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REVISTA MAGIS SUBSÍDIOS

Número 01 – 2ª edição – 1999

Para rezar na Escola de Inácio de Loyola Marie-Elisabeth Houdot Tradução. R. Paiva, S.J.


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CONSELHO EDITORIAL André Marcelo Machado Soares Danilo Marcondes Filho Eliana Yunes José Carlos Barcellos Luiz Basilio Cavalieri Maria Clara Lucchetti Bingemer Maria Lilia Campello Pereira Pe. Paul Schweitzer, S.J. EQUIPE DE PRODUÇÃO PRODUÇÃO EXECUTIVA Equipe do Centro Loyola de Fé e Cultura PUC-Rio PROJETO GRÁFICO Felipe R. Chalfun REVISÃO DE TEXTOS Annamaria Wolter Gilda Maria Rocha de Carvalho Thaís Rodrigues Abraham DIAGRAMAÇÃO José Antonio de Oliveira ASSESSORIA GRÁFICA Editora PUC-Rio EXPEDIÇÃO E ASSINATURAS Francisca Sônia R. P. Fontes Telefone: 21 3874-8093 CENTRO LOYOLA DE FÉ E CULTURA DA PUC-RIO Estrada da Gávea, nº 1- Gávea 22451-260 – Rio de Janeiro – RJ Telefone: 21 3874-8093 Fax: 21 3874-8095 Email: cloyola@clfc.puc-rio.br www.puc-rio.br/centroloyola


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EDITORIAL

Os cadernos MAGIS têm a alegria de colocar à disposição de seus leitores e de todos os que freqüentam o Centro Loyola de Fé e Cultura uma nova série de material de reflexão. Trata-se da série SUBSÍDIOS, que agora inauguramos com este número traduzido da revista Vie Chrétienne, das Comunidades de Vida Cristã (CVX) da França, que tem como conteúdo orientações práticas para rezar segundo a metodologia de Santo Inácio. Preparados por Marie-Elisabeth Houdot, membro das CVX francesas, estes roteiros certamente poderão ajudar imensamente a todos aqueles e aquelas que desejem crescer na oração e na intimidade com Deus segundo a metodologia de Inácio de Loyola. Sendo o Centro Loyola marcado por uma clara identidade inaciana, e tendo no seu projeto para a formação do laicato a programação de retiros segundo a metodologia dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio e o oferecimento de orientação espiritual segundo esta mesma metodologia para os seus freqüentadores, este subsídio deverá certamente ser de grande ajuda para todos aqueles que freqüentam o Centro e que nele trabalham a serviço do crescimento espiritual de todos. A oração volta hoje a ser um dos grandes anseios da humanidade. Conseguir comunicar-se com Deus, ouvir Sua Palavra e a Ela responder com atos e em verdade torna a ser considerado um caminho de vida mais plena e mais total. Os Exercícios de Santo Inácio têm sido, há vários séculos, um método de ajuda para essa busca. Possa este subsídio que hoje publicamos ser um elemento a mais em todo o processo dinâmico e apaixonante que Inácio chamava de “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”.

A EQUIPE


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INDICAÇÕES PARA REZAR NA ESCOLA DE INÁCIO DE LOYOLA Marie-Elisabeth Houdot Trad. R. Paiva, S.J.

Introdução

Todas as pessoas sabem rezar na medida em que sua humanidade as torna capazes de dizer “eu”, de se reconhecerem como maiores, mais amplas e mais profundas do que o limite pelo qual são forçadas a se afirmar. O homem é capaz de entrar em relação. Deus, o Espírito de Deus, é, em nós, o nosso único pedagogo, Ele que murmura para o Pai, com “gemidos inefáveis” e nos faz dizer “Abba!” (Rm 8,15). Toda oração já se consumou e encontra a sua fonte na prece de Jesus a seu Pai e, mais ainda, na pessoa mesma de Jesus, na qual a relação com Deus e a vida em Deus coincidem. Quando Jesus nos ensina como rezar, Ele nos diz, ao mesmo tempo, quem Ele é e como viver. Sim, na oração, como em nosso dia-a-dia, acontece-nos de ajardinar, revolver, tirar as más ervas, preparar a terra, lançar o grão conforme a sua qualidade, o clima e a estação, Contudo, só Deus, o Jardineiro, dá o crescer e o ser. Sim, a oração como a ação não teriam nem sentido nem existência fora do campo de Deus e da imensidade do seu trabalho. Prece e ação são uma só realidade: no coração de cada um de nós se mesclam à obra de Deus (a ser recebida) que dá à pessoa o agir (um fazer) no sentido de Deus. A ilusão é grande para atribuir à contemplação a forma ideal, talvez absoluta, da acolhida e da união com Deus, pelo jogo da interioridade, enquanto que o agir diário seria a parte de nossa pobre humanidade, submetida ao contingente, até a sua libertação, o que o disporia, enfim, a uma felicidade passiva na eternidade. Ora, Jesus, que não passou todo o seu tempo em oração, mas trinta anos em Nazaré, envolvido com as tarefas do dia-a-dia, empenhava-se em nos fazer compreender que “O Reino de Deus está no meio de vós!”. Não há contradição em propor, dir-me-eis, um conjunto de “indicações para rezar” e, simultaneamente, afirmar a não supremacia da prece sobre a ação? Não seria melhor apresentar uma introdução que dê o gosto pelo silêncio e pelo recolhimento? Algo que já permita a vibração do Desejo? Indicação de pistas para a oração que, desde a leitura preparatória, toquem este ângulo do coração e da sensibilidade, escancarando a porta da interioridade, onde, seguramente, Deus nos espera para o encontro? A resposta é “não”. Estas “Indicações”, na linha de Inácio, incitam, segundo a dinâmica dos Exercícios de onde são tiradas, um caminho a percorrer, um trabalho de fôlego, uma conversão. Isto é, uma purificação de nossas imagens e de nossa relação para com Deus. Entretanto, no núcleo desses meios, está um amor atuante, uma fidelidade amorosa: de nossa


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parte, mas também de Deus. O conjunto da fé visa, porém, “sentir e saborear interiormente estas coisas por si próprio”. Não se deve ler este manual, mas vivenciá-lo, experimentá-lo, prová-lo. A forma literária seria, por sua vez, insuportável se cada qual não a revestisse com a sua própria experiência, com o seu próprio “eu”. Passa-se com estas “Indicações” como com uma sugestão do professor de ginástica: não há nada de interessado nem de eficaz no que ele diz, a não ser que o exercitante se esforce para pôr em prática o que lhe é dito. E por muitas vezes! Só assim vão surgir novos reflexos, novas capacidades físicas e mentais, uma musculação e uma respiração cujas conseqüências são grandes para o todo da pessoa, muito além dos limites da sala de ginástica... Assim a prece e seus exercícios pedagógicos: trata-se de uma “musculação espiritual”, de um aprendizado para “procurar e encontrar Deus em todas as coisas”. Quem de nós não conheceu este dilaceramento do tempo entre prece e vida, esta dicotomia do ser entre as atitudes na oração e atitudes na vida, esta contradição entre o Deus de minha prece e o da minha vida? Rezar apoiado pela palavra de Deus e sobre a vida é fonte de unificação. A Palavra se encarna no quotidiano que se torna, por sua vez, o lugar de união com o Cristo, comunhão com a sua relação com o Pai, com os homens e com as realidades do dia-a-dia. Assim, quer eu reze, quer eu viva, não há senão “Uma Palavra”, “Um Sopro”, “Uma Vida”, animando a vida e a oração. Bom caminho no Espírito do Cristo, pela graça que foi dada um dia à Igreja na pessoa de Santo Inácio de Loyola.

As Condicões Prévias

Um encontro que se prepara! Horário, lugar, objeto da conversa, maneira de se introduzir, perguntas a formular, propostas... Depois “vestir” o coração, pôr-se a caminho, chegar ao ponto. No caminho, talvez, cair na conta de que um outro me espera e se prepara também. Esta é uma imagem, mas também uma realidade na prece do cristão. Ir rezar significa ir explicitamente a este encontro, onde dois estão envolvidos: o Senhor e eu, e, por extensão, todos os outros.

I – Preparar a prece Prever o quando e o quanto “Rezar quanto me agrada” ou quando “me ocorre”? Neste caso, cabe-me correr o risco de confundir Deus com minhas veleidades, Deus e meus humores. Cabe-me a tristeza, quando eu nada encontrar de muito gratificante. Adeus à oração quando o meu tempo estiver todo empregado – e ele será todo empregado se eu não rezo!


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“Rezar tanto tempo quanto me der gosto, desde que eu não me entedie?” Muito obrigado da parte de Deus! A gratuidade não é poder rezar quando quero, é estar lá para o Senhor, não para o meu próprio prazer. Trata-se de incluir nas minhas 24 horas ou nas minhas 168 horas semanais um mínimo de tempo, doado ao Senhor para arriscar reconhecê-lo como a minha fonte, o que me é essencial, dando-lhe ocasião de me converter à sua vida. “Prever a duração”. Por que, sendo assim, não incluir este tempo na agenda, como qualquer outro encontro? Prever o momento que favoreça a disponibilidade interior. Fixar uma duração suficiente para rezar sobre um texto: 20, 30 minutos, sem ultrapassar uma hora. Um tempo demasiado curto não permite mais que entrar na oração, e é bom se deter um lado (sobre um texto, por exemplo), e concluir. Prever o lugar “Quando tu quiseres rezar, entra no teu quarto e reza a teu Pai que está ali, no segredo” (Mt 6,6). O melhor é escolher um lugar que estimule o recolhimento, com meios simples que apoiem a oração: cruz, ícones, lâmpada. Ou aproveitar um lugar propício, próximo do trabalho ou da residência. Se rezo no meio dos meus papéis, do telefone, de tudo o que me pode chamar a atenção para aquilo que tenho de fazer, não posso espantar-me com as distrações, com o barulho interior ...1 Prever o que apóia a oração Tanto quanto é bom se apresentar a Deus pelo coração e pela Fé, quanto seria prejudicial rezar sem um apoio concreto: um Salmo, uma cena do Evangelho, algo vivido no dia, um acontecimento, uma prece da Igreja, como o glória ao Pai, o pai-nosso, a ave-maria... Escolher antecipadamente o apoio à oração. Que texto? * Podem ser os da liturgia do dia ou do domingo. São um meio de rezar no ritmo da Igreja. * Escolher uma prece comum da Igreja pode me dar a vantagem de saborear o seu significado. * Talvez um texto bíblico que me faça bem ou no qual eu pensei durante a semana ou que possa esclarecer o que estou vivendo atualmente. * Não ter receio de tomar o mesmo texto várias vezes (repetição). * Ler o texto a ser usado, por exemplo, na véspera. Preparar os pontos sobre os quais me parece bom deter-me, a graça que vou pedir. Ler as notas da minha edição da Bíblia para não ter preocupações a respeito do texto.

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É possível, com a graça de Deus e desejo e boa vontade, que as pessoas rezem mesmo durante certos trabalhos, viagens, lugares barulhentos, em "brechas" de tempo e lugar surpreendentes! Estas pessoas fazem das próprias causas de "distração" outros tantos motivos de oração!


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Ora, tomar um apoio para rezar significa: -

reconhecer-me simplesmente humano, crer que Deus se expressa também por suas mediações;

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preferir a objetividade da Fé que anima a Igreja aos meus sentimentos, hábitos, à minha subjetividade.

Mesmo uma prece de adoração, de coração a coração, não pode sobreviver senão recorrendo, de um modo ritmado, a silêncios e palavras, pontos de referência e criatividade, atividade e passividade. Pertence ao Senhor nos levar mais longe do que o texto, n’Ele mesmo, se esta for a sua graça no momento.

II – Preparar-se para o encontro Vestir o coração e me colocar a caminho “A um ou dois passos do lugar onde devo contemplar ou meditar, colocar-me de pé, pelo tempo de um pai-nosso. O espírito voltado para o alto, considerar como Deus nosso Senhor olha-me ... e fazer um ato de acatamento e humildade” (EE 75). Desta maneira de proceder, proposta por Inácio, retenhamos essa pequena parada prévia. Assim, alcançamos não nos introduzir à prece como a uma outra atividade qualquer do dia (como se eu enfiasse contas, mesmo que fossem as pérolas do Reino!). Isto permite tomar consciência da grandeza d’Aquele ao qual venho oferecer a minha oração. l. Trata-se de um encontro vivo, com o Senhor vivo. 2. O Senhor não é nem uma coisa, nem um colega, nem o meu espelho. Ele é o Outro, o Senhor, o Amigo... Deus, Pai–Filho–Espírito. É Ele quem tem a iniciativa de me olhar, enquanto eu sou quem cruza meu olhar com o d’Ele. 3. É todo o meu ser que eu reúno e centro sobre Deus. Cada qual é convidado a “descobrir a sua pequena liturgia”, que o levará melhor ao encontro com seu Deus: gesto ou palavra para saudar o Senhor. Escolher a atitude mais adequada, de um lado, quanto ao que quero manifestar durante a oração; de outro lado, ao meu estado físico ou psicológico. Não se trata de fazer atos ascéticos (penitências) durante a oração, o que seria um outro exercício. Não se trata de passear como um pavão nos jardins do Senhor. Não se trata de ficar bloqueado, paralisado, durante toda a oração na atitude inicialmente escolhida. Rezar não é se converter num pedaço de gelo, congelar-se. Rezar é continuar vivo! Simplesmente. Humildemente.


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Trata-se muito simplesmente de rezar também com o seu corpo, dentro ou pelo seu corpo. Trata-se de tomar os meios mais adaptados àquilo que procuro. Fazer silêncio. Fisicamente (lugar, respiração). Um silêncio de encontro, respeito, que se instaura quando, verdadeiramente, eu me ponho lá, presente a alguém, com tudo o que eu sou, disponível, Imagem da terra que se oferece... Tal como eu sou e não tal como eu sonho ser. A ausência do ruído exterior não basta. Ele pode até mesmo incentivar nosso barulho interior. Será ilusão contar com esvaziar nosso espírito de tudo o que o atravanca, por todo o tempo de técnicas preparatórias. Rezar não é fazer o vácuo! É ser verdadeiro e presente. É juntar o Deus vivo, tal que eu esteja, com tudo o que sou e tudo o que eu levo. Deus não se une a nós num lugar asséptico em nós mesmos. Apaziguar-me, fazer silêncio e, na fé, tomar consciência d’Aquele a quem desejo encontrar no amor.

III – Fazer-se presente a Deus É surpreendente que Inácio não fale de “se pôr na presença de Deus”, como se diz hoje em dia. Ele multiplica os conselhos para preparar a oração (pontos para rezar o texto, tempo de se deter previamente), cuidando dos seus começos, com ajuda de várias atitudes ativas, denominadas por ele de “preâmbulos” (e que nós vamos descrever mais adiante: prece preparatória, recordar a história, composição de lugar, pedido de graça). Esta maneira de proceder tem a vantagem de mostrar que o colocar-se na presença de Deus não se reduz a um ato inicial. Este colocar-se na presença de Deus está na linha de uma orientação interior, de um desejo que se encarna nestes atos, e pervade toda a oração. Contudo, visto que este modo de falar é bastante empregado, arrisquemos dizer algumas palavras para expressar a articulação fundamental do colocar-se na presença de Deus, qualquer que seja a forma de oração utilizada. Uma vez que tenha sido previsto o momento, a duração, o lugar e o apoio – que já são, para Inácio, o cair em conta de Quem eu venho encontrar – chega o momento de entrar numa relação com o Senhor. Do cuidado empregado nos começos, dependerá a qualidade ou o espírito de toda a oração. Muitas pessoas, indagadas sobre a sua maneira de pôr-se em oração, confessam que o fazem a sua matéria, sem cuidar da relação com o Senhor. Resultado: elas se procuraram em vez de procurar o Senhor. Este “colocar-se na presença” acontece na fé. Sem ela, o tempo de oração corre o risco de se dar “a propósito” de Deus e não “com e perante” Deus, à semelhança daquele que lesse a correspondência recebida de alguém sem notar que esta pessoa está ali, presente. Sem dúvida, Deus


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é presente a todo momento, inclusive na hora de nossas atividades e ocupações, mas a nós pertence cair na conta desta realidade. Como fazê-lo? A expressão “fazer-se presente a Deus” parece mais exata do que “pôr-se na presença de Deus”. * “Pôr-me lá”: eu, com tudo o que sou, totalmente, com as minhas grandezas, os meus limites, as minhas preocupações, como estou naquele instante: fatigado, feliz, com o coração pesado, com todo o meu desejo ou não-desejo de rezar. * “Fazer-me presente a alguém” é, de certo, estar presente a mim mesmo. Portanto, é habitar o ato que estou pondo, o rezar ao Senhor. “Fazer-me ...”: é um movimento para um outro, e não uma atitude instalada que existiria por si só, atingida ou não atingida. Um movimento que é vida a ser cuidada. “Fazer-se” significa toda a liberdade ativa e também todo o despojamento de si próprio empenhados na oração. * O “pôr-se na presença de Deus” vai então muito além de um puro exercício formal ou psicológico, e reúne, em poucos instantes, todo o caminho da fé e da vida. Talvez seja o que torne este “pôr-se” tão simples ou tão difícil. * Presente a Deus... Rezar não é uma atividade narcisística. É o doar-se ao encontro com um Outro, que é Vivo. É o cair na conta de que ele é realmente o Deus Vivo, na presença de quem eu me mantenho: seja o Pai, seja o Filho, seja o Deus Criador ou o Ressuscitado... * Podemos nos ajudar com a Cruz, o Tabernáculo ou uma imagem, mas a ajuda por excelência é o Espírito, Deus presente em mim, e não atrás de um muro. Ele anima o movimento mesmo desta prece para Ele. * Presença a Deus que é presente a mim: tomar consciência desta inversão. Eu me pus aqui, eu tomei os meios. Contudo, é Ele que se antecipava, que já estava lá, esperando-me e desejando unir-se e se doar a mim. * Eventualmente ajudar-me com uma frase pessoal, com um louvor que me focalize sobre ele mais do que sobre mim; com um gesto de inclinação, de mãos abertas; com uma passagem de Salmo reformulada em “eu e Tu” (“Tu és o meu pastor, nada me falta ... tu me fazes repousar... Senhor, sabes tudo ...”). * Deter-me aí um tempo suficiente, mas na Fé, sem esperar “um sentir” especial, mas uma real tomada de consciência de si e de Deus a quem eu me dirijo. Depois passar à etapa seguinte. * Se neste fazer-se presente a Deus, o coração encontra mais do que procurava, deter-me nesta graça enquanto a saboreio, para então progredir em paz para o corpo da oração. * Se acontecer que eu não “sinta nada”, alegrar-me desta ocasião de fidelidade mais desinteressada, verdadeiro amor d’Ele, e permanecer “como uma sentinela”, avançando pelo corpo da prece.


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Por quê? O “fazer-se presente a Deus” é como o leito de um rio no qual corre a água da oração, clara ou turvada, calma ou agitada: pouco importa a água, pois nada procuro senão “orientar todas as minhas ações e operações para Deus”. Portanto, é necessário não pôr entre parênteses esta relação de fundo. Sem esta relação de fundo, corre-se o grande risco de manejar com grande destreza o texto (ou minhas idéias) numa relação do tipo “eu, texto, eu de novo “falando” a propósito de Deus . Um fazer-se presente ao Senhor, realizado cuidadosamente, permitirá voltar-se para ele, aconteça o que acontecer, e conservar uma relação do tipo “Deus, eu... a propósito do texto”.

Os Preâmbulos I – A oração preparatória Como? Inácio assim propõe começar a oração pela prece preparatória: “A oração preparatória consiste em pedir a Deus nosso Senhor sua graça para que todas as minhas intenções, ações e atividades sejam puramente ordenadas para o serviço e o louvor de Sua Divina Majestade.” (EE 46) Cabe-nos captar a atitude profunda aqui expressa e a reformular segundo nossas próprias palavras e experiências. Por exemplo: “Senhor, que eu esteja aqui para te conhecer. Gratuitamente. Não por sentimentos que já pude saborear na prece ou pelas respostas que procuro. Que tudo o que eu fizer seja somente na procura de teu serviço e louvor e não na procura do meu próprio serviço e louvor.”

Por quê? * Voltar-me para Ele e por Ele é uma graça. Expressar o pedido é reconhecer esta graça. * É também, conhecer-me. Com efeito, nós que tão depressa procuramos, na oração, um proveito egoísta, um sabor, uma resposta a nossos problemas, nos deixamos estar lá “por Ele”, porque Ele é Deus. * É reconhecer igualmente a parte pessoal que a oração contém: intenções (desejos, lucidez), ações (ler, meditar, atitudes físicas), atividades (refletir, amar, indagar...).


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* Rezar é ir a Deus com toda nossa matéria hurmna e, orientando todo o ser a Ele, receber d’Ele esta capacidade de o alcançar, este movimento do Espírito que, do interior, nos converte ao Pai. * Esta oração preparatória é um ato fundamental. Sobre a atitude que ela instaura repousa a exatidão da prece. Não tem nenhuma importância em si mesmo que depois eu encontre gosto, luzes, ou sequidão e aridez, que eu viva na oração uma provação, o combate da fé ou a alegria das núpcias. O essencial, na prece, como nos meus dias, reside nesta adesão do meu querer a Deus, nesta orientação do desejo que toca e comunga com a do Espírito em mim.

II – A composição de lugar “Para a contemplação ou a meditação de uma coisa visível como a contemplação do Cristo, a composição de lugar consistirá em ver, com os olhos da imaginação, o lugar material onde sucede o fato, onde estão as pessoas, o que desejo contemplar, assim como um templo ou uma montanha onde se encontra Jesus Cristo ou Nossa Senhora.” (EE 47) Modo de fazer A imaginação “compõe o lugar” onde se passa o episódio ou compõe uma “visualização simbólica” do assunto meditado. Graças a este espaço e a esta porta de entrada prática, opera-se já um captar do mistério de Deus que se escolheu para rezar. A inteligência, o coração, a memória ou os sentidos não terão mais do que começar, sem pressa, o seu trabalho. Podemos utilizar: – imagens reais de paisagens vistas (Terra Santa ou outras) para imaginar “as sinagogas, povoados e cidades por onde pregava Jesus Cristo”, ou o Mar da Galiléia, ou “o Monte”. As imagens fixadas por um pintor ou um escultor podem ajudar a entrada no ambiente do mistério contemplado. – imagens simbólicas a serem descobertas para orar sobre as realidades invisíveis, como a ternura e o amor criador de Deus (Is 43 ou Os 2,16) ou como o pecado (“considerar o corpo e a alma aprisionados ou exilados”, sugere Inácio). Por que dar um espaço à minha oração? Fixar um espaço à minha oração significa acolher o lugar particular e concreto onde se realizou o mistério de Deus para os seres humanos. Como Inácio, é uma maneira de me fazer “peregrino”, procurando ver, tocar os lugares de nossa terra onde Deus se revelou. O que rezo (um texto ou um mistério) é uma realidade e não um fruto de minha fantasia. Compor um lugar não se faz em vista de uma reconstituição histórica, mas de uma atividade simbólica. Sou um ser humano que Deus atinge e que vai a Deus com toda a sua realidade, inclusivamente com sua dimensão imaginativa e sensível.


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* Fixar a minha imaginação é um bom meio de a dispor, como todo o meu ser, a serviço da oração. “Ver o lugar” ajuda o silêncio interior. * Minha imaginação, toda a minha afetividade, minha inteligência ou vontade têm o “direito” de ser evangelizados, orientados, feitos criativos em minha busca de Deus. * Tudo isto se passa na fé: ver com a imaginação os lugares para ponderar a realidade do que contemplo. * Imaginar o lugar também é crer que Deus entrou na história e toca o hoje de minha história. * Neste pôr-se a caminho, tudo o que eu sou se deixa evangelizar pelo mistério meditado e permite o encontro na oração tomar corpo. Lugares dos homens, lugar de Deus. Qualquer que seja a cena, “Deus no meio de nós” é vivido no concreto de sua humanidade. Estes lugares fazem parte do Deus verdadeiramente feito homem. Eles permitem sentir o peso (bíblico, divino) da terra que hoje é nossa casa (multidões, amigos, messes, deserto). Esta “composição de lugar” convida a procurar Deus aqui e agora, não numa atmosfera vaporosa, mas na vida humana, em nossa realidade. Por exemplo, retomemos a consciência de alguns pontos: * Jesus era filho de Nazaré, andou pelos povoados da Galiléia, percorreu as margens de um lago, falou da encosta de uma montanha, visitou a casa de Zaqueu, entrou em certa cidade. * O Povo de Deus no Antigo Testamento foi estabelecido em meio de realidades geográficas, culturais, políticas tão prenhes de vida como as nossas, hoje em dia. * Os Salmos são repletos de toda espécie de experiências dos seres humanos em sua busca de Deus: clamores, desejos, sofrimentos, desesperos, alegrias consolações, fé e esperança. Ditos e repetidos pelas pessoas daqueles tempos, eles são como pedras polidas que a minha realidade atual continua a esculpir e aperfeiçoar. Cabe-me ver a que ponto tal ou qual Salmo se refere à minha história pessoal de abandono, de júbilo... (“Teu altar, Senhor... como uma tenda nos céus ... como um cervo ...”). * Para meditar sobre o pecado ou sobre o inferno dos seres humanos é de fato necessário que eu me apoie no lugar onde estou, na experiência que eu conheço do fundo de mim mesmo, dos seus sintomas, desta zona pantanosa, turva, fumarenta, névoa forte escondendo a aurora. * Para meditar sobre a profundeza do amor de Deus, ou do seu poder criador, vou extrair a imagem, a visualização daquilo que conheço interiormente, como do mar, renovando-se sem cessar, da mão que toca com ternura. Vendo, então, através dos olhos da minha imaginação, a casa, a sinagoga, o caminho e a multidão por onde passa Jesus, tenho uma grande oportunidade de, pouco a pouco, reconhecer minha casa, o lugar de minha celebração, minha estrada, minhas multidões como lugares da presença do Cristo que passa, hoje também, na minha vida, com tanto peso quanto naquele tempo.


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III – Pedir a graça Depois de me ter preparado para este tempo de prece, de ter fixado o olhar de minha imaginação sobre uma “composição de lugar”, eu vou exprimir a Deus a graça que desejo receber nesta oração: “Pedir a Deus, nosso Senhor, o que eu quero e desejo.” (EE. 48).

O que pedir? “Pedir o que eu quero e desejo” não significa “pedir qualquer coisa”, mas “olhar o próprio desejo, tornar-se atento ao próprio querer, às suas verdadeiras necessidades e dizê-las a Ele...” “O que eu quero e desejo”: mais do que “fazer pedidos” é entrar verdadeiramente em oração, ser alguém que sabe o que quer, que tem o direito de “querer” alguma coisa para a sua vida, alguém que deseja, que tem aspirações: ser verdadeiramente humano. E então? Sucede, então, que eu mergulhe rapidamente nesta vontade de coração que reside em mim, e de pedir a Deus a graça, pois é uma graça, e não o fruto do meu esforço. As graças a serem pedidas podem ser extremamente diversas: * Em harmonia com o mistério a ser meditado ou com o texto a ser contemplado: a atitude de um personagem, a cura descrita ou uma palavra poderão suscitar um pedido a Deus de qualquer coisa da qual eu tenha necessidade para melhor viver evangelicamente (disponibilidade, luz, paz, conhecimento d’Ele ...). * Eles se definem também conforme as nossas necessidades presentes, nossos estados de alma, nossa etapa espiritual. * Ora mais centradas para o próprio eu, ora mais dirigidas para fora, genéricas ou específicas, pode ser que elas mudem ao longo da oração, ou do ano. Este deslocar-se do desejo será interessante de ser observado.

Por que pedir? Pedir é dispor-se a receber: receber a Palavra, o Espírito, a Luz do Senhor e manifestar assim que a oração nos coloca perante um outro. Estar assim perante Deus, “em estado de desejo”, já é sair de si e entregar-se à ação do Espírito para consentir que Ele reze, fale e atue em nós. Com efeito, não é em vista de nossos interesses pessoais que pedimos a graça de Deus, mas a fim de nos submeter interiormente mais e mais ao Senhor para melhor estar a seu serviço e em seu louvor.


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Pedir é um ato de fé no Senhor, ato que não é mais do que um dom. É reconhecer que tudo vem d’Ele, não de nossas obras, admitindo que até mesmo a oração é dom seu. É crer que Deus (como Ele nos disse) quer nos cumular do que Ele tem de melhor, doando-nos o Espírito. Pedir a Deus é assumir a nossa condição de criatura, é ousar existir diante d’Ele como uma pessoa que se põe de pé, que “quer” e “deseja”, tal qual Deus mesmo quis o ser humano, livre para existir perante Ele. Se tenho desejos, isto significa que sou um ser vivo, uma pessoa única aos olhos de Deus. Pedir nos leva a selecionar os nossos desejos e reconhecer humildemente aquilo por que, hoje, tenho necessidade de me abrir a Deus. É ordenar os meus desejos em relação a Deus, escutar Quem, verdadeiramente, habita em mim, sair de mim para ir à Fonte, o Senhor. O Espírito fará, pouco a pouco, evoluir meus pedidos, levando-me a descobrir o que preciso e o que desejo de verdade. Meu pedido se aproximará mais e mais do desejo de Deus em mim mesmo. Nas Escrituras, Deus mesmo se manifesta levando os que Ele encontra a se exprimirem e respeitando os desejos deles. O próprio Filho pede aos seres humanos ou ao Pai. Portanto, Deus espera que o ser humano se abra para que possa agir nele e escutá-lo no que ele tem de mais profundo (“Que queres que eu faça por ti?”; “Pede o que te devo dar”; “O que quereis?”) Nada pedir ao Senhor é uma atitude de fechamento. No entanto, para pedir com profundidade, é necessário ultrapassar certas objeções piedosas, certas resistências: 1 – “Eu não quero pedir em meu favor, pois isto não importa, é egoísta”: então tenho necessidade dos outros? E os pedidos deles serão desnecessários? Por força de nada pedir, acabarei por não compreender o que os outros pedem! Como poderei dizer aos outros que Deus escuta se eu mesmo não faço a experiência? Lembremo-nos do fariseu cheio de si, fechado, sob a aparência de alguém que dá graças. Apenas o publicano, tudo esperando de Deus, partiu justificado e ouvido. 2 – “Quero uma relação gratuita e desinteressada! Deus não é meu banco da providência.” Decerto! Mas Deus mesmo instaurou uma aliança conosco, uma relação feita de desejos e pedidos recíprocos. Ele conta conosco: para que trabalhemos com Ele, é bom que experimentemos que d’Ele tudo recebemos. De fato, quando, numa família, não se fazem mais pedidos, a morte ronda e a desagregação está próxima. 3 – “Deus sabe melhor do que eu o que é melhor para mim!” É certo, mas eu não peço para informar a Deus, mas para me formar na conformidade com o seu desejo. É balbuciando meus pedidos que ele me fará descobrir e participar no que o Espírito suscita em nós. “Que a tua vontade seja feita”, verdade, mas qual é esta vontade? No coração de cada pedido há um louvor, o reconhecimento de que Ele pode conceder o que se pede. Nada pedir a Deus é uma maneira de se igualar a Ele (aliás falsamente, pois Ele nos faz pedidos!), uma maneira de viver por si mesmo, autarquicamente, uma maneira de “nada ter a fazer


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com Ele na minha humanidade” e procurar o que preciso por outros caminhos. Insinua-se uma falsa imagem de Deus. “Tudo abandonar a seu querer” pode esconder uma recusa de Deus, uma maneira de me fechar na minha vontade: “não há o que fazer...” subtende: “se Ele quer uma coisa diferente do que eu quero...”. Esta é uma atitude caprichosa: a pessoa se amua, defende-se de uma decepção ou de um fracasso afetivo: “Ele não me deu o que eu queria. Já que é assim, então não peço mais nada!” É colocar Deus na minha medida. A menos que este abandono não esconda, sutilmente, uma demissão de minha liberdade. Pedir é entrar, à semelhança de Jesus Cristo, na relação de dois desejos que se procuram e se escutam. Nada desejar é ter perdido a própria humanidade...

Será que Deus vai responder? * Sim, àquilo que, sob o pedido, é conforme ao Espírito, e, portanto, àquilo que é melhor para mim. * Sim, àquilo que ainda não foi concedido no ponto “estratégico” onde Deus se liga comigo. Deste modo, aos filhos de Zebedeu, que queriam ter seus lugares um à direita, outro à esquerda d’Ele, Jesus provê um deslocamento do pedido: “Vós não sabeis o que pedis. Será que podereis beber do cálice que eu vou beber? – Sim!” Cada qual descobrirá mais tarde como foi atendida a sua súplica. O silêncio de Deus, a falta aparente de resposta, desloca e ajusta o nosso desejo ao mais essencial. Se eu nada exprimir, não avançarei nesta descoberta. Cf Mc 10, 46-52; 35-45.

A Meditação

Este modo de rezar requer um “trabalho” simples da parte de quem ora e pode se aplicar tanto a um texto bíblico, a uma epístola de Paulo, a um tema de meditação (pecado, criação), a um texto da Igreja, ao Credo, a uma das orações eucarísticas (anáforas). Modo de fazer * Cuidar, como já foi explicado, o começo da oração (fazer-se presente, fixar uma imagem interior do lugar ou do tema, pedir a graça). * Dividir o assunto da meditação em diferentes pontos, ou em duas ou três etapas. * Em cada etapa: – aplicar minha memória ao assunto proposto;


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– exercer a minha inteligência; – mover o meu coração, a minha vontade; – terminar cada etapa ou o tempo da oração exprimindo ao Senhor o que germinou durante a meditação. l – Aplicando a minha memória: o que este ponto me evoca? Como a minha história pessoal é tocada por este ponto? Trata-se de tomar toda a sua amplidão na história, trazer à memória os fatos, a realidade que conheço a este respeito, recordando-me do que a Escritura diz, ou do que minha própria história me deu a conhecer, ou outras pessoas, ou a Igreja... Por exemplo: Meditando sobre o Credo, o Símbolo dos Apóstolos, eu me recordarei de todos e de tudo o que me permitiu dizer: “Eu creio em Deus, Pai Todo-Poderoso”. 2 – Exercer a minha inteligência: o que compreendo a este respeito? Qual o alcance deste pomo? Refletir. Depois de empregar a memória, envolvendo a minha história e a realidade, cabe à inteligência trabalhar: para melhor compreender as ressonâncias, as implicações, a extensão do mistério. Para isto, precisarei buscar em minhas capacidades de comparar, associar, raciocinar; notar os paradoxos ou as indagações que este ponto põe para a minha vida, a Igreja, ou as imagens de Deus que ele questiona... 3 – Mover o meu coração pela vontade: retomo à relação com o Senhor. Como esta oração me impele a viver ou o que ela me leva a viver ou a exprimir ao Senhor? Mas, o coração nem sempre estando sensível a emoções, a vontade e a fé devem e podem ocupar o espaço da prece. Alargar a minha memória, sacudir a minha inteligência sobre tal ou qual ponto, não passaria de um exercício retórico se não chegasse a “tocar o coração”. Trata-se não de fazer acrobacias e malabarismos com um artigo de fé, mas de aderir ao Senhor mesmo, sem decepar a fé de suas outras dimensões interiores que são a memória e a inteligência. No coração se reúne tudo o que sou, na minha capacidade de decidir-me por Deus. Fortalecido, então, do que recordei, do que compreendi, eu me oriento no meu hoje, empenho a minha liberdade, conforme o amor fiel. Isto poderá se fazer: – seja “naturalmente”: amor, reconhecimento que emana da meditação de coração a coração. – seja pela “vontade” (desejo de desejar) de uma conversão mais firme, ou decisão sobre tal ponto concreto, ou renovação de uma fidelidade, mesmo na ausência de sentimento... E esta forma mais “voluntária” de aderir ao Senhor é tão verdadeira e proveitosa como a primeira. ATENÇÃO! “Memória, inteligência, coração–vontade” não podem ser despedaçados de modo esquemático. Cabe a cada pessoa velar para que a oração meditada não se detenha apenas em


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lembranças do passado, ou se reduza à uma reflexão cerebral, sem referência à minha história, ou, ainda, se feche em estímulos à afetividade. O mistério e a ação de Deus atingem à totalidade da pessoa. A esta palavra de Deus, recebida, ruminada, é o “eu” em sua unidade que responde e assume compromisso.

Sentir e Saborear Interiormente “O que sacia e satisfaz a alma não é o muito saber, mas o sentir e saborear as coisas internamente. “ (EE 4) Por que rezar teria de ser sempre tedioso, insípido, sem prazer? Não está dito nas Escrituras: “Esta palavra está em minha boca e em meu coração”; “Provai e vede”; “Abri a boca e eu a encherei”; “Comei e bebei gratuitamente.”? Conhecer Deus (no sentido bíblico) não está na linha de uma operação intelectual, mas na linha de uma experiência pessoal. Modo de fazer Se o gosto da Palavra é um dom de Deus, eu posso, de minha parte, favorecer esta recepção em profundidade da Palavra e, através dela, acolher o Mistério de Deus. Devemos proceder como quem saboreia um alimento delicado ou um bom vinho: – tomar pouco de cada vez: um substantivo, um verbo, uma atitude; – e tomar tempo para saborear, degustar e descobrir todos os aspectos, refletindo no seu alcance, deixando a Palavra evolar o seu perfume. Permanecer lá até que esta Palavra desça ao meu profundo, ressoe e seja verdadeiramente recebida e compreendida. Tomar-se-á cuidado em: – dispor-se a uma verdadeira receptividade evitando a divagação, o borboletear, passando sem deter-se de frase em frase, sem lhe dar ocasião de “falar”; – não procurar novos conhecimentos, procurando ver muitas coisas, mas demorar-se nelas o bastante para “senti-las e saboreá-las interiormente”; – não se forçar a sentir, a fazer surgir o gosto, nem ter a expectativa de que se passarão coisas prodigiosas. Se o sabor for sentido: – acolhê-lo e permanecer nesta palavra, tanto tempo quanto nela encontrar o fruto; – não procurar interpretá-la imediatamente: “Se esta palavra não me toca é porque devo fazer isto ou aquilo”; – continuar a aderir ao Senhor por ele próprio, e não por meu gosto;


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– ter em conta de que o gosto não é um fim em si mesmo, é uma indicação.

Algumas formas de que o gosto interior pode se revestir O gosto interior pode tomar formas variadas, conforme as pessoas ou os momentos da vida. Intensas ou discretas, tais formas são sempre observáveis: – Um pregustar: no momento de preparação da prece, ou quando se escuta o Evangelho do dia, pode surgir um despertar ou uma resistência. “ Salivo”... Será bom rezar sobre este ponto. – Pasmo, admiração, nova inteligência interior. – Sentimento de conivência ou cumplicidade com tal passagem, tal personagem, uma palavra que me revela minha realidade, um lado de mim mesmo, um rosto de Deus, um apelo, um desejo. – Sentimento de presença de Deus, ou de simples presença para Deus, que se manifesto na paz, no repouso, na fé tranqüila ou na experiência da Verdade, da Palavra Viva. – Palavra que me envolve, me impulsiona e fala além de toda a explicação. – Eco dinamizador de tal palavra que realimenta o desejo de viver, de servir, de imitar. – Existem também formas mais dolorosas, por exemplo, quando se medita nas realidades difíceis ou sofridas da vida do Cristo ou de minha vida: * sentimento de compaixão, de contrição que nos volta para Deus ou para os outros em verdade; * sofrimento, lágrimas mesmo à vista de uma ferida ou de uma fase de minha história, mas sem amargura, numa certa paz. * secura, sede, dor por uma impermeabilidade: será melhor, neste caso, permanecer numa fidelidade pacífica. Na incapacidade de saborear seja o que for, Deus fala. ATENÇÃO! “Sentir e saborear”: não é à toa que esta linguagem dos sentidos permite evocar o fato de que Deus nos toca verdadeiramente e nos atinge na oração. Com efeito, em nossa realidade corporal, afetiva, inteligente e não no imaginário é que Deus fala e se comunica a nós. E é por esta realidade que tomo consciência de sua comunicação. O que eu sinto e saboreio não é Deus mesmo, mas uma indicação, um sinal de que a sua Palavra trabalha em mim, toca-me. Interiorizando tal passagem, assimilando-a, a Palavra me nutre, “encarna-se”, ensina-me. Sentir e saborear interiormente as coisas de Deus não depende de nós. Pensar o contrário seria cair na ilusão. A iniciativa de Deus – que se dá a provar tanto como presença quanto como ausência – vai ao encontro da nossa, mas se revela como precedente. Após um certo trabalho, aquele que saboreia e sente interiormente as coisas experimenta então que o fruto ultrapassa o esforço pessoal empregado.


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Conversar com o Senhor: o “Colóquio” “O colóquio se faz propriamente falando como um amigo fala a seu amigo, ou um servidor a seu mestre. Ora pedindo alguma graça, ora acusando-se de alguma má ação, ora comunicando seus negócios pessoais, pedindo conselho a respeito. “ (EE 54). Modo de fazer Trata-se de um entreter-se simples, familiar e respeitosamente com o Senhor. Nós lhe exprimimos o que está em nosso coração no final de nossa oração, quando lhe expressamos um pedido, uma queixa, uma tristeza, uma descoberta, um agradecimento, preocupações, uma luz recebida, uma alegria, um desejo. Este momento vive-se habitualmente no fim do tempo da oração, após ter deixado tempo à Palavra para que ela nos atinja. Nossa expressão torna-se uma espécie de resposta ou de eco. Dirigimo-nos ao Pai, a Jesus Cristo, à Virgem ou mesmo a um Santo pelo qual tenhamos uma devoção particular, ou a personagens contemplados na cena evangélica (João Batista, Pedro...). Falar-Lhe, “como um amigo fala a seu amigo ou um servidor a seu senhor”, ou um filho, uma filha a seu pai ou mãe... uma criatura a seu Criador e Salvador, conforme o que tenhamos vivido na oração e a atitude interior que tenho desejo de assumir doravante... Que esta expressão seja simples, cordial, embora respeitosa. Trata-se verdadeiramente de falar. Para encerrar completamente o tempo de oração, tomar uma prece vocal. Por exemplo: o “pai-nosso”, a “ave-maria”, a “Alma de Cristo”, ou outra oração cujas palavras me sejam familiares e que me permitam fazer uma saudação final ao Senhor com sentido eclesial.

Valor e sentido do colóquio O colóquio ajuda a progredir em uma relação mais pessoal, verdadeira e humilde com o Senhor. Ajuda, portanto, a aceitar que Deus faça de nós filhos, amigos, com os quais estabelece um relacionamento. Trata-se, com efeito, de responder à Palavra, de deixá-la desde já tomar corpo exprimindo-a em algumas palavras. Trata-se, também, de privilegiar a relação mesma em referência ao que recebi ou deixei de receber. Nunca falar ao Senhor seria não tomá-lo como pessoa, mas d’Ele fazer uma abstração, uma sorte de “invisível totalmente outro”, um simples “distribuidor de dons”. Assim, eu esqueceria de olhar, enquanto me exprimo, ao Doador mesmo.


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Entrar em colóquio com Ele é tomar consciência de que o Senhor contemplado na Escritura está aqui, comigo, agora. O que eu exprimo (ou não posso exprimir a Deus) revela-me melhor ainda no que desejo, mas não chego a viver. É, por conseguinte, o caminho do progresso. Possa comparar o que exprimi a Deus no colóquio como o que eu lhe exprimira no pedido inicial de graça: houve qualquer mudança, deslocamento, confirmação? O Senhor talvez tenha atendido o pedido de graça que formulei no começo da minha oração. ATENÇÃO! Não se trata de viver a oração sob a forma de uma expressão verbal: deixo a Palavra me falar, ressoar em mim; mas, de tempo em tempo ou na conclusão, dirijo-me a Deus mesmo ali presente, dou-lhe parte dos frutos de sua Palavra em mim, do que ainda procuro,. de minhas descobertas, dos passos que me pareceriam convenientes encetar...

Reler a Própria Oração

“Após terminar o exercício, durante um quarto de hora, sentado ou passeando, verei como as coisas se passaram para mim, durante a contemplação ou a meditação. Se mal, olharei a causa donde isto provém, e, tendo-a descoberto, vou me arrepender dela para emendar-me no futuro. Se bem, darei graças a Deus nosso Senhor e farei o mesmo uma outra vez.”(EE 77). Modo de fazer Depois de ter orado o texto bíblico, é útil e proveitoso fazer uma “revisão da oração” observando durante alguns minutos: 0 – O tom geral deste tempo de oração (em uma ou duas palavras). l – Como eu me coloquei (modo de fazer: fui bem ou tenho algo a melhorar?) 2 – O que eu senti: * pontos do texto ou imagens que principalmente me marcaram e tocaram;* sentimentos experimentados a propósito destes pontos e imagens (nomear, precisar, o que, com freqüência, é deixado de lado). 0 – Tom geral Em uma ou duas palavras qualificar como vivenciei a oração e seu efeito sobre mim: estado interior com o qual saí da oração. l – Como me coloquei Como assegurei, de minha pane, as condições da prece, o aproveitamento do tempo:


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* Como me preparei (reli o texto? os pontos? escolhi lugar, momento, duração?). * O lugar e as posições escolhidos me ajudaram ou devo reconsiderá-los? * Dei a duração prevista? Como lidei com as eventuais distrações? * Se o texto nada me disse ou tocou: como eu reagi? (acolhida, fuga, gulodice?). Rezei com todo o meu ser, inteligência, apoiando-me nas idéias, de coração? * Falei ao Senhor? Soube calar? * Como terminei o meu tempo de oração? De modo claro, nítido, ou bruscamente? Sem ter de passar obrigatoriamente todos estes pontos em revista a cada oração terminada, dar atenção e perceber o que é proveitoso e o que convém melhorar. 2 – O que eu senti (o que depende menos de mim) * Que palavras, personagens do relato me prenderam a atenção? Tocaram-me? Fizeram-me alcançar o meu fim? * Que experimentei a seu respeito? – paz, alegria, ânimo para avançar, confiança... – obscuridade, resistência, desgosto, medo, dúvida, revolta... * Que eventuais luzes percebi: sobre Jesus, sobre minha vida; esclarecimentos, pacificações. * O que saboreei, que desejos me vieram? Por exemplo: uma atração por um aspecto da vida cristã do Cristo ou outro.

Valor desta releitura * Ela permite levar a sério os dons de Deus e sua palavra, bem como a sua liberdade a meu respeito. * Ela permite reconhecer os dons, as luzes recebidas, guardar memória, voltar a estes pontos, pois foram notados, e de me ajustar a eles em minha vida quotidiana. * Ela permite avançar, progredir realmente, não sobre as minhas “impressões” ou as minhas “idéias”, mas sobre as realidades vivenciadas. * Ela permite observar as linhas de força, as constantes espirituais, e também as linhas de fraqueza sobre as quais trabalhar. * Ela permite entrar em estado de discernimento espiritual, de receber de Deus a minha verdadeira personalidade espiritual: caminho de minha própria vocação. Descubro a maneira pela qual Deus “me” fala, o que o Espírito imprime em mim... Eu não sei o que Deus me diz ou faz durante a oração, mas eu recolho seus traços. O caminho aparece com o tempo.


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– Ela permite, através dos efeitos que produz a passagem da palavra viva de Deus, unificar suavemente oração e vida. – Ela facilita a conversa com o acompanhamento eventual. ATENÇÃO! – Fazer estas observações depois do tempo da oração e não durante. – Não devo julgar se eu “rezei bem” ou “rezei mal” (!!!). Devo simplesmente olhar. – Não querer anotar tudo (somente algumas palavras) nem me recordar de tudo. – Não recomeçar a oração durante o tempo de fazer esta releitura. Empregar apenas alguns minutos. – Não tentar ficar observando-me durante a oração para verificar deste então o que devo reter! Confiar no Senhor quanto ao que guardarei depois. – Não se trata de fazer um tratado de demonstração bíblica ou teológica, mas uma síntese bem ordenada. – Selecionar o que me atinge e o que penso que teria necessitado ver! – Não apenas observar “a propósito do que” se passou qualquer coisa, mas aquilo que se passou.

A Oração de Repetição Em vez de passar sempre de um texto para outro, é muito frutuoso rezar várias vezes o mesmo tema para deixá-lo significar tudo o que ele pode me dizer. A “oração de repetição”, contudo, é um pouco mais precisada por Santo Inácio. Ele propõe que nos demoremos numa palavra que já foi rezada e que já nos disse alguma coisa (oferecendo sentido ou o contrário!). Modo de fazer * Na releitura de uma ou outra das orações precedentes, cair na conta dos versículos que mais me marcaram (pelo tempo em que neles me detive, ou pelo sabor experimentado, ou pela resistência...) mesmo se estão em textos diversos. * Bem identificados, anotados, faço destes versículos matéria de minha oração. * Preparar o tempo da oração do modo habitual. * Esta palavra me poderá dizer mais ou outra coisa ou diferentemente ou mais nada. * Eu não procuro repetir ou mudar o sentimento experimentado precedentemente. * Se eu não encontro o mesmo sabor, adiro na fé, na paz, no silêncio, a esta palavra sem consolação sensível.


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* Se experimento agora sabor, aí me detenho. * Em lugar do que a oração precedente me fez vivenciar ou descobrir, retenho o que a repetição me fez esclarecer ou confirmar ou questionar. * Dialogar com o Senhor a propósito de tudo isto. * Depois passar a um outro versículo que eu tiver destacado. Por vezes é conveniente ou prudente fazer uma segunda ou terceira repetição sobre estes mesmos versículos que terão de novo despertado o meu gosto ou minhas resistências.

Por que a oração da repetição? * Os movimentos (alegria, sabor, violência, resistência) vivenciados, rezando tal ou qual passagem, se fazem significantes. * Tal ou qual versículo revelam o segredo de um aspecto de minha vida, uma dimensão do meu ser, de minha vocação. Ele me desloca, me atinge. * Repetir afina a sensibilidade da escuta de Deus, deixa tempo à Palavra para verdadeiramente descer, encarnar-se, “fazer o seu caminho em mim”. * Isto simplifica minha prece e decanta os meus sentimentos. * Ela depura a minha relação com Deus, meus sentimentos, minhas idéias. Ela põe em relevo as constantes, as graças de Deus. * Ela permite melhor observar o essencial do que o Senhor me quer dizer.

EVITAR... ...tomar como ponto de partida imagens ou sentimentos desfocados, suscitados pelos versículos referidos. Mas observá-los bem, delimitar para aí voltar de modo objetivo. ...querer “fazer voltar” os sentimentos experimentados precedentemente. ...principiar esta prece de repetição sem primeiro me fazer presente a Deus. Estar ali para Ele e não por aquilo que eu quereria alcançar.

Contemplar uma Cena Bíblica Na vida quotidiana, contemplar é permanecer sem nada dizer, olhar, escutar e se deixar levar ou por uma obra de arte, ou paisagem, ou pelo murmúrio das águas, o movimento das ondas... Saborear, admirar, deixar-se comover pelo que as coisas vistas ou ouvidas provocam. Mesmo se há um método para ajudar a contemplação, é mais que um modo de rezar, mas um modo de estar com o Cristo.


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Um modo de fazer Esta maneira de rezar convém a cenas bíblicas onde há personagens a ver ou a escutar. Os preâmbulos de costume adquirem um sentido reforçado: * Recordar brevemente a história, o que afasta o risco da cena evangélica se tornar uma imagem pietista, mas contribuir para que ela nos chegue como eco de uma realidade vivida e relida: o Senhor na história dos homens. * Fixar a atenção sobre o lugar geográfico ou simbólico (montanha, mar) ou sobre o clima humano (a Ceia, a festa da Páscoa) onde se passa o episódio. * O pedido de graça poderá se definir no sentido: “Mais conhecer, intimamente, o Cristo, a fim de mais amá-lo e segui-lo”. * Depois, “ver os personagens, escutar o que eles dizem, olhar o que eles fazem, reparar no que eles fazem e refletir para tirar algum proveito”. * Trata-se de uma tríplice abordagem da cena para a saborear mais profundamente, e por aí conhecer o Senhor. * Ver os personagens; Escutar ou considerar o que eles dizem; considerar ou olhar o que eles fazem; e, a cada etapa, refletir para tirar algum proveito. 1. Ver os personagens da cena Empenhar-me em ver quem são: eles têm um nome, uma história, um temperamento, um sofrimento, um pedido, uma intenção... São homens e mulheres como os de hoje! Contemplá-los, não como se eles fossem uma coleção de fotos pietistas, ou figuras de uma história um tanto imaginária, mas como participantes de uma aventura humana. Empenhar-me em compreender, sentir, conhecer o interior como S. João dirá: “O que nós vimos, o que nossas mãos tocaram do Verbo da Vida, nós o anunciamos”. Deixar-se como que impregnar pela cena para saborear um tanto o mistério. Deixar que a cena se manifeste por si mesma. Ousar colocar-me na cena: meter-se na barca, no presépio, na situação deste paralítico, para melhor captar o que eles teriam podido perceber de Jesus, o que se passa neles... 2. As palavras Empenhar-me em ouvir as pessoas fazendo-me presente a elas, ou como se as palavras me fossem diretamente dirigidas, ou como se eu mesmo as pronunciasse. Sentir o tom, a intenção.


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Ponderar o que as palavras significam, ditas por tal ou qual personagem, o que elas me revelam a respeito dele (“Dá-me de beber!”... “Hoje quero permanecer em ti!”... “Bem sei quem tu és”... “Tu me lavares os pés?”). 3. O que eles fazem Os gestos, as atitudes, as ações, as reações (reparar nos verbos). Estes atos são os de Deus ou da pessoa (então meus!) em relação a Deus. Posso experimentar o sentido, ou qualquer coisa de mim, do meu desejo, ou descobrir então toda uma fisionomia de Deus. Eu os tocarei com o dedo, em vez de teorizar a respeito! Talvez vá assumir tais gestos: “Estende a mão atrofiada... “, e eu me descobrirei atrofiado, tendo sede de cura, paralisado e vacilante. Ao lado de “Jesus, cansado pelo caminho, sentado à beira do poço”, ou perto de Maria, inclinando-me para dizer “Eis aqui a serva do Senhor”. 4. Refletir sobre mim mesmo para tirar algum proveito Quando um aspecto me tocar, devo deter-me, demorar-me, saborear, deixar ressoar. Refletir para tirar algum proveito: após uma etapa, ou no final, tomar consciência daquilo que o ver os personagens, o ouvi-los, o reparar em suas atitudes e gestos terá causado em mim. Tirar proveito. Refletir como um espelho: qualquer coisa do mistério se imprime em mim, deixa uma impressão, um gosto, um sentir espiritual pelo qual compreendo ou conheço qualquer coisa de Deus, de sua maneira de ser ou do ser humano ou de mim mesmo em relação a Ele. Pode acontecer que este “eco”, este “refletir”, se dê quase sem palavras no momento, e, apenas no colóquio final com o Senhor, ou na revisão que eu tinir da oração, será notado. Finalmente, entreter-me no colóquio com Deus ou com um dos personagens da cena evangélica. Pode acontecer também que, retomando, repetindo tal passagem do texto, eu encontre repouso em viver a cena de mais perto, ao ponto que não somente pela vista ou pelo ouvido eu poderia CONTEMPLAR, mas mesmo tocar, sentir o odor, o gosto. Todos os meus sentidos rezam, sinal de que a minha prece se simplifica, unifica, que meu corpo e meu ser se deixam atingir pela Palavra de Deus.

Um modo de estar com Cristo Contemplar o Cristo é mais do que uma maneira de fazer, é uma maneira de ser ou estar com Cristo e de se fazer presente a seu mistério. Deus assumiu corpo um dia para me tocar e, hoje, em mim, o seu Espírito me torna contemporâneo desta história e de sua graça. A contemplação evangélica se caracteriza, com efeito, pelos seguintes pontos: * Uma capacidade de contemplar o outro: ser “descentrado” de si mesmo.


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* Uma transição do exterior ao interior do mistério e de uma dimensão apenas intelectual a um “conhecimento interno”. * Uma contemplação na fé e na Igreja, pois o que eu creio é o que vejo e não o contrário, e é no discernimento eclesial que acolho, do modo justo, este mistério e a sua iluminação sobre a minha vida ou percebo os seus apelos. * Deus é Vivo hoje. Do mesmo modo que Ele afirmou a Moisés ser “o Deus de Abraão, Isaac e Jacó”, ele afirma hoje: “Eu sou este Deus de Moisés, de Zacarias, de João Batista, da pecadora, aquele que tu contemplas...; a ti sucede o que lhes sucedeu: passo em tua vida como passei na deles”. Ele é a ponte entre eles e eu. Ele me enraíza nesta longa linhagem da História Santa. * O Verbo feito carne, Palavra única e definitiva de Deus; único caminho de união com Deus. Hoje, no seu corpo, que é a Igreja e por meu corpo que O contemplo, esta palavra toma carne em minha vida; ela me “fala” (fala “a” mim e “de” mim). Contemplar o Cristo me modela, desde o interior, à sua imagem. Esposando, pouco a pouco, seus sentimentos, sua maneira de ver, eu viverei, não as mesmas coisas que ele, mas no mesmo Espírito. “Nós nos tornamos aquilo que contemplamos”, diz um provérbio. Portanto, contemplemos o Cristo!

Alguns obstáculos e alguns conselhos. Não acreditar que a contemplação evangélica seja reservada a profissionais da oração! Não confundir a contemplação evangélica aqui proposta com uma oração unitiva, mística, para a qual, contudo, ela talvez venha a ser o caminho. Não fazer uma hierarquia de valor: meditar, rezar ao ritmo da respiração são importantes do mesmo modo. Não querer “viver as coisas espirituais”: não é a gulodice que ajudará, mas a simplicidade do descentramento de si. Simplesmente: “olhar, escutar”. Demorar-se, dar-se o tempo necessário sem querer tudo examinar, tudo vasculhar na cena. Não distinguir forçadamente o “ver” e o “escutar” se estes aspectos se aproximam. As etapas estão lá para ajudar, não para aprisionar. Não voar muito alto: não se deixar prender em considerações bíblicas ou teológicas. Não descer muito baixo: não se amarrar a sentimentos de piedade forçada, sentimental (“Este bebezinho na manjedoura, oh, Deus Salvador!”). Nossa inteligência, nossa intuição teológica e a fé que nos dá a Igreja são boas garantias contra o abuso da imaginação nesta abordagem sensível.


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Estar preocupado por assuntos particulares pode impedir de contemplar o Senhor. Melhor será rezar sobre a minha vida ou meditar o texto do que rezar forçando-me a pôr “de lado” estas questões que me tocam.

Aplicação dos Sentidos Na contemplação evangélica, a abordagem da cena e do mistério que ela relata se fazem pelos sentidos interiores da visão e da audição: olhar as pessoas, escutar o que dizem. O uso dos cinco sentidos corporais corresponde à distância que nos separa do objeto, do mais distante ao mais próximo. Assim, sentir, saborear, tocar, além de ver e escutar necessitam ou criam uma proximidade maior, uma transição da exterioridade à interioridade. Esta passividade de fundo necessita do trabalho tranqüilo dos sentidos interiores, pelos quais ela ensaia o ver, o escutar, o tocar, o saborear, o sentir o odor interiormente. Portanto, esta aplicação dos sentidos virá após abordagens sucessivas da cena, repetições que me permitirão passar do mais global ao mais particular, do mais exterior ao mais íntimo, da inteligência ao corpo e ao coração.

Modo de fazer * Preparar meu tempo de prece: sobre o texto já contemplado. O olhar sobre os personagens, a escuta das palavras ou o sentir interior já introduzido ao âmago da cena. * Entrar na oração pelo modo habitual: imaginar o lugar pelo qual eu desejo entrar e retomar o caminho do mais exterior ao mais interior. * Entro no que vejo e o que vejo entra em mim. * Deixo vir a meus ouvidos interiores as palavras, o silêncio. Tento, pacificamente, aproximar-me, mais e mais, da interioridade do mistério através de aspectos concretos da cena. * Sinto o odor, toco, saboreio como se estivesse presente à cena: os objetos, a atmosfera, a “suavidade ou a doçura” de Deus segundo o personagem que eu contemplo. * Permaneço neste conhecer interior, até mesmo sensível, mas respeitoso do Senhor: “Tocar pelo tato; pelo exemplo, abraçar e beijar os lugares onde pisam estas pessoas e onde elas se apóiam, procurando sempre tirar proveito” (EE 125). * Posso demorar-me, gratuitamente, nesta relação profunda e simples com o mistério de Deus que se entrega a mim nesta ceia. Saboreando o que me for dado, disponível e aberto, sem tentar me apoderar do dom. * Recolho pelos meus sentidos o que se destaca desta ceia. * Termino concretamente com uma expressão pessoal ao Senhor, com uma ação de graças ou uma prece da Igreja.


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Como diz S. João da Cruz falando da contemplação comparativamente à meditação: “A diferença é a que se dá entre trabalhar em uma obra e usufruir da obra feita, ou ainda entre o receber e o aproveitar o que foi recebido, ou entre se fatigar em seguir um caminho e se repousar no término do caminho, ou, se quiser, entre preparar um alimento e tomar e saborear o alimento já preparado.”2

Alguns pontos a observar * Não se trata de procurar sensações, mas de procurar o Senhor e disto tirar proveito. * A procura contemplativa chama os frutos na vida de cada dia: eles autenticam ou não a verdade de minha prece. Se o que me apraz saborear de Deus me faz sair do caminho da Igreja e do mundo, não terei eu confundido movimentos de minha afetividade com a verdade divina? * A imaginação espiritual acolhe e não força. Ela não é um abrir a porta ao imaginário. No coração da prece contemplativa vive-se uma forma de castidade, de despojamento. Estar sempre “puramente ordenado ao louvor e ao serviço de Deus...”. * O conhecimento interior que adquiro se verifica e autentica por aquele que o Senhor revelou à sua Igreja e que nós confessamos na fé.

Por que aplicar nossos sentidos a uma cena bíblica? * O Verbo tomou carne e corpo. Sua palavra viva não pode nos alcançar fora de nossas faculdades humanas, aí incluídas as corporais, pelas quais nós apreendemos as realidades espirituais. * A aplicação dos sentidos é a marca de uma oração simplificada, descida ao coração mesmo. Verdadeira, ela dará a paz, a humildade, a simplicidade; forçada, ela fatigará e desviará. * Repetições e aplicação dos sentidos unificam o orante pouco a pouco. Todo a pessoa se “recolhe” no essencial e “colhe” um fruto maduro. * Deus responde ao pedido de graça e de “melhor conhecer internamente para melhor amá-lo e segui-lo”.

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“A subida do Carmelo, Obras Espirituais”, Seuil, p. 161.


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A Revisão Quotidiana ou Exame Por que esta prece quotidiana? Mais do que um simples método, a revisão quotidiana do dia, ou exame ou avaliação do dia, formaliza e permite um movimento de encontro que alguns têm chamado, com justa razão, “uma oração da Aliança”. Esta Aliança da qual Deus tem a iniciativa – e que se manifesta sempre no quotidiano – chama a uma volta, ao consentimento da parte de cada pessoa. O postulado inicial é que Deus, o Primeiro, doa. No coração mesmo de minha vida, “Deus pena e trabalha por num”. Em segundo lugar, é neste viver quotidiano (e não em algum “além”) que se afirma, se exprime ou se nega a nossa resposta à Aliança; nossa fidelidade ou infidelidade ao Senhor. Em terceiro lugar, ocorre-nos “não esquecer”, “trazer à memória”, que Deus é a nossa força e de celebrá-lo, não apenas liturgicamente, mas vivendo em coerência com esta realidade da fé. Cabe então a nós o “reler”, rever, o passado para dar graças e orientar o futuro. “Recorda-te, Israel, trás ao coração, não esqueças... sou Eu quem te...” Quantas vezes este convite repercute nas Escrituras! De fato, as Escrituras não são mais do que a releitura, na fé no Deus Vivo que se revela presente à História do seu Povo. Em quarto lugar, é por um uso regular e freqüente da releitura que se toma possível discernir como Deus trabalha e como melhor lhe responder no dia a dia. Assim, será bom renovar a cada dia esta Aliança. Por isto, o exame do dia será, em primeiro lugar, um encontro pessoal com o meu Deus, e não, em primeiro lugar, um encontro com a minha própria consciência. É no íntimo desta relação de fé, como no interior do leito de um rio, que eu olharei, com Ele, e, mais freqüentemente como Ele, o conteúdo do meu dia, ou certo acontecimento, ou algum episódio de minha vida. Neste conteúdo discernirei, pouco a pouco, a sua presença, a sua fidelidade, os seus dons, seu Espírito em ação, e a maneira de a isto responder e me ajustar.

O que não é esta releitura * Uma relação narcisística consigo mesmo a propósito do dia: “Eu/minha vida... a partir de Deus ou de minha vida.” * Uma nomenclatura de acontecimentos sobre os quais farei um juízo moral. * Um simples balanço, tal qual qualquer outra pessoa poderia fazer no fim do seu dia. * Um ajuntamento de diversos pontos propostos para rever o seu dia. * Um estéril movimento de retomo ao que já passou. * A procura de partida “daquilo que eu fiz de mal”! Um minucioso esquadrinhar de minhas faltas!


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* Um remédio infalível para encontrar Deus e sua ação “como uma coisa” bem delimitada no decorrer do meu dia.

O modo de fazer de Santo Inácio (EE 43) 1° ponto: Dar graças a Deus pelos benefícios recebidos. 2o ponto: Pedir graça para reconhecer os meus pecados e os rejeitar. 3° ponto: Pedir à minha alma que ela me dê conta desde a hora de levantar até o momento do exame, hora por hora, dos pensamentos, das palavras, das ações... 4° ponto: Pedir perdão de minhas faltas a Deus nosso Senhor. 5° ponto: Fazer o propósito de me emendar com a sua graça. Concluir com um “pai-nosso”.

O conjunto do procedimento * Escolher o bom momento e me dar uma boa posição (à meia-noite e na cama eu corro o risco de dormir!). * Definir um tempo (de dez a vinte minutos). * Como para toda a oração, retomar a consciência que estou na presença de Deus, e voltar o meu coração e intenções para Ele, tal como eu estou neste fim de dia. l. Dou graças ao Senhor para o que Ele fez e me deu hoje. 2. Peço a luz, a abertura de coração para rever o modo pelo qual eu acolhi o dom de Deus. 3. Examino: olho para o que fiz do meu dia, dos acontecimentos, ações, palavras e pensamentos. É um tempo para o discernimento. 4. Peço perdão por minhas faltas ou quedas. 5. Ofereço-me e me confio ao Senhor, decidindo-me, talvez, quanto a um ponto a mudar amanhã.

Uma adaptação progressiva para entrar no exame Que cada qual adapte esta forma de oração segundo o ponto onde ele se encontra (ritmo, lugar). Os principiantes ou os que têm dificuldade de dar graças a Deus poderiam se deter várias semanas sobre os 3 primeiros tempos para não transformar este modo de rezar num “exame narcisístico” (A). Outros visarão a conversão que permite o exame (B).


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Depois, poder-se-á progredir no que torna mais sutil e precisa esta forma de oração: o discernimento (C). Usar das propostas seguintes com liberdade e sabedoria, mas também com generosidade e desejo de progredir.

(A) Para os principiantes Exercitar-me, em primeiro lugar na ação de graças durante várias semanas, sobretudo se tiver dificuldade de dar graças, ou se me sentir inclinado a me olhar pelo lado negativo, inicial ou predominantemente. 1° tempo: fazer-me presente a Deus Mais que o passado, o que importa é este momento com o Senhor, agora... Com um gesto, uma prece singela, volto-me para o que é a fonte e a finalidade de minha vida. Neste final de dia, entro na Aliança que o Senhor não cessou de me oferecer. 2° tempo: pedir-Lhe a luz Ele é o único que me pode revelar o verdadeiro teor do que vivi. Peço-lhe que me conceda ver o meu dia segundo o seu coração e o seu olhar. Colo-me na sintonia, na fé no Deus rico de misericórdia, Deus Vida, Amor, Verdade... Atirar-me diretamente no que eu fiz de bem ou mal, seria julgar conforme os meus critérios e arriscar o narcisismo. Celebro primeiramente a Deus e seus dons para melhor me situar. 3° tempo: dar graça a Deus (ou reconhecer e atribuir a Deus as suas graças) Olhar, no que vivi, tudo o que me possibilite dar graças a Deus e exprimir-me a Ele: – seja fazendo desenrolar-se diante de mim o filme do meu dia, reconhecendo como, do começo ao fim, o Senhor trabalhava para mim, para o Reino, e reconhecendo os seus dons; – seja deixando-me evocar tudo o que foi motivo de alegria, de reconhecimento, de paz... e agradecer a Deus que é a sua fonte. Não temer ser “simplista” ou ter razões “ingênuas” de agradecer a Deus, pois dar graças abre espaço à graça; – seja olhando mais de perto um aspecto, um momento ou uma situação vivida: tudo o que me fala de Deus, de seu amor, ou do Reino, que vai acontecendo, do Evangelho. Talvez ocorramme comparações com o que viveu Jesus ou o Povo de Deus: os recomeços, as reconciliações, as curas; – seja recordando-me de coisas das quais fui simplesmente testemunha, incluindo os acontecimentos do mundo, onde perceberei a presença de Deus e como tudo isto me atinge e a que me chama. (Esta primeira atitude de releitura foi denominada “de Ti a mim” por Pierre GOUET, SJ).


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4o tempo: fortalecido por esta revisão, abrir-se ao futuro Confiar ao Senhor o dia de amanhã, pedindo-lhe sua graça. Verificar se, tendo retomado consciência do amor e da presença de Deus em minha vida, não haveria um ponto ao qual seria bom dar atenção no dia seguinte. Tomar decisão e pedir a Deus a sua ajuda. Terminar por um “pai-nosso” ou outra oração vocal. ATENÇÃO! Este tempo de releitura na ação de graças é capital. Apenas esta atitude fundamental permitirá reler com o acento justo o desenrolar-se e o conteúdo de minha vida. É, portanto, aconselhável demorar-se, permanecer semanas, até mesmo meses, empenhado em desenvolver este devotar-se para Deus, à sua Aliança, descobrindo como Ele se mantém fiel. Esta fase de ação de graças não significa que o orante se mantenha num sentimento constante de louvor e alegria. A ação de graças é, essencialmente, um voltar-se para Deus, um reconhecer os seus dons, como o Filho o faz. E isto pode ajudar em situações difíceis. Se, quando procedo a esta revisão, encontro-me agitado, fatigado ou turvado, posso me pôr na presença de Deus tal como eu sou, com tudo o que carrego e tentar, então, simplesmente afastar-me de mim mesmo para “re-pousar” tudo isto em Deus, confiando-lhe o que me agita, insistindo comigo mesmo como Ele é Amor, Paz, Fidelidade.

B) Para entrar no processo de conversão pela releitura do dia Depois ter vivido os três primeiros tempos precedentes... em alguns poucos minutos: 4o tempo: examinar como vivi a Aliança Tendo redescoberto Deus presente, amoroso, discreto, misericordioso, humilde, verdadeiro, do qual me vêm todas as alegrias do dia, bem como todos os outros dons, olho para aquilo que fiz: ações, palavras, pensamentos..., seja de maneira metódica, seja de modo mais flexível, segundo as minhas necessidades. luz do dom de Deus, olhar as minhas respostas (de mim a Ti), deixar que se manifestem as minhas infidelidades confiar-me à misericórdia de Deus. Relendo os meus dias, enquanto “conservo a mão na mão de Deus”, descobrindo os seus dons e a sua presença neste quotidiano, percebo melhor minhas infidelidades: – seja por uma distância entre o que creio do Senhor (amor, justiça, verdade) e minha atitude em tal ou qual circunstância (desamor, injustiça, inverdade...); – seja por uma confusão interior, vendo quanto ele me deu e a sua fidelidade, experimento tanto maior horror perante a carência de sentido do meu pecado ou de tal ou qual atitude que tomei no meu dia.


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– seja por um outro modo de ver as coisas diferente da hora em que as vivi; por exemplo, meu procedimento me parecia justificado esta manhã, e, agora, de noite, perante Deus, percebo que houve nele uma procura dissimulada de mim mesmo ou uma falta de respeito a alguém... – seja por movimentos (“moções”) que causam remorso, tristeza, que estão em mim agora. Para todas estas faltas ou quedas, por pecados, há lugar no coração de Deus. Eu lhe peço perdão e me confio à sua misericórdia. Seu Espírito tem sido vitorioso sobre os combates, mentiras, traições; Jesus tem sabido vivificar tudo o que é ressecado e moribundo. Se eu, anteriormente, tive tempo de me ajustar às dimensões do coração de Deus, à sua presença amante agora (pois o meu dia passou, e eu não o refarei), a seus dons, a tomada de consciência do meu pecado será confiante e aprazível. Concluirei pelo pedido de ajuda sobre um ponto mais particular sobre o qual tenha necessidade especial de conversão, e, então, um “pai-nosso”.

(C) Para avançar no discernimento Três condições são necessárias: * Ser mais orientado para Deus do que para mim a fim de receber o filme do meu dia sem julgamento intelectual ou afetivo prévio. É a relação com Deus, agora, que importa: uma relação de amor, aliança, uma prece. * “Debruçar-se” sobre Deus, e, portanto, ter imagens positivas dele e ser mais inclinado à ação de graças que a culpabilização psicológica. * Uma vez o coração-a-coração começado, empenhar-se em “sentir” o que a memória dos acontecimentos vividos desencadeia em meu coração, diante de Deus, agora. Pois agora eles podem se mostrar diferentes de quando os experimentei durante o meu dia. Estou presente a Deus que continuou hoje, em mim, e neste mundo, a história de minha salvação. Estou presente a Cristo Vivo e agindo pelo Espírito. Viver o 1° tempo de acolhida do dom de Deus, dos seus benefícios (ver acima) Experiências, encontros, acontecimentos, realidade que me envolve, quando recebi bastante, ou que me fizeram ver melhor como recebi minha vida de Deus. Depois o 2o tempo: pedir a luz do Espírito a fim de conhecer que eu aderi a seu movimento da vida hoje ou como dele me afastei. 3° tempo Trazer à memória o que vivi (olhei, escutei, fiz, pensei) hoje, torna-me atento aos movimentos espirituais, às moções que atuam em meu coração agora, perante o Senhor.


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* De que movimentos (moções) estou agora consciente? – Os que eu vivi (ao acordar, nesta manhã, nesta tarde; nas minhas relações com os outros; na minha relação com o Senhor). – Posso discernir donde vêm? aonde me levam? (ao louvor, ao fechamento, à tristeza) * Como respondi? – Qual foi a sua influência sobre os meus pensamentos, minhas palavras, minhas disposições? Eu os tenho controlado? 4o tempo: Assinalar o que experimento diante de Deus misericordioso e cujo Espírito quer me configurar à imagem do Cristo: * Seja os movimentos que vão, mais adiante, no sentido da consolação: paz, alegria tranqüila, louvor, dinamismo, reconhecimento, sinal de uma cena união com o Espírito de Deus. Posso então agradecer ao Senhor de me ter permitido ajustar-me globalmente ao Evangelho. * Seja os movimentos que vão no sentido da desolação: perturbação, cólera, descontentamento, tristeza, fechamento (que talvez até me impeça de dar graças)... Sinal que eu não estou (ou não estive) em união com o Espírito de Deus; ou que há qualquer disjunção entre minha atitude e a de Deus; ou talvez um apego desordenado, uma certa recusa da vida, dos outros...? Confiar tudo isto à sua misericórdia. * Se eu experimento um sentimento pouco claro, confuso por ocasião de uma situação difícil, de uma escolha a fazer, ou de um sofrimento: recolocar-me no coração do Pai, “desdobrar” um tanto o que sinto. Nomear estes sentimentos múltiplos e aceitar, em verdade, o que eles revelam: apegos, medos, violências... Falar ao Senhor sobre eles e confiá-los a Ele.

5° tempo: Oferecer-me a continuar o caminho AMANHÃ A partir deste reconhecimento dos dons de Deus, ou do pecado que eles me revelam, como continuar? Que passos darei amanhã, que vigilância, que atitude ou que iniciativa tomarei? Escolher um pequeno ponto, concreto, para amanhã, para o qual eu viverei doravante em Aliança com o Senhor. Propô-lo ao Senhor e pedir a sua ajuda.


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Três Modos de Rezar Inácio propõe ainda 3 modos simples de rezar, acessíveis a todos, utilizáveis em diversos momentos, inclusive na preparação da oração ou do exame. Eles unificam a prece e a vida quotidiana, favorecendo uma união ao Senhor íntima e bem ancorada em nossa realidade humana. Ei-los um tanto quanto atualizados. Cabe a cada um se exercitar neles e descobrir como fazer para se abrir mais ainda ao Espírito de Deus. Nos 3 casos * Preparar-se em primeiro lugar ao encontro com Deus: colocar-se em calma, atitude corporal adaptada. * Oração preparatória e pedido de graça. * Dar início ao exercício baseando-me sobre um quadro e um método.

Primeiro modo: sobre uma série de pontos Escolher uma série de pontos como, por exemplo, as séries propostas por Inácio: os Dez Mandamentos; os Sete Pecados Capitais; as Sete Virtudes; as Três Capacidades da Alma (vontade, inteligência e memória); os Cinco Sentidos. Cada um pode criar listas: as Oito Bem-aventuranças, as Três Virtudes Teologais (fé, esperança e amor); os membros de minha família ou os companheiros de trabalho... Método : sobre cada elemento da lista, interrogar-me, rezar, concluir * Interrogar-me: por exemplo, como eu vivi este ponto hoje... * Rezar: a respeito de que posso dar graças quanto a este assunto? A propósito do que pedir perdão? Como progredir amanhã? * Concluir com uma breve prece: o “pai-nosso” ou a “ave-maria”... Exemplo: Rezar sobre os 5 sentidos 1. A visão: – o que recebi pelos meus olhos hoje? como olhei para os outros, para o mundo, para mim? – o que eu vi e que me permite dar graças ou que me maravilha? – sobre o que fechei os olhos, o que me recusei a ver? Pedir perdão. – como olhar amanhã, quem, em que perspectiva? Breve prece vocal, e passar ao ponto seguinte. 2. A audição – como escutei ou o que escutei hoje?


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– sobre o que dar graças de tudo o que escutei? O que escutei e o que me recusei a escutar? – a que fechei os meus ouvidos, ou para que devo abri-los amanhã? Etc. Exemplo: rezar sobre as pessoas de minha família, do meu trabalho, do lugar onde me engajo, ou aqueles que combato ou com os quais luto.

A respeito de cada um, perguntar-me: – a respeito de que posso dar graças quanto a esta pessoa? (na fé, se meus sentimentos lhe são contrários) – do que devo pedir perdão em meu relacionamento com tal pessoa? O que pedir ao Senhor para mim a respeito desta pessoa e para ela? – como prosseguir no relacionamento nos próximos dias ? Breve prece conclusiva, e depois passar à pessoa seguinte.

Exemplo: Prece a partir do meu corpo Minhas mãos – Que fiz com as minhas mãos hoje: construí. acolhi, apoiei, toquei...? – ação de graças, pedido de perdão, decisão para amanhã a este respeito... Meus pés – Para quem eu os orientei hoje? Quem veio a meu encontro? Quem eu encaminhei à porta? – Sobre as pegadas de quem andei? Vivi com os pés na terra?... Minha cabeça – O que pensei? Estou preocupado? Em que ou em quem não pensei suficientemente? Fico entregue às minhas próprias idéias? O que criei, inventei? Etc. Sobre cada ponto posso pensar assim: contemplar ou imaginar Jesus ou Maria: qual seria o seu olhar? como ou quem eles escutavam? que fariam com suas mãos? como eles terão vivido cada um destes pontos, ou as bem-aventuranças, ou os mandamentos? É uma ocasião de deixar iluminar a minha vida por algumas lembranças evangélicas para a reordenar ou a descobrir inteiramente como prece e lugar de minha relação com Deus. Exemplo: rezar sobre os 5 continentes


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É ocasião de rezar sobre o mundo a partir da atualidade, de ter uma prece mais universal, mas com a condição de que ela continue a me concernir concretamente. Baseado no que estou informado a respeito dos acontecimentos atuais sobre este ou aquele país (ou graças a uma pessoa conhecida que lá reside): – a respeito de que agradecerei, pedirei perdão (por eles, mas também por mim com referência a eles), que conversão preciso viver e por que iniciativa e gesto concreto, mesmo pequeno?

Segundo modo: contemplar o sentido das palavras Quadro: uma prece, um texto bíblico ou um salmo muito conhecidos Método: CONTEMPLAR o sentido de cada palavra * Escolher uma prece bem conhecida: o “pai-nosso”, a “ave-maria”, o “credo”, o “glória”, a “Alma de Cristo”, o “Vinde, Santo Espírito”... Pode ser que seja esta a ocasião de decorar, para melhor rezar, um salmo, um pequeno trecho do Evangelho, um hino de S. Paulo, uma passagem de uma anáfora eucarística. * Escolher a atitude que mais ajude conforme a situação em que me encontro, o lugar e o momento em que rezo: de joelhos, sentado ou andando, os olhos fechados sobre um ponto, a atenção sustentada ou levemente flutuante, “segundo o modo como me sinto mais disposto e seguindo a devoção maior que se segue” (EE 252). * Pronunciar uma ou umas poucas das primeiras palavras e aí se deter “tanto tempo quando aí encontro sentido, comparaç��es, gosto, alegria espiritual nas considerações que se seguem a cada palavra” (EE 252). Por exemplo, “Pai nosso”... Considerar este nome “Pai”..., o possessivo “nosso”..., habitar nesta palavra, modelar a sua massa, ouvir o inaudito ou a esperança ou o mistério ou o que me revela de Deus, de mim, de nós... Se estas duas palavras me aparecem ricas de sentido, não cuidar de ir adiante, mesmo se elas me ocuparem todo o tempo disponível para a oração. Caso contrário, continuar... * No fim do tempo fixado, concluir vocalmente a prece escolhida, “voltando-me para a pessoa a quem ela é dirigida” e lhe exprimir em poucas palavras (as minhas próprias desta vez) a graça ou as necessidades que me pareceram importantes. * Na vez seguinte, pronunciarei as primeiras palavras e contemplarei o sentido devido ou as palavras que seguem àquela onde me detive.


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Terceiro modo: conforme a respiração Quadro: Uma prece conhecida de cor Método: Rezar ao ritmo da respiração * Escolher uma prece que se recita habitualmente de cor. * Apaziguar-se (corpo, espírito, respiração) e orientar o meu espírito e meu coração para Deus através de uma breve oração preparatória. * Recitar mentalmente, muito devagar, no ritmo da respiração, a prece escolhida: – a cada expiração pronuncio, deixo deslizar interiormente uma palavra ou um pequeno grupo de palavras, – ou no curto silêncio que segue e que acompanha a inspiração, conservo o espírito e o coração focados no sentido da palavra que acabo de pronunciar ou sobre a pessoa a quem eu me dirijo (o Pai, Maria, o Filho...) ou deixo subir a Deus os sentimentos que me desperta a palavra: pequenez, admiração, amor... * Depois concluir o tempo da oração. Esta maneira de rezar favorecerá a concentração ou o recolhimento, sobretudo nos dias onde terei dificuldades em meditar ou contemplar um texto em razão de uma agitação interior ou de um cansaço. Ela pode ser vivida também durante caminhadas, no ônibus, no metrô. Se a prece se torna a respiração de minha alma, é a vida quotidiana que se encontra oxigenada.

Concluindo: Com a Liberdade de Inácio, Inventar sua Maneira de Rezar Os meios em vista de um fim Estas indicações para rezar segundo a escola de Santo Inácio estão bem longe de ser muros ou baluartes dentro dos quais seria necessário se meter a todo custo e literalmente, para dispor assim de um fio espiritual que me permitiria, enfim, encontrar a Deus como que no fim de um labirinto. Como cada qual o descobre por experiência, os meios visam uma finalidade: eles “in-formam”, desde o interior, uma maneira de viver. Balizam um caminho seguro de relacionamento com Deus Encarnado, que leva em conta o que é o homem e as constantes, as etapas ou as armadilhas a respeito da oração e do caminho espiritual. Ligados a uma dinâmica de crescimento, dados a viver nos Exercícios Espirituais, estes modos inacianos de rezar podem ajudar a “procurar e encontrar Deus em todas as coisas” e unindo-se mais a Cristo e livrando-se de “todo apego desordenado”.


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Do exterior ao interior Sucede com o uso destes quadros de prece na evolução espiritual de cada qual como do conjunto dos ossos na evolução animal. O molusco (desculpem a comparação pouco entusiasmante!), não sendo constituído de mais do que um corpo mole, tem necessidade de uma concha exterior para protegê-lo e permitir-lhe alimentar-se sem ser ele mesmo devorado ou conduzido ao sabor das correntes. Ora, a evolução, ajudando o animal, dispensa a casca externa, substituída por uma coluna vertebral interna o que lhe permite uma liberdade de movimento muito maior. Do mesmo modo, todo método é necessário para adquirir flexibilidade e criatividade, crescente autonomia.

Quando interiorizados, os meios libertam Uma vez que a ossatura esteja no seu lugar (mas é preciso tempo!), cada qual se encontra libertado para personalizar sua prece, embora sem esquecer certos dados incontornáveis da fé e da experiência espiritual. Quando a escala foi percorrida, quando se saboreou no interior a mensagem da qual a Escola Espiritual Inaciana é portadora, então pode-se, sem receio, empregá-la e atualizála. Ilustrando, eis uma proposição para rezar sobre a sua vida e nela descobrir Deus amando. Ela permite a alguns de rezar mesmo quando o coração não se dispõe muito. Então, por que não a propor a todos os que queiram aproveitá-la? Ela pode ser uma variação da releitura, permitir uma relação interior e íntima com o Senhor a propósito de minha vida, perceber no interior como Deus está presente em toda a minha existência.

Prece de coração para encontrar a Deus presente em minha vida 1. Fazer-me, de coração, presente ao Senhor; se isto me parece muito difícil, recolher-me, e tal como sou, descer ao íntimo de mim mesmo. 2. Escolher, pacificamente, uma das dimensões seguintes de minha vida: amor–amizade, alegrias, sofrimentos, trabalho, relações... (por exemplo, aquela que me é mais presente, ou a mais reconfortante hoje...). Pedir ao Senhor a graça de me deixar alcançar por Ele quanto a tal aspecto de minha vida e de reconhecer a sua atuação. 3. Trazer à memória as pessoas, os acontecimentos que dizem respeito a este ponto, deixandome tocar, afetar pelo que experimento agora, quando eu tomo consciência interiormente. Por exemplo, ir interiormente aos lugares: onde eu amo, sou amado, sinto-me mal amado... onde sofro ou sou testemunho de sofrimentos... onde há trabalho, ação, obra em minha vida...


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4. Daí e com isto, voltar-me para Deus, e deixar-me unir a Ele, apresentando-lhe certo aspecto de minha vida, que ofereço a seu olhar, a seu amor, deixando-o iluminar, Ele mesmo, este ponto. Fazendo-me saborear o quanto Ele me conhece e me ama no centro mesmo daquilo que eu experimento. Olhando como ele trabalha, ou está presente nisto, ou se doa a mim, ou aí me revela qualquer coisa de Si, olhando como este ponto pessoal me coloca em relação ou em comunhão com outros, com o mundo, com o Deus Criador, Salvador... Deter-me neste “vai e vem” entre Deus e este ponto de minha vida tanto tempo quanto eu experimentar gosto, reconforto, paz, luzes... 5. A partir do que eu tiver experimentado, responder ao Senhor, e me oferecer a Ele: – exprimir-Lhe de algum modo o que experimentei e compreendi; – dando-Lhe graças, ou pedindo-Lhe luz, força, perdão. Concluir com um “pai-nosso” ou outra breve prece vocal. Pode-se, em seguida, tomar outra dimensão da existência para aí descobrir ou acolher como Deus nela trabalha ou é concernido.

A.M.D.G. “Em Tudo Amar e Servir” concluída a tradução no dia 10 de outubro de 1994 R.Paiva, S.J.


Livro rezar na escola