leve facilmente obsorvida sem deixar resíduos. Este activador é resultado de 10 anos de pesquisa da Lancôme com o centro hospitalar da University of Laval do Quebeque.

Esta fragância, com extracto puro de baunilha, é a nova proposta do perfumista Jean-Claude Ellen para a Casa Hermès. Um perfume solar e tropical, com leves notas de especiarias, ylang-ylang, misturadas com a doce e suave madeira de sândalo. A sua textura não é palpável e a sua personalidade evoca tanto a poesia como o exotismo das Índias. Uma viagem cândida pelos territórios do olfacto. A embalagem, como a Hermès já nos habituou, é de uma delicadeza e elegância extremas.

www.Lancome.com

www.Hermes.com

Procurando o sucesso de L’Homme, a YSL lança o novo perfume La Nuit de L’Homme. Apela a uma atitude masculina irreverente. O novo protagonista é o actor Vincent Cassel, que incorpora os valores deste novo perfume, para nós fabulosamente negro, diabólico e sexy. Yves Saint-Laurent foi em vida um homem de rupturas e a audácia desta Casa será sempre esperada naturalmente. Neste perfume dominam notas de cardamomo, bergamota, cedro e lavanda em fundo de vetiver.

www.YSL.com

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texto: nuno sousa

Foi no passado dia 12 de Fevereiro que o álbum dos Aquaparque foi apresentado no Museu do Chiado, integrado no Sarau da produtora Filho Único. A sala encheu-se para ouvir os teclados, caixa de ritmos, guitarra e vozes deste duo dinâmico que partilhou o espaço com Gavin Russom da editora norte-americana DFA, dirigida por James Murphy dos LCD Soundsystem. Após edição do single e do EP (resultado de um registo de um concerto) e da participação na compilação FNAC Novos Talentos 2008, eis que surge o primeiro álbum: “É Isso Aí”.

Pedro Magina e André Abel conhecem-se desde

Em 2006, foram convidados para actuar no festival Outfest (no Barreiro). Fiéis ao compromisso, decidiram continuar a ensaiar e apresentar os Aquaparque pela primeira vez. “Fomos convidados como Dance Damage [...] mas como ficámos sem baterista na altura e não queríamos deixar de estar presente, tentámos ensaiar apenas os dois... na altura o André saltou para a bateria e eu fiquei com a guitarra e as teclas. O concerto correu bem, curtimos como poderíamos voltar a funcionar apenas os dois e começámos a trabalhar”, conta Pedro.

Os Aquaparque avançam corajosamente com letras em português, sem receitas. Uma reanimação a referências da velha guarda dos anos 80, mas com uma frescura própria da ruptura de quem experimenta novas sonoridades. Se é certo que as referências deste álbum passam por Pop Dell’Arte, Variações, Ocaso Épico e pelo primeiro álbum dos Heróis do Mar, é também sabido que não se ficam por aqui e que têm uma identidade e conceitos muito próprios e fortes, que já vêm no seguimento do trabalho que foram desenvolvendo com os Dance Damage.

Ultimamente, têm aprendido a trabalhar à distância, uma vez que o Pedro é engenheiro de som no Porto e o André reside em Lisboa. Mas a cumplicidade que foram criando ao longo dos anos facilita o processo de criação. Segundo André, é criado “em casa o esqueleto das canções via os loops que configuro no computador, escrevendo letras e levo para a sala de ensaio onde a partir daí ambos desenvolvemos arranjos de teclado e beats de caixa de ritmos. O Pedro trabalha a voz, cria melodias, labuta na métrica até ficar do agrado dele, mas por vezes também faço coros ou jogos de vozes em determinadas partes com ele.”

“É Isso Aí” conta com a distribuição da Flur

e está disponível desde o mês passado. Dez canções que ultrapassam rótulos e regras, mas que não deixam de ser universais e viciantes tanto pela própria estranheza e complexidade das letras de André, como pelo enredo que nos vai levando até a algum sentido. Aqui e agora, uma banda portuguesa a acompanhar.

cedo e desde cedo começaram a tocar juntos. “Com 12, 13 anos começámos a tentar sacar os acordes de guitarra de Nirvana e Beatles... Na RTP1 passou a «Beatles: Anthology», gravei isso numa VHS e vimos isso vezes sem conta”, refere Pedro. Em 2003 começaram a tocar juntos no projecto Dance Damage, projecto esse que iria terminar com a saída do baterista.

é isso aí

Aquaparque Um acaso deu fim a um projecto e início a outro. Pedro e André foram convidados para actuar no Outfest como dAnCE DAMage, em 2006, mas ficaram sem o baterista. Como a vontade de tocar era grande, ensaiaram juntos e apresentaram-se como Aquaparque. Surge agora o álbum de estreia, “É Isso Aí”. www.Myspace.com/Aquaparque

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texto: miguel fernandes

Com apenas 24 anos, este jovem músico oriundo de Queluz, lugar onde também nasceu a editora Flor Caveira, lançou já uma série de temas marcantes e promete trazer outra vitalidade ao panorama musical português. A aprendizagem musical começou cedo: “estive na escola clássica desde pequenino, durante dez anos. Depois estive um ano no Hot Clube, no jazz. Só uns anos depois é que comecei a tocar guitarra e a compor canções que começaram por ser piadas musicadas e que depois se foram transformando em canções.”. Homem dos sete instrumentos, multifacetado, considera-se um one man show mais de performance do que de concerto. Chama happenings aos seus espectáculos, tem um modo muito seu de transpor os discos para o vivo e entende a música como forma de transmissão de saberes. É essa atitude que passa para o seu público: “as pessoas que não sabem o que hão‑de dizer normalmente dizem que tenho muitos tomates. Tenho público que acaba por ir a todos os concertos porque são sempre diferentes e ouvem músicas novas que acabei de fazer”.

Para Fachada um disco é uma experiência. “Gravo trinta pistas por música, trinta instrumentos, dez coros. Este último disco («Viola Braguesa») foi em quatro dias, quinze horas por dia. Foi uma experiência de mim para comigo”. E avança mais: “procuro gravar a um custo quase nulo. É o que fazemos na (editora) Flor Caveira. Não enterramos dinheiro em estúdio porque a indústria não o permite. Eu não faço dez canções num ano. Se quero fazer mais canções faço dez canções num mês.” Em 2008 aceita o convite de Tiago Pereira para participar no filme-tese «Tradição Oral Contemporânea», já apresentado em público. “O Tiago teve a sensação de ter ouvido aquelas músicas a vida toda e isso entra com aquela consciência do colectivo”. Da experiência, que o levou a cantar no interior de Trás-os-Montes, retira esta frase de Adélia Garcia —cantadeira de Trás-os-Montes— que resume aquilo que entende por tradição: “Eu ouço uma canção; se gosto, memorizo; se a memorizo, repito; e se a repito, modifico-a”. Para Fachada a tradição é uma maneira de armazenar conhecimento colectivo comunitário, “uma biblioteca de uma comunidade que está toda na cabeça”.

Podemos agora perceber melhor a sua forma de ver a música e o seu papel dentro dela: “Divido a música em três géneros: erudito, tradicional e “PoPular”. (…) o erudito e o tradicional são eminentemente estéticos, ao passo que o “PoPular” é eminentemente pragmático, artesanal, com valores artísticos. Dentro destes três géneros gosto de me ver no meio dos três. Não fiz nem vou fazer recolhas. Extrapolei do chamado processo de tradicionalização um processo pop pessoal. Sou um cantautor pop”, isto é, um intérprete do seu próprio trabalho. A Zappa e Tom Waits vai buscar a noção de canção contada e não apenas cantada. São exemplos de uma obra de carreira, com dedicação, muito trabalho “e muita transpiração”. O ecletismo experimentalista de Fachada não nega novas abordagens sonoras. “«Viola Braguesa» é um disco de canções e cada canção tinha de ocupar estilos diferentes consoante o que estabeleci. É isso que gosto de fazer. Sei o que quero fazer no próximo disco e no outro a seguir. Um dos meus projectos é mesmo fazer um álbum electrónico brevemente”. Esperamos que daqui a quatro dias já o tenha pronto.

quatro dias B-Fachada

À pergunta “como gostarias de ser visto?” responde que tem uma identidade própria e natural que lhe permite fazer discos e não só canções. Diz, de si próprio, que mal começa a fazer uma canção vê logo nela B-Fachada. O seu público também.

www.Myspace.com/Bfachada

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texto: rui miguel abreu

A nota de diferença é dada na página MySpace dos Makongo onde no espaço reservado às influências se listam nomes como Chemical Brothers, Basement Jaxx, Fatboy Slim ou Groove Armada (que denunciam a experiência londrina de SP) mas também Timbaland e Missy Elliott— os pontos de ligação ao hip hop mais glossy que a dupla SP & Wilson mostrou saber praticar com o álbum de estreia, «Barulho», ou Puto Prata e Bruno M— estetas do kuduro por excelência. Pelo meio ainda se tem que encaixar a referência aos Daft Punk e num parágrafo obtém-se o código genético de Makongo: hip hop, r&b, kuduro, house, big beat. Música de clubes. Correcção: música de grandes clubes onde os sound systems debitam mais decibéis do que o metro de Tóquio debita passageiros em hora de ponta. Isto é Makongo: Sp & Wilson, mais Petty (a voz de «Yah» dos Buraka Som Sistema) e os DJs Stikup e Knowledge. «Angolan Kung Fu» é o título do álbum de estreia, bomba relógio prestes a explodir. Como é óbvio, não se pode separar o aparecimento de Makongo do estrondo Buraka Som Sistema. O grupo de «Black Diamond» cruzou com estilo a avenida que liga a moderna música de clubes ao kuduro que levanta pó nas ruas de Luanda, conseguindo no processo levar o “rumble” dos seus sub-graves até pontos tão distantes da experiência musical nacional como Nova Iorque ou Austrália, para mencionar apenas um par de exemplos. Perante o sucesso obtido pelos Buraka

até pode parecer estranho que só agora surjam outros projectos a explorar premissas estéticas semelhantes, mas a espera parece ter rendido uma certeza: parece agora claro que a partir do bounce específico do kuduro é possível erguer diferentes visões musicais. «Angolan Kung Fu» não soa a «Black Diamond», mas Buraka e Makongo soam ambos a uma África futurista, encadeada pelas luzes que no clube iluminam os corpos que se movimentam em sincronia na pista de dança. O rigor digital de «Angolan Kung Fu» é pensado para excluir tudo o que é acessório e concentrar‑se no que é essencial: os elementos rítmicos propulsores, os crescendos ácidos sintetizados, os sub-graves capazes de mover montanhas. É sobre essa fórmula simples, mas eficaz, que se constrói uma identidade que vive da mistura. Escuta-se mandarim na abertura do disco, cruza‑se português, inglês e calão de Luanda, um órgão gospel sobre percussão digital, ruídos que parecem sair de jogos de computador. E num segundo parecemos transportados de Luanda a Lisboa ou de Londres a Miami. Aqui a vibração é, definitivamente, global.

A experiência Buraka deixou claro que o circuito mundial de clubes e de festivais está perfeitamente ao alcance desta visão progressiva do kuduro. Makongo pode seguir o mesmo caminho, tomando o carácter essencialmente lúdico e funcional da sua música como o combustível necessário para uma viagem que pode ser longa. Mas, obviamente, a música não basta. Ao vivo, os Buraka transformaram-se numa eficiente máquina de agitação de massas, transformando a sua singular visão de estúdio num show que enche a vista e que agita o corpo. Essa é igualmente a missão de Makongo, sabendo-se, no entanto, que a experiência acumulada por Sp, Wilson e Petty só pode ser um bom ponto de partida para uma aventura internacional bem sucedida.

«Angolan Kung Fu» é totalmente produzido por SP e aprofunda a sua marca singular —um som

que não é polido, que bebe em muitas fontes diferentes, mas que tem uma identidade na forma como procura o máximo impacto, sem atalhos, desvios ou distracções. Na página MySpace de SP anunciam-se novos projectos para 2009, incluindo um álbum a solo. Será curioso perceber o que irá congeminar alguém que já tem provas dadas nos campos do hip hop, do r&b, do beatboxing e agora também de um kuduro mutante que abraça a sua vocação global. Ficamos à espera.

kuduro mutante Makongo

Entre Luanda, Lisboa e o resto do mundo, eis Makongo. Um novo projecto a sintonizar o kuduro com uma vibração mais global que reúne o talento dos SP & Wilson e de Petty, a voz de «Yah» dos Buraka Som Sistema.

www.Myspace.com/Makongo1

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texto: cristina parga

Uma flor perfumada, que resiste delicada e exuberante às intempéries do vento seco, do solo desértico, às chuvas intensas do Verão. Labiata, a Rainha do Nordeste brasileiro, é uma orquídea, e também o título do mais novo álbum do cantautor e orquidólatra confesso, Lenine. Com onze canções, o álbum de originais que sucede "Falange Canibal" é também um trabalho mais íntimo, que não esquece o recado sobre o futuro do planeta. As onze faixas destacam-se pela versatilidade dos arranjos e sonoridade contemporânea, que o pernambucano radicado há mais de vinte anos no Rio de Janeiro domina tão bem. "Martelo bigorna" abre o disco em força, atravessando o peito de quem não descansa enquanto não alcança os seus sonhos —a canção mais autobiográfica do disco. "Lá vem a cidade" mostra um Lenine mais suave, subtil, poesia de mensagem dura e ritmo manso; "a sombra do futuro e a sobra do passado" assombram-no em "É o que interessa". E enquanto "A Mancha" anuncia tragédias ecológicas, "É fogo" grita que "o verde em cinzas se converte logo, logo", alertando que "o estrago vai ser pago pela gente toda."

Apoteótico, exagerado? À primeira audição, talvez. Mas o que mais assusta na natureza humana é o fechar dos olhos, a negligência. E contra isso a poesia das letras desperta-nos, instiga-nos, pergunta-nos bruscamente "Porque você não acredita?" (em "O Céu é muito", canção composta em parceria com Arnaldo Antunes). E pede-nos, no fim, para acreditar. Para gravar «Labiata» Lenine contou com parceiros musicais de longa data como Bráulio Tavares, Lula Queiroga, Duda Falcão e até mesmo com os três filhos, que unem as suas vozes no coro de "Continuação". Com a pós-produção feita nos estúdios de Peter Gabriel o álbum ganhou em tons ecléticos, que vão dos instrumentos de cordas intimistas à guitarra distorcida mais rock n´roll, sempre com um afiado apelo pop.

Em "Samba Beleza" há uma parceria póstuma com Chico Science, numa canção elaborada a partir das anotações que a irmã do rei do mangue-beat ofereceu a Lenine. O resultado é uma união entre música e poesia delicada e emocional, como somente uma dupla deste peso poderia realizar. Fina e delicada é também "Ciranda Praieira", que conjuga gaita de foles e violinos numa canção sobre um romance que desabrocha no ir e vir das ondas do mar, na roda da sorte. Refinado e bruto, subtil e escancarado, o legado musical de Lenine é visível nas onze faixas, que fundem magicamente ritmo e melodia, palavra e música, voz, percussão. Tão suave e agreste, frágil e robusto, raro e sedutor como a flor que lhe apadrinha.

a nova flor Lenine

Este mês Lenine retorna aos palcos nacionais, desta vez com uma flor na bagagem: Labiata, o seu último álbum de originais após seis anos de interregno.

www.Lenine.com.br

Dia 21, cinema batalha, porto dia 22 aula magna, lisboa

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texto: francisco vaz fernandes

Fortune's Daughter

M a r k Wagner A impressão gráfica é uma das paixões de Mark Wagner, um artista e designer gráfico norte‑americano que captou recentemente a atenção pública com uma exposição onde mostrava uma série de trabalhos que tinham como base a imagem de um dólar. Esta série, intitulada Fortune's Daughter, foi iniciada em 2004, antes da crise financeira americana e por isso considerada premonitório de todo o ambiente catastrófico que se seguiu. De certa forma viram nessa obra a ilustração perfeita do colapso do capitalismo e da desmoralização de toda a América.

O grau de improbabilidade social vivida nos últimos anos nos EUA com o governo de Bush mereceu a atenção de Wagner, que procurou questionar com fina ironia os alicerces do seu país partindo de um trabalho digital minucioso de corte e cola. Criou um certo ambiente surreal para atingir em cheio os valores mais profundos da América contidos no próprio dólar: a nota verde representa o mito fundador vivido na imagem de George Washington que personifica o garante dos direitos e liberdades conquistadas. Por outro lado o seu valor fiducial é a base da hegemonia político-económica. Estas certezas são de alguma forma relativizadas nas composições de Wagner. O fundador aparece entre o endeusamento e o caricato, cercado de motivos decorativos dados por uma nota desvalorizada e desmoralizada. Por essa razão houve quem visse nos seus trabalhos “a imagem” subtil do descrédito popular no actual establishment político e económico.

Mark Wagner vive em Brooklyn, actualmente o

bairro de Manhattan com maior número de artistas por metro quadrado. Entre as muitas actividades em que se envolve promoveu espírito cooperativo entre artistas e residentes do bairro; adquiriu uma pequena gráfica obsoleta que está na base da editora Bird Brain, dedicada essencialmente à produção limitada de livros de artistas.

www.PavelZoubok.com www.SmokeInMyDreams.com Fortune's Daughter Serie, 2004. The Economist

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Fortune's Daughter Serie, 2004.

Fortune's Daughter Serie, 2004.

Reputation Preceeds You.

A Little Bird Told Me.

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texto: carla isidoro · Fotos: João Braz

Jacinto lucas pires Ninguém diria que também canta. No seu último livro de contos escreve sobre a cidade e as pessoas, mas acaba de lançar um disco onde essas histórias do quotidiano também existem. Jacinto Lucas Pires tem uma banda, Os Quais, um projecto tão despretensioso como surpreendente.

www.myspace.com/osquais

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Grande entrevista

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Grande entrevista

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Vamos começar pelo disco. Ninguém imaginaria que fosses lançar um disco e ter uma banda chamada Os Quais. Onde foram buscar este nome? Nunca sabíamos que nome arranjar. Depois descobrimos esta espécie de não nome, Os Quais. Gostámos de fugir à ideia de nome…pensámos nos The The, que seria Os Os. Uma coisa de que gosto é que há lá um ponto de interrogação implícito, como se perguntasse “quais são? quem?”. O disco deixa interrogações no ar. Começa no nome do projecto e passa pelo nome do disco , «Meio Disco». Chamase assim porque só gravaram seis temas? É por isso. Na altura das gravações o Tomás Cunha Ferreira, o outro Qual, estava a dizer ao José Tolentino Mendonça (que participou no disco) “isto não é bem um disco, é mais um meio disco”. De repente parámos e olhámos uns para os outros e percebemos que aquele ia ser o nome. E onde é que ficaram os outros temas? Ter seis já foi uma sorte. Não tínhamos dinheiro para a produção, gravámos em casa de amigos. Tivemos a sorte da Amor Fúria produzir e ainda pagar algum tempo de gravação nos estúdios caseiros do José Castro e Bernardo Barata. O Tomás é pintor, eu sou escritor, ambos temos família e arranjar tempo para tudo foi complicado. Chegarmos às seis músicas foi um luxo. E fazem meios concertos? Fazemos meios concertos e concertos inteiros. Nas Fnac fazemos meios, é o melhor formato.

Fiquei com a ideia de que as letras eram de Piet Mondiran , um nome que aparece no disco. Esse nome é uma gralha, devia ser Mondrian, o pintor. Temos uma canção chamada «Mondriânica» que diz (e cantarola) “mondrian mon amour..”… É uma espécie de homenagem que o Tomás, enquanto pintor, quis fazer ao Mondrian, e saiu assim em forma de música. Há um texto do Mondrian só com onomatopeias como “rrr”, “ué ué”, como se fossem barulhos da cidade, e o Péricles Cavalcanti fez uma espécie de cobra musical a que chamou de boogie concreto, a partir desse texto. Passámos-lhe o texto e ele fez a instalação concreta que vem na canção. Tinha ficado com a ideia que era um sample do Cavalcanti mas só depois percebi que foi uma composição feita para o disco. Sim, foi feito para ali.

Espero que seja despretensioso mas ambicioso ao mesmo tempo. Há uma ambição pública de fazermos uma coisa que mais ninguém está cá a fazer.

Então ao vivo apresentam temas que não estão no disco. Que temas são esses? Temas originais nossos que eu espero integrar num próximo disco. Também temos uma versão dos Arcade Fire em português. Mas não soo nada a Arcade Fire, receio dizer. Tiveste aulas de canto? Há muito tempo, ainda estudava Direito na Católica, andei um trimestre no Hot Clube mas não continuei. Aliás o Tomás também lá esteve nessa altura a tocar guitarra. Já eram amigos nessa altura? Sim. Já fazemos música juntos há quase vinte anos, éramos colegas de escola. Fizeste aulas de canto no Hot Clube? Aulas de música. Também tinha aulas de voz, auditivo, solfejo, introdução ao jazz, etc. Mas posso dizer que sou um autodidacta. As letras do disco são tuas? A regra é assinar as músicas em comum. O Tomás faz a música e eu a letra, mas há excepções. E às vezes é difícil ver o que é de um e o que é do outro, por isso assinamos tudo em conjunto.

Como é que chegaram a ele? É um nome do meio intelectual do Rio de Janeiro. É vosso amigo? É um grande compositor, um músico interessante que já gravou com toda a gente que interessa. Não é um amigo pessoal, mas foi sempre muito generoso connosco. Gostou das nossas coisas, e pronto. Havia a hipótese de produzir o disco inteiro lá com os músicos dele, mas não tinhamos dinheiro pra viajar.

Uma das coisas que agradam no disco é o seu lado despretensioso. Tu cantas como se estivesses entre amigos , sem grandes preocupações. Dá-nos a ideia que gravaram um disco porque sim , porque são amigos e tocam juntos há muito tempo. É mesmo isso, ainda bem que isso passa. Há muitas desvantagens em não ter uma logística profissional, perde-se muito mais tempo, mas há a vantagem de estar em casa de amigos e ter prazer no que se faz. Há a desvantagem das imperfeições técnicas, que as haverá de certeza, mas há uma vantagem de não ser o teu ofício base e estás a fazê-lo por prazer.

É um disco despretensioso ou meio despretensioso? Espero que seja despretensioso mas ambicioso ao mesmo tempo. Há uma ambição pública de fazermos uma coisa que mais ninguém está a fazer cá. Embora haja ligações com pessoas que estão a fazer música —agora tocámos em Famalicão como os Pontos Negros e Tiago Guillul— há uma diferença que é a nossa. Talvez seja essa ligação ao Brasil ou essa coisa meio Atlântica que tem a ver com a estrutura das palavras e das histórias que contamos.

Há essa leveza no vosso trabalho. E também está lá o teu cunho , pelo menos nas letras sente-se um pouco das personagens que encontramos no teu livro de contos. Como se o disco fosse uma extensão da tua profissão de escritor. Várias letras vêm da minha escrita, é verdade que algumas são quase histórias. «A rapariga da caixa» é quase uma personagem e nesse sentido tem a ver com um conto, queremos saber quem ela é. O formato de canção permite uma liberdade que não temos quando escrevemos uma história, precisamente porque não tens de fazer uma história numa letra de canção… podes só atirar algumas imagens. É um processo mais liberto? É porque tem uma limitação tão grande que paradoxalmente dá maior liberdade. Também sinto isto no conto em relação ao romance. O conto, por ser mais contido, dá maior liberdade. No romance precisamos de uma estrutura mais rigorosa e matemática que segure tudo aquilo. Na canção há a limitação da métrica e a da música e tens a própria relação das palavras com a música. Não podem estar as duas a ir para o mesmo sítio, eu gosto de contrariar. Gosto especialmente da canção do Lou Reed «A perfect day» em que a letra diz que é tudo maravilhoso, vamos passear no jardim zoológico… mas a forma como o Reed canta é ao contrário, ele está deprimido. Gosto desse tipo de ambiguidade e jogo. O poeta Valery dizia que a poesia era a hesitação prolongada entre o som e o sentido. Eu não sei fazer poesia mas pelo menos aqui, nesta relação de prosa, letra e música, posso chegar mais perto dessa hesitação prolongada. Não é uma coisa nova para mim, faço isso há 20 anos com o Tomás, mas hoje sinto-me mais à vontade. E esta coisa de tornar a música pública e estar mesmo dentro das minhas letras… É mais exigente para ti , de alguma forma? Algumas músicas já existiam. Quando não gravas há o problema de elas nunca ficarem terminadas. Tens de as gravar pra te separares delas e poderes dizer “eu não gosto da minha voz ali”. No disco cantas mas também assobias. É curioso que o teu último livro , o de contos , chama-se «Assobiar em Público» e a primeira história do livro tem o mesmo nome. A história pareceume uma estalada de luva branca à sociedade portuguesa como ela está hoje. Era essa a tua mensagem? Não gosto de falar das mensagens dos contos, elas estão lá e falam por si. Mas também não podemos fugir ao que estamos a dizer e ao que está lá está escrito.

Queres uma coisa séria. Sim, e bem feita, que esteja no mesmo campeonato das coisas profissionais. Os grandes músicos profissionais brasileiros da nossa idade, como o Doménico ou o Pedro Sá, são craques virtuosos a tocar em cima do palco com o Caetano e outros mestres, mas que têm uma boa onda de tocar com os amigos, informal, e não fazem caixinha do seu génio privado. Cá não se vê muito.

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Pareceu-me uma metáfora muito subtil. Ainda bem, as metáforas têm de estar do lado de quem lê. Acho até que um dos problemas da nossa literatura é que quem escreve está a escrever a metáfora, a sentir que está a escrever a grande metáfora da sociedade portuguesa, e topas isso quando estás a ler. É uma espécie de gordura, de esforço, torna as frases moles. Gosto de comover as pessoas não pela lágrima e pelo sentimentalismo, mas através do concreto, do tangível, da lama e de pedacinhos metálicos das latas no chão… Na edição de Janeiro da revista Ler dizes , em auto-entrevista , que “não podemos continuar a ser um país de empatas”. Encontrei uma ligação entre algumas afirmações , os contos do teu livro e o assobio. Levou‑me a pensar se o assobio público não poderia ser um método antiempata , uma alavanca para a mudança? O assobio pode ser subversivo. Acho que as mudanças precisam de um pretexto, seja um assobio ou uma palavra de ordem…

Dizes que «Assobiar em Público» é um nominho para a palavra conto. É uma palavra comum em Cabo Verde mas pouco comum cá. Significa alcunha ou pequeno nome. Alcunha de conto? Os brasileiros também a usam. Um conto pode ser uma espécie de sombra ou eco. Tem a ver com a liberdade de que falei há pouco, a liberdade do romance…Alguém um dia disse que nos meus contos há muitas ruas, muitas casas, que muitas histórias partem dos quartos ou das salas-de-estar…eu tenho muito isso, as histórias partem da cidade. Sinto que o conto pode ser mais político - no sentido lato de ser público, de ser da cidade - do que se calhar um romance. Embora os meus dois romances tenham ideias políticas lá pelo meio. Isto é mais vital no conto, a ideia de liberdade em público.

As tuas histórias apresentam cenas e pessoas que , se olharmos à volta , encontramos facilmente no quotidiano. Quando passeias pela cidade tiras notas do que vês? As pessoas que me conhecem dizem que sou um distraído observador. Sou És um assobiador? distraído, tenho má memória, lembroAssobio de vez em quando, mas sou me de pequenas coisas. Acho que mais um cantor de chuveiro. Agora asisso acontece porque escrevo histósobio em público quando tocamos o Tornaria a rias. Tenho a convicção que devo ter «Recado». Às vezes desmancho-me a cidade mais um sistema de compensações que retira rir, é tramado assobiar. aberta por da memória biográfica e factual para dentro, acho-a Mas voltando à muito trancada. poder ter outras, como uma espécie de memória ficcionada que me permioutra pergunta … Há algumas te escrever histórias. Escrevo muitas veAs mudanças não começam por conboas ideias mas zes a partir da fantasia e da imaginatos nem por canções. Mesmo quando a falta ser mais ção, mas tem momentos que os outros «Grândola Vila Morena» toca na rádio, ambicioso e ela é uma senha, simboliza um momentransformador. reconhecem. Mas não gosto de dissecar as histórias, fico paralisado. Muitas to em certa altura. As mudanças pasvezes as histórias partem de imagens fortes e para sam por acções, por pessoas que agem. Acho que começar a escrever a imagem tem de ter um mistéisso falta um pouco, ter iniciativa e ir em frente. O rio qualquer, algo que eu queira descobrir. E deve assobio metafórico de que falas pode ajudar a submostrar-se como uma ideia muito precisa. verter, a desmanchar alguns podres, a fazer ruir o pilar de um edifício aqui ou ali, mas é essencial que Como é que entras na cabeça de se façam coisas. Falta esse passo na nossa geração, uma personagem quando ela fala o de passarmos das palavras aos actos. Passarmos e toma determinada decisão? do assobio à palavra que age mesmo. É sentires que estás naquele lugar, és aquela pessoa. Um pouco como o leitor que está a ler um livro e Se passássemos a assobiar em público acredita que está a acontecer certa coisa. Quando a todos os dias alguma coisa iria história está bem feita acreditas no que está a aconacontecer de certeza. Como tu dizes na tecer àquela pessoa e por isso é que te afliges, idenauto‑entrevista , quem assobia em público tificas-te com ela, ela és tu. Tem de ser verdade. tem de ter uma grande auto-estima. Sim, sermos mais públicos. Imagina, se fossemos Implica conhecer várias personalidades 10 milhões a assobiar no Terreiro do Paço o govere diferentes tipos de ambientes. no podia cair, um regime pode mudar. Isso nunca É estar aberto ao mundo. É quase não criar obstáfoi feito (risos). culos a isso, mais do que fazer alguma coisa. Há um instinto natural de querermos ser outras pessoas, querer ter mais mundo. A dificuldade na escrita é não criar obstáculos a que isso aconteça, tens de ser permanentemente honesto com aquilo. Dá um trabalho do camandro. Na escola de cinema americana onde estudei diziam-nos para não nos deixarmos apaixonar por um plano porque na montagem aquele plano podia ter de cair. Podia não ajudar o resto, ser um peso.

O que é que mudarias na cidade e nas pessoas se pudesses fazê-lo? Tornaria a cidade mais aberta por dentro, acho-a muito trancada. Há um lugar onde estão os que vieram de Cabo Verde, os que vêm da China têm aquelas lojas… Acho que a própria geografia da cidade desmente esta injustiça. Há que arranjar canais e misturar mais. Há algumas boas ideias mas falta ser mais ambicioso e transformador. Quem tem o poder político e consegue chegar ao dinheiro através de mecenato e empresas tem de desenhar esses canais. Falta uma cidade mais em rede. Vês Portugal como um país racista? Há um racismo calado, surdo, que às vezes é pior que um racismo formal e ostensivo. É mais difícil de combater. Sente-se que está ali debaixo, vê-se na maneira como as pessoas olham, recusam emprego, como desconfiam. Como é que se combate isso? Quando se confrontam os racistas eles dizem “não, não, não sou racista”. Devia haver um esforço de maior solidariedade e de maior cosmopolitismo. O Manuel Castels quando falou sobre o milagre económico finlandês nos anos 90 dizia que esse “milagre” fez-se de boas cabeças que vinham de fora e também porque havia um corpo social aberto e sólido. Sentes-te bem numa cidade porque ela tem óptimos restaurantes e livrarias, uma movida interessante, mas também tem óptimos hospitais públicos e a pessoa que tem um trabalho mais modesto sente-se bem disposta porque tem acesso a essas benesses. Quando o país tiver esse corpo social aberto as cabeças de fora também querem vir para cá. Lisboa agora está a tentar firmar‑se como uma cidade criativa. Acho um bom caminho, mas tem que se ser realmente ambicioso. Não podem ficar-se nas meias tintas portuguesas.

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texto: João Telmo Dias

As pastilhas da calçada começam a derreter vagarosamente e a desenhar novos contornos de croché nos passeios. Ele e ela apanham o autocarro, com as mangas da camisa agora curtas e limpam o suor da testa. O calor intolerável instigou as glândulas sudoríparas e vêem-se auréolas aquosas plurimórficas nas apertadas axilas das roupas andrajosas dos passageiros da carreira. Abril está quase no fim. Ele e ela saem de mãos dadas na paragem seguinte, tropeçam, caem e desmaiam de boca aberta. Junto à cabeça dele e junto à cabeça dela no chão, já com alguma saliva a consumir a tinta, reside um folheto amarelo sujo que parece querer soltar-se. A velha tuberculosa ao passar, de cesta cheia com peixe e frutas na mão, ajeita o xaile e agarra o papel, que sete passos à frente deita, imediata e displicentemente, fora. A tosse sangrenta começa e o IndieLisboa também, com retrospectiva herzogiana na mala. O papel voa novamente até ele e ela, que acordam e se levantam. Vasculham a mala, limpam a boca e procuram os bilhetes para a sessão. Às 17h57m entram na sala. O MANIQUEÍSMO VIRULENTO DO DUQUE Werner Herzog nasce em Munique a 5 de Setembro de 1942. Nascido e criado no campo, só aos 17 anos é que realiza o seu primeiro telefonema a partir de uma cabine telefónica, o que não deixa de ser curioso já que o seu primeiro filme se materializa dois anos após a dita chamada, com uma câmara roubada. De verdadeiro nome Werner H. Stipetic, adopta o apelido de Herzog quando enceta a carreira artística, que significa duque em alemão. Tal como Rainer W. Fassbinder e Wim Wenders, Herzog integra a nova vaga de cinema alemão dos anos 70. Os seus filmes são na sua maioria ficcionais, mas o cineasta concretizou diversos documentários, o que explica a hibridez e natureza das suas obras, que, por vezes, se revestem de um documentarismo com laivos ficcionais ou de uma ficção que mais parece um documentário (“Coração de Cristal” ou “Onde sonham as formigas verdes” ). Werner Herzog assume, na maior parte dos seus filmes, a produção, realização e o argumento, o que explica e substancia a obsessão omnipresente e quase um leitmotiv das suas obras, indiscutível em “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972) ou “Fitzcarraldo” (1982). Este modus operandi obsessivo deixou marcas indeléveis na vida do cineasta: hipnotizou todos os actores em “Coração de Cristal” e fez o percurso Munique – Paris a pé, como cumprimento de promessa, caso uma amiga muito próxima recuperasse de uma doença grave, o que originou, posteriormente, um livro de reflexões sobre a vida escrito durante a interminável caminhada. Outro dos factos singulares da vida herzogiana revela-se no documentário inusitado “Werner Herzog eats his shoes”, dirigido por Les Blanks, onde o realizador depois de perder uma aposta com um amigo é obrigado a comer a sola dos seus sapatos. A obsessão do duque assumiu, desde sempre, dimensões maniqueístas e violentas, sendo que a mais preponderante foi indubitavelmente a sua relação com o actor Klaus Kinski, amigo e actor dos principais filmes do cineasta. “My best Fiend”, de 1999, feito a partir de making-of de filmes e documentários, retrata a ligação desassossegada e conflituosa entre o realizador e o actor, sendo que a omissão da letra R da palavra friend é intencional e consubstancia a essência dos laços entre os dois.

O actor chegou mesmo a escrever um livro autobiográfico intitulado “All I need is love” onde condenava Herzog, acusando-o de tirano e obsessivo. Contudo, no documentário “My best Fiend” os dois desmistificam essas afirmações e Klaus admite que serviram unicamente para um aumento das vendas do livro. Kinski acaba por morrer em 1991.

ELE E ELA Saíram da sala às 19h55m. Ainda tinham as mãos dadas, mas o suor da testa tinha desvanecido. Werner Herzog navegava-lhes na mente. As axilas estavam secas. E depois disso, sempre juntos, no autocarro ou na rua, de mão dada, nunca mais voltaram a tropeçar.

werner herzog

Num acervo tão vasto e majestoso como é a obra de Herzog, torna-se indispensável destacar “Aguirre, a cólera dos deuses”, com uma equipa inteira a enfrentar durante meses a fio a floresta amazónica e um dos seus mais aclamados filmes, assim como o remake de “Nosferatu” (1978), “O enigma de Kaspar Hauser” (1974), o documentário sobre a vida de Dieter Dengler “Little Dieter needs to fly” (1997), “Woyzeck” (1979) e “Fitzcarraldo” (1982). Será difícil fechar Herzog hermeticamente numa categoria, já que o autor se reinventa e multiplica, derramando inteligência e magnificência na sua colérica e feroz fantasmagoria cinematográfica, que conta já com mais de 40 obras. Imperdível a retrospectiva proposta pelo Festival Indie. Werner Herzog e a Jacques Nolot são os convidados da secção HERÓIS INDEPENDENTES da edição deste ano. Serão exibidas 36 obras dos dois realizadores, 26 das quais de Herzog. Ambos vão estar em Lisboa no decorrer do festival.

AS EPÍSTOLAS OBSESSIVAS DO DUQUE werner herzog

o enigma de kasper hauser

Este ano há Werner Herzog no Indie. O apocalíptico realizador vem a Lisboa mostrar que as solas de sapato são passíveis de ingestão. A comprovar, a partir de Abril, os puzzles insondáveis do duque alemão.

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texto: mário freitas*

watchmen os guardiões “A melhor novela gráfica de sempre!”. Talvez a frase que mais se ouviu sobre Watchmen ao longo dos últimos dezoito anos. Após vários anos no limbo legal de Hollywood, estreia finalmente a adaptação ao cinema da mais aclamada obra de sempre da BD americana.

* Convidámos Mário Freitas da Kinpin Books para escrever sobre «Watchmen»; tanto esta BD como o respectivo making of, «Watching The Watchmen», estão à venda na loja.

www.kingpin-of-comics.net

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Editado em 1987, quando os últimos dias da GuerraOutra das experiências mais curiosas no livro é a -Fria se aproximavam, «Watchmen» marca a virainclusão de narrativas paralelas, em clara analogia com a trama principal. Num mundo gem definitiva na abordagem narratiem que os super-heróis fazem parte do va à BD de super-heróis, desmontando quotidiano, histórias sobre o tema não e desconstruindo todos os clichés e roexercem qualquer apelo e os leitores mantismos associados ao género, muiviram-se sobretudo para, imagine-se, tos deles vigentes desde a sua massificomics de piratas, habilmente recriacação a partir do final da década de dos e incluídos por Moore e Gibbons 30. Desde a primeira vinheta, a obra no contexto da própria narrativa censuprema dos britânicos Alan Moore e tral. Adicionalmente, no final de cada Dave Gibbons marca indelevelmente um capítulo, Moore faz uso de apêndices estilo: o Comediante morreu, e a sua Em «Watchmen», em texto que enriquecem a experiênimagem de marca, um crachá amareRichard Nixon, cia de leitura, conferindo toda um enlo com um simples smiley, jaz ensanem alta após volvência histórica que dá à obra um guentado numa sarjeta de uma rua a vitória na carácter quase real, através de trechos de Nova Iorque. É o fim da inocênguerra do de livros ou recortes de jornais imagicia dos super‑heróis. Em «Watchmen» Vietname, nários das épocas que antecedem o os super-humanos envelhecem, têm perpetua-se na presente de «Watchmen». falhas de carácter, dúvidas, deprespresidência sões, caem em desgraça, matam e mordos Estados Dentro da contextualização histórica, rem. Paradoxalmente, o impacto de Unidos graças os paralelismos políticos assumem par«Watchmen» na BD americana foi tal à aprovação de ticular significado e é curioso verificar que gerou uma pletora de cópias e imiuma legislação como tanta vez a realidade imita, tartações baratas —repletas de estilo, mas especial que diamente, a ficção, revelando bem à sem qualquer substância— que quase possibilita a sua saciedade a capacidade visionária de arruinaram a indústria durante a dérecandidatura Alan Moore, o fleumático inglês que se cada seguinte. para além de tornou no mais premiado argumentisdois mandatos. ta de sempre da BD… americana. Em A história transporta-nos a 1985. Os Situação «Watchmen», Richard Nixon, em alta Estados Unidos venceram a guerra do precisamente após a vitória na guerra do Vietname, Vietname e Richard Nixon ainda é preanáloga à que perpetua-se na presidência dos Estados sidente. Dr.Manhattan, o super-herói se vive agora Unidos graças à aprovação de uma lequântico supremo, é a pedra basilar na Venezuela. gislação especial que possibilita a sua do poderio militar americano que, no recandidatura para além de dois manauge da Guerra-Fria, mantém o eterdatos. Situação precisamente análoga à que se vive no inimigo russo em constante cheque. Porém, os agora na Venezuela com a tentativa bem sucedida ponteiros do relógio do Juízo Final estão fixados em de Hugo Chávez em se perpetuar no poder via reepermanência nas 5 para a meia-noite. Primeiro, os leições sucessivas supostamente democráticas. super-humanos foram ilegalizados; agora, começam a ser suprimidos. Num mundo mergulhado num esAliás, a forma como Moore reescreve a verdadeira tado de aparente letargia, a morte do Comediante história dos Estados Unidos chega a assumir laivos poderá ser o gatilho que colocará todo o sistema de uma malvadez subtil. Qualquer leitor mais disinstituído e, em última instância, a própria humanitraído poderá passar ao lado da breve menção ao dade, em causa. E caberá aos regressados e resassassinato de Woodward e Bernstein, os dois jortantes watchmen (guardiões) evitá-lo a todo o custo, nalistas do Washington Post que investigaram e tormesmo que o preço seja a sua própria humanidanaram público o caso Watergate, que viria a deterde. Ou a sua alma. minar a renúncia de Nixon a meio do seu segundo mandato. Na realidade alternativa de «Watchmen», Em termos visuais, «Watchmen» assenta apropriadaa supressão estratégica dos dois repórteres implica mente numa estrutura básica de 9 vinhetas por páo abafamento do mediático escândalo, salvaguarginas, numa grelha em registo clássico que confere dando Nixon de quaisquer consequências. Porém, no uma rigidez imprescindível ao tom narrativo, denso mundo reinventado por Moore, o Nixon de 1985 já e quase claustrofóbico. A solidez artística de Dave Gibbons e a sua atenção ao mais ínfimo dos deta- não é o homem firme e determinado de outrora, antes parecendo uma bizarra fusão entre a versão prélhes são perfeitamente complementadas pela palete alzheimer do presidente americano Ronald Reagan de John Higgins. Este fugiu deliberadamente às coe a “Dama de Ferro” britânica dos anos 80, a enres primárias usualmente associadas ao estilo, optão primeira-ministra Margaret Thatcher —talvez as tando antes por tons secundários que poucos à parduas figuras mais odiadas pelo liberalismo e pela tida imaginariam resultar, como castanhos, roxos, esquerda britânicos da época, que Alan Moore tão ocres, rosas e laranjas. bem personifica.

Aliás, esta quase militância anti-sistema de Moore tem-no colocado em permanente confronto quer com as grandes editoras americanas, quer com os estúdios de Hollywood que têm adaptado as suas obras ao cinema, com resultados no mínimo pouco brilhantes. Depois do inenarrável «Liga dos Cavalheiros Extraordinários», do incipiente «From Hell – A Verdadeira História de Jack, O Estripador» e do razoável, mas adulterado, «V for Vendetta», o realizador Zack Snyder, que adaptou «300» de Frank Miller ao grande ecrã, foi o escolhido para dirigir a mais ambiciosa adaptação de sempre, com um orçamento que parece acompanhar as enormes expectativas. Depois de quase 18 anos de disputas legais entre a Warner e a Fox pelos direitos da adaptação, e uma derradeira investida da segunda que quase liquidou a estreia para a data prevista, a margem para erro é praticamente nula. A versão cinematográfica de «300» era fria e plástica, demasiadamente digital para recriar a brutalidade das batalhas entre Espartanos e Persas. Mas «Watchmen», além de um orçamento largamente superior, conta com a eloquência cínica e os diálogos fluidos de Alan Moore que contrastam bem com o discurso “duro de rins” e ostensivamente estereotipado de Miller. E isto poderá servir melhor a transposição de «Watchmen» para o cinema. Os dois trailers já lançados prometem: a verosimilhança de guardaroupas, cenários e situações parecem indiciar uma adaptação respeitosa do livro. Mas o sucesso, pelo menos crítico, do filme, estará na sua capacidade de transmitir as subtilezas narrativas que transformaram «Watchmen» na obra de referência que é hoje. Recriar as montanhas de Marte ou a fortaleza polar de Ozymandias, o “Homem mais inteligente do mundo” não será tarefa difícil. Mas até no cinema, “Deus encontra-se nos detalhes”, mesmo que, neste caso, Deus se chame afinal Doutor Manhattan.

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fotografia: Pedro Matos produção: Conforto Moderno make-up: Vera Pimentão

Agradecimentos ao Fontana Park Hotel

www.FontanaParkHotel.com

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texto: Carla isidoro · Fotografia: Pedro Matos

Sandra Barata Belo

Camisa e saia STORYTAILORS

Convidámos Sandr a Bar ata Belo & Pedro Lima para uma sessão de fotos e conversa. A ideia era juntar dois dos actores mais proeminentes da actualidade, passar algum tempo com eles e fotografá‑los num dos nossos hotéis favoritos, o Fontana Park. A Sandr a popularizou-se no recente filme «Amália» e o Pedro tem protagonizado em diversas novelas e filmes. Pensámos em algumas perguntas iguais na tentativa de encontrar pontos em comum entre ambos, mas acabaram por revelar-se pessoas bastante diferentes. Não queríamos publicar um perfil jornalístico de dois actores nem fazer perguntas especificamente profissionais. A ideia era divertirmo-nos numa sessão declaradamente anti‑crise. Entre mudanças de roupa, maquilhagem e poses fotográficas, trocámos dois dedos de conversa.

A Sandr a diz que é uma sonhadora, mas somente até “ao ponto de viver bem com a realidade”. Usa florais de Bach nos momentos de maior stress e ansiedade, apaixonou-se por Amália na fase de preparação para a personagem, e adora perceber as diferenças biológicas e psicológicas que separam os homens das mulheres. Diz que as pessoas têm de reservar um espaço para o universo dentro delas próprias, que a vida no planeta Terra é um privilégio cheio de cor, prazeres e dor, mas que haverá outras formas de vida igualmente interessantes em planetas a descobrir. Sente que a actual crise é uma boa oportunidade para haver uma mudança no paradigma social que nos tem guiado e para instalarem-se novos valores. Está convicta que o saldo vai ser positivo. Sandra Barata Belo Até gosto da crise porque … As pessoas questionam-se; normalmente a seguir a uma crise há mudança, os hábitos alteram-se. Um bom pequeno almoço deve ter … Tomate e chá Se a NASA me enviasse à Lua , carregava a minha bagagem com … Livros, música e cadernos de folhas brancas Se pudesse jantar com a Amália leva-a … A um piquenique lanche-ajantarado És resmungona de manhã ou tens outras qualidades matinais? Calma, por norma. É a melhor altura para ouvir notícias. Top 5 Rir Mãe Correr de boca aberta na praia Beijinhos na boca Os «Verdes Anos» de Carlos Paredes

O Pedro foi grande admirador dos figurões Robert deNiro, Al Pacino e Marlon Brando durante anos, mas actualmente o seu actor preferido é o espanhol Javier Bardem. Quando é convidado para assumir uma personagem tenta entender os objectivos do autor que a definiu, mais do que entender a personagem em si. Acha que um texto, uma obra, deve cumprir um papel importante para a sociedade. Tocam‑lhe questões como a justiça social e a solidariedade, e a actual conjuntura de crise deixam‑no mais sensível às injustiças. As personagens têm-lhe mostrado poucas coisas que não soubesse de si próprio, mas ajudam‑no a perceber a vida e o comportamento dos outros. Para 2009 não traçou grandes objectivos. Está feliz com a vida que tem, mas remata dizendo que gostava de fazer cinema em Espanha ou ter uma oportunidade com o realizador Fernando Meireles.

Pedro Lima Até gosto da crise porque … Não gosto nada da crise mas reconheço que as crises têm o efeito de induzir o ser humano a encontrar aquilo que de melhor têm em si; acho fundamental cultivar o nosso lado solidário, quando o temos. Se pudesse tomar uns copos com um actor internacional que admiro , convidava … O Jack Nicholson. Não é o meu actor preferido mas ele deve ser muito divertido, ter muitas histórias para contar, e deve comer e beber lindamente. Se fosse um rapaz feínho e no cinema ninguém quisesse saber de mim , gostava de ser … - mecânico de automóveis em Saint-Tropez - detective particular só para senhoras - massagista de aves raras - barbeiro num hotel do Funchal Gostava de ser isto tudo, principalmente massagista de aves raras. Deve ser gratificante chegar ao fim do dia depois de ter massajado cinquenta piriquitos. Se a NASA me enviasse à Lua , carregava a minha bagagem com … A mulher e os filhos, os amigos, a beleza. Um bom-pequeno almoço deve ter … Torradas, todos os dias. É uma tristeza quando não tenho torradas. Top 5 Minha mulher e os meus filhos O meu trabalho Os meus amigos Surf Beleza

Pedro Lima

Fato, camisa e gravata HUGO BOSS

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texto: carla carbone

1 Digamos que não faltaria opulência e fausto se nos deixássemos levar pelos prazeres hedonistas que descrevem estes objectos, e não faltariam também objectos e produtos a ajudar a exprimi-lo. Na verdade todos os produtos atrás descritos e que ajudaram a montar o “cenário” de verão exótico foram criados por designers russos: Timur Burbayev, Konstantin Chirkov e Yegor Zhgun, do estúdio Art., Lebedev Studio, entre outros. Se se pudesse falar, em linhas gerais, num design russo, talvez nos atrevêssemos a descrevê-lo como opulento e ecléctico. Muita cor, muita forma ondulante. Um certo sensualismo parece percorrer as formas nas peças realizadas por estes designers, até mesmo em hotéis. A “happy chaise longue” de Dima Loginoff, designer russo, nascido em 1977, parece transmitir esse sentimento de optimismo e de colorido que acompanha os designers e a cultura russa. Um esforço para sair de um estado deprimido? O que é certo é que tudo o que se encontre e que tenha alguma coisa a ver com design, é de facto muito vivo e dinâmico. Poderse-á falar de uma onda de design orgânico em São Petersburgo? E até em maior escala, uma tendência russa para as formas curvas? O interiorismo parece estar bem presente na actividade dos designers russos. Muitos cobrem paredes e tectos de hotéis e bares com formas curvas, lustrosas e luminosas, mas não deixam de fazer alusão, um pouco por todo o lado, e em concreto, ao velho suprematismo de Malevitch, movimento que teve grande impacto no exterior do país no início do século XX. Não são raros os elementos, como cadeiras ou até mesas, em que encontramos esses apontamentos da vanguarda russa, de rectas e perpendiculares, e do construtivismo de Rodchenko, Tatline, Stepanova e El Lissitzky. Um contraste, se pensarmos que essas formas rectas se confrontam com as formas curvas dos espaços.

Dima Loginoff, a propósito de formas orgânicas, diznos sobre a sua “happy chaise longue”: “é a forma de um sorriso. Por isso se chama Happy Chaise Longue! Estava a pensar numa forma em que um casal pudesse descansar”. Loginoff considera não ser um designer que pense muito em formas orgânicas, mas antes um designer “irónico”.

Dima é cabeleireiro de profissão, hair stylist, e admi-

rador de Alexandre Vassiliev. Entende que a identidade do design russo ainda não está completamente concluída, mas relembra a história do século XX com nomes como Dyagilev, o atelier Yteb e o artista Erte, em Paris: “Claro que a cultura russa tem influência no design russo, mas não podemos esquecer que a Rússia também faz parte da cultura europeia. Ou estarão esquecidos que, no século XIX, São Petersburgo era reconhecida como a cidade mais elegante da Europa?”.

Dimo Loginoff oferece-nos formas como os candeeiros “Simply biscuit”, em que parecem estender-se num

princípio de dobragem, como o origami. Muitas vezes Loginoff desenha a pensar nas influências da moda e do estilismo. Não esquecer que é cabeleireiro profissional e que as formas da “Cut chair” podem imaginar-se como longos cabelos cortados energicamente e sem hesitação ou pedaços de tecidos leves e soltos: “Eu pensei na cadeira “Cut chair” a pensar na moda, é como um pedaço de tecido que é cortado pelo retalhista. Muito elegante”. Por seu turno, “ter desenhado a “Psyche chaise longue” foi como ter desenhado um grande insecto com patas finas, posicionando-se mais ou menos entre o dinamismo e a tranquilidade”.

A peça “Brushwood” lembra algumas das soluções de designers holandeses como o ninho Tak de Tiepkema, nos termos do design téxtil. Dima responde: “Coco Chanel costumava dizer que ‘só aqueles que não têm memória é que se mostram confiantes acerca da sua originalidade’”. Dima ainda desenha hotéis, como o extraordinário Lace Hotel, que ainda não foi construído, e que se baseia numa renda tradicional russa. A ideia é que cubra uma fachada de um velho edifício de Amesterdão. Sobre o facto deste hotel ainda não ter sido construído, Dima Loginoff avança: “Ainda é um conceito, mas não é mau que ainda não tenha sido realizado. Alguns projectos vivem toda a sua vida sem de facto terem saído do papel e não deixam de ser extraordinários por isso. O design é um grande palco e a minha missão é envolver-me nele”. Dima ganhou o segundo lugar no International Design Awards que se realizou em Los Angeles, no ano passado.

Algumas das peças de mobiliário de Loginoff, embora ostentem uma aparência de grande espectacularidade, ainda não foram produzidas. É o caso da “Bone lounge”. Muitas pessoas perguntam a Loginoff onde podem comprá-la, mas a peça ainda não foi produzida. Tanto esta como a “C-stool”, para Loginoff, são peças de design muito sensuais e femininas.

1. Simply Biscuit 2. Happy chaise Longue 3. Cut Chair

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opulência e fausto

dimA loginoff

Se imaginasse um verão russo e solarengo, descrevia-o com um casal elegante, ao ar livre, a espraiar-se numa longa poltrona colorida e ondulante —a happy lounge— acompanhado de um guloso gelado Latustridus bem servido num copo feito de waffles. Não esquecendo para isso os cubos de chocolate —fabricados para a Vernost Kachestvu— ou ainda as fatias estaladiças de fruta cobertas por açúcar. À noite, permitir-se-ia ao casal uns pequenos pecadilhos ao sucumbir a uma vodka forte de Osoboye Mneniye. A garrafa, de vidro fosco e impressa a letras azuis, seria desenhada com sofisticação e requinte.

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texto: francisco vaz fernandes · imagens: cortesia da Galeria Emmanuel Perrotin

Do ventre da terra Johan CreTEn Esculturas em cerâmica é tudo o que menos se espera de um artista contemporâneo. No entanto é esta matéria menos nobre que convoca valores sagrados e ancestrais associados ao acto da criação, mas também a correntes eruditas sobre o grotesco que tornaram Johan Creten num caso singular.

"Why does Strange Fruit always look so sweet?" 2008

www.GaleriePerrotin.com

View of the exhibition "Ex Natura" in 2008 at Mus

Bronze 305 x 114 x 102 cm

English version 97

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Contrariamente a muitos artistas da sua geração, Johan Creten, um escultor flamengo que completou a sua formação em Paris em 1988, não enveredaria pelos discursos dominantes dos inícios dos anos 90. Enquanto a linguagem plástica era avassalada por questões de identidade, maioritariamente tratadas a partir da instalação em vídeo e fotográfica, Creten manteve um fascínio anacrónico por técnicas tradicionais da escultura. Uma parte da sua obra continua a ser feita em bronze, uma liga metal associada ao academismo, ou então, o que é mais original, em cerâmica, matéria reservada às artes decorativas ou empregue na escultura de natureza vernacular. A própria ideia de “obra de arte”, assim como o carácter simbólico implícito nos seus trabalhos, tornaram-se princípios sui generis dentro das artes plásticas Depois de renegados por gerações sucessivas de artistas, são princípios a ser reavaliados por artistas como Johan Creten, que buscam uma certa dimensão universalista na sua obra.

Uma das esculturas de J ohan Creten, “Why Does Strange Fruit Always Look So Sweet?” segue de perto a retórica de Arcimboldo, já que um vulto humano ergue-se coberto por furúnculos grosseiros que lembram vagamente frutos, desfigurando-o. “Somos todos frutos que broÀ primeira vista muitas das peças que tam e apodrecem formando a terra produz parecem sair do fundo do mar A propósito da na qual outra coisa crescerá depois ou de uma escavação arqueológica. construção de nós. Mas esta escultura represenDiríamos que são obras destituídas dos de naturezas ta também o Bonhomme selvagem da seus traços, amputadas, ou com incrusmortas, muito ao floresta ou o sagrado num sentido múltações que as desvirtuam. A desfiguragosto da época, tiplo”. Esta peça à escala humana foi ção produz na sua obra um efeito groArcimboldo uma das obras escolhidas para figurar tesco premeditado que nos faz pensar reconstruía no Museu da Caça em Paris (2008), numa comunhão com os ideais da “grucom fruta, a exposição mais emblemática do arta” cultivados durante o Renascimento flores, peixes tista até hoje. Colocada à entrada do e o Maneirismo italiano. Esta corrente e animais pátio, seria apenas o prenúncio do subterrânea que em geral se opõe ao fisionomias mundo fantástico de Creten diluído no classicismo das formas reaparece ao humanas. ambiente faustoso e pesado do mulongo dos séculos, esporadicamente, Os universo seu. As suas obras distribuíam-se entanto na literatura como nas artes plásfantástico dos tre várias salas ao lado de animais ticas e na arquitectura. É uma correnseus quadros selvagens empalhados, quadros com te onde os elementos orgânicos e obscorresponde cenas de caça e mobiliário antigo. As curos são privilegiados em desprimor à expectativa suas peças pareciam ter pertencido da pureza das formas e da luz. Franz de um desde sempre àquele local. O seu poKafka na literatura, Eric Mendelssohn coleccionador tencial decorativo era manifesto e ase Gaudi na arquitectura são apenas alde curiosidades sumido na totalidade. Era notório que guns desses expoentes onde a referêndo séc XVI, ávido as suas esculturas ganhavam mais sencia aos ideais da caverna e da gruta de um misto tido num espaço museológico sobrecarestão presentes na obra. Surgem em de bizarria e regado de pertenças de gerações moroposição ao ideal do palácio de crisraridade. tas do que no espaço branco e frio de tal transparente e luminoso imposto a uma galeria de arte. Em parte explicapartir da revolução industrial e que vingaria até ao se porque no museu o quotidiano humano é desvafinal do modernismo. No Renascentista e Maneirista lorizado dando-lhe uma envolvente irreal, fantástica italiano há uma profusão de ensaios sobre desvire estranha, tornando-se a envolvente perfeita para tuamento das formas clássicas que espelham a corapreciar a sua obra. rupção das formas divinas da criação ficando visível o lado grotesco. Creten, que foi bolseiro na Villa Medicis em Roma (1996/97), teve acesso a esta corrente de pensamento presenciando ao vivo a obra desses artistas que aclamaram um universo de fantasia que ele estava pronto a abraçar. “Foi nas grutas italianas do Renascimento onde se produziram elementos híbridos fantásticos que pertenciam simultaneamente ao mundo aquático e ao terreno, explica Creten” Arcimbolo que pode ser visto como uma síntese de toda essa cultura italiana antiga era à partida um dos seus grandes fascínios. “Ele joga com ambivalência entre o visível e o secreto.” A propósito da construção de naturezas mortas, muito ao gosto da época, Arcimboldo reconstruía com fruta, flores, peixes e animais fisionomias humanas. O universo fantástico dos seus quadros corresponde à expectativa de um coleccionador de curiosidades do séc XVI, ávido de um misto de bizarria e raridade.

"Narcissus Saved" 2005 Glazed stoneware 109 x 68 x 76 cm

Entre as obras expostas no Museu da Caça, a que ganhou maior atenção foi um torso feminino coberto de flores feito em grés. A série de torsos “Odore di femmina” surgiu durante uma residência artística na fábrica de porcelanas de Sèvres (2004-207) onde teve ao seu dispor os utensílios e as técnicas antigas de cozedura que se aplicam na produção de porcelanas. “Estas esculturas têm um lado mágico devido à presença do fogo durante o seu processo de realização. Não é possível encontrar esse lado sagrado numa obra realizada em resina e muito raramente numa pintura”. Para o artista essas esculturas com pétalas simultaneamente frágeis e cortantes, assim como as perfurações corporais, representam a natureza feminina. São elementos que pertencem à fantasia do universo masculino que muitas vezes é colocado como uma anti-natureza e nesse sentido remete para o grotesco. O excesso e o fantástico contido permitem ao seu autor um corte com a realidade racional e coerente, fornecendo assim uma abertura para uma expressão sexuada das suas esculturas. Para entender essa formulação é necessário citar Mikhail Bakhtin, quando se refere a representações femininas ligadas à cultura popular, também manifesta em objectos de terracota. “Nessa tradição a mulher liga-se essencialmente ao baixo material e ao corporal: ela é a encarnação do "baixo" ao mesmo tempo degradante e regenerador. A mulher rebaixa, reaproxima-se da terra, corporifica; mas ela é antes de tudo o princípio da vida, o ventre.” Também os torsos femininos de Creten parecem personificar o obsceno dirigido contra todos os ideais abstractos e dar a esses corpos a expressão de um vaso de fecundação que destina à morte tudo que é velho e acabado. Comparar esses torsos femininos às deusas da fertilidade pré-histórias é pertinente já que a preferência de Creten pela terracota também não é inocente. O artista coloca-se em união com culturas ancestrais entre um conhecimento popular e um conhecimento erudito. Convoca o sagrado e presta-se ao papel do demiurgo, o homem que modela a terra que aparece invariavelmente como acto inicial do nascimento da humanidade e do universo em quase todas as culturas. Refere-se a um panteísmo associado a forças profundas da natureza que vêm do seu interior materno e cavernoso. É esse pensamento mágico alimentado pelas ideias do artifício e do grotesco, vagamente anacrónicas, que tornou a obra de Johan Creten uma referência, criando perspectivas novas aos estereotipados caminhos da arte contemporânea.

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View of the exhibition "Strange Fruit" in 2008 at Galerie Emmanuel Perrotin Miami,

View of the exhibition "Ex Natura" in 2008 at Mus

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texto: luísa ribas

Tendo como local principal a [HKW] Haus Der Kulturen Der Welt (casa das culturas do mundo) o festival decorreu entre finais de Janeiro e início de Fevereiro, dividindo-se em diferentes núcleos. Iniciado como um festival ancorado no filme de vídeo, rapidamente assumiu uma perspectiva transmedia, dedicando-se à arte e cultura digital. Actualmente integra a exposição, o programa de conferências, performances e apresentações em registo informal. O digital greenhouse foi um dos formatos mais estimulantes de apresentação e discussão de projectos. Nesta edição o tema "Deep North" lançou o desafio de repensar a cultura propondo a questão da transformação ecológica como transformação cultural. Procurando transcender a dimensão alarmista dos discursos ecológicos, abordaram-se vocabulários culturais que, de forma crítica, reflectem sobre a complexidade desta equação.

O outro award of distinction foi atribuído a "Six Appartments" de Reynold Reynolds (EUA), uma instalação vídeo que retrata a vida em isolamento de 6 pessoas nos seus apartamentos. Um comentário crítico sobre a passividade dos sujeitos que, apesar de na sua rotina diária se confrontarem com as notícias da crise ecológica, seguem sem alterar seus hábitos ou comportamentos em relação à mesma. O júri atribuiu o primeiro prémio a "Tantalum Memorial" (RU/ JP) afirmando critérios como a "qualidade de execução, densidade imaginativa e as suas forças metafóricas e conceptuais". Este memorial sobre as mortes das guerras "coltan" do Congo baseia-se numa rede de "telefonia social" internacional congolesa, o "telephone trottoire", accionando dispositivos reactivos à participação da comunidade congolesa de Londres na rede, e proporcionando uma leitura metafórica um fenómeno local com impacto global.

A "tradição" do Transmediale está inevitavelmente ligada à componente "CTM – club transmediale" que cumpriu este ano o 10º aniversário (em conjunto com o festival canadiano parceiro Mutek) de uma actividade dedicada às culturas audiovisuais independentes, sob o tema "structures". Tendo surgido inicialmente como um programa especial paralelo ao Transmediale focado na convergência cultural entre música electrónica e digital, club culture e media arts, rapidamente ganhou voz própria. Durante 13 dias o programa incluiu concertos, performances audiovisuais, instalações, workshops e painéis de discussão em torno de formas artísticas interdisciplinares e experimentais potenciadas por redes e micro-estruturas da música e media art independente.

Na exposição "Survival and Utopia: Visions of Balance in Transformation" salienta-se ainda a instalação vídeo de Fernando José Pereira, artista e docente da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, que de forma poética e contida aborda a necessidade de comunicação e observação de uma pequena povoação remota no Circulo Polar Ártico. "Remoteness" propõe uma observação passiva desse universo distante, realizada com imagens recolhidas por uma webcam, posteriormente trabalhadas para esta contemplação visual e “aural”.

Foi no espaço principal do CTM —o club "Maria" [MAO] Maria Am Ostbahnhof— que Rudolfo Quintas apresentou a performance "Burning the sound", vencedora de um prémio de distinção, tendo o júri salientado a qualidade do trabalho "equilibrado na forma como alia tecnologia e expressão, composição e performance…". "Burning the sound" aborda uma das ferramentas mais primárias e essenciais da humanidade —o fogo— matéria de fascínio que no seu duplo papel de elemento destruidor e gerador de energia é aqui alvo de tradução sonora e visual. Rudolfo Quintas tira partido da dimensão ritual e física da performance sobrepondo a expressão a todo o aparato e sofisticação tecnológica subjacente. O corpo como interface é um tema transversal ao trabalho de Quintas, focado no desenvolvimento de sistema audiovisuais interactivos para performance, de que se destacam a participação no grupo NIP —New Interfaces for Performance— e no projecto SWAP com Tiago Dionísio entre 2000 e 2007.

burning the sound — breaking the ice

Próxima no tema, a instalação-vídeo "Beyond the End – The Polar Project" de Charly Nijensohn (Gl) —vídeo contemplativo de indivíduos que vagueiam nas plataformas de gelo do Ártico— ou ainda "Sonic Antartica" de Andrea Polli (EUA) trata a transformação climática com sonificações, audificações e registos documentais numa instalação sonora e visual. Os olhares críticos ao "discurso verde" reflectem-se nas “Extreme Green Guerrillas”, uma série de comentários irónicos, mas lúcidos, às tipologias de comportamento "verde" com que Michico Nitta (RU) propõe soluções para a inviabilidade de existência humana como factor de destruição ecológica. Metaforicamente, "Click & Glue" de Jana Linke (DE), reforça a distopia, com o comportamento de um dispositivo que se conduz à sua própria imobilidade. Em paralelo, o registo informal característico do CTM assume-se num conjunto de instalações, workshops e discussões no [KKB] Kunstraum Kreuzberg Bethanien. Enquadrada neste programa, uma outra representação lusa digna de menção, a media label "crónicaelectrónica". Baseada no Porto e iniciada em 2003 a "crónica" reúne cerca de 40 edições, nacionais e internacionais, com um foco especial na música electrónica experimental e artes audiovisuais relacionadas, e esteve presente no mercado das Redes Criativas Independentes em iniciativas que promovem e cultivam culturas audiovisuais experimentais e alternativas.

Rudolfo Quintas

"Bunrning the sound"

O cruzamento dos temas "deep north" e "structures", embora remoto, parece convergir numa ideia de equilíbrio instável, num "estado de transição". "Deep North" propõe uma "introspecção global" sobre o papel da arte e cultura digital neste processo de transformação, evidenciando a ideia de rede de relações entre eventos e culturas. Os pontos de ligação e transição entre domínios culturais estão em evidência no tema auto-referencial do CTM, sobre estruturas e redes que impulsionadas pela tecnologia digital diluem fronteiras e dissolvem estruturas estabelecidas: um "estado de transição" localizável em vários planos, tanto a nível da reflexão sobre o binómio ecologia/cultura, como da sustentação de culturas independentes, ou do reconhecimento internacional de uma arte digital portuguesa emergente. Nestes dois festivais de referência, vocabulários, críticos e estruturas independentes exprimem a urgência de prospecção de estratégias para sustentar a mudança procurando "novas formas de ler eventos locais e globais".

TRANSMEDIALE 09 O Tr ansmediale, festival internacional para a arte e a cultura digital, apresenta anualmente em Berlim posições artísticas que reflectem sobre o impacto sócio-cultural das tecnologias. Este ano, mais uma vez em Berlim, premiou "Burning the Sound" do português Rudolfo Quintas. 

www.clubtransmediale.de/ www.transmediale.de/en/burning-sound www.cronicaelectronica.org www.virose.pt/fjp

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Deserto Rosso Pedro Pacheco www.pedro-pacheco.com

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Casaco em vinil NUNO BALTAZAR, calças em pele ALEXANDER PROTIC, botins em pele NUNO BALTAZAR. 

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Vestido com aplicações em metal RICARDO DOURADO, colar em pele e metal BURBERRY PRORSUM

Top com aplicações RICARDO PRETO, colete e saia em pele retalhada LUIS BUCHINHO.   


texto: flávia santos

A tendência dos hostels chegou para ficar. Entre os melhores do mundo, quatro deles estão em Lisboa. Alguns até se confundem com instalações de arte. E com o mercado a ferver neste segmento, além dos preços e serviços atractivos, a criatividade deve estar em primeiro lugar. O estudante alemão Tobias Herrmann comprou bilhetes de ida e volta numa companhia lowcost com partida de Leipzig e chegada a Lisboa por 59 euros. Em seguida reservou um quarto num hostel com oito camas. Um grupo de três amigos da Roménia fez o mesmo. Todos eles compraram bilhetes baratos e depois garantiram as pernoitas num hostel da cidade. Os quatro melhores hostels do mundo estão em Lisboa, segundo a classificação do site www.hostelworld.com que elegeu o Travellers House como o melhor. A PARQ visitou (de forma aleatória) alguns destes espaços e descobriu novos conceitos estéticos e arquitectónicos que deram razão à classificação. O diferencial começa pela decoração interna sofisticada com áreas partilhadas mais agradáveis, como a cozinha e as casas-de-banho.

Entrámos no Lisbon Lounge, o primeiro a inaugurar esta tendência em Lisboa. Ocupa três andares num edifício remodelado na Rua de São Nicolau, na Baixa. No primeiro piso a recepção para o check-in, a cozinha espaçosa e totalmente equipada, sala com vários sofás aconchegantes e possibilidade de acesso à internet. Nos dois andares superiores ficam os quartos com duas, quatro, seis e oito camas, todos equipados com TV. Ao lado há áreas lounge para relaxar, ler um livro e conversar. Em seguida visitámos o Living Lounge Hostel na Rua do Crucifixo. O espaço foi inaugurado há pouco mais de seis meses e surgiu da parceria com o Lisbon Lounge. Para além de oferecer os mesmos serviços dos outros hostels, a decoração dos quartos é o grande diferencial do Living. Foram buscar inspiração na literatura, música, artes, fotografia, cinema e pelos corredores encontramos o jazz de Dizzy Gillespie e a literatura de Fernando Pessoa.

Próxima Paragem: Hostel Lisbon Lounge Hostel Rua de São Nicolau, 41 Tel. 21 346 20 61 info@lisbonloungehostel.com Living Lounge Hostel Rua do Crufixo, 116 - 2º Tel. 213 461 078 info@livingloungehostel.com Travellers House Rua Augusta, 89 Tel. 210 115 922 info@travellershouse.com 

Lisbon Poets Hostel Rua Nova da Trindade, 2 - 5º. Tel. 21 346 10 58 Lisboa Old Town Rua do Ataíde, 26 A. Tel. 213 465 248 lisbonoldtownhostel@gmail.com Goodnight Backpackers Rua dos Correeiros, 113 - 2º. Tel: 21 343 01 39 gnbookings@gmail.com

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texto: sofia saunders

murmur A Murmur foi pensada para ser como um murmúrio, leve e cintilante para os ouvidos mais atentos e abertos às novidades do design internacional. O nome provém do rumor do mar, um privilégio diário na Foz Velha, onde a loja se situa, junto ao Castelo do Queijo. O seu espaço é branco, neutro e luminoso para melhor dignificar peças sobejamente conhecidas da Moroso, Secto Design, Missoni Home, Industreal e Modular. O serviço de design de interiores é ainda uma mais-valia importante assegurada pela designer Ana Ribeiro. Produzem linhas de mobiliário próprias que se podem adequar a espaços específicos dos clientes. Esplanada do Castelo, 41, Foz do Douro – Porto De 2ª a sáb. das 10h às 19h Tel 226 169 426

www.murmur.pt

texto: sofia saunders

Machado Joalheiro A Machado Joalheiro, com lojas na Av. da Boavista e na rua 31 de Janeiro, no Porto, abre um novo espaço comercial na Avenida da Liberdade em Lisboa para responder às muitas encomendas dos clientes do Sul. Situada no Tivoli Fórum, ao lado da Fashion Clinic, a nova loja foi concebida pela arquitecta Fernanda Lamelas procurando conjugar um certo minimalismo clássico com aspectos práticos de uma montra de luxo. Da joalharia à relojoaria, esta loja centenária tem ao seu dispor criações de nomes tão prestigiados como Chaumet, Dior, H. Stern, Piaget, Cartier, Vacheron Constantin, Bell&Ross, A. Lange & Söhne, Franck Muller, Jaeger-LeCoultre, entre outros. Tivoli Fórum Av. da Liberdade, 180, Lisboa Tel. 211543940

places

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texto: Manuel teixeira

James Martin’s Fine and Rare

texto: carla isidoro

texto: sofia saunders

Águas Mil

Tay Tea

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A edição da James Martin’s Gold Experience oferece aos apreciadores de whisky a possibilidade extravagante de degustar um blend de 20 anos de grande reputação com a adição de pepitas de ouro de 23 quilates. Mais que uma extravagância inglesa, a James Martin’s consagra uma experiência de puro luxo. Para os grandes apreciadores de whisky os produtos James Martin pertencem a uma busca de refinamento que encontramos muitas vezes na cultura britânica, nomeadamente na história dos seus carros de topo de gama. James Martin, fundador há mais de um século, comercializava whiskys que tinham sido envelhecidos durante mais tempo do que o habitual, tornando, já nessa altura, os seus produtos sinónimo de qualidade e distinção.

Nos últimos anos o mercado de consumo de águas de mesa subiu para outro patamar. Enquanto os ambientalistas apelavam a um corte no consumismo generalizado e ao bom-senso das famílias ocidentais para pouparem água, esta ganhou um estatuto social excepcional. Percebeu-se que afinal a água é um recurso limitado e que em tempos de seca mundial não nos serve de muito um oceano salgado à nossa frente para saciar a sede. A água é um bem essencial que além de nos refrescar, limpar e purificar, também nos confere um determinado estatuto social. Passou a ser chique. O mercado de produtos gourmet tem lançado águas que aliam a sua qualidade e pureza a um design exclusivo e a um preço elevado, determinando que elas também passem a ser apreciadas pela sua beleza. Não deixa de ser estimulante, e irónico, conhecer as novas marcas de águas de luxo e suas garrafas escultóricas, assim como as cartas de águas de alguns restaurantes atentos a esta tendência. Do Japão a Inglaterra, são diversos os países empenhados em embalar águas captadas nas mais finas e raras fontes. Portugal também já comercializa as suas, como a Chic (de Monchique) ou a Glaciar Diamond (de garrafa robusta e apelativa). As marcas Finé Pet, 420 Volcanic e Fillico foram introduzidas no mercado mais recentemente. A Finé vem do Japão e é uma água termal vulcânica; a 420 Volcanic é captada na Nova Zelândia e a Fillico é o ex-libris delas todas: a garrafa é feita à mão, tem dezenas de cristais Swarovsky encrustados e é encimada por uma tampa em forma de coroa igualmente trabalhada à mão. A produção é limitada a 5.000 garrafas por mês. Até ao momento, a água “claramente” mais cara.

Feitos de folhas alta qualidade, os chás Tay Tea têm um perfil aromático e sofisticado, com a selecção de folhas e aromas a cargo da especialista Nini Ordoubadi. Os chás vêm das mais reputadas plantações e são misturados à mão com ervas botânicas e orgânicas. Na loja, em Nova Iorque, a selecção de produtos é irresistível. Além das latas de chá rotuladas com os mais divertidos nomes (Marry Me Again ou Better than Sex são alguns), encontramos toda uma gama de bules, chávenas, coadores, kits de oferta e artigos que tornam a cerimónia do chá mais personalizada. Para os apreciadores que vivem fora dos USA, a compra online é uma opção. Entrem na secção Teas dentro do website e encomendem à vontade. Nós já o fizemos.

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English version lenine p.44

This month, Lenine is back in Portugal with a flower in his luggage, his first album of new material in seven years and which he will be performing live. A delicate flower which is able to resist the harshness of a dry wind, arid soil and the heavy rain of a tropical summer; Labiata, the queen of the Brazilian North East, is an orchid. It is also the name of the latest album from singer-songwriter and self-confessed orchid fan, Lenine. With eleven tracks, the follow-up to Falange Canibal contains new material which, while intimate, delivers its message expressing concern for the future of the planet. The eleven tracks show the versatility of arrangements with a contemporary sound, which this Pernambucan, after twenty years in Rio de Janeiro, does so well. “Martelo bigorno” which opens the album, the cry of someone who cannot settle until all his dreams are realised, is the most autobiographical song of the album. “Lá vem a cidade” shows a different Lenine, with a hard-hitting message cosseted in a gentle rhythm; “a sombra do futuro e a sobra do passado” haunts “É o que interessa,” while “A Mancha” foretells environmental disaster. In “É fogo” he tells us “green is soon going to be turned to ash,” warning us that “the damage is going to have to be paid for by all of us.” Is it a bit over the top? On first hearing perhaps, but what is alarming in all of this is how human nature tends to overlook the dangers, and just not care. The poetry of the lyrics draws us in, provokes us, asking brusquely “why don´t you believe it?” (from “O Ceu é muito” co-written with Arnaldo Antunes) and begs us to believe it. To record “Labiata”, Lenine worked alongside his longstanding collaborators Bráulio Tavares, Lula Queiroga, Duda Falcão and even his own children, whose voices form the choir in “Continuação”. With post-production done in Peter Gabriel´s studio, the album developed a more eclectic sound which mixes gentle, more intimate chords with a rock n roll guitar, but always finely tuned towards pop. In “Samba Beleza”, there is a posthumous partnership with Chico Science, a song which grew out of jottings which the King of mangue-beat´s sister gave to Lenine. The result is a mixture of music and poetry which is both delicate yet emotional, and which only two figures like Lenine and Chico Science could possibly carry off. The soft and sweet “Ciranada Praieira” juxtaposes bagpipes and violins in a song about a romance which flourishes on the waves which break and pull back, like the wheel of fortune. Elegant and rough, subtle yet open, Lenine´s presence is apparent in all eleven tracks which magically blend rhythm, melody, word and music, voice and percussion. It is soft yet wild, fragile and robust, rare and seductive, like the flower it is named after.

Jacinto lucas pires p.50

Who would believe that he also sang? In his latest book, he writes about the city and its people, but he has also just launched an album telling his stories of daily life. Jacinto Lucas Pires is in a band called Os Quais, a project both unpretentious and actually quite surprising. Let´s start with the album. Nobody could have imagined that you would form a band called Os Quais and release an album. Where did the name come from? We couldn´t think of a name. Eventually we came across this type of non-name, Os Quais. We wanted to get away from the idea of a name…we thought of

The The, which would be Os Os. I like the fact that there is an implicit question mark, as if you were asking “who?” “who are they?” The album begs a lot of questions, starting with the name of the band and the name of the album, “Meio Disco”. Is it called this because you recorded half a dozen themes? That´s exactly why. While we were recording, Tomás Cunha Ferreira, the other Qual, said to José Tolentino Mendonça (who was taking part in the recordings)) “this isn´t really an album, more of a half-album”. We stopped and looked at each other and realised that would be the name. And where are the other tracks? We were lucky to have six. We didn´t have money for production, we recorded at a friend´s house. We were lucky to get Amor Fúria to produce it and even pay studio time at the home studios of José Castro and Bernardo Barata. Tomas is a painter, I´m a writer, we´ve both got families and so organising ourselves was a bit difficult. To record six tracks was something of a luxury. One of the great things about the album is its unpretentiousness. You sing as if you were with friends, and give the idea that you recorded an album because you´re all friends and you´ve played together for such a long time. That´s exactly it! Just as well it seems like that. There are a lot of disadvantages of not having a professional approach, you waste a lot of time, but there´s the advantage of being at a friends´ house and enjoying what you do. There is the disadvantage of technical imperfection, which we´ve definitely got, but there is the additional advantage of it not being your main job and that you are doing it for pleasure. Are you serious about this? Yes, but we also want to do something well, in the same league as the professionals. The great Brazilian musicians of our age, like Doménico or Pedro Sá, are virtuosos and can share the stage with the likes of Caetano, yet also play among friends, informally, and are not too precious about their genius. You don´t see that much here. There´s a lightness to your work. Your world is in your lyrics, you can feel the presence of characters from your book. As if the album was an extension of your profession as a writer. Quite a few lyrics come from my writing, it´s true that some are almost stories. “A rapariga da caixa” is almost a character and in this way is connected to a short story. We want to know who she is. The song format allows a certain liberty which we don´t have when we write a story, simply because you don´t have to create the whole story within the lyrics…just throw in a few images. Is it a more liberating process? Yes, because paradoxically it is more limited and therefore allows greater liberty. I also feel this with short stories in relation to novels. The short story, by dint of being more compact, permits greater liberty. In a novel you need a more rigorous and mathematical structure which can hold everything together. In a song there is the limit of the metre, the music and there has to be a relationship between the lyrics and the music. The two can´t be going in the same direction, I like to feel that they´re heading in different directions. I love Lou Reed´s “Perfect Day”; the lyrics say everything is wonderful, we´ll go to the zoo, but the way Reed sings is the opposite of what you would expect. He´s depressed. I like this type of ambiguity and playing around. The poet Valery wrote that poetry is the prolonged hesitation between sound and feeling. I can´t write poetry but at least in relation to prose, lyrics and music, I can approach this prolonged hesitation. It isn´t new for me, I´ve been doing this for 20 years with Tomás, but now I feel more at ease with it. And also there is this sense of making my music public and being a part of my lyrics (…) In the January edition of Ler magazine, you said “we cannot carry on being a country in deadlock”. I found a connection between some comments of yours, your short stories and whistling. It made me think whether whistling couldn´t be a way of over-coming the deadlock, a call to change. Whistling can be subversive. I think changes need a context, be it whistling or a call to order.

Are you a whistler? Occasionally, but I´m more given to singing in the shower. Now I whistle in public when we play “Recado.” Sometimes I giggle, it isn´t easy whistling… Back to the other question… Changes don´t begin with short stories or songs. Even when “Grândola Vila Morena” plays on the radio, he symbolises a moment, a certain time. Changes happen through action, people who act. I think this is what is missing, having the initiative to go forward. The metaphorical whistling you mentioned can help to subvert, expose a little rottenness, make the pillar of a building collapse maybe, here or there, but it is important to actually do things. This is what is missing in our generation, going from word to action. If we walked around whistling in public every day, I´m sure something would happen. As you said in your interview, whoever whistles in public has a certain amount of self- esteem. Yes, we would be more public. Imagine 10 million whistling on Terreiro do Paço, it could bring the government down, the regime would change. This has never been done (laughs) You say that “Whistling in Public” is another name for the word “story”. It is quite a common word in Cape Verde, but little-used here… Brazilians also use it. A short story can also be a form of shadow or echo. Like the liberty I was talking about earlier… someone said that in my stories there are a lot of streets, a lot of houses, and that a lot of the stories start from bedrooms or living rooms… I use this a lot, stories starting from the city. I feel, though, that the short story could perhaps be more political (in the sense of being public, of the city) than a novel, even though my two novels have political ideas. This idea of liberty in public is more important in a short story. Your stories depict scenes and people who, if we look around us, we see in our daily lives. When you are out and about in the city do you make a note of what you see? How do you construct your plots? People who know me say I´m a distracted observer. I have a bad memory, I remember trivial things. I think this happens because I write stories. I´m convinced I take from my biographic, factual memory so that I can have others memories, a kind of fictional memory which allows me to write stories. So often, my starting point is fantasy and imagination, but with details which others recognise. I don´t like to dissect stories, it makes me feel paralysed. Sometimes my stories grow out of strong images and for me to start writing, the image has to have a mystery of some sort, something I want to unearth. It should contain, however, a very precise idea. How do you get into the head of a character when he or she speaks or takes a particular decision? You have to feel you are in their place, that you are that person. A bit like when somebody is reading a book and believes that everything in it is actually happening. If it is a good book, you really believe what is happening to that person and it affects you, you identify with them, they become you. It has to be truthful. It suggests that you have to know different personalities and settings. It involves being open to the world, more a question of not building obstacles rather than actually doing something. It is a natural instinct, wanting to be another person, wanting more. One of the difficulties in being a writer is not creating obstacle, allowing this to happen; you have to be constantly honest. It´s a lot of work. At the cinema school in America where I studied, we were told not to get attached to a particular shot because during editing, that shot might have to go. It may not help the rest, or it might detract from it. What would you change in the city and in the people if you could? I would make the city more open. I think it is too inward-looking. There´s that place which has those who came from Cape Verde, and all the Chinese shops… I think the geography of the city doesn´t help. More channels need to be open for people to mix. There are some good ideas, but it needs more ambition, to transform itself more. The powers that be have to open up these channels, via sponsorships and businesses. The city needs to be more connected. Lisbon is trying to establish itself as a creative city. I think it´s a good idea, but it has to be ambitious. It can´t be half-hearted… 96

English version

watchmen p.56

“The best graphic novel ever!” is maybe the most oft-heard phrase over the last eighteen years in relation to Watchmen. After quite a few years in Hollywood legal limbo, the most highly rated American comic series is finally going to hit the screens. Published in 1987, with the end of the Cold War approaching, “Watchmen” is a landmark in American super hero comics, deconstructing and destroying all the romantic clichés normally associated with the genre, many of which had been in place since the end of the 1930s when American comic books first became mainstream. From the very first, the work of Alan Moore and Dave Gibbons from Great Britain created a certain style; Comedian dies and, together with his symbol, a yellow smiley face badge lies bleeding in a New York gutter. It is the end of the super hero age of innocence. In “Watchmen” the super heroes age, have flaws, doubts, depression, are disgraced, kill and die. Paradoxically, the success of “Watchmen” on American comic book publishing was such that it generated a plethora of cheap, shallow imitations which almost brought the industry to a halt within the decade following its publication and almost completely destroyed it. The story transports us to 1985. The Americans have won the Vietnam War and Richard Nixon is still president. Dr Manhattan, the ultimate super hero, is the force behind American military power during the peak of the Cold War and is in a state of constant cheque-mate with the Russian enemy, while the hands on the clock for Judgment day are set permanently at 5 minutes to midnight. First, the super heroes were outlawed; now they are suppressed. The world seems to be in a state of permanent lethargy, the death of Comedian could be the final straw which would put the whole system in jeopardy and perhaps even risk humanity itself. It falls to the remaining “watchmen” (guardians) to avoid this at all costs, even if it means acting at the expense of their own humanity. Or soul. Visually, “Watchmen” falls within the classic format of 9 narrative images per page, a dense organisation of images evoking a certain sense of claustrophobia. The artistic talent and attention to detail of Dave Gibbons complement the colour palate of John Higgins perfectly, who pointedly avoids the primary colours normally used for this genre. Instead, he opts for secondary tones, browns, purples, ochre, pink and oranges. Another curious fact about this book is the inclusion of parallel narratives, showing certain analogies to the main action. In a world where super heroes are part of daily life, stories solely about them may not have much appeal and the reader often comes across, for example, pirate comics, recreated and inserted by Moore and Gibbons into the context of the central narrative. Also, at the end of each chapter, Moore uses an index thereby enriching the experience of the reader, involving them more by making the characters appear almost real via the use of textual fragments and imaginary newspaper clippings referring to a period of time before the current action of “Watchmen”. In a historical context, the political parallels take on significance and – as so often happens – reality imitates art, bestowing a certain visionary imagination upon the creator Alan Moore, the phlegmatic Englishman who has become the most garlanded writer in the history of American comic book writing. In “Watchmen”, Richard Nixon, on a high after winning the Vietnam War, remains in office thanks to a special legislation which allows him to be re-elected after two mandates, something which is happening now in Venezuela with Hugo Chávez being re-elected in supposedly democratic elections In fact, the way in which Moore rewrites the story of the U.S.A draws attention to certain dark stains. If you

weren´t looking for it, you might not pick out the brief mention of Woodward´s and Bernstein´s murder, two Washington Post journalists who were investigating Watergate, the case which would lead to Nixon´s resignation in the middle of his second mandate. In the alternative reality to “Watchmen” the strategic silencing of two reporters safeguards Nixon from any backlash. In Moore´s world, the Nixon of 1985 is no longer the firm politician he was, resembling a cross between preAlzheimer Reagan and “iron lady” Thatcher at the peak of her power; two of the figures most hated by the British liberalist left of Alan Moore´s generation. This almost militant anti-system which Moore has conjured up meant that he has been in almost permanent conflict with the big American publishers and also the Hollywood studios who might have wanted to adapt his work for the cinema. After “From Hell; The True Story of Jack The Ripper” and “V for Vendetta”, Zack Snyder, who directed Frank Miller´s “300” has been chosen to adapt “Watchmen” for the big screen, with a huge budget. After almost eighteen years of legal wranglings between Fox and Warner for the rights, and Fox almost winning at the very last minute, the margin for error is virtually non-existent. The big-screen version of “300” was cold and plastic, too digital to truly recreate the bloody battles between the Spartans and Persians. Yet “Watchmen”, besides having a much bigger budget, has Moore´s eloquence, cynicism and fluid dialogue, making Miller´s look almost clichéd in comparison, and boding well for the cinema adaptation. The already-released trailers look good, the costumes, scenery and the scenes themselves look to be pretty faithful to the book. However, the true, critical success of the film will be in whether it manages to convey the narrative subtlety of “Watchmen” to audiences, something which has made it the reference to super hero fans it is today. Recreating the mountains on Mars or the polar fortress of Ozymandias, “the most intelligent man in the world” won´t be difficult; but the devil is in the details.

Johan Creten p.66 Ceramic sculptures are maybe not what you would expect from a contemporary artist. However, it is the fact that Johan Creten works with such a relatively base material, so often associated with sacred and ancestral acts of creation and with erudite connotations of the grotesque, which makes his art so unique. Unlike many of his generation, Johan Creten, a Flemish sculptor, graduated in 1988, was not swept along by the dominant discourses of the 1990s. While art was questioning its identity via video installations and photography, Creten cultivated a more anachronistic interest in traditional sculptural techniques. Part of his work is in bronze, a metal more obviously associated with academia, but he also works with pottery, a material more often found in the decorative arts or sometimes in more vernacular pieces. The whole idea of a “Work of Art,” as well as the symbolic element present in his own particular work, makes his output relatively unique among the fine arts. After being neglected by successive generations of artists, these ideas are being reassessed by artist such as Creten who seek a more universalist dimension to their work. At first sight, his objects seem to have been dredged from the seabed or from an archaeological excavation. They look amputated, deformed or encrusted. These disfigurations produce the effect of a premeditated grotesque, a marriage of the Renaissance “grotto” with Italian Mannerism. This movement against the grain of the classical form has frequently reared its head at different times throughout history, in literature, architecture and the applied arts. It is a movement in which organic and obscure elements are favoured at the expense of purity of form and light; Franz Kafka in literature, Eric Mendelssohn and

Gaudi in Architecture to name just a few examples of those who refer implicitly or explicitly to the idea of the cave or the grotto in their work. It forms a counterbalance to the idea of the crystal palace, transparent and luminous, which came with the industrial revolution and remained with us until the end of modernism. In Mannerist and Renaissance Italy there was a profusion of essays about the corruption of classical forms which mirrored the corruption of nature´s divine forms, thus giving rise to the grotesque. Creten received a scholarship to study at the Villa Medicis in Rome (1996/97) and for one year had access to these ideas, this universe. “It was in Italian Renaissance grottos where fantastic hybrids were produced which belonged to both the earthly and the aquatic universes.” Arcimboldo can be seen as a synthesis of this ancient Italian style, “ambivalently playing the visible off with the secret.” In one of Johan Creten´s sculptures , 'Why Does Strange Fruit Always Look So Sweet ?' we can feel the presence of Arcimboldo lurking; a human form covered and disfigured with thick furuncles, vaguely reminding us of fruit, “we are all fruit which bloom and rot, from which other things will grow after us. This sculpture represents the forest savage or the sacred multiplied”. This life-size piece was chosen for an exhibition at the Hunting Museum in Paris (2008), the most significant exhibition of the artist to date. Situated at the entrance to the patio, this piece acts as a kind of forewarning of Creten´s fantastical world, diluted in the dark and heavy atmosphere of the museum. His sculptures are arranged throughout the rooms, alongside stuffed animals, hunting scenes and antique furniture, and seem to have always been there, with their decorative potential used to maximum effect. It is extraordinary how his sculptures make so much more sense here in a museum space charged with all the belongings of previous generations, than they would in the cold, white space of a gallery. This explains why, in part, in the museum, the human quotidian is devalued, giving the works a strange, unreal, incongruous quality which is perfect for their appreciation. Among the sculptures exhibited at the Hunting Museum, the one which has attracted most attention was of a female torso covered in gres flowers. The series “Odore di femmina” is from the time he was artist in residence at the Sèvres porcelain factory (2004-2007) where he had all the traditional tools and kiln techniques for porcelain production at his disposal; “these sculptures have a magical side to them on account of the use of fire during production. It isn´t possible to find this sacred element in objects produced out of resin, even less so in painting.” For the artist, this sculpture, with its sharp and fragile petals and bodily perforations, represents the feminine. It contains elements which relate to the universe of male fantasy, often placed as anti-nature, and here used for grotesque effect. The presence of the fantastical and the excessive allow the creator to break with rational, coherent reality and introduce a more sexual expression to his sculptures. Mikhail Bakhtin, when he refers to feminine representations in popular culture, with reference to sculptures of women in terracotta, wrote “within this tradition, the woman is essentially connected to the low nature of the material and the corporeal; she is the essence of “low”, both degrading and regenerating, the woman nearing the earth; but above all else she is the beginnings of life, the womb.” Creten´s female torsos personify the obscene, and give these torsos something of fertility vases, with everything which is old and haggard destined to die. It is interesting to compare these female torsos to prehistoric fertility goddesses since Creten´s choice of material isn´t accidental. In touch with ancestral cultures, he places himself between “lower” and more erudite levels of knowledge. In almost all cultures, the man who models earth is seen as one who practises the primal act of creating humanity and the universe, associated with deep, internal forces. It is this sense of the magical alongside the artificial and the grotesque, anachronistic in its way, which makes the work of Johan Creten, an important reference, illuminating new pathways, away from the more stereotypical approaches of much contemporary art.

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Ilustração Vanessa teodoro

Um prepúcio na escuridão crónica de cláudia matos silva

Uma jovem solteira deixar de utilizar os transportes públicos em detrimento de um veículo pessoal é condenar-se ao isolamento. Perdem‑se verdadeiras pérolas de sabedoria, já para não falar da possibilidade de se conhecer um homem interessante num simples flirt ou mesmo numa queda estratégica para que um gentleman se lance em nosso socorro. Não creio que dentro do carro tenhamos a possibilidade de interagir com os restantes condutores, a não ser que estejamos encalacrados no trânsito, mas nessa altura —à beira de um ataque de nervos— há quem alivie o stress a tirar os “burriés” do nariz ou a cortar as unhas e isso não é minimamente sexy. O meu regresso aos transportes públicos foi vivido com especial ânimo. Os meus pés não dizem o mesmo pois os sapatinhos à Carrie Bradshaw não foram pensados para uma cidade histórica como Lisboa. Tal e qual uma criança, eu revelava entusiasmo em partilhar do calor humano, das horas de ponta, do metro a rebentar pelas costuras, e, acima de tudo, dos velhos hábitos de leitura. É em movimento que digerimos as mais rocambolescas histórias de amor, e pelo que observei nos últimos tempos «Twilight» de Stephenie Meyer é o título que mais salta à vista. Lá diz o ditado, “um mal nunca vem só”, e «Crepúsculo» (título em português) é uma saga que inclui quatro livros —calhamaços— com a possibilidade de um quinto a caminho. E sim, a narrativa da escritora é completamente rocambolesca, o mesmo é dizer que não lembra nem ao diabo!

Edward é um vampiro lindo de morrer e de uma sensibilidade ímpar. Apaixona-se por uma simples mortal, Bella. A história não é nova, a escrita não é brilhante —mas as quantidades industriais de açúcar e melaço, possivelmente intolerados por diabéticos— são irresistíveis a românticos inveterados. Um conto vampírico, que peca pela escassez de sangue e dentadinhas porque este vampiro auto-denomina-se de “vegetariano” recusando matar humanos a fim de saciar-se. O que não quer dizer que não se debata com o conflito de amar a mulher que quer matar —“you are my brand of heroin”— afirma o herói romântico que resiste (a muito custo) ao odor de mel da amada. Apresento-lhes a versão “teengothic” dos livros de Nicolas Sparks —o escritor de culto para mulheres de meia idade— o mesmo de «Message in a Bottle» ou «The Note Book». – No «Crepúsculo»…sexo é que nem vê-lo! —disse uma jovem mulher com o livro entre mãos para outra que olhava enfadada. Ao que parece, explicava, a escritora professa a religião mórmon e por isso é um romance dentro da moral e dos bons costumes. – Olha lá, só te oiço falar do «Crepúsculo»…e agora dizes-me que nem sexo nem nada… mas isso do «Crepúsculo» não é aquilo da pila? —perguntou a interlocutora perplexa. Não sou de intrigas mas parece-me que esteja a confundir «Crepúsculo» com prepúcio, mas digo-vos (também já me rendi à saga «Luz e Escuridão») que não está muito longe da verdade. Lemos o primeiro livro, pelo qual nos apaixonamos, mas depois seguem-se, sem que consigamos parar, «New Moon», «Eclipse», «Breaking Dawan» e só culminamos esta longa viagem com o derradeiro orgasmo!

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Parq Magazine Março 2009