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Pública n º4 83 / 2 8 de Ag osto de 2 0 05

Nepal As milícias, o novo terror // Dovetton-Helps Sul -africano aposta no Altentejo//Christopher Walken O grande senhor

Os homens do comprimido azul

imp otência masculina na era v iag ra Quase 50 por cento dos homens portugueses com idades entre os 40 e os 69 anos sofrem de algum tipo de disfunção eréctil. E milhares tomam um fármaco como ajuda. Droga recreativa para muitos, último recurso para outros, o químico está em Portugal há sete anos. O que mudou na sexualidade portuguesa? Histórias de quem não passa sem esta pílula. Quase sempre às escondidas. e s ta r e v is ta fa z pa rt e d o pú bl ic o n º 5 63 4 e não p ode se r v e n di da se pa r a da m e n t e


Na Ca pa

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I m p o t ê nc i a M a s c u l i na

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Tex to Andreia Azevedo Soares F oto g ra f i a Rui Gaudêncio

Viagra

a nossa sexualidad

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ade não mudou em nada Esperava-se que o comprimido azul trouxesse uma revolução sexual. Mas a verdadeira reviravolta ainda não aconteceu. Seja como for, milhares de homens em Portugal consomem este químico. Ou já o fizeram. Ou pelo menos gostariam de o fazer.

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ntónio tem 45 anos e não precisa de comprimidos para a disfunção eréctil. Mas toma. Para “não ficar mal” perante as suas “várias amigas”. Sérgio tem 95 anos e não toma nada. Nunca precisou. Pelo menos até há dois anos, quando ainda praticava sexo religiosamente duas vezes por semana com a sua mulher de 89 anos. “Ela tem um corpo que é uma maravilha.” Manuel tem 42 anos. É paraplégico. Não ejacula, não tem orgasmos, não sente nada do peito para baixo. Mas a sua mulher tem 28 anos e é “preciso manter a escrita em dia”. Ele tem prazer em dar-lhe prazer. Para isso, precisa da “pílula da força”. João, por fi m, nunca imaginou enfrentar dificuldades na cama tão jovem, aos 32 anos. Só descobriu o problema quando começou a andar com a actual namorada e percebeu que as coisas não estavam funcionar muito bem. A indústria farmacêutica devolveu-lhe autoconfiança. Agora não utiliza qualquer medicamento. O Viagra começou a ser comercializado pela Pfi zer em Portugal há quase sete anos. Tempo suficiente para o nome comercial do fármaco, cujo princípio activo é o sildenafi l, passar a fazer parte do vocabulário popular. Há quem insista em comprá-lo na farmácia sem prescrição médica ou quem se sujeite a adquiri-lo na Internet por preços pouco simpáticos (dez comprimidos podem custar cerca de cem euros no mercado negro “on-line”). Tornou-se uma droga recreativa para muitos. E o último recurso para outros tantos. Esses vão pedi-lo ao médico, como deve ser. Pelo caminho, o famoso comprimido azul arranjou dois concorrentes — um cor laranja e formato circular, o Levitra, e outro amarelo com o feitio de um ovo, o Cialis. A chegada destes químicos

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parecia anunciar uma segunda revolução sexual. Como não aplaudir a notícia de que, juntamente com um simples gole d’água, seria possível dar as ordens exactas para que o motor de arranque nunca se engasgasse? Mas, afi nal, o que é que mudou na sexualidade dos portugueses durante esse período? “Nada”, garante a psicóloga Gabriela Moita. “Os fármacos como o Viagra só vêm reforçar a ideia de que só há sexo quando o pénis fica erecto e penetra na vagina”, argumenta a especialista em sexologia clínica. A segunda revolução sexual ainda não se cumpriu. Pelo menos na sua opinião. O psicólogo Nuno Nodin alinha pelo mesmo discurso. Os portugueses sabem desenrascar um comprimido azul na farmácia da esquina, mas possivelmente tomam-no às escondidas. Ou continuam a ter dificuldade em falar sobre os problemas que marinam sob os lençóis.

fim. E não admite que haja ajudas numa coisa dessas. Antes ela gostava muito, acompanha-me e até às vezes abdicava da posição passiva e tornava-se activa. Sempre tivemos muitas oportunidades. Viajávamos muito. Andávamos sempre no pagode. E o pagode estendia-se à cama.” Sérgio, reformado, 95 anos Nuno Nodin não é contra medicamentos. Só acha que corremos o risco de “esquecer a dimensão psicológica com toda essa fúria química”, que “podemos estar a tapar problemas complexos com um comprimido”. Gabriela Moita também não é fundamentalista, admitindo a utilidade do fármaco “em situações de grande défice físico”. E também reconhece que é tranquilizante saber que, em situações de grande ansiedade — como aquela que um paciente vive antes de ser submetido ao tratamento cirúrgico do cancro da próstata, uma vez que não sabe se sairá impotente do bloco operatório —, a indústria farmacêutica já possui algumas soluções. Trocando em miúdos: para os psicólogos, o problema não está na “pílula da força”. Ok, ela existe, façamos um bom uso dela. Mas acreditam que é apenas mais uma variável, não necessariamente determinante, na complicada equação matemática que é o enlace entre dois corpos. Gabriela Moita recorda que não se levanta nenhum problema quando um casal não consegue praticar sexo oral. Ninguém se preocupa. As pessoas encolhem os ombros e acham normal. Afi nal, ninguém é obrigado gostar de fazer sexo oral. “O mesmo não acontece quando dois parceiros sexuais não conseguem concretizar um coito. Porque esse é o senso comum”, argumenta a sexóloga. Já Avelino Fraga, director do Serviço de Urologia do Hospital Militar do Porto, defende que os comprimidos para a disfun

Faço sexo mas não sinto nada. Satisfaço a minha mulher e isso faz-me bem. Tomo um ou dois por semana

“Gostaria de voltar a ter actividade sexual. Desde que fui submetido a uma colostomia perdi a erecção. Às vezes parece que vai começar qualquer coisa, mas logo depois esmorece. Eu até tomaria um medicamento como o Viagra, mas a minha mulher é um bocado conservadora e talvez não levasse a bem isso. Era como se alguém estivesse a empurrar-me. Algo como: não fui eu, não foi ela, foi uma causa estranha que nos levou a fazer sexo. Já me dou por satisfeito por estes anos todos, já me chegam. Eu gostaria muito de continuar, mas tenho medo que ela me leve a mal. Cerebralmente, a minha mulher fica muito atrás de mim. Leio muito, ela só põe a mão em revistas cor-de-rosa para se entreter. Ela nem sequer faz comentários. Entende que chegou ao


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ção eréctil ocupam hoje um papel precioso na vida de muitos pacientes. Deram-lhes alegrias e autoconfi ança. Mas não deixa de repetir vezes sem conta aos seus doentes que há outras formas de sexualidade. Mãos, língua, seios, períneos, dedões dos pés. Todo o corpo é passível de erotização. “Sempre que lhes prescrevo uma caixa desse tipo de medicamento, aviso que lá dentro não vem nenhuma mulher. Se se toma um comprimido e fica sentado a ver televisão, de certeza que não acontece nada”, garante. É inegável que as “pílulas da força” permitem momentos de felicidade a quem, de outro modo, talvez não conseguisse sair do estado de

resignação. Antes de 1998, quando a indústria farmacêutica Pfi zer despejou nas farmácias milhares de comprimidos azuis, era muito difícil tratar a disfunção eréctil em doentes com lesões cervicais, por exemplo. “Esquece-se que Portugal teve uma guerra colonial. E que estas pessoas muitas vezes só voltam a ter vida sexual com ajuda médica. Quando apareceram todos estes fármacos, abriu-se um novo campo para estes doentes. Muitos não querem, já estão habituados à sua vidinha, mas há outros que estão dispostos. E os resultados foram excelentes”, conta o especialista do Hospital Militar do Porto. “Um colega disparou sobre o meu ombro por acidente em 1983. Estava limpando a arma. Fiquei paralisado. Tenho uma lesão na C6 [a sexta

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vértebra da coluna]. Faço sexo, mas não sinto nada. Não sai nem sequer esperma. Mas sinto prazer por estar a dar prazer. O prazer não vem só do sexo. Há também o gostar. Existe muita ilusão nessa cena do sexo. Satisfaço a minha mulher e isso faz-me bem. Ela aceitou a minha maneira de ser e eu aceitei a dela. Era mãe solteira e tinha uma criança. Nós conhecemo-nos há cinco anos. Ela trabalhava na minha casa como mulher de limpeza. Acabou por ser bom para os dois. Tomo o Levitra de uma a duas vezes por semana. Não combinamos nada. Quando me vê a beber um copo com água já


sabe, é a altura. Gosto de cerveja, mas de água não. Pelo menos uma ou duas vezes por semana a gente tem que fazer, pois as mulheres precisam. O de 20 miligramas é um bocado forte. Eu tento tomar só uma vez por semana, porque às vezes sinto palpitações no coração. O de 10 miligramas leva mais tempo a actuar, cerca de uma hora, enquanto o outro demora metade do tempo. Antes disso, só podia ter relações quando tinha espasmos [contracções involuntárias dos músculos]. O problema é que nunca sabia a que horas aconteceriam.” Manuel, reformado por invalidez, 42 anos Por poder restituir ao paciente uma função que lhe foi amputada, Avelino Fraga considera “fantástico” o aparecimento desses fármacos. Contudo, o urologista concorda que a doença está muito focalizada no órgão masculino. Basta ver o nome que lhe colaram inicialmente: impotência. Um impotente é um homem que perdeu a sua virilidade, o seu poder masculino. Como tantos outros, este termo tornou-se politicamente incorrecto. “Estamos sempre a dizer ao doente que o pénis não é o único órgão sexual que eles têm. Mas os homens ainda estão dependentes do seu pénis e concentrados na erecção”, avalia o especialista. Na sua opinião, os pacientes têm dificuldade em perceber que aquilo a que chamamos prazer não é mensurável. Não é reprodutível. A experiência de Avelino Fraga permitiu que visse centenas de homens a entrar no consultório cabisbaixos. Querem ver a coisa em pé. Esquecem-se das muitas coisas que podem fazer com as mãos e a língua. Não exploram a inaudita capacidade que o cérebro humano tem de fantasiar. Como se ali, no falo, estivesse concentrada toda a força masculina. “Aquilo que lhe dá prazer a si pode não dar a mim.

E vice-versa. Só que se o pénis não fica erecto, é uma chatice enorme. Os homens ficam logo muito perturbados”, afi rma o urologista. E conta uma história para exemplificar a ideia: “Antes de aparecerem esses ‘viagras’, tive um paciente muito religioso e educado, que vivia a oferecer-me livros biográficos de padres. Um dia, entrou no consultório e disse-me que estava com um problema sexual. Conversámos muito. Até que lhe perguntei se queria colocar uma prótese peniana. Na altura, essa prótese custava mil e quinhentos contos e isso implica custos para o hospital. Por isso e por outros motivos, ponderámos muito se era a opção correcta. Ele acabou por decidir pela cirurgia. Correu tudo muito bem. Quando voltou à consulta, perguntei-lhe: — Então, funciona? — Funciona! Isto ficou que é uma maravilha! — E o que é que a sua mulher achou? — Ah, não, senhor doutor, nós não experimentámos. Eu por acaso havia achado estranho a preocupação de um paciente tão religioso em querer uma erecção completamente artificial. O doente explicou-me que o que estava em causa era a sua moral de homem. Disse-me isso mesmo: ‘É a minha imagem de homem que está refeita.’ Eu não podia acreditar. Foi uma má abordagem minha. Não achei na altura que ele deveria ter sido avaliado por um psiquiatra. A lógica desses pacientes é: ‘Eu, querendo, sou um homem perfeito.’ O ser humano é mais complexo do que imaginamos.” Os diagnósticos clínicos feitos até agora baseiam-se sobretudo na penetração do pénis na 

Tomo estes medicamentos há três anos para não ficar mal. Às vezes o stress complica as coisas

Europeus querem vida sexual mais animada Os resultados de um inquérito deste ano mostraram que 44 por cento da população europeia masculina com mais de 40 anos gostaria de ter uma vida sexual mais animada e já foi vítima de pelo menos uma disfunção eréctil. O estudo, encomendado pela indústria farmacêutica Bayer, serve de base à campanha internacional da empresa alemã que quer criar uma nova mentalidade à volta do produto que fabrica. Realizada com cerca de cinco mil europeus através de entrevistas telefónicas, a pesquisa, destinada a avaliar a atitude dos homens face à própria sexualidade e à satisfação das suas companheiras (ou parceiros) na cama, não inclui Portugal. O estudo fala de um grupo emergente, composto por uma nova categoria masculina: os homens VitalSexual. Podem ser definidos indivíduos acima dos 40 anos, preocupados com a satisfação sexual da sua companheira (ou do seu parceiro sexual), que sentem nostalgia da sua “performance” no passado e que, por fim, não aceitam o envelhecimento sexual como um desígnio da natureza. A palavra-chave é encontrar um tratamento que devolva espontaneidade à relação. Em síntese, um homem que procura ajuda médica quando se sente em apuros entre os lençóis. Esse subgrupo foi identificado na referida pesquisa com inquiridos com idades a partir dos 18 anos do Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Espanha (a França é o país que apresenta mais homens do tipo VitalSexual, seguida do Reino Unido e da Alemanha). Em Portugal, a Bayer lançará no próximo mês uma campanha publicitária televisiva chamada VitalSexual a ser protagonizada pelo actor Nicolau Breyner. O objectivo é sensibilizar os homens para a existência de medicamentos — não necessariamente aquele que a empresa produz, o Levitra, uma vez que é proibido aos laboratórios a propaganda directa dos seus produtos — capazes de combater a disfunção eréctil. Não, Nicolau Breyner não toma este tipo de comprimidos. Porque não precisa. Mas o artista de 64 anos garantiu à assessoria de comunicação da Bayer que, no futuro, não terá qualquer problema em fazê-lo, se assim for necessário.

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sempre visto como o anormal”, questiona a psicóloga. Noutras situações, o fármaco pode funcionar como uma espécie de injecção de autoconfi ança. O paciente sabe que pode ter relações à vontade, que, mesmo que a coisa corra mal, na manhã seguinte poderá tomar o comprimido e repor a sua virilidade. Por outras palavras, muitos homens encaram o medicamento como um bote salva-vidas. Está lá, na gaveta da mesa-de-cabeceira, para o caso de uma intempérie. “Isso ajuda muito. Não imagina a quantidade de pessoas que dizem: ‘Senhor doutor, tomei um ou dois comprimidos e agora já não preciso mais.’ Às vezes o doente também leva a receita e nem chega a ir à farmácia. Diz-me que depois conversou com a esposa e com umas brincadeiras conseguiu chegar lá”, acrescenta Avelino Fraga.

Em Portugal Os dados de market share ( Julho 2005) Levitra .. .. .. 16,5% Viagra .. .. .. 47,4% Cialis.. .. .. .. 35,6%

Num mês venderam-se 34 185 “pílulas da força” Em Julho de 2005, foram vendidas nas farmácias portuguesas 5650 embalagens de Levitra, 12186 de Cialis e 16349 de Viagra. Estes números incluem todas as dosagens disponíveis no mercado de cada medicamento. A fonte também é, como é habitual em laboratórios internacionais, o IMS Health.

Na Espanha Levitra .. .. .. .. 23% Viagra .. .. .. .. 52% Cialis.. .. .. .. .. 25%



vagina. E essa visão faz mal às pessoas. É Gabriela Moita quem o diz. “Preconizo uma sexualidade saudável para cada um, repito, cada um. Nós [sexólogos clínicos] temos de ser agentes da mudança e não permitir que toda esta parafernália da indústria farmacêutica esteja ao serviço do senso comum. E é por isso que produtos como o Viagra são tão bem aceites pela sociedade. A lógica

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capitalista do mercado serve todos da mesma maneira, mas é impossível uma resposta comum para algo que é complexo e único em cada indivíduo. Vivemos numa cultura em que ninguém aceita ser como é. E a verdade é que o desejo pode ir de zero ao infi nito. Mas o que deseja menos é

“Não tenho disfunção eréctil, mas sabe como é, às vezes o ‘stress’ e o trabalho complicam as coisas. Estou sempre a viajar entre Portugal e o Brasil. Tomo estes medicamentos há cerca de três anos para não ficar mal. Tenho muitas amigas brasileiras, algumas conheço há mais de 20 anos, e, quando estamos a meio de um jantar de negócios, já sabemos como a noite vai acabar. Não sei calcular quantas são. Talvez cinco ou seis... Protejo-me sempre. No Brasil, diz-se mesmo que é preciso colocar duas camisinhas, uma por cima da outra. As mulheres brasileiras são mais abertas em relação ao sexo, as coisas são muito mais simples. Posso dizer-lhe que algumas delas são mesmo casadas. Querem ter prazer e o Viagra também é bom para elas, tornam as coisas mais fáceis. Mas não conto que tomo comprimidos. Só houve uma delas que descobriu, porque eu estava com o rosto muito vermelho [um dos efeitos colaterais destas substâncias]. Ela disse: ‘Você tá tomando uma ajudinha, né?’ Ri-me e disse que sim. Mas não tenho vergonha nenhuma de comprar estes comprimidos. Sou um homem normal, mas como tenho 


Milhares

em Portugal sofrem de disfunção eréctil O que é? É a incapacidade de produzir uma erecção por tempo suficiente para manter uma relação sexual satisfatória para os dois parceiros. A doença pode ter causas orgânicas, psicológicas ou ambas. Para esclarecer as dúvidas sobre este e outros assuntos semelhantes, a Sociedade Portuguesa de Andrologia (SPA) criou a linha SOS Dificuldades Sexuais 808 206 206. O serviço funciona todos os dias úteis das 18h00 às 22h00.

Quantos portugueses sofrem com a doença? O primeiro estudo nacional sobre o tema mostrou que 48 por cento dos portugueses com idades entre os 40 e os 69 anos sofrem de algum tipo de disfunção eréctil. A partir desta investigação recente (2005) concluiu-se que é fundamental que os clínicos gerais perguntem como vai a vida sexual dos seus pacientes. Isso porque, apesar de as estatísticas nacionais estarem próximas dos parâmetros estrangeiros (a média internacional é de pouco mais de 50 por cento) verificou-se que continua a haver muitos casos não diagnosticados ou tratados. Apenas três por cento dos inquiridos apresenta o tipo grave do distúrbio, em que 30 por cento correspondia a uma disfunção ligeira e oito por cento à versão moderada do problema. A amostra envolveu mais de 3500 homens com as idades referidas — a faixa etária na qual se verifica maior prevalência da disfunção — que se deslocaram até cerca de 50 centros de saúde do continente para responder aos inquéritos. Apresentada ao público em Junho, a pesquisa foi fi nanciada pela Fundação Ciência e Tecnologia e pelos laboratórios Pfi zer (o fabricante do Viagra). Por seu turno a SPA estima em 500 mil os homens portugueses com este problema (estudo empírico de 2004). Mas os

especialistas são unãnimes em considerar todos estes números subestimados, uma vez que se baseiam apenas em homens que procuram ajuda.

Quais são as causas? A disfunção eréctil é um sintoma que muitas vezes está associado a outros problemas de saúde. Estima-se que 70 por cento dos casos diagnosticados têm origem em problemas vasculares ou neurológicos. O distúrbio sexual pode estar ligado às diabetes, às doenças cardíacas e à hipertensão, mas também a lesões vertebrais e a determinadas condições psicológicas, como a ansiedade, a culpa e a depressão. Vários estudos também já provaram que o fumo, o consumo excessivo de álcool e o sedentarismo podem contribuir para o aparecimento da disfunção eréctil. “Cabe aos homens também apostar na prevenção, fumando menos e combatendo a obesidade, por exemplo”, avisa Avelino Fraga, director do Serviço de Urologia do Hospital Militar do Porto.

Que tratamentos há? Os medicamentos mais famosos contra a disfunção eréctil são o Viagra (sildenafi l), o Ciallis (tadalafi l) e o Levitra (vardenafi l). Na opinião do urologista Avelino Fraga, os princípios activos dos três fármacos possuem mais semelhanças entre si do que diferenças. O especialista alerta que estes comprimidos não são de venda livre e que, portanto, só devem ser consumidos com prescrição médica. A sua combinação com nitratos — presentes em remédios para baixar a pressão arterial —, por exemplo, pode ser fatal. Como opção, há ainda a auto-injecção peniana, que consiste em introduzir no órgão soluções vasodilatadoras através de uma agulha, e as bombas de vácuo, que “aspiram” sangue para os corpos cavernosos. Uma vez que as causas da doença podem não ser só biológicas, o terapeuta sexual ou o psiquiatra têm

uma importante palavra a dizer numa parte significativa dos casos. Se o paciente está deprimido, por exemplo, os antidepressivos ou a psicoterapia podem ser necessárias. E, dado que cada caso é avaliado individualmente, é natural que outras recomendações médicas específicas façam parte do tratamento. Quando todas as outras terapêuticas falham, surge em cima da mesa a hipótese das próteses penianas. “O elevado sucesso da implantação das próteses penianas, que é indiscutível, poderia fazer pensar no seu uso como terapêutica de eleição para a disfunção eréctil. Contudo, a indicação cirúrgica, o tipo de prótese a implantar, a técnica cirúrgica e as possíveis complicações obrigam a uma profunda ponderação, que deve ser feita doente a doente”, esclarece a SPA.

Como actua o Viagra? A criação do Viagra — o pioneiro das “pílulas da pujança” — deve-se, ainda que indirectamente, à investigação de Robert Furchgott, Louis Ignarro e Ferid Murad, distinguidos em 1998 com o Prémio Nobel da Medicina. Descobriram que o óxido nítrico funciona como o mensageiro molecular responsável pelo relaxamento e pela distensão dos vasos sanguíneos. Ora, a erecção nada mais é do que o preenchimento dos corpos cavernosos do pénis com sangue. Faltava então descobrir uma estratégia para que o fluxo sanguíneo permanecesse mais tempo no interior do órgão masculino. Mais tarde, a Pfizer acabou por encontrar a solução: uma substância capaz de inibir a enzima PDE-5 (a fosfodiesterase do tipo 5). Essa enzima consome o óxido nítrico, que é a substância causadora do relaxamento (e consequente erecção) dos músculos penianos. Bloqueando a acção da PDE-5, a pílula azul abre caminho para a actuação do óxido nítrico e consegue assim prolongar a erecção após o estímulo sexual.

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sistematicamente violentadas nos seus quereres”, advoga a psicóloga. O problema é que, se confessam que têm pouca vontade, essas pessoas acabam por ser desvalorizadas socialmente. “Se mandamos um paciente logo para um psiquiatra, ele pode não reagir bem. Ainda há homens que acham que psiquiatria é algo para malucos. Mas se vamos com calma, perguntamos se o paciente está bem consigo próprio, se se dá bem com a mulher, como tem dormido e se, no fi nal disso tudo, lhe damos um comprimido que funciona como um SOS, é excelente. Há colegas que acham que só com um Prozac tudo vai ao sítio. E não é bem assim, a abordagem tem de ser multidisciplinar”, acredita Avelino Fraga. Há jovens ansiosos que acabam por recorrer aos químicos precisamente para evitar o pânico do falhanço. “Assumir que não se consegue ter uma erecção ainda é um fracasso”, lamenta Nuno Nodin.



muitas actividades recreativas gosto de melhorar a ‘performance’. Estas pílulas são um advento do ego, um retorno à juventude. Ainda bem que foram inventadas.” António, empresário, 45 anos O Viagra vem resolver o modelo vigente de sexualidade, no qual o homem tem a obrigação de mostrar uma boa “performance” e, cada vez mais, isso passa a ser imposto às mulheres. Consiste nisto a teoria de Gabriela Moita. Verdade seja dita: existem poucas revistas femininas

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hoje onde não se leia a palavra orgasmo. “Não foram os homens que ganharam a possibilidade das mulheres de dizer que não lhes apetece, mas sim elas que assumiram a mesma obrigação que eles. As pessoas com menos desejo não têm de ser

“Só descobri que andava com problemas quando conheci a minha actual namorada. O pénis ficava enrijecido, mas não o suficiente para completar o acto sexual. Depois as coisas foram ficando cada vez piores, já tinha medo até de tentar. A minha namorada perguntou se o problema era dela, se queria que ela pintasse o cabelo de louro. Disse-lhe que não, que isso não mudaria em nada. É uma situação muito difícil, porque não tem nada a ver com aquilo que sentimos pela pessoa, é mesmo o corpo que não responde. Torna-se cada vez mais complicado tocar no assunto. Ela é muito reservada, preferia não saber de nada. Mas sempre me apoiou. Nunca tive coragem de conversar isso com nenhum amigo. Acabei por procurar um médico nas páginas amarelas. Comecei a tomar o Levitra e as coisas foram ao sítio. Ela pedia para tomar o comprimido sem que


ela visse, assim era melhor para os dois. Mais adiante, voltei a falhar. O médico indicou-me uma consulta paralela num psicólogo. Tomei tranquilizantes durante algum tempo. Hoje estou bem e já não preciso de tomar nada.” João, escriturário, 32 anos Quando os homens procuram ajuda médica — e nem todos os que realmente sofrem de disfunção eréctil o fazem —, enfrentam ainda a barreira dos problemas emocionais. Sim, porque este problema sexual pode ter causas biológicas, psicológicas ou ambas. “Não acredito nos estudos que dizem que 80 por cento dos casos de disfunção eréctil têm a ver com factores orgânicos, pois uma fatia significativa tem bases psicológicas”, salienta Nuno Nodin. E, neste ponto, onde está a segunda revolução sexual? Devemos mandar mais pessoas às consultas de sexologia clínica e impedir que ingiram remédios? E quem não tem dinheiro para as clínicas privadas? Teremos capacidade de criar unidades de medicina sexual em centros de saúde? Gabriela Moita reconhece que o Sistema Nacional de Saúde tem “imensas falhas” — apesar de alguns hospitais do país oferecerem regularmente consultas de sexologia clínica —, mas acredita que “o cerne da questão não está nas consultas”. Pois, como explica, os especialistas só resolvem os problemas “a posteriori”. Todo o trabalho que ainda falta ser feito está no campo epistemológico. Mais uma vez, regressamos ao conceito da revolução das mentalidades. “E, quando este trabalho estiver concluído, garanto-lhe que haverá menos pacientes. Praticamente só os pacientes com disfunções sexuais de origem biológica nos vão procurar”, prevê a psicóloga. Ainda falta um longo caminho. Mas, se e quando chegarmos lá, talvez sejamos mais felizes por sentir a sexualidade pulsar em cada célula do nosso corpo. Seja do pénis, da vagina, das mãos ou dos dentes.

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