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Publicação Mensal    Ano XIII - Nº 142   Janeiro de 2010

Formando mentalidades católicas


Preparando os caminhos...

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Quando encontraram a Sagrada Família, imagino que o Menino Jesus, por mais que já soubesse falar — Ele é a Sabedoria Encarnada —, não conversou com os monarcas. Mas, por meio de flashes1, Ele deve ter tornado mais ou menos presente aos reis magos tudo quanto a Cristandade faria de belo na humanidade, com a promessa de que nas regiões deles isso se realizaria, se seus povos fossem fiéis. (Extraído de conferência de 22/12/1989) 1) Flash [do inglês: brilho, lampejo], palavra usada por Dr. Plinio em sentido metafórico, indicando maravilhamento ou percepção enlevada de alguma realidade.

Sergio Hollmann

mbora a Escritura empregue apenas o termo “magos”, segundo a tradição eles eram reis magos. Trata-se de uma tradição tão bonita que deve exprimir a verdade, pois geralmente a mentira não inventa coisas lindas. Creio que a missão essencial dos três Reis Magos foi preparar seus reinos para a vinda dos Apóstolos ou de seus sucessores. De maneira que quando esses lá chegassem, a população estivesse aberta para acolher sua pregação, e os portadores da palavra de Cristo recebessem uma formidável confirmação na Fé, porque lá encontravam os traços dos Reis Magos.

Viagem dos Reis Magos Basílica de Saint Denis, França.

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Publicação Mensal

Ano XIII - Nº 142 Janeiro de 2010

Sumário Ano XIII - Nº 142   Janeiro de 2010

As matérias extraídas de exposições verbais de Dr. Plinio — designadas por “conferências” — são adaptadas para a linguagem escrita, sem revisão do autor

Na capa, Dr. Plinio no período em que assumiu a direção de “O Legionário”.

Formando mentalidades católicas

Fotos: Arquivo revista

Dr. Plinio Revista mensal de cultura católica, de propriedade da Editora Retornarei Ltda. CNPJ - 02.389.379/0001-07 INSC. - 115.227.674.110

Editorial

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Datas

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Diretor: Antonio Augusto Lisbôa Miranda Conselho Consultivo: Antonio Rodrigues Ferreira Carlos Augusto G. Picanço Jorge Eduardo G. Koury Redação e Administração: Rua Santo Egídio, 418 02461-010  S. Paulo - SP Tel: (11) 2236-1027 E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br Impressão e acabamento: Pavagraf Editora Gráfica Ltda. Rua Barão do Serro Largo, 296 03335-000 S. Paulo - SP Tel: (11) 2606-2409

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A completa renovação de O Legionário na vida de um cruzado

Janeiro de 1970: “Sede constantes ecos da Tradição”

Dona Lucilia

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Os “jeitinhos” suaves e delicados de Dona Lucilia

O Santo

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do mês

1 de janeiro: Santo Odilon

Dr. Plinio

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comenta...

Escravo de Jesus pelas mãos de Maria

De Maria Nunquam Satis

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Misercordes oculos ad nos converte

Gesta

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Interessar pela doutrina através dos fatos

Luzes

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marial de um varão católico

da Civilização Cristã

Arte gótica, a express ão de desejo do Céu

Última

36

página

Paraíso do “Novo Adão”

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l a i r o t i Ed

A completa renovação de O Legionário

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lareza, objetividade e ortodoxia eram características singulares d’O Legionário. Possivelmente por essa razão, de mera folha paroquial da Igreja de Santa Cecília, O Legionário converteu-se em órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo, com ampla divulgação nos meios católicos. Sob a direção de Dr. Plinio, foi notória a contribuição de tal jornal em benefício da causa da Santa Igreja, influenciando os ambientes e ajudando a formar as mentalidades: “Dei-me conta de que era necessário O Legionário tratar dos assuntos mais atuais, fazendo deles uma crítica rigorosamente católica, e assim ajudar o público a relacionar o ponto de vista religioso com temas que nenhum jornal católico abordava — naqueles tempos, estes não passavam de boletins paroquiais. “Começaram, então, a surgir novas seções. “A primeira delas — inspirada na idéia de que as pessoas gostam muito de novidades acrescidas de pequenos comentários — foi Sete dias em revista. Nosso objetivo com essa seção era dardejar comentários, certeiros como flechas, sobre o que havia se passado durante a semana. Tais comentários, por si sós, deveriam ser um acontecimento: diante de tal fato o pensamento católico faz tal crítica, ou tal elogio. “Uma discussão puramente doutrinária a respeito de algo está exposta ao risco de causar bocejo... Por isso, era necessário que a seção provocasse uma discussão pessoal, pois, assim, ela “pegava fogo”. “Quanto ao artigo de fundo — o qual também era escrito por mim —, trazia uma exposição mais ampla e doutrinária dos fatores que inspiravam Sete dias em revista. “As notícias publicadas por O Legionário não constituíam uma simples repetição daquelas anunciadas pelos jornais comuns. Assinávamos inúmeras revistas internacionais das quais extraíamos matérias que os diários não publicavam, e com elas ilustrávamos as posições católicas. De maneira que quase não havia, em nosso País ou fora dele, notícia não comentada em nosso semanário! “Nosso corpo de redação era composto, em sua maioria, por Congregados Marianos, os quais faziam propaganda de nosso jornal em suas respectivas paróquias, além de vendê-lo nas portas das igrejas. “Assim, O Legionário passou a ser amplamente divulgado no meio católico, tornando-se órgão oficioso da Cúria Metropolitana de São Paulo.” (Extraído de conferência de 19/11/1980)

Declaração:  Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

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Datas

na vida de um cruzado

Janeiro de 1970:

“Sede constantes ecos da Tradição”

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om certa frequência os jovens participantes do movimento fundado por Dr. Plinio, vindos de diversos países do mundo, reuniam-se para uma Semana de Estudos. Na conferência de encerramento de um desses simpósios, Dr. Plinio conclama seus participantes a serem pregoeiros da Igreja em meio ao caos contemporâneo:

Vós, jovens participantes desta Semana de Estudos, sois o campanário que toca no escuro e na cacofonia, que soa em meio a toda a confusão, emitindo o som da Tradição, do passado católico, e levando esse som para os primeiros dias do Reino de Maria. No decorrer dessa bela missão — que no momento bate à porta de vossas almas —, ainda que os céus devam se abrir e os Anjos descer em forma visível para defender a vossa fidelidade, a graça não vos faltará! Sede fiéis! Sede valorosos! Sede constantes ecos da Tradição e, logo mais, vós voltareis ao Brasil cantando alegres as vitórias que, por vosso meio, Nossa Senhora conquistou. Há um Salmo1 que diz isso: “Euntes ibant et flebant portantes semina sua; venientes autem venient in exsultatione portantes manipulos suos”: Eles iam na tristeza, na madrugada, na incerteza, na penumbra, chorando, mas semeavam; e eis que eles voltam e voltam na alegria, trazendo para a tranqüilidade do lar, para o esplendor do convívio dos seus, os instrumentos de trabalho com que encheram o dia no cumprimento do dever.

Vós agora ides, e em vossas almas vai o pranto. Mas vós levais as sementes que recebestes nesta Semana de Estudos; vós voltareis com a graça de Deus, com alegria, trazendo os instrumentos de vosso trabalho, as lições que recebestes e os amigos que conquistastes, para a próxima Semana de Estudos. Uma palavra sobre vós foi dita. É preciso que se diga uma palavra a meu respeito. Tantas vezes foi meu nome pronunciado nesta noite. Tantas vezes foi ele objeto de uma referência generosa, que eu faltaria com a justiça se a respeito de mim mesmo eu não vos dissesse algo. Vós lestes meus escritos, vós me ouvistes falar em público, entretanto, vós nunca ouvistes de mim a seguinte frase: “Eu elaborei uma doutrina; eu construí um pensamento; eu fundei uma escola; eu fiz isso e fiz aquilo.” Tudo quanto eu tenho feito em minha vida, eu tenho apresentado — e por um dever de justiça, na alegria e no entusiasmo exultante de minha alma — como sendo doutrina da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana. Porque se alguma coisa em mim há de bom, isso não é senão resultado do fato de que Nossa Senhora me deu a graça — a qual eu não tenho palavras para agradecer, e espero poder passar junto a Ela a eternidade inteira agradecendo — de ter sido batizado e assim me tornar filho da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana. (Extraído de conferência de 15/1/1970) 1) Salmo 125: 6.

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Fotos: Arquivo revista

Dona Lucilia

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Os “jeitinhos” suaves e delicados de Dona Lucilia O “jeitinho”, característico do povo brasileiro, era também uma qualidade de Dona Lucilia. Lembrando um episódio da vida familiar, Dr. Plinio comenta a arte de solucionar situações delicadas com serenidade e grandeza.

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que vem a ser o “jeitinho”? O que faz aí o diminutivo, necessário e indispensável, para que a palavra “jeito” tenha o seu verdadeiro valor? Pode-se falar que uma pessoa, uma resposta, uma saída são jeitosas;

e o mesmo a respeito da defesa de alguma pessoa a quem se quer bem, ou da acusação a quem se julga dever denunciar. Que significa “jeito”, nesses casos? É uma qualidade de uma pessoa que, devendo praticar algo e se deparando com dificuldades, encontra surpreendentemente uma solução para resolvê-las.

O que é o “jeitinho”? O “jeitinho” é uma solução inesperada de uma situação que, aparentemente, não tem saída. Ele exige muita finura de visão para perceber que existe solução e, depois de descobri-la, executá-la de tal maneira que a dificuldade fique inteiramente resolvida sem encrenca. Deve ter êxito e chamar pouca atenção, do contrário não é “jeitinho”. Às vezes, não é necessário falar; com um movimento de dedos, um golpe de olhar, um sorriso, ou um cumprimento, atinge-se o objetivo. Por isso ele é “jeitinho”: rápido, pequenino e triunfante. Toda a riqueza desta arte consiste em perceber, com grande gênio, pequeníssimos problemas, na realidade importantes, e soluções menores ainda do que os problemas. Solu-

ções que exigiriam quase um microscópio para serem descobertas, mas que a pessoa percebe, arranja e vai para frente.

Os “jeitinhos” de Dona Lucilia Analisando mamãe, eu via que ela era muito jeitosa, sobretudo num ponto: consolar as pessoas que estavam sofrendo física ou moralmente; a esse respeito não havia ninguém igual à Dona Lucilia. Recentemente, um sobrinho dela — portanto, meu primo-irmão — contou um fato que estava nas brumas da minha memória, do qual me lembrava confusamente. Minha avó, dona da casa onde morávamos, era uma senhora já velha, mas muito bonita e imponente. Com o olhar ela dominava as pessoas. Durante as refeições — como é natural,

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Dona Lucilia sendo ela a matriarca —, ficava sentada junto à cabeceira da mesa. Um filho dela, que viajara com a esposa para o Rio de Janeiro, deixou hospedados na casa de vovó dois filhos e uma filha, ainda meninos, o que ela aceitou como a coisa mais natural do mundo, e o era de fato. Mandou instalar as crianças, colocando os meninos num quarto e a menina em outro. O mais velho tinha ganhado, recentemente, uma bicicleta, que ele levou para a casa de sua avó, onde iria passar alguns dias, pois queria dar alguns giros com o veículo.

Situação difícil Certa manhã, esse meu primo havia saído de bicicleta e, na hora do almoço, não estava presente, ou porque gostara do passeio e não quis voltar, ou se esquecera da refeição. O almoço começou e, em certo momento, minha avó disse: — Por que Fulano não está presente? Somente neste instante, dei-me conta de que ele não estava; fiquei quieto. Ela, então, perguntou a mamãe: — Lucilia, Fulano não está? — A senhora está vendo, ele não se encontra. — Quando ele chegar, verá o que lhe custará isso. Algum tempo depois, o menino apareceu e minha avó disse-lhe antes de ele sentar-se: — Onde é que você andou?

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Plinio e sua irmã Rosée

O “jeitinho” é uma solução inesperada de uma situação que, aparentemente, não tem saída. Ele exige muita finura de visão para perceber que existe uma solução e, depois de descobrila, executá-la de tal maneira que realmente a dificuldade fique inteiramente resolvida.

— Eu fui dar um passeio de bicicleta. — Mas você foi onde com essa bicicleta? — Estive em tais e tais ruas — ele em pé esperando licença para sentar-se. — Mas você se dá conta de que está em casa de sua avó, lugar de sumo respeito, e não tem o direito de chegar atrasado? Ele ficou esmagado porque não supunha essa censura. E disse: — A senhora me desculpe. — Não, senhor, não se trata de desculpa. Esse assunto não terminou; depois do almoço verá o que é punição. Agora se sente e coma depressa sem conversar, para não atrasar o serviço da mesa. O resultado foi que o menino — que tinha então uns doze anos — retirou-se da sala, chorando. Isso produziu nas pessoas certo movimento, muito brasileiro, de compaixão. Mas a dona da casa estava vigiando os olhos e os olhares; todos ficaram quietos.

A saída encontrada por Dona Lucilia Olhei para mamãe: ela permanecia inteiramente tranquila, conforme seu modo de ser. O normal seria que estivesse com muita pena do menino, o qual era seu sobrinho, mas ela ficou em silêncio. Tomou um ar o mais neutro possível e, quando a conversa tinha mudado de tema, ela disse:


— Com licença, nem consolar o menipreciso sair um pouco no naquela ocasião, para ver uma coisa. porque minha avó não Levantou-se e perpermitiria. Ele estava cebi que mamãe fosendo castigado e não ra para o corredor, sipodia ter consolo. tuado ao lado da sala O que fez mamãe? de jantar, a fim de conConservou-se numa solar o rapazinho que neutralidade tranquila chorava debandadaque irradiava tranquimente, explicando-lhe lidade em torno de si. entre outras coisas: Então, primeira ca— Sua avó é assim racterística do “jeitimesmo, você não se innho” foi ter essa trancomode. Ela é uma sequilidade e saber esnhora muito boa. pargi-la no momento Realmente, vocerto. Segunda, o havó era, por exemplo, ver percebido qual era muito esmoler e tinha o instante em que ela grande pena dos popodia sair para atender bres. Porém, seus neo sobrinho. Logo que tos não estavam na lischegou esse momento, ta dos pobres... ela levantou-se muito Diga-se entre pacalma e tranquila, dirênteses que às vezes zendo “Eu preciso ver minha irmã e eu enuma coisa lá dentro”; frentávamos discusisso não era mentira, sões tempestuosas com pois ela tinha que ver ela. Conosco as coisas esse menino, e todos não se passavam assim, os presentes tomaram Dona Lucilia pouco antes de seu casamento mas à maneira de duesuas palavras com nalo. turalidade. Julgo não O menino, então, terem eles nem se lemparou de chorar, entrou com mamãe brado de que mamãe ia atender seu Logo que chegou o na sala de jantar, sentou-se e comesobrinho. çou a comer ativamente, em silêncio; Outra característica: de um momomento adequado, possuía um apetite de leão. Minha do rápido tranquilizou o menino, paDona Lucilia levantouavó tinha-se acalmado e o ambiente ra não ficar muito tempo fora da sala se muito calma e, da sala se recompôs; o “jeitinho” de e não causar à minha avó a desconDona Lucilia havia resolvido o caso. fiança de que ela estava consolandode um modo rápido, Esse menino, hoje homem feito, o. Depois, regressou com o sobrinho tranquilizou o menino, há pouco tempo atrás, conversando e o pôs junto à mesa, tendo prestado sem causar à minha avó com alguém que se interessava peatenção no assunto da conversa para la vida de mamãe, narrou esse fato e evitar que a prosa voltasse a se refea desconfiança de que acrescentou o seguinte: “Tia Lucilia rir ao menino. Assim, o almoço conela estava consolando-o. era uma santa! O calor de um afeto tinuou normalmente. Assim era mamãe: assim eu nunca mais senti na minha Assim era mamãe: com “jeitivida, e até hoje me lembro disso.” nho”, resolvia uma série de situações com jeitinho, resolvia v Nesse caso, no que consistiu o difíceis.   uma série de situações “jeitinho”? difíceis. (Extraído de conferência de Em compreender que não adian19/10/1994) tava dizer qualquer coisa à vovó,

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O Santo do Mês ––  * Janeiro *  –– 1. Santa Maria, Mãe de Deus.  inda na oitava do Natal a Igreja A celebra Maria Santíssima enquanto Mãe de Deus (Theotókos), tal como definiu o Concílio de Éfeso, no ano 431 Santo Odilon, abade de Cluny. 2. São Basílio Magno (+379) e São Gregório Nazianzeno (+390). Bispos e Doutores da Igreja. Bem-aventurados Guillaume Répin e Laurence Batard, presbíteros e mártires. Foram guilhotinados durante a Revolução Francesa. (+1794) 3. II Domingo do Natal. Epifania do Senhor. Nesta solenidade, a Igreja celebra as três manifestações gloriosas (epifanias) de Nosso Senhor Jesus Cristo: aos Reis Magos; no Jordão, por ocasião de seu Batismo; e a seus discípulos no milagre das Bodas de Caná. 4. Santa Elizabeth Ann Seton. Nasceu em Nova York, no ano de 1774. Casou-se e teve cinco filhos. Após enviuvar converteu-se ao Catolicismo (era antes episcopaliana). Fundou a Congregação das Irmãs de São José, em Maryland, Estados Unidos. (+1821) 5. São Carlos de Santo André (John Andrew) Houben, presbítero e religioso. Faleceu na Irlanda, onde exerceu seu ministério. (+1893) 6. São Carlos de Sezze. Irmão franciscano. Ardoroso adorador do Santíssimo Sacramento. Certo dia, durante a elevação, na Santa Missa, viu um raio de luz que saía da Sagrada Hóstia e chegava a seu coração. Este se conserva incorrupto, tendo gravado em si o sinal da cruz. (+1670)

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7. São Raimundo de Peñafort. Sacerdote. Morreu aos 100 anos, em 1275. 8. São Lourenço Giustiniani, Bispo. Primeiro patriarca de Veneza. (+1456) 9. Santo André Corsini. Procedente de uma das mais nobres famílias italianas, abandonou o mundo e fez-se carmelita. (+1373)

denada à morte e decapitada. (+c. 499) 19. São Remígio de Rouen, Bispo. (+c. 762) 20. São Fabiano, Papa e mártir. (+250) 21. Santa Inês, virgem e mártir. (séc. IV) 22. São Vicente, diácono. (+304)

10. Batismo do Senhor. 11. São Paulino de Aquiléia, Patriarca. Ocupou-se da conversão dos eslovenos e dos ávaros. Apresentou a Carlos Magno um insigne poema sobre a Regra de Fé. (+802)

23. Santo Ildefonso, Bispo de Toledo (Espanha). (+667)

12. Santo Antônio Maria Pucci. (+1892)

São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja. (+1622)

13. Santo Hilário de Poitiers, Bispo e Doutor da Igreja. Durante o império de Constâncio — o qual aderiu à heresia ariana — foi desterrado para a Frígia. (+367) 14. São Félix de Nola. Presbítero. (sécs. III-IV) 15. São Maraldo, Bispo Chartres, França. (+c. 650)

de

16. São Marcelo I, Papa. Morreu desterrado pelo imperador Maxêncio. 17. II Domingo do Tempo Comum. Santo Antão, Abade. Eremita no deserto do Egito. Morreu aos 105 anos. (+356) 18. Santa Prisca, mártir. Recusando-se a queimar incenso a Apolo, foi condenada à prisão. Visitada por conhecidos que queriam dissuadi-la de sua decisão, recusou-se categoricamente. Foi, então, con-

24. III Domingo do Tempo Comum.

25. Conversão de São Paulo. 26. Santos Timóteo e Tito, discípulos de São Paulo. Ajudaram seu mestre no apostolado, o primeiro em Éfeso, o segundo em Creta. Ambos foram objetos da atenção do Apóstolo, o qual escreveu, a cada um, uma epístola. 27. Santa Ângela de Merici. Fundadora das Ursulinas. (+1541) 28. São Tomás de Aquino. Presbítero e Doutor da Igreja. Cognominado “Doutor Angélico”. (+1274) 29. São Constâncio, Bispo de Perusa (Itália). (+c. séc. III) 30. Beato Columba Marmion. Presbítero. Irlandês 31. IV Domingo do Tempo Comum. São João Bosco. (+1888)


1 de janeiro:

Santo Odilon O famoso abade do mosteiro beneditino de Cluny foi objeto dos comentários de Dr. Plinio durante uma série de conferências proferidas no ano de 1972. Nos seguintes trechos selecionados, Dr. Plinio salienta como até o modo de andar ou de falar de uma pessoa pode demonstrar a santidade de sua alma.

ada época histórica possui grandes homens característicos. Santo Odilon o foi para a Idade Média: grandioso no sentido verdadeiro da palavra. Apesar de possuir grande valor pessoal, o que sobretudo transparecia em nosso santo eram as graças sobrenaturais — incomparavelmente mais preciosas do que qualquer valor pessoal — que adornavam sua alma. Sua personalidade tinha tal amplitude harmônica de aspectos, como não se encontra nos grandes homens do tempo da Revolução.

O modo de andar Passemos a comentar trechos de sua vida, retirados de uma ficha biográfica: “Comecemos por seus méritos menores. E digamos que esse homem tinha um andar grave, uma voz admirável, ele falava bem. Era uma alegria vê-lo.”

Ao descrever o porte e o modo de ser do santo, o autor ressalta mais os sinais da virtude do que a virtude propriamente dita. O modo de andar das pessoas as define muito, e por causa disso o biógrafo, contemporâneo de Santo Odilon, julgou que deveria começar a descrevê-lo pelo passo. O que é um passo grave? É um passo firme, varonil, de alguém que, ainda que não tenha diante de si obstáculos visíveis, an-

H. Grados

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Gravura de Santo Odilon abade.

da vencendo. É um passo cheio de consequências e de ponderação.

Compostura respeitosa “Cada um de seus movimentos exprimia honestidade. Sua fisionomia era angélica e seu olhar sereno.” Honestidade, no francês antigo, significava compostura. Un honnête homme significava um homem muito composto, muito digno. Vê-se, então, que todo o modo de ser de San-

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to Odilon era cheio de compostura e de dignidade. É preciso ressaltar também que na Idade Média o conceito de anjo não era o desse tipo de anjinho gorduchinho, com ares de irresponsável. Não seria um elogio dizer para alguém que ele tem aquela carinha. A idéia que o medieval fazia dos anjos era a que está expressa nos vitrais medievais: os grandes heróis do Céu; príncipes na presença do Altíssimo. Percebe-se, assim, o que o autor quer dizer quando afirma que “sua fisionomia era angélica”. Este era Santo Odilon, que grande figura! Continua a ficha: “Cada dobra de seu hábito sacerdotal apresentava dignidade e mostrava o respeito que ele tinha por si mesmo e pelos outros.” Santo Odilon sabia que era a “alma” do grande movimento de Cluny, o qual, por sua vez, era a “alma” irradiante da Idade Média. A verdadeira humildade consiste em respeitar-se a si próprio como deve ser respeitado. Sabendo ser Superior de uma Ordem religiosa, homem sagrado por Deus, ele se respeitava enormemente. Vemos que o porte desse varão de Deus era, ao mesmo tempo, principescamente angélico e cheio de humildade.

Alma luminosa Continua a narração: “Ele trazia consigo qualquer coisa de luminoso, que convidava a imitálo e venerá-lo. A luz da graça, que estava nele, brilhava, por assim dizer, no exterior, e manifestava a qualidade de sua alma.” O autor soube fixar essa luminosidade que havia em Santo Odilon, a qual nota-se em tantos santos. Ela é algo difícil de descrever, pois trata-

S. Hollmann

W. D. Santos

O Santo do Mês

São Miguel Arcanjo Saint Sulpice, Fougeres (França).


Como o mundo moderno não compreende mais isso! O mundo moderno só gosta dos olhos habituados a rir; olhos estultos e néscios, os quais só dizem o que sente o egoísmo. O mundo antigo compreendia qual era o valor dos olhos habituados a chorar pelas coisas santas. Chorar pela Paixão de Nosso Senhor, chorar pelos pecados, pelos outros e por si. O pranto sagrado transforma o interior do olhar e o faz luminoso como uma linda rosácea banhada pelos raios do sol. Arquivo revista

se de uma luminosidade do olhar e de algo que paira em torno da personalidade. Assim como há algo que distingue um homem morto daquele que apenas dorme, há também uma luz na fisionomia do santo, a qual o distingue de quem não o é. “Seu rosto exprimia a uma vez a autoridade e a benevolência.” O autor acentua muito bem os contrastes: autoridade e benevolência. Imaginemos um claustro medieval, repleto de ogivas, e Santo Odilon andando sozinho. Ao longe, um noviço o vê e se ajoelha, Santo Odilon passa e o abençoa. É bem o contrário daquilo que a Revolução procura incutir nas mentalidades: quem tem autoridade é uma espécie de fera que subiu e, quando encontra a oportunidade de pisar nos outros, fica contentíssima, como quem diz: “Eu apanhei até subir; agora desconto nos que estão embaixo.” Uma concepção da autoridade não pode ser mais ordinária do que essa. Pelo contrário, a autoridade existe para fazer o bem. Sua missão é cumprir a benevolência. Benevolência quer dizer querer o bem dos outros. “Para os bons, ele se mostrava risonho e acolhedor, mas, para os orgulhosos e rebeldes, se tornava tão terrível que era difícil conseguirem fitar seu olhar.” Que verdadeira maravilha! Eu tenho entusiasmo por essa arma do homem que é o olhar. Quão poucos homens a possuem! O autor dessa ficha soube ver o olhar terrível de Santo Odilon. Isso é admirável! Terrível como um exército em ordem de batalha! “Seus olhos brilhavam com brilho singular: eram olhos acostumados às lágrimas.”

Dr. Plinio caminhando pelas ruas de São Paulo.

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Autoridade e benevolência, virtudes indissociáveis “Santo Odilon difundia a caridade fraterna por sua própria feição, antes de ensiná-la. E ele a ensinava, sobretudo por seus atos. “Amando seus irmãos com o interno calor de sua alma, o santo queria engrandecer a cada um deles, e leválos ao amor de Deus. Jamais desprezava ou rejeitava pessoa alguma; por sua caridade — verdadeiramente di-

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vina — ele convidava a todo o mundo, sem nenhuma reserva, a aproveitar de sua indulgência, pois aquele que é verdadeiramente grande arde nesse desejo de amar o próximo.” Santo Odilon foi abade de Cluny numa época em que a íntima conjugação das instituições temporais e espirituais fazia de um abade um personagem de grande importância. E, tomando em consideração que Cluny representava a maior abadia francesa do tempo, ser seu abade significava ser um dos homens mais consideráveis da estrutura política e social da Idade Média. Ademais, o mosteiro de Cluny possuía os direitos feudais sobre grande quantidade de terras, e isso dava a Santo Odilon não só o poder espiritual, mas também o material. Ele, por sua reputação pessoal, pelo prestígio de sua santidade e cultura, estava elevado muito acima de seus contemporâneos. Esse homem, tão insigne por uma porção de circunstâncias, sabia, entretanto, ser muito paterno para com os monges colocados sob a sua jurisdição. Então, o biógrafo mostra como ele se aproximava de cada um com afeto, entrando em seus problemas pessoais para resolvê-los, e fazendo junto a cada um o papel de Bom Pastor. Continua a ficha: “Pois, como é natural, quanto mais alto é um homem, tanto maior é a caridade que ele tem para com os seus irmãos.” Segundo o espírito que sopra no mundo depois do Protestantismo e

Fotos: F.

“Mesmo em viagem, Santo Odilon trazia sempre um livro nas mãos. Enquanto viajava a cavalo, sua alma refazia as forças através da leitura.” Não entendamos isso à maneira moderna, onde o indivíduo tira do bolso um livrinho e lê comodamente. Devemos pensar que os livros do tempo de Santo Odilon eram in-fólios, pesadões, feitos em pergaminho. Apesar disso ele tinha sempre um livro consigo. Quer dizer, ele aproveitava todos os pequenos interstícios para ler alguma coisa e assim desenvolver seu espírito na meditação das coisas celestes. Ademais, a locomoção não era como hoje em dia! Viajava-se a cavalo ou a burro. E as estradas, como eram? As mais precárias possíveis. As menores distâncias eram transpostas em longos períodos. Imaginemos, então, que cena pitoresca: o cavalo trotando e Santo Odilon com uma das mãos na rédea e com a outra segurando um pergaminho escrito com umas letras enormes; ele enrola a folha que terminou de ler, pensa um pouco, coloca essa folha num saco, e tira outra página. O animal andando em meio de precipícios, onde Santo Odilon para e pede o auxílio do Anjo da Guarda! “Gloria tibi, Domine”... E continuava.

Lecaros

O Santo do Mês

da Revolução Francesa, tem-se a errada idéia de que quanto mais um homem é elevado, mais ele despreza os que estão abaixo de si; o superior vê no inferior um concorrente, o qual quer subir e necessita ser espancado para não ter êxito; o inferior, por sua vez, vê no superior um tirano que está lhe explorando e precisa ser derrubado. Desse modo, em qualquer lugar onde haja um degrau


Abadia de Cluny vista de diversos ângulos

hierárquico, há uma luta entre superior e inferior. Na história de Santo Odilon vemos o contrário. Quanto mais elevado está um homem, mais ele deve tender à bondade, à proteção dos inferiores e a exercer uma autoridade benfazeja. Onde está o fundamento da idéia de autoridade, como ela era exercida por Santo Odilon? São Tomás de Aquino explica, esplendidamente, que o superior está para com o inferior como uma imagem de Deus. Quer dizer, ele deve proteger o menor, orientá-lo, guiálo, à semelhança de como Deus protege todas as suas criaturas. Na ordem estabelecida por Deus, os anjos são desiguais, o superior guia o inferior. Isso se verifica também no mundo humano. Os mais eminentes — por seu poder, talento ou autoridade — devem representar a Deus junto aos que estão abaixo de si e fazerlhes bem. Segundo essa consideração, quanto mais alta é a autoridade de al-

guém, maior é a responsabilidade que ele tem de fazer bem aos outros. Por isso os súditos devem amar especialmente suas autoridades e querer bem aos que estão constituídos numa dignidade especial. Este é o princípio que rege a Santa Igreja Católica. Por exemplo, numa paróquia, não é razoável que um fiel ame o seu Vigário e espere dele toda proteção e apoio? Mas, o fiel deve amar ainda mais ao Bispo. E, por isso, não há motivos para esperar maior bondade do Bispo do que do Vigário? E o Papa, não deve ser ainda mais venerado? E não há também motivos para esperar mais indulgência dele do que do Prelado?

A “poluição” do mundo moderno Essas são considerações que nos descansam da brutalidade de todos os dias! Não é verdadeiro que nos despolui pensar nisso? Quando leio nos jornais matérias referentes à poluição em nossas cidades, tenho vontade de dizer: “Vocês não percebem que o que mais polui o mundo contemporâneo é o homem contemporâneo? Não há chaminé que polua mais do que a Revolução!” A verdadeira despoluição se daria quando tivéssemos na terra verdadeiros “Santos Odilons”...  v (Extraído de conferências de 23 e 25/9/1972, 2 e 13/10/1972)

1) Não possuímos referência exata para a citação do trecho comentado.

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Dr. Plinio

comenta...

Escravo de Jesus pelas mãos de Maria Após a queda de Adão, todo homem nasce culpado e, sem um especial auxílio sobrenatural, não pode santificar-se. Onde encontraria, Dr. Plinio, verdadeiro alento espiritual?

O

vidos. Ela faz lembrar os escravos do tempo do Império no Brasil. Eram pessoas vindas da África, compradas de seus pequenos reis locais, e trazidas a peso de ouro — contra suas próprias vontades — em embarcações chamadas “Navios Negreiros”, navios em que as condições da viagem eram tão péssimas e inóspi-

tas, que alguns, quando podiam, jogavam-se no mar, preferindo a morte que viver em condições tão miseráveis. Os africanos vinham parar no Brasil, passando a trabalhar e a viver para quem os comprasse. Infelizmente, havia o miserável mercado de escravos, e aqueles que aqui che-

A. Veloso

que é a Consagração a Nossa Senhora? Este é, certamente, um belo e elevado tema. Quando nos consagramos a Ela, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, nos tornamos seus escravos. A palavra “escravo” possui uma dura ressonância para os nossos ou-

Ao fundo, litoral africano.

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gavam eram destinados a nele serem vendidos, onde os negociantes, mediante um acordo com os fazendeiros, realizavam os trâmites. Os escravos eram amarrados em longas fileiras — às vezes com correntes de ferro — e iam a pé para a fazenda. Ali começavam a trabalhar.

Cada vez pior...

Membros vivos da Santa Igreja Católica No Brasil, os escravos estavam sujeitos a senhores mais civilizados. E lhes era proporcionada a vantagem inapreciável de serem batizados. Após aprenderem a língua, eram instruídos na Doutrina Católica para receberem os sacramentos. Batizados, se tornavam membros da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, membros do Corpo místico de Nosso Senhor Jesus Cristo. Adquiriam o direito de contrair matrimônio sacramental, ir às Missas, comungar, rezar e, com isso, terem todos os consolos espirituais da Religião. Em muitos casos, eles se tornavam amigos de seus senhores a ponto de, quando ser proclamada a Lei Áurea, muitos optarem por continu-

ar trabalhando nas fazendas onde viviam e rejeitarem a liberdade. Assim, a situação deles, sem ser a situação normal que se deveria desejar para uma criatura humana, representava uma grande melhoria em relação ao seu estado na África.

“Em todos os dias de minha vida eu rezei a Consagração” Com esta concepção da escravidão, bem se pode imaginar a surpresa que eu tive quando, lendo o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de São Luís Maria Grignion de Montfort, percebi que se tratava de fazer-se escravo de Nossa Senhora. Minha reação foi: “Por mais que eu não compreenda, desde logo estou de acordo, porque sendo para Nossa Senhora é algo bom.” Era preciso todo um raciocínio para compreender o significado da Consagração e fazê-la como se deve.

S. Miyazaki

Há uma história do Convento da Luz, onde está sepultado Frei Galvão, da qual nunca me esquecerei. No convento trabalhavam escravos negros que serravam toras enormes de madeira, utilizadas nas construções. A história conta que os negros desempenhavam seu trabalho cantando; e a letra da música que entoavam era: “Cada vez pior, cada vez pior.” Era o melancólico canto com o qual manifestavam a sua desdita. Naturalmente, o triste e o terrível dessa situação eram vistos não sem certa unilateralidade por eles. Na África eles também não eram livres como se imagina. Eram sujeitos a seus pequenos reis locais, sendo também escravos. Não era inteiramente como se poderia imaginar: um negro vigoroso, atlético, de lábios rubros, dentes brancos, correndo pelo mato, comendo frutas, matando tigres, pescando junto às

lindas orlas de praia do litoral africano. Isso tem certa poesia, mas essa não era a realidade. Eles não viviam sós, e como todo homem possui o instinto de sociabilidade, formavam grupos — cada grupo pertencia a um soberano —, muitas vezes como escravos. Eles deixavam, então, de serem escravos lá, para passarem a ser escravos aqui.

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Dr. Plinio

comenta...

Todos nós nascemos culpados

Para fazermos um ato conscientemente, temos de entender o que ele é de fato. Qual é, então, a razão de ser do ato de consagrar-se? São Luís Grignion coloca como cadre [moldura] um pensamento que tem raiz nos princípios da justiça e nos fatos históricos mais antigos. Quando alguém cometia contra outrem determinado mal, a título de reparação poderia ser reduzido à condição de escravo do lesado. Ora, todos nós, pelo pecado original, nascemos, como que, criminosos! Lembro-me dos hinos que antigos congregados marianos cantavam em louvor de Nossa Senhora, neles havia uma estrofe a qual dizia: “Misteriosa justiça nos prende, só por filhos, à culpa de Adão; mas a lei quebrantada anulou-a a tua santa e feliz Conceição.” Quer dizer, um princípio misterioso de justiça nos prende à culpa de Adão, ao pecado original. Adão resumia em si toda a humanidade, por isso o Salmo1 diz: “Ecce enim in peccato concepit me mater mea — Eis, Senhor, que no pecado me concebeu a minha mãe.” Por essa razão o Céu estava fechado para a huma-

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nidade antes da Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Maria Santíssima associou-se à Paixão de Cristo Encarnando-se e derramando seu Sangue por nós, Cristo libertou-nos da culpa original e tornou possível nossa felicidade eterna no Céu. Como não fazer-se escravo d’Aque­ le que, sendo Deus, fez-Se homem e habitou entre nós, a fim de sofrer e

Arquivo revista

Esse é um velho raciocínio feito há uns cinquenta anos, mais ou menos. Posso dizer que, pelo favor de Nossa Senhora, ele não empoeirou, pois não me esqueci dele um só dia de minha vida. Depois da primeira vez que rezei a Consagração a Nossa Senhora, não se passou um só dia em que eu, por culpa própria, deixasse de rezá-la. A única ocasião em que eu deixei de rezá-la foi quando sofri o desastre de automóvel e passei alguns dias na semiconsciência. Nesse sentido, posso dizer que em todos os dias de minha vida “pós-São Luís Grignion de Montfort” eu repeti essa Consagração.

São Luís Maria Grignion de Montfort

morrer para nos evitar as consequências catastróficas do pecado original? Ademais, como se não bastasse ter sofrido tudo quanto sofreu, Ele quis aumentar suas dores vendo Maria Santíssima padecer ao seu lado. Ele, em sua infinita Sabedoria, poderia ter designado que Ela não soubesse de sua morte, e dela tomasse conhecimento somente após a Ressurreição. Porém, isto não se deu. A cena mais pungente de toda a história do sentimento humano foi a desse Filho encontrando-se com sua Mãe, a caminho do Calvário. Ela, depois desse encontro, passou pela cena da Pietá, da Piedade: Jesus morto, reclinado em seu colo como em um altar.

Nosso Senhor sabia que sua Mãe sofreria imensamente com tudo isto e consentiu que assim fosse: Ele sofreu do sofrimento d’Ela. Portanto, Ele sofreu em Si, mas sofreu também n’Ela. A Santíssima Virgem é a Co-Redentora do gênero humano, e, como tal, tudo quanto Ela pede a Deus é concedido. Maria é a Medianeira Universal. Tudo quanto obtemos nos é dado através d’Ela. Antes mesmo de eu pedir, Ela pediu por mim.

Melhor não pode haver do que nos sacrificarmos por Ela Quem leva esses pensamentos às suas últimas consequências, quererá ser escravo d’Ela. Eu, quando li algo a esse respeito exposto por São Luís Grignion de Montfort, pensei: “É evidente, não há coisa melhor do que consagrar-me a Nossa Senhora. Quero já saber como devo preparar-me para a Consagração!” Em nossa vida fazemos sacrifícios por Ela, é verdade. Porém, isso é mais para benefício nosso do que d’Ela. Fomos criados para conhecer, amar e servir a Deus nesta terra, e depois contemplá-l’O por toda a eternidade no Céu. Fazendo de tudo para tornar sua Mãe conhecida, amada e servida, estamos colaborando para que também Ele o seja.

Bela renúncia... Quais são os efeitos e as vantagens da Consagração em nossas almas? No texto da Consagração está dito: “Renuncio a Satanás, suas pompas e suas obras.” Quem se consagra, renuncia a tudo quanto o demônio oferece, entre outras coisas, o inferno! Que vantagem para nós! Que maravilha! É mais ou menos como um prisioneiro que diz: “Eu renuncio à prisão e a todos os seus castigos!” Oh! Grande renúncia!


F. Boulay

Além de renunciar a Satanás, dou-me a Jesus Cristo, a Sabedoria Eterna e Encarnada. Todo homem, comparado à Sabedoria divina, é cego ou semicego. Imaginemos um cego que diz a um indivíduo que tem vista: “Eu renuncio ao estado de abandono em que estou, para seguir os vossos passos em todos os dias de minha vida.” Ou seja, faz-se a renúncia de caminhar só, a fim de, guiado pela mão de um outro, seguir o caminho da bondade e da sabedoria.

Maria é senhora também de meus méritos No Céu receberemos os prêmios por nossas boas ações, é evidente, mas, uma parte deles nos é dada ainda nesta terra. Quando me consagro, renuncio também a esses méritos, ou seja, Nossa Senhora fica dona deles, podendo assim aplicá-los a outro. Pode acontecer que eu esteja sofrendo sem saber o motivo. Pode até ser que se eu não fosse consagrado não sofreria assim. O que está acontecendo? Nossa Senhora está dispondo de meus méritos em benefício de alguém que precise. Afinal, na fórmula da Consagração não dizemos: “Renuncio às minhas boas obras, passadas, presentes e futuras”? Mas, dando-me assim a Maria Santíssima, que recompensa terei no Céu?

“Como se deu minha Consagração?” Como se deu minha consagração? Seria bonito imaginar que eu, na força dos meus vinte anos — idade em que a fiz —, terminado o período de preparação, na hora da Comunhão tenha me dirigido a uma imagem de Nossa Senhora e recitado a oração. Isso não se deu assim. Em toda a minha vida tive medo de imaginar coisas muito grandiosas feitas por mim. Então, pensar:

Encontro de Jesus com sua Mãe.

“Eu vou fazer uma grande Consagração.” Quando me desse conta, estaria achando-me grande ao invés de considerar a grandeza da Consagração! Eu gostaria de, ao morrer, poder dizer que o homem de quem eu mais desconfiei em minha vida se chamou Plinio Corrêa de Oliveira. Sendo assim, eu resolvi fazê-la com toda simplicidade. Fui à Missa de manhã e comunguei, voltei a minha casa, e depois de tomar café — como fazia todos os dias — li o jornal. Depois fui ao meu quarto, tranquei-me, fiz meia hora de meditação, na qual eu pensei na Consagração que eu faria. Rezei as orações e

me consagrei. Depois passei a tratar das coisas de todos os dias. Foi uma coisa muito singela, não tive nenhuma consolação espiritual. Ao longo da primeira leitura que fiz do Tratado tomei uma resolução: fazer o possível para que todos os que me seguissem também fizessem a Consagração. Até hoje não cesso de agradecer a Nossa Senhora por ter dado esse passo! (Extraído de conferência de 25/2/1984)

1) Salmo 50: 7.

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De Maria Nunquam Satis

Misercordes oculos ad nos converte Quando menino, aos doze anos de idade, diante de uma imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, venerada na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Dr. Plinio foi “contemplado” pelo misericordioso e compassivo olhar de Maria Santíssima. A graça recebida nessa ocasião marcou profundamente sua vida.

P

J. C. Dias

rocurando fazer melhor explicitação a respeito de Nossa Senhora, recentemente encontrei uma figura que, embora muito simples, exprime bem meu pensamento. Não sei se ela, em Geometria, é inteiramente exata, pois, como todos sabem, meus conhecimentos nessa matéria são os mais sumários e desinteressados possíveis. Imaginemos um poliedro, um corpo com várias faces — esta é a idéia muito primitiva que tenho de um poliedro —, bem construído. Se suas faces são triangulares, olhando-se para uma delas, se vê de certo modo as outras, pois todas têm a forma de um triângulo. Assim é a Mãe de Deus, cuja perfeição é supereminente, e a Quem a Igreja vota o culto de hiperdulia. Considerando-se uma de suas altíssimas qualidades, percebe-se que Ela tem igualmente todas as outras virtudes de que uma criatura humana seja capaz. Conhecida, por exemplo, sua fé, se entende sua esperança e sua caridade. Vendo-se um lado do poliedro, se intui como são todos os outros, com suas dimensões. Se, conforme a Geometria, o poliedro não

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R. Solera

é exatamente assim, essa figura serve ao menos como metáfora.

Compaixão de Nossa Senhora O que mais me tocou, primeiramente, em Nossa Senhora não foi tanto sua santidade virginal e régia, mas a compaixão com que Ela olha para quem não é santo, atendendo com pena e solícita em dar, em suma, uma misericórdia que tem as mesmas dimensões das outras qualidades. Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a ajudar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca ter um suspiro de cansaço, de extenuação, de impaciência, mas sempre disposta não só a repetir sua bondade, mas a superar-se a Si própria. De maneira que feita tal misericórdia, embora mal correspondida, vem outra maior. Por assim dizer, nossos abismos vão atraindo sua luz. E quanto mais fugimos d’Ela, mais as graças por Ela obtidas se prolongam e se iluminam em nossa direção.

“Um olhar que me deixou calmo para a vida inteira” Comparemos o miosótis com o sol. Entre nós e a Santíssima Virgem a diferença transcende ainda mais. Embora seja Ela mera criatura, sua ação poderia ser comparada com o efeito do olhar de Nosso Senhor para São Pedro, que O renegou durante a Paixão e o galo cantou. Quando o Redentor o fitou, ele se sentiu tomado por inteiro. O Apóstolo havia sido testemunha direta ou tivera repercussão imediata de tudo quanto os Evangelhos narram, e conhecia Nosso Senhor perfeitamente. Naquele olhar ele recebeu uma comunicação de tudo quanto sabia, mas com tal acento e esplendor, que derrubou sua ingratidão: “Et flevit ama-

Nossa Senhora de Fátima - Imagem venerada por Dr. Plinio numa das sedes de seu movimento

re — E chorou amargamente” (Lc 22, 62). A grande contrição de Pedro é um dos fatos mais bonitos da história dos santos. Quando menino, tendo ido à Igreja do Coração de Jesus e, pela pri-

meira vez, atinado com a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, não tive nenhuma visão, êxtase ou revelação. Mas me senti como se a imagem me olhasse, e tive conhecimento como que pessoal dessa bondade insondá-

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T. Ring


Muitos pensam que eu sou uma fera, não tenho pena dos outros. Eles não têm idéia do que é essa cognição da misericórdia de Nossa Senhora, a qual penetrou em minha alma.

Misericórdia, pureza, fortaleza e sabedoria de Nossa Senhora Considerando essa misericórdia, vem-nos à idéia a virginalidade

Quando vejo alguém nervoso e com problemas tenho muita pena; penso: “Por que não posso comunicar-lhe um olhar como o que recebi de Nossa Senhora? Ele ficaria calmo para a vida inteira”. de Maria Santíssima, porque essas noções, por assim dizer, se contêm umas nas outras. Ela é pura, com um grau de pureza indizível. Conhecida a misericórdia se conhece a pureza; é novamente a figura do poliedro. Qualquer castidade que se possa conceber não se compara à pureza d’Ela, toda feita não só de ausência de qualquer pendor para o mal, mas de um jorro de alma direta e exclusivamente para Deus, sem compromisso com mais nada e ninguém, um élan inteiro, de uma força, integridade, um desejo de Absoluto, que não se pode medir.

Arquivo revista

vel que me envolvia totalmente. Ainda que eu quisesse fugir ou renegar, Ela me pegaria afetuosamente e diria: “Meu filho, volte de novo, aqui estou Eu!”, fazendo-me entender a profundidade dessa misericórdia. Em primeiro lugar, fiquei calmo para a vida inteira. De fato, por maiores que sejam as dificuldades, se estamos envolvidos por essa misericórdia, podemos descansar; porque no fundo, para quem não é brutalmente insensível, mas se volta à Virgem Maria, Ela acaba arranjando todas as coisas. E, notem bem, uma das coisas que — dentro da indefinição de minha mentalidade de menino, entretanto eu tinha bem claro mais me enlevaram, foi que isso não era um privilégio para mim, mas era a atitude d’Ela diante de todos os homens. Nossa Senhora poderia condescender em querer tratar-me como um privilegiado; porém, tive cognição do contrário: Para todas as pessoas que existiram e existem, todos os pecadores que estão nas ruas, nas casas, nos bondes, nos automóveis, etc., Ela é exatamente assim. Porém, muitos A rejeitam. Tenho muita pena quando vejo alguém — um “enjolras”1, por exemplo — nervoso e com problemas; penso: “Por que não posso comunicar-lhe um olhar como o que recebi de Nossa Senhora? Ele ficaria calmo para a vida inteira.” Não consigo exprimir completamente como foi essa graça. Quando rezo o trecho do Magnificat “et misericórdia eius a progenie in progenies timentibus eum”, quer dizer, a misericórdia de Deus vai de geração em geração a todos os que O temem, sempre pensei: “É bem verdade, e por meio de Maria Santíssima. Ela é a misericórdia insaciável, que não acaba, mas se multiplica solícita, bondosa, tomando nossa dimensão e, por compaixão, faz-se até menor do que nós para nos acolher.”

Plinio no período em que recebeu a graça comentada nestas páginas.

A pureza de Nossa Senhora, comparada à de outras pessoas, é como a alvura da neve em relação ao carvão. E, na perspectiva em que me coloco, a pureza traz consigo a idéia da fortaleza, a qual não significa que nada quebra. É algo diferente: ante o que a Mãe de Deus, na sua pure-

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De Maria Nunquam Satis

Arquivo revista

za, decidiu, o resto do mundo se flecte pela força da vontade d’Ela; é um ímpeto, uma resolução, uma ausência de possibilidade de resistência de qualquer pessoa ou coisa que seja, uma soberania, um domínio numa tal dimensão que não há palavras humanas para exprimi-la. Hoje se fala de obuses e outras armas. Na realidade, são simples caranguejolas inofensivas e ridículas em comparação com um ato de von-

tade, uma preferência da Santíssima Virgem. Por sua vez, essa fortaleza, misericórdia e pureza trazem uma idéia de sua sabedoria lúcida, adamantina, dispositiva de todas as coisas, nunca tendo qualquer dúvida, mas somente certezas. Quer dizer, Ela conhece todas as coisas, suas inter-relações, e penetra até as entranhas de todo ser. O universo é tão grande! Pelo fato de Nossa Senhora

Nossa Senhora é a misericórdia insaciável, que não acaba, mas se multiplica solícita, bondosa, tomando nossa dimensão e, por compaixão, fazendo-se até menor do que nós para nos acolher compreender a ordem do universo e o seu ponto ápice, mais uma vez vislumbramos qual é a imensidade de sua pureza, fortaleza e misericórdia. Essas são as virtudes que, de momento, mais me chamam a atenção quando me lembro do olhar de Nossa Senhora Auxiliadora na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

“Meu filho, Eu te quero”— “Minha Mãe, eu sou vosso” Poder-se-ia perguntar-me: “O senhor recebeu esse olhar quando menino, com onze, doze anos; e nunca mais houve algo semelhante?” Essa graça me foi dada de tal maneira que ficou como um sol para a vida inteira. O fato parece ter ocorrido ontem. A Santíssima Virgem como que me disse: “Meu filho, Eu te quero.” E eu declarei: “Minha Mãe, eu sou vosso.” Alguém indagaria: “Mas nessas considerações onde o senhor coloca a Nosso Senhor Jesus Cristo?” Respondo: “Em tudo!” É a idéia que São Luís Grignion desenvolve muito: Nossa Senhora é o claustro, o oratório, o tabernáculo sagra-

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R. Solera

do onde está o Redentor, e quanto mais estivermos próximos d’Ela, tanto mais estaremos próximos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Imaginem Nossa Senhora no período em que, no seu corpo virginal, estava se formando o Menino Jesus, por ação do Espírito Santo, e que alguém quisesse adorar ao Messias, abstraindo d’Ela. Seria uma estupidez, não teria sentido! Sei que estarei mais unido a Nosso Senhor quanto mais estiver unido a Maria Santíssima. Naturalmente, daí decorre que minha devoção a Ele passa por Ela. Creio que mesmo nas ocasiões de maior cansaço — espero, pelo menos —, quando faço referência à adoração devida a Nosso Senhor, logo depois falo de sua Mãe Virginal. É sistemático.

Qualquer castidade que se possa conceber não se compara à pureza de Nossa Senhora A pureza d’Ela, comparada à de outras pessoas, é como a alvura da neve em relação ao carvão.

Dir-se-á: “Mas muitas vezes o senhor fala sobre Ela sem se referir a Ele.” Sim, porque Ele é infinitamente maior do que Ela. Assim, falando d’Ela, Ele está implicitamente contido. Mas, tratando a respeito d’Ele, Ela não está implicitamente contida. Por isso, queiram ou não queiram, gostem ou não gostem, se Nossa Senhora me ajudar, farei isto até morrer.  v (Extraído de conferência de 9/1/1982)

1) Palavra afetuosa utilizada por Dr. Plinio para designar seus jovens discípulos, surgidos aproximadamente a partir de 1970. Havia neles acentuado grau de debilidade, se comparados com aqueles que os antecederam, os da “geração nova” (cf. “Dr. Plinio” número 81, p. 17).

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marial de um varão católico

I. Téfel

Gesta

Igreja de Santa Cecília, cujo boletim paroquial transformou-se em órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo: O Legionário.

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Interessar pela doutrina através dos fatos Servindo-se de um particular estilo literário, ao assumir a direção de “O Legionário”, Dr. Plinio procurou fazer desse jornal um instrumento de formação das mentalidades católicas.

H

avia na França e na Bélgica um jornal, organizado de modo muito vivo, com paginação atraente, e que tratava de temas atuais, chamado Sept [Sete]. Por causa disso, apesar de ser um simples jornalzinho com poucas páginas — não era uma revista —, possuía muita penetração: intervinha nos acontecimentos, influenciandoos. Numa palavra, tratava de tudo

quanto havia de mais candente e delicado. Analisando esse jornal, tive muitos esclarecimentos a respeito da influência e maneira de ação que deveria ter O Legionário.

Diretor de “O Legionário” O Legionário era um jornal mensal da Paróquia de Santa Cecília, que tinha certa tendência para se dirigir também ao grande público, com o interesse de conquistá-lo. Era escrito, em parte, para converter à Religião Católica os não-católicos e, em parte, para afervorar e orientar os que já o eram. Convidaram-me, enquanto deputado1, para ser seu diretor, porque ficaria bem para o mensário. Aceitei e disse: “Podem pôr o meu nome, desde já. Só exercerei o cargo quando deixar de ser deputado, por-

que não é possível fazer tudo ao mesmo tempo”. Tendo terminado meu mandato, apresentei-me: — Olhe, eu vim exercer… — Ah, pois não! Esteja à vontade. Instalei-me. Lendo o jornal Sept, compreendi que o modo de O Legionário agir estava errado, pois, sendo uma pequena folha, deveria dirigir-se para um público especial, e através desse público, influenciar todo o conjunto; do contrário, não adiantaria nada. A partir de então, houve uma mudança n’O Legionário, pela qual ele deixou de ser uma publicação feita para converter os não-católicos, e tornou-se um jornal destinado a orientar os que eram católicos. E não os católicos em geral, mas os integrantes do movimento católico.

O movimento católico O movimento católico era constituído pelos fiéis mais fervorosos, os quais, em geral, pertenciam às associações religiosas. Ele aglutinava um grande número de pessoas, di-

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marial de um varão católico

Fotos: Arquivo revista

Gesta

rigidas por um clero bastante coeso e um Arcebispo — Dom Duarte Leopoldo e Silva — enérgico, cujo brasão tinha este lema: “Ipsum firmitas et autoritas mea” — É o próprio Cristo a minha firmeza e a minha autoridade. Dom Duarte mantinha todo o movimento católico muito unido. E eu, entendendo bem que agindo sobre esse público, e orientando-o, teríamos uma possibilidade de influenciar o conjunto dos acontecimentos no Brasil, transformei O Legionário num órgão especializado para o movimento católico. Não para ajudar os católicos a converter os nãocatólicos, mas formar a sua mentalidade. Esse era um dos princípios que orientava o jornal.

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Como atrair a atenção de alguém de modo a persuadi-lo? É preciso raciocinar muito bem, clara e simplesmente, sem pretensão. Interessar pela doutrina através dos fatos Como seu diretor, eu poderia optar por um dos dois modos de nos dirigir ao público: redigir artigos abstratos e teóricos; noticiar os fatos,

analisá-los e, a propósito deles, apresentar a doutrina. Interessar pela doutrina através dos fatos, foi o sistema adotado pel’O Legionário. Quando se quer persuadir uma pessoa, a primeira coisa necessária é tratar de temas que lhe interessem. Do contrário, não fixaremos a atenção dela para o que escrevemos nem para o que dizemos. Alguém me dirá: “Mas tal pessoa não se interessa pelos assuntos que trato.” Minha resposta é: “Estude a psicologia dela a fim de compreender por que forma se pode chegar a interessá-la. Saiba como atraí-la. Para isso, é preciso ter uma idéia inteiramente articulada das mentalidades. Se você não for um observador de mentalidades, não será capaz de nada, nesta ordem de coisas. Observe mentalidades.” Como atrair a atenção de alguém, de modo a persuadi-lo? É preciso raciocinar muito bem, clara e simplesmente, sem pretensão. O argumento deve penetrar na mentalidade da pessoa que errou, como um desinfetante se introduz no âmago de uma ferida. Em razão da dor, o indivíduo pode espernear, mas o micróbio morre.

Argumentação agradável, vocabulário abundante Era necessário, então, habituar os redatores d’O Legionário a empregar certos recursos. A argumentação precisa ser a mais agradável possível. Para isso, não adianta usar palavras bonitas. De vez em quando, utilizar uma ou outra bela metáfora, ajuda. Porém, o mais importante é fazer sentir a pulcritude do argumento, enquanto argumento. O pensamento sem enfeite, mostrado na sua simplicidade e sua luz, tem uma beleza própria, como a do raio.


Deve-se ter um vocabulário abundante. Usar uma mesma palavra para exprimir várias idéias, não é possível. Ou possuímos todo o teclado do vocabulário português — digo português porque é a nossa língua, mas poderia referir-me a outros idiomas ilustres e magníficos — bem estudado e aproveitado, ou não temos nada. E o vocabulário deve saber explorar as qualidades da língua portuguesa, em vez de procurar imitar a de outros povos. Há um jeito de escrever para o Brasil, e outros diferentes para a França, Alemanha, Espanha…

Há sinônimos e sinônimos… Quanto ao modo de usar os sinônimos, é preciso cuidado. Os dicionários apresentam como sinônimas, por exemplo, as palavras lábio e beiço. Entretanto, lábio é o beiço enquanto concebido por uma pessoa de boa educação; e beiço é o lábio enquanto vivido e utilizado por um indivíduo de pouca educação. Há um mundo de imponderáveis os quais fazem com que, na língua portuguesa, haja palavras situadas a um milímetro uma da outra, a fim de que se possa exprimir com precisão e de modo conciso.

Frase longa ou frase curta A dosagem e pesagem exata de tudo isso levanta problemas interessantes: deve-se utilizar frase longa ou curta? Esta é mais fácil de ser entendida. Mas, isto significa muito pouco, porque equivaleria a dizer que é a forma de comunicação para o mundo dos burros. Ora, isso não é verdade. A frase curta tem uma simplicidade, uma utilidade e uma beleza próprias. Basta afirmar que no Evange-

Nós fazíamos aquilo que, hoje, se chama uma contra revolução cultural. Pois ela não é apenas política, mas envolve a transformação das mentalidades, dos modos de ser, e dos ambientes que cercam o homem. lho não se encontram frases compridas. E nele há todos os graus e formas de pulcritude possíveis, pois é ditado pelo Espírito Santo. E a frase longa também possui muita beleza. Sua construção, permitindo o encaixe de várias idéias harmoniosamente, apresenta os conjuntos de pensamentos. Enquanto tal, ela habitua a inteligência a considerar mais os conjuntos do que as coisas simples, e desenvolve o espírito de síntese. Não no sentido de abreviar, mas de aglutinar, agrupar, de classificar, que é uma qualidade eminente da alma humana. Cada um de nós deve procurar conhecer se tende para a frase longa ou para a breve, e saber tirar dessa tendência o melhor possível. Não sei se notam, mas eu sou muito tendente às frases longas.

Em síntese, apesar d’O Legionário ser — em comparação com os maiores jornais de São Paulo — insignificante, nós fazíamos aquilo que, hoje, se chama uma contra-revolução cultural. Pois a revolução cultural não é apenas política, mas envolve a transformação das mentalidades, dos modos de ser e dos ambientes que cercam o homem.   v (Extraído de conferências de 18/2/1989 e 4/3/1989)

1) Dr. Plinio foi deputado federal, durante a Assembléia Constituinte de 1934.

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Luzes

da

Civilização Cristã

Arte gótica, a express 

Fotos: P. Mikio

A Igreja, nascida do costado de Cristo, produziu belezas feéricas. Entre elas estão as catedrais góticas, tão características da Idade Média. Ao analisar tais edifícios, Dr. Plinio, grande admirador da Cristandade, faz uma bela consideração: o gótico terá representado por inteiro o espírito católico?

Q

uando se observa o gótico em suas últimas manifestações, antes da Renascença, tem-se a impressão singular de ter ele chegado ao fim do caminho e atingido tal perfeição, que não se po-

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de imaginar algo mais perfeito nessa linha. Uma nova linha estava para aparecer, não contrária à anterior, mas que seria um salto para cima. Isso corresponde à história da humanidade. O espírito dos homens


ão de desejo do Céu No centro, Sainte Chapelle; à esquerda, Conciergerie, ambas em Paris. À direita, Catedral de Bourges.

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Luzes

da

Civilização Cristã

No centro, rosácea de Sainte Chapelle; à esquerda e à direita, vitrais da Catedral de Bourges.

havia chegado a um ponto tal que estava para surgir algum dado inteiramente novo, o qual daria um impulso dentro da linha do antigo. É o que se chama tradição. Entretanto, apareceu o Renascimento. Não é excessivo conjeturar que se a humanidade tivesse sido fiel às graças da Idade Média, teria começado a nascer algo que iria rumo ao Reino de Maria. Porém, com algu-

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ma coisa de novo que não se sabe o que é. Analisemos o gótico e depois vejamos o que dele poderia florescer, a título de conjetura. A meu ver, esse estilo, mesmo em sua fase inicial, refletia caracteristicamente os seguintes traços do espírito católico europeu da Idade Média: força tendente à perenidade, seriedade e recolhimento.

O gótico é forte e, por essa razão, tende ao perene. Aquelas construções exprimem um possante desejo de durar sempre e de nunca serem substituídas. Ele tem, por outro lado, uma seriedade, a qual faz com que o interior dos edifícios góticos tenha um recolhimento e uma compostura próprios a quem é muito sério. A luz que neles entra é


É um sonho? Não. A alma, à força de desejar o Céu, conjetura tanto quanto pode a respeito de como ele seria. E penetrando numa igreja toda feita de vitrais da Idade Média, tem-se a impressão de que se entra no Paraíso. tamisada por um colorido muito bonito. Por exemplo, a luz que penetra através dos vitrais da Catedral de Bourges (França) não é a comum, mas de um dia ideal, causando a impressão de um sonho. É um sonho? Não. A alma, à força de desejar o Céu, conjetura, tanto quanto pode, a respeito de como ele seria. E penetrando numa igreja

toda feita de vitrais da Idade Média, tem-se a impressão de que se entra no Paraíso. Ao mesmo tempo, o gótico é delicado. Considerem aquelas colunas formidáveis das catedrais. Os medievais arranjaram um jeito de trabalhálas, de maneira a atenuar o que nelas poderia haver de impressão de força quase brutal: esculpiram um feixe de coluninhas que se amarravam umas

às outras em torno de uma só coluna. Esta sustenta o teto com muita firmeza, mas dá a sensação de leveza devido às pseudocoluninhas em que se decompõe. A coluna gótica do lado interior de um castelo, e mesmo de uma catedral, causa a impressão de combate. Trabalhada de maneira a dar ilusão de um feixe de coluninhas, a coluna gótica de grande estilo tem

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Luzes

da

Civilização Cristã

qualquer coisa de tranquilo, sem agitação, e nem a tensão da luta. Ela representa muito mais o guerreiro no seu repouso e na sua oração, do que batalhando. E a guerra medieval, quando justa, sempre visava a paz, uma solução, uma concórdia equilibrada. E a ogiva exprime isso muito bem. São as duas partes, que podemos imaginar opostas, as quais se resolvem numa posição de equilíbrio, ou seja, numa reconciliação entre elas. Por isso não é raro que no ponto onde as ogivas se encontram haja florões ou adornos, como que festejando a paz. Também está presente no gótico uma alta noção do dever. Certas colunatas simbolizam um caminho estreito, sério, reto e, sobretudo, elevado, que conduz a uma grande solução: o Céu. O caminho do Céu não é largo, folgado, espaçoso, agradável, mas apertado, difícil, e está sempre à beira de precipícios, de problemas e outras dificuldades. É grandioso, metódico, do qual, porém, não se pode afastar um passo, porque se perde de vista a meta e se transvia. Isto corresponde à idéia que temos da nossa própria existência, enquanto vivida à luz dos Mandamentos. Quer dizer, se nos sentirmos opressos pela proximidade de colunas de um lado e doutro, encontraremos os grandes espaços olhando para o alto. Quando a vida estiver apertada, olhemos para o Céu. Assim deve ser a alma do católico. As almas que fizeram o gótico, tão entusiasmadas e enlevadas com a força, tinham em si muitos outros tesouros. Depois de terem explicitado em pedra seu desejo e sua afirmação de fortaleza, o mesmo espírito que as animava começou a sorrir e manifestar a sua própria doçura, como quem continua a fazer, no granito, a descrição de suas almas.

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Catedral de Bourges.


Sainte Chapelle.

Por mais que o gótico tenha sido integralmente católico, o espírito católico integral não estava inteiramente representado no gótico. O espírito da Igreja é inesgotável, imenso, fabuloso; somente no Céu ele será inteiramente expresso, pois sempre tem riquezas novas. Surgem, então, adornos que, sem atraiçoar a austeridade da coluna, transformam a catedral quase num sonho. Abole-se o granito e transforma-se tudo em cristal. Encontramos esse sonho expresso na Sainte Chapelle, que utiliza a pedra apenas o necessário para suportar o teto e servir de encaixe aos vitrais. Mas o espírito que concebeu a Sainte Chapelle, se pudesse fazer um edifício todo de cristal, sentir-se-ia realizado. Não devemos ver nisto uma mudança do espírito gótico, porque é algo que estava na alma do homem medieval, desde o início. Assim como uma pessoa que tem uma arca com uma série de tesouros e os vai

tirando um por um para mostrá-los, os medievais eram profundamente católicos, e em suas almas havia muitas riquezas em diversas direções. Eles foram lentamente exibindo, manifestando essas riquezas de maneira que, quando se chega ao pináculo do gótico, parece que nada mais faltava. Dir-se-ia que foi feita a descrição completa de uma alma profunda e verdadeiramente católica. Entretanto, posso fazer a esse respeito conjeturas, sem o caráter de certeza, tendo apenas o alcance de uma probabilidade. E é nessa perspectiva que considero o assunto. Que é o espírito gótico? No fundo, é o espírito da Igreja, inesgotável, imenso, fabuloso. É o

próprio Divino Espírito Santo que se manifesta. O espírito da Igreja nunca será inteiramente expresso, pois sempre tem riquezas novas. E nós somente o conheceremos no total quando estivermos no Céu, onde a Igreja militante desemboca na Igreja gloriosa. Podemos afirmar que no gótico havia muitas outras coisas a manifestar, porque ainda não era o espírito católico integral, mas apenas alguns de seus traços. Por mais que o gótico tenha sido integralmente católico, o espírito católico integral não estava inteiramente representado no gótico.   v (Extraído de conferência de 28/7/1989)

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Paraíso do “Novo Adão”

O

(Extraído de conferência de 5/6/1972) Maria Santíssima entretendo seu Divino Filho. Paróquia São Tomé, Toledo (Espanha).

S. Hollmann

Paraíso Terrestre era um lugar de maravilhas, de esplendores e de imensa felicidade, no qual Deus introduziu nosso primeiro pai, Adão, para que este desfrutasse de todas as delícias que o Criador ali havia depositado. Porém, Adão e Eva prevaricaram, e foram expulsos daquele mirífico Éden. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo é considerado, a justo título, o segundo Adão, isto é, Aquele que veio resgatar a humanidade das sombras da morte e restabelecê-la no estado de graça, através da imolação que Ele fez de Si mesmo no alto da Cruz. E assim como o primeiro Adão, também o segundo teve seu jardim de delícias. Esse Paraíso do novo Adão era Nossa Senhora. Tudo aquilo que o Paraíso Terrestre tinha de belo e de esplêndido na sua realidade material, Nossa Senhora o tinha, ainda mais belo e mais esplêndido, na sua realidade espiritual. E Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo nas castíssimas entranhas de Maria Virgem, teve aí incomparavelmente mais felicidade e contentamento, do que Adão no Éden.

Doctor Plinio  

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