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MIL FOLHAS 14 | FEVEREIRO | 2004 | PÚBLICO

GONÇALO PENA

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kant 200 anos depois


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GONÇALO PENA

PÚBLICO 14 FEVEREIRO 2004

KANT CAPA


KANT CAPA

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14 FEVEREIRO 2004 PÚBLICO

Na quinta-feira comemorou-se o bicentenário da morte de Immanuel Kant (1724-1804). Pretexto para o Mil Folhas pedir a vários fi lósofos portugueses que olhassem para a sua obra.

A revolução de Kant | ANDRÉ BARATA

Immanuel Kant (1724-1804) nasceu em Königsberg, outrora uma florescente cidade da Prússia oriental, agora espécie de enclave russo entre a Lituânia e a Polónia, rebaptizada, desde 1945, como Kalininegrado. Merece uma ponta de ironia a relação desta cidade com Kant. Viu-o nascer e morrer, acompanhou os seus dias, com amizade e estima ao que parece. E, no entanto, esta é hoje uma cidade sombria, sem o horizonte filosófico que a animou durante os 80 anos da vida de Kant. Até no seu nome, ovação anacrónica a um dirigente soviético, renegou o cosmopolitismo e o projecto de cidadania numa república mundial criados pelo seu mais pródigo filho. Felizmente, a filosofia de Kant tem viajado tudo o que a sua vida prescindiu. E é universalmente que se comemora no presente ano, mais exactamente a 12 de Fevereiro, o bicentenário da morte do filósofo das célebres três “Críticas”— a da razão pura, a da razão prática e a da faculdade do juízo —, obras inevitáveis no pensamento filosófico dos últimos dois séculos; talvez mais importante, incontornáveis no pensamento do futuro. Biograficamente, assiste-se actualmente a uma revolução no que toca à representação habitual do homem cujos passeios serviam aos seus concidadãos para acertar relógios. Como se nisto houvesse grande filosofia. Decisivamente, um dos aspectos mais surpreendentes na mais recente biografia de Kant, publicada por Manfred Kuehn (Cambridge, 2001), é a desmistificação da velha presunção de que Kant tivesse sido, nas palavras do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856), um homem “sem vida nem história”. Em tom perfeitamente anedótico, acrescentaria Heine, “não acredito que o grande relógio da catedral local fizesse o seu trabalho com menos paixão e menos regularidade que o seu concidadão Immanuel Kant”. Bem diversamente, de acordo com o trabalho de Kuehn, Kant terá sido pessoa espirituosa, afável e um bom convívio social (Cf. artigo “A vida de Kant: mito e verdade” PÚBLICO de anteontem). Com maior repercussão na interpretação da sua obra, duas outras ideias

são avançadas por Kuehn: afinal, Kant nem tivera em grande conta o pietismo em que fora educado e também não seria o caso de que a mítica dúzia de anos que precederam o aparecimento da “Crítica da Razão Pura” tenham sido um período de isolamento. Afinal, um mercador inglês, de nome Green, acompanhara de perto as investigações de Kant nesse período. À parte estas incidências, coloca-se a questão da originalidade do pensamento do filósofo de Königsberg. Ora, contra o racionalismo dogmático, em que imperava um uso ilimitado das capacidades especulativas da razão humana para a construção de edifícios metafísicos, Kant impôs que todo o conhecimento comece pela experiência. Mas já por outro lado, e face ao cepticismo empirista de David Hume, que fazia perigar a validade do conhecimento científico — desde logo, a física de Newton —, contrapôs que nem todo o conhecimento provenha da experiência. Ficava, porém, a questão crucial: donde vem esse conhecimento que não provém da experiência? É face a esta questão que Kant propõe, como uma hipótese a experimentar, a sua famosa “revolução copernicana” — “Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objectos… Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objectos se deveriam regular pelo nosso conhecimento.” E por uma vez tentou-se esta radical mudança de perspectiva, inaugurando-se um dos capítulos mais ambiciosos da história da filosofia. Pela proposta de revolução — autêntica “gestalt” — foi Kant conduzido a focar a atenção no sujeito transcendental. Seria neste, na medida em que tal fosse possível “a priori” (i.e, independentemente da experiência), que se deveriam encontrar as respostas para o problema do conhecimento científico. Ao fim e ao cabo, o sujeito é interveniente activo no conhecimento; portanto, haveria que o conhecer, discernir as suas diferentes faculdades, conhecer os seus limites. Segue-se, então, o itinerário analítico de Kant. Em primeiro lugar, diferencia as faculdades da “sensibilidade” e do “entendimento”, com as quais intenta determinar as condições para a validade

de conhecimentos, particularmente os necessários e universais. Em segundo lugar, reconhece a “razão” no seu uso teórico, com que investiga da possibilidade da metafísica e suas ilusões naturais de poder constituir conhecimento acerca de Deus, o mundo como totalidade, a alma. Em terceiro lugar, explicita a “razão” no seu uso prático, dando conta da possibilidade de determinar puramente a vontade, isto é, exclusivamente pela razão, sem ter em conta qualquer conteúdo material, como o prazer ou a felicidade. O dever pelo dever, a lei moral pela sua forma — é esse o significado do célebre “imperativo categórico” kantiano. Por fim, exprime o jogo das faculdades com o “sentimento do prazer e do desprazer”, captando, assim, a natureza do juízo teleológico e do juízo estético, e neste em particular, a distinção entre o belo e o sublime. Todo este programa é desenvolvido ao longo das suas célebres três “Críticas”. Perguntar-se-á: porquê a palavra “crítica”? Porque se tratou de promover uma razão que examine as suas próprias condições de conhecimento (Kant emprega, metaforicamente, a ideia de um tribunal da própria razão). Nas suas palavras: “Por uma crítica assim, não entendo uma crítica de livros e de sistemas, mas da faculdade da razão em geral, com respeito a todos os conhecimentos a que pode aspirar, independentemente de toda a experiência.” Sendo imensurável o quanto pôde valer Kant nestes dois séculos, sendo, por outro lado, hoje claro que nem tudo na filosofia crítica de Kant é válido, pelo menos dois pontos mostram por que razão falar hoje kantianamente não é apenas comemorar o filósofo das Luzes, mas fazê-lo letra viva nos nossos debates. Primeiramente, porque dificilmente deixará de ser kantiano o pensamento do futuro político da Europa e do mundo. Isto, tratando-se de enfrentar os dilemas de uma Constituição europeia e as fragilidade das Nações Unidas, do direito internacional e da cidadania mundial. Em segundo lugar, também porque o futuro da filosofia passa pela lição de Kant — contra a desmesura impressionista em que tudo serve para um efeito filosófico, para lá da secura analítica de um rigor exclusivamente formal, Kant pode, ainda hoje, devolver conteúdo específico à filosofia. •

Kant  

Mil Folhas of February, 14, 2004 about Kant