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PIEKE BERGMANS WILD PAINTING PARTY JAZZ LIBERATORZ GUTA MOURA GUEDES REVISTA GRATUITA DE MODA E CULTURA URBANA. SETEMBRO 2008. NÚMERO SEIS.


Número 05. junho 2008.

Índice

director Francisco Vaz Fernandes francisco@parqmag.com

Real People

malin + goetz 10 Sara Lamúrias 12 pieke bergmans 14 john maeda 06

editora Carla Isidoro carla@parqmag.com Direcção de arte Valdemar Lamego valdemar@parqmag.com editor de moda Martin Kullik martin@parqmag.com Trendscout Mário Nascimento mario@parqmag.com

18 You Must shopping 22 You Must agenda 24 You Must tendências

38 Viewpoint

Soundstation

Angola Luso 1966

doces cariocas 34 the bug 36 jazz liberatorz 32

tradução Roger Winstanley roger@parqmag.com

06

PIEKE BERGMANS WILD PAINTING PARTY JAZZ LIBERATORZ GUTA MOURA GUEDES

publicidade Francisco Vaz Fernandes francisco@parqmag.com Cláudia Santos claudia@parqmag.com

Viewpoint

38

angola luso 1966

central parq – Grande Entrevista

42

periocidade Mensal Depósito legal 272758/08 registo erc 125392 Edição Conforto Moderno Uni, Lda. número de contribuinte: 508 399 289 PARQ Rua Quirino da Fonseca, 25 – 2ºesq. 1000-251 Lisboa

textos Carla Carbone Cláudia Matos Silva Cristina Parga Inês Vicente Josine Crispim John Almeida Mário Nascimento Miss Jones Nuno Sousa Ray Monde Roger Winstanley Rui Miguel Abreu Sofia Saunders

00351.218 473 379 Impressão BeProfit / SOGAPAL Rua Mário Castelhano · Queluz de Baixo · 2730-120 Barcarena 20.000 exemplares

fotos Luís de Barros Mécanique Photography Pedro Janeiro Sofia Costa Pinto

distribuição Conforto Moderno Uni, Lda. A reprodução de todo o material é expressamente proibida sem a permissão da Parq.Todos os direitos reservados. Copyright © 2008 Parq. Assinatura anual 15€. www.parqmag.com capa Kateryna L’Agence fotografada por Luís de Barros concepção e styling Storytailors cabelos Helena Vaz Pereira, assistida por Sofia Gonçalves para Griffe Hair Style maquilhagem Victor Fernandes para Mac pós-produção Dinis Santos assistentes de fotografia: Dinis Santos, Tomás Nogueira e Pedro Machado Borges

styling Cameron Carpenter Conforto Moderno Martin Kullik

guta moura guedes

Central PARQ Editorial

o regresso

Depois de 5 edições em que nos propusemos investir nesta claridade que caracteriza Portugal - acreditando retirar daí uma visão singular que nos liberte de formas estereotipadas de fazer revistas - voltamos seguindo os trilhos seguros do espaço que já ocupamos no panorama nacional. A PARQ é um elo de ligação numa rede de gente que se revê na nossa maneira de estar e, desta forma, procuramos ultrapassar a dimensão de revista e desenvolver outras actividades que possam congregar comunidades. Nesse sentido vamos lançar algumas festas, ou encontros como preferia chamar-lhes. Começamos em Leiria com o “Meeting Friends”, porque é cada vez mais importante estar junto dos nossos pontos de distribuição, e estar com aqueles que são fãs incondicionais da revista e contribuem com ideias, calor e entusiasmo para que o projecto seja matéria viva colectiva. Em Lisboa fazemos a festa Rentrée em parceria com o clube Music Box e somos a revista oficial do grande evento Wild Painting Party na Lx Factory. Fiquem atentos às nossas páginas.

universo lego 48 «terapia» 50 olivia arthur 52 international talent support 46

Moda

Mécanique Photography 56

«housewife»

Mécanique Photography 62

A par disso vamos re-activar o site www.parqmag.com e pedimos a quem queira divulgar os seus projectos nas mais diversas áreas nos envie informação. O site é um complemento da revista e tenta compensar também a falta de espaço que temos na agenda. Espero que gostem desta edição. Damos destaque à entrevista de Guta Moura Guedes no mês em a ExperimentaDesign abre as portas em Amesterdão e inaugura em Lisboa a super exposição obrigatória de Peter Zumthor, o arquitecto suíço das termas Vals-les-Bains, um moderno destino de passagem como terá sido Meca ou Jerusalém, séculos atrás. Francisco Vaz Fernandes

«happy together —from lisbon with love» 71 PARQ Here

english version 80 John Maeda 80 Jazz liberatorz 81 guta moura guedes


Real People  Texto: francisco vaz fernandes

malin + goetz

A Malin + Goetz* começou por ser um fenómeno nova-iorquino mas em menos de 5 anos conquistou um importante nicho à escala global. Apelando a um sentido prático, oferece produtos de cuidado aos consumidores que têm dúvidas sobre o que lhes é adequado, seja qual for o tipo de pele ou sexo. Esta recriação do sonho americano tem por detrás um casal de Nova Iorque que somou as potencialidades de cada um. Mathew Malin trabalhou anteriormente para a Kiehls em gestão de produto, e Andrew Goetz desenhou uma linha da Jill Sanders para o grupo Prada. Trabalhando e vivendo juntos, como é que se influenciam um ou outro na actividade profissional? Mathew: Boa pergunta. O Andrew no início usava o mesmo tipo de sabonete para lavar o rosto, corpo, cabelo e também para se barbear. No que me dizia respeito, como tenho uma pele sensível, havia muita coisa que não podia usar. Então começámos a combinar os dois mundos. Optámos pelo mesmo produto todos os dias e passou a ser a base do nosso conceito de design de produto. Queríamos manter tudo muito simples independentemente do tipo de pele e do género sexual. Criámos uma linha bonita, minimal, onde o desnecessário foi eliminado, algo de muito moderno. Quando vemos os antigos rótulos das farmácias ou dos boticários ficamos admirados pela sua funcionalidade e simplicidade. Foi nessa direcção que actuou o Andrew.

Seguem uma estética do duplo durante o processo de trabalho e no produto final? Mathew: Tudo o que fazemos faz parte de uma ideia de equilíbrio, cada fórmula é uma fusão de princípios naturais e tecnológicos. Oferecemos aos casais a possibilidade de comprarem juntos os produtos que são tão apropriados para eles como para elas. Design e beleza têm personalidades opostas e o nosso trabalho é descobrir como esses dois mundos se podem juntar para um equilíbrio. Gosto muito das cores das embalagens. Como as escolheram? Andrew: Acompanhamos sempre a equipa de design e queremos cores que transmitam seriedade. Principalmente para produtos de cuidado de pele. As de corpo lembram os letreiros de antigas boticárias europeias. E o azul significa água e hidratação. Há um simbolismo, mas tem sempre mais a ver com estética. Quantas pessoas trabalham na empresa? Andrew: Somos 14, a maior parte deles em Nova Iorque, mas também temos colaboradores em LA, S. Francisco e Chicago.

–6–

Como tem sido o impacto na Europa? Mathew: O crescimento da empresa deu-se muito pelo interesse que os produtos despertaram por todo o mundo. Ou seja, a empresa cresceu organicamente. Temos uma loja em Manhathan e o website. Vendemos para vinte lojas Barnes nos Estados Unidos. O primeiro ponto de venda na Europa foi o Libertys, em Londres. Hoje a Inglaterra é o nosso maior ponto de distribuição, seguida da Itália e Espanha. Andrew: Os europeus têm um sentido estético de design maior que os americanos. Se mostrarmos um dos nossos produtos a um americano médio nem sempre vai perceber as nossas intenções, mas se o mostrarmos a um europeu ele não vai ter dificuldades em entendê-las. O sentido estético do europeu é muito mais refinado.

* Exclusivo do Epicurista, Lisboa. telf: 213 960 990 — www.malinandgoetz.com —


DESIGNED FOR SPORT. REMASTERED FOR LIFE.


Real People  Texto: Inês vicente

sara lamúrias

Sara Lamúrias tirou o curso de Design de Moda na Faculdade de Arquitectura de Lisboa e nunca mais parou. Após um estágio na alemã Bless, criou a marca «aForest» em 2003 e passou a ser presença assídua na Moda Lisboa, assim como em várias feiras internacionais. Mais que criar peças de vestuário, a «aforest-design» pretende comunicar através da arte, do design e da moda. Podes explicar o conceito da marca? Sim, a aforest-design não se afirma exclusivamente como marca de vestuário, é um projecto livre que funde design, vestuário e arte num discurso muito próprio. Criei o projecto para canalizar ideias conceptuais sob uma estrutura de marca na forma de produtos em edição limitada, peças únicas e eventos.

e processos artísticos associados a estas. No Combo, a «aforest-design» junta-se a lojas tradicionais e cria um produto associado ao motivo dessa loja. Por exemplo, no projecto piloto na Flores de Perdição (florista) criámos o “cuff vase”, uma jarra criada sob o discurso do vestir. O projecto está em desenvolvimento agora com o apoio do Ministério da Cultura e num formato mais complexo, em que visa percorrer uma boa parte do país colaborando com 5 tipologias de lojas.

clientes devido a problemas de atraso na produção. Boa parceria na indústria procura-se!

Começaste, recentemente, a desenvolver um novo projecto, Combo. Do que se trata exactamente? O Combo é um projecto artístico de carácter sócio-cultural, onde se cria uma fusão do design contemporâneo com funcionalidades associadas ao comércio tradicional. Um aspecto importante é chegar às massas que não conhecem os processos de design e envolvê-las neles mostrando-lhes novas ideias

Foi preciso muita determinação para, saída da faculdade, criares a tua própria marca. Quais as maiores dificuldades com que se depara um designer (de moda) em Portugal? Produção. É a maior dificuldade com que me deparo. A indústria não está organizada e a maior parte não está interessada em trabalhar com os designers numa escala menor, inicialmente, e ir acompanhando o seu crescimento. Perdi vários

Um dia perfeito para ti seria… Domingo... pequeno almoço tardio (brunch) com amigos ao ar livre... À tarde passeio a pé a fotografar... Ao princípio da noite, uma boa sessão de cinema.

– 10 –

O que não te inspira? A superficialidade, a formatação. Se fosses uma peça de roupa qual serias? Um cachecol para poder abraçar... :) 3 palavras que te descrevam: Pare , escute e olhe :)

— www.aforest-design.com —


Real People  Texto: carla carbone

Real People

5.

pieke bergmans Pieke Bergmans é uma designer que valoriza o acidente. Os vestígios expontaneos das experiências que realiza demonstram que até em design se pode ser imprevisível. Bergmans faz lembrar os artistas românticos que imitavam a natureza, mesmo quando esta se afigurava em declínio. Torna a natureza em modelo das suas experiências, pelo menos não a esquece quando evidencia a sua crueza. Hoje continuamos imbuídos de Ruskin e Morris um pouco por todo o lado e ainda mais nas reflexões sobre design. Vamos ver o que a designer nos diz.

1.

4.

Qual é a sua grande intenção? Eu tento criar produtos que resultem sempre diferentes, apesar de serem desenvolvidos segundo processos industriais. O termo “imperfeição perfeita” ilustra as qualidades que tal produto pode vir a revelar. Por resultarem ligeiramente deformados, e diferentes entre si, tornam-se únicos e adquirem uma aparência natural.

2.

Como construiu os candeeiros Light Bulb? Usei iluminação Led. Duram uma vida, e não é preciso mudar a lâmpada dos candeeiros Light Bulb.

Como surgiu a colecção Vitra “Infected”? Pretendia ter ironia quando interferiu em mobiliário clássico, sobretudo no da Vitra? Bem, as peças Crystal Viruses podem ser moldadas contra qualquer superfície. Não interessa como vão parecer depois. Pode ser contra uma mesa, uma cadeira ou até uma caixa. E foi assim que tudo começou. A primeira “infecção” foi feita contra vários objectos, porque a ideia era soprar bolhas de cristal e largá-las em direcção às coisas, de maneira a que, e de certo modo, a forma delas resultasse na cópia do objecto hospedeiro. Depois da primeira exposição que realizei sobre estes objectos organizei duas performances e convidei pessoas a levarem o seu objecto favorito. A ideia era infectar-lhes os objectos com grandes bolhas de vírus de cristal. As pessoas levaram objectos muito interessantes, e uma delas levou uma cadeira Zig Zag original, desenhada por Rietveld. Foi muito entusiasmante usar aquela cadeira como molde. O contraste foi brilhante, e foi um óbvio ataque virótico. Mais tarde trabalhei para a Vitra e propus-lhes usar os meus vírus de cristal nas peças de mobiliário mais interessantes da sua colecção. Em certa medida é rebelde, mas por outro lado é o oposto porque pretendo transmitir que qualquer objecto pode funcionar como molde para fazer estes vasos. Demonstra que mesas e cadeiras podem ter diferentes funções. Isso explica a imaginação. A Vitra adorou a ideia.

Também levou o conceito de Vírus para o design gráfico. Desenhei um vírus gráfico que se espalhava pelas páginas das revistas de design, tal como aconteceu com a Frame. O vírus espalha-se pelas revistas e deixa marcas e traços nos objectos de design. Devagar, mas verdadeiramente, toda a gente será infectada... estejam atentos!

Em certa medida transforma uma vulgar lâmpada em algo único. Tal como o princípio dos autocolantes Sitcky Virus, e dos vasos Cristal Virus, os candeeiros Light Bulb desviam-se do seu normal curso na linha de montagem. Também estes encontram formas e tamanhos diversos. Como se se libertassem e formassem novas existências.

3.

Precipita o material até ao limite, desafiando a física? Precipito os materiais até ao limite e experimento novos processos de produção. Há todo um processo de experimentação e de jogo envolvido. Assim permito-me fazer erros e enganar-me. Propositadamente, de modo a descobrir, inventar e encontrar possibilidades novas.

E os Sticky Virus? Agarram-se a qualquer coisa em que toquem. Objectos, edifícios, pessoas. Tudo pode ser infectado. Os Sticky Virus têm um poder de disseminação incrível. Especialmente em festas e outras ocasiões especiais. As pessoas parece que ficam vulneráveis e há indivíduos que exibem com orgulho as suas infecções, e fazem ciúmes àqueles que ainda não foram infectados. Isto permite que o vírus se propague por todos os sujeitos.

Por isso não faz cálculos, nem usa fórmulas (com rigor matemático) para descobrir essas formas? Como as que resultam dos candeeiros por exemplo? Não há fórmulas.

É um desejo privado desenvolver objectos que sejam simultaneamente únicos e industriais? Sim. O maior objectivo é desenvolver um processo de produção que possibilite a criação de objectos de cariz individual. Produzir “edições ilimitadas”. — 1. Massive Infection 2. Crystal Virus Lader @ Symposion Gymnasium 3. Space Invaders @ Gallery Dilmos 4,5. Light Bulbs —

Considera-se mais uma designer ou um artista plástica? Eu sou uma designer porque todos os trabalhos que realizo nascem de um contexto de design, e nessa perspectiva encontram-se ainda nos limites de serem design e funcionais. Por exemplo, as peças Crystal Viruses são jarras feitas para se sustentarem contra a superfície de cadeiras. Ainda podem ser usadas como tal, mas se as deslocarmos para fora desse ambiente e usarmos como objectos funcionais singulares, a história delas passa a ser outra. Se fosse artista fazia coisas muito diferentes.

As coisas parecem degradar-se com o tempo. Haverá um mensagem, de certo modo política, por detrás do projecto “Mirror Virus”? Bem, em teoria o mapa do mundo poderia ser totalmente diferente. Inglaterra poderia ser uma parte de África, e a China poderia aparecer virada do avesso. Poderiam formar-se diferentes ilhas e países. Se assim fosse, então culturas completamente diferentes poderiam viver em lugares completamente diferentes do planeta, e todos nós poderíamos ser diferentes. O mundo sucumbe, o ambiente parece sucumbir. Pelo facto de serem fragmentos de espelhos, olhamos através deles e parece que sucumbimos também. Na realidade, a nossa reflexão parece tornar-se um fragmento de nós mesmos. Estaremos a observar-nos a nós mesmos? Reflexão = Infecção? Se olharmos através dos fragmentos dos espelhos “Utopia Infected”, então a nossa reflexão passará a estar espalhada por todo o mundo. Ver-nos-emos tanto na América do Sul como na Holanda. Reflexão igual a Infecção.

— www.piekebergmans.com —

– 12 –

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Real People��� Texto: roger winstansley

john maeda English Version p.80

Depois de ter lançado «The Laws of Simplicity», que enuncia dez leis para simplificar a vida da Humanidade, John Maeda foi convidado pela Reebok para criar uma linha de 10 produtos baseada nos seus princípios. A linha, limitada e ainda em desenvolvimento, vai estar à venda apenas no site da marca. Maeda esteve na recente edição da feira Bread&Butter para apresentar a sua última criação, um par de ténis chamado “Strucess”. Conversámos com este artista da computação para descobrir o que é que os logaritmos têm a ver com ténis.

A Esquire Magazine incluiu-o há pouco mais de um ano na lista das pessoas mais importantes do séc XXI. Isso mudou a sua vida? Um dos incluídos já está morto, outro está na prisão. Tendo isto em conta não me parece que seja assim tão maravilhoso. Contudo fez-me pensar no que posso fazer para este século e no que posso alcançar. Como resume o seu trabalho? É uma combinação de cruzamentos de disciplinas relativas ao design, à arte, tecnologias, negócios e humanidades. Estou à procura de algo que ainda não encontrei e por isso continuo à procura.

Acredita que a vida hoje em dia é muito mais complexa do que foi para os nossos pais? Tem os dois lados. Por um lado é muito mais complexo ter que lidar com todas as tecnologias novas que aparecem a cada momento, mas ao mesmo tempo é mais simples porque podes desenvolver mais actividades. Por exemplo, podes ser mulher, directora de uma grande empresa e também torcer pelo filho que joga numa equipa de futebol. A vida actual também nos incapacita porque tem o problema do Google. As pessoas pensam cada vez mais e ficam mais burras porque não são levadas a descobrir nada por si, só têm que procurar no Google.

1.

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O que é que veio apresentar aqui na Bread&Butter? A minha formação foi em informática e depois em artes plásticas. Dois universos que nos anos 80 fundiram-se. Escrevo programas de computador à mão e eles podem transformar-se em matéria plástica, como aconteceu na minha primeira experiência para a Reebok, nomeadamente com o Timetanium realizado a partir do modelo Ventilator. Tenho 10 leis de simplicidade e este modelo foi baseado na terceira, "Time". Hoje vou apresentar um modelo baseado na 9ª lei, “Failure”: se falhares persegue o teu caminho até atingires algum nível de sucesso. Dei-lhe o nome de “Struccess” que resulta da mistura da palavra luta e sucesso (Struggle e Success em inglês). Pensamos no falhanço como algo negativo, mas de facto a inovação está sempre ligada aos falhanços. Na verdade um falhanço pode até ter um certo tipo de sucesso. Conheces os post-it? O tipo que inventou essa cola foi criticado porque criou uma cola que não colava bem. Contudo essa cola está na base de um grande sucesso.


Real People John Maeda

— 1. Reebok Ventilator x Maeda, Timetanium 2. Reebok x Maeda, Strucess —

2.

2.

C

M

Y

CM

MY

CY

CMY

K

Aparentemente o Strucess não tem por base um modelo clássico da Reebok, como aconteceu com os dois lançamentos anteriores, que recorriam à forma do Freestyle e do Ventilator. Tentámos criar um modelo novo assente em algo mais complexo. Tem muitos componentes, há muita coisa a acontecer em termos gráficos que considero complexo. Ao mesmo tempo há uma orientação estética com um elevado número de preocupações ao nível do design e da engenharia do modelo. Dentro desta colecção, “Laws of simplicity”, ainda falta lançar modelos de roupa. Está prevista uma t-shirt de homem baseada na lei número 4, Aprendisagem, e uma t-shirt de mulher baseada no contexto. Diria que este projecto reflecte as palavras que saem do coração e se transformam em poesia. O processo criativo será mais fácil de entender através de um site que se vai chamar Your Reebok. As pessoas vão poder participar no processo criativo.

Como vai funcionar o Your Reebok? Vai estar online em 2009 porque actualmente as pessoas não têm grande oportunidade de serem criativas. Sentem que é muito arriscado. Então criámos um sistema que usa os meus códigos de computador como base. Qualquer pessoa pode co-produzir comigo online. Vai tornar‑se fácil tomar parte do processo criativo. Usamos fórmulas simples, é quase como usar o Google. Por exemplo, (e faz a demonstração no seu computador pessoal), acabei a relação com o meu namorado ou hoje morreu o meu cão, depois acrescenta-se uma imagem que se queira associar a esse pensamento. O computador junta a palavra e a imagem e cria um efeito gráfico que pode ser aplicado, é uma nova obra de arte. Qualquer pessoa pode fazer uma obra única a partir deste recurso online.

Como é a sua relação com o mundo da moda? Já fiz design de equipamento, de iluminação e muitas outras coisas, mas esta é a minha primeira experiencia na área da moda. Estou sempre muito curioso e a minha participação tem sido mais uma colaboração com a equipa técnica da Reebok para eu entender melhor o consumidor. Na Reebok trabalhamos juntos as possibilidades e que tipo de riscos poderemos correr. Esse uso de logaritmos para fins desportivos é apenas decorativo ou tem outra intenção? Não, é muito profundo, porque é tudo baseado nas leis da simplicidade que esboço para simplificar a vida. Estava a pensar em logaritmos que ajudem a pensar mais sobre as próprias leis. Não é apenas arte gráfica. Tem conexões mais profundas. — www.maedastudio.com —

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you must shopping  foto: pedro janeiro Produção: conforto moderno

you must shopping

y t i C y e s s y d O

relógio ADIDAS, saco Cosmos da LONGCHAMPS, shake ALESSI nos Santos da Casa, saco Druina HUGO da HUGO BOSS, perfume Kenzo Power da KENZO – 18 –

ténis ENERGIE, cintos PUMA e BOSS BLACK da HUGO BOSS, ténis Steve MCQUEEN da PUMA, relógio DKNY. Eagle 1da série Espaço 1999 na SKYWALKER – 19 –


you must shopping  foto: pedro janeiro Produção: conforto moderno

you must shopping

t e e r St sey s y Od

ténis Duo Pump da REEBOK, sabonete MALIN+GOETZ no Epicurista, carteira DIESEL, cap em vinil DIESEL, óculos BALENCIAGA – 20 –

mala LONGCHAMP sapato de neve LACOSTE, cinto LEE. Robot vintage na Skywalker – 21 –


you must – agenda

you must – agenda

WILD PAINTING Revista Oficial do WPP PARTY PARQ Los Vaqueros em Lisboa

festa rentrée music box / Parq Sábado dia 20 Entrada: 8€ (c/oferta de 3€ em consumo) 1h00: Koko von Napoo (live act) 2h00: Dj Ride + Sagas + Supa (live act) 3h00: Lady G. Brown (dj set) 4h30: Kamala (dj set)

Não, o Verão ainda não acabou. Em Setembro regressamos ao trabalho, às saídas e noitadas, mas temos o espírito renovado pelos banhos de praia e isto deve ser celebrado da forma mais adequada. O clube Music Box e a PARQ associaramse para assinalar a rentrée. Este clube do Cais do Sodré regressa com uma programação mais forte —onde é notório um reforço de bandas internacionais e a introdução de mais sonoridades negras— e um programa em papel com formato e design diferentes. A PARQ entra no segundo semestre sem ter chumbado a nenhuma disciplina e sem desiludir os seus papás. Já tivemos o nosso chupa-chupa pavloviano mas queremos partilhar estas doçuras e novidades convosco.

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Proposta: dançar all night long com Dj Kamala, Lady G. Brown, Dj Ride + Mc Sagas e Mc Supa. Os franceses Koko Von Napoo arrancam a noite em loucura. Não há dress code obrigatório, mas as camisas havaianas e as marcas de bikini misturadas com aroma de côco ficam sempre bem. Venham daí gente boa!

LX Factory: 12 Setembro Das 16h às 23h (entrada livre) YRON: 13 Setembro às 17h Até 11 de Outubro

— Artistas de LX: Vhils Target Leonor Morais Juca Pinga Add Fuel To The Fire Bruno Santinho & Artistas de BCN: Zosen Ovni Sensible kenor —

Tudo começou em Barcelona. O colectivo Vaqueros de Barcelona organizou, em 2007, a Wild Painting Party (WPP) com os melhores artistas e grafiters da cidade. Depois projectou a ideia para outras cidades europeias com o objectivo de traçar uma rota internacional de pintura de rua e um mapa de referência da street art. Este ano os artistas de Barcelona são convidados a intervir no espaço público de Lisboa e Copenhaga, trabalhando murais e grandes telas de pintura livre ao lado de artistas locais.

— Music Box Rua Nova do Carvalho, 24 (Cais do Sodré) — www.musicboxlisboa.com www.myspace.com/kokovonnapoo —

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Lisboa acolhe o evento em pontos especiais, apadrinhado pela marca Carhartt. A primeira intervenção é na Lx Factory: paredes interiores e exteriores, muros de grande amplitude, salas e pilares. Um processo que podemos acompanhar desde o primeiro minuto numa festa começa à tarde e é para todos: papás e crianças, curiosos e gente gira, tudo ambientado ao som de Dj’s. A YRON, no dia seguinte, expõe uma colectiva dos artistas e apoia o “lifting” da Rua de S. Bento. Vão pintar muros livres, fachadas de prédios, tapumes e outros espaços devidamente autorizados dessa rua. A cirurgia começa às 5 da tarde. — Lx Factory Rua Rodrigues Faria – Alcântara — YRON Rua de S. Bento 168-178 — www.vaquerosdebarcelona.org www.lxfactory.com www.yron.pt —


you must – tendências

you must – tendências

1.

2.

— 1. Tord Boontje, Fig Leaf, 2008, projecto realizado para META 2. Tord Boontje, L’Armoire, 2008, projecto realizado para a META —

Uma china de sonho Uma realidade em Cartazes Texto: carla carbone Por esta altura, muitas iniciativas e eventos se desenvolvem em torno da China. Em Londres, por exemplo, no museu Victoria & Albert realizou-se recentemente uma exposição dedicada ao design e à moda chinesas. Os Jogos Olímpicos de Pequim, por outro lado, tornaram a China num pólo de atracção dos média e num tema fulcral da imprensa internacional. Mas para aqueles que acham o tema algo indigesto, cedo não se vão livrar dele uma vez que, conforme anunciado na Expo de Saragoça, a China vai ter em 2010  a sua versão da Expo em Shangai. Assim anuncia a mascote bojuda e azul, à entrada do pavilhão da China, na Expo espanhola. A China mudou, emancipou-se. Já sem a sombra de Mao a acenar, sorridente, o livro vermelho recupera um pouco a sua existência pré-socialista e revela um desenvolvimento económico e cultural sem precedentes.

Como bom testemunho dessa mudança na China, desse optimismo que agora parece vigorar, o Museu Kunsthal de Roterdão resolveu apresentar uma exposição de cartazes de Propaganda Chineses dos anos trinta —altura da segunda guerra entre a China e o Japão— até aos cartazes que agora se produziram a pretexto dos Olímpicos. Alguns dos cartazes da década de trinta são raros e já não se encontram em lugar algum da China. São de facto singulares. A produção de cartazes mais significativa teve lugar entre os anos quarenta e sessenta. O período compreendido pelo domínio maoista. Todos ostentavam nas suas mãos os livros vermelhos e apresentavam rostos sorridentes e saudáveis. Os cartazes mostravam agricultores, soldados, trabalhadores fabris ou intelectuais, orgulhosos, concentrando-se a trabalhar ao serviço de Mao. Constituíam um exemplo para a população que os devia seguir.

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Com a morte de Mao em 1976 esses cartazes foram, a pouco e pouco, dando lugar a outras ideologias, até mesmo passarem a ser um corolário do comportamento consumista ocidental.

— Museu Kunsthal – Roterdão — www.kunsthal.nl —

Tord Boontje Texto: Francisco fernandes Na última edição do Saloni del Mobile de Milão uma das grandes novidades foi uma nova empresa de design, a Meta, com um conceito novo que propõe combinar design contemporâneo com técnicas de produção artesanais do séc. XVIII. A resistência ao produto massificado tem sido uma das linhas de pensamento mais fortes dos últimos anos, e naturalmente na área do design tem tido os seus seguidores. Nesse sentido, a filosofia da Meta enquadra-se numa das grandes tendências do design actual acrescentando, no entanto, um grau de excelência difícil de encontrar. Isto explica-se porque foi fundada por Mallett, uma das mais prestigiadas casas de antiguidades do mundo, especializada em móveis do séc. XVIII. Durante a apresentação do projecto em Milão, Giles Hutchinson Smith afirmava

que “A génesis da Meta parte da simples ideia de que a qualidade, a atenção ao detalhe, a nobreza e raridade dos materiais são tão importantes hoje como foram no passado”. Detentora de um grande portfólio de mestres artesãos, com quem trabalha regularmente e que dominam técnicas em vias de extinção, a Meta oferece a alguns dos grandes nomes do design actual a possibilidade de terem projectos únicos de grande excelência. Das 11 peças que constituiram a colecção inaugural, sem dúvida que a mais interessante foi a de Tord Boontje. Em Milão apresentou um guarda-roupas, (com portas feitas de ramos entrelaçados de ferro policromado), que parecia um local secreto ao fundo de um jardim ou uma caixa de jóias de grande escala. Mais tarde, numa apresentação da empresa em Nova

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Iorque, foi exposto um segundo guarda-roupa de Tord Boontje —uma segunda surpresa— desta vez com várias madeiras executas por mestres, que potenciaram todo o movimento das curvas numa silhueta do séc. XXI.

— www.madebymeta.com —


you must – tendências

you must – tendências

ícones O passado com

4.

tecnologia do presente 5. 1. 2.

3.

Air Max 90

Texto: Francisco vaz fernandes

A etiqueta Nike Sportswear surge para identificar a colecção de casualwear da Nike —destinada a um público trendy— que nos últimos anos se foi desenvolvendo com base no design e na inovação técnica. Arranca com a evolução de 8 ícones da Nike: Air Max 90, Dunk, AF1, Cortez, Windrunner, AW77 Hoodie, Eugene Track Jacket e Nike Sportswear T-shirt, modelos que durante anos serviram o desporto e que se tornaram verdadeiros ícones do streetwear. Evoluir mantendo a identidade original parece ser o lema da Nike Sportswear, permitindo uma fusão de materiais de qualidade, tecnologia e design. Para celebrar o lançamento desta nova linha, a Nike convidou o grande encenador Robert Wilson (durante a Expo 98 criou a ópera do Corvo Branco) para conceber várias instalações de vídeo: retratos dos ícones da colecção Outono 2008 e de 3 atletas, Sofia Boutella (Break Dance), Nigel Sylvester (BMX) e Shingo Iwasaki (Skate).

O modelo Air Max 90 é um dos grandes símbolos da marca. Os primeiros Air Max, os ”1”, foram criados por Tinker Hatfield e Mark Parker, em 1987, para oferecer aos corredores o melhor amortecimento possível. A emblemática sola com ar visível (elemento que está na base do amortecimento) e as cores brilhantes das Air Max são resultado duma visita de Tinker ao Centro de Arte Georges Pompidou, o moderno edifício de paredes de vidro que permite ver o seu interior. As Air Max 90, com uma câmara‑de‑ar 20% maior (implicava um aumento do seu peso), foram concebidas com materiais mais leves de modo a manter a sua leveza. A introdução dum maior número de componentes de plástico e blocos geométricos de cor deram ao sapato uma aparência mais veloz. A nova versão das Air Max 90 para a Nike Sportswear é um híbrido que mantém a estabilidade, leveza e amortecimento do original, valorizado com a flexibilidade duma sola com tecnologia Free 5.0, e a comodidade duma biqueira feita em malha elástica de alta qualidade, que segue o exemplo de modelos como as Air Flow de 1989 ou os conhecidos Presto. Já as Air Max 90 Flywire usam um novo material, talvez uma das maiores inovações Nike, o Flywire. Tão fino quanto o papel, mas extremamente resistente, permite reduzir o peso e simultaneamente suportar as partes estruturais dos ténis. Com uma parte superior feita duma só peça, traduz-se no conforto duma meia combinada com uma leveza inimaginável.

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— 1. Air Max 90 Flywire 2. Flywire Windrunner 3. Shingo Iwasaki (skater) vestido com NSW AW77 Loopweeler 4. Canvas One Piece Octogon Dunk 5. Vários modelos Nike AF1 —

Windrunner Desenhado por Geoff Hollister, estudante e corredor da Universidade de Oregon, fez a sua primeira aparição durante as provas de atletismo dos EUA em Eugene (Oregon). O característico corte em V (de 26º) inspirado nas capas dos índios americanos, e o típico nylon, material impermeável, fizeram dele um dos ícones da Nike. Ainda recentemente, durante os jogos olímpicos, fazia parte do equipamento oficial da equipa dos EUA. O Flywire Windrunner é a peça Nike Sportswear por excelência, combinando inovações passadas, presentes e futuras. Usa um nylon japonês ultra-leve, semi-transparência que enfatiza a aparência gráfica do típico corte em V e a leveza visual da peça, eliminação de costuras e uma rede de fios Flywire que confere resistência ao casaco e produz um efeito estético interessante. Existe outro modelo inspirado no Windrunner onde os cortes e os acabamentos são produzidos a laser: o Laser Runner. É a peça mais técnica da colecção. Junta tecidos tecnológicos usados em alta performance com cortes e conceitos de corrida. Incorpora um tecido elástico de dupla camada à prova de água mas que permite respirar.

AW77

DUNK

AF1

Significa Athletics West 1977: o primeiro clube de corrida apoiado pela Nike, que permitiu a muitos atletas concentraremse exclusivamente no atletismo, e onde muitos produtos da marca foram testados. Uma destas peças foi a sweat com fecho éclair com capuz que passaria a ser conhecida por AW77 Hoody. Intemporal, continua a produzir-se com tecidos leves e resistentes, perfeita para aquecer antes e depois de um exercício atlético. Para fazer evoluir este modelo e colocá-lo num lugar de excelência era importante encontrar produtores e materiais raros. Assim, surge o topo de gama AW77 Loopwheeler. A Loopwheeler é um fabricante japonês que produz um máximo de 8 peças por dia, dado que toda a produção se realiza em máquinas muito antigas e lentas, que ao praticamente não submeter o fio a qualquer tensão, conferem ao algodão uma suavidade extrema.

As Dunk, lançadas em 1985, destinavamse à prática do basquetebol universitário. Com uma sola de perfil baixo e cores combinadas com os uniformes das equipas, tornaram-se símbolos de expressão individual. Foram adoptados pelos skaters pelo apoio que davam ao tornozelo, já que eram almofadadas nesta zona. Floresceram no underground durante muitos anos e, em Janeiro de 2008, a Nike, para celebrar a autenticidade do modelo, lançou um modelo vintage com a aparência de há 30 anos, mas com o conforto que se exige hoje. Entre as versões mais inovadoras, destacam-se as Canvas One Piece Dunk, construídas com uma única peça de lona, sem cortes e com o pespontado em trompe-l’oeil que reproduz os cortes das Dunk originais.

Criadas em 1982, foram os primeiros ténis destinado ao basquetebol a incorporar câmara-de-ar (para amortecimento) na sola. Para a nova colecção da Nike Sportswear 2008, criaram o novo modelo AF1 Supreme Max, a.k.a. Black Window, inspirado na estética da estrutura do estádio olímpico de Pequim e na tecnologia de fios flywire. A injecção de TPU em nobuk, permite reduzir a utilização da pele na parte superior do sapato e criar a teia negra que lhe dá o seu nome.

— www.nikesportswear.com —

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you must – tendências

you must – tendências

Para quem não gosta só de carros Texto: Sofia Saunders

vision Texto: sofia saunders

a casa de sonhos Texto: Sofia Saunders

raf simons Texto: sofia saunders

A Lacoste celebrou recentemente 75 anos, desde que o famoso tenista do Roland Garros começou a produzir roupa de desporto em malha de pique para a prática do ténis. Hoje em dia a Lacoste representa um universo multifacetado e nada melhor que uma revista como a «Visionaire» para reconstruir a complexidade da imagem num número totalmente dedicado à marca francesa.

Passados 15 anos desde que Viktor Horsting e Rolf Snoeren entraram no mundo da moda ao ganhar o Festival Internacional de Moda de Hyères, a dupla de holandeses é homenageada numa exposição retrospectiva organizada pela Barbican Art Gallery de Londres. A mostra intitulada The House of Viktor&Rolf pode ser vista até 21 de Setembro e traça o percurso profissional dos criadores desde 1992, quando começaram a trabalhar juntos.

Não podia ser mais perfeito o casamento entre a Fred Perry, o mais ilustre representante das subculturas inglesas, e Raf Simons, o criador do streetwear chic.

A edição 54 Sport conta, como é habitualmente, com as mesmas colaborações de luxo, profissionais de grande reputação nas áreas da moda, arte, arquitectura, design e pensamento crítico. Participaram com editoriais de moda, projectos de artista e artigos, dando visibilidade àquilo que a Lacoste representa para cada um deles. Para acompanhar este especial, 12 destes colaboradores participaram num projecto de customização realizado a partir de impressões sobre o modelo mais icónico, o pólo. Estas edições limitadas (4mil), podem ser adquiridas num pacote que inclui três pólos customizados e um livro com 12 imagens. — www.visionaireworld.com — legenda: A partir da esquerda, projecto de Thomas Ruff, Thomas Demand e Tj Wilcox [fotografia de JD Ferguson9 —

No início da carreira, não tendo espaço nas passerelles, organizavam apresentações em galerias onde mostravam as suas criações, reproduzindo assim algumas práticas da arte contemporânea. Esses anos não foram esquecidos e a exposição de Barbican é em si uma grande instalação que tem como protagonistas bonecas de porcelana vestidas com reproduções das suas criações miniaturizadas ao detalhe. A peça central da exposição é uma casa de bonecas que supõe-se ser a maior até hoje construída. Com três andares e muitos compartimentos onde poisam as bonecas que compõem o ambiente conceptual e mágico de dois dos mais influentes criadores de moda da actualidade.

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— www.viktor-rolf.com www.barbican.org.uk — legenda: Viktor Horsting e Rolf Snoeren à frente do perfume Flower Bomb, que criaram, durante a abertura da "The House of Viktor&Rolf", no Barbican Art Gallery em Londres. Vista parcial da casa de bonecas com reproduções das criações Viktor&Rolf.. —

Os rumores desta aproximação já circulavam há muito tempo e concretizaram-se logo após a casa inglesa ter posto fim à colaboração com a Comme des Garçons que durou 7 anos. Raf Simons, com contracto para duas estações, criou para este Outono/Inverno uma colecção de11 peças bastante sóbrias que têm por base criações Fred Perry dos anos 60 que estavam em arquivo. Todas as propostas foram produzidas numa só cor, o preto, com a coroa de louros bordada a cores mais vivas. A silhueta é em geral justa ao corpo, os colarinhos mais pequenos e estreitos e as calças justas e lisas à frente, características que já encontramos na linha de moda da marca. Contudo, são os pólos tricotados que fazem a diferença e rompem com a imagem da marca lançando-a para um patamar mais alto na moda. Imaginamos que este seja apenas um começo tímido e esperamos uma afirmação na próxima época.

O universo Mini não pára de crescer. Nenhuma marca automóvel tem trabalhado com tanta definição o seu life style. Por essa razão é justificável que os amantes do Mini —aqueles que vivem o espírito club— tenham necessidade de se rodear dos acessórios que o identifiquem. Depois da parceria bem sucedida com a Onitsuka Tiger, que criou um modelo de ténis mais estilizado para a Mini Cooper, é natural que esta empresa automóvel quisesse desenvolver uma linha de moda própria, à venda no seu site. Basta entrar na home-page para a descobrir. As ofertas são muito variadas, podendo encontrar-se relógios, óculos, malas, sacos, roupa, calçado. Um crescimento que justificou um desfile na Batló em Barcelona para apresentar a colecção à imprensa internacional. Se por um lado a roupa parece não querer ultrapassar muito o limite dos básicos, onde o essencial são as estampagens alusivas ao Mini, o mesmo já não se pode dizer de alguns acessórios, como os sacos e malas de viagem da próxima colecção Outono/Inverno.

— www.fredperry.com —

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— www.mini.com —


you must – tendências

you must – tendências

ma dame Texto: Josine Crispim Surpreendente como sempre Jean Paul Gaultier criou um aroma que vem como que anular a atitude das essências femininas anteriores, os célebres perfumes Classique e Fragile. Direccionado para um mercado mais jovem, Ma Dame é o perfume da emancipação feminina dos novos tempos, em contraste com a elegância demarcada nas fragrâncias que o antecedem. Mantendo a silhueta que tornou famosa a perfumaria da casa francesa, Ma Dame é a versão jovial, punk, destemida e arrojada de uma eau de toilette.

O criador deixou poucos pormenores de fora. A embalagem é picotada para poder ser rasgada e aberta num só gesto e deixar presente o lado rebelde do projecto. A acompanhar o espírito revivalista que o mundo da moda tem ultimamente explorado, o frasco apresenta-se dentro da atitude anos 80, num rosa fúscia dégradé translúcido que se ilumina sobre si em rasgos de luz. As notas principais desta fragrância são a laranja, a rosa e a romã. Em conjunto com a imagem cuidadosa e convenientemente aplicada ao perfume, brinca o encanto feminino num jogo dicotómico entre beleza e fealdade, confundindo os nossos estereótipos, contornando dogmas e rituais sociais que delimitam o que é ou deverá ser a elegância feminina.

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Agyness Deyn protagoniza a campanha publicitária lado do próprio Jean Paul Gautier. De aparência electrizante e atitude divertida, ilustra a fragrância de forma decidida e curiosa deixando transparecer humor e glamour. Em comunhão com a sua feminilidade, a manequim inglesa aparece de look masculino num mundo a preto e branco iluminado pelo rosa choque de Ma Dame.

— www.jeanpaulgualtier.com —

dior homem Texto: josine crispim

Rouge Volupté Texto: josine crispim

Phenomen’Eyes Texto: josine crispim

Dior Homme Sport não é apenas uma extensão desportiva do antigo Dior Homme. É uma versão despretensiosa e despojada de snobismo e ostentação, sem no entanto perder a elegância inerente à qualidade do produto. O frasco reinventou-se sem perder a estrutura minimalista de linhas puras, e ressaltam à vista as cores que o ilustram: preto e vermelho. É um perfume direccionado para um homem mais descontraído, relaxado, em comunhão com a natureza e o seu lado juvenil. A cidra da Sicília, o gengibre e o cedro do Atlas são as notas que fazem desta fragrância uma explosão de energia fresca, intensa e condimentada. Disponível também em gel-duche, desodorizante e loção after shave.

A qualidade da maquilhagem Yves Saint Laurent é indiscutível. O talento de Kate Moss para “vender” produtos também. Aliaram-se ambos no Rouge Volupté, com o qual a marca francesa pretende afirmar que o batom não é a versão antiquada do gloss mas que, pelo contrário, tornou-se na versão elegante dele.

De nome audacioso e sugestivo, o novo rímel Phenomen’Eyes de Givenchy vem revolucionar o mercado das máscaras de pestanas e ficar na história da cosmética. A escova esférica, totalmente inédita, é um produto de patente registada.

Em 18 tons voluptuosos, o batom YSL actualizou-se na imagem mantendo o dourado metálico: o relevo da sigla está mais demarcado e foi incorporado um pequeno espelho na tampa. Com factor protecção UV 15 e um subtil cheiro a manga, está disponível a partir de Setembro por 28, 50 euros.

— www.diorhomme.com —

Ergonómica e flexível, promete revolucionar a forma como a máscara é aplicada. É de grande precisão e fácil aplicação, chegando às pestanas mais pequenas, e pode ser utilizada na horizontal, vertical e diagonal. Em dois tons, preto e castanho, esta máscara ambiciona ser um fenómeno. À venda a partir de Setembro por 25, 53 euros. — www.parfumsgivenchy.com —

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soundstation  Texto: cristina parga

soundstation

Doces Cariocas De sabor suave, açucarado e fresco, os Doces Cariocas conquistam à primeira mordida. Resgatando sonoridades tradicionais como o samba, e com temperos do xote e do forró, costuram referências que vão dos Doces Bárbaros aos Beatles, bordando uma MPB contemporânea, tão moderna quanto despretensiosa. Simples, orgânica, viva.

Os responsáveis pela iguaria são um colectivo de artistas de origens e influências heterogéneas, todos radicados no Rio de Janeiro. À volta desta mesa tropical agrupam-se nomes como o de Pierre Aderne, Alexia Bomtempo (na foto ao lado), Marcelo Costa Santos, Domenico Lancelotti, Alvinho Lancelotti, Simoninha (filho do grande músico Wilson Simonal), Luís Carlinhos, Rogê, Silvia Machete, Ingrid Vieira, além dos instrumentistas Felipe Pinaud, Dadi, Mauro Refosco, Rafa Nunes, Lancaster e Pretinho da Serrinha. Músicos já conceituados na cena carioca e que, apesar de produzirem há mais de uma década, têmse mantido “debaixo do tapete”, como explicaram à Parq Alexia e Pierre. As dez canções que compõem o álbum dos Doces nasceram durante os dez dias em que o grupo conviveu, tocou e celebrou numa casa em Araras, na serra do Rio de Janeiro. Além do talento, o clima de chuva, as noites à lareira e a visão da serra num Verão carioca atípico formaram o terreno propício para as canções germinarem. Já no Rio de Janeiro, a ânsia e a alegria de compor e tocar juntos levou o grupo a ressuscitar a tradição dos saraus; é na famosa Ipanema de Vinícius e Tom Jobim que os amigos se reúnem semanalmente para tocar. “A nossa casa tem mil quartos/ Com muitas portas e janelas/ Vista pro mar e pra montanha/ Quem tem a manha pode se chegar” —convida a voz delicada de Alexia, na faixa que dá título ao colectivo. “O canário e o curió” brinca com a boémia do malandro carioca: “Cheguei em casa o café tava na mesa/ e eu sem sapato para tentar não te acordar”. Na “Valsa do vestido” as bocas encontramse e “as línguas dançam numa valsa”, numa poesia sensual adoçada pela voz de Silvia Machete.

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As melodias oníricas e tranquilas tornaram-se hits nos saraus improvisados, conquistando a plateia de amigos com o seu clima intimista e diversidade. Para Pierre, o som dos doces é “uma colcha de retalhos no formato do mapa do Brasil.” Alexia comenta que “o resultado é sincero e delicado, e as pessoas sentem isso logo de cara”. Em Portugal, os Doces Cariocas encantaram o público português no pequeno circuito Fnac, actuando também no Super Bock Surf Fest. A recepção calorosa do nosso país ao recém lançado projecto é explicada pelo passa palavra, que em tempos actuais é medido também pelos números do myspace da banda- segundo Pierre, o site contabilizou mais 3.000 fãs portugueses em apenas 15 dias.

À sombra do Abacateiro O álbum “Doces Cariocas” foi lançado em Junho pela editora Abacateiro- que surgiu este ano pelas mãos do próprio Pierre. Inspirada no conceito de comércio justo, a Abacateiro funciona como cooperativa, o que segundo Pierre permite “agregar os melhores profissionais desde a pré-produção a toda a logística, contemplando todos os envolvidos com os royalties.” Uma estrutura menos burocrática, mais auto sustentável e que reúne artistas e profissionais com “a mesma língua, o mesmo sotaque”. Ou o mesmo amor pela música. Porque a sombra desta árvore é também uma plataforma de lançamento para “músicos que trabalham no que acreditam”.

“O selo reúne uma nova geração da MPB, um grupo que pensa desde o primeiro acorde, até a capa e todos os detalhes de cada concerto. Uma geração que, em arte, pensa no conceito olhando para o macro.” —comenta o músico. E acrescenta que em Portugal já há um caminho para este “novo sotaque da MPB”, com o crescente interesse por artistas contemporâneos como Seu Jorge, Roberta Sá e Mariana Aydar. No mercado português a Abacateiro editou também "Alto Mar", (o terceiro disco de Pierre Aderne, composto numa temporada em Lisboa), e "Astrolábio", de Alexia Bomtempo, editado pela EMI no Brasil. Com distribuição da Fnac, o selo conta publicar nos próximos tempos o álbum "Melhor" de Simoninha, além do álbum de samba e viola de Gabriel Moura e outro de Edu Krieger. Se a editora já planeia novos vôos, os Doces Cariocas preferem desfrutar dos sabores do sucesso actual, sem grandes definições ou projectos para o futuro. “Mas posso garantir que os saraus em Ipanema não vão acabar” —promete Alexia.

— www. myspace.com/docescariocas —

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soundstation  Texto: Mário Nascimento

soundstation

the bug Este zoológico já foi mais jardim

«London Zoo» é o terceiro álbum de originais do projecto The Bug. Juntando o calor do dancehall ao frio oxidante do dubstep, este disco é mais uma roda dentada na Revolução Industrial britânica. E talvez a invenção de um novo metal.

Kevin Martin é um músico inglês, que anda nisto há muitos anos. Nisto o quê? Nisto, nesta… cena. Cena? Sim, esta cena, este… movimento. Esta coisa amorfa, meio underground meio não. Urbana mas não cosmopolita. Suburbana? Bom, mais ou menos. Bom… mais ou menos? Classificar este insecto é quase tão estranho como dizer que há aí uma banda chamada The Clash, que mistura ska com punk. Há um lado de Martin que está ligado à experimentação desde o fim dos anos 80, manifestando-se em projectos “estranhos”, “interessantes”… basicamente desde o inaudito até ao quase inaudível. Seja com os God ou com os Ice, Kevin esteve sempre nos limites. Isto, visto de quem vê as coisas como limitadas. Para um músico livre e experimental, os limites estão onde deixam de ter significado. E a partir daí, a associação a John Zorn ou Blixa Bargeld, vista pelos limitados, já parece até fazer sentido. Enquanto músico, MC ou produtor, Kevin Martin é decididamente alternativo e marcadamente londrino. E é a partir de agora, com o terceiro disco de originais que assina como The Bug, que ele vai conhecer os limites. Neste caso, os limites da mainstream. Literalmente, a corrente do rio em cujas margens lodosas ele insiste em viver. Junto dos outros bugs todos. Onde as descargas de resíduos industriais ajudam outras espécies de bugs a proliferar. As margens são um mundo, mas agora há menos uma espécie desconhecida.

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Em 2006, outra espécie havia sido descoberta nas docas londrinas: o dubstep. Um tipo de som que dava uma nova escuridão e intensidade às ansiedades e angústias do homem moderno e, por conseguinte, mediano. O dubstep era um género, tinha uma casa, a editora Hyperdub, um mentor catedrático, Kode9, e ainda um génio, Burial. Muitos pararam para se ouvirem na estreia auto-intitulada deste último, e o ano passado, com «Untrue», não houve revista que o não elegesse. Aliás, à data de imprensa (embora não da leitura), Burial é o nomeado mais forte para o Mercury Prize deste ano. Entretanto, ou por coincidência ou por estar farto do boato de que Burial era um pseudónimo para um projecto de Thom Yorke, é agora oficial que Burial é uma pessoa e tem um nome: Will Bevan. Uma pessoa normal, como qualquer pessoa normal. E este é o ponto onde o dubstep se encontra actualmente. E é por isso fácil de antever que, embora precedendo em muito a experimentação com este tipo de sonoridades, ao editar agora «London Zoo», e depois de ele próprio ter trabalhado com a Hyperdub (este disco tem o selo Ninja Tune), The Bug se veja sob alguns holofotes, ainda que curiosos.

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Mas para matar a curiosidade, é logo na primeira faixa que ouvimos Tippa Irie afirmar que “so many things they get me angry, and so many things they get me mad, and I gotta say”. «Angry» é o nome do tema. Entre muita palavra metralhada que o ouvido não apanha, entende-se o suficiente para apontar o dedo ao governo de Bush durante a catástrofe do furacão Katrina. Portanto, o panorama urbano e nocturno sugerido pelos ambientes sonoros ganha um espectro muito mais amplo e está assim estabelecido o subtexto político de «London Zoo». Com convidados com nome mais que feito no dancehall, grime e dubstep, como Killa P, Flowdan, Spaceape e, muito especialmente, Warrior Queen, The Bug consegue usar o dub como arma que nos acorda do torpor confortável em que, normalmente, o dub normalmente nos lança. É estranho. É novo. E é bom.

— www. myspace.com/thebuguk —


soundstation  Texto: Rui Miguel Abreu

soundstation

Jazz Liberatorz English Version p.80

Swing Hop

De França chega-nos um dos mais interessantes lançamentos do ano: «Clin d’oeil», álbum de estreia dos Jazz Liberatorz que homenageia o jazz e a história da época dourada do hip-hop.

Jazz. Rap. Hip-hop. Diferentes faces de um mesmo prisma ou diferentes elementos numa mesma equação. É possível olhar para a história do hip hop e perceber o momento exacto em que a tecnologia permitiu desenvolver um olhar sobre o legado do jazz. A memória disponível nos samplers no início dos anos 80 facilitava a abordagem criativa aos discos da Blue Note, Impulse, Strata East, Black Jazz e Prestige que a geração anterior a produtores como Large Professor, Diamond D, Pete Rock, DJ Premier ou Prince Paul tinha coleccionado. Depois de um enamoramento inicial pela rica paleta rítmica e tímbrica do jazz de uma época muito particular —como não se deixar fascinar pelos fraseados carregados de soul de gente como Grant Green, Lou Donaldson, Cannonball Adderley, Jimmy Smith ou Donald Byrd?—, o hip hop percebeu que o jazz oferecia uma moldura filosófica e estética mais profunda e não demorou muito para que os MCs procurassem insuflar nos seus flows e esquemas rimáticos a mesma liberdade aprendida nessas velhas rodelas de vinil, sobretudo as produzidas nos períodos do bop, hard bop, soul jazz e fusão eléctrica, mais “encaixáveis” no quatro por quatro dominante na cultura “boom bap”. Criativamente, esse período da história do hip hop foi dos mais estimulantes: não apenas devido à “matéria prima” usada na construção de clássicos dos De La Soul, Gang Starr, A Tribe Called Quest, Pete Rock & CL Smooth, Brand Nubian, Digable Planets ou Jungle Brothers, mas também porque os golpes criativos usados por cada um desses nomes serviram para esculpir uma identidade —essa era a primeira geração de hip hoppers que já tinha crescido com consciência da cultura em que se inseria. Algo se perdeu entretanto.

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É inegável que o hip hop se encontra correntemente numa espécie de encruzilhada. A transformação da arte numa poderosa indústria que há muito extravasou os limites de uma cena musical localizada implicou o pagamento de uma factura muito pesada. Mas não hesitou em declarar o óbito (metafórico) do hip hop, gesto radical do homem de «Illmatic» para chamar a atenção para uma realidade complicada. Inegável é o desaparecimento do entusiasmo criativo que marcou uma determinada era desta cultura. Há excepções, pois claro. A extraordinária loucura exibida por Madlib, a disseminação do legado de J Dilla nos trabalhos com ligação a Detroit (Wajeed, Black Milk et al), a solitária missão dos Roots ou a espalhafatosa mas intrigante visão da cultura ostentada por Kanye West têm impedido o afundamento do hip hop num mar de cifrões, vídeos de alta cilindrada e repetição vazia de fórmulas implacavelmente vendáveis. Acrescente-se a essa lista o esforço notório de Dusty, Madhi e Damage, três produtores de Meaux, França, que, com a ajuda de um ensemble que inclui Rhodes, sintetizadores, flauta, baixo, percussões, bateria e saxofones, parecem apostados em transportar sozinhos o hip hop até ao momento em que um padrão de Max Roach invadiu pela primeira vez os circuitos integrados de um SP1200. Senhoras e senhores, o vosso aplauso para os Jazz Liberatorz.

Não há confusões quanto ao pedigree estético deste trio: a capa de «Clin d’oeil» cita deliberadamente a identidade gráfica da editora Black Jazz (onde Doug Carn tem parte importante da sua discografia) e no alinhamento descobrem-se as vozes de Tre Hardson (dos Pharcyde), Fat Lip, Asheru (dos Unspoken Heard), J Sands (dos Lone Catalysts), T Love, Apani B Fly (ex-Polyrhythm Addicts), Tableek (dos Maspyke), Sadat X (membro dos históricos Brand Nubian), Stacy Epps (do projecto Sol Uprising), Buckshot (dos também históricos Black Moon) ou J-Live. Uma espécie de who’s who do lado mais indie do hip hop de anos recentes. Mentes conscientes com carreiras feitas à margem das tendências ditadas pela MTV. Em «Clin d’oeil» os Jazz Liberatorz beneficiam de um número confortável de graus de afastamento do centro do furacão hip hop e com esse olhar exterior conseguem observar com acutilante perícia o que parece faltar para que o hip hop faça como Lázaro e regresse da morgue: entusiasmo, vibração, ligação a um devir histórico, espírito lúdico. Boom bap. Por vezes é preciso recuar antes de avançar, voltar a estudar o passado antes de ousar o futuro. Os Jazz Liberatorz não inventam a roda, mas parecem remendar a câmara-de-ar e colocar o veículo de novo em andamento. Há já algum tempo que não aparecia um álbum com tantos talentos apostados em olhar para as suas próprias histórias e redescobrir a sua identidade profunda. «My hip hop history is rooted in jazz,» explica J-Live. Também a nossa.

— www.myspace.com/jazzlib —

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viewpoint 

Texto: francis

co vaz fernan

des

viewpoint angola luso

angola lus o 21.12.1966

Encontrei este álbum de foto grafias na Feir nas retratos de a da Ladra de jovens africana Lisboa com pe s núbeis. Tive de natureza an quea impressão de tropológica or ser um trabalho ganizado por in junto oferecia teresses cientí m uma visão do ficos. No seu co cumental, bast las, jovens virg nante bem orga ens de tribos af nizada de mum ricanas. Num pretendo enco ui a pr imeira pesqui ntrar um supo sa na internet sto antropólog parte do nom , o de nome Em e legível que pa anuel Ferr reir rece escrito à bum, mas não a, mão na primei encontrei qual ra pá quer pista que tista. Hav ia ai me levasse a um gina do álnda a referênc ia “A ngola Lu suposto cienreveladora e qu so 21 12 1966” e com o tempo que viria a ser foi ganhando quisa. Tudo m mais maior relevânc e conduzia pa ia na minha pe ra a ideia de um guerra colonial sjovem soldado . Os combates que combateu intensificam-s número de sold na e por volta de 19 ados teria sido 66 e um maior levado para A este tipo de fo ngola nessa al tografias seria tura. Imagino de fácil acesso tre os saldados que e vendiam-se . como postais enSubliminarmen te essas imagen s autorizadas serv iam como a circular dent justificação in ro dos quar té ocente da sua gens, exóticas is guerra, já que e acessíveis ta essas mulhere mbém faziam combatiam. M s virparte do patrim ais que nunca ónio pelo qual essas fotografi profunda da Fo se as fazem-me pe tografia, que nã nsar na nature o é nem mais ideologia acti za nem menos qu vada por mecan e fragmentos ismos de fant epitá fio do álbu de asia e de dese m de fotografi jo . Por tudo isso, as gravado a letr ver, guardai ne o as douradas “S ste álbum imag e recordar é vi ens das horas de, vivereis re fe lizes da nossa cordando hora vida. Mais tars passadas qu que patético, pa e o tempo qu rece irónico. eimou”, soa a mais

Ag ra de cim en tos — ao an tiq uá rio de La ur a Me de iro s, a qu em pe rte nc e o álb Ca mp o de Sta Cl ar a, 138 -13 9. um . Lis bo a Te lf 218 86 2 06 5 —

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viewpoint angola luso

viewpoint angola luso

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grande entrevista texto: francisco vaz fernandes

© Luis de Barros

grande entrevista o renascer da experimenta design

o renascer da experimenta design guta moura guedes

Depois de um interregno de dois anos onde previmos que a ExperimentaDesign (EXD) tivesse sido mais uma aventura inconsequente num país sem cultura de design, a equipa liderada por Guta Moura Guedes repensou o projecto, procurou apoios dentro e fora de Portugal e anunciou uma nova bienal. Bicéfala, vai funcionar em tempos diferentes e em duas cidades, Lisboa e Amesterdão. Com este lançamento prova-se o interesse internacional em manter um projecto dirigido a áreas de reflexão e experimentação que exclui os circuitos habituais do design mais comercial. Abre as portas em Amesterdão dia 18 deste mês, mas no dia 5 inaugura uma exposição de Peter Zumthor e fica‑se a saber como será a 5ª edição em Lisboa, prevista para Setembro de 2009.

 Experimenta na Holanda 

“Não me entusiasmam parceiros fracos, mas sim parceiros fortes. Este é o caso da relação da Experimenta com a Droog Design.”

Porquê Amesterdão? Foi um convite directo da Câmara Municipal de Amesterdão. Um convite que aconteceu no momento certo e que vem de uma cidade muito estimulante e que é, de certo modo, complementar a Lisboa. Não é uma cidade do Sul da Europa, como a nossa, é do Norte, tem algumas parecenças com Lisboa em termos de escala e de energia, mas é completamente distinta. Ou seja, existem pontos em comum, mas acima de tudo diferenças que podem permitir à ExperimentaDesign evoluir para outros patamares e para outras descobertas. Para além disso tínhamos já uma grande participação e colaboração com a Holanda nas edições anteriores. Que apoios encontrou para decidir fazer a bienal nessa cidade? Ao contrário de Lisboa, e por ser um convite da própria cidade que recebe o evento, a responsabilidade de garantir os apoios para mais de 80% do orçamento da bienal foi da capital holandesa. Existiu uma articulação entre Amesterdão e o Estado Holandês, promovida pela própria cidade, para além da importante colaboração do Premsela Institute e da participação de outras fundações culturais holandesas. O panorama cultural holandês é completamente distinto do português, como pode imaginar.

É a primeira vez que se vai fazer uma EXD fora de Portugal, numa cidade onde, ao contrário de Lisboa, o design faz parte da vida cultural. O que é que a Experimenta pode levar para Amesterdão? Essa foi a primeira pergunta que coloquei a mim própria quando me telefonaram a fazer o convite. Só faria sentido a Eexperimenta deslocar-se para outra cidade se isso constituísse claramente uma mais-valia para essa cidade e para o evento em si. A Experimenta traz para uma cidade como Amesterdão um forte network internacional e uma plataforma de visibilidade e de estímulo. Mas, ainda mais importante do que isto, quando fomos convidados foi-nos dito que a ExperimentaDesign tinha sido considerada pelo grupo de consultores da cidade de Amesterdão como o mais interessante evento de design no panorama internacional, pela sua identidade, personalidade, pela forma como dialogava com a cidade onde se apresentava e pelo facto de ter uma perspectiva cultural e experimental como ponto de partida. Penso que será isso que a bienal portuguesa poderá levar para a Holanda.

English Version p.81

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Pensa que esta é uma experiência que se vai repetir? Passaríamos a ter uma bienal a dois tempos e em cidades diferentes. Em termos de gestão não vai ser complicado no futuro? Esta será a primeira edição em Amesterdão, desenhada e produzida em nove meses, mas efectuada a pensar já no futuro, na edição de 2010. Não interessa nem à Experimenta nem a Amesterdão uma experiência isolada e única, é preciso tempo para irmos mais fundo. A ExperimentaDesign passou efectivamente a ser uma bienal que acontece todos os anos... em duas cidades distintas! Em termos de gestão é complicado, claro, mas acima de tudo é desafiante e seguramente passível de ser executado. Foi criada a ExperimentaDesign Amsterdam Foundation para a gestão da bienal na Holanda, por exemplo, e a equipa em Lisboa foi reforçada para responder a este desafio. Havendo duas bienais, qual o grau de autonomia que passa a existir entre elas quanto a programas, interesses, colaborações, etc? Estamos no princípio da nossa colaboração... Essas questões, que foram já analisadas no primeiro think tank da bienal em Lisboa nesta Primavera, serão novamente analisadas em Novembro deste ano. Será sem dúvida muito entusiasmante observar o que esta plataforma entre Portugal e Holanda trará para a bienal. Neste momento está tudo em aberto...


grande entrevista o renascer da experimenta design

Em que medida ter a Droog Design como parceira —um grupo com uma visão particular sobre a produção e a relação com o design— poderá diluir a identidade da Experimenta e interesses mais pluralistas? Devo confessar que tenho um particular gosto por gente e por grupos com uma forte identidade e personalidade. Não me entusiasmam parceiros fracos, mas sim parceiros fortes. Este é o caso da relação da Experimenta com a Droog Design. Penso que é por isso que esta relação surge, por um mútuo reconhecimento e apreço do trabalho feito, dos posicionamentos tidos, das causas defendidas. Somos ambos fortes e em momento algum passa pela nossa cabeça que esta parceria possa significar perda de identidade, quer para nós, quer para eles. Apenas significa que tudo é mais discutido, tudo é mais analisado, que o confronto cultural e operacional é grande e por isso mesmo os resultados serão inesperados, mas sem dúvida excelentes. Em traços gerais, quais os artistas que vão estar na Experimenta de Amesterdão? Como é hábito na ExperimentaDesign são muito diversos e distintos os criadores que convidamos. Esta edição tem como tema Space and Place e este foi um tema que direccionou muito, como é claro, as nossas escolhas. Seja como for privilegiamos sempre uma conjugação entre nomes já conhecidos e com muito trabalho efectuado, e novos valores ainda em fase ascendente. Nesta edição apenas vejo o nome de Siza Vieira como presença portuguesa. Acha que de futuro a Experimenta em Amesterdão pode vir a ser uma oportunidade para promover os criadores nacionais, ou esta questão não é para si uma preocupação? Não é só o Álvaro Siza Vieira, o Miguel Vieira Baptista é um dos oito designers internacionais da exposição Come to My Place, que reúne 8 países e que é uma das exposições principais. Grande parte da imagem gráfica da bienal foi desenhada pelo Nuno Luz, português e designer da Experimenta. A minha preocupação em promover a criatividade portuguesa é constante e acontece em variadíssimas dimensões, umas mais visíveis e outras menos visíveis, mas não menos importantes.

grande entrevista o renascer da experimenta design

— 1. MIGUEL RIOS DESIGN SYSTEM2K07 Com performance de André Murraças. © Luis de Barros 2. Peter Zumthor Modelo do projecto de apartamentos para Lucerna, 2001-2004. © Markus Tretter06 —

“poderemos ter um papel mais activo na ligação dos designers e criadores ao tecido empresarial nacional e internacional”  Experimenta em Lisboa  Porquê o evento Warm Up em Setembro? Para assegurar que a ExperimentaDesign de Lisboa ainda não morreu? Não! O warm-up está relacionado com dois factos: um que é o de que quando recomeçámos a bienal sabíamos que não queríamos recomeçar de onde tínhamos parado, que queríamos introduzir novidades e alterações. Pela primeira vez vamos anunciar o tema da bienal e desafiar interlocutores locais e internacionais a apresentarem propostas com um ano de antecedência. O outro é que é bom marcar o calendário em Lisboa com mais apresentações ao público e é um facto que a Experimenta tem conteúdos e dinâmica para o fazer com mais regularidade. Para além da grande exposição de Peter Zumthor, na Lx Factory em Alcântara dia 8 de Setembro, em que consiste o Warm Up nos restantes 3 dias? Teremos 3 reuniões do think tank da bienal, uma sessão sobre o tema aberta a convidados nacionais e internacionais e 3 ou 4 reuniões internacionais sobre alguns dos projectos já em curso. Para o público em geral trazemos não só a exposição do Zumhtor, como também a oportunidade de o ouvir na Aula Magna.

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Já há previsões para o que vai ser a próxima Experimenta Lisboa em Setembro de 2009? Os temas, os artistas, os locais de exposição?Já há previsões e muita coisa avançada, estamos a trabalhar nessa edição desde o início do ano... Mas tudo ainda no segredo dos deuses, claro. Relativamente ao modelo das 4 edições anteriores da ExperimentaDesign, o que será visivelmente alterado nesta que está a arrancar? A ExperimentaDesign está sempre em constante actualização e avaliação, vamos corrigindo erros e melhorando formatos a cada edição que passa. Mas o modelo base mantém-se... muito embora este think tank de Setembro possa ainda trazer novidades nesse campo.

Quando se completarem os 10 anos da Experimenta em 2009, que legado pensa ter deixado no panorama português? No ano passado fui a uma das Pecha Kucha* em Lisboa. Lembro-me que estava nessa altura ainda no Porto e que não havia nenhuma certeza de que a ExperimentaDesign iria recomeçar. Foi impressionante ver que dos 20 criadores convidados a apresentar os seus projectos cerca de 17 tinham passado pela Experimenta e mostravam criações relacionadas com o facto da Experimenta ser a tal plataforma de difusão e de estímulo. Quando este Julho folheei a «Icon», com uma reportagem sobre o Fernando Brízio, praticamente todos os projectos que lá estavam tinham sido mostrados na ExperimentaDesign. A cada conferência que dou em escolas portuguesas os alunos referem exposições que viram na bienal, criadores que ouviram, debates que os marcaram. Internacionalmente sei que foi a Experimenta que colocou Lisboa no circuito internacional do design, uma capital de um país que não tinha tradição nenhuma nesta área. Quando penso no nosso serviço educativo e na quantidade de visitas guiadas que fazemos à bienal, na digressão da Voyager 03 por 10 cidades portuguesas, nas apresentações de design, arquitectura e cultura portuguesa que temos feito em Milão, Paris, Barcelona, Madrid, Londres... Nas empresas portuguesas que, alinhando connosco, introduziram o design na sua produção de um modo completamente distinto. Poderia continuar a lista, que é grande, e falar em mais e em variadíssimos impactos do nosso trabalho. O legado é, não tenho dúvidas, imenso e significativo.

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Uma das grandes lacunas em Portugal, que é do conhecimento de todos nós, é a falta de interacção entre os criadores de design e o tecido industrial. Esta é uma preocupação que lhe diz respeito ou apenas um problema de política cultural e sócio-económica do país? Diz-me respeito, claro. Preocupa‑me imenso e gostaria de poder agir mais nesse campo. Mas a Experimenta tem de construir uma estrutura de base estável —e isso aconteceu pela primeira vez agora com o protocolo tripartido com a Câmara Municipal de Lisboa, o Ministério da Cultura e o Ministério da Economia e Inovação— para poder estabilizar o seu principal projecto, que é a bienal, e para poder a seguir focar-se noutras formas de actuação. Já fazemos muitíssimo com a ExperimentaDesign, que tem uma perspectiva cultural sobre o universo da cultura de projecto e sobre o design mais propriamente. Mas penso que a partir de 2009 poderemos ter um papel mais activo na promoção da ligação dos designers e criadores em geral ao tecido empresarial, nacional e internacional, através de outros projectos ou parcerias. É fundamental que isso aconteça em Portugal, não há inovação nem desenvolvimento competitivo à escala global sem que isso tenha lugar.

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Relativamente à promoção dos designers nacionais, considera a existência da Experimenta absolutamente necessária ou haveria outras coisas a fazer para uma efectiva internacionalização dos nossos criadores? A Experimenta é absolutamente necessária, mas não suficiente. Digamos que nós somos um actor importante da sociedade civil que trabalha em articulação com o Estado e com as empresas e os criadores. Mas há muito ainda para fazer e todos ganhamos com uma relação sinérgica e inteligente entre as diversas partes. Do nosso lado, estamos cá para isso.

— www.experimentadesign.pt — Pecha Kucha*- organização internacional que elabora encontros onde grupos de criativos expõem o seu trabalho em 20 slides num tempo curto. —


toys unverso lego

toys texto: nuno sousa

clássicos do design universo lego

Quando Ole Kirk Christiansen – um carpinteiro dinamarquês – começou a produzir as primeiras peças de Lego em madeira, mal podia imaginar o impacto que estas iriam ter sobre a cultura popular moderna. Foi no início dos anos 30 (precisamente em 1932) que a Lego foi fundada, mas passou de brinquedo de criança a matéria-prima para uma nova vaga de artistas. Do design ao cinema de animação, as abordagens são cada vez mais criativas e inspiradoras.

Só depois da segunda guerra mundial a Lego chegou ao mercado. Nessa altura, já Ole e o seu filho Godtfred produziam os famosos tijolos de plástico, expandindo-se fortemente durante as décadas de 50 e 60. Nascia assim uma empresa verdadeiramente familiar à qual nem os filhos de Godtfred escaparam, ficando estampados em todas as caixas (os famosos baldes) a brincar com as peças de Lego. Uma revolução no mundo dos brinquedos acontecia pouco depois da revolução social de Maio de 68, quando Godtfred dediciu começar a sua própria empresa e inaugurar a Legoland em Billund (Dinamarca) a 7 de Junho de 1968. Entretanto, foram criados outros parques temáticos Legoland espalhados pelo mundo, nomeadamente no Reino Unido (Windsor), Alemanha (Günzburg) e EUA (San Diego, Califórnia) que comemoram, em simultâneo, os 50 anos do brinquedo e os 40 anos do nascimento do parque temático Legoland na Dinamarca (Billund), neste verão. O tema central são os piratas e as actividades bastante diversificadas, terminando com fogo-deartíficio no dia 26 de Outubro. O Lego —cujo nome significa jogar bem ou eu junto (em latim)— começou por ser um conjunto de tijolos de madeira que permitiam dar azo à imaginação e fazer réplicas de construções realmente ambiciosas, mas acabou por influenciar uma série de novas culturas numa panóplia de áreas distintas. Nenhum outro jogo influenciou tantas gerações a uma escala verdadeiramente mundial. A sua constante renovação, inovação, acompanhamento de novas tendências e um controlo rigoroso na produção de todas as peças, fizeram com que a marca se mantenha no mercado mundial com a mesma força com que se popularizou a partir do pós-guerra.

Seria de esperar que, com o passar dos anos, o brinquedo fosse perdendo o interesse. Mas a verdade é que passou a ganhar cada vez mais adeptos desde coleccionadores a fanáticos do modelismo, passando por novos criadores. Na internet abundam sites dedicados a imortalizar o brinquedo e há mesmo quem decida abrir museus alternativos aos parques temáticos (como é o caso do Toy and Plastic Brick Museum em Bellaire no Ohio, E.U.A., que já se encontra aberto em horário alargado). O Lego passou de brinquedo de criança a matéria-prima para uma nova vaga de artistas. Do design ao cinema de animação, as abordagens são cada vez mais criativas e inspiradoras. No youtube são cada vez mais os vídeos que popularizam as peças e os bonecos em filmes de animação que ultrapassam todas as barreiras da criatividade. Um dos canais de referência é da Team Ayayo. Um dos seus membros, Anders Engström, diz-nos que todos os elementos da equipa costumavam brincar bastante com Lego quando eram mais novos, afirmando que “é um dos melhores brinquedos de sempre”. Utilizando técnicas, equipamento e software simples, os pequenos filmes de animação da Team Ayayo fazem as delícias de qualquer entusiasta do universo Lego. “Começámos com alguns filmes feitos com uma câmara digital. Depois em Março de 2007, juntámo-nos e fizemos um filme de luta básico sobre um ninja. Depois desenvolvemos mais e mais e agora os nossos filmes estão cada vez a ficar melhor. Usamos uma webcam simples e um programa para captura de frames chamado Anasazi SMA. Depois editamos os nossos filmes no Windows Movie Maker. Recolhemos a maior parte dos nossos efeitos sonoros

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na Internet. Mas às vezes nós próprios os gravamos. É grátis e divertido! Há muitos realizadores que usam Legos por aí. Desde o início que gostámos da maior parte dos filmes feitos pelo Nate Burr (Blunty3000 no Youtube). Agora existem uma série de realizadores como Zach Macias, Nicholas Jaeger, Philip Heinrich e Doug Vandegrift. (Quanto a novos projectos) actualmente não estamos a trabalhar em nenhum, mas nunca se sabe”. No ebay crescem as ofertas de artigos feitos em Lego (pulseiras, brincos, aneis, pins, colares, etc.) inspirados pelo movimento musical londrino Nu Rave. Nesse conjunto de bandas encontram-se os Cansei de Ser Sexy e a cantora M.I.A., entre outras. Outra plataforma onde vão aparecendo cada vez mais bandas relacionadas com o universo Lego é o myspace. Numa rápida pesquisa encontramos uma banda portuguesa designada de Mundo Lego e outra britânica com o nome de Lego Cut. Ambas inspiradas pelos brinquedos de construção e por esta nova corrente que não pára de crescer e desencadear outras novas correntes. O Lego continua a ser um universo cheio de possibilidades. Os tijolos e os bonecos sairam do balde e andam por aí a fazer de Jackass, personagens e heróis de culto e outros que a imaginação vai permitindo. Há peças para tudo. É só juntar arte e criação e um novo lego é recriado.

— www.lego.com www.legoland.dk www.descolex.com www.danstoymuseum.blogspot.com —

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televisão «Terapia»

televisão texto: mário nascimento Fotos: Copyright 2000-2005 Home Box Office Inc. All Rights Reserved.

De duelos a duetos «terapia»

Este ano, uma nova série de ficção mostra ao grande público como é ir a um confessionário da idade moderna. Como é fazer psicoterapia? Do que falamos quando falamos? É só falar? É só ouvir? É só estar ali durante uma hora a dizer o que nos apetece? Sim. É.

Tudo começou em Israel, há três anos atrás. Uma série de televisão chamada «Be’Tipul» («em tratamento» em hebraico) teve um sucesso sem precedentes. Público, crítica, prémios, tudo. Uma famosa actriz israelita, com alguns papéis em séries e filmes americanos, viu uns episódios e mostrou-a a Mark Wahlberg, actor também envolvido na produção da série «Entourage». Mark mostrou-a à HBO e pronto, caíram os primeiros dominós. A série foi adaptada do original, quase tão literal quanto culturalmente possível, e o resultado foi «In Treatment», com Wahlberg a retomar a produção. Paul tem 50 anos, é psicoterapeuta e nós vamos acompanhá-lo e aos seus clientes durante nove semanas consecutivas, de segunda a sexta. Assim, às segundas, temos Laura, uma médica com problemas de amor; às terças Alex, um piloto que regressa de uma missão no Iraque com problemas de consciência; às quartas Sophie, uma adolescente; às quintas Jake e Amy, um casal com problemas; e às sextas Paul tem a sua própria sessão com Gina, uma terapeuta sua conhecida, que não vê há dez anos e que sai da reforma para lhe fazer supervisão.

É este o cenário aparente de «In Treatment» (sim, aparente, então?). Havendo um cenário, há também bastidores: Paul Weston é psicoterapeuta mas a superioridade do título «Dr.» antes do nome não o isenta de problemas e conflitos com os seus vários papéis, enquanto terapeuta, cliente, marido, pai, homem, enfim, pessoa. E pouco a pouco, é-nos dada a conhecer a sua vida privada, quase como a informação que se apreende através de uma porta entreaberta, um cortinado mal fechado, o fim de um telefonema ou o conteúdo de um armário de casa-de-banho. Progressivamente, à medida que o puzzle de Paul se vai desfazendo, pegamos nas peças que caem e fazemo-lo nós lentamente. Que é mais ou menos o que se faz em terapia. Um sítio onde quatro paredes podem ser um outro mundo, uma mesa, um muro imenso e uma caixa de lenços de papel, um soldado sempre alerta. Mais uma vez a HBO põe-nos à frente um prato tão requintado como pouco óbvio. Uma série que é quase um talkshow. Uma série que é mais teatro que televisão. Uma série onde a acção não se passa. Pode ser. É, de facto, uma série que, mesmo em meia-hora, pede imenso do público. Não tendo muita «acção», é extremamente narrativa e cheia de teias e embaraços. E os movimentos de câmara, parecendo à partida limitados pelas paredes do consultório, são fluidos, elegantes e discretos o suficiente para ganharem a nossa cumplicidade, nesta espécie de «huis clos» onde o céu são os outros.

A dinâmica da série com o espectador pode também espelhar a relação de transferência/contra-transferência entre um terapeuta e um cliente: enquanto formato, «In Treatment» só conquista quem quiser ser conquistado, pois é difícil, exige, absorve; mas a seu tempo tornase mais fácil, retribui, e no fim faz-nos emitir a agridoce interrogação: já? Se a escolha do formato é ousada, a escolha do elenco não é menos curiosa: e é tentador citar todos os actores que se sentam nos sofás, mas é impossível não falar dos que se sentam nas poltronas. Gabriel Byrne e Dianne Wiest, como Paul e Gina, são simplesmente superlativos. As expressões faciais dos últimos segundos de uma bomba-relógio. A compaixão e a ira, literalmente, num abrir e fechar de olhos. Ambos estão nomeados para dois dos quatro Emmys que a série pode ganhar no final de Setembro (as outras duas nomeações são para direcção de fotografia e melhor actor convidado). Esta série «difícil» teve pouco tempo para se afirmar junto do público, pois assim como Paul tem cinco sessões por semana, também o público tem a experiência de ver cinco episódios por semana. Mas entre a elevada qualidade da escrita e o nosso voyeurismo insaciável, o sucesso aconteceu e a produção da segunda temporada começa já este Outono, com Gabriel Byrne e Dianne Wiest já confirmados para retomar os seus papéis. Acabou o nosso tempo; continuamos para o ano.

— «In Treatment» (ou «Terapia», diariamente no canal Fox:Next) —

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fotografia olivia arthur

fotografia texto: Carla Isidoro

afinal é só um lenço olivia arthur

“Há muito mais na vida daquelas mulheres do que ser obrigatório cobrirem a cabeça. Daí o título do meu trabalho ser «Beyond the Veil» (Para além do Véu).” É assim que a fotógrafa inglesa Olivia Arthur explica as razões da escolha do assunto e do título que levaram à conquista do prémio espanhol de foto-reportagem. Ao observarmos algumas das imagens que fez no Irão somos levados a ver aquelas mulheres da forma como ocidentalmente estamos formatados para olhá-las. Vemolas diferentes, logo à partida, porque têm o cabelo coberto por um lenço ou cobrem o corpo com um chador, e isto soa-nos a desrespeito pelas liberdades individuais. São obrigadas a usá-lo em espaços públicos porque assim ditam as regras impostas por um presidente radical que vê na lei islâmica a lei da liberdade. Esquecemos, no entanto, que num país profundamente religioso e muçulmano o uso do lenço é uma das regras sagradas do Corão e a sua obrigatoriedade não é mal recebida. Existem mulheres que optariam por usálo de qualquer maneira – caso não fosse obrigatório – mas existem outras que o tiram quando não estão em locais públicos e vivem com esta regra como quem vive com a obrigatoriedade de usar uma farda de colégio. Usa-se quando e onde deve ser usado. Olivia não fugiu à regra e o lenço passou a fazer parte dos seus objectos do quotidiano. “Sim, tive que usar o lenço sempre que estava num sítio público, é a lei de todas as mulheres. É um pouco estranho no início e requer alguma habituação, especialmente porque o lenço estava sempre a cair, mas é a mesma regra para todas. No final de contas não é um grande problema.”

A Europa discute questões ligadas ao uso do lenço ou de outros elementos de cariz religioso, a implicação do seu uso em locais públicos, mas afinal esta é uma preocupação unilateral e também uma forma de demonstração de poder ou até de ignorância face à cultura do outro. Olivia Arthur apercebeu-se desta questão junto de mulheres que conheceu e ficou a par das suas opiniões: “As iranianas não gostam que os estrangeiros vejam o uso do lenço como um grande problema porque para elas esta é uma das partes menos significativas das suas vidas. Penso que devíamos tentar compreender estas culturas antes de as julgarmos. E acho que somos bastante presunçosos quando achamos que nós é que sabemos fazer as coisas correctamente.”, afirma, acrescentando ainda a respeito da liberdade da mulher: “A independência social e financeira das mulheres acarreta os seus problemas e a vida das mulheres ocidentais não é perfeita. Nas culturas islâmicas acredita-se que a mulher deve ser respeitada e protegida de uma forma da qual o Ocidente se afastou há muito tempo, e acham que no Ocidente tratam as mulheres sem respeito algum. No Irão as pessoas são bastante bem formadas, é um país com bastantes laços com o Ocidente e não lhes é difícil entender e respeitar a forma de estar dos outros países.” Na realidade a imagem que nos é “vendida” pelos media ou agências noticiosas é tão parcial como é parcial o livre arbítrio de acreditarmos somente naquilo que nos é dado a ver. A escolha de acreditar é nossa, individual, mas agarrada a ela vêm formas de vida, preconceitos derivados de ignorância, uma falta de informação generalizada, experiências pessoais (ou a falta delas) e uma capacidade de análise que vive em conformidade com o mundo mediático que temos ao nosso dispor. Resta-nos procurar saber mais e duvidar, sempre.

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Durante a sua temporada no Irão Olivia Arthur descobriu uma forma de estar entre as mulheres à qual somos alheios, que serviu de base para a construção do seu trabalho fotográfico. “Uma das coisas mais surpreendentes que descobri no Irão foi perceber que as mulheres lá são muito fortes. Em muitos outros países daquela região as mulheres são muito tímidas, mas no Irão não o são de todo. São formadas, trabalham, saem sozinhas e não têm medo do mundo. Mesmo nas aldeias tive a sensação de serem fortes à sua maneira. É algo sobre o Irão do qual não fazemos ideia.” Este ano foi convidada para integrar a agência Magnum. Diz que sim, que o estatuto de ser fotógrafa da Magnum abre portas, mas que na realidade isso não afecta o seu trabalho. “Tenciono continuar a fazer o que tenho feito. A Magnum abre portas, as pessoas de repente ficam interessadas no nosso trabalho quando ele é aprovado pela agência, sentem-se mais confiantes para publicá-lo ou irem vê-lo. Mas é tudo muito recente, ainda tenho que perceber como funciona realmente esta relação.”

Classe Feminina da Escola de Artes de Teerão.

A fotógrafa inglesa Olivia Arthur venceu o Prémio PhotoEspaña OjodePez Volkswagen de Valores Humanos 2008. As fotos que tirou a mulheres iranianas, seus quotidianos e hábitos de vida, conquistaram um prémio que foi instituído este ano pela primeira vez. Em «Iran: Beyong the Veil» revela uma vida que nem sempre se compadece com a lei islâmica.

Olivia Arthur em trabalhado em diferentes países do Médio Oriente, com particular interesse no fosso cultural entre o ocidente e oriente. De momento está a desenvolver uma pesquisa sobre a segunda geração de mulheres asiáticas no Reino Unido. Este mês a Fnac estreia a exposição dos finalistas do Prémio PhotoEspaña OjodePez Volkswagen. A digressão das fotos acontece simultaneamente em Portugal e Espanha e poderemos acompanhá-la a partir do dia 11 na Fnac do Cascais Shopping e a 4 de Dezembro na Fnac do Norte Shopping. Lisboa recebe a exposição em Maio do próximo ano.

— www.oliviaarthur.com www.ojodepez.org www.phedigital.com —

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moda texto:Martin Kullik & Francisco Vaz Fernandes

moda international talent support

um piscar de olhos inglês international talent support

Dois candidatos de escolas londrinas chegaram para testemunhar o alto nível de formação britânica arrebatando, para surpresa de muitos, os principais prémios do IT S - International Talent Suport, que nos últimos anos tem premiado consecutivamente recém-formados da escola de moda de Antuérpia, Hogeschool. David Steinhorst e Heikki Salonen vieram abafar o que se ouve em sussurro: que depois da geração de McQueen, McCartney e Galliano a capital britânica não tem muito para dizer em matéria de moda. Registe-se agora esperança no alemão David Steinhorst, que sai da Central Saint Martins, com sinais de um novo vigor criativo.

O ITS, International Talent Support, realiza-se todos os anos em Trieste e é um concurso mundial destinado a finalistas das escolas de design de moda, tendose transformado num palco fundamental para o lançamento de uma carreira promissora. Organizado pela EVE - uma associação local que conta nos últimos anos com o forte apoio da Diesel - o evento decorre em três dias e leva a concurso três categorias: Acessórios, Fotografia e Moda. É um evento marcado pela juventude porque para além de todos os estudantes seleccionados, que se fazem acompanhar por muitos colegas, reúne uma grande quantidade de jovem imprensa já aficionada do ITS. Por isso há muitos risos e muitos nervos pelos corredores desse microcosmos de três dias onde a imprensa discute com os directores das melhores escolas, com o júri e os concorrentes, estabelecendo-se também muitas cumplicidades. Naturalmente muitos dos nomes que passam por Trieste serão a futura geração de criadores que marcará a moda, daí a importância de estabelecer os primeiros contactos para um acesso privilegiado no futuro. O evento divide-se em duas galas, sendo que no primeiro dia há uma apresentação dos finalistas do concurso de acessórios e de fotografia, e no segundo ocorre um desfile com todos os concorrentes de moda. Cada um apresenta oito coordenados e é julgado por um júri profissional e de grande prestígio, que contava este ano com nomes como Bernadette Wittman, Cecilia Dean, Kei Kagami, Maria Louisa Poumaillou, Maria Luisa Frisa, entre outros.

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Os dois principais prémios foram para Inglaterra, comprovando a nova dinâmica das escolas de moda de Londres que nos últimos tempos pareciam menos preparadas e competitivas que a escola de Antuérpia ou de Viena. Desta vez o principal prémio foi arrebatado por David Steinhorst, um alemão que sai de Central Saint Martins. O segundo prémio, o Diesel Award, foi ganho por Heikki Salonen, um finlandês do Royal College of Art. Desta feita, tanto o número de alunos a concurso vindos de escolas londrinas - quatro propostas do Royal College e cinco de Saint Martins, o maior de sempre - assim como os dois prémios, não deixaram de ser uma surpresa para todos os que acompanham o ITS ao longo das suas últimas 7 edições.

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David Steinhorst, o preferido do júri apresentou uma colecção de mulher. As peças eram marcadas pelo recurso a uma silhueta ampla e fluida construída a partir de tecidos leves que lhe davam movimento, e por acabamentos realizados a partir de fechos zip da YKK. Grande parte da colecção de Steinhorst incidia na facilidade com que o fecho em zip passava de elemento utilitário a acessório, contribuindo em para a composição e arquitectura dos vestidos. A sua aplicação, o seu excesso e peso contrastavam com a leveza e fluidez dos tecidos, criando exercícios de composição. Revelou nos oito coordenados uma aptidão criativa para jogos com elementos e proporções que fazem prever a evolução e multiplicação de propostas desta colecção. Com outras estruturas de apoio teria o sucesso garantido na principal plataforma de moda inglesa, a London Fashion Week. Por tudo isso David Steinhorst é um nome a reter, que muito provavelmente irá emergir depois de passar por alguns ateliers de designers mais integrados na indústria de moda.


moda international talent support

moda international talent support

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  Fotografia 

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 Diesel Award  É um prémio que conta com o parecer do júri internacional do concurso ITS mas é essencialmente atribuído pela direcção criativa da Diesel. Existem várias vantagens para ser tão cobiçado como prémio principal. Para além de oferecer uma bolsa de 50 mil euros, a mais-valia está na possibilidade do vencedor ser integrado na equipa criativa de designers da Diesel, durante um ano, e realizar uma colecção-cápsula comercializada mundialmente pelas lojas mais relevantes da marca. Este ano o prémio coube ao finlandês Heikki Salonen que veio do Royal College of Art e concebeu uma colecção de mulher que cruza as raízes da altacostura com guarda-roupa masculino e uma certa iconografia da contracultura inglesa. No total, a visão de uma mulher mais urbana, agressiva e independente, mantendo contudo uma certa feminilidade interior. Explora os contrastes por um lado, e recorre ao minucioso trabalho de aplicação de pérolas sobre sedas pesadas por outro, mantendo uma austeridade masculina enfatizada pelo recurso de botas Dr. Martens. O universo de Salonen não está longe do imaginário da “whitework class” inglesa. Das muitas outras propostas ainda há a referir dois criadores que tiveram prémios secundários. A francesa Elise Gettliffe da Hogeschool de Antuérpia, trouxe-nos um imaginário de príncipe encantado com pouca inovação conceptual, apesar de coordenado de um modo interessante e chamativo. As propostas desta francesa pareciam ter saído de um livro infantil povoado de príncipes e princesas, e servido como um doce que facilmente agrada. Apresentou-se como uma das grandes candidatas ao primeiro prémio mas aparentemente pesou contra ela o facto de muito do universo, da linguagem construtiva e das técnicas aplicadas, estarem próximas dos argumentos do vencedor da 6ª edição, também ele oriundo da mesma escola. Ou seja, apesar de se reconhecer a qualidade da colecção, ficámos com a sensação que era mais do mesmo.

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Já o caso do japonês Yuima Nakazato, também oriundo da escola belga, revelou-se mais interessante e não parecia ser um produto escolar tão formatado. Com um forte imaginário que provavelmente passa pela ideia de mulher biónica de J.G.Ballard, Nakazato apresentou uma colecção feminina inspirada em Leonardo da Vinci e nos engenhos técnicos que o criador italiano concebeu durante a sua vida. No conjunto da colecção sobressai a estruturação arquitectónica que nos faz pensar numa influência de Chalayan, principalmente pelo lado mecânico envolvido no uso dos acessórios. No entanto, foi sem dúvida uma colecção vibrante, não deixou de causar admiração pela capacidade de execução, que não se espera de um estudante finalista. Deste ponto de vista, o japonês esteve próximo do primeiro prémio.

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— 1. Colecção de Elise Gettliffe, vencedora do Fashion Special Prize 2. Colecção de Heikki Salonen, vencedor do Diesel Award 3. Colecção de Yuima Nakazat vencedor do Vértice Award 4. Colecção de Stoienhorst, primeiro prémio e vencedor do ITS7 5. Kazutaki Nagashima, primeiro prémio e vencedor do Mini Clubman Photo Award 6. Valentim Quaresma, vencedor na categoria de acessórios —

 Acessórios  As colecções de acessórios são de grande importância no ITS até pelo número de candidatos que concorrem à final. Este ano o concurso teve especial interesse para nós pelo facto de concorrer o trabalho de um português —pela primeira vez— que acabaria por ganhar o primeiro prémio. Valentim Quaresma, não propriamente um finalista de escola, é, em Portugal, sobejamente conhecido. Principiou por ter visibilidade depois da sua formação na escola Arco e começou a desenhar uma colecção de joalharia para Ana Salazar. Há alguns anos que as montras da loja da Rua do Carmo apresentam regularmente peças que resultam dessa colaboração. A joalharia de Valentim Quaresma recorre a um espírito artesanal percorrendo muito do universo que faz mover Tim Burton. Diríamos que existe uma relação com o universo do fantástico, que se traduz numa proliferação de correntes e gumes cintilantes que adornam, cingem, seduzem e ameaçam ao mesmo tempo o corpo.

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De todas as categorias, a fotografia é a mais recente, tendo ido a concurso pela terceira vez. Ao contrário do ano passado onde os critérios não eram claros (havendo a dúvida se se estava a avaliar fotografia de moda, de arte ou mesmo fotojornalismo), este ano a selecção parecia mais homogénea e queria provar que no futuro deve ser tomada mais a sério. Pelo menos prevaleciam fotografias dentro de uma tradição do retrato e do registo documental, trazendo critérios de comparação e valorização mais fáceis para quem estivesse a apreciar. Dentro dessa homogeneidade que caracterizava este ano podíamos mesmo assim encontrar algumas derivações. Por um lado tínhamos uma certa fotografia clássica a preto e branco, onde se distinguia o japonês Kazuta Nagashima que entra no domínio do retrato e da paisagem com um traço particular, surreal e poético da realidade. Nagashima ganharia o primeiro prémio deixando para traz candidatos fortes como Carly Steinbrunn, que trazia retratos a preto e branco com fortes traços psicológicos. De resto, o retrato de indivíduos ou mesmo de comunidades com um certo gosto documental seria o forte desta selecção. Dentro da perspectiva houve dois projectos de grande impacto e qualquer um deles merecia igualmente ser premiado. A iraquiana residente em Londres Mashid Mohadjerin fotografou mulheres de comunidades rurais do seu país. A luz, as poses, emprestam a estas mulheres uma dignidade característica de uma tradição burguesa típica para figuras de estado. Outro projecto de referência pertence a Venetia Dearden, que fez retratos de famílias desfavorecidas nos seus ambientes familiares. Alguns deles a viverem numa única divisão, a fotógrafa dava uma visão de interiores caóticos e povoados por muitas crianças e adultos. Dearden consegue escapar a uma imagem de denúncia de carácter social conseguindo extrair sinais de felicidade que dão um lado mágico e nos permitem simpatizar de imediato com as suas imagens. Os restantes candidatos a mencionar navegam um pouco nesta mesma fotografia próxima do retrato que tira alguma poética da exploração da luz, do insólito das situações ou da frontalidade do realismo. Outras propostas de ver a fotografia, como o recurso à encenação, também estavam presentes mas quase passaram despercebidas.


moda

Housewife

by Mécanique Photography modelo Yulia (Major Model Managment) stylist Cameron Carpenter (ckcarpenter@ive.com) makeup Susana Santos (www.susanasantosmakeup.com) hair Tomizawa Yoichi

boné ELLEN CHRISTINE MILLINERY, vestido KAI KUHNE, pregadeira vintage

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casaco de smoking e shorts BNX, camisa de tule com missangas CHANEL, luvas PRADA, bracelete em resina PONO, meias e sapatos na travessa AGENT PROVOCATEUR

saia casaco NORMA KAMALI, pregadeira GIVENCHY, camisa LACROIX JEANS, bracelete de resina PONO, collants AGENT PROVOCATEUR, luva LACRAISA


fato de banho NORMA KAMALI, sapatos HOLLYWOULD, carteira LULU GUINNESS

blusa LOUIS VERDAD, cinto DONNA KARAN, saia HUY VO. meias AGENT PROVOCATEUR, sapatos da produção


moda

happy together —from lisbon with love

moda

Alexandra: blusa ANDY WARHOL BY PEPE JEANS, cinto e jeans DIESEL. Ruben: t-shirt e jeans LEE GOLD LABEL, cardigan LACOSTE, cinto PUMA.

Happy Together —from Lisbon with Love by Mécanique Photography

modelo alexandra & ruben ruas (Elite Models) stylist Conforto moderno & Mafalda Silva makeup Susana Santos (www.susanasantosmakeup.com)

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moda

moda

Alexandra: camisola TWENTY8TWELVE, à cintura, impermeável DIESEL, sapatos PEPE JEANS. Ruben: corta-vento PUMA, jeans LEE GOLD LABEL, t-shirt LEVIS.

Alexandra: vestido DIESEL, colete TWENTY8TWELVE, óculos RAYBAN. Ruben: calças e corta-vento FRED PERRY, chapéu PUMA.

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moda

moda

Alexandra: tank top NIKE SPORTSWEAR, cachecol TWENTY8TWELVE. Ruben: track jacket Eugene e t-shirt ambos icons da NIKE SPORTSWEAR.

Ruben: windrunner icon da NIKE SPORTSWEAR.

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moda

moda

Alexandra: gorro MANGO, óculos de sol RAYBAN, blusão DIESEL. Ruben: pólo de malha FRED PERRY e óculos de sol RAYBAN.

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parq here

porto ccb Texto: John Almeida (Porto) fotos: Sofia Costa Pinto

Na zona nobre da Miguel Bombarda encontramos o Centro Comercial Bombarda. Não é um centro comercial normal. Longe da opressão monolítica e do conformismo consumista a que as grandes superficies nos habituaram, no CCB encontramos o que se pode chamar de “lojas de autor”: pensadas para um público mais específico, talvez um pouco mais exigente, mas nem por isso menos real e presente na cidade do Porto. Desde a entrada, lionhas multicolores levam-nos às diversas lojas, enquanto circulamos à volta de um átrio onde há sempre obras de arte expostas. Há lojas tão diferentes entre si como a LaPaz, com vestuário masculino e feminino, acessórios e calçado, tanto de marcas conhecidas como da sua própria marca, tudo num ambiente muito hippie-chic e sofisticado.

A Águas Furtadas vende peças únicas de artistas e designers Portugueses, como carteiras,pins, bonecas. Apenas um exemplo do eclectismo que é evidente neste espaço bonito e acolhedor. Temos a Pickpocket, que vende acessórios e calçado de marcas locais como a coq.luxe. Ou a Vertigo, onde há um sem número de artigos e memorabilia ligada ao cinema. Seguindo em frente passamos por um belíssimo jardim japonês, que fornece um espaço de tranquilidade e paz. Podemos ver também a BRIC, onde há mobiliário vintage e objectos de autor contemporâneos. Todas as lojas respiram personalidade e entusiasmo. Vê-se que os consumidores são diferentes e aqui encontram o que procuram: objectos, roupa, mobiliário ou livros com um cunho mais pessoal ou mais artístico, se quiserem.

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Aqui encontram algo mais. Nas palavras de Marina, uma das impulsionadoras e fundadoras deste espaço, aqui há uma certa cumplicidade entre quem compra e quem vende. O critério rigoroso de escolha dos espaços deu frutos, e o ambiente positivo incentiva o aparecimento de espaços diferentes e refrescantes. Se todos os centros comerciais fossem assim...


parq here

amo-te lisboa

clube change

Texto:carla isidoro

foto:josé fernandes (www.josefernandesphoto.com)

Desta vez na baixa da cidade —dentro do prestigiado Teatro Nacional D. Maria II— o grupo de Pedro Miguel Ramos inaugura mais um espaço Amo.Te.

Chamava-se Bar do Rio mas agora é o Change. Este novo clube em pleno Cais do Sodré vem reforçar a rota nocturna de bares interessantes deste bairro ribeirinho. A programação é assinada por uma figura demais conhecida dos lisboetas, o Dj Johnny, que traz ao projecto mais-valias como a qualidade e a liberdade.

O projecto contempla um restaurante, que inaugura este mês, e uma esplanada que entrou em funcionamento no Verão marcando a diferença com concertos de jazz no espaço público. O antigo bar do teatro foi pensado e remodelado à imagem dos outros restaurantes do grupo, se bem que este novo espaço está envolto em toda uma atmosfera histórica. Pedro Miguel Ramos explica: “O nome estava guardado há alguns anos de forma a ser aplicado num espaço com a grandeza do próprio! Amo.te Lisboa é um novo imaginário romântico inspirado na Lisboa urbana do séc. XIX, recriado e pensado em função da história do sítio. Ao entrar sentimos a imagem do dandy cosmopolita que Almeida Garrett cultivou.”

O Change quer fazer jus ao seu nome introduzindo um factor de diferença numa cidade cansada de rotinas nocturnas. Afirma-se como alternativa para um público ávido de boa música e de uma pista de dança com gente gira. Os Dj sets começam às 23h, e quem quiser dançar cedo —sem ter que esperar pelas duas da madrugada— é ali que deve ir. Uma vez por semana as noites “Muda a tua Sexta” ou “Muda o teu Sábado” estão a cargo de Johnny e Ricardo Maneira (sim, aquele que mete música em todas as festas da Parq).

Privilegia-se boa comida num espaço agradável e bem desenhado com programação cultural complementar, aliados a um branding característico.

Às sextas e sábados (para já) com vista para o Tejo.

Mas esta novidade não vem sozinha: acaba de abrir na Calçada Nova de S. Francisco, no Chiado, a Amo.Te Store. Uma pequena loja gourmet onde encontramos chás, champanhes, massas ou as loiças personalizadas Amo.Te

Sexta 5: Change by Gola

Sáb. 20: Change Your Saturday

Mark the Clive Lowe (Uk);

(Muda o teu Sábado)

Djs: Johnny + Ricardo

Djs Johnny + Ricardo Maneira

Maneira; Vj PTV Sáb. 6: Homenagem a Rui Aires

Sexta 26: Change Your

Djs Os 7 Magníficos

Friday (Muda a tua Sexta)

Sexta 12: Flashdance

Djs Ride + Johnny + Ricardo

Dj Dinis

Sab. 27: Change Your Saturday

Sáb. 13: Change you Saturday

(Muda o teu Sábado)

(Muda o teu Sábado)

Djs SpaceBoys

Live act: Open Source; Dj Ricardo Maneira. Sexta 19: Let the Music play

— Praça D. Pedro V- Lisboa Seg, terças e quartas: das 10h à 01h Quintas, Sextas e Sáb: das 10h às 02h telf:213 420 668 — www.amote.clix.pt —

Djs The Job Donners; (Rui Murka+Mr Cheeks+Black Orpheus)

Cais do Sodré, armazém A porta 7 (ao lado da estação dos combóios e restaurante Cais do Sodré).

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parq here

RECEBE UMA REVISTA PARQ, EM CADA ENCOMENDA.

the hood

DIESEL STORE PORTO

Texto: sofia saunders

Texto: sofia saunders

Uma nova loja na já muito movimentada Rua do Norte, The Hood oferece ao público os modelos mais exclusivos da Nike, que na maior parte das vezes são difíceis de encontrar. A colaboração exclusiva com esta marca de desporto faz com que a Hood tenha em termos de ténis, a imagem mais moda da Nike. Nesta estação vamos poder encontrar, numa visão conjunta, os modelos que se fazem para a linha Nike sportswear.

A Avenida da Boavista tem cada vez mais pontos de atracção para fazer shopping. Desta feita é a nova loja Diesel que alimenta esta artéria da cidade do Porto com materiais de bom-gosto. Destaca-se, desde logo, o "ouro negro" da marca… a Diesel Black Gold. Trata-se da nova colecção de luxo casual lançada no último desfile Outono-Inverno 08 em Nova Iorque, toda ela pensada em peças especiais e requintadas.

A loja ofereceu as suas paredes interiores a artistas da street art. Abriu em Julho com trabalhos de AMDF e MAR (com o projecto conjunto Riot Corporation), uma excelente ideia que mistura diferentes técnicas da old e da new school. O nome The Hood não podia ser mais apropriado já que se trata da abreviatura de neighbourhood (bairro/vizinhança), celebrando o espírito que se vive no Bairro Alto e em especial naquela rua.

A decoração da loja foi concebida para grandes superfícies castanhas em madeira, abrilhantada por brancos envernizados e aquecida por veludos escarlates. Nos 200m2 de loja encontramos vestuário para o dia-a-dia e uma extensa gama de jeans "5 pockets", acessórios, malas, calçado, óculos, perfume, roupa interior ou joalheria. Tudo aquilo a que esta marca já nos habituou. Boas compras!

— Rua do Norte, 65 - Bairro Alto telf. 213 473 255  —

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— Avenida da Boavista 1767-1837, Loja 1-2 telf. 226 009 701 —

www.nomenuhomeservice.pt

Basta marcar: 213 813 939 / 933 813 939 PARQUE DAS NAÇÕES 213 813 939 / 933 813 939 OEIRAS 214 412 807 / 934 412 807 CASCAIS 214 867 249 / 914 860 940 ALMADA 212 580 163 / 917 164 591 COSTA DA CAPARICA 212 580 163 / 917 164 591 COIMBRA 239 714 307 / 961 014 220 LINDA-A-VELHA 213 813 939 / 933 813 939 LISBOA


as boas línguas de miss jones e ray monde

12 Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa 19 a 27 de Setembro de 2008 Cinema São Jorge www.lisbonfilmfest.com

SECÇÃO COMPETITIVA PARA A MELHOR LONGA-METRAGEM MELHOR FILME | MELHOR ACTOR | MELHOR ACTRIZ SECÇÃO COMPETITIVA PARA O MELHOR DOCUMENTÁRIO SECÇÃO COMPETITIVA PARA A MELHOR CURTA-METRAGEM PRÉMIO DO PÚBLICO PANORAMA LONGAS-METRAGENS PANORAMA CURTAS-METRAGENS QUEER TV | PANORAMA DOCUMENTÁRIOS

bocca O Verão convoca para aos passeios. Foi num entardecer calmo que Jones & Monde percorreram a pé o caminho que os levou até ao Bocca, aquele sempre pontuado pelos jardins floridos e cheirosos do centro oitocentista da urbe. Preparação ante-digestiva para bem fruir a maneira como oficia Alexandre Silva, um jovem chefe já afamado. Encontraram uma sala de cores claras, verde alface vivo sobre branco, e luzes pensadas. Também pensado um espaço próprio, nos mesmos tons, para fumadores. Já tido como costume, e bastante agradável, escolheram uma mesa junto à janela. Gentilmente foram convidados a refrescarem-se com uma flute de champagne enquanto liam a ementa pejada de aliciantes iguarias. Começando com as entradas frias, Miss Jones não mostrou grande inclinação para a vichyssoise de coco com frutos do mar caramelizados que entusiasmava bastante Ray Monde e, então, quando levada à mesa, o satisfez plenamente. Por

encantadora oposição, Jones escolheu a terrina de foie gras com figos e crosta de pistácios, espuma de Amaretto, caviar de Porto L.B.V. ! Um cálice de vindimas tardias, dourado e dulcíssimo, veio intensificar a pluralidade dos sabores. Um Douro branco Castelo d’Alba Vinhas Velhas de 2005, que fazia já companhia a Monde, atingiu o seu exponencial com a entrada quente, uma belíssima tempura de caranguejo de casca mole, espargos bébés salteados com tomate confitado e algas frescas, espuma de licor Beirão. Um deleite para a vista e para as papilas! Um tataki de atum do Atlântico Norte e creme de mangericão confirmou a escolha marítima. Elegante prova da marca fusional da culinária hodierna ! Uma carne leve, peitos de codorniz salteados, marinados em molho de soja e coentros, servidos com gnocchis de caldo verde, legumes e verduras da época, veio completar a escolha. Para os acompanhar aproveitaram a possibilidade de escolher de entre quase todos os vinhos da carta servidos a copo —com a ajuda atenciosa do chefe de sala— um Quinta

QUEER ART RETROSPECTIVA PASCAL ROBITAILLE | DOCUMENTÁRIOS | FICÇÃO UMA CINEMATOGRAFIA GAY PORTUGUESA DOS ANOS 1970 QUEER POP PROGRAMA SOBRE O OBSCENO CICLO DE CINEMA POSITIVO DEBATES SESSÕES ESPECIAIS QUEER MARKET FESTAS

do Passadouro 2005 para Miss Jones e um Quinta da Casa Amarela 2004 para Ray Monde. Ambas as escolhas foram assertivas, tendo as duas capacidade para afrontar o sabor robusto da marinada em molho de soja. Finalizaram o esplêndido repasto com um coulant de chocolate com sorvete de framboesa que seduziu Miss Jones e com um duplo sorvete de tomate e orégão (salgado !) e citronela que elevou Ray Monde ao contentamento ! Foi amenizado com um café ladeado por uma drageia de chocolate negro. Saíram felizes e retomaram o passeio com uma suave conversa acerca do futuro. O da culinária portuguesa está assegurado com o Bocca que, apesar de se esconder num nome italianizante, mostra toda a capacidade inventiva e performativa de um chefe luso… Produção:

— Bocca Rua Rodrigo da Fonseca, 87 - Lisboa De 3a a Sáb. - almoços e jantares telf.: 213 808 383 —

Co-Produção:

Festival apoiado por:

Apoio Institucional:

CINEMA SÃO JORGE

Apoio Institucional (cont.):

Diner parceiro:

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Parceria estratégica:

Restaurantes parceiros:

Apoio à programação:

Apoio logístico:

Apoio Prémio da Competição:

Hotel Oficial:

Website:

Televisão Oficial:

Rádio Oficial:

Parceiros Media:

Apoio a eventos:

ORGANIZADO POR: Associação Cultural Janela Indiscreta Apartado 30036, Estação Correios Necessidades, 1351-901 Lisboa, Portugal Informações: lisboa.filmfest@netcabo.pt | www.queerlisboa.blogspot.com | www.lisbonfilmfest.com


where were you?

breAD&BUTTER BARCELONA O calor apertou em Barcelona e em tempo de crise viu-se muita gente a descascar-se para prender a atenção. Se assim continuar adivinhamos um excelente 2009. Do muito que se viu na feira para o próximo verão, destaco a excelente colecção da GSUS baseada no Brasil. A GSTAR não foi uma surpresa mas continua a afirmar-se como alta-costura do jeans. O stand da Levi’s distinguia o seu modelo 501 como “the next”. Associo sempre estes jeans a uma imagem de Paul Newman de mota com umas 501 e botas. Outra marca que voltou em força depois de ter sido adquirida por capital indiano é a GURU. Promete que vai dar que falar nos próximos anos. Em termos de calçado gostámos muito de ver as propostas de Bem Sherman, pena que não estejam a ser comercializadas em Portugal. De resto, a TIGER estava posicionada numa zona de passagem obrigatória provando que fazem muito mais que ténis. Uma colecção têxtil pequena mas muito interessante. Aliás, o mesmo poderia dizer em relação a colecção têxtil da Le Coq Sportif, especialmente para mulher, marcada por um certo requinte retro. A Reebok ocupava simbolicamente o último andar do pavilhão do street wear, via-se de qualquer ângulo do interior do edifício, o que muito quer dizer. Voltou para dar que ver.

museu do efémero A Fundacion Pampero nasceu como uma rede internacional de apoio a criativos de todas as áreas. A actuar em diferentes países, começa em Portugal com uma iniciativa singular desenvolvida por um grupo de agitadores que dão pelo nome de Movimento Acorda Lisboa. Desta colaboração nasceu o Museu Efémero que pretende preservar a memória dos grandes trabalhos de Street Art que se desenvolveram no Bairro Alto. São muitos e de artistas de muitos países. Um trabalho de detective num bairro em que o graffiti roça o vandalismo, daí polémico e corajoso. Para encontrar as pérolas só temos que ir ao blog fazer download em formato Podcast do circuito das peças identificadas e respectiva informação para ouvir num leitor mp3. Funciona como um guia de um museu. — www.pamperofundacion.blogspot.com/ www.museuefemero.blogspot.com/ —

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English version

English version

john maeda

guta moura guedes

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After having published his book The Laws of Simplicity, in which he laid out ten laws to simplify our lives, John Maeda was invited by Reebok to create a line of ten products based on his ten laws. This collection, a limited edition still being developed, will only be available via the Reebok site. Maeda was at the latest edition of Bread and Butter Barcelona to show his new creation, a pair of trainers called “Strucess.” We spoke to this computer artist to try and discover just what logarithms and trainers have in common. Esquire magazine named you as one of the most important people of the 21st Century. How did this change things? Well one is dead and one is in prison so if you look at that, it isn´t such a good thing. But it has made me think about what I can do for this century and what I can achieve. How would you summarise your work? A combination of crossing disciplines; design, art, technology, business and humanities. I´m searching for something and I haven´t found it yet, so I´ll keep on looking! Do you really think that life nowadays is more complex than it was for our parents? There are two sides to the coin. I mean, in one sense it´s more complex because you have to deal with all your technology, and yet it´s simpler because you can do so much more; you can be the female CEO of a company, and still go to your kid´s soccer games. But it has also disabled us too; there is the whole Google problem. People don´t think any more. You actually get dumber because you don´t have to search for anything, you just google it. What are you here representing today? I´m working on a series of shoes for Reebok. My background is Computer Science, then Art School after that, so I crossed these two together in the late 1980s. I write computer programmes by hand and they become graphics and I print them. It´s a very simple process and we began with the Timetanium. I have ten laws of simplicity, and this is based on the third law. You know there´s actually a Portuguese version of my book? It´s been translated into fourteen languages! This is more of a woman´s shoe, and it is going to be launched tonight, it´s called Struccess and is a mixture of struggle and success. The struggle for success. It´s a very complex shoe, based upon the ninth law of failure (“if you fail, keep trying, struggle to reach some form of success”). We always think failure is bad, but innovation is about failure, and failure can be success. You know the Post-it notes? The guy who invented the glue was told he was a failure because he had invented a non-sticky glue. He was failure, but his glue was an incredible success! In terms of the trainers, as everything else was based on simplicity, we decided to do something more complicated! There are a lot of pieces, a lot going on, with complex graphics, while still trying to make it as beautiful as possible, with a lot of engineering and design concerns. This is what we´re launching tonight. We now have apparel coming out, a men´s shirt based upon the law of learning. The women´s shirt is based upon the law of context, it´s about very sad words coming from the heart which are very beautiful when they come outside. It´s about serious talk.. It´s a one-piece shirt which wraps around the back. We also have a new site which is going to help people become part of the creative moment. Nowadays, people don´t get chance to be creative anymore. It´s risky, so we have a system which uses my computer codes as a base, so anyone

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can co-create with me online. It will be a website, launched next year called yourreebok and we´re going to make it very easy for people to get engaged with designing. We use simple models; just some text. Like Google in a way, you just type in a word like “I just broke up with my girlfriend” or “my dog died” or whatever, enter the text, add an image and the computer takes the word and image and custom-creates a new piece of artwork. Anyone can do it! How has your experience been with the fashion world? I´ve designed furniture, light fittings and all kinds of things before, but this is my first experience with fashion. I´m always curious! This has been something of a collaboration, for me to understand the consumer better, thinking about what the possibilities are. We have all worked together at Reebok. What can we make? What kind of risks can we take? Is this use of logarithms for sport purely decorative? No, it´s very deep because it´s all based on the laws of simplicity which outline how to simplify your life. I´ve been thinking of logarithms which help you think about the various laws. They look different from so many other editions which use illustrations. Because there is some depth and thinking behind them and combinations which people haven´t thought about before. It isn´t just a graphic artist who has put something on a product. There are so many deeper connections and possibilities. No rules! It may start with a limited edition, but it´s a new tool that we can give to the consumer and then the next edition will be something very different.

jazz liberatoz p.36

Clin d´oeil, one of the most interesting releases of the year, has arrived from France; Jazz Liberatorz´ debut album pays homage to jazz and the golden age of hip-hop. IJazz. Rap. Hip-hop. Different sides of the same prism or different elements of the same equation. It is possible to look at the history of hip-hop and sense the exact moment in which technology permitted the development of our view of the jazz legacy. Memories of samplers from the early 80s paved the way for the creativity found in the albums of Blue Note, Impulse, Strata East, Black Jazz, and Prestige, which the generation previous to producers such as Large Professor, Diamond D, Pete Rock, DJ Premier or Prince Paul, had collected. After an initial courtship with the rich rhythmic palette and timbre of a very particular period – and who wouldn´t be seduced by the phrasing and soul of, for example, Grant Green, Lou Donaldson, Cannonball Adderley, Jimmy Smith or Donald Byrd? - hip hop sussed that jazz offered a philosophical framework, a deeper aesthetic and then it wasn´t long before the MCs sought the same liberty for their own flows and rhythms. Such as those which were being put into practice on the old vinyl LPs, especially, those produced around the time of bop, hard bop, soul jazz and electronic fusion, but which fitted perfectly with the boom bap culture. In creative terms, this period of hip-hop was one of the most exciting, not only because of the raw materials used in classics by those such as De La Soul, Gang Starr, A Tribe Called Quest, Pete Rock

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& CL Smooth, Brand Nubian, Digable Planets or Jungle Brothers, but also because of their bright ideas which carved out an identity; this was the first generation of hip hoppers who had grown up aware of the culture that they were a part of. Something however, was missing. It is undeniable that hip-hop found itself at a certain crossroads. The transformation from art to a powerful industry which spread over the confines of the local music scene meant that a heavy price would have to be paid. The death of hip-hop was declared to draw attention to a more complicated state of affairs. It was also undeniable that the creative enthusiasm of a certain phase in hip-hop simply faded away, although there are exceptions. Madlib´s madness, the spreading of J Dilla´s legacy linked with Detroit (Wajeed, Black Milk et al), the solitary mission of Roots, the curious and over the top cultural vision of Kanye West, all prevented the disappearance of hip-hop. Also to be added to this list are the efforts of Dusty, Madhi and Damage, three producers from Meaux, França who, with the help of a group which included Rhodes, synthesisers, flute, bass, percussion, drums and saxophone, took it upon themselves to transport hiphop until a Max Roach motif invaded the SP1200 circuit. Ladies and gentlemen, let us hear a round of applause for the Jazz Liberatorz. There´s no confusion over the aesthetic pedigree of this trio; the cover of “Clin d´oeil” quotes directly from the graphic identity of the Black Jazz label (where Doug Carn has an important part of his discography) and the voices of Tre Hardson (of Pharcyde), Fat Lip, Asheru (from Unspoken Heard), J Sands (from Lone Catalysts), T love, Apani B Fly, (ex-Polyrhythm Addicts), Tableek (from Maspyke), Sadat X (from Brand Nubian), Stacy Epps (from the Sol Uprising project), Buckshot (from the historic Black Moon) or J-Live. A who´s who of recent indie hip-hop, conscious minds with careers formed on the fringes of what MTV dictated. With Clin d´oeil, Jazz Liberatorz benefit by being removed from the eye of the hip-hop hurricane and from this distance sharply observing what hiphop lacks in order for it to be brought back from the dead; enthusiasm, connection with it´s roots and a certain amount of whimsy. Sometimes it´s necessary to take one step back before going one step forward; go back and study the past before bracing the future. It´s been a long time since an album showing such talent has appeared, an album which casts an eye over its own history and rediscovered its identity. “My hip-hop history is rooted in jazz” says J-Live. Ours is too.

After an interruption of two years in which it seemed that ExperimentaDesign had been a bit of an adventure in a country without much tradition in the area of design, the team – led by Guta Moura Guedes - redesigned the project, searched for support both inside and outside Portugal and announced a new Biennal, Bicéfala. It is due to take place at different times in different cities, Lisbon and Amsterdam. The idea is to experiment with and reflect upon the less commercial areas of design. It opens its doors on the 18th September, but on the 5th September, a Peter Zumthor exhibition opens, and here we get an idea of what the fifth edition, due to take place in Lisbon in Septembe next year, will be like. Experimenta in amsterdam Why Amsterdam? It was an invitation from Amsterdam City Council which came at exactly the right time, from a hugely stimulating city which, in a way, complements Lisbon nicely. It isn’t a city from the South of Europe like ours, but from the North. There are certain similarities to Lisbon in terms of scale and energy, but they are quite distinct. They have things in common, but enough differences to allow something like “ExperimentaDesign” (EXD) to develop in other directions. Quite apart from this, we have had considerable participation and collaboration with Holland in previous editions. What support did you find which made you decide to do this biennal in Amsterdam? Unlike Lisbon, where the invitation came from the city itself, the guarantee of support for over 80% of the budget came from the Dutch capital. There is strong bond between the Dutch state and the capital, actively promoted by Amsterdam, as well as the Premsela Institute and other Dutch cultural institutions. The Dutch cultural panorama is really quite distinct from the Portuguese, as I´m sure you can imagine. It will be the first time that you do an Experimenta in Amsterdam, a city which, unlike Lisbon, has design as a strong part of its cultural life. What new things can Experimenta bring to Amsterdam? This was the first question I asked myself when they phoned me and asked me! EXD relocating to another city would only make sense if it were clearly beneficial for both the city and the event itself. EXD brings to Amsterdam a strong international network, stimulation and a higher profile. Yet even more important than this, we were told that ExperimentaDesign had been considered by a group of consultants for Amsterdam, the most interesting design event, on an international scale, due to its personality, identity, the way it spoke to the city and by the way it had a cultural and experimental perspective. I think it is this which the Portuguese bienal can take to Holland. Do you think this is an experience you will want to repeat? Will we have a biennal on two different dates, in different cities? This will be the first edition in Amsterdam; an edition which was designed and produced over nine months, but with an eye on the future, thinking ahead to 2010. It is pointless both for the event and for Amsterdam if it were simply an isolated occurence. It takes time to go deeper. ExperimentaDesign has become a biennal which takes place every year… but in two different cities! In terms of management it´s quite complicated, but of course it´s challenging and – most important of all – do-able! The ExperimentaDesign Amsterdam Foundation for the organisation of the Dutch biennal, for example, and the team from Lisbon were reenforced to meet the challenge. With two biennals, how much autonomy is there between the two, in terms of

programming, collaborations etc? We are at the beginning of our collaboration… These questions, which have been analysed in Lisbon by the first biennal think-tank will be analysed again in November this year. It will be undoubtably fascinating to witness just what this relationship between Portugal and Holland will bring for the biennal. At the moment, it´s an unknown quantity. How far does the presence of Droog Design, as a partner of yours, and with a unique vision regarding our relationship with design, dilute the identity of Experiment and those with more pluralist interests? I have to confess I quite like groups with a strong personality and strong identity. I don´t like weakness in partners. This is why I like Droog Design in relation to Experiment. I suspect the relationship works because of a mutual recognition and appreciation of a job well done, firm positions, things which we have defended well. We are both strongminded and it never crosses our mind that this partnership could entail a loss of identity, whether for us or for them. It just means that we analyse more, discuss more, and that any cultural confrontation is considerable and so the results are more surprising but – without a doubt – excellent. Experimenta in Lisbon Is Warm up in September just to prove that Experimenta in Lisbon isn´t dead? No! Warm up is related to two things; firstly, when we started up the biennal again, we knew that we didn´t want to pick up from where we left off. We wanted to introduce new aspects and changes. For the first time we are going to advertise the theme of the biennal, ask participants both locally and internationally to submit proposals a year in advance. Secondly, it´s good to have presentations to the public as part of the Lisbon calendar, and the fact is, Experimenta has enough substance and energy to do it with regularity. Apart from the big Peter Zumthor exhibition at Lx Factory in Alcântara on the 8th September, what else can we expect from Warm up over the course of the other days? Three Think Tank biennal meetings are scheduled, an open session, with national and international guests, plus three or four international meetings about projects already on the go. For the public in general, we will bring not just the Zumthor exhibition, but also the chance to hear him speak at Aula Magna. Are there any plans about what we can expect from the next Experimenta Lisboa in September 2009? Themes, guest artists, exhibition spaces? We have already got some ideas, and a lot of stuff is already in quite an advanced stage of preparation. We have been working on this since the beginning of the year… but it´s all top secret of course… When you have completed ten years of Experimenta in 2009, what legacy do you hope to have left for Portugal? Last year, I went to Pecha Kucha in Lisbon. I remember that I was in Porto at the time and still wasn´t sure that EXD was going to happen. It was amazing to see the 20 guest designers showing their projects, and to discover that 17 of them had participated in EXD and were showing things which reflected EXD as a platform for diversity and stimulation. In July this year, I was flicking through Ikon which had an article about Fernando Brízio, and virtually all the projects shown had been seen at EXD. Each time I give a seminar in Portuguese schools, students refer to exhibitions which they have seen at the biennal, designers which they have heard speak and debates which they remembered. Internationally, I know that it was EXD which put Lisbon on the

design map, the capital of a country which didn´t really have much a tradition in this area. When I think of our education department and the number of guided tours we give at the biennal, and the fact that Voyager 03 toured ten Portuguese cities, the design, architecture and cultural presentations which we have given in Milan, Paris, Barcelona, Madrid, London, and in Portuguese companies which have introduced design into their production… I could go on and on, to speak of the rich and varied impact which our work has had. The legacy is, beyond a shadow of a doubt, hugely significant.


diapositivo  crónica de Cláudia matos silva

“Você deve andar à procura de um homem que não há! Diga-me quais são os requisitos necessários para me candidatar a seu namorado.” O corpo ficou suspenso pelo cotovelo invasivo que teimava manter na janela do meu carro. Como se não bastasse —ao longo da conversa que mais parecia um monólogo ao qual eu respondia com uma espécie de grunhido (hum hum)— ia lentamente apoderando-se do meu espaço. Como quem não dá por nada, já estava com a cabeça e uma das mãos a gesticular dentro do carro, e aquele cotovelo empenado na minha janela. O seu corpo balofo continuava suspenso numa tentativa gorada de me impressionar: -Algo não está bem nessa história! Como é possível uma mulher gira, inteligente e bem falante não ter namorado? Como poderia saber tudo aquilo sobre mim se eu mal abrira a boca? Na verdade não sabia, atirava barro à parede na vã esperança que eu me deleitasse com tal festival de elogios. Mas a táctica foi ganhando diferentes contornos e em poucos minutos passou ao ataque: -Entendo que tenha tido experiências difíceis mas nem todos os homens são iguais. Era mesmo o que eu precisava ouvir, a cantiga do bandido. Ao menos se fosse um bandido ao jeito do «Desperado» na pele de Antonio Banderas (mas sem a Melanie Grifith). Diante os meus olhos, um homem com o dobro da minha idade, atarracado, cabelo encarapinhado, sobrancelhas espessas, barriga proeminente (só o imaginava a relacionar o tamanho do vasilhame com o calo sexual) e um sotaque se não me engano lá dos lados de Viseu. Condimentos mais do que suficientes para deitar por terra a minha líbido.

-Você deve andar à procura de um homem que não há! Diga-me quais são os requisitos necessários para me candidatar a seu namorado. Oh não! Limitei a minha resposta a um sorriso amarelíssimo pensando numa estratégia que me tirasse daquele filme. Ao mesmo tempo não queria ser rude, não podia esquecer, estava numa posição de extrema vulnerabilidade. A situação incomodava-me e o passar dos minutos já feitos meia hora latejava-me o cérebro de nervos. Ali, pendurado à minha janela, contou-me a sua vida amorosa de fio a pavio, da qual não retive uma só palavra, a não ser um par de nomes muito feios que chamou às mulheres que o deixaram. Eu carregava fundo na embraiagem e metia a primeira mudança, apostando na sinalética “estou no ir”. Ele ignorava as minhas tentativas de escapar! E pensar que tudo começou com uma operação STOP da GNR na saída do IC22 em direcção a Odivelas. Como de costume ia mesmo em cima da hora e no meio de tantos carros tinha de mandar parar precisamente o meu. Como um polícia competente, analisou os meus documentos, mas descambou ao perguntar se eu bebia álcool. Incrédulo na minha abstémia desenrolou-se esta história surreal entre mim e o agente da GNR (fardado e tudo). “A Realidade Supera Sempre a Ficção” – Mark Twain

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Parq Mag 06