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230 / F U N D A M E N T O S DE N E U R O P SIC O L O G IA

No momento em que o teste é repetido sob condições diferentes, instruindo-se a criança para “dar a boneca” ao mesmo tempo em que se põe ao lado desta um brinquedo distrativo ou não-familiar, como um peixe ou um pássaro, o resultado será outro. Neste caso a fixação da criança passeia inicialmente por todos esses objetos e freqüentemente se detém não na boneca que foi nomeada, mas, sim, no peixe ou no pássaro bri­ lhantemente coloridos ou novos que estão perto; a criança pega o objeto novo, brilhantemente colorido ou distrativo e o dá em lugar da boneca. Neste estágio de desenvolvimento (que vai mais ou menos de um ano e meio a dois anos e quatro meses), uma instrução falada ainda não pode sobrepujar fatores de atenção involuntária que compitam com ela, e a vitória nesta luta fica com os fatores do campo direto de visão. A res­ posta de orientação direta a um estímulo novo, informativo ou distrativo, formada nos primeiros estádios de desenvolvimento, suprime com facili­ dade a forma superior, social, de atenção, que apenas começou a aparecer. Só aos quatro e meio ou cinco anos de idade esta capacidade de obedecer a uma instrução falada se torna suficientemente forte para evocar uma conexão dominante, de jnodo a permitir que a criança possa facilmente eliminar a influência de todos os fatores irrelevantes, distrativos, embora possam continuar a aparecer ainda, por um tempo considerável, sinais de instabilidade de formas superiores de atenção evocadas por uma instrução falada. Não tentarei examinar com minúcias o curso ulterior da formação deste tipo superior de atenção interior, voluntária, que, na idade escolar ficou estabelecido como uma forma estável de comportamento seletivo, subordinado não somente à fala audível de um adulto como também à fala interior da própria criança, nem descreverei os sucessivos estágios pelos quais passa este tipo de atenção durante a sua formação na ontogenia; isto já foi feito alhures (Vygotsky, 1956; Luria, 1961; 1969b) e foge ao escopo deste livro. Caracteristicamente, na época em que a criança vai para a escola, as formas de comportamento seletivo organizadas com a participação da fala podem ter-se desenvolvido a tal ponto que são capazes de alterar significativamente não apenas o curso do movimento e das ações, mas também a organização de processos sensoriais. Basta um exemplo para ilustrar esta afirmação. No fim da década de 50, Homskaya (investigação não publicada) observou o fato seguinte, que indica claramente a influência da fala na precisão aumentada de processos sensoriais. Uma criança que acabara de entrar na escola foi instruída para fazer um certo movimento em res­ posta a um tom pálido de cor de rosa, mas para não fazer movimento algum em resposta a um tom mais escuro de cor de rosa. Com um aumento

A. R. Luria - Fundamentos de neuropsicologia  
A. R. Luria - Fundamentos de neuropsicologia  
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