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há distinção entre repórteres, conforme a capacidade de “percepção” para fatos que contenham interesse jornalístico e “saber escutar” sua fonte. Um outro componente da competência é a qualidade de negar preconceitos. Viver com eles é, com certeza, a maneira mais segura de ir ao encontro do fracasso profissional. Se existe uma regra primeira do jornalismo é respeitar as pessoas. Uma segunda é valorizá-las, e o jornalismo, quando conta algo delas, consegue este efeito porque destaca o que, normalmente, não provoca atenção. A valorização se dá pelo registro da personalização de indivíduos e funções que se reproduzem no quase anonimato. O mundo da rua é abordado por impressos, televisão e sites de notícias, mas, com freqüência, na forma de fait-divers. Este tipo de móvel da informação mascara o que apenas uma boa apuração pode extrair: a imensa rede de fatos, dos mais variados tipos que, por natural, permanece subjacente até que um repórter se interesse. Fait-divers são apenas relatos de acontecimentos inusitados na aparência de uma fotografia, ou seja, estáticos. Porém, aqui, o jornalismo deve descrever movimento de alguma forma de existência através de relações causais, conexões entre causas e efeitos, porque é isso que interessa como informação. O “extraordinário”, como principal apelo jornalístico, não cabe nestas pautas. Ele não deixa de aparecer, mas o impacto deve estar na história contada e reportada. É certo que a rua tem muito de pitoresco, afinal, são nestas “calhas” que escoa toda uma cidade, e, embora ele tenha algum valor jornalístico, sempre será menor diante de uma pauta sobre relações sociais de sobrevivência. Para conhecê-las, é preciso caminhar, e um ótimo exercício (não somente físico) para estudantes de jornalismo que pretendem ser repórter é andar pelas ruas de sua cidade, observando muito bem o que existe e o que se passa. Enfim, os fatos estão por aí, e seus donos, pessoas estranhas. O repórter entrevista, perguntando e anotando respostas. Nesta interação a estranheza some, porque alguma história está sendo revelada.

Um outro componente da competência é a qualidade de negar preconceitos. Viver com eles é, com certeza, a maneira mais segura de ir ao encontro do fracasso profissional

Hélio Schuch, profº do Departamento de Jornalismo da UFSC

www.semanadojornalismo.ufsc.br

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Revista Semana  

Revista Semana - 3ª edição. Realizada pelos alunos do curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

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