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ma de telefonia do país. As notícias sem novidade, as imagens de desespero repetidas durante o dia e o número crescente de vítimas geraram preocupação e nenhuma informação. O site da Cruz Vermelha virou página principal, com nomes de familiares que procuravam dar informações aos parentes de outro país. No meio tempo, todos os jornalistas da região o procuraram para noticiar “haitiano sem notícia da família”. Uma repórter de um jornal local o havia entrevistado uma semana antes sobre cultura haitiana, mas esqueceu do fato; assim como três prometeram ajudar e nunca retornaram. A radialista e apresentadora de televisão, Rose Michelle Fortune, criticou a posição dos correspondentes internacionais, principalmente dos franceses, pela falta de sensibilidade da cobertura jornalística. “Eles falavam como se fosse uma maldição divina do povo negro, e reduziam tudo a uma inevitável catástrofe natural”. A jornalista haitiana lembra que o país é o mais pobre das Américas e já não tinha infra-estrutura. A dimensão do ocorrido, segundo ela, tem muita influência na falta de políticas públicas para seu país. Mas consente: “Os repórteres relataram a real situação, foi horrível mesmo”. Antes de 2010 O critério de noticiabilidade do Haiti sempre foi o lado negativo, como o conflito, a violência ou os furacões e enchentes sazonais que destruíram o norte do país. Reginald Castene, haitiano que migrou para os Estados Unidos, criticou – antes do terremoto – as matérias veiculadas internacionalmente sobre seu país: “Se você vive nos EUA e não conhece meu país, você pensaria que o Haiti é o pior lugar do mundo. Você nunca iria querer vir aqui”. O mesmo coronel Alan Sampaio que noticiou o terremoto em primeira mão, quando entrou no contingente em julho de 2009, não esperava que às vésperas do seu retorno para o Brasil iria presenciar um dos maiores terremotos do mundo. Na época, Sampaio era responsável pelo recebimento das equipes de reportagem brasileiras, que, em sua maioria, escolhiam produzir matérias sobre o país na BRABATT. “O repórter às vezes vem com uma ideia preconcebida e a gente tira essa noção que ele tem do Haiti”, contou o coronel. As reportagens do Globo Esporte, da revista Brasileiros e do jornal O Dia, entre muitos outras realizados em 2009, contaram com todo o apoio e logística do Ministério da Defesa. A pauta, acordada entre a

Correspondentes falavam como se fosse uma maldição divina do povo negro, e reduziam tudo a uma inevitável catástrofe natural.

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Revista Semana  

Revista Semana - 3ª edição. Realizada pelos alunos do curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

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