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(a)manh達 Jorge Valente


(a)manhã não cala em mim a voz. Adormecem os sons das palavras não pronunciadas, mas acordam as cores dos sonhos por sonhar, da vida por viver… O branco que amanhece, prende-me, acorda-me as palavras que escrevo, num desejo forte. Palavras que vão escorrendo letra a letra dos meus dedos para um ecrã iluminado onde cada letra é ausência de luz. A luz da noite para descrever a luz do dia, no acto de amanhecer. A luz nas imagens, a ausência dela nas palavras, o branco e o negro, a luz e as trevas, a noite e o dia… e o espaço do amanhecer onde tudo é ainda indistinto, onde as trevas são brancas e as palavras ecoam. (a)manhã é o momento de todas as promessas, o futuro tornado presente, a esperança que o negro das letras se sublime e ecoem as cores de palavras belas, num texto cheio dos sons com que me construo. São as luzes que se apagam, com o branco a invadir tudo, esbatendo cores, abafando sons, deixando-nos mais sós perante nós próprios. Mais do que a solidão é a estranheza de estar só, perante um mundo ainda adormecido. Estar ali, desperto, e surpreender o bocejo matinal da natureza ao acordar, dizme que estou vivo. Sinto na pele a emoção de ver o nunca visto, num puro prazer da descoberta…


O despertar das รกguas


a incerteza dos caminhos


a respiração da terra


Os murmúrios das árvores


(a)manhã é a segurança de estarmos sós num mundo sem barreiras feito de suaves contornos e cores esbatidas. É como voltar ao útero materno. É o mistério de um horizonte fechado é a luz suave de um amanhecer submerso em humidade, quase maternal. É o frio que sobe pelos dedos, é o silêncio que inebria o olhar, é a paz e a quietude. São as minhas vozes que me permito não calar, são elas a fonte da minha inquietude, são elas que me puxam irresistivelmente para o branco da manhã por acordar. São vozes, agora palavras, que escrevo. A quietude de um mundo adormecido, envolto numa neblina criadora, atrai-me, seduz-me. É a natureza intemporal, magnífica na sua pureza, envolvente, misteriosa, maternal… Expectante, tudo está expectante, na espera ansiosa do primeiro raio solar, na esperança de um novo dia. É a hora do mistério em que os silêncios gritam tão forte que gelam os dedos dos incautos. É o frio derradeiro do estertor da noite, aquele que me penetra na alma e me faz tremer.


Treme o corpo na ousadia do percurso, treme e prossegue porque o tempo urge e é preciso descobrir o fim da noite e o início do dia, numa manhã submersa. É tão fugaz o momento do amanhecer, tão tímido e misterioso que em vão o tento conhecer… Vejo-o furtivamente fugir num raio de luz que trespassa uma gota de orvalho que assim desperta perante a surpresa do meu olhar. Já não é manhã! Deixei-a escapar por entre dois olhares, (a)manhã voltarei…

Jorge Valente | Abril de 2009



(a)manhã