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Tempo que insiste em passar Semana Revista faz o remake de uma das reportagens de Eliane Brum

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casa grande com o jardim florido se deparava com olhos tão lúcidos como os de sempre me chamou a atenção. O dona Maria Carolina, que com seus 101 anos lugar, antes isolado do resto da ci- questionava o tempo todo as minhas pergundade, hoje ocupa uma quadra inteira tas e recusou-se a dizer o próprio sobrenome. de uma movimentada área do bairro “Meu nome no jornal? Só quando eu morrer”. Kobrasol, em São José. A arquitetura do prédio Assim como os habitantes da casa, cada tilembra uma casa comum, não fosse pela placa jolo ali também tem uma história para contar. que dizia “Lar dos Velhinhos de Zulma”. De lá O Lar dos Velhinhos de Zulma foi construído vinha uma música suave e alegre há 43 anos por um grupo espírita de uma sanfona. Entrei. que batia de porta em porta peOs assuntos no sofá Sorrisos de boas vindas ilumi- são quase sempre os dindo a doação do valor de um navam cantos da sala que parecia tijolo. Demorou dez anos até a mesmos: programas parada no tempo. Um brilho vicasa ficar em pé. Hoje o lar abriga de televisão, doenças e 35 pessoas: 14 homens e 21 munha de olhares atentos e sempre ansiosos por um rosto novo, al- parentes que se foram lheres. guém diferente, uma novidade na E era rodeado por essas murotina dos dias que insistem em passar quase lheres que sempre estava Oswaldo Damázio. sempre iguais. Com 77 anos de um sorriso fácil e contagianQuando cheguei, estavam servindo maria- te, nunca foi casado. Sentado no sofá entre as mole, e era a hora de trocar as fraldas. Um se- duas colegas, Oswaldo fala da casa como um nhor que se equilibrava em um andador insis- lugar mais próximo de Deus. “Eu aqui, estou no tia em provar a novidade: céu, não sei o que os outros dizem, mas estou - Quero maria-mole no céu.” Quando jovem, foi motorista do corpo - Mas o senhor tem que trocar as fraldas de bombeiros, correu pela cidade procurando primeiro! apagar os incêndios que hoje ficaram na lem- Mas eu queria a maria-mole antes. brança. Da rapidez desses tempos, Oswaldo - Não, não. Fralda e depois maria-mole. guardou o jeito de falar, que muitas vezes o Decretou, por fim, a enfermeira. Ele acatou obriga a repetir as frases para ser entendido. esbravejando. Ao lado dele, com a fala mais lenta e um A primeira sensação que tive foi a de estar ar cansado, estava Maria Nascimento Tomas. em um ambiente infantil. Talvez pelos dese- A ex-empregada doméstica de 84 anos parece nhos na parede ou pelas trocas de fraldas, com querer se esconder por trás da echarpe verde a diferença de que lá haviam corpos cansados, de tricô. No momento seguinte, assume um alguns quase ausentes. Minha consciência des- tom de tristeza e indignação. Maria lamenta pertava, perturbada e desconcertante, quando estar em uma cadeira de rodas e ter que acei-

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Revista Semana  

Revista Semana - 3ª edição. Realizada pelos alunos do curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

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