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Jocelino Freitas

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O Cristo da Periferia

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Jocelino Freitas

1 Estacionei e desci do carro, apressado como sempre, pensando na reportagem que devia fazer. Como repórter novo eu sabia que não conseguiria uma matéria de capa tão cedo. O chefe de redação, sempre à beira de um ataque de nervos, mandou que eu investigasse um tal ‘Cristo da periferia’ por ser uma matéria que se podia encaixar em qualquer espaço que sobrasse no fechamento da edição. Ademais era um tema que não se esgotava naquela semana e poderia ficar para outra edição se não coubesse nesta. Uma tragédia teria o maior destaque, até com capa. Filhos que matam os pais, pais que matam os filhos, assaltos, sequestros, desastres, qualquer tema poderia ser mais interessante. Mas o chefe tinha seus preferidos e eu devia estar satisfeito por ter um emprego. Os repórteres de destaque tinham fotógrafo e motorista. Eu trabalhava sozinho e ainda tinha que usar meu próprio carro se não quisesse tomar ônibus. Envolto nesses pensamentos nem percebi que uma bola, jogada por alguns moleques que brincavam na rua, veio parar perto de mim. Um dos meninos falou comigo de longe e, com um sorriso, provocou: 4


O Cristo da Periferia – Você ainda consegue chutar uma bola sem tirar o joelho do lugar? Chutei meio desengonçado, com raiva daquele menino atrevido que me tratou como um velho fora de forma. Ele não era mais criança, devia estar trabalhando ao invés de ficar ali brincando na rua. Por isso as pessoas se tornam marginais, pensei. Ficam aí brincando e não se preparam para a vida. Depois roubam e matam para poder ter as coisas. Ou então arranjam um emprego que não lhes garante o sustento. E continuam marginalizados, mesmo com um emprego. Triste realidade a dos brasileiros. Em países do primeiro mundo uma pessoa pode trabalhar numa profissão modesta e viver dignamente. Tenho amigos que vivem no exterior e estão formando um belo patrimônio trabalhando como lavadores de pratos, camareiros, ou outras profissões menos dignas dos diplomas que conquistaram aqui no Brasil. São profissionais que desistiram da profissão antes mesmo de começar. Levam a esperança de conquistar um bom dinheiro e voltar para começar suas carreiras condignamente. Alguns jamais voltam. Aqui não é qualquer trabalho que assegura um rendimento decente. Qualquer dia ainda vou fazer uma reportagem sobre isso, quando eu tiver liberdade para escolher as matérias que escrevo. Hoje não posso nem pensar nisso, porque o meu chefe faz de mim “gato e sapato”, mandando-me para todos os lugares, sempre com matérias pouco ou nada interessantes. 5


Jocelino Freitas Deixa isso pra lá, agora tenho que pensar na reportagem! – falei comigo mesmo, organizando os pensamentos. O joelho doía um pouco, mas evitei mancar para não ser gozado pela molecada, que me olhava com ar de deboche e curiosidade, pois não voltaram a jogar, mesmo depois que devolvi a bola. – Vocês sabem onde mora a Dona Irene? Com facilidade descobri o endereço. A Vila Nazaré era um daqueles conjuntos habitacionais com ruas numeradas e casas iguaizinhas. Isso facilitava a localização, pois era só seguir a numeração das ruas e das casas para chegar ao destino. Até mesmo as praças eram numeradas e distribuídas de forma harmônica na vila, proporcionando um pouco de diversão para aquela gente pobre que, sem nenhuma opção de lazer, gastava o tempo ali mesmo jogando futebol, vôlei, ou assistindo quem jogava, ou simplesmente caminhando ao redor da praça, vendo as pessoas e encontrando os amigos. Com casas tão pequenas não era normal receberem visitas. Cheguei à casa. Embora igual às outras, dava para perceber que os moradores tinham um padrão de vida um pouco melhor que os das outras casas. A cerca simples havia sido substituída por um muro. A cobertura prolongada até o muro propiciava uma pequena garagem. Embora não houvesse nenhum carro no momento, suspeitei que o veículo estivesse com o marido no trabalho. Fui recebido com alegria pela Dona Irene, que parecia estar esperando visita, pois a 6


O Cristo da Periferia maquiagem estava muito carregada, com aquelas sombras azuis sobre os olhos e o batom exageradamente vermelho. Os brincos combinavam com o colar de pérolas falsas, meio inadequados para ficar em casa. Por baixo do pó-de-arroz dava para ver uma mulher de quarenta e poucos anos, com o semblante marcado, que agora estava aproveitando um pouco a boa sorte que a vida lhe reservara. Enquanto servia um café, tentando parecer requintada, Dona Irene me contava que o marido trabalha numa indústria há quinze anos e, graças a muito empenho e dedicação, conseguiu ir galgando cargos e chegar a encarregado. Isso lhe garantia um bom salário, mas exigia dele dedicação integral. Com um orgulho indisfarçável contou como o pobre homem era chamado a qualquer hora do dia ou da noite para resolver problemas na fábrica e, também, como ela pôde deixar o emprego de costureira, e pensava em ter sua própria confecção. Já comprara algumas máquinas e pretendia construir uma edícula nos fundos do pequeno terreno, num espaço que a mim pareceu não caber nem mesmo o minúsculo canteiro de salsinhas que estava plantado ali. Mas na cabeça e na empolgação da Dona Irene aquele espaço iria abrigar um grande salão, com dezenas de empregados, que a deixariam ainda mais “rica”. Invejei a sua capacidade de ser feliz com tão pouco e de se realizar dentro das pequenas oportunidades que tinha. 7


Jocelino Freitas

2 Mas o motivo que me levou àquele lugar não foi a vida da Dona Irene. Depois de tomarmos o café ela começou a contar que havia ligado porque era a única que tinha telefone nas redondezas. Mesmo com um telefone saindo quase de graça, a conta do consumo inviabilizava esse luxo para a maioria dos moradores da vila. Dona Irene me falou com riqueza de detalhes como a Dona Maria e o filho Emanuel, seus vizinhos, levavam a vida. Ele é carpinteiro e vive de pequenas empreitadas que faz. Ela, viúva, trabalha como diarista e também lava roupas durante a noite para conseguir pagar a prestação da casa e sobreviver. Eles vieram de Belém do Pará há alguns anos e sofreram muito com a morte do Seu José. O menino era muito pequeno, quase uma criança, mas assumiu as ferramentas do pai e conseguiu entregar todas as encomendas. Depois de algum tempo o menino começou a demonstrar uma cultura maior do que era normal naquele lugar. Os vizinhos passaram a consultar Emanuel sobre seus problemas e as pessoas confiavam muito nos seus conselhos. As coincidências dos nomes dos pais e, também, do nome da cidade em que nasceu tinham levado Dona Irene a ligar para a redação e pedir uma reportagem. Não 8


O Cristo da Periferia que ela acreditasse que aquele menino fosse a reencarnação de Jesus, mas achou que daria uma boa matéria. Enquanto ouvia aquela mulher falando ia me dando uma raiva tão grande do meu chefe, que foi difícil não sair dali correndo e pedir demissão daquele emprego ridículo. Uma reportagem sobre um maluco que pensa que é Jesus era tudo o que eu precisava para me arrepender de ter feito a maldita faculdade de jornalismo. Com a nota que tirei no vestibular eu poderia ter feito administração, contabilidade ou qualquer outro curso que me garantisse um emprego monótono num escritório. Mas o meu espírito de liberdade tinha que falar mais alto. A versatilidade que tem um jornalista, que pode trabalhar em qualquer lugar, que pode ser redator, repórter ou apresentador, foi um fator decisivo na minha escolha. Encantava-me a magia de levar a notícia a todas as pessoas, de qualquer lugar do universo. Também me influenciaram fatores menos nobres, como o fato de um dos homens mais ricos e poderosos deste país ser um jornalista, Roberto Marinho, que construiu um verdadeiro império da comunicação. Só não me contaram que eu acabaria trabalhando numa revista de segunda linha, disputando a vaga com centenas de jornalistas que, como eu, deixaram-se levar pelos mesmos sonhos. Não me contaram que iria trabalhar com um chefe estressado, que colocaria defeito em meu trabalho e mandaria fazer as reportagens mais inúteis que já vi na vida. 9


Jocelino Freitas Quando não se tem opção a gente faz o que é preciso fazer. Ouvi tudo o que a Dona Irene tinha para contar e pedi para me apresentar a Dona Maria e seu filho Emanuel. Eu faria umas fotos e uma entrevista rápida. Depois tomaria alguns depoimentos de vizinhos, com destaque para a vaidosa Dona Irene e a reportagem estaria pronta para ocupar o espaço sem destaque que o chefe me reservava quando não tinha nada melhor para publicar. Desse jeito eu cumpriria meu papel de repórter medíocre com uma ótima reportagem sobre um assunto medíocre.

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3 Chegamos à casa da Dona Maria. Fui entrando logo atrás da Dona Irene, que chegou como íntima da família, abrindo o portão e entrando como se fosse sua casa. O lugar era muito humilde, uma mistura de casa e oficina de carpinteiro, com varais de roupa por todo canto. Entre um varal e outro as duas iam conversando, a Dona Irene contando que havia trazido um repórter para falar com o “Jesus” e a Dona Maria querendo saber mais detalhes. Tinha um ligeiro sotaque que a mim pareceu nordestino. Confesso que eu não sabia diferenciar o jeito de falar nortista do nordestino. Acho que até hoje ainda não consigo distinguir. Sabia que ela viera de Belém, que fica no Norte, mas seu jeito de falar não pareceu diferente do das pessoas vindas do Nordeste e que vivem muito tempo aqui no Sul. Não têm aquele sotaque carregado, mas dá para perceber que não são daqui. Eu ia acompanhando a conversa e buscando encontrar a “Nossa Senhora” no meio daquela confusão de varais. Num lugar pequeno como aquele não tardaria a encontrá-la. Logo surgiu diante de mim uma senhora, também de uns quarenta e poucos anos, como Dona Irene, mas sem nenhuma maquiagem. O 12


O Cristo da Periferia semblante abatido não escondeu os belos traços, apesar do lenço, que escondia seus cabelos, e do avental, que cobria seu corpo. Por um instante fiquei olhando para ela, como a me perguntar se havia ali alguma santidade. Ela não se preocupou com o meu olhar e continuou conversando com a amiga através dos varais, dizendo que já estava diante de mim e informando que seu filho não estava em casa. Quando Dona Irene finalmente chegou onde estávamos, saí do meu transe momentâneo e perguntei se havia um lugar onde pudéssemos conversar um pouco. Gentilmente convidou-me a entrar em sua casa. Todos os móveis da casa pareciam ter sido feitos pelo filho da Dona Maria, pois eram de um mesmo padrão. Mesa, cadeiras, balcão, sofá, poltronas e mesa de centro eram talhados num mesmo estilo, sofisticado demais para aquela casa tão humilde. O mesmo ocorria com as molduras dos quadros de natureza morta espalhados pelas paredes. Não fosse pelas dimensões reduzidas da sala, aquele ambiente poderia ser encontrado em qualquer casa ou apartamento de bairros nobres. Talvez eu tivesse encontrado ali o marceneiro ideal para mobiliar o meu apartamento, quando comprasse. Isso, claro, se o chefe reconhecesse o meu talento e parasse de me dar matérias “chinfrins” para fazer. Durante a entrevista Dona Maria se mostrou surpresa com a minha presença ali, pois jamais imaginaria que alguém pudesse se interessar por uma história inventada por uma gente pobre e sem cultura. Sinceramente eu pensava da 13


Jocelino Freitas mesma forma, mas não podia dizer isso a ela. Apenas anotei o comentário e continuei a conversa, pedindo que contasse porque as pessoas estavam dizendo que seu filho era o Cristo. – Olha moço, o povo tem uma necessidade muito grande de acreditar em Deus. Numa pobreza como a nossa Ele é a única esperança. – Mas o que seu filho tem a ver com isso? Ele fundou alguma igreja? – Não, ele não fundou nada. Ele só diz a essa gente que ninguém precisa de uma igreja para chegar a Deus. – E foi a senhora que ensinou isso a ele? – Foi não senhor. Eu rezo todos os dias e vou à missa nos domingos. Faço parte da Legião de Maria. Na igreja já perguntaram isso, mas eu não ensinei essas coisas a meu filho, não. Nunca disse a ele que o povo não precisa de igreja. Ele pensou nisso sozinho e fala tão bem que consegue convencer muita gente. Eu mesma acredito nele, mas vou à igreja porque tenho muito respeito pelo padre e pelas outras pessoas que vão lá. – Dona Maria, a senhora não está ajudando muito. Eu preciso escrever algo extraordinário sobre a sua história. A senhora não tem nada a me dizer? – Olha, moço. Eu não gosto dessa história de dizerem que o meu filho é Jesus. Todo mundo sabe como terminou a história de Jesus. Eu não quero ver meu filho perseguido nem 14


O Cristo da Periferia crucificado. Nenhuma mãe quer isso para seu filho. Acho que é melhor o senhor não escrever nada e deixar a gente em paz. Mais uma vez eu concordava com o que ela dizia. Parecia até que lia meus pensamentos. Só o que ela não sabia era que aquela história ridícula também agredia a minha auto-estima profissional. Eu estava igualmente constrangido de estar ali fazendo aquela reportagem. Minha vontade era encerrar o assunto e voltar para a redação, dizendo que foi alarme falso. Mas conhecendo o chefe eu sabia que ele iria ligar para Dona Irene para tomar satisfações e esta lhe diria para mandar um repórter mais habilidoso, colocando defeitos no meu trabalho e me tornando mais medíocre ainda aos olhos dele, se é que isso era possível. Então eu não tinha outra saída senão anotar o depoimento da Dona Maria e levar a reportagem adiante. Depois poderia fazer uma matéria sobre a ignorância popular. – Eu não posso fazer isso, Dona Maria, pois cumpro ordens. Se eu for embora agora, amanhã virá outro para fazer as perguntas que eu não fizer. Prometo que vou escrever somente o que eu ouvir. Se não existe nada de extraordinário na vida do seu filho, é exatamente isso que vou escrever. – Desculpe, eu não quis lhe ofender. Nem quero lhe fazer perder o seu emprego. É que essa história tem me preocupado muito ultimamente. Meu filho é tudo que me restou depois que o José se foi, e eu não o quero perder. 15


Jocelino Freitas – Como foi que o seu marido morreu? – Foi há dez anos. Ele estava trabalhando na construção de uma casa. Como carpinteiro devia fazer a estrutura de madeira que suportaria o telhado. O dono da casa comprou material muito ruim. A casa era alta, seu moço, e ficava num barranco. Meu José não teve culpa, ele avisou pro dono que a madeira era fraca. Quando colocou as telhas ficou pesado demais e ele caiu lá de cima, ele e o telhado todo, morro abaixo, meu José e aquelas telhas, meu José e aquelas madeiras fracas. Ele avisou pro dono que não ia aguentar, avisou sim, ele me disse antes que aquilo ia cair. As lágrimas correndo por aquele rosto bonito me engasgaram as palavras e, mais uma vez, eu me calei diante dela, esperando que se acalmasse, esperando que eu me acalmasse. Depois de algum tempo em silêncio consegui balbuciar uma pergunta. – Como foi a sua vida depois disso? – Meu filho tinha treze anos. Ele já trabalhava com o pai aqui em casa, na fabricação de móveis, de portas e janelas. Quando chegamos em casa, depois do enterro do José, o Emanuel me abraçou e disse que a gente ia dar um jeito de sobreviver. No mesmo instante ele pegou as ferramentas do pai e começou a trabalhar. Nem parecia uma criança. Eu escutava ele serrando e martelando o tempo todo. Não pedia ajuda nem para carregar peças mais pesadas que ele. Seu moço, o menino entregou todas as encomendas. Havia muitas coisas paradas porque o José deixou tudo 16


O Cristo da Periferia esperando, enquanto ele construía o telhado daquela casa onde perdeu a vida. Desde aquele dia não faltou comida na nossa mesa. Faz dez anos que o Emanuel é o homem desta casa e eu não precisei casar de novo. Eu lavo roupa e trabalho como diarista, mas é ele quem sustenta esta casa, porque sozinha eu não conseguiria me manter. Pela primeira vez senti que fizera uma pergunta certa na hora certa. Era o senso jornalístico fazendo diferença no meu trabalho. O orgulho que tinha de seu filho fez com que Dona Maria parasse de chorar. Falava com um brilho nos olhos que parecia que ia explodir de tanta alegria. Na sua condição de vida parecia uma vitória permanecer viúva. Não fosse a força de seu filho ela teria se casado com qualquer um que se propusesse a mantê-la. Bonita daquele jeito e com dez anos a menos, não faltaria pretendente. – Dona Maria, eu quero voltar um pouco mais no tempo. Seu filho nasceu em Belém, não é mesmo? Como foi o seu casamento? – Eu era só uma menina. O José já era um homem feito. Nossas famílias moravam longe, mas nossos pais eram amigos. Daí arranjaram nosso casamento. Eu o conheci poucos dias antes das bodas. Eu morria de vergonha e ele também. Nosso namoro era na presença da minha mãe, que falava mais que nós dois. Falava sempre em tom agressivo, como se estivesse brigando com alguém. Ela dizia ao José que eu não sabia fazer nada, que era muito mimada, que não estava pronta para casar. Que 17


Jocelino Freitas ele era homem feito e que ela não ia permitir que me maltratasse. Que ela ia persegui-lo pelo resto da vida se soubesse que não cuidava bem de mim ou se ele me deixasse. Parecia que ela não queria que ele casasse comigo. Tive medo que desistisse. Mas ele ficou ali, firme, até o dia do nosso casamento. Meu pai matou um boi e convidou toda a vizinhança. – E como foi o nascimento do seu filho? – Foram três dias de festa depois do casamento. Só depois disso meu pai deixou o José me levar pra casa. Acho que engravidei na primeira noite, porque Emanuel nasceu oito meses e meio depois do casamento. Ainda não estava no tempo de nascer, mas era um bebezão grande, lindo. A parteira se surpreendeu com a facilidade com que ele nasceu, nem parecia o primeiro filho, nem parecia que eu era tão nova. – E a senhora não teve outros filhos? – Não. Depois que o Emanuel nasceu eu nunca mais engravidei. O doutor do postinho disse que eu e o José tínhamos que fazer uns exames no hospital de clínicas, mas a gente nunca teve tempo nem dinheiro para tomar o ônibus e ir lá. E depois, seu moço, na condição que a gente vivia, não ter filhos sem precisar tomar remédio era até uma bênção. – E por que vocês saíram de Belém? – O José trabalhava na lavoura, numa terra que ganhou do pai dele. Passamos uns anos ruins e ele não conseguiu colheita suficiente para pagar o financiamento da semente. No 18


O Cristo da Periferia primeiro ano ele vendeu um trator e pagou. No segundo ano o trator fez muita falta, ele teve que semear no arado puxado por boi. A colheita não deu e ele teve que vender a criação pra não morrermos de fome. Daí não teve mais jeito, tivemos que vender a terra e tentar a sorte em outro lugar. Com o dinheiro da venda o José pagou as dívidas e com o que sobrou ele comprou as passagens, pois sabia que aqui no sul os parentes que vieram estavam se dando bem. Seu moço, aqui nós descobrimos o que era sofrer de verdade. Tudo que precisava tinha que comprar e cadê o dinheiro? Lá no norte sempre havia uma horta, sempre dava pra matar um frango, um leitão, dava pra pedir ajuda a um pai ou irmão, mas aqui não tinha quem socorresse. O que o José conseguia ganhar ia pro aluguel e a gente comia com o que sobrasse. Foi uma graça de Deus quando construíram esta Vila Nazaré e nós paramos de pagar aluguel. O José já tinha perdido a esperança de ser chamado pela Cohab. Com o dinheiro do aluguel ele pagava a prestação da casa e ainda sobrava. Foi assim que ele construiu esta carpintaria e passou a pegar encomendas. Depois de algum tempo ele deixou do emprego só pra se dedicar às empreitadas e à carpintaria. O Emanuel cresceu ajudando o pai, por isso não teve dificuldade em assumir quando José morreu. Mas por que ele tinha que morrer? A gente estava indo tão bem... As lágrimas voltaram-lhe aos olhos. A sinceridade daquele depoimento me comovia. Eu não sabia como iria traduzir a emoção daquela mulher tão sofrida no pequeno espaço que tinha 19


Jocelino Freitas na revista. E ainda não havia falado com o filho. Era apenas a segunda entrevista da reportagem que eu nem sabia se seria publicada. Até ali não havia nada que justificasse a publicação. Uma vida normal, sofrida como a de toda família que migra do norte para o sul. Alguma tragédia, mas nada digno de uma reportagem. Por precaução resolvi anotar tudo. Meu papel era escrever e fotografar. O chefe decidiria o que publicar. – Quando foi que começaram a chamar seu filho de Jesus? – Desde que nós viemos morar aqui na Vila Nazaré o povo já brincava com isso. José e Maria que vieram de Belém, o filho só pode se chamar Jesus. E ainda com esse nome de Emanuel. – Então tudo não brincadeira? De um apelido?

passa

de

uma

– Sim. No começo o Emanuel se importava. Brigava com os meninos e acho que por isso o apelido pegou. Hoje ele é conhecido aqui na Vila Nazaré por Jesus ou Emanuel, responde como o chamam. Parecia que a minha entrevista estava encerrada. O assunto que me levou à Vila Nazaré estava definitivamente esclarecido. Não valia a pena prosseguir na investigação. Dona Maria havia me dado todas as informações de que necessitava para provar ao chefe que o chamado era alarme falso. Dona Irene sentiu que eu não ia perguntar mais nada e percebeu que ficaria desmoralizada se eu saísse dali 20


O Cristo da Periferia naquele momento. Pela primeira vez interferiu e disse: – Maria, conte a ele sobre o Alcides! – Irene, isso foi uma coincidência. Não vale a pena encher a cabeça do moço.

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4 Quem é o Alcides? – perguntei curioso, pois já havia entrevistado Dona Irene e ela não havia mencionado nenhum Alcides. Dona Maria respondeu: – Alcides é um homem que mora aqui perto. Ele tinha um problema na vista e não enxergava desde que sofreu um acidente. Os médicos diziam que ele não tinha problema nenhum e que voltaria a ver a qualquer momento. Um dia ele estava contando essa história ao Emanuel e o meu filho perguntou a ele porque então não voltava a enxergar naquele momento. Tudo parecia ser um problema psicológico do Alcides. O Emanuel só precisou mandar o pobre fechar os olhos e colocar os dedos sobre eles. Emanuel disse para ele fixar o pensamento, disse que ele devia acreditar que ia abrir os olhos e estaria curado. Quando o Alcides abriu os olhos, seu moço, ele viu o meu filho sorrindo pra ele, e começou a gritar, a beijar os pés do Emanuel, dizendo que Jesus o havia curado. Ele não fez nenhum milagre, moço, ele só disse pro homem acreditar que podia, foi só isso. – E o Alcides foi ao médico depois disso? – Claro. O doutor disse a ele que era só uma questão de tempo, que já era esperado que 22


O Cristo da Periferia ele voltasse a ver. Mas o Alcides continua dizendo pra todo mundo que foi Jesus quem curou ele. E esse povo acredita nisso, moço. O povo fica trazendo doente pro meu Emanuel curar, como se ele fosse o Cristo ressuscitado. – E o que o seu filho diz disso? – Ele diz que não pode curar ninguém, que cada um pode curar a si próprio. Deus é pai dele como é pai de cada um de nós. Ninguém precisa de intermediário para falar com seu pai. – Seu filho estudou até que série? – Quando o pai morreu ele estava na sétima série. Nunca mais ele voltou à escola. Não deu mais, não. – E ele vai à igreja com a senhora? – Não vai não. Quando ele era menino ia sempre comigo. Até coroinha ele foi. Mas depois que o José morreu ele ficou muito revoltado. Ele dizia que tinha muito trabalho, mas eu sabia que estava revoltado com Deus. – Mas a forma como a senhora disse que ele fala de Deus não me parece com alguém revoltado. – Meu filho não guarda mágoa, não, moço. Ele já fez as pazes com Deus faz tempo. – E como foi isso? – Um dia eu estava dormindo e ele veio me acordar. Disse que havia entendido porque Deus tirou o pai dele. Era porque o José já tinha cumprido a missão dele neste mundo. A vida do José já estava esgotada para Deus e era preciso 23


Jocelino Freitas que ele se fosse. Só assim o Emanuel poderia cumprir a sua missão. – E qual era essa missão, Dona Maria? – Ele não disse não. Mas depois disso ele voltou a sorrir. Ele tinha quinze anos e nunca mais eu vi o meu filho triste. – E ele voltou a frequentar a igreja? – Não, nunca mais ele voltou a frequentar a igreja como fazia antes. Mas ele já leu a minha bíblia várias vezes. Ele vive lendo. Sempre que eu preciso vou procurar no quarto dele, pois sei que está lá. Ele entende da bíblia mais que eu, mais até que um padre. Ele tenta falar comigo, mas eu não entendo. Eu disse a ele para ir falar com o padre, mas ele não quer. Ele diz que os padres não podem responder as perguntas dele. Neste ponto tropeçamos na minha própria ignorância. Eu mesmo não havia lido a bíblia nenhuma vez. O pouco que sabia era como católico não praticante, daqueles que só aparecem na igreja quando tem casamento ou batizado. Bíblia para mim só existia nos filmes do cinema. Então eu não podia me aprofundar no assunto que Dona Maria havia começado. Mas uma coisa era certa: eu não podia encerrar a reportagem sem antes entrevistar o tal Emanuel e o ex-cego Alcides. – Posso falar com o seu filho? Ele está trabalhando agora? – Ele não está trabalhando hoje. Deve estar aí pela rua. Não é difícil encontrá-lo. Se quiser pode voltar aqui mais tarde que ele volta para 24


O Cristo da Periferia jantar. Não o convido para comer porque não temos nada especial.

conosco

Agradeci e saí. Sinceramente eu não gostaria de estar naquele lugar depois do pôrdo-sol.

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5 Saí da casa da Dona Maria sozinho, me despedindo dela e da Dona Irene, mais preocupado em ver se meu carro ainda estava com as calotas do que encontrar o tal Jesus Emanuel. Quando cheguei perto do carro e vi que ainda estava inteiro senti um alívio muito grande. A prestação já me custava muito e eu não podia ter despesas adicionais. Se isso ocorresse o carro ficaria na garagem e eu teria que andar de ônibus até pagar o prejuízo. Felizmente nada havia acontecido. Os moleques haviam parado de jogar futebol e estavam conversando perto do meu carro. Aquele que brincou comigo quando cheguei voltou a provocar: – Como está o joelho? Eu nem lembrava mais do incidente da minha chegada. O joelho já não doía. Mas a pergunta foi conveniente, pois eu precisava achar o Jesus da Vila Nazaré e aqueles meninos deviam conhecê-lo. – Está bem, obrigado. Você conhece o Emanuel, o carpinteiro, filho da Dona Maria?

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O Cristo da Periferia – Eles conhecem! – respondeu apontando para os amigos, que me olhavam com ar de ironia. – Vocês o conhecem? Podem me dizer onde posso encontrá-lo? Os meninos não paravam de rir, como se eu fosse um palhaço. Quando já estava pronto para ir embora, um deles falou: – O Jesus está bem na sua frente! Fiquei ali, olhando com surpresa e curiosidade para aquele homem à minha frente, que me olhava com um sorriso, em meio às gargalhadas de seus amigos. Era quase da minha idade, um pouco velho para estar jogando futebol na rua com aqueles moleques. Depois de conhecer a sua história compreendi que ele tinha o direito de se divertir um pouco. Imediatamente pensei no meu joelho. Como ele poderia saber do meu problema? Como sabia que eu tinha esse defeito se não havia nada de sobrenatural nele? Precisava lembrar de perguntar isso a ele. Mas, como um repórter, eu tinha que pensar rápido. Tinha que agir rápido. – Então você é o Jesus da Vila Nazaré? O homem que faz milagres! – É você quem está dizendo. Meu nome é Emanuel. – Me contaram que você fez um cego voltar a enxergar. Isso não é um milagre? – Você está muito crédulo para quem chegou aqui tão contrariado. Que mudança é essa? 27


Jocelino Freitas Como ele sabia da minha contrariedade? Como poderia adivinhar? Será que a minha expressão ao chegar me denunciou tanto assim? Mas e quanto ao meu joelho? Ele estava me intrigando cada vez mais. Parece que a ironia com que conduzi a conversa inicialmente estava se virando contra mim. Parece que meu interlocutor era bom na arte de usar as palavras, de responder perguntas com outras perguntas. A roupa simples disfarçava uma mente privilegiada. Eu devia medir muito bem as palavras para falar com ele. Na faculdade aprendi que o repórter deve conquistar a confiança do entrevistado, deve responder as suas perguntas com a mesma sinceridade que espera que sejam respondidas as que vai fazer. É normal que o entrevistado o questione. A entrevista nem havia começado e eu já estava em desvantagem. – Estou aqui porque sou repórter e gostaria muito de conhecer a sua história – respondi. Acho que fui convincente, porque Emanuel me estendeu a mão. – É um prazer tê-lo aqui, Paulo. responder a todas as suas perguntas.

Vou

– Como você sabe o meu nome se eu ainda não o disse? – Seu nome não é Paulo? Você tem cara de Paulo. – É sim, mas como você soube antes de eu falar? – Eu olhei para você e achei que se chamava Paulo. Não sei como isso aconteceu. 28


O Cristo da Periferia – Foi assim que soube do meu problema no joelho também? – Não, com o joelho foi diferente. Eu vi o jeito como você desceu do carro. Mesmo com a pressa que estava, você desceu com a mão no joelho, como se estivesse segurando para não tirar do lugar. Era um gesto típico de quem tem problema no joelho ou ligamento. Respostas rápidas e convincentes. Só não explicavam como um pobre carpinteiro havia desenvolvido tanta percepção. – Você adivinha os nomes das pessoas somente pelo seu jeito? – Algumas vezes sim. Parece que uma voz sopra o nome das pessoas no meu ouvido. Mas isso não acontece sempre. – E você atribui esse “sopro” a alguma causa sobrenatural? A algum anjo? – Não, isso é bobagem. Qualquer um pode fazer isso. Basta um pouco de concentração, basta um pouco de observação e atenção. – Eu posso fazer isso? – Você pode fazer o que quiser. Você pode ser o que quiser. Pode ser um grande repórter, ter motorista, fotógrafo. Basta um pouco de observação e atenção aos sinais que estão à sua volta. Aquele Jesus estava ficando cada vez mais intrigante. Em cada frase revelava algo de mim, como se conhecesse meus pensamentos, como se soubesse dos meus anseios e inquietações. 29


Jocelino Freitas – Você promete muito para quem tem tão pouco – provoquei. – Minha mãe não lhe disse que nunca faltou comida em nossa mesa? De que mais eu preciso? Mais uma vez ele me desmontava e respondia uma pergunta com outras que eu não sabia responder. Mais uma vez eu o desafiei e fiquei com cara de bobo. Entrei no carro e saí dali. Ele me acenou como se dissesse: Até amanhã, Paulo!

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O Cristo da Periferia

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6 O chefe entrou na redação com o mauhumor de sempre. Da porta já foi gritando com os repórteres principais para saber como andavam suas reportagens. Eles falavam todos ao mesmo tempo, enquanto caminhávamos para a sala de reuniões. Enquanto ouvia os relatos sobre as matérias principais, pensei nas palavras de Emanuel, de que eu podia ser o que quisesse, bastava um pouco de observação, de atenção. O que eu estaria perdendo? Se participava da reunião como todos os repórteres, por que não conseguia o respeito do chefe? Por que me sentia tão pequeno diante daquela gente? Uma matéria de capa era o meu sonho. Um fotógrafo, motorista, assistente, informantes. Parece que as promessas do Cristo da periferia não eram tão fáceis de serem alcançadas, pois eu não conseguia ver de que modo um pouco de observação e atenção poderiam me ajudar. Ninguém naquele jornal era mais atento do que eu, ninguém. Envolto nesses pensamentos nem percebi que o chefe falava comigo, enquanto todos esperavam minha resposta: – Bom dia, senhor Paulo! Pela terceira vez, será que o senhor poderia nos dar a honra de 32


O Cristo da Periferia falar como está a reportagem sobre o Cristo da periferia? – Ah! Desculpe chefe, eu estava pensando nisso. Ontem eu entrevistei a informante e a mãe dele. Parece que é alarme falso. O homem não tem nada de Cristo. Nem à igreja ele vai. – Ótimo! Então quero que você vá visitar uma mulher que diz ter uma pata que criou um cachorrinho. Pegue o endereço com a minha secretária. – Chefe, se o senhor não se importar, eu gostaria de voltar à Vila Nazaré hoje. Quero entrevistar o Cristo e um homem que voltou a enxergar. – O homem fez um cego enxergar? E você diz que é alarme falso? Geraldo, quero que vá lá e entreviste o Cristo e o cego. Paulo, você vai ver a pata que criou o cachorro. Passe as anotações do Cristo para o Geraldo! Mais uma vez saí da reunião como um idiota. Perder a reportagem foi o cúmulo da incompetência. Eu estava distraído justamente quando o chefe perguntou sobre o meu trabalho. Queria dizer que precisava fazer mais investigações, mas disse logo que era um alarme falso. Precipitei-me e acabei escalado para mais uma reportagem medíocre. Passei as entrevistas da Dona Irene e da Dona Maria para o Geraldo e peguei o endereço da pata com a secretária do chefe. Não passei anotações da conversa que tive com Emanuel porque não fiz e não considerei aquilo uma entrevista, mas uma conversa pessoal. Pretendia terminar um roteiro 33


Jocelino Freitas das perguntas antes de ir até lá. Uma entrevista técnica evitaria que eu fosse surpreendido novamente com respostas em forma de perguntas. Agora eu não teria mais esse problema para entrevistar uma pata e um cachorro. Fui à casa da pata que criou o cachorrinho e fiz a entrevista com a dona. Tirei umas fotos e voltei para a redação. Digitei a matéria, acrescentei as fotos da câmera digital e passei para o arquivo de matérias acabadas. Agora ficava à disposição do chefe para ocupar qualquer espaço que sobrasse na edição. Mais uma ótima reportagem sobre um assunto inútil. A vantagem de cobrir matérias assim é que você faz tudo em pouco tempo e ainda pode se dedicar a outras tarefas da redação. Fiquei por ali olhando o trabalho dos assistentes. Os repórteres se apóiam muito neles para que suas reportagens tenham sucesso. São eles que checam as informações que são passadas por quem está na rua e, também, pelos informantes. Um repórter que tem um assistente pode descobrir uma pessoa ou um endereço sem precisar voltar à redação. Pode seguir uma pista com certeza, pois sabe que há alguém pensando com ele e mapeando todos os seus passos. Eu sonhava ser um repórter de primeira linha. Ter um assistente para ligar e mandar verificar todas as pistas que eu imaginasse, obter todas as informações que precisasse sem retornar à redação, entregar as anotações e recebê-las digitadas, prontas para edição. – Alô! Câmbio! astronauta Paulo! 34

Terra

chamando

o


O Cristo da Periferia Era o chefe gritando em meu ouvido. Pegou-me distraído de novo. A redação inteira estava olhando para mim com um sorriso de gozação. – Ah! Chefe, o senhor comigo? Desculpe, eu estava...

estava

falando

– Você já terminou de editar a matéria da pata que criou o cachorro? – Sim senhor, eu... – Então quero que vá até a Vila Nazaré e entreviste o Cristo e o cego. Agora! – Mas, o Geraldo... – O Geraldo está na delegacia. Roubaram o carro dele logo que chegou à vila e só agora ligou avisando. Você guardou cópia das anotações das entrevistas que fez com a Virgem e a informante? – Sim, elas já estão digitadas. Fiz isso quando... – Ótimo! O Geraldo perdeu o carro com todas as anotações. Vá logo e não seja assaltado. Carla, onde está o meu café? Afonso, como está o caso do sequestro do banqueiro? Inácio, já falou com o pessoal de Brasília? Patrícia, nosso correspondente de guerra fez contato? Cristina, as notícias esportivas saem até o fechamento da edição? Ou teremos que publicar uma nota dizendo: ‘desculpem a nossa incompetência’? O chefe, estressado, saiu gritando com todo mundo. Consegui minha reportagem de volta, 35


Jocelino Freitas mas tinha pouco tempo. Minha sensibilidade da véspera tinha fundamento. Assaltaram o Geraldo. Ainda bem que ele era um repórter dos bons e o seu carro devia estar segurado. Se fosse o meu, estaria perdido. Tive sorte de transcrever as entrevistas para o computador. Fiz isso no dia anterior, ao chegar em casa. Eu não consegui dormir, pois estava muito impressionado com a conversa que tive com Emanuel. Fiquei até a madrugada digitando e revisando as anotações. Talvez por isso estivesse tão distraído. Para falar a verdade, eu digitei também os trechos que lembrava da conversa que tive com o “Messias” e ainda preparei algumas perguntas para a entrevista técnica. Não passei isso ao Geraldo, óbvio, porque ele devia me achar um idiota, como todo mundo na redação, e a conversa com o Emanuel me fez sentir assim. Eu gostaria de ver como o Geraldo se sairia com ele. Mais ainda, eu daria tudo para ver o chefe falando com ele, pois os dois pensam muito rápido. Seria legal ver o chefe perdendo o rebolado diante de um carpinteiro que só estudou até a sétima série. – Preciso aprender essa técnica de responder perguntando, que o Emanuel domina com tanta facilidade – falei sozinho, como de costume. – Você ganha tempo para pensar se faz com que o interlocutor responda suas perguntas. Só não pode deixar que seu entrevistado fuja das perguntas questionando você. Se você é o repórter, deve deixar bem claro que sua opinião não é importante naquela entrevista, pois sua missão é ouvir e não falar. 36


O Cristo da Periferia O escritório da revista ficava no centro da cidade. Era uma construção antiga, um velho casarão num terreno enorme. A área de estacionamento, à frente, era delimitada por canteiros nos quais havia árvores centenárias muito frondosas. Os carros ficavam sempre sob a sombra. Embora trabalhasse no centro da cidade meu carro sempre estava cheio de folhas. Pior era na primavera quando, além das flores, ainda caíam aquelas sementinhas que manchavam a pintura. Além disso os passarinhos também faziam a festa e os carros levavam as lembranças desses passarinhos. Como eu não tinha dinheiro para pagar um lavacar com frequência, minhas folgas eram dedicadas a lavar o carro. Como homem precavido, eu tinha alguns panos no porta-luvas para limpezas de emergência. Contudo, considerando a pressa que o chefe nos impingia, muitas vezes saí com o carro todo marcado com as fezes dos passarinhos. Uma vez um repórter tentou se queixar ao chefe, mas este foi logo avisando que não tinha tempo para pensar nessas bobagens e quem não estivesse satisfeito podia estacionar na rua ou num estacionamento pago. O carro do chefe era o único que cabia na garagem original da casa e, por isso, estava sempre limpinho. A garagem devia ser a única peça do casarão que não havia sido modificada. Paredes foram removidas, janelas trocadas, toda uma parafernália de tubulações foi colocada para adaptar a velha casa aos avanços do mundo moderno. Vários anexos foram construídos. O encanamento e a fiação elétrica foram substituídos. Do aspecto 37


Jocelino Freitas antigo da casa só restara a fachada, uma bela lareira que foi toda restaurada, e as grandes peças do andar superior, onde funcionavam a administração, departamento de pessoal e contabilidade. No andar térreo, passada a recepção, com uma escadaria imponente que levava à administração, se podia encontrar a redação propriamente dita, contrastando com a paz aparente da primeira parte da casa. O chefe estacionava nos fundos, onde ficava a garagem. Sua chegada era prenúncio de turbulência e cobranças a todos os empregados. Cheguei ao meu carro e o encontrei todo coberto pelas pétalas das flores que caíam naquela época do ano. Os passarinhos também haviam deixado lembranças. Mas como o chefe exigiu que eu me apressasse, pois o Geraldo havia perdido muito tempo, graças aos assaltantes, não tive tempo sequer de fazer a limpeza superficial que fazia quando tinha tempo, usando uma mangueira que os empregados se cotizaram para comprar. Saí com o carro como estava. As pétalas foram caindo pelo caminho. Acionei o limpador de pára-brisa, que fez aquela meleca com as fezes que um passarinho havia depositado bem no meu vidro. Para essas havia solução, o problema eram aquelas que caíam na lataria, pois manchavam a pintura se secassem, desvalorizando o veículo. A Vila Nazaré ficava a trinta minutos da redação, fora da hora do ‘rush’, pois em horários de congestionamento poderia demorar mais de uma hora para chegar lá. 38


O Cristo da Periferia Fui saindo do centro da cidade e o trânsito melhorando. Era preciso tomar cuidado para não exceder o limite de velocidade, pois a cidade estava invadida por radares, só para a Prefeitura arrecadar mais com multas. Que incoerência essa necessidade de andar rápido com tantos bloqueios que nos são impostos. Pensei em fazer uma reportagem sobre isso. Mas também não se podia colocar em risco as vidas alheias só porque eu estava com pressa. Seria muito egoísmo pensar assim. As pessoas têm que se conscientizar de que não se deve andar rápido, mas sair a tempo. O segredo é sair com antecedência para chegar ao destino sem exceder o limite de velocidade. Naturalmente, essas divagações não interessariam ao meu chefe, que queria os resultados sem se importar se eu ia ou não tomar multas para chegar ao local. Entrei na Vila Nazaré. Embora já houvesse estado lá, eu não conseguia deixar de me impressionar com o lugar. Por ser um bairro em formação não havia vegetação. As árvores fininhas, transplantadas, eram o único verde que se via nas ruas e praças. O asfalto era antipó, um asfalto de baixa qualidade, que não suporta tráfego pesado. Certamente os caminhoneiros não ligavam para isso, pois vi dois ou três caminhões estacionados em frente a certas casas – deviam ser moradores – e também furgões de entrega fazendo o seu trabalho. O antipó apresentava, com isso, muitos buracos, o que me impedia de trafegar depressa no interior da Vila, mesmo porque havia pessoas que caminhavam na rua como se estivessem 39


Jocelino Freitas num parque. Nem ligavam para a presença do carro, que quase lhes tocava as pernas. Com a cara que me olhavam dava medo até de buzinar. Era como se me lembrassem, com um simples olhar, que eu não devia estar ali. Olhei o relógio e vi que marcava três horas da tarde. Teria que ser rápido se quisesse concluir minha missão naquele dia. Do contrário teria que pedir mais tempo ao chefe e isso poderia me custar novamente a perda da matéria.

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O Cristo da Periferia

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Jocelino Freitas

7 Cheguei à casa da Dona Maria. Ela me informou que Emanuel não estava. Havia sido contratado para uma obra, mas chegaria ao final do dia. Perguntei sobre o Alcides, que era cego, e ela me apontou a casa dele. Eu voltaria mais tarde. Aproveitaria o tempo para entrevistar o cego que voltou a enxergar. O homem que me atendeu no portão parecia ser um aposentado. Cabelos grisalhos e sem corte, a barba por fazer, camisa de manga curta, calça social um ou dois números menor que o tamanho dele e chinelos de dedo, tipo havaianas. Com um jeito desconfiado, perguntou o que eu queria com o Alcides. Depois que eu disse que era repórter e estava ali para fazer uma entrevista com o homem que era cego e voltou a ver, ele admitiu que era o próprio Alcides. A velha técnica de responder com sinceridade as perguntas do entrevistado funcionou de novo. Abriu o portão e convidoume a entrar. Era uma casa muito escura, com móveis que pareciam ter saído de um antiquário. A sala era muito pequena para os móveis, dava a impressão de que tudo estava empilhado ali, como num depósito. As persianas horizontais fechadas deixavam o ambiente em penumbra, meus olhos demoraram a se acostumar. Tudo 42


O Cristo da Periferia revelava que ali morava alguém que dependia da visão para se locomover.

não

– Então, Seu Alcides, o senhor tinha um problema na vista? – Um problema não. Eu era cego e Jesus me devolveu a visão. – O senhor nasceu cego? – Eu enxergava e fiquei cego depois de um acidente. Foram quinze anos, três meses e vinte e cinco dias sem enxergar. – E como o senhor voltou a enxergar? – Foi Jesus quem me curou. – Dá para ser mais específico? Como foi que Jesus o curou? – Ele mora aqui perto. Eu sempre imaginei que o filho da Dona Maria fosse um santo. Desde que o meu amigo José morreu ele sustentou a mãe como se fosse homem feito. Quando eu era novo, trabalhava como pedreiro. O José sempre levava o moleque aonde ele ia. Às vezes a gente trabalhava na mesma obra e eu via que o menino era de bom coração. – O senhor trabalhou na obra em que o Seu José morreu? – Não, eu já era cego. Um dia eu caí de um andaime e bati a cabeça no chão. Eu bati assim de lado – disse apontando o dedo indicador para o lado direito da face – e a batida atingiu o nervo do olho. O médico não entendeu como eu fiquei cego. Foi o José que me acudiu quando eu caí. Era um amigo pra todas as horas. Eu 43


Jocelino Freitas nunca vi uma pessoa tão direita e tão disposta a ajudar. Não é porque ele morreu que eu estou dizendo isso. Pode perguntar pra todo mundo aqui na vila. Pelo menos os mais velhos, que o conheceram, ninguém tem um dedo de queixa do meu amigo José – falou com ênfase e batendo a mão direita no peito a expressão ‘meu amigo José’, deixando claro que considerava muito importante ter o pai de Emanuel em seu rol de amigos distintos. – Ele me levou pro hospital. Depois disso eu fiquei aposentado e quando sarei já estava velho demais para voltar a trabalhar. Daí o doutor me deixou aposentado mesmo. – E como foi que Jesus o curou? – Como eu lhe disse, eu desconfiava que o Jesus fosse santo. O nome dele é Emanuel, o mesmo nome que o anjo Gabriel mandou Maria e José darem ao Cristo. Além disso, ele nasceu numa cidade chamada Belém, igual ao Cristo. Ainda por cima mora numa vila chamada Nazaré e trabalha como carpinteiro, igualzinho ao Nosso Senhor. É claro que ele é Jesus. – E como foi que Jesus o curou? – Bem, eu sou evangélico. Então falei ao pastor que eu estava desconfiado de que o Senhor Jesus Cristo já havia voltado e que Ele vivia entre nós. O pastor disse que Jesus viveu trinta anos como pessoa comum antes de descobrir sua santidade. O Emanuel só tem vinte e três. Ele pode estar vivendo sua vida de homem comum, mas eu tenho certeza que Ele é o Senhor Jesus Cristo que voltou a este mundo para fazer a Justiça do Pai Criador. 44


O Cristo da Periferia – E como foi que Jesus o curou? – Quando sofri o acidente e fiquei cego, eu era casado e morava aqui, com minha mulher e os cinco filhos. A mulher foi a primeira a me deixar. Seis meses ela aguentou, seis meses. Depois inventou uma viagem para a casa dos pais. Devia voltar em quinze dias. Nunca mais voltou. Os filhos foram indo atrás dela, um a um. No prazo de um ano eu estava sozinho. Ninguém gosta de conviver com um doente. Eles vêm me visitar de vez em quando, mas eu me acostumei à solidão. Não quero mais ninguém morando aqui. Outro dia uma filha minha se apartou do marido e veio morar aqui com meus três netos. Eu tenho oito netos, três dela, três do meu filho mais velho e dois do terceiro. Ela é a segunda. Os outros dois são solteiros e moram com a mãe deles. Ela não quis ir para a casa da mãe, porque não tem muito lugar lá e eu vivo sozinho aqui nesta casa em que criei cinco filhos. É apertado, mas coube todo mundo. Precisava ver como as crianças me incomodaram. Deus que me perdoe por falar assim dos meus netos, mas eles parecem uns capetas. Pulavam por toda parte, gritavam, estragavam as coisas, tiravam do lugar. Dei graças a Deus quando a mãe deles se entendeu com o marido e voltou para a casa dela. Minha filha vivia lavando roupas e os varais eram estendidos lá fora. Isso me incomodava muito, pois tinha que ficar desviando quando entrava e saía de casa. Foi bom porque ela lavava minhas roupas também, mas ela guardava tudo em lugar diferente e eu me atrapalhava na hora de procurar uma roupa pra vestir. Como eu era cego, adquiri o costume 45


Jocelino Freitas de guardar minhas coisas sempre nos mesmos lugares. Se vou pegar uma coisa e ela não está lá, só depois é que me dou conta de que posso enxergar e procurar com os olhos. Aleluia Jesus! – Seu Alcides, como foi que Jesus o curou? – perguntei, retomando o rumo da entrevista. – Eu estava com aquela idéia fixa de que o Emanuel era o Senhor Jesus. Então eu ficava aqui em casa prestando atenção para ouvir a voz dele quando passasse. Ninguém sabe o que Ele fez na outra vida antes dos trinta anos, mas quando a mãe pediu, Ele transformou água em vinho. Então pensei: Vou falar com Ele e se Ele não me ouvir vou falar com a mãe Dele. Em dois mil anos deve ter adquirido muito mais poder. Quando ficar famoso nem vai lembrar deste pobre cego. Então um dia eu ouvi a voz Dele passando lá no meu portão e gritei: “Emanuel, tem piedade de mim!” Ele ouviu o meu chamado e perguntou o que podia fazer por mim. Eu disse que queria voltar a enxergar. – Foi então que ele fez o milagre? – Foi! Ele disse que eu podia fazer o que eu quisesse, podia enxergar se quisesse. Eu disse que desejava muito voltar a enxergar, mas nada do que eu fazia dava resultado. Então Ele mandou que eu fechasse os olhos e colocou as mãos sobre os meus olhos, desse jeito. Eu senti os dedos Dele como se fosse um ferro em brasa, queimando o meu cérebro. Mas não doía, era uma sensação de bem-estar, como se Ele estivesse tirando tudo de ruim que existia na minha cabeça. Havia muitas pessoas ao redor, mas eu só ouvia a voz Dele. Ele dizia que eu só 46


O Cristo da Periferia precisava de um pouco de atenção e concentração, que quando abrisse os olhos eu voltaria a enxergar. Era só me concentrar, era só acreditar, era só tirar da cabeça qualquer dúvida de que isso era possível. Rapaz, eu acreditei porque tinha certeza de que Ele era o Senhor Jesus que estava ali, com as mãos nos meus olhos. Eu não tinha nenhuma dúvida de que iria abrir os olhos e ver a imagem do Salvador bem na minha frente. Eu queria isso, era tudo o que eu queria. Quando Ele mandou abrir os olhos eu abri. Foi a visão mais emocionante que alguém pode ter na vida, abrir os olhos e ver o Cristo Jesus ali olhando pra gente. Foi isso que me aconteceu. Eu fui abençoado pelo primeiro milagre do Senhor Jesus Cristo, dois mil anos depois do primeiro nascimento. Eu sou um abençoado pelos céus. – O médico não lhe disse que poderia voltar a enxergar a qualquer momento? Não seria só uma coincidência? – Blasfêmia! Como você se atreve a duvidar do poder do Filho de Deus? – Eu não estou duvidando, Seu Alcides. É que a Dona Maria me disse que o seu caso foi apenas uma coincidência. – A Dona Maria não quer aceitar a verdade. Ela tem medo que o filho seja morto pelos poderosos. Ela tem medo dos desígnios do Senhor. Mas o que é a vontade da Dona Maria diante do Altíssimo? – Eu falei rapidamente com o Emanuel ontem. Ele não me pareceu levar muito a sério 47


Jocelino Freitas essa santidade. Quando cheguei aqui ele jogava bola com os adolescentes lá na praça. – Ele ainda não tem consciência da Sua divindade. Isso só vai acontecer daqui a sete anos. É normal que Ele brinque com as crianças. “Vinde a mim os pequeninos!” Lembra? Você tem que ser como uma criança para entrar no Reino dos Céus. – Ele fez mais algum milagre depois disso? – Não. Eu sou um abençoado dos Céus. Muitas pessoas o procuraram, depois, pedindo um milagre, mas ainda não chegou a hora Dele. Ele diz que cada um pode fazer seus próprios milagres. Mas ninguém tem tanta fé quanto eu. Somente eu tive fé suficiente para ver o Senhor Jesus. Mesmo cego eu enxerguei o Cristo Jesus, Glória a Deus! – E o seu pastor acredita que aconteceu um milagre? – Ele acredita. Ele diz que devemos respeitar a vontade do Senhor, que devemos esperar sete anos para conhecer a Sua glória. Agora é tempo de oração. De oração e arrependimento. Uma vida santa é o que o Cristo espera de cada um de nós. Ele vive como homem porque, no dia da Sua Glória, Ele irá julgar todos nós. Ele vai jogar os pecadores no fogo do inferno e levar os justos para o Reino de Deus, que será aqui na Terra mesmo. Só os bons vão conhecer o Paraíso. E não adianta fugir nem mentir, porque Ele está à espreita. O Senhor vive entre nós! Pecadores, preparai-vos para a ira do Senhor! 48


O Cristo da Periferia Agradeci a entrevista do Seu Alcides, me despedi e saí. Era um caso típico de fanatismo e auto-sugestão. Se eu fizesse mais uma pergunta cética corria o risco de ser agredido. Incrível como certas entrevistas a gente faz com uma pergunta só. Eu perguntei como Jesus o curou e ele me contou toda a sua história de vida, toda a sua tragédia e o milagre que atribui ao Emanuel. Acho que um milagre daqueles até eu faria se o sujeito pensasse que eu era Jesus. Nunca vi tanto fanatismo. O sol já estava se pondo e eu precisava voltar à casa da Dona Maria.

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Jocelino Freitas

8 Antes disso passei num mercadinho e comprei algumas frutas, uma cesta básica e um frango assado. Eu não queria correr o risco de interromper a entrevista por causa da simplicidade da casa. Também não queria constranger os donos da casa por não ter nada a oferecer. Quando cheguei de volta, Dona Maria ficou muito emocionada com os presentes que levei. – Agora eu o convido para jantar, Seu Paulo. Já não tínhamos mais nada para comer hoje. Comemos o pouco que tínhamos no almoço. Foi Deus que lhe mandou. Ele sempre manda o que a gente precisa na hora certa. Meu filho já está para chegar. O senhor fique à vontade. Enquanto conversávamos chegou a Dona Irene e ofereceu a sua garagem para guardar o meu carro. Contou-me que um carro foi roubado ali pela manhã. – Os ladrões estavam passando quando o rapaz parou o carro. Nem imaginou que eles queriam roubar. Foi perguntar alguma coisa e eles puseram um revólver na cara dele. O coitado teve que entregar a chave do carro, o 50


O Cristo da Periferia relógio, os documentos e todo o dinheiro que tinha no bolso. Depois eles fugiram dando tiros pra cima. O rapaz saiu correndo para o outro lado e nem deu tempo da gente acudir. Eu estava olhando pela janela, mas não pude fazer nada. Eles vendem os carros roubados para comprar drogas. A gente não pode denunciar, senão eles tocam fogo na casa da gente, estupram e matam. É a lei do silêncio que reina aqui na Vila Nazaré. – E a polícia não faz nada? – De vez em quando passa um carro da polícia por aqui. Quando prendem alguém eles levam para a delegacia, dão uma surra, tomam todo o dinheiro que o pobre tem no bolso e depois soltam. Quando é um traficante eles nem prendem. O traficante vai logo entregando um dinheiro pra eles. Os policiais ganham tão pouco que vendem a própria dignidade. Acabam se tornando cúmplices dos crimes que deviam reprimir. – Dona Irene, a senhora parece ter um padrão de vida melhor que o das outras pessoas daqui. Por que a senhora e seu marido não se mudam? – Precisa não, moço, a gente já está acostumada. Aqui nós fizemos a nossa vida e esses meninos nós vimos nascer. Eles respeitam a casa da gente e a gente respeita eles. Não tem perigo pra nós, não. Nossos filhos foram criados nesta vila, nós estamos acostumados com a escola, a igreja, o mercado, os vizinhos. Não vale a pena mudar daqui. O que a gente tem é muito aqui e pouco em outro 51


Jocelino Freitas lugar. Aqui é o nosso lugar. Pode guardar seu carro na garagem lá de casa que estará seguro. Meu marido só chega tarde da noite e a minha casa todo mundo respeita. A da Maria também, mas aqui não tem garagem. Fiquei agradecido com a oferta da Dona Irene. Com o carro em segurança eu poderia entrevistar Emanuel com muito mais tranquilidade. O coitado do Geraldo não teve a mesma sorte. Não teve tempo nem de conhecer aquelas pessoas tão boas. Independentemente da santidade eu estava aprendendo a admirar aquelas senhoras, aprendendo o valor que tem uma vida simples. A narrativa de Dona Irene foi muito elucidativa em relação à vida de pessoas honestas no meio de ladrões e traficantes. Eu precisava lembrar de escrever aquelas palavras. Isso podia ser muito útil quando eu fosse fazer uma reportagem sobre o tráfico e o submundo do crime organizado. Mas isso era matéria para capa de revista e eu só faria uma reportagem assim no dia em que o chefe parasse de me ver como o idiota de plantão, o palhaço distraído da redação. Para isso eu precisaria prestar mais atenção quando ele estiver por perto. Só naquele dia me pegou distraído duas vezes. Atenção e concentração. Essas palavras estavam virando receita de sucesso para mim.

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9 Emanuel chegou em casa e beijou a mãe. Olhou para a mesa enquanto a mãe me apontava e contava a doação que eu havia feito. Ele me estendeu a mão com aquele sorriso aberto. – Bem vindo, Paulo! Eu não te disse que na minha mesa nunca falta comida? Estávamos esperando por você hoje. Sorri e apertei a sua mão, sem saber o que responder. Ele me convidou para sentar e esperar enquanto tomava um banho. Sentei e continuei assistindo a novela numa televisão antiga que tinha um sinal muito ruim, cheio de sombras. Nem lembrava mais como era a imagem antes da TV a cabo. Dona Maria estava na cozinha, ultimando os preparativos do jantar. Como era possível viver daquele jeito? Como alguém podia ver a despensa vazia e saber que haveria comida na próxima refeição? Que fé era aquela que dava a certeza de que um estranho chegaria trazendo comida meia hora antes do jantar? Será que eles imaginavam que eu perdi a matéria e só estava ali porque roubaram o carro do Geraldo? Essa capacidade de viver do improvável era algo que eu não tinha. Lembro muito bem de quando saí da casa de meus pais 54


O Cristo da Periferia e fui morar sozinho. Eu era estudante e tinha um bom emprego num banco. Quando me formei e resolvi ser jornalista, pedi demissão do banco, precipitado como sempre. O emprego de jornalista não veio tão fácil quanto eu pensava e o dinheiro começou a diminuir. Bateu-me um desespero tão grande que eu já estava aceitando qualquer emprego, até de bancário. Se demorasse mais uma semana eu já estava devolvendo o apartamento e voltando para a casa de meus pais. Por isso nem negociei quando apareceu a oportunidade de trabalhar como repórter principiante na revista. Mesmo quando descobri que o chefe era um estressado e que a redação era uma panela de pressão, eu me resignei e me submeti aos gritos e à humilhação, por medo do que o desemprego me levaria a fazer. Não que meus pais não me aceitassem de volta na casa deles. Moravam numa casa grande, na qual criaram cinco filhos. Sou o mais novo e único solteiro. Eles relutaram muito quando eu disse que precisava de um espaço e queria morar sozinho, mas finalmente aceitaram minha decisão, embora não tenham concordado com ela. Talvez meu pai até me emprestasse dinheiro se eu pedisse. Mas eu queria que ele e minha mãe sentissem orgulho de mim. Não gostaria de precisar da ajuda deles novamente. Hoje entendo que isso era imaturidade e insegurança em relação à desaprovação deles com minha saída de casa, mas naquele momento era importante para mim provar que a minha decisão era acertada e resistir até o último momento antes de dar o braço a torcer. Essa necessidade íntima da 55


Jocelino Freitas aprovação deles me fez mais forte, mais resistente e teimoso. Como pais maravilhosos que são, não demonstraram ressentimento com a minha decisão precipitada. Ao contrário, falavam com tanto carinho de mim para os parentes e amigos, me tratavam tão bem quando ia lá visitá-los, que eu não pediria qualquer coisa a eles se não fosse a última alternativa. Por isso aceitava o tratamento que o chefe me dava. Por isso aceitava ser o bobo da redação. – Terra chamando o astronauta Paulo! O jantar está servido. Despertei do transe de meus pensamentos. A voz de Emanuel em meu ouvido, usando as palavras de meu chefe naquela tarde, me assustou. Como ele fazia aquilo? Como podia saber o que se passava em minha cabeça? – Desculpe, eu estava distraído. Posso usar seu banheiro? – Pode, sim, Paulo. Pode parar de se desculpar tanto também! É a terceira vez hoje. Você não tem culpa de nada. Mais uma vez sorri sem saber o que dizer. Enquanto lavava as mãos, pensei que era a primeira vez que eu me desculpava com ele por estar distraído. Considerando as duas vezes com o chefe era a terceira naquele dia. Como ele sabia disso? Dona Maria preparou um jantar com arroz, feijão e batatas fritas, fez um suco com as laranjas e, com o frango assado, o jantar estava completo. Emanuel sentou-se à mesa como se aquela fosse uma refeição normal para eles. 56


O Cristo da Periferia Aquele homem estava se transformando num grande mistério para mim. Certamente a entrevista com ele iria tirar muitas das minhas dúvidas. Jantamos quase num silêncio absoluto, interrompido apenas por pedidos de “passe o frango”, “passe as batatas”, ou com a Dona Maria perguntando se estava bom o tempero. Estranhei que ele começou a comer sem fazer uma oração. Não que eu fizesse orações antes das refeições, mas eu imaginava que um pretenso filho de Deus fosse fazer uma oração antes de comer, principalmente num dia em que não havia nada na despensa para comer e a refeição chegou na última hora. Percebi que já o estava chamando de filho de Deus. Bem, todos nós somos filhos de Deus. Era melhor deixar ele em paz e jantar quieto.

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Jocelino Freitas

10 Depois do jantar, Dona Maria recolheu os pratos e foi para a cozinha, lavar a louça. Sentamos no sofá para a entrevista. Comecei falando do Geraldo: – Quase que eu não venho hoje. O chefe da redação escalou outro repórter para fazer esta entrevista. Só me mandou na última hora porque o outro teve um problema. – Eu sabia que você viria. Este encontro estava marcado e você não poderia faltar. – Você não entendeu. Sou um empregado e vou onde me mandam. – Você é que não entende. Tínhamos uma entrevista marcada e todos os obstáculos seriam removidos para ela acontecer. – Mas nós não marcamos esta entrevista. Ontem eu fui embora sem dizer que voltaria hoje. – Quando você disse que queria fazer uma reportagem, eu falei que responderia a todas as suas perguntas, não falei? E você foi embora com muitas perguntas sem resposta. É claro que voltaria hoje! 58


O Cristo da Periferia – Mas o meu chefe mandou outra pessoa fazer a entrevista. – Eu não prometi entrevista a seu chefe nem a outro repórter. Eles tentaram mudar o que estava certo. Foram contra o que não podia ser mudado. Quebraram a cara. – Você sabe o que aconteceu? Sabe o que eles pensam de mim? Como sabe? – Você e eu sabemos que você não é o que eles pensam. É só uma questão de tempo para perceberem. Eu não sei especificamente o que aconteceu, mas sei o que devia acontecer. Se alguém foi contra isso, perdeu tempo e deve ter se aborrecido um bocado. Esses são os sinais de que lhe falei ontem. Se você presta atenção e se concentra, consegue vê-los. Se não os vê, corre o risco de ir contra eles e quebra a cara. Ele estava dominando meu pensamento de novo. Ainda bem que não estava respondendo com perguntas. Era hora de partir para a entrevista técnica. Saquei meu caderno de anotações e comecei com as questões previamente preparadas. Ele sorriu, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. – As pessoas dizem que você é a reencarnação de Jesus Cristo. O que você tem a dizer sobre isso? – As pessoas têm uma necessidade muito grande de se encontrar com Deus. Qualquer possibilidade que vejam de atribuir divindade a 59


Jocelino Freitas algo, ou alguém, é usada pelos carentes de Deus, com todo o fervor. Isso não é ruim, pois mostra uma aproximação das pessoas com Deus. A resposta era evasiva. Dava margem a diversas outras perguntas. Tive vontade de abandonar meu roteiro e bombardeá-lo de questionamentos sobre aquela resposta. Mas eu já conhecia a sua habilidade no improviso. Sabia que ia quebrar a cara se fugisse do roteiro. Será que esse era um dos sinais de que ele falou? Será que eu estava prestando atenção agora? Pelo sim, pelo não, continuei o meu roteiro. – Você demonstra uma sabedoria maior que o normal para a sua escolaridade. Pode explicar isso? – Sabedoria não é questão de escolaridade. As pessoas estudam para aprender as coisas dos homens. A sabedoria vem da percepção da interação do homem com o mundo. Não há escola que ensine isso. Você vai para a escola e aprende como os homens esperam que você aja, mas ninguém ensina o que o mundo espera de você. – Mas o mundo não é dominado pelos homens? – perguntei instintivamente, fugindo do roteiro, sentindo que ele esperava por esta pergunta. – Os homens pensam que dominam o mundo. Por isso cometem tantos erros. Ao pensar assim, esquecem de perceber os sinais que o mundo lhes dá. Esquecem de se concentrar e observar os sinais antes de agir. 60


O Cristo da Periferia Às vezes é mais importante observar que agir. Se você vai a favor da vontade do mundo, não se desgasta. Aqueles que lutam contra o mundo, perdem o seu tempo e o seu esforço. Ficam doentes e não fazem nada útil. Mais uma resposta que abria margem para um leque infindável de outras perguntas. Resisti bravamente. – Você fez aquele homem cego voltar a enxergar? – Ele voltou a enxergar sozinho. Não sei como aquele homem conseguiu ficar cego por mais de quinze anos. É um caso gritante de alguém que não presta atenção aos sinais do mundo. Todos os sinais diziam que ele devia ver. Os médicos diziam que ele não tinha nada. A mulher foi embora e os filhos foram atrás dela, um a um. Todas essas perdas eram sinais de que ele devia voltar a ver. Mas ele insistia em continuar cego, numa demonstração de que havia rompido com o mundo. – Mas ele é evangélico e pedia a Deus todos os dias para voltar a enxergar – fugi do roteiro de novo, mas aproveitei a informação que obtive na entrevista da tarde, depois de traçar o roteiro da entrevista técnica. – Ele queria que Deus fizesse por ele o que deveria fazer sozinho. Acostumou-se a ser vítima e não fez nada para virar o jogo. As preces foram atendidas há muito tempo e ele não teve coragem de virar a página, de dar um passo à frente. 61


Jocelino Freitas – E o que você fez por ele? – eu queria fazer uma pergunta bem mais picante, mas me contive. – Eu me compadeci dele. Eu sabia que todos os sinais o mandavam voltar a enxergar. Mesmo assim me parou na rua e implorou piedade. Como eu poderia não ter piedade se o Alcides praticamente exigia que todas as pessoas se apiedassem dele? Então resolvi mostrar-lhe o caminho, que para todos era óbvio. Acho que fui cruel com ele, pois tirei a sua maior arma de compaixão universal. Mandei que fechasse os olhos e acreditasse no óbvio, que acreditasse que não era cego. O médico já havia dito isso, o mundo todo gritava e ele não ouvia. Precisava ouvir do próprio filho de Deus para acreditar. – E você é mesmo o filho de Deus? – Nós todos não somos? Bem feito para mim. Disparei uma perguntasurpresa e recebi outra. Eu devia saber que ele responderia desta forma. Voltei ao roteiro sem tentar responder ou continuar o assunto. – Então você não admite que foi um milagre? Qualquer pessoa pode fazer isso? Por que ninguém fez antes? – A vida é um milagre, Paulo. Você faz milagres todos os dias. Basta olhar em volta e perceber que você tem que trabalhar, que lutar, que sobreviver. Você come carne, frutas, verduras e legumes. Você usa agrotóxico, inseticida, baraticida, raticida. Você caça e pesca. Você tranca numa jaula animais maiores 62


O Cristo da Periferia que você e que fariam um belo banquete se estivessem soltos. Veja quantas vidas são sacrificadas para que você continue vivo. Isso é um milagre que qualquer um faz todos os dias. Mas as pessoas só entendem como milagre aquilo que acham extraordinário, inexplicável. Não sabem que o mundo faz o milagre da vida. Ele opera todos os dias o milagre de escolher quem vive e quem morre. Parece simples, mas como um pai escolhe um filho para morrer e outro para viver? Se todos somos filhos do mundo e ele escolhe que vamos viver, somos realmente privilegiados. Então se o mundo resolveu que vamos sobreviver, temos que aprender a entender os sinais. Ele paga um preço muito alto para estarmos aqui, não podemos querer dominá-lo. Temos que nos concentrar, temos que prestar muita atenção. Temos que perceber todos os sinais. Engoli a vontade de metralhá-lo perguntas sobre esses sinais.

com

– Por que a técnica utilizada com o cego não funcionou com os outros doentes que lhe procuraram depois? – Eu não curei o cego. Ele já estava curado. A diferença entre ele e as outras pessoas é que ele não tinha doença alguma. Se fosse rico, teria procurado um psicólogo e não teria ficado tanto tempo cego. As outras pessoas têm realmente um problema físico. Isso não significa que não possam ser curadas. Para saber isso elas precisam se concentrar, prestar atenção aos sinais do mundo. Só assim saberão se o mundo quer que permaneçam doentes. Elas 63


Jocelino Freitas têm que se libertar da pena que sentem de si mesmas. Talvez assim consigam fazer o que entendem por milagre. As perguntas do meu roteiro haviam acabado. Minha cabeça estava articulando uma centena de outras perguntas quando ouvi o som de uma buzina. Era o marido da Dona Irene chegando e reclamando sua garagem. A entrevista estava encerrada. Emanuel sorriu e disse: – Este é um sinal. Você tem que ir embora se quiser continuar tendo carro. Sorri e me despedi. Dona Maria já havia se recolhido. Fui embora com mais perguntas do que respostas. Mas com uma nova perspectiva de vida.

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O Cristo da Periferia

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Jocelino Freitas

11 Cheguei cedo à redação e comecei a digitar as entrevistas do dia anterior. Depois de dois dias envolvido com a matéria do Cristo, resolvera ouvir o sinal que o meu corpo estava dando no fim da noite anterior. Eu estava cansado e precisava dormir. Fazia muito tempo que eu não comia um jantarzinho tão gostoso. A gente se acostuma a comer “Miojo” e nem percebe a falta que faz um arroz com feijão. E quando Nossa Senhora desce do céu para cozinhar, aí fica bom demais. Coitada da Dona Maria, eu não devia brincar assim com ela. O fato é que eu estava disposto a prestar atenção aos sinais naquela manhã. Estava disposto a ouvir o que mundo tinha a me dizer. Emanuel podia não ser o melhor exemplo de homem de sucesso, mas com certeza era alguém que estava de bem com o mundo. De repente começou o alvoroço. A voz do chefe se fez ouvir lá de fora e os repórteres mais velhos já começaram a falar com ele. Era uma confusão de vozes que só louco entenderia, cada qual falando sobre um assunto. O chefe passou em disparada rumo à sala de reuniões, sempre falando no meio daquela confusão de gente maluca, que ia se levantando e seguindo 66


O Cristo da Periferia atrás dele. No meio do corredor resolvi misturar minha voz àquela turba, para ver no que dava: – Chefe, eu entrevistei o cego e o Cristo. Fiquei até meia-noite lá. Agora estou digitando as anotações. Claro que ele não me ouviu, nem eu mesmo me ouvi no meio daquela bagunça. Mas, pelo menos, eu havia ensaiado o que ia responder quando ele perguntasse. Eu estava disposto a não ser tomado de surpresa quando chegasse a minha vez de falar. Atenção e concentração eram as minhas metas. A reunião prosseguiu e eu consegui entender em que muitos repórteres estavam trabalhando, coisa que não havia acontecido anteriormente, pois ficava tão ansioso para receber a minha missão que não prestava atenção quando o chefe falava com os outros. Então percebi que o chefe diminuía o ritmo da conversa quando começava a falar com os principiantes. Os outros se calavam e assumiam um olhar de ironia, como se o chefe lhes dissesse que ia falar com os retardados. Parecia uma tarefa monótona falar com uma pessoa de cada vez. Ele foi distribuindo as matérias sem importância entre os novatos, um de cada vez, e estes se esforçando para tomar nota de suas palavras. Quando um era pego distraído, a gargalhada vinha em coro. Agora eu entendia o que ocorria comigo. O chefe deu tarefa para todos e me deixou por último. Será que eu era o mais retardado a seus olhos? Finalmente olhou para mim, já se levantando: – Muito bem, Paulo, quero isso digitado e editado até o meio-dia. Carla, cadê o meu café? 67


Jocelino Freitas Antonio, você já consertou a guilhotina? Bernardo, quero o relatório de vendas da última edição em cinco minutos na minha sala. Saiu correndo e a redação toda atrás dele. O desgraçado ouviu o que falei no meio daquela confusão. E eu percebi um sinal, aprendi a ser ouvido pelo meu chefe. Nunca mais faria o papel de retardado.

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Jocelino Freitas

12 A redação esvaziou num instante. Ficaram apenas os assistentes e um único repórter, eu, digitando as entrevistas do dia anterior. Parece que fiz algum progresso aos olhos do chefe: duas reportagens num dia só. Eu merecia ficar uma manhã na redação, finalizando a matéria. O mais importante para mim foi aprender a me concentrar no que estava acontecendo e não ser pego de surpresa pelos acontecimentos. Enquanto digitava, eu mantinha meus ouvidos abertos e ia mapeando mentalmente a posição de cada repórter e o progresso de suas reportagens. Os assistentes falavam muito alto e não era difícil perceber o que faziam. Antes isso me incomodava muito, pois eu queria me concentrar exclusivamente na matéria em que estava trabalhando. Por isso preferia digitar em casa as entrevistas e chegar à redação com elas prontas para apresentar ao chefe. Com isso perdia horas preciosas de sono e chegava cansado ao trabalho. Fechava os olhos ao sinal mais óbvio que o mundo pode dar: respeite os limites do seu corpo. De repente um alvoroço intempestivo. A voz do chefe se ouvia por toda a redação. – Maldito! Em plena quinta-feira? 70


O Cristo da Periferia Numa revista semanal a edição está quase fechada na quinta-feira. Na cabeça do redatorchefe já está pronta a capa e todas as matérias principais. Não é dia para acontecer nada importante. – O que aconteceu? – perguntei à secretária que passava apressada com uma xícara de café. – Caiu um avião de passageiros aqui em Curitiba, a três quilômetros do aeroporto. Isso era uma bomba, dizia meu faro jornalístico. Nunca ouvi falar que um avião de passageiros tivesse caído aqui. Isso não poderia ficar fora da edição nunca. Tendo prestado atenção à movimentação da redação, eu sabia que os repórteres principais estavam envolvidos com as matérias mais importantes da edição. O chefe teria que abortar uma matéria, ou contar com uma equipe extra. – Preciso de um repórter. Quem está mais perto do aeroporto? – gritou com os assistentes para que contatassem os repórteres por telefone. Usando a técnica de falar na confusão, que funcionou mais cedo, gritei: – Posso chegar lá em vinte minutos, se alguém terminar esta digitação. O chefe me olhou surpreso, não acreditando que eu estava ali e, melhor, atento. Não respondeu, continuou gritando. – Preciso de um fotógrafo! Quem está mais perto do aeroporto? 71


Jocelino Freitas Os assistentes começaram a teclar desesperadamente os números dos telefones dos fotógrafos. – Posso levar minha câmera e ir fazendo umas fotos até que o fotógrafo chegue. – Carla! Traga mais um café e termine de digitar as entrevistas do cego e do Cristo. Paulo, você tem dezenove minutos, o que está esperando? Não esqueça a câmera! E vocês o que estão olhando? Voltem ao trabalho! Quero um fotógrafo lá o quanto antes. Um repórter não pode fazer tudo sozinho. Voei pela porta da redação no mesmo instante em que o chefe me falou para ir. A câmera e o caderno de anotações na mão. Também peguei um gravador, que me fez muita falta na entrevista com o Cristo da Vila Nazaré. Ele falou tantas coisas profundas e eu tinha que taquigrafar. Se estivesse gravando poderia ter feito mais perguntas em menos tempo. Devo ter levado uma dúzia de multas até chegar ao aeroporto, meu carro nunca correu tanto. Cheguei lá em quinze minutos. Imediatamente liguei meu celular em viva-voz com a redação. – É um avião da FAB. É de passageiros, mas é pequeno. Uns trinta passageiros, fabricação da Embraer. Estou vendo muitos sobreviventes. O avião está quase inteiro. As asas estão quebradas e perdeu o bico, mas o habitáculo dos passageiros está inteiro. Algumas poltronas se soltaram do assoalho. Ele caiu num mato, bem perto de um campo. Parece que o piloto tentou chegar ao campo, mas não 72


O Cristo da Periferia conseguiu. Tem muitas ambulâncias aqui. Duas pessoas estão mortas... Fui passando todas as informações que podia. À medida que ia falando clicava o botão da câmera para captar o máximo possível de imagens. Entrevistei e fotografei o comandante dos bombeiros e o responsável da Infraero. O celular ligado direto e a redação fazendo perguntas a todo instante, o chefe me orientando sobre detalhes a atentar. Fui um dos primeiros repórteres a chegar ao local. Quando os outros começaram a chegar, já não havia mortos no local e os feridos eram apenas os menos graves. Eu já havia entrevistado uns dez sobreviventes. Então chegou o fotógrafo e ouvi a voz do chefe ao telefone: – Paulo, já tenho um fotógrafo aí. Corra para a redação e prepare um texto para publicar. Escreva tudo o que viu. Entregue o gravador e a câmera para edição. Na redação entreguei o gravador para a secretária do chefe e conectei a câmera digital ao computador, colocando as fotos online. Comecei imediatamente a escrever um texto. Enquanto estava no local do acidente eu me concentrei ao máximo, prestei atenção em cada detalhe. Agora só precisava escrever o que vi. Observei quando os peritos da aeronáutica tiraram a “caixa preta” dos destroços. Fiz uma fotografia desse momento. Dediquei-me ao máximo, como se fizesse uma reportagem dessas todos os dias.

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Jocelino Freitas Meus ouvidos estavam ligados na voz do chefe, pois eu não queria perder nenhum detalhe do que estava acontecendo. – Veja esta foto! E esta! Tenho que publicar! Ninguém mais conseguiu pegar esses detalhes! Carla, como está a digitação dos depoimentos? Paulo, como está o texto? Quero editar a matéria ainda hoje. Vai para a capa. Ilza, diga para o fotógrafo trazer o que tiver feito, mas acho que não vamos precisar de mais nada. O Paulo fez tudo sozinho. Não sei por que eu pago uma fortuna a esses incompetentes. – Em meia hora estará pronto, chefe! – gritamos eu e a Carla ao mesmo tempo, no meio da confusão de vozes, eu com um sorriso indisfarçável no rosto, com a certeza de que fui ouvido.

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O Cristo da Periferia

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Jocelino Freitas

13 A semana seguinte começou diferente para mim. A reportagem de capa, com fotos e textos, me deu o status de repórter de primeira linha. O pessoal me olhava diferente quando cheguei à redação. Senti que havia conquistado admiração de uns e inveja de outros. No domingo almocei com meus pais e levei de presente uma revista com a minha matéria na capa. Eles não pouparam elogios ao meu trabalho, à clareza do texto e à nitidez das fotos. Muitos telejornais pediram permissão à revista para publicar as minhas fotos. Era o relato mais impressionante da tragédia. Que ironia – pensei – o sofrimento e a morte daquelas pessoas me servindo de trampolim profissional. Não gostei muito disso, mas tenho certeza que mesmo os sobreviventes e os parentes das vítimas vão guardar a revista como documento histórico. Eu não fiz mal a ninguém, apenas relatei o que vi. Se pudesse evitaria o acidente, mas isso não estava ao meu alcance. Esse é um sinal que não me foi dado. Talvez o piloto, ou alguém da torre de controle de vôo, tenha recebido um sinal e pudesse evitar o ocorrido. Talvez algum passageiro tenha perdido o vôo na última hora. Mas o sinal para mim só veio no momento de cobrir o acidente. Sou um repórter e fui utilizado como tal. Minha 76


O Cristo da Periferia missão era estar na redação no instante em que o chefe precisou de mim. Fiz isso com todo o empenho e, por isso, estava pronto para colher os frutos do meu trabalho. – Batemos o recorde podemos baixar o nível!

de

vendas.

Não

Era o chefe gritando desde a entrada, enquanto todos começavam a falar ao mesmo tempo. Preparado para isso, fui logo disparando meu planejamento, antes de receber uma missão que não me agradasse. – Chefe, podemos explorar um pouco mais a queda do avião. Posso ir à aeronáutica e ver como vai a investigação da causa do acidente. A esta altura eles já devem ter ouvido a gravação dos últimos momentos do piloto. Também tem um passageiro que perdeu o vôo. Posso entrevistá-lo. Nem bem sentou na sala de reuniões o chefe me olhou e disse: – Ótimo, Paulo, faça isso. Mantenha-me informado. Continuou falando com todos, cada um sobre o seu assunto. A troca de capa no último momento causou uma sobra de matérias na semana anterior. A reportagem sobre o Cristo da periferia não foi publicada. O chefe diminuiu o ritmo da conversa e passou a falar com os novatos. A auto-estima dos repórteres de primeira linha estava abalada porque eles perderam a capa da última edição para um novato. O ar de ironia e a disposição para rir de qualquer bobagem já não eram tão visíveis. O 77


Jocelino Freitas espaço dos veteranos havia sido invadido por um “foca” e eles não gostaram nada disso. Os novatos me olhavam com ar de respeito e gratidão. Se eu pude fazer aquilo, qualquer um também poderia. Estavam mais atentos. O chefe passou as matérias “chinfrins” e já estava levantando quando me olhou e disse: – Paulo, quero que você encorpe um pouco mais a matéria sobre o Cristo da Vila Nazaré. Ficou muito boa e não vamos queimá-la num canto de página. Se precisar, faça mais entrevistas e mande tirar mais fotos. Ligue para o nosso correspondente em Belém e peça para ele tirar algumas fotos do lugar onde o “Jesus” nasceu. Descubra se ele quer fundar uma nova igreja. Carla, cadê o meu café? Alfredo, já posso usar o meu computador? Saiu em disparada, com toda a comitiva atrás. Fiquei tão empolgado com a minha primeira reportagem de capa que nem percebi a falta da matéria que me tomou metade da semana anterior. O meu sucesso estava sendo vantajoso também para o Emanuel, pois a reportagem sobre ele sairia de um “canto de página” e receberia um lugar melhor. Não sei até que ponto isso interessava a ele. Eu tinha material para uma meia-página, quem sabe até para uma página-inteira, mas a possibilidade de voltar a falar com ele me empolgou. O interessante é que eu não estava preocupado em ir até a Vila Nazaré para fazer as perguntas que ficaram no ar quando encerrei repentinamente a entrevista, não era tão importante pegar o endereço da casa em que nasceu em Belém, e nem tampouco perguntar se 78


O Cristo da Periferia ele pretendia fundar uma nova igreja. No fundo de meu ser eu sentia vontade de contar a ele como os seus conselhos haviam funcionado comigo, como a concentração e a atenção revolucionaram a minha vida em menos de um dia, como foi importante para mim ouvir os sinais do mundo e agir de acordo com eles.

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Jocelino Freitas

14 Estacionei o carro na garagem da casa de Dona Irene. Entreguei a ela um exemplar da revista com a minha reportagem na capa. Ela folheou ansiosa, procurando a reportagem com a sua foto. Expliquei que a queda do avião havia feito com que a matéria ficasse para a próxima semana. Um tanto contrariada, ela me ouviu dizer que a fotografia da capa e a cobertura do acidente foram feitas por mim e que eu estava muito contente, porque era a primeira vez que isso ocorria. Acho que ela se sentiu diminuída, não só porque a matéria do seu interesse foi adiada, mas também porque a revista mandou um repórter inexperiente para atender ao seu chamado. Depois deu um sorriso como quem pensou que se eu fui capaz de conquistar minha primeira capa com a queda do avião, a segunda podia ser com o Emanuel (e ela ao lado dele). – Meus parabéns, Seu Paulo. É bom saber que a gente está sendo entrevistada por um repórter importante dentro da revista. – Obrigado, Dona Irene. Estou muito feliz pelo reconhecimento do meu trabalho. Agradeço à senhora por permitir que eu use a sua garagem mais uma vez. Preciso de mais uma fotografia sua, pode ser? 80


O Cristo da Periferia – Então o senhor espere que eu vou me arrumar. Não quero sair de qualquer jeito na revista. – Tudo bem. Quando a senhora estiver pronta, pode me chamar ali na casa da Dona Maria. Vou até lá falar com o Emanuel. – Ele não está lá. Eu o vi na praça, quando eu vinha voltando do mercado. – Então eu vou até a praça, ver se o encontro por lá. A senhora se arrume à vontade, sem pressa, e quando eu voltar a gente faz a fotografia. Está bem assim? – Melhor pra mim. Assim eu tomo um banho e ajeito o cabelo. Saí rindo da minha própria desfaçatez. Na verdade, o pedido de uma nova fotografia foi só massagem no ego da Dona Irene, pois não havia razão para publicar mais que uma foto dela, quando muito. Se o chefe não tivesse aumentado o espaço dificilmente apareceria, somente seria mencionada no texto. Também ri porque a mulher estava completamente enfeitada e maquiada, não havia mais o que arrumar. Mesmo assim ela pediu um tempo para se preparar. Da primeira vez que a fotografei, ocorreu o mesmo e eu fiquei quase uma hora esperando para ela vir “arrumada” posar para a foto, sem que eu conseguisse perceber o que exatamente havia mudado. Eu caminhava em direção à pracinha onde conheci Emanuel. Ficava a poucos metros da casa de Dona Irene. De repente um rapaz, de uns dezessete anos de idade, passou correndo 81


Jocelino Freitas por mim e, em seguida, parou de correr, virou-se e ergueu a camisa para que eu visse que estava armado. Olhei para trás, como se buscasse ajuda ou uma fuga, e vi dois outros meninos da mesma idade, que também levantaram as camisas para mostrar que estavam armados. Fiquei parado, assustado, meio de lado, de frente para a rua, enquanto os três me cercavam. – Passa a grana aí, otário. Me dá a carteira e esvazia os bolsos – falou aquele que havia passado à minha frente. – Tira o relógio. Não tem correntinha? O que é isso aí na sua mão? Máquina de foto e gravador? Boa, passa pra cá. Você não tem vergonha de sair de casa com tão pouca grana? E essa chave de carro? Cadê o teu carro? Fala senão eu te meto uma azeitona na testa! Tem cartão de banco na carteira dele? Veja aí! Tem? Vamos dar uma voltinha de carro com o magnata aqui. Vamos passar num caixa automático pra pegar um dinheirinho. O magnata tá precisando, né? Cala boca, otário, senão te apago. Fala logo onde parou a caranga! Fala, desgraçado! Quer morrer, é? – Ainda não é hora dele morrer, Tiago. Devolve as coisas dele! A voz conhecida que falava com tanta autoridade era de Emanuel, que se aproximava tranquilamente de nós, como se assistisse uma partida de futebol, como se assalto fosse a coisa mais normal do mundo. Um dos meninos ainda me segurava por trás, apertando o meu pescoço, enquanto o tal Tiago encostava a ponta do cano do revólver na minha testa. Acho que eu não 82


O Cristo da Periferia tinha uma gota de sangue na cabeça quando Emanuel puxou minha mão, livrando-me do braço que me imobilizava. Tiago tirou a arma da minha cabeça e guardou-a na cintura. Eu que estava completamente pálido, as pernas tremendo, quase desmaiado, abracei o Emanuel e contive um choro convulsivo, deixando apenas as lágrimas correrem pelo rosto, molhando o ombro do meu salvador. – Pô Jesus, o cara é magnata. – Este magnata trouxe comida para a minha mãe sem ninguém pedir nada. Você acha justo tomar alguma coisa dele? – Claro que não, Messias. Eu não sabia que era esse o cara. Aí magnata! Foi mal. Os meninos devolveram os meus pertences. Olhando para eles mais calmo me pareceram crianças, crianças armadas. Como eles conseguiram me dominar com tanta facilidade? Por que me assustaram tanto? Tudo o que eu tinha comigo naquele momento não faria deles ricos o suficiente para parar de roubar. Não me faria pobre o suficiente para roubar alguém. Que mundos diferentes ocupamos! Que realidades tão conflitantes nos afastam tanto assim? – Não os condene, Paulo. É a realidade deles. Quem pode ser condenado por viver sua própria realidade? Como ele fazia isso? Emanuel falava comigo como se lesse meus pensamentos. Que domínio era aquele que demonstrou sobre os marginais? Será que era líder de uma quadrilha? 83


Jocelino Freitas – Não me julgue, eu lhe peço. Só estou cumprindo o meu papel. Não julgo ninguém. Eu não conseguia pronunciar uma única palavra. Mesmo assim ele conversava comigo como se estivéssemos dialogando, eu com pensamentos e ele com palavras, com aquele sorriso estampado, como se não tivesse problemas. Como se fosse normal ouvir os pensamentos alheios.

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O Cristo da Periferia

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Jocelino Freitas

15 Sentamos numa rampa gramada, que servia de arquibancada em volta do campo de areia, que estava no centro da pracinha. Tiago e seus amigos brincavam com uma garrafa de plástico, como se fosse uma bola de futebol. Corriam e driblavam feito crianças. De repente um deles chutou a garrafa para o centro da quadra, sacou o revólver e começou a atirar nela. Os outros dois também sacaram suas armas e ficaram atirando na garrafa de plástico, até que estivesse completamente destruída. A cada tiro eu me retraía, encolhendo os ombros e fechando um pouco os olhos. Emanuel ria muito, tanto das brincadeiras sem graça de seus amigos quanto da minha cara de assustado. – Você também anda armado? – consegui fazer uma pergunta falada, não apenas pensada, pela primeira vez desde que nos reencontramos. – Sou um carpinteiro. Não preciso de arma para fazer o meu trabalho. – Você está dizendo que o trabalho deles é roubar? – De certa forma, sim.

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O Cristo da Periferia – Como assim? Como pode comparar criminosos com trabalhadores? Com pessoas honestas que trabalham para se sustentar? – Lembra do que eu falei sobre as vidas que são sacrificadas para você sobreviver? O mundo quer que esses criminosos, como você os chamou, sobrevivam também. – Eu não estou falando de matar animais e plantas. Estou falando de gente. Eles queriam me matar! – E quem disse que o mundo sacrifica apenas vidas irracionais? Quantas pessoas morrem todos os dias? Quantos você viu sofrer e morrer na semana passada? Esses meninos querem sobreviver. No mundo deles só existe uma forma de ter as coisas: tomando de alguém. A sua vida não é importante diante dos desejos deles. – Mas como pessoas com esse pensamento convivem numa sociedade como a nossa? Que sociedade marginal é essa em que você vive? – A sua sociedade também não se importa com a vida dessas pessoas. Aqui somos condicionados a sofrer em silêncio. Se você tem um emprego, deve se contentar com o que ganha e trabalhar em silêncio. Se não tem, deve passar fome em silêncio, deve morrer em silêncio. Estes meninos representam a revolta dos cordeiros. Não sofrem calados. Eles reagem, tomam tudo o que precisam. São a prova viva de que o modelo social dito civilizado não é justo. Eles insistem em sobreviver. 87


Jocelino Freitas – Mas você foi criado no mesmo modelo social que eles e não faz as mesmas coisas para sobreviver. – Ninguém é igual a ninguém. O mundo me deu uma outra forma de sobreviver. Deu-me uma habilidade que eles não têm. E deu a eles habilidades que eu não tenho. Cada um sobrevive com as habilidades que tem, inclusive você. – Você disse que o outro repórter que veio aqui foi assaltado porque não viu os sinais e foi contra o mundo. Depois da nossa entrevista eu tenho prestado atenção aos sinais do mundo. Qual foi o sinal que eu desrespeitei hoje para ser assaltado? – Nenhum. Aquele assalto foi um sinal para você. Nada de ruim podia acontecer, mas você precisava de um sinal para prestar atenção nesses meninos. Você estava tão preocupado com o meu modo de vida, que esqueceu de notar que ao meu redor tem gente muito mais interessante que eu. – E o que há de interessante num bando de assaltantes? – Você não está se concentrando nos sinais. Se fizer isso, irá contra o mundo e vai quebrar a cara. O mundo quer que você olhe para eles. Se virar as costas perderá seu tempo e sua energia. E eu posso não estar por perto da próxima vez que o mundo mandar esse mesmo sinal para você. mas 88

Entendi o que ele queria dizer. Não gostei, entendi. Só não entendia como ele


O Cristo da Periferia enxergava isso com tanta clareza se n達o admitia santidade.

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Jocelino Freitas

16 – Posso tirar umas fotos de vocês? – Pra que foto nossa, mostrar pros home , é?

magnata?

Quer

– Não. É que eu estou fazendo uma reportagem sobre o Emanuel e queria colocar os amigos dele. Vocês são amigos dele, não são? – O Salvador é gente nossa. Ninguém mexe com ele aqui na vila. Se mexer nóis apaga. – Vocês acreditam que ele é santo? – Você andou falando com o cego malucão? Aquele doido fala pra todo mundo que ele é Jesus. Pra nós ele é gente fina. É o nosso Jesus porque a gente só se dá bem quando vai por ele. O homem é piradaço. Ele não cheira nada e tem umas alucinações esquisitonas. Ele arranca as palavras da cabeça sem a gente falar nada. – Ele faz isso comigo também. Posso tirar a foto? – Espera a gente cobrir a cara, magnata. Não quero que venha tiragem aqui na vila me buscar por causa dessa foto. Só tô te dando mole porque tu é chegado do Messias, senão essa máquina já tinha virado pó. 90


O Cristo da Periferia Não sei o porquê, mas já não tinha medo das ameaças de Tiago. Eu sabia que estava fazendo o que devia ser feito. O gravador estava ligado e ele estava me dando uma entrevista sem perceber. Os outros não falavam, só riam e faziam o que Tiago mandava. – Por que vocês andam com o Emanuel se ele não é como vocês? – Ele é igualzinho a nós, só que tem o trampo dele, que é diferente do nosso, tá ligado? Todo mundo aqui na vila olha a gente de olho torto, só porque roubamos. O Jesus não, ele nunca olhou torto pra nós. Ele entende a gente. Ele fala as coisas que a gente entende. Ele entende as coisas que a gente fala. Nunca ninguém disse que a gente tem mais é que roubar mesmo. Só ele disse isso. – Vocês nunca tentaram aprender profissão, arranjar um emprego?

uma

– Nós já temos uma profissão, somos ladrões. Um dia ainda vou arranjar um emprego numa firma dessas de carro forte. Daí, quando estiver lá dentro, no meio da bufunfa, eu detono a cabeça de todo mundo, encho um carro daqueles e compro uma boca de fumo só pra mim. Daí eu fico só no poder, mandando vir o pó e controlando os pontos de venda. Meus camaradas aqui vão poder cheirar tudo que quiserem na faixa, tá ligado? Um dos outros dois marginais cochichou algo no ouvido de Tiago e os três saíram correndo, como se tivessem algum golpe urgente para praticar. A cabeça deles era 91


Jocelino Freitas mesmo doentia. Até um trabalho honesto soava como golpe. Eles não tinham o menor respeito por valores humanos como vida e patrimônio. Lembrei do relato da Dona Irene sobre como a polícia lida com esses marginais. Policiais despreparados e mal remunerados estão permitindo que se crie uma nova sociedade na periferia, um novo conceito de mundo, onde ser preso é só mais um risco do negócio. Não há cadeias para prender tanta gente. Aquelas que existem estão superlotadas e são vigiadas pelos mesmos policiais despreparados e mal remunerados. Essa sociedade marginal marcha paralelamente à sociedade constituída, mas suas regras não são escritas. Não há um líder, ela segue leis milenares e fatais: a lei do mais forte e a lei do silêncio. Esse conflito de sociedades tinha que ser denunciado e achei que era isso que o mundo queria de mim. – Muito bem, Paulo. Vejo que você interpretou corretamente o sinal que recebeu hoje. – Acho que interpretei, sim. Só não sei como o mundo pensa que vou conseguir fazer isso – respondi ao Emanuel, percebendo que ele havia lido meus pensamentos de novo, mas quase acostumado a isso e não querendo interromper a linha de raciocínio. – Não se preocupe. Os sinais vão guiá-lo. É só estar atento e concentrado.

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Jocelino Freitas

17 – Eu não entendo – disse eu, voltando a usar minha voz para nossa comunicação, enquanto caminhávamos pelas ruas estreitas. – Você diz que não é Cristo, mas se comporta como tal. Diz que não tem poderes sobrenaturais, mas lê o pensamento das pessoas. Quem é você, afinal? – Sou um fruto do mundo. Eu não desenvolvi isso, só nasci assim. Fui criado nesta ambiguidade entre a sua sociedade e a daqueles meninos. O mundo mandou sinais de que eu deveria ser um elemento de ligação entre as duas sociedades. Você também recebeu esses sinais. Então você é tão sobrenatural quanto eu. – Mas eu não leio os pensamentos. Não sei coisas que aconteceram onde eu não estava. – Sabe sim. Você recebe notícias o tempo todo. As pessoas contam histórias, a televisão, o rádio, os jornais, a sua revista... – Mas isso são meios de comunicação de massa. Está querendo dizer que o mundo tem uma grande central de notícias que conta tudo o que penso e o que faço? – É mais ou menos assim. O Alcides não lhe disse que o Messias está à espreita? 94


O Cristo da Periferia – Então você admite que é o Messias? Sabe tudo o que se passa e vai julgar a todos? – Na verdade, não. Estou dizendo que o mundo manda e recebe sinais de tudo que acontece, de tudo que se pensa. Nada acontece sem que o mundo saiba ou permita ou determine. O que você pensa, o que faz, tudo fica gravado na sua história. – Entendo. É como o livro do juízo final que tem naquele filme do... – Exatamente, mas sem essa frescura de julgamento. – Então o Alcides está enganado sobre isso? – Ele é um fanático religioso e você tem que perdoar os excessos que comete por isso. Mas ele consegue perceber muitos sinais. As pessoas acham que, além de cego, ele ficou louco. Por isso não o levam a sério. Até o pastor da sua igreja o trata com a benevolência reservada aos dementes. Aproveita a fé do Alcides para cativar mais fiéis e aumentar o “rebanho” – disse fazendo um gesto com os dedos indicadores e médios das duas mãos, sinalizando aspas. – Mas todos se surpreenderiam se soubessem as verdades que ele fala. A cegueira desenvolveu nele a capacidade de sentir os sinais do mundo, mas a sua cabeça não é capaz de decifrá-los. – Você fala do mundo com um conceito de ser vivo, onipotente e onipresente. Esse não é o conceito que as religiões têm de Deus? 95


Jocelino Freitas – É isso mesmo. O mundo é Deus. – Mas isso não conflita com o conceito de um Deus universal? – O universo é Deus, não há nenhum conflito nisso. – Afinal, é o mundo ou o universo? Quem é Deus? – Deus é tudo. É o grande e o pequeno, o concreto e o abstrato. É o universo e o grão de areia. – Eu não entendi. – Como uma folha vai compreender a árvore? Você não deve tentar compreender Deus. Basta saber que você é parte Dele, que está ligado intimamente a Ele. – Então você está dizendo que não vai haver juízo final? – Não dessa forma que você imagina. Não do jeito que você viu no filme. – E como será, então? – Deus não virá em carruagem conduzida por estrada de fogo dos céus. A redenção virá quando os homens entenderem que Deus está dentro deles e a necessidade de encontrá-lo for tamanha que cada pessoa o perceba. Então o julgamento, o juízo será feito por cada um em relação a si mesmo, pois os outros não se atreverão a julgar senão os próprios atos. E os mortos reviverão na aliança que Deus fez com os homens, de que os justos viveriam para sempre no paraíso ao lado do Pai. Viverão para 96


O Cristo da Periferia sempre na memória daqueles que os amaram. E Jesus estará entre nós. – Você está fundando uma nova religião? – Claro que não. Diga ao seu chefe que eu não estou inventando nada – respondeu demonstrando que sabia que aquela pergunta, absolutamente inadequada, me havia sido encomendada. – Só estou falando de coisas que sempre existiram. O mundo sempre existiu. Nossa vida é tão curta que não aprendemos a ouvi-lo. Nesse momento percebi que a fita do meu gravador havia acabado. Bateu-me um desespero, porque aquilo que ele estava falando era muito profundo e eu não conseguiria lembrar se não anotasse. Pensei em sacar meu caderno de anotações e taquigrafar tudo o que havia dito, mas isso seria ridículo, porque não avisei que estava gravando a conversa. Ele deu um daqueles sorrisos de compreensão e falou: – Eu repito tudo depois para você anotar. Vamos lá pra casa que a mamãe preparou uns “bolinhos de chuva” deliciosos para nós dois.

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Jocelino Freitas

18 Chegamos à casa da Dona Maria, que já estava nos esperando com os bolinhos quentinhos. – Pode sentar, Seu Paulo, que ficou pronto neste instante. Acho que meu filho sente o cheiro de bolinho de chuva. É só eu fazer que ele aparece na hora. – É que seus bolinhos são tão gostosos, mãe, que eu largo tudo que estiver fazendo pra vir comê-los – Emanuel sorriu para a mãe e piscou para mim, certo de que eu sabia como ele sentia o cheiro dos bolinhos de tão longe. – É verdade, Seu Paulo. Eu só faço estes bolinhos nos dias em que ele não tem obra pra trabalhar. Uma vez eu resolvi fazer num dia em que ele estava trabalhando longe. Eu estava com vontade de comer bolinho de chuva naquele dia e fiz um pouquinho de massa pra fritar. Quando eu vi o Emanuel já estava aqui dentro de casa, sentado ali à mesa, pronto pra comer. Ele disse que sentiu o cheiro, mas como é que alguém vai sentir um cheiro aqui lá do outro bairro? Emanuel ria muito das histórias da mãe, enquanto comia os bolinhos. Parecia uma 98


O Cristo da Periferia criança feliz. Provei um deles e era mesmo uma delícia. Elogiei e Dona Maria, envaidecida, mandou que comêssemos tudo, pois ela já havia comido enquanto fritava. Disse para eu não perder tempo com modos e comer rápido, senão o filho me tapeava e comia tudo sozinho. Entrei no clima e fui comendo, um a um, disputando com Emanuel, até que o prato estivesse vazio. No final estávamos os dois de boca cheia e dando risadas, como se fôssemos dois irmãos, Dona Maria ao lado satisfeita pelo prato vazio em questão de minutos. Senti uma paz tão grande, uma saudade do meu tempo de criança, quando eu fazia essas disputas com meus irmãos. O tempo passou e nos tornamos adultos, tão distantes, tão responsáveis. Agora eu reencontrava a alegria de ser criança ali, numa casa simples da periferia, com uma mãe e um irmão que conheci uma semana antes, mas parecia que estavam na minha vida desde que nasci. Dona Irene, chegou pronta para a fotografia. A boa vizinha nem podia imaginar todas as coisas que aconteceram enquanto se arrumava. Aproveitei para fazer uma sessão de fotos dos três, em várias poses. Então Emanuel tomou a câmera da minha mão e quis tirar uma foto minha com a mãe e a vizinha. Depois tirou uma minha com a Dona Maria e outra minha com a Dona Irene. Então entregou a câmera para a Dona Irene e pediu uma dele comigo e também outra dele comigo e a mãe. Aquelas fotos eu sabia que não iria publicar, mas as guardaria com carinho em meus arquivos pessoais. Ainda bem que Tiago não roubara a câmera, pois eu 99


Jocelino Freitas n達o trocaria aqueles momentos por nada neste mundo.

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19 A matéria sobre o Cristo da periferia ficou tão boa que ocupou quatro páginas da revista. Nosso correspondente em Belém mandou fotografias ótimas do lugar onde Emanuel nasceu. Incrível a pobreza que acompanhou o Cristo desde o nascimento. Olhando aquelas imagens, dava para entender porque os pais dele preferiram vir tentar a sorte no sul a permanecer por lá. Pessoas com a pele muito queimada pelo sol e castigadas pelo rigor da fome e dos poucos recursos, casas sem energia elétrica, água e esgoto, a fome rondando ao gosto da colheita. Um mundo bem diferente da Vila Nazaré, apesar de todos os seus problemas. O ódio dos repórteres de primeira linha por mim aumentou. A admiração dos novatos também. As reuniões com o chefe já não eram tão divertidas para os antigos. Eles eram mais cobrados. Pior para mim era quando o chefe me usava como exemplo para eles. Eu trabalhava sozinho, com meu próprio carro, fazia minhas fotos e, ainda assim, minhas reportagens eram dignas de destaque. Além disso, ganhava muito menos que eles. Sobre este detalhe do salário eu esperava que ele fizesse justiça logo, antes 102


O Cristo da Periferia que outra revista botasse os olhos no meu trabalho e me fizesse proposta melhor. Também ganhei destaque com as matérias complementares sobre o acidente com o avião. Agora eu já estava sendo escalado para matérias mais importantes. Nada de patas que criavam cachorros ou coisa parecida. Quando o chefe me escalava para um trabalho o cochicho no lado dos “tubarões” era visível. Em contrapartida o sorriso do lado dos novatos era notório. Eu fazia questão de me comportar como um novato, sem deixar que o sucesso me subisse à cabeça. Eu nem podia deixar que subisse, pois ainda ganhava pouco e trabalhava sozinho. Ademais, sendo tão temperamental, o chefe podia me colocar em desgraça a qualquer tempo. Eu sabia que os seus elogios ao meu trabalho eram só uma conveniência para “baixar a bola” dos figurões, os repórteres antigos que se achavam o máximo. Mandei um “motoboy” fazer uma entrega especial de um exemplar da revista na casa da Dona Maria e outro na casa da Dona Irene. Durante a semana seguinte, muitas cartas chegaram à redação comentando a matéria sobre o Cristo da periferia. Chegaram cartas de elogio à qualidade da pesquisa e da reportagem, mas a maioria das cartas comentava sobre a polêmica lançada. Apesar de mencionar que Emanuel negava qualquer santidade, a reportagem deixou no ar algumas evidências, como o depoimento do cego e o poder de adivinhar pensamentos, que revelavam que ele estava longe do que se podia entender por uma 103


Jocelino Freitas pessoa comum. Algumas cartas o qualificavam como um líder criminoso e, outras, como líder religioso que atentava contra Deus e tudo que está escrito na bíblia. Também vieram cartas de fanáticos, que juravam fidelidade ao novo Messias, prometendo ser seus discípulos quando ele fosse iniciar o martírio, sete anos depois. Na semana seguinte duas revistas concorrentes publicaram matérias sobre Emanuel. Duas semanas depois ele aparecia numa reportagem de televisão. Minha reportagem abriu os olhos da sociedade para Emanuel. Em pouco tempo a polêmica sobre a sua santidade era assunto nacional. Não havia meio de comunicação de massa que não entrasse na discussão. Jornais, revistas, rádio e televisão debatiam o assunto. Não havia um único dia em que não se visse a imagem ou se ouvisse o nome de Emanuel, o Cristo da periferia. Um mês depois da primeira reportagem o chefe falou, no meio do turbilhão de vozes da redação: – Paulo, o seu Cristo está em todos os noticiários e nós fomos os primeiros a divulgálo. Está na hora de repetir a dose. Quero que consiga uma entrevista exclusiva e fotos inéditas. Será a capa da próxima edição se não tivermos um fato-surpresa até quinta-feira. Entreviste os líderes religiosos que estão falando sobre ele. Nem preciso dizer o furor que o anúncio de minha próxima capa causou na redação. Todos comentavam como um assunto de canto de página havia me dado tanta sorte. Antes da 104


O Cristo da Periferia publicação já havia conquistado espaço maior e, depois de pronto, mereceu quatro páginas.Agora ia para a capa e o chefe escalou o mesmo novato para continuar a matéria. Por que não escolhia um repórter mais experiente, que seria capaz de abordar o assunto sob um aspecto mais amplo? Todos acreditavam que era porque o chefe era supersticioso e queria repetir a receita de sorte, mas eu sabia que isso era mais um sinal: o mundo queria que eu voltasse a ver Emanuel. O chefe havia aprendido a não ir contra os sinais, com ou sem superstição.

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Jocelino Freitas

20 Parei o carro em frente à casa de Dona Irene e ela veio correndo abrir o portão para mim. Desde a entrada da rua já dava para ver uma pequena multidão que se aglomerava diante da cerca da casa de Dona Maria. Dona Irene me contou, então, da repercussão que a minha reportagem havia causado na vida da Vila Nazaré e, também, na vida dela, cuja fotografia estava na revista. – Todo dia vem repórter aqui, Seu Paulo. De manhã eu já me arrumo, porque sei que vai ter fotografia ou filmagem. Eu não pensei que um telefonema meu pudesse provocar tanto barulho. Enquanto ela falava, eu pensava como quase pedi demissão por causa de nossa primeira conversa. – E essa gente toda, o que faz ali? – A maioria é lá da igreja do Alcides cego. Eles vêm aqui em busca de uma bênção especial do Emanuel, mas acho que querem mesmo é mostrar que estão orando muito. Precaução para serem lembrados no juízo final. Vêm também alguns doentes em busca de cura. 106


O Cristo da Periferia Veja quantas muletas e cadeiras de rodas estão jogadas no quintal da Maria. – Então ele voltou a fazer milagres? – Ele diz que as pessoas não estão doentes. Insiste em dizer que não faz milagre algum. Não são todos os doentes que saem curados. Para alguns ele diz que estão doentes mesmo e que devem se conformar com seus defeitos. E outros vêm somente pedir conselhos, como se ele fosse um padre. – Mas com tanta gente, quando é que ele trabalha como carpinteiro? – E quem é que vai contratar Jesus Cristo? Depois que ele saiu na revista não é mais contratado para obra nenhuma. Nem encomenda tem mais na carpintaria. Mas a Maria está com a despensa cheia. Todo mundo que vem falar com ele traz uma coisinha para comer. Não que eles peçam, mas acho que as pessoas ficam orgulhosas do Cristo comer o que foi doado por elas. – A senhora está começado isso tudo?

arrependida

de

ter

– Não! Que que é isso, Seu Paulo? Eu estou contente por ter chamado o senhor aqui. Eu acho que o mundo precisava saber que o Emanuel existe. Os ensinamentos dele são muito bonitos pra ficar só aqui na vila. Entrei no quintal da casa de Dona Maria e a primeira coisa que notei foi a falta das roupas no varal. Da rua dava para ver a parede da casa, coisa que era impossível das outras vezes 107


Jocelino Freitas em que estive ali. Pelo jeito não era só Jesus que não era chamado para trabalhar, mas Nossa Senhora também. Evitei pensar que eles tivessem me usado para conquistar uma vida melhor, pois eu conhecia aquelas pessoas e sabia que não davam valor a coisas materiais. Do contrário, Emanuel teria usado sua imensa inteligência para ganhar dinheiro de verdade e não simples doações de comida. Entrei na casa e vi Emanuel sentado, ouvindo pacientemente o que lhe falava uma mulher de idade. Ele segurava suas mãos e falava com ela com aquele sorriso de quem não tem problemas. Percebeu minha presença e sussurrou algo aos ouvidos da mulher, que beijou suas mãos e se retirou com um olhar agradecido. – Que bom que você não demorou. Estava à sua espera desde que recebi o sinal – disse ele, cumprimentando-me com um abraço, como quem abraça um irmão que não vê há muito tempo. – Também recebi o sinal de que deveria voltar aqui. Não sei por que tive que voltar, mas estou feliz em vê-lo novamente. Quantas mudanças estou vendo. Tenho muitas perguntas. – Pode fazer suas perguntas no caminho. Agora venha comigo.

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Jocelino Freitas

21 Saiu em disparada, correndo pela porta e pelo portão, depois pelas ruas da vila. Eu ia atrás, com os bofes de fora, – pois não pratico exercícios desde que estourei o joelho – a câmera, o gravador e as chaves do carro batendo como sinos de natal. As pessoas que esperavam ficaram olhando como se estivessem acostumadas a ver o Cristo sair correndo feito um louco, com um repórter atrás dele. Olhei para trás e vi a Dona Maria fazendo um gesto para que fossem embora. Ele era muito rápido, mais novo e estava em melhor forma física que eu. Quando se distanciava muito, parava e me esperava chegar perto. Ao me aproximar eu pensava que fosse falar alguma coisa, mas não falava, voltava a correr, comigo cansado atrás dele. Corremos até os limites da Vila Nazaré, onde ele parou e me esperou. Ao lado da vila havia um matagal cercado com arame farpado. Quando cheguei perto, pôs o pé num fio de arame e puxou o outro com a mão, sinalizando para eu passar. Depois que passei, também passou com habilidade, sem que eu precisasse segurar o arame. A mata era densa perto do arame e mais rala no interior, embora as copas das árvores escondessem o sol, deixando passar apenas algumas réstias de luz. Agora ele 110


O Cristo da Periferia já não corria, apenas andava rapidamente pelo carreirinho estreito, no qual só passava uma pessoa de cada vez. Chegamos a um riozinho que corria límpido sobre uma piscina de pedra. Ele parou na margem e sentou-se, tirando os sapatos e pondo os pés na água. Fiz o mesmo, sentindo um alívio nos pés com aquela água gelada, escondida no meio das árvores. Olhei ao redor e me encantei com a beleza do lugar. Existiam ali árvores enormes, que deviam ter centenas de anos. Difícil acreditar que um lugar daqueles estivesse a poucos metros de um bairro pobre, cheio de miseráveis e bandidos. Depois que relaxei e recuperei o fôlego, Emanuel falou comigo: – Este é o meu refúgio. Venho aqui sempre que preciso de paz e isolamento. Entendi, imediatamente, de onde tanto equilíbrio. Ele continuou falando.

tirava

– O guardião é meu amigo e não se importa que eu venha aqui. O dono é tão rico que nem sabe o que tem. Um dia ele vai vender este terreno para a Cohab fazer mais um conjunto habitacional. Vai ficar ainda mais rico e este paraíso vai deixar de existir. É isso o que os homens estão fazendo com os paraísos: transformando em dinheiro, transformando em infernos... Senti que era uma honra ser levado ali e permaneci em silêncio. Não convinha fazer nenhuma pergunta, nenhuma observação. Ele ia falar espontaneamente. Ademais, eu estava muito cansado para pensar no que perguntar. 111


Jocelino Freitas – Quando saiu a primeira reportagem eu passei a vir aqui com mais frequência. Minha casa passou a ser visitada por repórteres e romeiros. Então eu ficava aqui uma boa parte do dia. O guardião mantinha afastados os intrusos e ninguém sabia que eu estava aqui. Quando estava em casa, eu falava com as pessoas sobre os sinais do mundo, sobre se concentrar e prestar atenção no que ele quer de cada um. Mas quando eu estava aqui eu só ouvia. Cheguei a passar noites aqui, em silêncio, escutando o que ele tinha a me dizer. Até que, na semana passada, ele falou comigo de verdade. Eu ouvi a sua voz... A voz de Emanuel saiu embargada nas últimas palavras e lágrimas derramaram de seus olhos. Então comecei a fazer perguntas. – Como assim ouviu a voz? Você não ouve sempre? – Não é isso, Paulo. Eu ouço o que o mundo fala porque leio os seus sinais. A informação vem na minha cabeça como se eu tivesse um canal de informações ligado o tempo todo, entende? Tudo vem como um pensamento. Mas desta vez eu ouvi uma voz que parecia um trovão, e não estava chovendo. Não vinha de dentro da minha cabeça. Vinha do alto, da copa daquelas árvores, como se a luz do sol estivesse falando comigo. – Mas quem falou com você? O mundo? Deus? – É a mesma coisa. Deus é o mundo, o universo, é tudo. 112


O Cristo da Periferia – E o que Ele disse? – A primeira coisa que ouvi foi: “Meu filho amado!” Levei o maior susto. Olhei ao redor procurando o moleque que havia feito aquela brincadeira comigo. Depois lembrei que a voz era muito forte para ser de um moleque. Forte demais para ser de qualquer homem. Parecia um trovão, mas o sol resplandecia entre as copas das árvores. Então eu gritei, perguntando quem estava falando, quem era ou o que era. Foi quando a mesma voz respondeu: “Eu sou o que sou, e você é meu filho amado!” Ele ficou ali quieto, olhando para o lugar de onde disse ter vindo a voz sobrenatural. Eu fiquei a seu lado, olhando para ele, sem saber o que dizer ou pensar.

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Jocelino Freitas

22 Enquanto caminhávamos de volta para sua casa, Emanuel me contou que aquelas foram as únicas palavras que ouviu. Tentou conversar várias vezes, mas não obteve resposta. A partir de então, havia dedicado grande parte do seu tempo a receber as pessoas que o procuravam. Sempre tentava dar um pouco de consolo aos desesperados. E àqueles que só precisavam de uma ajuda para se convencerem de que não estavam doentes, ele dava essa ajuda. Ajuda que as libertava de traumas e psiquismos, fazendo-as deixar muletas e cadeiras de rodas. Senti que isso o angustiava. Emanuel não via como milagres o que fazia. Para ele era tudo lógico como uma equação matemática: “Você vê os sinais, você os interpreta. Você não está doente, não há motivo para continuar se comportando como um doente. Isso é lógica, não tem nada de místico.” Mas aquela voz não tinha explicação. Não cabia uma solução racional em sua mente privilegiada. Contou-me que voltara todos os dias ao local e tentara repetir os movimentos, os pensamentos e as palavras daquele dia, mas nada funcionara. A voz não se repetira, não falara com ele. Mas os sinais estavam mais 114


O Cristo da Periferia claros depois daquele dia. No fundo do coração ele sentia que tinha que falar com todos que o procuravam, tinha que ajudar as pessoas desesperadas. – Mas eu não sou santo, Paulo. Como posso falar com essas pessoas? Não posso enganá-las dizendo que sou o que esperam que eu seja, porque eu não sou. Meu amigo parecia estar indignado com as coisas que os sinais lhe diziam. Recusava-se a ser santo, porque isso ia contra tudo que havia dito até então. – Não contei isso a ninguém ainda. Não quis fomentar os fanáticos. Mas o que Ele quis dizer com “Você é meu filho amado” ? Acaso não somos todos Seus filhos? Por que Ele não fala isso a todas as pessoas? – Emanuel, você devia estar feliz por Deus ter falado com você. Outro em seu lugar estaria contando para todo mundo. – Você já pensou no que o Alcides cego diria? “Eu não disse? Ele é o filho de Deus! Deus o chamou de filho amado!” E eu não teria sossego nunca mais. Capaz até de quererem me vestir com uma túnica e um manto como os da época de Cristo. Eu tenho vinte e três anos, droga. Eu quero ser um jovem da minha idade. Sou alguém de carne e osso e não um “Cristo ressuscitado”. Isso soava muito engraçado para mim, embora tenha permanecido sério. Emanuel havia recebido um contato divino e estava indignado, 115


Jocelino Freitas comportando-se como um adolescente rebelde. Ops! Esqueci do seu poder de ler pensamentos. – Não ria de mim, meu amigo. Na verdade eu estava muito acomodado com a vida que levava. Nunca me faltou nada, nunca fiquei doente, nunca quebrei um braço ou perna. Eu falava às pessoas sobre os sinais que para mim eram tão claros. Pensei que a minha missão era essa. Agora estou com medo, com muito medo. Já viu um Cristo com medo? Ridículo, né? Ele mesmo riu comigo. Era muito humano. Eu não conseguia imaginá-lo de outra forma. Seus pais eram humanos e ele levava uma vida que achava normal. Apesar de Emanuel ser intelectualmente privilegiado eu jamais imaginaria Jesus voltando ao mundo daquele jeito. Não seria nada original. Não havia motivo para se repetir a história. Não surtiria o mesmo efeito se ele voltasse dois mil anos depois e vivesse num bairro pobre. Não sou bom nessas coisas de religião, mas acho que a volta Dele deveria ser mais contundente, deveria ser para cobrar a conta, porque a doutrina já foi ensinada e vem sendo estudada e debatida há dois mil anos. Na minha cabeça cabia mais a volta triunfal – como aquela que o ex-cego imaginava – do que essa repetição intempestiva e despropositada. Mas como dizia ele mesmo: “Como uma simples folha vai entender a complexidade da árvore?” – É muito complicado, Paulo. A fé se transformou numa mercadoria muito rentável. Veja a despensa da minha casa. Está cheia sem eu trabalhar nem pedir nada a ninguém. As 116


O Cristo da Periferia religiões fazem verdadeiras fortunas para as igrejas e seus dirigentes. Em nome de Deus os líderes religiosos recebem doações, que os vão afastando daquilo que deveriam fazer. Esquecem de salvar o mundo presente. Isso não rende. É mais vantajoso para eles negociar uma vaga no paraíso, pois vale muito mais dinheiro. O pior é que tiram de quem nada tem. Os fanáticos passam fome para dar dinheiro aos hipócritas. Como posso frequentar uma igreja que faz isso? Qual é a igreja que não pede doações? – Olha, Emanuel, sou um repórter em início de carreira. Sou melhor em fazer perguntas do que em respondê-las. E neste momento estou pensando em muitas delas. Você recebeu um contato divino, dizendo que é o filho de Deus. Isso muda tudo o que você dizia sobre não haver nada sobrenatural em sua vida. Mas você não aceita isso e se revolta com Deus por ter aparecido e dito: “Olá, eu sou seu Pai!” Desculpe, mas você está parecendo um filho de mãe solteira que encontra o pai depois de vinte e três anos e diz: “Desculpe, cretino, agora não quero saber de você na minha vida!” Emanuel soltou uma gargalhada gostosa, contagiante, e nós dois ficamos ali no meio da rua, rindo como se eu tivesse contado uma ótima piada. Então ele me disse: – Gosto do seu jeito de pensar. Às vezes você se atrapalha com as palavras, mas gosto do seu jeito de analisar os fatos. Aquilo era um elogio. Um elogio com crítica, mas fiquei feliz em ouvir. Pensei que ele 117


Jocelino Freitas fosse ficar ofendido com o “puxão de orelha”, mas achou engraçado. Não é todo dia que se dá uma bronca no filho de Deus e Ele gosta, – pensei no meio de nossas gargalhadas. – Ele riu mais ainda com esse meu pensamento. Depois disse: – Quando você apareceu pela primeira vez e eu recebi um sinal para responder a todas as suas perguntas, eu sabia que minha vida ia mudar. Um jornalista quase da minha idade, apaixonado pela profissão, entrevistando um “Cristo da periferia” seria uma fórmula ideal para encher esta vila de gente comentando o assunto. Eu não queria os olhos da mídia sobre mim, mas o Mundo queria. Queria que eu começasse a dizer às pessoas que elas precisam falar mais sobre Ele. E eu obedeci. Falei a você sobre os sinais e, depois, vieram muitos outros, todos perguntando a mesma coisa. E eu dizia para eles olharem ao redor, para olharem para este lugar e para todos os lugares do mundo. Dizia para prestarem atenção aos sinais, para perceberem que havia uma sociedade paralela, uma sociedade dos miseráveis, dos excluídos. E os olhos deles ficaram somente sobre mim, sobre esta polêmica boba. Ninguém se preocupa com os pequeninos, só querem saber se sou o Messias. Eu sou como um mensageiro. Não se deve olhar para o mensageiro, mas para a mensagem que traz. Por isso chamei você de volta. Porque você entendeu a mensagem e mudou sua vida prestando atenção aos sinais de que lhe falei. Você não olhou apenas para mim, olhou também para a mensagem que lhe entreguei. As outras 118


O Cristo da Periferia pessoas precisam encontrar Tiago, seus amigos e os milhares de iguais a eles. Precisam saber pelo meio mais doloroso que eles existem e que o Mundo quer que sobrevivam. – E o que você espera de mim agora? – Espero que você siga os sinais. Você tem que escrever mais sobre mim, não tem? Acho que agora tem muita coisa para escrever. Pode contar sobre a minha visão. Pode contar sobre o meu conflito. Pode escrever sobre a indiferença das pessoas para com a minha mensagem.

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Jocelino Freitas

23 Eu já tinha a entrevista exclusiva que o chefe mandou fazer. Agora precisava tirar mais fotos e entrevistar líderes religiosos. Chegamos à casa de Emanuel e a multidão ainda estava lá, esperando por Ele. O meu amigo chegou sorrindo para todos e ficou conversando com as pessoas que se aglomeraram em volta Dele. Saquei minha câmera e comecei a fotografar. Alguns outros fotógrafos e cinegrafistas também estavam por ali e fizeram o mesmo que eu. Repórteres falavam com Ele, repetindo as mesmas perguntas: – Você é mesmo Jesus Cristo? – Não, sou o Emanuel. – Como você explica essa coincidências entre você e o Cristo?

série

de

– Muita gente nasceu em Belém e se chama Emanuel. Tem até quem se chame Jesus. – Mas ninguém fez milagres como você. – Eu não fiz milagres. Apenas segui os sinais do Mundo. – Que sinais são esses? – Os sinais de tudo que acontece, de tudo que o Mundo quer que aconteça. 120


O Cristo da Periferia – Você está dizendo que o mundo tem vida própria?... As perguntas iam se repetindo. Cada pergunta era feita por um repórter diferente. Olhando aquela cena vi o quanto eu havia sido privilegiado. Tinha minha entrevista exclusiva, tinha um fato exclusivo para publicar e poucos minutos antes eu estava dando palpite no relacionamento entre Emanuel e Deus. Era mesmo engraçado lembrar disso. Pensei ter visto Emanuel sorrir para mim quando pensei nisso, entre uma pergunta e outra dos repórteres afoitos. Vi o Alcides cego por ali, incitando os seus companheiros de fé. Aproximei-me e o cumprimentei. Ele me cumprimentou com cara de “Eu não te disse?” Nisso se aproximou de nós um senhor usando terno e gravata, que o Alcides apresentou como sendo o pastor da sua igreja. Apesar do traje parecia uma pessoa bem simples e a roupa um tanto quanto fora de moda, surrada pelo uso, com colarinho esgarçado. Tinha mesmo um jeito de pastor de igreja evangélica de bairro pobre. Seus cabelos eram pretos e curtos, mas com um topete que chamava atenção. A barba bem escanhoada, mas as costeletas grandes, até o comprimento da ponta da orelha. Nas pontas das costeletas pequenos nichos de pelos grisalhos denunciavam a tintura dos cabelos. A pele branca, mas bem castigada pelo sol, o que salientava suas marcas de expressão, principalmente quando sorria e evidenciava os pés-de-galinha. Cumprimentei-o com um aperto de mão e senti que tinha as mãos ásperas, bem 121


Jocelino Freitas diferentes das mãos dos padres e pastores de igrejas maiores que conheci depois. Era um homem de uns cinquenta e poucos anos, mas aparentava ter mais de sessenta. Aproveitei a oportunidade para pedir uma entrevista, no que fui atendido prontamente. Acho que o pastor estava ali para divulgar a sua igreja e, claro, aumentar a arrecadação do dízimo. Afastamonos um pouco da confusão e pedi para conhecer o templo. Não ficava longe da casa do ex-cego Alcides. Era uma casa como as outras da vila, mas o telhado havia sido levantado e as paredes retiradas, de modo que o templo ocupava todo o terreno, formando um salão grande para os padrões do lugar. O pastor abriu a porta, removendo vários cadeados que fechavam a grade de ferro que protegia o prédio. Uma vez lá dentro, percebi que o imóvel tinha um sistema de alarme com sensores de presença e grades em todas as janelas. Segurança demais para a “casa de Deus” – pensei. – Pedi para fazer umas fotos do pastor e, aproveitando sua vaidade, as fiz perto de todos os detalhes de segurança do seu templo. Sentamos num dos bancos e ali fizemos a entrevista. – Há quanto tempo existe a sua igreja? – Minha igreja tem já sete anos. – E ela faz parte de alguma congregação maior? – Não. Nós não somos vinculados nenhuma congregação maior. Esta igreja independente. 122

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O Cristo da Periferia – E como surgiu a sua igreja? – Surgiu da necessidade de alguns irmãos de louvar ao Senhor com maior observância dos mandamentos do evangelho. A igreja que frequentávamos estava se tornando muito permissiva. Era normal encontrarmos mulheres e filhas de irmãos com os cabelos curtos, como se fossem homens. Algumas até usavam calças compridas, como se Deus as tivesse feito para serem homens. – Mas o senhor não acha que as mulheres têm o direito de escolher como querem se vestir? – É claro. Cada mulher deve ter liberdade para usar o vestido ou a saia que quiser, desde que seja uma roupa decente, que não exponha seu corpo como se fosse uma messalina. Não pode é querer infringir a Lei do Altíssimo. Um mundo de mulheres que se vestem como homem – e de homens que se vestem como mulher – é o mundo da besta, do anticristo, dos perdidos que Jesus Cristo condenará no dia do juízo final. Nesse dia não vai adiantar se arrependerem, porque vai haver choro e ranger de dentes. Ainda bem que meu gravador estava ligado, pensei. Se a entrevista já estava começando assim, a sequência prometia mais demonstrações de fanatismo. – O senhor, como pastor, tem mais algum emprego? – Não. Meu emprego é conduzir as ovelhas do Senhor. Os devotos sustentam esta humilde casa e esta casa sustenta a minha. 123


Jocelino Freitas – O senhor mora aqui? – Quando fundamos a igreja, esta era a minha casa. Depois o número de fiéis foi crescendo e o Senhor foi precisando de mais espaço. Então os irmãos se cotizaram e conseguiram ajudar o pastor a comprar uma outra casa para sua família morar. Depois esta casa foi toda reformada e ampliada para abrigar o templo de Deus. – Na outra igreja o senhor também era pastor? – Não, eu era apenas um servo de Deus. Eu trabalhava numa firma de construção como mestre-de-obras. Ainda trabalhei lá por mais um ano, cuidando da igreja de noite. – O senhor acredita que o Emanuel seja a reencarnação de Jesus? – Não só acredito como tenho inquestionáveis. Vários dos meus fiéis curados por ele. A primeira cura que ele num fiel da minha igreja que era cego enxerga.

provas foram fez foi e hoje

– E a que o senhor atribui esse fato? Será porque a sua igreja está localizada próxima da casa dele? – Mais que isso. Atribuo essa bênção a uma estrita observância dos preceitos do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Iríamos louvar o Cristo em qualquer lugar que Ele estivesse. Mas se Ele escolheu morar perto da nossa igreja, é porque sabe que aqui se observam os mandamentos Dele. 124


O Cristo da Periferia – Ele já veio à sua igreja? – Ele é o filho de Deus. E o filho de Deus respeita a Sua mãe. Ele sabe que a mãe é católica e, por isso, não quer que Sua mãe fique triste. Eu também não quero que Ele faça isso, eu já disse aos meus fiéis. Mas se você reparar, vai ver que Ele também não vai à igreja católica. – Por falar nisso, Ele não é filho de uma virgem. Como o senhor explica essa diferença? – Isso é um segredo que somente a Dona Maria guarda, porque o Seu José está morto. Ela morre de medo de ver o filho morrer aos trinta e três anos. Nenhuma mãe quer ver o filho sofrer. Dona Maria esconde esse segredo desde que concebeu Emanuel. Ela era virgem e José não a tocou antes de Jesus nascer. – Mas se é um segredo, como o senhor sabe disso? – Deus me revelou isso num sonho. Ele depositou este segredo em minhas mãos para acalmar minhas ovelhas. – Está dizendo que conversa com Deus? Que Ele lhe conta segredos? Como isso acontece? – Eu não converso com Ele, eu não disse isso. Ele é quem fala comigo quando quer. Isso acontece somente em ocasiões especiais, quando Ele quer mandar algum recado para os seus fiéis. – Há quanto tempo isso acontece?

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Jocelino Freitas – A primeira vez foi quando Ele mandou deixar aquela igreja impura e preparar o caminho para a volta do Messias. Alguns me seguiram de imediato, outros vieram depois. No fundo eu já sabia que o filho do Homem estava entre nós. – E como é a voz de Deus? – É uma voz suave como a brisa da manhã. Uma voz que transmite paz, como se fosse um coro de violinos. Você ficaria uma eternidade ouvindo aquela voz. – Entendo. Estava ficando cada vez mais difícil fazer perguntas àquela torre de ego. – Quando foi que o senhor soube que Emanuel era o Cristo? – Deus me avisou que Jesus em breve voltaria, que uma vida de obediência ao evangelho seria a porta de entrada do paraíso. Eu sabia que Jesus estava por perto e recomendei a meus fiéis que estivessem em alerta, pois Cristo nos espreitava. O cego Alcides contou a história de Emanuel. Era parecida com a de Jesus, mas devíamos ficar atentos, pois o diabo tem muitas faces. Só acreditei quando o Senhor Jesus Cristo curou a cegueira do Alcides. – Porque Emanuel não admite que é Jesus? – Como eu disse, Ele não quer magoar a mãe. Ainda faltam sete anos para o início do Seu martírio. Por isso ele diz que não é o Cristo. 126


O Cristo da Periferia – Está me dizendo que Jesus está mentindo para nós que não é santo? – Blasfêmia! Como se atreve a falar assim do filho de Deus? Ele ainda não tem consciência da Sua divindade. Isso só vai acontecer quando Ele estiver com trinta anos de idade. Vai passar quarenta dias no deserto e voltará como o filho de Deus. – Mas no Brasil não há desertos. – Ele fará um deserto surgir se for preciso. A terra ficará árida e os animais morrerão. Nada disso é mais importante para Deus do que o filho Dele. – E o que devemos fazer durante estes sete anos? – Esta casa está aberta para os filhos do Senhor que queiram encontrar a salvação. Uma vida de obediência e abnegação é o que Ele espera de nós. – Mas e os que não podem pagar o dízimo, o que devem fazer? – O dízimo é uma ordem de Deus. Se você paga, ajuda a manter a casa do Senhor. E Ele devolve em dobro tudo o que a Sua igreja recebe. Quem nada dá, nada tem. – Tem certeza que é assim que funciona? Uma pessoa que não tem o que comer deve dar o que não tem para poder receber as graças de Deus? – Ouvi isso do próprio Deus. Ninguém é tão pobre que não possa ajudar a casa do Senhor. 127


Jocelino Freitas Se você não tem fé nisso, jamais entrará no reino de Deus, porque Ele exige uma demonstração da sua fé antes de lhe dar qualquer coisa. – Bem, pastor, agradeço a sua disposição em me receber aqui na sua igreja e a gentileza em responder as minhas perguntas. – A casa do Senhor estará sempre de portas abertas a qualquer repórter. Volte quando quiser. E pode indicar meu nome para os seus colegas que queiram fazer uma entrevista. Estarei sempre às ordens. Saí daquele lugar aborrecido. Emanuel tinha razão quanto aos objetivos financeiros daquela igreja. Eu só não imaginava que o nome de Deus fosse tão usurpado. Tinha a minha entrevista e isso era o que importava. Um retrato fiel do abuso da fé.

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24 Nos dias seguintes entrevistei líderes religiosos católicos, protestantes, judeus, budistas e muçulmanos. A entrevista com o pastor, embora longa, tinha menos importância entre os depoimentos dos líderes religiosos. Falando com eles, pude conhecer a filosofia e a história de cada religião. O budismo e o islamismo não admitem a existência de Jesus como filho de Deus, mas o respeitam como profeta ou ícone do Cristianismo. Os judeus não aceitam Jesus como o Messias mas, como os outros, respeitam a sua imagem de ícone do Cristianismo. Estas três religiões não quiseram dar opinião sobre a santidade de Emanuel, pois não admitem a santidade do próprio Jesus. O bispo católico que me atendeu na cúria disse que a sua igreja não acredita numa volta de Jesus que seja diferente daquela descrita no livro do apocalipse. Esta também foi a tônica dos depoimentos dos líderes evangélicos que entrevistei, nas igrejas Batista, Quadrangular, Assembléia de Deus e Universal do Reino de Deus. Ninguém aceitava a idéia de um Jesus repetido. Atribuíam os milagres de Emanuel à ignorância da população da periferia, que se deixava enganar por falsos profetas, até por falsos Cristos. 130


O Cristo da Periferia Eu já estava com a matéria quase pronta quando lembrei das palavras de Emanuel, que me disse que as pessoas estavam olhando para o mensageiro e esquecendo da mensagem. É claro. Óbvio demais. Eu estava fazendo o mesmo que todo mundo, focando a matéria na polêmica sobre a santidade dele e esquecendo da sociedade paralela, que ele queria que fosse vista. Deu vontade de jogar todo o trabalho fora. Perguntei aos entrevistados sobre a mensagem trazida por Emanuel e nenhum dos depoimentos abordou o conflito de sociedades e os sinais do mundo. Aceitei isso pacatamente e não explorei melhor o assunto. O mundo não pertence a esta ou aquela religião. Emanuel não falou em Deus, Jeová, Buda, Krishna ou Maomé. Simplesmente falou do Mundo, a casa de todos nós, que está presente em todas as religiões. Que burro eu fui. Que matéria ridícula estava fazendo? Saí para a rua atordoado. Na manhã seguinte o chefe iria fechar a edição e minha matéria estava um “lixo”. Podia até agradar o chefe, que já havia visto os esboços e escolhido as fotografias, mas para mim estava um lixo. Este era o sinal que eu acabara de perceber. Perdi a concentração e fugi do foco que eu devia dar ao assunto. Sentei num banco de praça e fiquei ali, desolado, derrotado por mim mesmo. – Tio, tem uma moeda? Despertei do meu transe com um menino de rua, ainda uma criança, que estava parado em frente a mim. – Me dá uma moeda. Estou com fome. 131


Jocelino Freitas – Onde você mora, menino? Cadê seus pais? – Eu moro muito longe. Não tem comida na minha casa. Meus irmãos e eu saímos para pedir. Meu pai está desempregado e bate na minha mãe. Melhor ficar na rua do que passar fome e apanhar em casa. Fiquei olhando com cara de bobo para aquele menino, e ele sem saber o que se passava pela minha cabeça. – Tem uma moeda ou não? Dei uma moeda a ele e saí correndo para a redação. Peguei a câmera e o gravador e voltei para as ruas. A sociedade paralela estava ali, debaixo do nariz de todos, não precisava ir até a Vila Nazaré para enxergá-la. Em cada esquina há mendigos, crianças, cegos, mulheres com crianças no colo, todos pedindo esmolas. Há também trombadinhas, prostitutas, golpistas, traficantes e cafetões. Nas praças há pastores pregando, músicos tocando, artistas de circo arriscando a vida em arcos com facas e fogo. Desempregados se acotovelam em frente aos cartazes com anúncios de emprego. Fotografei toda essa gente. Retratei todas essas pessoas que insistiam em sobreviver, que clamavam, que imploravam por um trocado para comprar comida, como aquele menino que me pediu uma moeda, que me mostrou, mesmo sem saber que mostrava, que estava vivo, que era sobrevivente de um pai desempregado e agressivo que deixava uma criança pedir esmolas nas ruas, porque o mundo queria que ele sobrevivesse, e se não lhe déssemos o que comer iria furtar e 132


O Cristo da Periferia assaltar. Esse mundo de miseráveis e excluídos era o mundo para o qual Emanuel queria que olhássemos. Era para esse mundo que eu iria apontar com minha matéria. Já era tarde da noite quando voltei para a redação e carreguei o computador com as fotos que tirei. Coloquei os fones do gravador e digitei as dezenas de entrevistas com “excluídos” que jamais imaginaram aparecer numa revista. Comecei a escrever sobre tudo que havia visto e ouvido, fazendo uma associação com as palavras de Emanuel. Só percebi que havia amanhecido quando os raios de sol bateram nos meus olhos pela persiana entreaberta e o vigilante apagou as luzes. Meus colegas de redação foram chegando e a mistura de vozes começando, até o clímax da chegada do chefe, que lá do corredor já gritou: – O que você fez aqui a noite inteira, Paulo? A matéria não estava pronta? O chefe sabia de tudo o que acontecia na redação. Acho que o vigilante falou a ele que passei a noite trabalhando. A redação inteira começou a falar ao mesmo tempo, enquanto todos seguiam o chefe até a sala de reuniões. No meio da confusão de vozes respondi: – Eu fiz um adendo na matéria, chefe. Retratei a sociedade paralela que o Cristo quer que olhemos. Quando sentamos o chefe comentou: – Boa idéia, Paulo. Estávamos esquecendo disso. Vá dormir um pouco e tome um banho. 133


Jocelino Freitas Depois volte aqui para fecharmos a edição. Carla, cadê o meu café? Abra a matéria sobre a sociedade paralela que o Paulo fez durante a noite, que eu quero ver isso. Acir, aquele ditador já foi deposto? Pedro, como fechou o dólar? Fui para casa e dormi com roupa e tudo. Eu estava exausto.

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25 Eu estava caminhando pela mata, por um caminho muito estreito, que me era familiar. De repente cheguei à piscina de pedra onde Emanuel ouviu a voz de Deus. Tirei meus sapatos e meias e pus os pés naquela água gelada. Fiquei ali deitado na pedra, com os pés na água corrente, olhando para cima. As copas das árvores eram tão frondosas que a luz do sol não feria meus olhos, embora estivesse muito calor. O calor lá da cidade era amenizado ali pela sombra das árvores e pelo frescor da água em meus pés. Não dava vontade de voltar para a cidade. Não dava vontade de voltar para o meu mundo. Queria aproveitar aquele lugar que estava condenado a desaparecer. Pensei nas pessoas que entraram em minha vida nos últimos dias. O mestre-de-obras interesseiro que virou pastor e melhorou de vida cobrando dízimo dos miseráveis; Tiago e seus amigos bandidos. Qual deles estaria melhor aos olhos de Deus? O que reza ou o que rouba? Que incoerência. Um é perseguido pela polícia e odiado pela sociedade; o outro é respeitado pela sociedade e considerado um homem de Deus; mas o bandido vale mais aos olhos de Deus que o pastor. Um tira de quem tem e o outro de quem não tem. É como no Auto da 136


O Cristo da Periferia Compadecida, de Ariano Suassuna: o cangaceiro assassino mandou matar todos que estavam sendo julgados, inclusive o padre e o bispo, mas foi o primeiro a receber o perdão de Jesus Cristo, porque foi um instrumento da cólera divina. O padre e o bispo foram parar no purgatório, para pagar pelos pecados que cometeram em nome de Deus, mas no próprio interesse. Assim eu via Tiago e o pastor: como no conto de Suassuna. Lembrei do menino que pediu uma moeda e me abriu os olhos para o submundo que existe no coração das grandes cidades. As pessoas se acostumaram tanto com a presença de gente assim que fecharam os olhos, os ouvidos e os corações para elas. É como se fossem transparentes. Você não olha nos olhos do menino que pede uma esmola, não olha nos olhos do outro que limpa o vidro do seu carro com aquele pano sujo e pede uma moedinha, nem mesmo olha para os olhos do palhaço que aproveita o sinaleiro fechado para fazer malabarismo na sua frente.Você fechou os olhos para essa gente. Fechou os olhos para a menina ou para a mulher madura que vende o próprio corpo nas ruas, se sujeitando a qualquer homem que possa pagar para possuí-la. E o que me diz do desempregado ou do velho que vem com uma receita suada na mão pedindo ajuda para comprar remédio? Ou um litro de leite para o filho? Ou uma passagem de ônibus? Você fechou seu coração para essa sociedade de miseráveis, para essa sociedade paralela que o mundo abandonou. 137


Jocelino Freitas Mas qual será a solução, meu Deus? Dar esmolas não resolve o problema e nem diminui a miséria. A gente vê relatos de pessoas que ganham mais pedindo esmolas do que se estivessem empregadas. Então essa sociedade paralela é maior ainda. Ela envolve pessoas que se levantam de madrugada, tomam vários ônibus e trabalham duro o dia todo. Comem em marmitas ou bandejões sabendo que aquela será a única refeição do dia, porque nem mesmo o trabalho árduo pode garantir o sustento de suas famílias. As mães são obrigadas a deixar os filhos em creches ou trancados em casa para irem trabalhar e ajudar no seu sustento. Existem mães solteiras ou separadas, que criam os filhossozinhas, num mundo-cão, um mundo de corpos e não de almas. – Qual é a solução, meu Deus? Qual é a solução? O estado de repouso de meu corpo não correspondia ao tormento de minha consciência. – Fale a eles dos meus pequeninos! A voz soou como um trovão, vindo das copas das árvores. Lembrei imediatamente do que Emanuel ouviu naquele mesmo lugar. Emocionei-me muito, mas tinha que aproveitar a oportunidade e comecei a perguntar: – E como vou fazer isso? Como quer que eu faça isso? O que quer que eu faça? Como posso mudar o mundo sozinho? Fale comigo! Fale comigo! Fale comigo! Acordei chorando, gritando, suado, vestido. Sol forte do meio-dia. Aquela voz ecoava na 138


O Cristo da Periferia minha cabeça como se fosse um sino. “Fale a eles dos meus pequeninos! Fale a eles dos meus pequeninos!”

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26 A edição teve que contar com quatro páginas a mais. O chefe não quis mexer no texto que já estava pronto e ele achava muito bom. Preferiu tratar a matéria sobre a sociedade paralela como um artigo novo, associado à matéria da capa. Mas a foto da capa foi mudada. Antes ele havia escolhido uma foto de Emanuel segurando a mão de uma doente e olhando para a câmera com aquele semblante de serenidade que só ele tinha. Quando cheguei de volta à redação já estava no “painel da capa” a mesma foto em tamanho menor, com uma montagem de outra ao fundo. Era a imagem de um flagrante que peguei num semáforo fechado, com um menino pedindo esmola ao motorista do primeiro carro parado. Na frente do carro um palhaço fazia malabarismo com pinos incandescentes, e ao fundo, do outro lado da rua, se via uma prostituta que fazia ponto na esquina. O texto da capa também foi mudado. O título passou para: “Eu não vim para salvar os justos!” E o texto secundário dizia: “Enquanto as igrejas discutem a sua santidade o Cristo da periferia segue fazendo milagres e pedindo que olhemos para a sociedade paralela.” Eu não teria feito melhor. Parecia que o chefe havia participado de todo o meu trabalho. A capa estava perfeita e a matéria ganhou mais quatro páginas centrais. O chefe caprichou num editorial inspirado e elogiou o 140


O Cristo da Periferia meu trabalho e a amizade que fiz com Emanuel e sua mãe, acrescentando foto minha com eles, que pensei que nunca seria publicada. Salvamos a edição em apenas uma noite. Na semana seguinte veio a notícia de mais um recorde de vendas. A revista esgotou nas bancas e tivemos que providenciar uma edição extra. Isso era inédito na história da revista. O número de assinaturas novas pela internet e pelo 0800 triplicou. Anunciantes de peso passaram a cotar preço de espaço nas páginas publicitárias. Finalmente recebi um aumento de salário. Quem me odiava passou a odiar mais ainda e quem me admirava ficou mais fã ainda. O pessoal do departamento comercial me adorava. É claro que não esqueci de mandar exemplares para o Emanuel e a Dona Irene. Mas a grande polêmica foi instaurada. A reportagem jogou um balde de água fria em todas as religiões, pois as acusamos de ficar discutindo santidade enquanto Emanuel se preocupava com seus fiéis. Acho que o pastor da Vila Nazaré deve ter querido me matar, pois pintei bem do jeito que o vi, como um caricato espertalhão, um fanático radical que tentava aproveitar a fama do vizinho ilustre para encher os bolsos. Logo no domingo começaram a chegar mensagens pela internet, aos milhares. Na segunda-feira vieram as cartas e telegramas, a maioria elogiando o trabalho jornalístico e apoiando nossa opinião sobre o assunto. A notícia da edição extra agitou a redação, pois não estávamos acostumados a pensar em edições prontas no começo da semana. Foi um dia perdido para a próxima edição. Mas isso não 141


Jocelino Freitas assustou o chefe, pois a próxima edição dedicaria um bom espaço para mostrar o sucesso desta. Mais uma vez saímos na frente e estávamos ditando moda para as outras revistas. Certamente todas elas publicariam na semana seguinte reportagens sobre a sociedade paralela, sobre o conflito das religiões e sobre a exploração dos falsos líderes religiosos. Todas tentariam uma entrevista exclusiva com Emanuel e fariam de tudo para encontrar o seu local de retiro espiritual, que fiz questão de manter em completo mistério, dizendo que tive que perder o fôlego para chegar lá. Achei que procurariam no alto de alguma montanha ou coisa parecida. Jamais imaginariam que estava tão próximo, que meu fôlego era curto assim. Se chegassem perto da cerca o guardião os expulsaria com tiros de sal. Mas as mensagens mais contundentes foram, sem dúvida, as dos líderes religiosos indignados com a imagem que pintamos deles. Não os pintei de forma tão pantomímica quanto o pastor, mas deixei bem clara a sua indiferença com relação à mensagem de Emanuel. Eu não enfoquei as entrevistas na sociedade paralela, mas todos foram perguntados sobre o que achavam da mensagem transmitida por Emanuel e todos deixaram bem claro que estavam acompanhando a sua trajetória pelos meios de comunicação, deixando transparecer uma desconfiança muito grande de seus propósitos. Depois acusaram a revista de não haver interpretado corretamente o que disseram, pois jamais viraram as costas para a população menos favorecida pela sorte. Preparei as 142


O Cristo da Periferia respostas para publicar na seção de cartas da próxima edição. Não foi difícil, pois as milhares de cartas de apoio que recebemos eram a prova viva de que acertamos em cheio com a matéria. Bastou selecionar algumas delas e publicar antes dos protestos. As respostas em geral versaram sobre os critérios utilizados nas entrevistas e os princípios de liberdade de opinião que devem reger os órgãos de imprensa, algo como: “Não concordo com o que você disse, mas respeito o seu direito de dizer o que pensa, esperando que você respeite o meu!” Conforme previmos, o assunto foi destaque nas outras revistas e jornais durante a semana seguinte. Fiquei pensando em como Emanuel devia estar sendo assediado, mas ele sabia o que aconteceria desde que me autorizou a publicar os segredos que me confiou. Fazia parte da vontade do Mundo e nós sabíamos disso. Dona Irene devia estar feliz em posar para tantas fotografias e dar tantas entrevistas. O pastor devia estar tendo muito trabalho para explicar as grades e alarmes da sua “casa de Deus”. Os outros líderes que me deram entrevista deviam estar “mexendo os pauzinhos” para neutralizar os efeitos da publicação. Mas os principais beneficiados foram os menos favorecidos pela sorte. Nunca se debateu tanto sobre a sua condição social. Aqueles que eu acusei de virarem as costas para eles foram os primeiros a criar programas para combate à fome e à miséria, ou aderirem a programas já existentes, como aquele iniciado pelo sociólogo Herbert de Souza nos anos noventa. Revistas, jornais e telejornais anunciavam todos os dias a 143


Jocelino Freitas criação de programas públicos de apoio à população carente. Organizações não governamentais aproveitaram a atenção da mídia para divulgar os seus trabalhos. Não sei se é pretensão de minha parte, mas percebi em pouco tempo uma redução no número de pedintes nas ruas do centro da cidade. Parecia que o plano de Emanuel estava funcionando, ainda que de uma maneira bem singela. O mais interessante em tudo isso foi que ninguém explorou muito a visão de Emanuel. Era como se a denúncia do descaso com a população carente e a existência da sociedade paralela tivessem tomado a atenção de todos e a notícia que devia ser uma bomba passou quase despercebida de quem deveria cair com todas as armas contra o “Filho de Deus”. Lembrei do meu sonho. Incrível a clareza com que lembrava de cada detalhe, principalmente daquela voz que ecoa em meus ouvidos até hoje. Deve ter sido fruto do envolvimento que tive com o caso, chegando a passar a noite toda escrevendo sobre ele. Se bem que eu não estava escrevendo sobre a visão, mas sobre a sociedade paralela. Mas Deus me mandou falar sobre os pequeninos e era isso que eu estava fazendo. Fico pensando no susto de Emanuel. Se eu me assustei ao receber uma mensagem em sonho, imagino ele, que recebeu diretamente. Pensando logicamente, devo ter mesmo sido influenciado pelo que ele me disse e associado isso à entrevista do pastor, que disse que recebia mensagens de Deus em sonhos. Curioso que eu não ouvi nenhum violino, a voz de Deus me pareceu um trovão e 144


O Cristo da Periferia n達o um coro de violinos, como disse o pastor. Se ele ouvisse de verdade, saberia o que dizer.

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27 A minha segunda matéria de capa e o sucesso comercial e editorial da revista me promoveram definitivamente à condição de repórter de primeira linha. A partir dali não restou nenhuma dúvida sobre a minha capacidade profissional. Passei a ganhar como os melhores repórteres e foram colocados à minha disposição todos os recursos jornalísticos da revista. Eu podia usar os assistentes, motoristas e fotógrafos sempre que quisesse. Com parte do aumento contratei um professor para desenferrujar o meu inglês, pois meu plano era ser correspondente internacional. Com mais estrutura meu trabalho passou a ter mais qualidade e minhas reportagens muito mais subsídios. Durante algumas semanas ainda trabalhamos com matérias complementares do Cristo da periferia e da sociedade paralela, mas os assuntos foram perdendo a repercussão naturalmente e não se falou mais sobre eles. Eu me envolvi com outras matérias, mas nunca esqueci das lições de Emanuel, que me ajudaram a chegar aonde cheguei. Às vezes pensava em visitá-lo, ver como ele estava, comer os bolinhos da Dona Maria, mas o trabalho sugava todo o meu tempo e eu acabava não indo. O Mundo, contudo, tem suas próprias 146


O Cristo da Periferia regras e exige o que quer de nós, sem esperar que tenhamos tempo. Um dia o chefe falou, no meio da reunião: – Paulo, a casa do seu amigo Cristo sofreu um atentado. Aquela vizinha ligou avisando. O assunto já saiu da pauta, mas convém você passar lá e ver o que aconteceu. Se for algo interessante faça uma reportagem curta. Carla, cadê o meu café? Adolfo, será que a sua matéria sobre os poços de petróleo em chamas fica pronta antes que apaguem o incêndio? Minha avó de noventa anos já teria acabado se eu tivesse pedido a ela para fazer a reportagem. Levei o maior susto. Por que alguém tentaria matar Emanuel? Ele não fazia mal a ninguém. Mas, pensando bem, fiquei tranquilo por saber que o Mundo não permitiria que nada acontecesse ao seu filho amado. De qualquer modo, isso era um sinal de que ele queria me ver. Fiquei feliz em receber o sinal. Cheguei à Vila Nazaré na van da revista e indiquei a casa de Emanuel ao motorista. Estranhei a falta de gente e a presença dos varais cheios de roupas. Dona Maria veio me receber no portão com um abraço, as mãos geladas, meio molhadas e enrugadas de tanto mexer na água. Apresentei os meus companheiros – fotógrafo e motorista – e perguntei a razão daquela mudança. – Ah, Seu Paulo, foram os traficantes que espantaram todas as pessoas daqui. Eles disseram que essa gente toda nas ruas da vila estava atrapalhando o negócio deles, tava espantando os clientes. Eles não estavam 147


Jocelino Freitas gostando de muita televisão e reportagem por aqui. Então eles expulsaram todo mundo. Olha o que eles fizeram na minha parede! Ela nos mostrou um buraco na parede da casa. Era um buraco de uns trinta centímetros, feito a uma altura de mais de dois metros do chão, na parede da frente da casa. O fotógrafo começou a trabalhar. Fiquei assustado com aquele estrago enorme e pensei em qual arma seria capaz de fazer um estrago daquele tamanho. – Eles têm armas aqui como se fosse um exército, Seu Paulo. Eles enfrentam até a polícia se quiserem. – Mas por que eles fizeram isso? Vocês disseram alguma coisa contra eles? – Meu filho recebeu um recado deles que era pra parar com essa agitação aqui na vila. Emanuel mandou dizer que não chamava ninguém, que as pessoas vinham sem a gente chamar. Então eles vieram dar um jeito. Dois carros cheios de homens armados. Eles atiraram pra cima e as pessoas começaram a gritar e correr desesperadas. Tinha gente doente aqui, Seu Paulo, gente com muletas, cadeiras de rodas. Eles só não mataram ninguém por Deus mesmo. Daí eles deram esse tiro na minha parede que passou raspando nas cabeças das pessoas. – E a senhora e seu filho, onde estavam? – Eu estava lá dentro. Meu filho havia saído para o lugar de oração dele. Eu ouvi aquela gritaria e os tiros. Eles atiraram até com 148


O Cristo da Periferia metralhadoras, mas foi pra cima. Só esse que fez o buraco foi pra baixo, mas por cima das nossas cabeças. Daí alguns deles entraram aqui e mandaram todo mundo sair e ir embora. Quando todo mundo saiu, eles me avisaram que não queriam mais multidão aqui em casa, que da próxima vez eles iam atirar pra matar. Entraram nos carros e foram embora. – E o que o Emanuel diz disso? – Meu filho não se assusta com nada. Ele disse que isso é só mais um sinal. Um sinal de que não vai ser fácil mudar este mundo. – E onde ele está agora? – Ele está visitando os doentes nas suas casas. Ele recebe os recados e vai nas casas. Foi o jeito que encontrou de ajudar esse povo. Depois disso Dona Maria pediu que fôssemos embora, pois não era seguro um carro de reportagem ficar parado na frente da casa por muito tempo. Disse que eu poderia voltar à noite para falar com Emanuel, mas deveria vir com meu carro e estacionar na garagem da Dona Irene. Saí dali indignado com o poder paralelo da sociedade marginal. Como era possível uma organização criminosa influenciar a vida de toda uma comunidade? Tinha vontade de denunciar aquela arbitrariedade, mas não faria nada sem saber o que Emanuel pensava disso, o que o Mundo esperava de mim. Vendo uma invasão como aquela dava até para entender por que a “casa de Deus” era tão 149


Jocelino Freitas protegida. Se bem que, com as armas que os bandidos tinham, s贸 mesmo com paredes de concreto para se proteger.

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28 Buzinei e Dona Irene veio ver quem era. Ela ainda não conhecia o meu carro novo. Estava acostumada com o velho carrinho popular com motor de mil cilindradas. O aumento que recebi deu para comprar um carro melhor, com motor mais potente e muito mais acessórios. Em pouco tempo eu iria comprar meu próprio apartamento. Só teria que mudar os planos em relação aos móveis, porque Emanuel andava tão ocupado que não creio que poderia me atender. Quando viu que era eu, Dona Irene abriu logo o portão, cumprimentando-me calorosamente quando desci do carro. Este tinha seguro, mas eu não queria correr riscos desnecessários se Dona Irene cedia sua garagem com tanta presteza. Ademais, ninguém gosta de ter um carro roubado, mesmo que tenha seguro. Dona Irene contou sobre o atentado à casa de Dona Maria. Já tínhamos tido uma conversa sobre a violência do lugar num outro dia. Desta vez estava mesmo assustada. Nunca os bandidos do lugar haviam entrado numa casa de pessoas inocentes. Nunca haviam atirado numa parede propositadamente. Balas perdidas eram comuns, mas tiros propositais nunca haviam ocorrido. Agora ela e o marido estavam pensando seriamente em mudar de casa. O 152


O Cristo da Periferia marido já tinha tempo de trabalho suficiente para se aposentar e estavam pensando em trocar a casa por uma chácara. O problema eram os filhos que ainda moravam com eles e não podiam morar na zona rural, pois trabalhavam e estudavam. Se seus pais saíssem da Vila Nazaré, teriam que morar em outro lugar da cidade, pagando aluguel. Mas seus salários não eram suficientes para alugar imóvel num bairro nobre, mais seguro. Teriam que continuar morando num bairro de periferia. Se saíssem dali perderiam a vantagem de serem conhecidos de todo mundo e estariam sujeitos a toda sorte de crimes. Mais uma vez era a segurança dos filhos que prendia Dona Irene à Vila Nazaré. Despedi-me dela e fui à casa da Dona Maria, onde fui recebido com muita alegria. Ela e o filho estavam me esperando com a mesa posta para jantar, três pratos sobre a mesa. Não sei como sabiam que eu ainda não havia jantado, mas confesso que estava com saudade da comidinha caseira da mãe de Emanuel. O Cristo da periferia estava tranquilo e demonstrou muito bom humor enquanto jantávamos. Fazia algum tempo que não nos víamos, mas me tratou como se mantivéssemos contato diariamente. Depois do jantar Dona Maria recolheu os pratos e eu perguntei a Emanuel sobre o incidente com os traficantes. – Foi mais um sinal – respondeu – mas não precisa reportagem sobre isso. Todos os dias recebemos sinais. – Mas Emanuel, eu fiquei indignado com essa interferência na sua vida. Eles não têm o 153


Jocelino Freitas direito de fazer o que fizeram. Não podem proibir as pessoas de virem aqui. – Calma, Paulo! O buraco na parede a gente conserta. Ninguém se machucou. Acho até que algum doente, que precisava de estímulo para acreditar que não estava doente, deve ter saído correndo sem precisar da minha ajuda – brincou. – Mas que sinal é esse? Que sinal mais estranho para quem não precisa disso! Não dava para mandar um sinal mais simples? – Ora, meu sincero amigo, você não entendeu que o sinal não era para mim? – perguntou fazendo-me sentir um idiota por não entender onde ele queria chegar. – E para quem era o sinal, homem de Deus? – Era para o povo. Quando os traficantes mandaram me avisar que o povo estava atrapalhando os negócios, eu entendi imediatamente o sinal, mas respondi dizendo que não podia fazer nada se o povo continuava me procurando. Então o Mundo quis que o povo soubesse que chegou a hora de deixarem prosseguir minha missão. Por isso aconteceu tudo o que você já sabe. – Você disse que deve prosseguir sua missão. Então já sabe exatamente o que vai acontecer daqui em diante? – Não é bem assim, Paulo. Sei que temos uma jornada difícil pela frente, mas vamos enfrentá-la com serenidade. 154


O Cristo da Periferia – E que jornada é essa? – Primeiro precisamos escapar das raízes. Temos que sair dos lugares aos quais estamos habituados. Nossa mensagem tem que ser levada a muitos lugares. – Então você vai virar um nômade, como Jesus Cristo? – Mais ou menos assim. Só que o mundo de hoje é bem diferente, as pessoas são frias. Mas sempre vamos encontrar um abrigo, um pedaço de pão, um agasalho. – E quando ou onde isso vai acabar? – Você não deve olhar para o fim da jornada, mas para o caminho. Veja quantas pessoas vamos ajudar. Vai acabar onde o Mundo quiser que acabe. – Por que você está falando no plural? A missão não é só sua? – Não, ela é nossa. Eu não vou partir sozinho. – Sua mãe vai com você? – Não. A missão dela é aqui, na Vila Nazaré. – E quem vai com você? – Algumas pessoas que estou chamando para me seguir, entre elas você. – Eu? – É. Estou chamando você para largar tudo e vir comigo. 155


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O Cristo da Periferia

29 – Você está confundindo as coisas, Emanuel. Sou apenas um repórter – falei suado, ainda não recomposto do susto. – Não, Paulo, não estou. Você é que está enganado. Você não é apenas um repórter. Você tem capacidade de se concentrar e perceber os sinais do Mundo. Ele testou você e está satisfeito com as suas respostas. – Mas eu não sei fazer milagres. – Nem eu. Mas a sua missão não é curar ninguém. O Mundo respeita a sua vocação de comunicador e quer você para ser um elo de ligação entre as sociedades. – Mas eu tenho meu emprego. Agora as coisas estão ficando boas. Comprei um carro novo e estou pensando em comprar um apartamento. Como quer que eu largue tudo? – E o que você tinha quando isso tudo começou? O Mundo respeita a sua vontade. Se você quiser pode dizer não. Esta é uma daquelas encruzilhadas da vida em que se tem que escolher um caminho. Você é um excelente repórter e pode continuar sua carreira pelo resto da vida. Os sinais, contudo, o estão chamando para um outro caminho, que é muito mais árduo, 157


Jocelino Freitas mas cuja realização é bem maior em termos de emoções, de satisfação da alma. – Não sei o que dizer – falei atordoado. – Não diga nada. Vá para casa e escute o que diz o seu coração. Se você recusar o convite, outro será escolhido e você voltará à sua vida normal. Voltei para casa atordoado. O chamado de Emanuel deixou-me confuso. Aquela era a última coisa que eu esperava ouvir. Já passara pela minha cabeça a impressão de que ele usava a mim e à revista para divulgar os seus pensamentos. Não sei de que forma, mas conseguia entrar na minha cabeça, fazendo-me escrever o que queria. Então eu jamais imaginaria que minha presença interessasse a ele fora da revista. Por isso não soube o que dizer, fiquei quase sem palavras. A minha companhia fora da revista era algo que eu jamais imaginei que fosse pedir um dia. Cheguei em casa e não consegui dormir. De repente eu senti que era um estranho em minha própria casa. Nem parecia que eu morava naquele apartamento desde que saí da casa de meus pais. Fui eu que montei cada móvel, pintei as paredes, comprei cada peça de decoração. Por que, então, me sentia um intruso? Por que tudo ali me inspirava uma despedida? O que Emanuel estava pensando? Como podia imaginar que deixaria tudo para segui-lo? E ele ainda me dizia que não era o Messias. Se dissesse que era, eu não teria o menor constrangimento em ir com ele. Mas negava, 158


O Cristo da Periferia não admitia nem mesmo que fazia milagres. Ficava dizendo que seu nome era Emanuel, que não era o filho de Deus, que não fazia nada de extraordinário. – Desgraçado, por que fazer isso comigo? – falei em voz alta, num monólogo despreocupado com interlocutor, ou mesmo se algum vizinho estava ouvindo do outro lado das finas paredes do pequeno apartamento. – Por que não foi chamar algum Pedro? Não sabe que Paulo não era um dos doze? – Quantos será que ele convidou? Será que convidou o bandido Tiago? Será que chamou alguma prostituta, algum pescador? Pensei nos meus pais. Eles estavam orgulhosos de mim. Nunca os vira tão felizes. Parecia que se realizavam com o meu sucesso. Podia até imaginar meu pai falando com os amigos, mostrando as capas da revista e as outras reportagens que eu havia feito ultimamente. Minha mãe devia estar insuportável entre suas amigas de bingo. Como será que os dois reagiriam se eu largasse tudo e fosse conquistar o mundo com um cara que diziam ser a reencarnação de Jesus Cristo? Certamente pensariam que eu estava me achando a reencarnação de algum apóstolo. Imaginei a decepção dos dois. Eu não podia dar esse desgosto a quem sempre me dera tudo o que estava ao seu alcance. Será que largar tudo significaria deixá-los também? Adormeci com estes pensamentos e tive um sono horrível, interrompido por pesadelos com meus pais. Eu não suportava a idéia de decepcioná-los, de 159


Jocelino Freitas abandoná-los. Tinha medo que morressem e eu não estivesse por perto. Apesar da noite mal dormida acordei mais atento do que nunca. Esperava um sinal que me dissesse se eu deveria ou não aceitar o convite de Emanuel. Minha razão dizia que aquilo era loucura, mas meu coração acreditava sinceramente nas palavras do Cristo da periferia. Acho que o Mundo queria me testar, pois não mandava um sinal sequer, nem de que deveria aceitar, nem de que deveria recusar. Se eu tivesse um casamento ou uma namorada nem hesitaria em recusar o convite. Mas até nisso meu coração estava vazio naquele momento. Não tinha compromisso emocional com ninguém, nem mesmo um affair. Desde que o último namoro terminara de forma conturbada dediquei-me somente ao trabalho e um amor não me fazia falta. Fazia dois anos que minha namorada resolvera trocar-me pela carreira. Estudávamos na mesma faculdade, mas ela estava um ano à minha frente. Devo a ela grande parte do meu diploma, pois passamos noites inteiras estudando e fazendo trabalhos. Saí da casa dos meus pais pensando em preparar o caminho para nos casarmos. Ela passava mais tempo no meu apartamento do que na casa dos pais e isso me fazia sentir muito bem. Quando se formou e foi convidada para trabalhar na Itália, pensei que era um prenúncio de sucesso para ela e para mim. Um emprego remunerado em euros e uma casa em Gênova seriam os primeiros passos para o casamento dos sonhos. Ela procurou emprego por seis meses e não conseguiu nada, a não ser algumas matérias 160


O Cristo da Periferia como free-lancer. De repente recebeu o convite de uma amiga que já estava na Itália se dando muito bem na profissão. Faltavam seis meses para me formar e eu disse a ela que esse tempo passaria depressa, que deveria aceitar o convite e ir preparar o caminho para o nosso casamento. Ela então aceitou, mas, quando faltavam alguns dias para embarcar, disse que não gostaria de deixar um compromisso aqui no Brasil, que queria começar vida nova sozinha, sem nenhuma obrigação comigo. Levei o maior susto, pois eu apostava tudo naquela relação. Nunca mais ouvi falar dela e, sinceramente, jamais me interessei em saber nada que lhe dissesse respeito. A mágoa foi muito grande. Desde então não tivera envolvimento sério com ninguém. Parece que até nisso o Mundo preparou o caminho para que eu estivesse livre para aceitar o convite de Emanuel. Mas ainda restava meu emprego. Ainda restavam meus pais. Não era fácil largar tudo e partir numa aventura irresponsável e inconsequente. Pensei em pedir férias, mas a menina do departamento de pessoal disse que eu só poderia sair em férias depois que completasse um ano no emprego, e o chefe ainda tinha mais um ano para marcar a data, a critério dele. Pedi uma licença de trinta dias, mas o chefe não autorizou. Então tentei o último recurso: fui falar com o chefe e contei a ele da possibilidade de fazer uma reportagem especial, com um repórter convivendo diuturnamente com o Cristo da periferia. O chefe não gostou da idéia e me deixou como única alternativa pedir demissão. 161


Jocelino Freitas – Esse assunto já esgotou para publicação em revista, Paulo. Como eu disse, comporta apenas uma nota ou outra. Se você quiser escrever mais sobre ele saia e escreva um livro. Eu estava encurralado. Esperei tanto para arranjar um bom emprego, passei meses sendo tratado como um idiota e, na hora em que consegui o respeito profissional e passei a ganhar melhor, me vem o Emanuel com uma proposta do Mundo para eu largar tudo. Isso me tiraria do que era absolutamente certo e me jogaria no duvidoso, ou melhor, no absolutamente improvável. Estava decidido: Eu não iria com Emanuel. No dia seguinte passei na casa dele para dar a minha resposta. Dona Maria veio me receber no portão com um abraço. Quando perguntei do filho, ela disse: – Partiu esta manhã com os escolhidos, Seu Paulo. Ele só estava esperando a sua resposta, mas parece que o senhor resolveu não ir, não é mesmo? Então eles se foram. Estranho! Eu estava ali para dar a resposta e ele já sabia da minha decisão. Esse Emanuel me intrigava cada vez mais. Com certeza ainda nos encontraríamos. Enquanto eu olhava para a Dona Maria com os pensamentos tumultuados pela decisão que tomei, uma voz inesquecível ecoou em minha cabeça, com o mesmo pedido que eu já havia recebido: – Fale a eles dos meus pequeninos! 162


O Cristo da Periferia Dona Maria continuou impassível, como se não ouvisse o que eu ouvi. Mas aquelas palavras continuaram badalando como um sino em meus ouvidos, e ainda vêm à mente quando penso no que me aconteceu naquele dia.

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30 Voltei à minha vida de repórter, mas com uma sensação de perda muito grande. Meu conforto era a promessa de Emanuel, de que eu poderia continuar minha carreira com tranquilidade, pois qualquer decisão que tomasse seria aceita como a escolha de um caminho numa encruzilhada. Lembrei de uma passagem que vi num filme infantil: Um homem muito rico se aproximou de Jesus e perguntou o que precisava fazer para entrar no reino dos céus. Jesus, então, pegou pesado com o cara e disse que ele precisava vender tudo que tinha, doar o dinheiro aos pobres e seguir Jesus por onde Ele fosse. O cara “amarelou” na hora. Então Jesus disse a seus discípulos que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Eu me senti como a versão moderna desse cara. Fui chamado pelo Cristo da periferia e me apeguei aos valores materiais. Embora não fosse rico, o bandido Tiago me chamou de magnata porque eu tinha um carro popular e uma conta no banco. Para os padrões dele eu era rico mesmo, pois tinha coisas que ele só poderia ter se roubasse muito. 165


Jocelino Freitas O último sinal que recebi foi a repetição do pedido: “Fale a eles dos meus pequeninos!” Isso me deixava com uma obrigação. Eu devia usar minha profissão para falar dos pequeninos, da sociedade paralela. Só então entendi o sinal que recebera. Durante todo aquele tempo não percebera que Deus queria que eu permanecesse no meu emprego, que o meu lugar era mesmo ali. Mas eu tinha que ser submetido a um teste para ver se estava mesmo decidido em meu caminho. Emanuel sempre me disse que não era Cristo, mas mesmo assim agiu como um. Fez milagres, leu pensamentos e saiu pelo mundo chamando as pessoas para um novo modo de vida. Parece que o Mundo, como ele chamava, gosta de uma brincadeira de vez em quando, gosta de deixar as pessoas com decisões complicadas para tomar. Deve ter se divertido muito com a minha dúvida, com os conflitos pelos quais me fez passar. Não demorei a ter notícias de Emanuel. Um ou outro repórter sempre o encontrava e vinha comentar comigo, pois todos sabiam do prêmio “melhores do ano” que ganhei pela reportagem que fiz sobre Ele e a sociedade paralela. Um ou outro jornal, de vez em quando, publicava uma nota ou matéria curta sobre seus feitos. Ele saiu da Vila Nazaré e foi morar num outro conjunto habitacional da periferia, numa casa abandonada. Ele e seus seis discípulos dormiam no chão durante a noite e recebiam as pessoas doentes durante o dia. Em pouco tempo Emanuel ficou famoso como curandeiro no bairro. Isso era estranho para mim, pois ele não queria ficar conhecido como curandeiro ou 166


O Cristo da Periferia milagreiro. Queria que as pessoas o vissem como um mensageiro, que entendessem os sinais do Mundo. Em pouco tempo foram expulsos do bairro, pois atingiram domínios alheios, tanto pelo lado da fé quanto pelo lado dos bandidos e traficantes. Depois disso ele e seus discípulos vagaram pelos bairros da periferia, permanecendo o tempo que fosse permitido que ficassem. Andaram pelos municípios da região metropolitana e, depois, eu soube que partiram para o interior, de cidade em cidade, sempre buscando os bairros menos favorecidos, a sociedade paralela. As mudanças que a reportagem provocou foram importantes, pois proporcionaram a criação de diversos programas de melhoria das condições de vida da população de baixa renda. Isso, entretanto, não mudou a necessidade da maioria das pessoas, daquelas que ainda são privadas de boas escolas, de postos de saúde, de laboratórios e remédios. O povo continua doente e desdentado, mas não esquecido, porque o Mundo quer que sobreviva. Esta é a mensagem de Emanuel. Será que chegará ao seu destino? Será que chegará ao coração das pessoas?

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O Cristo da Periferia

31 Minha vida mudou muito desde que comecei a carreira no jornalismo. Iniciei numa revista de segunda linha, como repórter. No começo só me davam para fazer matérias sem nenhuma expressão. Dei sorte de estar na redação no momento em que chegou a notícia da queda de um avião perto dali. Foi a minha primeira capa. Minha ascensão coincidiu com o crescimento da própria revista no meio jornalístico e, em pouco tempo, eu era um dos mais respeitados jornalistas da cidade. Fui convidado, então, para trabalhar na televisão, com salário bem melhor. De repórter logo passei a apresentador de telejornal e, depois de onze anos de carreira, cheguei a âncora e redator-chefe no mesmo telejornal em que comecei sete anos antes. Minha vida afetiva também mudou muito. Quando comecei a trabalhar na televisão conheci uma repórter que já trabalhava lá. Começamos a sair juntos depois do expediente e, em pouco mais de um ano, já estávamos casados. Pensei que seria mais difícil me apaixonar novamente depois da experiência traumática que tive em meu relacionamento anterior, quando minha noiva me deixou para ir viver na Itália e não quis manter o compromisso, mas meu coração estava pronto para amar sem 169


Jocelino Freitas que eu percebesse. Então encontrei uma pessoa adorável e sincera, que me fez ver o amor por outro ângulo, que me fez esquecer aquele medo inconsciente que eu tinha de ser rejeitado outra vez. Estou feliz por ter ficado no Brasil para conhecê-la. Se eu não tivesse sido rejeitado pela outra, certamente teria ido morar na Europa e poderia estar infeliz ou separado, pois agora enxergo claramente que não nos amávamos, apenas nos acostumamos com a presença um do outro e nossa relação durou enquanto foi conveniente. Quando ela viu a oportunidade de uma vida nova, não pensou duas vezes. Embarcou imediatamente, sem pensar nas consequências de sua decisão em minha vida. Naquele tempo fiquei muito magoado, mas depois percebi o quanto isso foi bom para mim, pois fiz minha carreira sozinho e somente depois de consolidada foi que conheci a mulher ideal. Eu e Graça nos casamos na igreja de Santa Terezinha. Foi uma cerimônia muito bonita, estavam presentes todos os nossos parentes e amigos. Meus irmãos vieram com suas famílias ver o casamento do último irmão solteiro. Minha mãe estava muito emocionada e meu pai orgulhoso. O pai de Graça, Dr. Jordão, que tem uma indústria na Cidade Industrial de Curitiba, patrocinou um jantar, no Clube Curitibano, para quinhentas pessoas. Tinha gente importante lá. Até o prefeito e o governador vieram me cumprimentar, como se eu fosse um velho conhecido. É a vantagem de ser repórter da televisão: você entra nas casas e acaba fazendo parte das famílias sem sequer conhecê-las. Mas o governador e o prefeito eram convidados do 170


O Cristo da Periferia Dr. Jordão, muito influente e sempre envolvido em campanhas eleitorais. Bem diferente do meu pai, um simples representante comercial, que criou seus filhos com um bom padrão, mas sem muito luxo ou extravagância. Sempre nos ensinou a dar valor a tudo o que temos, principalmente aos amigos e ao nome, conservando-o com honra e caráter, pois é nosso maior patrimônio. Não estou dizendo que Graça foi criada sem esses valores, mas apenas enaltecendo meu pai. Graça é uma pessoa encantadora, profissionalíssima e honesta em tudo o que faz. Sua criação num ambiente abastado não fez dela uma pessoa prepotente. Ao contrário, desde cedo se acostumou a batalhar pelo próprio sustento, sem depender do pai. A única influência do pai em sua carreira foi a indicação para um estágio na televisão, quando era estudante. A partir daí galgou todos os degraus por seus próprios méritos. Falava fluentemente inglês, francês, italiano e espanhol. Isso possibilitou sua ascensão a repórter internacional rapidamente. Claro que já conhecia muitos lugares, o que também ajudou na sua escalação para reportagens no exterior. O resto ficou por conta da sua competência e da qualidade do seu trabalho. Tivemos um filho, o Bruno, um menino esperto, hoje com cinco anos de idade. Não quisemos ter mais filhos porque eu e ela passamos muito tempo na redação e quase não podemos estar juntos os três, principalmente porque ela vivia viajando para fazer matérias no exterior. Às vezes passávamos semanas inteiras conversando pelo telefone e pela internet. Também 171


Jocelino Freitas conversávamos nas tomadas que ela fazia pelo satélite, antes de entrar no ar. Ainda bem que a tecnologia evoluiu bastante nos últimos anos. Assim podíamos estar juntos apesar da distância. O pequeno Bruno era quem mais sentia a falta da mãe quando ela viajava. Graça tentava suprir isso com conexão por webcam todos os dias, além de muito carinho quando estava em casa. Quando ele nasceu, a mãe teve que frear um pouco a carreira para se dedicar a essa experiência fantástica que é criar uma vida nova, um ser vivo com vontade própria e com uma personalidade que nos surpreende a cada dia. Com isso eu tive mais oportunidades profissionais que ela, pois acho que é muito mais competente que eu. Tudo o que faz é bem feito. Independentemente de ser casada comigo, é uma das melhores repórteres que conheço. Ela poderia trabalhar em qualquer lugar do mundo, pois é a eficiência em pessoa. Com nosso sucesso profissional conseguimos formar um bom patrimônio, sem ajuda de ninguém. Construímos uma bela casa, compramos outras no campo e na praia, alguns imóveis alugados, alguns investimentos, bons planos de aposentadoria programada, enfim uma vida boa, que justifica todo o nosso esforço. Conseguimos tirar alguns dias de férias juntos todos os anos e, graças a isso, pudemos viajar para conhecer vários lugares do mundo. Muitos deles ela já conhecia e me levou para compartilharmos, com nosso filho, a alegria de sermos uma família feliz. O trabalho na redação era estressante, mas já estava acostumado a ele. Às vezes me via 172


O Cristo da Periferia como meu primeiro chefe: absolutamente nervoso e falando com todos ao mesmo tempo. Aprendi muito com ele. Depois que saí da revista passamos a ser amigos. Rimos muito das nossas experiências passadas. Sempre que tínhamos necessidade de alguma troca de informações conversávamos com sinceridade. Acho que ele se realizou em mim, pois nunca teve coragem de largar a revista para tentar a sorte num outro veículo de comunicação. Convites não faltaram, pois é muito bom no que faz. Faltou a ele segurança para abandonar aquilo que havia lutado tanto para conquistar: uma revista de primeira linha, respeitada pela seriedade e credibilidade de seu jornalismo. Então ele projetou em mim os sonhos que não realizou pessoalmente. Por isso me apoiou tanto para mudar quando fui convidado para trabalhar na televisão, mesmo abrindo mão de seu melhor repórter, como ele mesmo me falou posteriormente. Acho que foi a primeira vez que vi o chefe parar de pensar, por um instante, na próxima edição. Eu entrei na sala dele e falei rapidamente, depois de dizer como estava minha matéria daquela semana, que fui chamado para um emprego na televisão. Justifiquei dizendo que era uma proposta atraente, pois pagavam muito bem e, ainda, seria um novo desafio na minha carreira. Ele parou de falar por um instante e me fitou como se olhasse através de mim, como se visse a si próprio trinta anos mais jovem. Depois de alguns instantes falou: – Vá em frente, filho. Você tem talento. Deixe que eu cuido de tudo aqui. 173


Jocelino Freitas Mais do que o apoio, aquela declaração de admiração ao meu talento me comoveu. Tive outros chefes, mas para mim parece que sempre trabalhei para prestar contas àquele velho chefe, àquele velho mestre.

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O Cristo da Periferia

32 Freei bruscamente o carro para evitar atropelar um maluco que atravessou correndo a rua. Ele veio correndo a pé, de uma via lateral, e nem olhou para os lados para atravessar a pista. Parecia até que estava fugindo de alguém. Infelizmente o carro que vinha na pista ao lado não teve a mesma percepção que eu e atropelou o homem, arremessando seu corpo alguns metros à frente. Num acidente o cérebro funciona muito mais rápido que o normal e as coisas parecem acontecer em câmera lenta. Tive tempo de ver o corpo do homem rolando sobre o capô do carro, amassando-se contra o párabrisa e, após a parada do veículo, voar e se espatifar no asfalto como se fosse um saco de cereais jogado por um estivador. Na minha vida de jornalista vi muita gente morta, mas uma tragédia assim, ao vivo, eu jamais presenciara. Estacionei e corri para prestar socorro à vítima. Era muito importante verificar os sinais vitais e imobilizar o homem até que o socorro chegasse. Para isso eu já estava com o telefone celular na mão, pronto para acionar o serviço de resgate do corpo de bombeiros. Cheguei à vítima quase ao mesmo tempo que o atordoado motorista que a atropelara. O homem estava esticado de bruços no chão, respirando ofegante, o rosto deitado sobre os braços dobrados como um travesseiro. Tomei a dianteira da situação, pois 175


Jocelino Freitas o outro motorista estava pálido como um cadáver e parecia mais precisar de ajuda do que estar em condições de ajudar. Virei a vítima, que continuou com os braços encobrindo o rosto e respirando ofegante. – Não se mexa – falei – o socorro já está a caminho. O homem estava vivo e isso foi um grande alívio para mim e para o outro motorista. Percebi que usava roupas muito simples, que o cabelo não tinha corte, a barba estava por fazer. Parecia um andarilho, que devia estar fugindo de alguém por causa de algum pequeno furto. Mas não carregava nenhum volume, o que me fez pensar que poderia ser um assaltante. Revistei instintiva, mas discretamente o seu corpo, fingindo procurar alguma fratura, mas na verdade procurando uma arma. Nada. Nem mesmo um documento ele levava. – Como é seu nome, amigo? – perguntei. Ao ouvir minha pergunta ele tirou o braço de sobre o rosto e agarrou minha gravata, puxando-me para perto. Pensei que fosse me dizer o nome, mas disse apenas, com uma expressão de quem sentia muita dor: – Ele está morto! Não entendi o que ele disse. Sinceramente fiquei tonto com o terrível mau hálito do sujeito, que não devia visitar um dentista havia muito tempo. – Eles o mataram. Eles tiveram coragem de matá-lo de novo. 176


O Cristo da Periferia Uma mão com luva me puxou para longe do pobre miserável, enquanto ele chorava compulsivamente, dizendo palavras desconexas. Era um paramédico que me afastava da vítima, enquanto outro já lhe colocava um protetor de pescoço, para evitar lesão da coluna cervical. Logo veio um terceiro com uma maca. Estavam passando pelo local e não precisaram ser chamados. Colocaram-no na ambulância e saíram em disparada, sirene estridente ligada. Dei meu cartão de visita ao homem que atropelou o coitado, oferecendo-me como testemunha para comprovar num tribunal, se fosse preciso, a sua impossibilidade de evitar o acidente. A polícia já estava por ali fazendo o levantamento. Deixei o local pensando na fatalidade acontecida. Quem seria aquele miserável? Será que tinha família? São pessoas como aquela que morrem e são enterradas em valas comuns. Se não aparecem parentes, seus corpos são doados para universidades, onde são cortados e costurados pelos estudantes de medicina em experiências científicas ou aulas práticas. Aquele coitado teve sorte de sair vivo, mas podia estar com alguma hemorragia que o levasse à morte. Pela sua aparência dava para ver que não tinha plano de saúde. Certamente o serviço público de saúde não faria muita questão de preservar sua vida se isso dependesse de algum procedimento mais complexo. Pensei no que me disse. Devia estar delirando pela morte de algum amigo. É normal que bandidos se matem uns aos outros. Vejo 177


Jocelino Freitas isso quase todos os dias no telejornal que apresento. Se ele estava sem documento só podia ser um bandido e estava fugindo para não ser morto como seu amigo. Só não entendi o que quis dizer com “mataram ele de novo.” Devia ser alguma alucinação do pobre homem.

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O Cristo da Periferia

33 Cheguei atrasado à redação. Antes de seguir para o trabalho tive que voltar para casa, tomar outro banho e trocar de roupa, pois estava todo suado e sujo de sangue. O acidente daquela manhã foi responsável pela confusão do meu dia, não só pelo tempo que fiquei parado mas, principalmente, porque quebrou minha concentração. Eu não conseguia tirar da cabeça aquela cena do homem rolando sobre o carro e voando até cair no chão. Pensei em usar minhas fontes para descobrir em que hospital foi internado, mas desisti. Não seria honesto gastar o dinheiro da televisão com uma notícia tão corriqueira quanto aquela. Atropelamentos acontecem com frequência e não interessam a ninguém. Se não iria ao ar, eu não poderia desperdiçar o tempo da redação. Nisto sou muito exigente e não seria eu quem quebraria esta regra. O problema foi que a minha quebra de concentração prejudicou o trabalho, pois diminuiu minha produtividade. Concluí que não é bom que jornalistas sejam parte das notícias. Naquela noite o jornal saiu como tinha que sair. Fiz um esforço muito grande para não demonstrar que eu não estava bem. Um apresentador tem que ser também um artista, pois deve dar as notícias sem demonstrar seu 179


Jocelino Freitas estado emocional. Ainda bem que a minha equipe é eficiente e eu só precisei deixá-la trabalhar. Se dependesse da minha presença de espírito, o jornal não iria ao ar. Só Graça, minha mulher maravilhosa, que estava de folga naquele dia, percebeu que eu não estava bem. Quando cheguei em casa perguntou o que eu tinha naquela noite, pois assistiu ao jornal e me sentiu sem o brilho nos olhos que sempre vê. Contei o que aconteceu pela manhã e ela entendeu o motivo pelo qual eu não estava bem. Esta mulher me conhece até pelo brilho dos olhos. Acordei sobressaltado. Era madrugada ainda e meu coração batia rapidamente, parecendo querer saltar do peito. Levantei e fui ao banheiro. Olhando-me no espelho vi um homem experiente, parecendo ter mais do que os meus trinta e seis anos. Os cabelos brancos começavam a aparecer. Dentro de pouco tempo eu estaria grisalho como o Cid Moreira. Fui à cozinha tomar um copo d’água e voltei para a cama. Dormi ainda impressionado pelo acidente. Pensei no sonho que me tinha feito acordar daquele jeito. Só que no meu sonho era eu quem havia sido atropelado. Num instante vi toda minha vida passar diante dos olhos. Depois daquele vôo que não acabava nunca, caí com o rosto no chão, mas não sentia dor alguma. Coloquei os braços entre meu rosto e o chão e os senti encharcar em sangue. Era assim que estava o miserável que eu havia socorrido, completamente ensanguentado. De repente eu já não era mais a vítima. Estava socorrendo e virando o corpo daquele homem e vi o seu rosto, 180


O Cristo da Periferia embebido em sangue, antes que ele tornasse a cobri-lo com os braços. Aqueles traços não me eram estranhos. Quando ele descobriu o rosto e começou a falar do amigo morto, já não senti seu hálito fedorento e pude olhar bem em seus olhos. Aquele homem estava maltratado pela vida e pelo acidente. Estava meio morto, meio vivo, mas suas palavras confusas agora pareciam claras como o dia. Por isso acordei de sobressalto com um nome em minha cabeça: – Tiago!

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O Cristo da Periferia

34 Toda aquela história me veio à mente quando lembrei da fisionomia de Tiago, o ladrão que tentou me assaltar dez anos atrás. O tempo foi cruel com ele, pois era bem mais novo que eu e agora parecia mais velho. Tinha a pele enrugada e muito queimada pelo sol. Os cabelos, com muitos fios grisalhos, apresentavam entradas muito acentuadas, que prenunciavam uma calvície. Lembrei de Emanuel, que havia impedido o assalto. Ele era considerado por muitos como a reencarnação de Jesus Cristo, pois fazia coisas inexplicáveis. Para ele as coisas que fazia eram normais, pois entendia os sinais do mundo e somente seguia o que esses sinais diziam. O interessante era que ele tinha uma inteligência excepcional e não aproveitava isso para ganhar dinheiro. Morava numa casa humilde da periferia e trabalhava como carpinteiro, uma profissão que não exige maiores habilidades. Um dia os traficantes o mandaram parar de receber multidões na sua casa e ele saiu pelo mundo fazendo “milagres”. Acompanhei sua trajetória de perto, pois era um repórter iniciante e ele confiava em mim de uma forma especial. Devido a essa confiança, eu conseguia entrevistas exclusivas e informações privilegiadas diretamente da fonte. Uma vez 183


Jocelino Freitas Emanuel me levou a um lugar maravilhoso no meio do mato, numa piscina natural sobre um piso de pedra, e disse que ali ouviu a voz de Deus. Será que aquele lugar ainda existe? Depois desse dia ele abandonou a profissão de carpinteiro e passou a se dedicar somente a ajudar as pessoas carentes com apoio espiritual. Quando teve problemas com os traficantes propôs que eu largasse tudo e saísse com ele pelo mundo. Nem penso no que teria me acontecido se tivesse aceitado a proposta. Imagino que não teria nada do que tenho hoje. Mas confesso que fiquei em dúvida diante do convite. Eu realmente estava impressionado com Emanuel e com a coerência do que dizia. Recebi muitos “sinais do Mundo”, como ele chamava, naquela época. Por algum tempo tive notícias dele mas, depois que saiu da cidade, as notícias foram rareando e nunca mais eu soube de seu paradeiro. Não foi difícil descobrir em qual hospital Tiago estava internado. Telefonei para o Hospital do Trabalhador e falei com um amigo que é médico e estava de plantão na noite anterior. Pela descrição de Tiago e do acidente meu amigo soube imediatamente de quem eu estava falando. Teve que operá-lo às pressas porque apresentava sintomas de hemorragia interna em decorrência das fraturas. O homem morreria se não tivesse tido a sorte de receber socorro imediato. – Vai ficar algum tempo impedido de andar porque fraturou também a “bacia”, além da clavícula, uma perna, um braço, algumas costelas, pulmão furado e um traumatismo 184


O Cristo da Periferia craniano. Belo estrago conseguiu o seu amigo, hein? – disse-me o médico ao telefone. À noite, depois do trabalho, passei no hospital para falar com Tiago. Não era horário de visitas mas a enfermeira abriu uma exceção porque me conhecia da televisão. Ele estava numa enfermaria com seis camas, todo engessado e com a cabeça enfaixada, escondendo os cabelos, que deviam ter sido raspados. Quando parei diante dele, reconheceu-me imediatamente e tentou sorrir. – Vejam só quem resolveu aparecer! O magnata da tevê – disse com voz baixa, ainda sob efeito de sedativos. – Você ainda lembra de mim? – Perguntei, em tom de surpresa. – E como não lembrar? Todos no hospital vêm me ver porque sou o cara que você salvou no acidente. Você é a minha vítima mais famosa. Sempre que te vejo na televisão eu lembro daquele dia em que quase te assaltei. Acho que já tem uns bons anos, não tem? – É. Deve fazer uns dez anos. – Poxa, dez anos! Minha vida mudou muito nesse tempo. De assaltante virei apóstolo de Cristo e agora estou aqui, todo quebrado. – Você está falando do Emanuel? – Sim. Eu o tenho seguido nos últimos dez anos por este mundo. Aprendi muitas coisas com ele. Se não fosse por ele eu ainda seria um ladrão, ou um traficante... certamente estaria preso ou morto. 185


Jocelino Freitas – Que bela mudança. Vejo que você não mudou só no vocabulário. – Não sei o que significa essa palavra que você falou – vocabulário – mas tem muita coisa boa em mim. Jesus me mostrou isso. – Como está o Emanuel? Eu gostaria de vêlo outra vez. – Ele está morto! – falou com os olhos se enchendo de lágrimas – Eles o mataram! – Então era mesmo dele que você estava falando quando foi atropelado?!? Como foi que isso aconteceu? – Foi na cadeia. Eles o torturaram muito. – Mas por que ele foi preso? – Ele não fazia mal a ninguém, mas algumas pessoas se indignavam com as coisas que dizia. Se dependesse dele, não haveria religiões. Acho que foi por isso que o prenderam. – Mas ninguém pode ser expressar suas crenças religiosas.

preso

por

– Eu sei. Ele também sabia disso, mas não reagiu quando o algemaram e puseram no camburão. Ele havia nos avisado que viriam prendê-lo. – Eu não entendo. Isso não tem lógica. Deve haver mais alguma coisa por trás dessa prisão. A polícia não prende alguém sem um motivo. – O motivo que eles deram foi a invasão de casas desocupadas e o curandeirismo. Eles já 186


O Cristo da Periferia haviam avisado para o Jesus parar de ficar curando as pessoas por aí, mas ele parecia não se importar com isso. – Então foi por isso que o prenderam? – Prenderam porque ele estava esvaziando as igrejas, esta é a verdade. As igrejas têm muitos adeptos, até dentro da polícia. E o Emanuel perturbava a existência desses que só querem o dinheiro do povo. Ele dizia para as pessoas pararem de pagar o dízimo, pararem de ir aos templos externos, porque o verdadeiro templo está em seus corações. De nada adianta um coração de pedra num templo magnífico. É bem melhor ter um coração magnífico numa tapera. Deus aprecia muito mais os humildes do que os soberbos. – Mas por que o mataram? Ninguém tem esse direito! Quando foi isso? – Foi ontem. Quando me contaram que ele estava morto, eu saí correndo desesperado e fui atropelado. Agora estou aqui, todo quebrado, e não posso ir ao velório do meu mestre. Tiago voltou a chorar e eu preferi deixá-lo a sós com a sua angústia. Quando falou sobre o velório de Emanuel, me veio à mente o mesmo pensamento. Eu iria ao enterro. A conversa com Tiago, sua devoção a Emanuel, despertou em mim uma vontade imensa de encontrá-lo novamente. Infelizmente só poderia vê-lo morto.

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Jocelino Freitas

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O Cristo da Periferia

35 Cheguei à Vila Nazaré. Quase me perdi no caminho, porque era noite e fazia muito tempo que eu não ia lá. Outros conjuntos habitacionais foram construídos ao redor, inclusive naquele lugar onde Emanuel ouviu a voz de Deus. Na vila as casas foram modificadas, muitas cercas foram trocadas por muros. As árvores das ruas e praças estavam enormes. Antes pareciam arbustos que insistiam em sobreviver aos ataques dos vândalos. A casa de Dona Irene estava ampliada, com dois andares e uma construção nos fundos. A casa de Dona Maria, contudo, parecia ter parado no tempo, pois estava igualzinha. Dez anos se passaram e eu estava ali de volta, com os pensamentos voltados para os momentos felizes que vivi naquela casinha humilde e para a tragédia que me trazia de volta ao lugar. Algumas pessoas estavam em frente à casa, o que me fez pensar que o velório transcorria normalmente. Mas Emanuel estava longe de ser uma pessoa convencional, ainda que morto. Entrei cumprimentando as pessoas que acenavam como se me conhecessem. Ao entrar na casa não havia nenhum caixão, só pessoas aglomeradas e conversando. Dona Irene estava por ali e veio me abraçar. Ela não 189


Jocelino Freitas havia mudado nada. Continuava com a mesma maquiagem carregada, mas muito amável, revelando seu bom coração. – Seu Paulo, é bom vê-lo de novo pessoalmente. Eu assisto o jornal todos os dias só para vê-lo. O senhor ficou rico e esqueceu de nós. Deve andar muito ocupado. Que pena que tenha precisado morrer o Emanuel pra o senhor voltar aqui. Ele era muito bom e não merecia morrer. – Pois é, Dona Irene. A vida às vezes nos afasta das pessoas que gostamos, mas eu guardo boas recordações da senhora e deste lugar. Pensei que ia encontrar um velório aqui. – O corpo não chegou ainda. Eles levaram para o Instituto Médico Legal e, desde ontem, ainda não entregaram para a mãe enterrar. -É bom que ele passe por uma autópsia. Se foi torturado, vão descobrir como foi que morreu. – Veja o senhor, que judiação, né? Matarem o coitado. Pois nem na hora da morte escapou das coincidências com Jesus Cristo. Ele tinha trinta e três anos, mexeu com os poderosos da fé e foi torturado até morrer. – Meu Deus, predestinado ele foi.

é

mesmo!

Que

homem

– A Maria está lá na cozinha. Quer vê-la? Entrei na cozinha e deparei com Dona Maria. Estava com um semblante muito abatido, o que fazia parecer que tinha muito mais idade. Devia ter sofrido muito nos dez anos que se passaram desde que a vi pela última vez. Os 190


O Cristo da Periferia traços bonitos ainda estavam em seu rosto, mas ela parecia uma velhinha cansada. Ao me ver deixou de lado o coador, no qual passava um café, e veio me abraçar afetuosamente, com lágrimas correndo pelo rosto. – Oh, Seu Paulo. Veja só que maldade fizeram com o meu filho. O senhor acha que precisavam matar ele? – Claro que não, Dona Maria. Os responsáveis por isso terão que prestar contas à justiça. – Só se for a justiça de Deus, Seu Paulo, aqui eles são a justiça. – Se o corpo dele foi para o IML vão descobrir a causa da morte. – Disseram que ele escorregou, bateu a cabeça e morreu. Não é verdade. Mataram ele. Mataram o meu filho! E onde está ele agora? Onde está o corpo dele? Onde está o espírito dele? E as coisas que ele falava? Por que Deus deixou matarem ele? Por quê, meu Deus? Dona Maria falava em voz alta e suas perguntas ecoavam por toda a casa. Não estava falando comigo, mas através de mim. Eu não tinha resposta para nenhuma das suas perguntas. – Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? A senhora está precisando de alguma coisa? – Eu estou precisando enterrar o meu filho, Seu Paulo. O senhor é estudado, é famoso. Por favor, traga o corpo do meu filho pra eu velar, 191


Jocelino Freitas pra eu chorar perto dele. Se ninguém importante pedir, eles vão levar três dias pra liberar no IML. Diante de um pedido tão emocionado, não tive como recusar. Liguei para minha esposa e contei o que aconteceu. Disse que ia demorar mais ainda para chegar em casa. Ela me deu uma boa ajuda, pois conhecia alguém no IML e já foi fazendo contatos enquanto eu dirigia para lá. Quando cheguei já estavam me esperando. Passei pelas pessoas que estavam do lado de fora, esperando a liberação de seus mortos, e cheguei ao balcão. Não precisei dizer nada porque uma pessoa já abriu a passagem na lateral do balcão e me convidou para entrar. Levou-me até uma sala, onde uma médica me recebeu solícita. – Olá, sou a Marta, amiga da Graça. É um prazer conhecê-lo pessoalmente. – Prazer em conhecê-la, Doutora Marta. – Chame-me de Marta. Estamos com um problema sério em relação ao corpo do seu amigo. – Eu sei disso. Pelo que eu ouvi falar a polícia diz que ele escorregou e caiu, mas os amigos e familiares disseram que foi torturado até a morte. – É o que dizem, mas eu não posso fazer a necropsia. – Não pode, por quê? – Porque o corpo dele sumiu!

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O Cristo da Periferia

36 – Como sumiu, Marta? Você está dizendo que a polícia o escondeu, é isso?

me

– Não, Paulo, não é isso. Ele foi trazido para cá e colocado numa sala, onde esperava que eu terminasse outra necropsia para examiná-lo. Já me haviam dito que o caso era de suspeita de violência policial. Eu repudio esses policiais que se consideram juízes e carrascos. Estava disposta a examinar minuciosamente aquele corpo. Sabia que não ia demorar a tocar o telefone, com este ou aquele delegado ou político pedindo para influenciar no meu laudo. Mas quando mandei trazerem o corpo, ele não estava mais lá. – Então conseguiram burlar a segurança e levaram o corpo que já estava aqui? – Não. – Então foi alguém aqui de dentro que o escondeu? – Não. – O que aconteceu, então? – Eu não sei. – Marta, o que está acontecendo aqui? Eu estou levantando hipóteses e você as está 193


Jocelino Freitas descartando como se tivesse certeza de que não houve uma invasão. Eu sugeri a participação de algum funcionário e você disse que não foi isso. Se você não sabe o que aconteceu, como pode afirmar o que não aconteceu? – Afirmo com isso! Colocou sobre a mesa um lençol dobrado. Levantou-se e foi abrindo-o sobre uma maca que se encontrava ao lado. Eu observava os seus movimentos nervosos, estranhos para uma legista, sentado na cadeira em frente à escrivaninha. Quando ela terminou de abrir o lençol e apontou para ele, eu fiquei em pé e quase caí sentado de novo. O lençol estava marcado com uma imagem de homem, como um sudário. Era uma mancha marrom, como se os contornos da figura tivessem sido produzidos por um ferro quente. Examinei bem de perto e vi que não era possível que alguém tivesse feito aquilo manualmente, pois a imagem era rica em detalhes. Dava até para reconhecer a fisionomia de Emanuel. Um bom artista levaria semanas para obter aquela precisão com um pincel e tinta. – Como foi isso, Marta? Como ele sumiu? – Quando o enfermeiro avisou que ele havia sumido, eu corri até a sala e vi a maca com este lençol sobre ela. É uma daquelas macas metálicas, como uma forma, que a gente usa aqui. O lençol a gente põe por cima só para evitar que algum novo elemento se misture ao cadáver antes do exame. Pode cair ou sair alguma coisa, ou um inseto pousar, ou qualquer outro fator que influencie no resultado do 194


O Cristo da Periferia exame. Às vezes até um fio de cabelo, que esteja no corpo e não seja da vítima, pode dizer quem foi o autor. Bem, eu cheguei e vi o lençol esticado, como se o corpo ainda estivesse sob ele. Era como se alguém tivesse tirado o corpo e se dado ao trabalho de recolocar o lençol ali de novo. Tirei o pano e a maca estava tostada, igualzinho, com a marca das costas do homem. Eu já ouvi falar em autocombustão, em corpos que queimam sem qualquer agente externo. Mas esse corpo foi transformado em luz. Ele não produziu chama, por isso o lençol não virou cinzas. – Isto que você está me dizendo é fantástico. Você sabia que o corpo era do homem que, dez anos atrás, foi chamado de Cristo da periferia? – Eu só fiquei sabendo disso depois que ele sumiu. Os enfermeiros me contaram. Sinceramente, não sei o que pensar. Liguei para a redação e mandei vir uma equipe de reportagem. Também liguei para o meu ex-chefe e sugeri que mandasse uma equipe. Não faria nenhum mal dividir com ele a notícia, pois era sábado e a edição dele já estava fechada. Até que a revista chegasse às bancas eu já a teria levado ao ar. E ajudando-o com o furo jornalístico eu ficava em crédito para o futuro, quando ele descobrisse alguma matéria inédita. Sempre trocávamos essas gentilezas quando isso não prejudicava nossos patrões. Fazia muito tempo que eu não apresentava uma reportagem pessoalmente, mas aquele era um assunto ao qual eu estava tão ligado que 195


Jocelino Freitas não dava para deixar de me envolver. Enquanto o repórter tomava as informações, eu fazia as gravações e mandava o cinegrafista filmar cada detalhe do lugar, portas e janelas por onde alguém pudesse retirar ou esconder um corpo sem ser percebido. Mas o que mais me impressionava era o sudário e a maca. Aquilo corroborava toda a tese dos que afirmavam que Emanuel era o Messias. Imaginei o que diriam o cego Alcides e o seu pastor. Talvez eles próprios pudessem ser suspeitos de haver tirado o corpo dali. Eu não sabia o que pensar. Minha cabeça dava voltas e voltas. Tudo era estranho e tudo me impressionava. Terminei a reportagem e deixei uma pessoa ali para as providências finais, no aguardo de mais alguma informação. Mandei a equipe ir à Vila Nazaré tomar depoimentos e levar um recado meu para a Dona Maria. O filho dela havia voltado para o Mundo – como ele chamava Deus – e não havia corpo para enterrar. Já era madrugada e eu precisava dormir um pouco. Fui para casa apenas para deitar, porque não consegui dormir. – Meu Deus. Ele veio ao mundo e eu o rejeitei. Não atendi ao seu chamado.

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37 Amanheceu e eu ainda estava acordado. Era domingo e não precisava levantar cedo para trabalhar. Tomei café mais tarde, com Graça e o pequeno Bruno. Depois ficamos conversando, eu e ela, sobre o desaparecimento do corpo de Emanuel. Era difícil para ela, como repórter, acreditar na idéia sobrenatural que o caso sugeria. Eu mesmo não acreditaria se não tivesse visto aquele lençol e a maca. Lembrei da capacidade que Emanuel tinha de me desconsertar com respostas em forma de perguntas. Agora, depois de morto, me deixava uma porção de perguntas sem respostas. Como eu queria ter falado com ele mais uma vez, saber como tinha sido a sua vida nos últimos dez anos, se tinha ouvido a voz de Deus outra vez, enfim, saber como havia conseguido sobreviver todo esse tempo. Lembrei da indignação dele quando ouviu a voz de Deus. Foi a primeira vez que aconteceu alguma coisa que não sabia explicar. Mesmo os milagres que fazia, ou o fato de ler os pensamentos, eram para ele coisas normais, pois ouvia os sinais do Mundo e tudo era colocado em sua cabeça como se fosse uma conexão de internet. Por isso não admitia qualquer santidade ou sobrenaturalidade no que 197


Jocelino Freitas fazia. Mas, quando ouviu a voz de Deus, balançou em seus conceitos, principalmente porque a voz dizia: “Você é meu filho amado.” Isso o colocava em conflito com tudo o que dizia. Era incoerente, também, que Cristo voltasse para repetir uma história, pois isso seria inútil. As teorias cristãs dizem que Jesus só voltará no dia do juízo final. Então Emanuel repudiava qualquer fanatismo, mesmo porque tinha pai e mãe conhecidos, sem qualquer hipótese de concepção pelo espírito santo. Mas, quando ouviu a voz e foi chamado de filho amado, admitiu pela primeira vez a possibilidade de haver algum objetivo divino em sua existência. Dona Maria, a mãe, pediu que eu deixasse o filho dela em paz para viver uma vida normal, pois não havia nenhuma diferença entre ele e qualquer outra pessoa. No fundo ela morria de medo que o filho passasse pelo martírio de Jesus Cristo. Emanuel foi tudo que restou depois que o marido morreu num acidente. Pena que as coincidências, que sempre o perseguiram, levaram-no à morte, com a mesma idade de Jesus. Não crucificado, mas torturado até a morte. Almoçamos num bom restaurante e, depois, convidei Graça para ir comigo até a Vila Nazaré. Eu precisava ver como estava Dona Maria depois da notícia do desaparecimento do corpo de seu filho. Imaginei que estaria arrasada e indignada com o sumiço, pois era mais fácil acreditar que o corpo fora escondido para proteger os criminosos que o mataram. Minha mulher também pensava assim. Sinceramente, 198


O Cristo da Periferia eu preferia que ela visse tudo de perto, para dar uma opinião isenta, pois eu estava visivelmente envolvido emocionalmente. Não tinha a menor condição de analisar friamente o caso. Depois dali eu queria que fosse comigo falar com a amiga dela, Marta, para ver o sudário e a maca. A médica também ficou muito impressionada com o que aconteceu. Como cientista era obrigada a buscar explicações lógicas para todos os fenômenos. Como legista devia investigar sinais ocultos que denunciassem qualquer tentativa de fraude. Tenho certeza de que ela era a pessoa mais indicada para fazer todos os tipos de testes para explicar o que aconteceu no IML. Estava indignada porque não havia nada na maca: nem cinza e nem sangue, nem mesmo um fio de cabelo ou outro pêlo qualquer que pudesse ser submetido a um teste de DNA. Eu só queria ver como ela ia administrar essa possibilidade de estar diante de um fenômeno sobrenatural, um verdadeiro milagre. Devia estar como eu, com a fé gritando de um lado e a razão do outro. A gente vive num mundo materialista, lógico demais, competitivo demais. Não tem lugar para uma fé irrestrita. A idéia de oferecer a outra face parece tão absurda quanto improvável. A promessa de uma recompensa futura, um paraíso somente depois da morte para quem viver uma vida de resignação, não convence a maioria das pessoas, inclusive eu. Por isso me tornei um católico não praticante e acredito que Marta também passou pelos mesmos conflitos. Deixamos o Bruno na casa da mãe de Graça e seguimos para a Vila Nazaré. Ele 199


Jocelino Freitas adorava ficar com os avós, que faziam todas as suas vontades. Nem percebeu quando saímos. Meus pais também o agradavam, mas tinham outros netos e dividiam as atenções. Do lado de Graça, Bruno era o único neto, pois o irmão, playboy assumido, não se preocupava em casar ou reconhecer os filhos cujas paternidades as oportunistas de plantão imputavam a ele. Respondia a diversas ações mas, mesmo na única que perdeu, prestava amparo apenas material, sequer trazendo a criança para conhecer os avós. Estes tampouco se interessavam em conhecer os filhos das moças, que acusavam de ‘pistoleiras’ tentando dar ‘golpe da barriga’ no irresponsável do filho. Para eles, o único neto era o Bruno, que se aproveitava dessa exclusividade para ficar ainda mais manhoso. Chegamos à casa de Dona Maria e o alvoroço estava armado. Havia mais pessoas do que no dia anterior, talvez por ser um domingo e a maioria dos moradores do bairro serem operários, que têm folga nesse dia. Dona Maria veio nos receber no portão, com aquele abraço gostoso de mãe, que eu já havia esquecido. Apresentei minha mulher e ela também a beijou com um carinho que cativou no mesmo instante. Surpreendentemente não estava abatida como no dia anterior. Seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados de tanto chorar, mas eu pude notar uma paz muito grande, como se tivesse sido confortada de uma forma muito especial. Convidou-nos para entrar e sentar mas, ainda no portão, me disse: – Ele não morreu. Ele está vivo! 200


O Cristo da Periferia

38 Depois de nos sentarmos e tomar o café, que uma mulher que estava por ali serviu, perguntei: – Então, Dona Maria, o que a senhora me disse lá no portão? Será que eu ouvi direito? – Ouviu, sim, Seu Paulo. Meu filho está vivo. Eu o vi hoje pela manhã. – Como assim? Pode explicar isso direito? – Quando recebi o seu recado, eu me desesperei. Fiquei aqui chorando, porque pensei que a polícia tivesse dado um sumiço no corpo dele. Eu só pensava em onde estaria meu filho e pedia a Deus para perdoar os homens que mataram ele, porque eu não tinha essa capacidade. Quando o dia amanheceu eu fui chorar no cemitério, junto ao túmulo do meu José, que era onde eu ia botar o corpo do meu filho, ao lado do pai. Quando eu estava lá ajoelhada nem vi ele chegar perto de mim e tocar no meu ombro. Olhei para ver quem estava perturbando minha oração. Ele estava em pé, de costas para o sol, por isso não dava para ver seu rosto, só o contorno do seu corpo. Então ouvi a sua voz dizendo: “Não é a senhora que diz que quem crê em Deus não morre nunca?” Seu Paulo, até agora não me perdôo porque eu 201


Jocelino Freitas desmaiei. Eu queria abraçar o meu filho e encher ele de beijos, mas eu desmaiei. Quando acordei, ele não estava mais ali. Mas eu tenho certeza que era ele, era sim. – Está dizendo que ele ressuscitou? – Não, Seu Paulo, eu tenho certeza que ele não morreu. – Mas por que ele apareceria senhora e a deixaria ali, desmaiada?

para

a

– Eu também não consigo entender isso. Imagino que ele deve ter conseguido fugir, fingindo que estava morto. Então ele precisava se esconder e não podia ficar cuidando de mim desmaiada, porque a polícia podia vir prendê-lo. – E havia outras Alguém mais o viu?

pessoas

por

perto?

– Quando eu acordei havia muitas pessoas ao redor de mim, pessoas que estavam visitando outros túmulos. Vieram acudir quando me viram caída. Perguntei a todos, mas ninguém viu ele não, Seu Paulo. Eu sei que era ele, sei sim. Talvez ela estivesse certa. Emanuel era tão impressionante que eu não poderia descartar a hipótese de ele conseguir parar a respiração e os batimentos cardíacos, fazendo acreditar que estava morto. Seria uma boa forma de fazer com que parassem de agredi-lo. Depois, no IML, seria fácil se levantar e sair andando quando ninguém estivesse olhando. Mas e o sudário? E a maca? Como explicar aquilo? – Dona Maria, eu fico feliz por seu filho estar vivo. Será que nós podemos fazer alguma 202


O Cristo da Periferia coisa para ajudar neste momento? Imagino que devamos ir à polícia e garantir que ele possa reaparecer sem ser preso. Posso contratar um advogado para providenciar isso. Mas é preciso que ele apareça, pois o advogado vai querer vêlo. – Eu não sei onde ele está. Vou pedir a todos para saírem por aí e procurá-lo. Tenho certeza de que vamos encontrá-lo. Despedimo-nos de Dona Maria e de Dona Irene, que veio quando viu minha mulher descendo do carro. Ela queria conhecê-la pessoalmente, embora já a conhecesse da televisão. Fomos para o IML, onde Marta nos esperava com o sudário e a maca. Graça estava muito curiosa para ver aquelas peças. Depois do que ouvimos de Dona Maria o seu instinto jornalístico ficou ligado, como se aquela fosse uma de suas reportagens. Depois que chegamos foi ela quem conduziu a conversa com Marta, fazendo perguntas e examinando o lençol e a maca minuciosamente. Depois pediu para ver a sala onde o corpo foi visto pela última vez, olhou todas as portas e janelas e, por fim, pediu para falar com os empregados que haviam manuseado o corpo de Emanuel. No fundo eu sabia que ela estava investigando a tese de Dona Maria, de que ele havia se fingido de morto para poder fugir. Nenhum dos empregados havia examinado o corpo. Ninguém sequer imaginou que aquele homem estivesse vivo. Para falar a verdade todos duvidavam dessa hipótese, pois um corpo fica duro depois de morto, sendo jogado de um lado para o outro sem maiores cuidados. Nenhum homem vivo 203


Jocelino Freitas conseguiria ficar parado sem se proteger das movimentações que são feitas com seu corpo dentro do IML. Questionamos Marta sobre a possibilidade de alguém parar os batimentos cardíacos e a respiração, simulando morte. Ela nos disse que algumas pessoas conseguem fazer isso, mas apenas por poucos minutos. Não é possível permanecer morto por tanto tempo quanto Emanuel permaneceu, porque isso provocaria uma desoxigenação irreversível do cérebro. Quando Marta soube que a mãe havia visto Emanuel vivo, ficou ainda mais intrigada. Como poderia alguém provocar aquelas manchas no lençol e na maca e depois ser visto vivo? – Não sei o que aconteceu – disse Marta – mas, se o homem foi visto vivo, só posso pensar que foi uma alucinação ou, de alguma forma, ele se desintegrou por irradiação e depois se reconstituiu em outro lugar. Esse seu amigo deve ser um extraterrestre!

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39 Na segunda-feira a matéria foi ao ar. A reação foi bombástica. Houve reação da polícia, que negava a morte por tortura. O Secretário de Segurança afastou o delegado e instaurou sindicância para apurar o caso do desaparecimento do corpo. A matéria recebeu projeção internacional. O telefone da redação não parava de tocar, umas pessoas dizendo que haviam visto Emanuel vivo, outras dizendo onde o corpo estava enterrado. O interessante foi que não havia uma imagem recente dele. Todo o material fotográfico era de dez anos atrás. Parece que ele propositadamente ficou todo esse tempo longe do foco das câmeras. As igrejas negaram crédito ao caso, mas isso foi só oficialmente, porque houve uma comoção mundial em torno do sudário, que agora estava trancado a sete chaves no IML. Universidades do mundo inteiro queriam examiná-lo. Surgiram dezenas de teorias para explicar o que aconteceu. Até um mágico famoso criou um truque baseado no fato, em que desaparecia e deixava um lençol com a sua fisionomia estampada. A casa de Dona Maria foi novamente assediada por dezenas de repórteres. Temi por sua segurança. A revista do meu ex-chefe saiu com uma foto antiga de Emanuel ao lado de 205


Jocelino Freitas outra foto de seu rosto no sudário, com o título: “Procura-se, vivo ou morto.” Eu aproveitei a volta de Emanuel à mídia para falar sobre a sua mensagem, sobre como as pessoas deviam estar atentas aos sinais do mundo. Fiz um retrospecto da evolução da sociedade paralela nos últimos dez anos. Apesar dos programas criados, o número de pobres aumentou e a sociedade continua convivendo com uma grande parcela de exclusão social. O mundo continua dando sinais de que essa gente vai sobreviver, mas a sociedade é incompetente para criar um modelo social mais justo, que permita vida digna para a maioria da população. Senti por não reencontrar Emanuel com vida. Aguçava-me a curiosidade saber como ele viveu, por onde andou, se assumiu sua santidade, se ouviu outras vezes a voz de Deus. Esse relacionamento dele com o extraordinário era o que mais me havia impressionado no passado. Jamais vi uma pessoa tão “humana” e ao mesmo tempo tão sobrenatural. Ele negava que fosse o filho de Deus e agia como tal. Indignou-se por ouvir a voz do Pai, mas passou a agir conforme a Sua vontade. Lamentei por não ter estado mais próximo dele, não como discípulo mas como amigo, por não estar perto para evitar que fosse preso, que fosse morto. Senti minha vida vazia apesar de todo o meu sucesso. Ele predisse este sucesso. Imaginei como as pessoas se sentiram quando Jesus foi morto, crucificado sem qualquer pecado. Já não importava quem era Emanuel, mas como viveu e o que fez. Senti falta de fé em mim, falta de Deus. De repente eu me senti 206


O Cristo da Periferia infinitamente pequeno, infinitamente insignificante, como uma folha caĂ­da diante de uma ĂĄrvore. De repente senti uma necessidade enorme de Deus em minha vida, como se o meu todo fosse nada sem Ele.

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Jocelino Freitas

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O Cristo da Periferia

40 O avião taxiou na pista lateral do aeroporto Afonso Pena. Meu coração estava angustiado. Graça e Bruno embarcariam sem previsão de volta e eu sabia que era a melhor coisa a fazer. Eu estava acostumado a ver minha mulher partir em viagem, mas nunca em tais circunstâncias. Ela havia voltado às pressas de Paris para buscar o Bruno, depois do atentado na escola. Atrás de nós estavam três seguranças, contratados pelo meu sogro para nos proteger naquela situação delicada. Sabíamos que eram necessários, mas era incômodo o sentimento de quebra de privacidade, só superado pelo medo que sentimos depois dos acontecimentos desagradáveis que vivenciamos. Graça estivera somente por três dias no Brasil e não havíamos tido um minuto sequer de paz. Dois guardacostas os acompanhariam até Paris e permaneceriam até constatarem que estavam em segurança. Beijei-os e acompanhei com os olhos enquanto passaram pelo detector de metais e sumiram pelo corredor em direção ao embarque. O plano era que deixassem Paris tão logo os seguranças brasileiros retornassem, pois ninguém aqui deveria saber do seu destino definitivo, nem mesmo a agência que os tiraria 209


Jocelino Freitas do país. Esta sabia apenas que seria substituída por agentes locais, por uma questão de economia. Uma vez instalados em Paris, deixariam o apartamento do pai de Graça num táxi, levando apenas a roupa do corpo, como se fossem fazer compras. Para essa remoção meu sogro havia contratado uma agência internacional de segurança. No shopping embarcariam num carro com vidros escurecidos e seriam levados a Mônaco, onde permaneceriam com nomes trocados. O Principado os receberia como se fossem exilados políticos, auxiliando na segurança planejada pela agência. Para falarmos ao telefone eu deveria ligar para o apartamento de Paris e um sofisticado equipamento de rastreamento e triagem direcionaria a chamada para um telefone celular especial, impossível de ser localizado. Se outro equipamento tentasse rastrear a ligação, seria induzido a concluir que estavam em algum lugar de Paris, sendo também rastreado e identificado. Assim poderíamos descobrir quem estava tentando localizá-los. Mesmo com tanto aparato de contra-espionagem, fomos orientados a não fazer qualquer referência ao local em que estivessem durante nossas conversas ao telefone. Difícil seria controlar o Bruno, para não contar detalhes dos locais que visitasse ou de pessoas que conhecesse. Pensando nisso a agência contava com diversos destinos alternativos. Todas as nossas conversas eram monitoradas e, se algo comprometedor fosse dito, eles mudavam de endereço em questão de poucos minutos. Graça pediu licença no 210


O Cristo da Periferia emprego, causando um transtorno enorme para a televisão, que teve de mandar um repórter substituto às pressas. Foram no mesmo avião e Graça teve oportunidade de passar a ele todas as informações sobre o escritório de Paris. Imagino como foi difícil para ela ter de deixar o trabalho que tanto prezava. Mas a segurança do nosso filho era mais importante que tudo, mais até que o trabalho, mais até que nós mesmos. Por isso não pensamos duas vezes quando o Bruno foi ameaçado. Pensei até em largar tudo e ir com eles, mas isso tornaria muito fácil a vida dos malditos assassinos de Emanuel. Se eu saísse de cena, ninguém mais denunciaria os seus desmandos. Essa operação havia sido contratada a preço de ouro. Nem imagino quanto dinheiro meu sogro gastou para colocar a filha e o único neto em lugar seguro. Só sei que era muito para o meu padrão de vida. Por isso dispensei o segurança que me acompanhou do aeroporto até a televisão. O Dr. Jordão havia contratado o mesmo esquema montado para Graça e Bruno, mas não achei correto aceitar. Na verdade o meu sogro queria que eu fosse com eles e permanecesse escondido. Tudo porque não acreditei nas ameaças que recebi quando passei a investigar o caso do Cristo da periferia. No começo eram meros telefonemas me aconselhando a parar de falar no caso. Depois tentaram me jogar para fora da estrada, simulando um acidente; felizmente fui hábil e consegui fugir. A gota d’água, contudo, foi a explosão de uma bomba num latão de lixo da escola em que meu filho estudava; recebi um telefonema depois e fiquei muito assustado. Vi 211


Jocelino Freitas que não estavam blefando quando disseram que podiam atingir minha família. Agora que Graça e Bruno estavam a salvo eu iria enfrentar os meus inimigos com a melhor arma que tinha: a palavra! Não me calaria diante das ameaças, nem me curvaria a tantas injustiças. Os ensinamentos de Emanuel me haviam tornado uma pessoa forte e eu não aceitava a idéia de simplesmente calar. Lembrei do dia em que sua casa foi atacada por traficantes da Vila Nazaré, que não queriam mais que recebesse tanta gente, porque o movimento de fiéis prejudicava a venda de drogas. Ao invés de sentir-se ameaçado, Emanuel viu naquilo um sinal de que era tempo de prosseguir em seu destino. A partir daquele momento passou a mexer com gente bem mais poderosa que os traficantes do bairro pobre. Morreu porque enfrentou de queixo erguido as injustiças que denunciava. Tiago, que foi seu seguidor mais dedicado, contou-me sua trajetória depois que deixou a Vila Nazaré. Tive longas conversas com o ex-bandido depois que saiu do hospital. Contratei-o como contra-regra e almoçávamos juntos ao menos uma vez por semana, no refeitório da televisão. A vida de Emanuel era um incrível quebra-cabeça que eu queria montar. Cada vez que encontrava uma nova peça, o caso se tornava mais intrigante. Mas na busca dessa fascinante história, acabei tropeçando nos verdadeiros motivos daqueles que o mataram. E quando cheguei bem perto de desvendar esse mistério, passei a receber ameaças. A exemplo do que aconteceu com 212


O Cristo da Periferia Emanuel, isso me fortaleceu, deu-me a certeza de que estava no caminho certo. – Com licença, chefia? – Entra, Tiago! – estranhei a presença dele em minha sala logo pela manhã – Está tudo bem? – Tudo em cima. Eu queria contar uma coisa estranha que aconteceu ontem à noite. – Não dá pra ser durante o almoço? – É que eu achei que era importante te contar. – E o que é tão importante? – É que o Emanuel apareceu lá na vila.

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Jocelino Freitas

214


O Cristo da Periferia

41 – O que você está dizendo? – perguntei surpreso.– Emanuel não morreu? – Não é isso. Ele tá mortinho. Mas ontem à noite apareceu lá na Vila Nazaré. – Peraí, Tiago! Explica direito essa história. Como é que uma pessoa que morreu pode aparecer na vila? – tentei recuperar o fôlego, sentando-me e indicando a cadeira para que se sentasse. – É que apareceu um carinha lá, dizendo umas coisas que lembraram o nosso mestre. Não era ele, mas era, entende? – Não, não entendo! Como é que não era ele, mas era? Afinal, quem apareceu lá? – A gente tava numa lanchonete lá na praça, eu, o Pedro e o Marcos. Então chegou um cara e perguntou se podíamos pagar uma água. Claro que pagamos, também o convidamos para sentar. Pensamos que ele havia chegado em nossa mesa porque a gente não tava tomando bebida alcoólica. Foi então que começou com uma conversa estranha. – Que conversa? 215


Jocelino Freitas – Ele disse assim: “Vocês me dão essa água que mantém o corpo. Eu lhes darei a água que sustenta a alma. Quem beber dela não terá mais sede.” – Isso é bíblico. Jesus disse à samaritana – nos últimos meses meus conhecimentos cristãos haviam melhorado um pouco. – Na hora o Pedro pescou a frase e disse que era da Bíblia. Então o cara perguntou se não nos lembrava mais ninguém. O Marcos respondeu que, para nós, tudo que se falava de Jesus lembrava nosso mestre, Emanuel, morto recentemente. Daí o cara perguntou: “Mas se vocês lembram de mim, por que não estão continuando a minha obra?” – Como era esse cara? Como estava vestido? – perguntei enquanto servia água para mim e para Tiago, que suava ao contar, com os olhos marejados. – Era um cara normal, numa beca normal. Igual a qualquer cara que você vê na rua. Parecia ter uns trinta, trinta e poucos anos. Mas depois que disse aquilo o corpo dele começou a brilhar. Pelo menos foi a impressão que nós tivemos: ele estava brilhando! Ficamos igual a três tontos. Nossas bocas não conseguiam pronunciar uma palavra. Eu fui o único que ainda consegui dizer: “Moço, não brinca com isso não.” E ele deu uma gargalhada que era a do próprio Emanuel. Nunca vi tanta semelhança. Sabe aqueles dentes branquinhos? – E vocês não perguntaram se era ele mesmo? 216


O Cristo da Periferia – Pior que não, chefia. Os três bobões saíram correndo. Deixamos o cara lá, sentado na lanchonete. Eu não dormi a noite toda. – Mas vocês perderam a oportunidade de falar com ele. Tinham que perguntar o que queria dizer. Quem era. Se era mesmo o Emanuel... – pensei em tudo que um repórter faria naquela situação, esquecendo que Tiago não era um. – Quando eu estava a uns dois quarteirões, pensei nisso e resolvi voltar. O cara não estava mais lá. Pedro e Marcos também voltaram, pensaram igual a mim. O Toninho, dono do bar, não o viu sair. Ninguém viu, nem os caras que jogavam sinuca. Viramos a vila de cabeça pra baixo e não o encontramos. – E mais alguém o viu brilhando? – Ninguém. Perguntamos ao Toninho e aos outros caras que estavam no bar, mas ninguém percebeu isso. Não é que o cara estivesse brilhando como uma lâmpada, mas o seu sorriso era tão branco que impressionava. Parecia que saía uma luz de dentro da boca e dos olhos. Eu tive a impressão de que todo o corpo dele brilhava por debaixo da roupa. Mas agora fico pensando que talvez tenha sido apenas uma impressão nossa, pois ninguém mais viu isso. Acho que eu desejava tanto ver o mestre, que quando o vi naquele carinha, me assustei e enxerguei o brilho do sorriso dele como se fosse do corpo todo. Com o Pedro e o Marcos deve ter acontecido a mesma coisa, pois eles também queriam que o mestre estivesse vivo. Já pensou, 217


Jocelino Freitas chefia, se for mesmo verdade? Se o nosso Jesus estiver vivo? – Ele perguntou por que vocês não estão continuando a sua obra. O que quis dizer com isso? – Isso é duro de dizer, chefia, mas nenhum dos seguidores teve coragem de continuar o que Emanuel fazia. Ele sempre dizia que não estaria aqui por muito tempo. Que devíamos continuar a obra começada por ele. Mas, é uma vergonha, ninguém teve coragem nem dom para prosseguir dizendo todas as coisas que ele dizia. A notícia era realmente surpreendente. Desde que Dona Maria disse ter visto o filho no cemitério, ninguém mais o vira. Atribuí a visão de Dona Maria aos devaneios de uma mãe desesperada e emocionalmente abalada. Mas essa visão de Tiago e seus amigos – que também eram seguidores de Emanuel, como já me dissera em nossas conversas anteriores – era realmente surpreendente. Depois da explanação técnica de Marta, a médica legista, fiquei convencido de que ninguém poderia prender a respiração e interromper os batimentos cardíacos por tanto tempo. Por causa de Emanuel coloquei minha família em perigo. Quando fui falar com o delegado titular da delegacia em que foi morto, senti que estava escondendo alguma coisa. Um bom repórter sente quando uma situação está armada para parecer outra. Tudo estava muito certinho na delegacia. Os agentes que me foram apresentados tinham as respostas bem decoradas, como se a entrevista comigo fosse 218


O Cristo da Periferia um ensaio para a sindicância da Corregedoria que deveriam responder. Só não imaginavam que eu não estava disposto a encerrar o caso com simples evasivas, como parecia que iria ocorrer na sindicância. Depois de ouvir os agentes e visitar a cela onde supostamente havia ocorrido a queda de Emanuel, com fratura craniana que o levou à morte, pedi para ver as outras celas e entrevistar os outros presos. Surpreendentemente não havia nenhum preso que estivesse no local no dia do incidente. Todos haviam sido libertados ou transferidos num prazo de apenas três dias. Meus sinais começaram a dar alerta quando fui informado que um vírus de computador atacara o sistema e era impossível saber quem eram os transferidos e para onde haviam sido levados. O alerta batia em meus sentidos como um sino, anunciando que era mais uma mentira. Recorri, então, à minha pesquisa particular. Em pouco tempo voltei à delegacia e pedi mais uma entrevista com o delegado. Era um homem alto, fora de forma, bem acima de seu peso ideal. Usava camisa listrada e calças com suspensórios. Uma corrente muito grossa de ouro podia ser vista em seu pescoço, pois usava uma camisa de seda fina. No braço esquerdo um relógio Rolex e, no direito, uma grossa pulseira de ouro. Seu rosto inchado e estilo bonachão lhe davam uma aparência de prosperidade e soberba. Recebeume bem à vontade, com ar de quem não entendia porque eu ainda queria fazer perguntas, se tudo já havia sido dito na entrevista anterior. Não houve conversa preliminar, pois ele não dispunha de muito 219


tempo. Mesmo embora direto.

Jocelino Freitas assim procurei

ser

cordial,

– Doutor, fiz um levantamento junto à Secretaria da Administração e descobri que a sua equipe é praticamente a mesma há alguns anos, acompanhando-o onde quer que o senhor vá. Porque isso acontece? – Isso é normal. Os delegados costumam levar suas equipes consigo a cada transferência. Quando eu mudo de delegacia, o meu grupo de agentes de confiança me segue, quase na totalidade. Só um ou outro resolve permanecer onde está, ou pede transferência para outro local. Mas a equipe básica permanece comigo. – Minha pesquisa informa que um dos seus agentes morreu em serviço, quando sua equipe estava numa cidade do interior. – É verdade. Foi uma morte trágica. Ele foi tocaiado quando fazia busca de drogas numa favela. Foi muito triste porque era jovem e tinha filhos pequenos. – E os responsáveis foram presos? – Sim, apertamos os líderes do tráfico e eles entregaram os assassinos. Eram três elementos. – Depois disso os três morreram? – Sim. Poucos dias depois da prisão, houve uma tentativa de fuga. Dois deles morreram no tiroteio. – E o outro? Não tentou fugir? – O outro já havia sofrido um acidente. 220


O Cristo da Periferia – Então estava hospitalizado? – Não. Ele morreu antes de chegar ao hospital. – Só por curiosidade, como foi o acidente que ele sofreu? – Ele caiu na cela. Fraturou o crânio. – Ah... Coincidência, não? A mesma causa da morte do Cristo da periferia. – Quedas e fugas são normais. Você deve saber disso – o delegado começou a transpirar, afrouxando a gravata. – Os relatórios que li indicam que, nas últimas cinco delegacias pelas quais sua equipe passou, ocorreram mortes de detentos em situações suspeitas. – Isso acontece em qualquer delegacia! – respondeu, impaciente, quase gritando. – De fato, eu comparei as estatísticas e descobri que as incidências aumentam quando sua equipe passa pelos lugares. Vocês são recordistas em mortes de detentos por tentativa de fuga e quedas dentro de celas. – Você está me acusando, cara? O delegado levantou-se da cadeira e passou a gritar comigo, perguntando o que eu estava insinuando. Com a gritaria, agentes invadiram a sala e o seu chefe mandou que me tirassem da sua frente, antes que me prendesse por acusação sem provas. Eu e o cinegrafista fomos expulsos do lugar, quase aos empurrões, ante o olhar ameaçador de toda a delegacia. 221


Jocelino Freitas Depois desse dia comecei a receber telefonemas ameaçadores. Como não me intimidei e coloquei no ar os resultados das minhas investigações e a gravação da minha expulsão da delegacia, vieram os atentados, primeiro contra mim, na estrada, depois contra a escola de meu filho.

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O Cristo da Periferia

42 Tudo mudava com a possibilidade de Emanuel estar vivo. A sua nova aparência podia ser resultado de cirurgia plástica. Eu precisava desvendar aquele mistério e, se ele estivesse realmente vivo, protegê-lo e garantir que prestasse depoimento em segurança, colocando toda aquela corja de assassinos na cadeia. Eu não queria divulgar a notícia de que Emanuel estava vivo, com o rosto modificado. Se isso acontecesse, recomeçaria a caçada e seus algozes poderiam localizá-lo antes de mim. Afinal, se ele voltara a se aproximar dos seus, era porque estava sentindo a pressão reduzir. A matéria da revista, com o título “Procura-se, vivo ou morto” deve ter provocado uma movimentação tão grande dos que queriam vê-lo morto, que o obrigou a desaparecer e, talvez, fazer a cirurgia plástica. Agora que estava voltando, eu não cometeria o mesmo engano de expô-lo. Talvez aquela aparição momentânea fosse um teste dele, para ver se já poderia falar com seus amigos sem ser delatado. Pedi a Tiago que avisasse seus amigos e que guardassem sigilo sobre o ocorrido. Dei a ele meu número de telefone celular e recomendei que, caso Emanuel reaparecesse, ficasse perto dele, dando um jeito de me chamar. Eu 223


Jocelino Freitas precisava encontrá-lo para combinar como seria a sua apresentação e denúncia de seus algozes. Pensei em fazer uma matéria com uma entrevista exclusiva, na qual ele apareceria com a imagem distorcida eletronicamente. Assim poderia falar à vontade, sem risco de ter seu novo rosto conhecido por seus perseguidores. Depois pediríamos amparo do Programa de Proteção de Testemunhas, para que pudesse viver num lugar seguro, com proteção do Estado. Ele e sua mãe receberiam uma pensão vitalícia, podendo viver com identidades novas em qualquer outro lugar que escolhessem. Por outro lado, não quis deixar meus inimigos sem uma novidade para temer. Afinal, era importante para mim que soubessem que eu não estava cedendo a suas pressões para parar de divulgar notícias sobre os motivos que teriam levado Emanuel à morte. Divulguei, então, uma notícia de fim de edição – daquelas que são ditas em apenas cinco segundos, mas ficam na cabeça de quem ouve, por mais de cinco dias – anunciando novidades para breve sobre o caso do Cristo da periferia. Uma testemunha bombástica mudaria o rumo das investigações. Isso manteria o caso em aberto e protegeria Emanuel, pois jamais se suspeitaria que a testemunha fosse a própria vítima. Ri sozinho ao imaginar a cara do delegado ao receber a notícia de que Emanuel estava vivo. Certamente não compreenderia como isso acontecera. Não contava que pudesse cruzar seu caminho uma pessoa tão surpreendente. Quando me expulsou de sua sala, o delegado ficou sem ouvir minha maior descoberta que, 224


O Cristo da Periferia exatamente por ser a mais importante, deixei para revelar por último. Eu queria dizer a ele que descobrira suas ligações com lideranças religiosas dadas a cobrar dízimos altíssimos de seus fiéis. A atuação de Emanuel em suas ‘clientelas’ estava diminuindo a entrada de dinheiro. Isso podia ser verificado pelas declarações de rendimentos dessas igrejas nos últimos anos. Era gritante a diminuição depois que Emanuel chegara aos bairros onde mantinham seus principais templos. Contudo, como essa informação me havia sido passada de forma confidencial, não poderia usála numa reportagem, pois seria facilmente retirada de qualquer processo, mediante alegação de sigilo fiscal. Ela deveria ser usada, sim, como subsídio para um pedido de quebra desse sigilo. Para isso era importante encontrar um Promotor de Justiça que não estivesse comprometido com os interesses das lideranças religiosas.

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Jocelino Freitas

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O Cristo da Periferia

43 – Por favor, os documentos do carro e a sua habilitação – disse o policial, depois de me abordar num semáforo, sem qualquer razão aparente, determinando que estacionasse e desligasse o motor. – Algum problema, policial? – É o que veremos! – respondeu secamente, dirigindo-se para trás do veículo para verificar a placa, com os documentos que eu lhe entreguei nas mãos. De repente, um outro policial surgiu ao meu lado, dizendo: – Por favor, senhor, abra o porta-malas. Ao descer do carro, vi que eram cinco policiais. Aquele que me pediu para descer não permitiu que eu fechasse a porta. – Preciso revistar o interior do seu veículo. Por favor, afaste-se e abra o porta-malas. Enquanto me dirigia à parte de trás do carro, outros três policiais abriram as demais portas. O que estava com meus documentos esperou até que eu abrisse o porta-malas, passando a revirar o tapete, sacar o estepe como se procurasse algo. 227


Jocelino Freitas – Se me disserem o que estão procurando, talvez eu possa ajudar – falei esboçando um protesto, sem ser ouvido ou atendido por qualquer dos cinco. Foi quando os quatro que revistavam o interior do carro vieram ter comigo, um deles com um pacote de papel nas mãos. – O que é isto aqui? – abriu o pacote, no qual pude ver o cabo de um revólver. – Não faço a menor idéia – respondi. – Estava no seu carro. O senhor tem registro ou permissão para portar esta arma? – Não, não estava no meu carro! Eu nunca vi essa arma antes – afirmei enfaticamente ao policial que estava me acusando. Sem dizer mais nada, todos me agarraram, tendo o troglodita que estava atrás de mim imobilizado meu braço, provocando uma dor enorme, enquanto outros dois me revistavam. Um deles enfiou a mão no bolso de minha calça, colocando ali um volume, que logo sacou e disse. – Hum, cocaína! Pela quantidade você é traficante. – Porte ilegal de arma e tráfico de drogas. Você está enrascado, moço – disse um outro, em tom de ironia. – Vocês armaram isso para me prender! Vão se arrepender! – gritei indignado.

228


O Cristo da Periferia Nisso, o que estava com o pacote da arma deu-me um soco no estômago, provocando uma dor insuportável. – Vai se explicar na delegacia! – falou, ignorando meu urro de dor. Ao me curvar pela dor, meu telefone celular caiu do bolso do paletó. Meu agressor pegou-o do chão e voltou a jogar, com força, contra o asfalto, fazendo com que se espatifassem pedaços para todos os lados. Duvidei que voltasse a funcionar depois daquilo. O que me segurava por trás algemou meus punhos e puxou-me, jogando-me no camburão que havia estacionado logo depois de mim, sem que eu percebesse. O interior do camburão era escuro e frio. Ao menos eu pensei sentir frio, pois tremia sem parar, sem saber o que fazer para sair daquela situação. Tentei usar meu senso de direção mas, depois de algumas voltas em alta velocidade e com a sirene ligada, perdi completamente a noção para onde me levavam. Senti, no entanto, que estavam indo longe demais do centro da cidade. Nenhuma delegacia central ficava a mais de dez ou quinze minutos da esquina em que me prenderam, bem próxima da televisão. Minha cabeça girava, tentando pensar em quem chamar quando me fosse dado o direito de fazer um telefonema. Pensei em ligar para a redação e pedir que mandassem uma equipe de reportagem para um plantão extraordinário. Em poucos minutos toda a cidade saberia da minha prisão arbitrária e da trama contra mim. Ou então poderia ligar para o Dr. Jordão, meu 229


Jocelino Freitas sogro. Ele falaria pessoalmente com o governador, que mandaria o secretário de segurança punir exemplarmente os responsáveis pelo flagrante simulado. De fato, aqueles policiais não sabiam com quem estavam mexendo. O camburão parou e ouvi os passos dos soldados descendo pelas quatro portas. A porta foi aberta e percebi que estava num lugar completamente escuro, parado à beira da estrada. Fui tirado com violência e arrastado, ainda algemado, para o interior do mato, por uma trilha muito estreita. – Onde estamos? Por que não me levaram para uma delegacia? Tenho direito a um telefonema! – gritava inutilmente, agora com a sensação de que iria morrer. – Cala a boca, traficante. Senão eu te deixo fugir e passo fogo. Quem vai ter pena de um traficante armado? – dizia aquele que me havia agredido e parecia ser o chefe dos demais. Quando chegamos a uma clareira encravada na mata, da qual não se via qualquer luz, a não ser as das lanternas que meus agressores portavam, dois deles me seguraram em pé, enquanto os outros passaram a bater em meu rosto e estômago. – Você vai aprender a ouvir os avisos. Você é muito macho? Mostra sua valentia agora! – diziam enquanto me batiam como se eu fosse um saco de areia. Quando minhas pernas dobravam, os que me seguravam impediam que caísse. Levantavam-me para que os outros 230


O Cristo da Periferia continuassem batendo. Minha garganta já não conseguia gritar, nem gemer. Quando os que me seguravam não suportaram mais meu peso, jogaram-me no chão e todos passaram a me chutar, em todas as partes do corpo. Encolhi-me em posição fetal e protegi a cabeça com os braços. A dor e o desespero eram tamanhos que desmaiei. Desacordei completamente, já não reagindo aos chutes que recebia. O corpo imóvel no chão da floresta, na escuridão da noite, sem qualquer testemunha que pudesse delatar o crime do qual fui vítima.

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Jocelino Freitas

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O Cristo da Periferia

44 Era dia e eu caminhava pela floresta. O de galhos e folhas das frondosas árvores protegia do sol escaldante. O interessante que eu me sentia muito bem, como se tivesse levado a surra dos policiais.

teto me era não

– Onde estarão eles? Por que me deixaram aqui na mata? Não sabem que vou denunciálos? – pensei em voz alta, falando comigo mesmo. Agora precisava encontrar a estrada e conseguir uma carona até a cidade. Aqueles animais veriam com quem haviam mexido. Parecia que as pancadas não só não afetaram meu corpo, como também não me meteram medo algum. Estranho como eu não sentia dores. Passei a mão no rosto, tentando achar algum inchaço ou marca de sangue, mas nada encontrei. Tudo estava inteiro, como se a noite anterior jamais tivesse existido. – Preciso encontrar um caco de espelho, ou de um vidro qualquer. Quero ver meu rosto. Quem sabe uma água parada – pensei, ainda falando sozinho. 233


Jocelino Freitas Súbito, ouvi um barulho de água corrente. Segui o barulho e a brisa suave que vinha daquela direção. Cheguei rapidamente a um rio que corria sobre uma laje de pedra, formando piscina natural. Eu já conhecia aquele lugar. – Meu Emanuel!

Deus!

É

o

lugar

de

retiro

de

Quase instantaneamente eu o vi lá. Calças arregaçadas e pés na água, sorrindo para mim. – Demorou, Paulo. Estou aqui te esperando faz um tempão. Fiquei olhando boquiaberto para aquele jovem sentado, que me recebia com um sorriso. – Anda logo. Tira os sapatos e senta aí. Essa água fresquinha restabelece as forças de qualquer um. Obedeci instintivamente, tentando entender o que estava acontecendo. – Este lugar não podemos estar aqui?

existe

mais.

Como

– Sempre vai existir em nossos pensamentos. Ninguém pode tirar as nossas lembranças. – Mas se isto é só uma lembrança, então estamos mortos? – O Mundo é quem decide quem vive e quem morre, lembra? – E o que Ele decidiu a respeito de nós? Estamos mortos ou vivos? 234


O Cristo da Periferia – Vejo que você evoluiu em sua capacidade de fazer perguntas. Parabéns! – Não me enrole, Emanuel. Eu sofri um bocado com a surra que levei e não estou sentindo dor alguma. Estou morto? – Eu te avisei que poderia não estar por perto quando você voltasse a se recusar a ouvir os sinais do Mundo. Agora os bandidos o pegaram. – Eu pensei que você estivesse se referindo a Tiago e seus amigos. Pois eles viraram seus seguidores. E eu não fui pego pelos bandidos, mas pelos policiais. – Ora, e que diferença tem um bandido armado de um fardado? Qual é mais perigoso? – O fardado, claro. Mas qual foi o sinal que eu desrespeitei? Eu estava fazendo tudo certinho. Tentando achar você para denunciar os agressores. Naquele momento percebi que Emanuel era o mesmo de dez anos antes. Não havia rugas, nem marcas de expressão. Seu sorriso era o mesmo, mesmo corte de cabelo. Até a roupa era a mesma que usava dez anos antes. – Você também está com a roupa de dez anos atrás! – disse ele, ouvindo meus pensamentos. Só então percebi que não estava mais de terno, mas com aquela roupinha simples que usava quando era repórter iniciante na revista. Olhei meu rosto na água da piscina natural e vi que estava dez anos mais novo, nenhuma ruga, 235


Jocelino Freitas nenhum fio de cabelo branco. Meus vinte e seis anos de idade novamente, que alegria. – Peraí, Emanuel, explica isso! Em que ano estamos? Somos pessoas ou espíritos? Que sinais eu deixei de ouvir? – Calma! Uma pergunta de cada vez! Vou responder seus questionamentos um por um.

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O Cristo da Periferia

45 – Você lembra o que foi que os bandidos fardados disseram antes de bater em você? – Claro! Eles mostraram um revólver e um pacote com cocaína, dizendo que eram meus. – Não. Estou falando da mata, quando eles tiraram você do camburão. – Ah! O troglodita disse que agora eu ia aprender a dar atenção aos avisos. Ele estava falando das ameaças anteriores que me fizeram. Tive até que tirar minha esposa e filho do país. – Isso! Ele disse: “Você vai aprender a ouvir os avisos!” Estava se referindo claramente aos sinais. – E como um animal como ele pode saber dos sinais? – Viu só? Você está discriminando a mensagem porque despreza o mensageiro. Exatamente como fez com o Tiago. – Está dizendo que aqueles homens eram mensageiros? – perguntei chocado. – Sim. Nem todos trazem boas notícias. Alguns trazem avisos e, outros, a morte. 237


– Então instintivamente.

Jocelino Freitas eu morri?

perguntei

– E todos não morremos a cada dia? – respondeu de pronto, me fazendo lembrar de sua capacidade de responder com outra pergunta. – Já vi que você não vai responder essa pergunta. Voltemos a falar sobre os sinais. Quais foram os que me levaram a um fim tão trágico? Porque eu precisei morrer por não têlos ouvido? – Eu não disse que você está morto. Se estivesse, não estaríamos conversando aqui, neste paraíso de suas lembranças, mas no paraíso verdadeiro: um lugar infinitamente maior e mais belo que este. – Então, o que aconteceu comigo? Por que vim parar aqui? Por que nos reencontramos? – Ora, meu curioso amigo. Porque o Mundo precisa de você e o está convocando, mais uma vez, como eu fiz há dez anos. – E o que ele quer de mim? – Quer que você retome a capacidade de ouvir e entender os sinais. – E o que eu devo fazer? – Apenas se concentrar. Ouvir a voz do mundo que sopra em seus ouvidos. Seguir fielmente o que recomendar, por mais absurdo que possa parecer.

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O Cristo da Periferia

46 Senti uma dor muito forte nos rins e fechei os olhos. Quando os abri, vi paredes brancas em volta de mim. Estava deitado numa cama de hospital e a dor se espalhava por todo o meu corpo. – Tudo bem aí, parceiro? Quer que chame a enfermeira? – perguntou, solícito, meu vizinho da cama ao lado. – Onde estou? – perguntei atordoado. – No Hospital do Trabalhador. Estamos numa enfermaria-prisão. Tem um guarda lá fora. – Há quanto tempo estou aqui? – Você chegou há três dias. Disseram que tentou fugir e caiu de um barranco. Por isso está todo quebrado. – Calhordas – pensei em voz alta. Meu companheiro de quarto sorriu. – Eu também tive uma queda como a sua. Os caras quebram a gente de pau e dizem que nos machucamos sozinhos. – Meu Deus! Minha família sabe que estou aqui? Alguém veio me visitar? 239


Jocelino Freitas – Estamos presos, companheiro. Não tem visita não. E é bem melhor aqui que na cadeia. – Preciso dar um telefonema. Meus familiares devem estar preocupados comigo. – Ih, amigo. Acho que você não entendeu direito. Tá atordoado, coitado. A gente não pode receber visita, não pode usar o telefone, não pode nada. – Pode sim. A gente tem direitos. Até mesmo presos têm direitos. Chame a enfermeira, preciso falar com ela. – Cale-se! Cale-se! Cale-se! Aquela voz ecoou em meus ouvidos como um sussurro. Ninguém havia falado. Havia mais dois prisioneiros-pacientes na enfermaria, mas estavam dormindo. Logo chegou a enfermeira, brincando. – Então o belo adormecido acordou? – Cale-se! Cale-se! Cale-se! – novamente o sussurro em meus ouvidos.

ecoou

– Sinto dores pelo corpo todo! – foi a única coisa que tive coragem de dizer. – Imagino. Você teve uma queda e tanto. Vou trazer um analgésico. Tomei o comprimido e dormi por mais algumas horas, o sono interrompido por pesadelos. Tentei sonhar com Emanuel, voltar à piscina natural, mas não consegui. Sempre que acordava ouvia o sussurro. – Cale-se! Cale-se! Cale-se! 240


O Cristo da Periferia Fui despertado pela batida da porta no armário que estava ao lado. Uma maca entrou empurrada por um enfermeiro, seguido de um policial que me era familiar. Os dois puseram a maca ao lado da minha cama e me jogaram nela, erguendo-me pelo lençol. Eram tão grandes que não demonstraram o menor esforço para me levantar. Meu coração disparou quando vi que o policial era um dos brutamontes que me agrediram. Se em situação normal eu não teria a menor chance contra ele, muito menos naquelas condições, com um braço e duas pernas quebradas. Empurraram a maca até um compartimento, que me pareceu ser a ante-sala do centro cirúrgico. O enfermeiro saiu e fiquei a sós com o grandalhão. O sussurro voltou a me soprar aos ouvidos: – Não se preocupe, eu te protegerei. Diga só o que eu mandar. Então o grandalhão olhou-me bem nos olhos, quase deitado sobre o meu peito. Seus olhos estavam avermelhados, como se estivesse drogado. – Não durmo há três dias. Eu queria ter matado você, mas os meus colegas quiseram trazê-lo para o hospital com flagrante de porte ilegal de arma e tráfico de drogas. Achavam que você morreria, pois seu coração estava praticamente parado e sua respiração era quase imperceptível. Minha úlcera está me matando. Eu tinha certeza que você ia sobreviver. Agora tenho que terminar o que foi mal feito. Tenho que matar você para que não conte como foi que se quebrou. 241


Jocelino Freitas Senti muito medo diante dessa declaração daquele homem, mas o sussurro me tranquilizava, mandando eu me acalmar e permanecer calado. – Mas antes quero que você conte quem é a testemunha bombástica que pretendia apresentar e onde está essa pessoa. Você pode dizer rapidamente e sofrer menos, ou tentar ser herói e resistir. Fica a seu critério, pois vai contar de qualquer jeito – seu olhar era intimidador. Seu nariz estava a menos de um centímetro do meu. Devia mesmo ter problema estomacal, pois o bafo era horrível. Como eu não respondia, pegou meu pescoço e começou a apertar, tirando-me o ar. Não iria me matar antes que eu contasse o que queria ouvir, mas isso não me servia de conforto, pois senti que me torturaria até a morte. Depois do meu sonho com Emanuel, não tinha certeza se ele estava vivo. Nada, contudo, faria com que eu o entregasse. De repente os olhos do homem se arregalaram, como se algo estranho estivesse acontecendo. Foi afrouxando a mão que me apertava o pescoço e afastando-se de mim, primeiro o rosto, depois o corpo, por último a mão. – O que você fez? – perguntou. – Minha dor de estômago passou. Sinto-me como há muito tempo não sentia. Estou bem, sem nenhuma dor. De fato, seus olhos retomaram a cor normal e até seu hálito, que impregnava todo o ambiente, pareceu ter melhorado. Recebi ordem 242


O Cristo da Periferia sussurrada para falar e as palavras brotaram de minha boca: – Você está curado. Sua úlcera não existe mais. Você não estava doente, apenas tinha um bom coração que se indignava com as maldades que você praticava e isso refletia em seu estômago. Não precisa se preocupar comigo, pois não será por meu testemunho que será condenado. Deus te ama e quer que você viva uma vida digna, que seja um bom policial e proteja as pessoas que jurou proteger. – Senhor, veja a que ponto cheguei! – disse o homem, impressionado, parecendo saber que não eram minhas aquelas palavras. – Por favor, me perdoe. – Está perdoado. Mude sua vida e não volte a pecar.

243


Jocelino Freitas

244


O Cristo da Periferia

47 Eu estava mais assustado que o surpreso policial. Não dei sinal de fraqueza, mas não estava entendendo nada do que acontecia comigo. Chamou o enfermeiro e me levaram de volta à enfermaria. Fiquei em silêncio absoluto, mesmo diante das perguntas dos meus colegas de quarto. Não tinha coragem sequer de falar sobre o que havia acontecido. A cura do policial que me torturava e aquelas palavras brotando de minha boca. O sussurro que somente eu ouvia poderia ser considerado alucinação se não tivesse revelado o poder da cura. Tudo começou depois do coma e do meu sonho com Emanuel. Era tão real. Minha sensação era de que eu passara a sentir exatamente o que ele sentira, quando vira milagres se realizando através de suas mãos e de suas palavras. Ele deveria saber, como eu sabia naquele momento, que eram obras grandiosas demais para que um ser humano pretendesse ser seu autor. O mundo havia sarado o homem doente e, com isso, salvou a minha vida. Prometi não acusar meu agressor. O que o sussurro pretendia com isso? Como eu poderia sair daquele lugar se não chamasse alguém e denunciasse o que me haviam feito? A resposta veio imediata a meus ouvidos: 245


Jocelino Freitas – Cale-se! Cale-se! Cale-se! E eu nada poderia fazer diante da ordem que mandava calar. O jeito era esperar os acontecimentos. Pelo jeito o Mundo sabia o que estava fazendo. Levei em consideração o fato de que eu deveria estar morto naquele momento. Havia escapado duas vezes da morte e estava certo de que Emanuel estava influenciando diretamente nos acontecimentos. Concluí que sozinho não era ninguém, mas ali eu fui protegido, privilegiado pelos sinais, como ele revelou em meu sonho. Tinha que confiar e esperar. Naquele momento tomei a decisão de obedecer cegamente tudo o que fosse ordenado, sem discutir os motivos. Era uma folha se resignando com a complexidade da árvore, uma peça num tabuleiro, feliz por cumprir o seu papel. No dia seguinte veio um delegado tomar meu depoimento. Parecia ser uma pessoa honesta, interessada em saber a verdade. Contudo, recebi ordem para calar e nada disse a ele. – Você está sendo acusado de porte ilegal de arma e tráfico de drogas. O que diz em sua defesa? Nada respondi. – Sabe da gravidade das acusações? São crimes inafiançáveis. Não quer se defender? Continuei calado, olhando-o para que soubesse que eu estava acordado e ouvindo todas as suas palavras. Ele chamou a 246


O Cristo da Periferia enfermeira, perguntando se minha língua tinha algum problema. -Nenhum problema, doutor. Quando acordou, ele falou comigo e com os colegas de quarto. – E está discernimento?

com

algum

problema

de

– O médico falou que ele está lúcido. Acho que não quer conversar com o senhor. – Acho bom chamar seu advogado, moço – aconselhou em tom formal. – Você está bem encrencado! Quando receber alta vai direto para o presídio. – Não vou contratar advogado. Quero um defensor público – respondi, surpreendendo-o. No dia seguinte entrou na enfermaria outro homem, paletó e gravata, que pensei ser outro delegado. Olhou-me como se já nos conhecêssemos e falou: – Olá, meu nome é Antonio Souza. Sou da Corregedoria Geral de Polícia. O delegado que esteve aqui ontem nos contatou e disse que suspeita que você esteja com medo de prestar depoimento. É verdade? Nada respondi, apenas fiquei olhando para ele, como fiz com o delegado. Em meus ouvidos a voz mandava calar. – Suspeitamos que você tenha sido vítima de um flagrante armado. Pode confirmar isso? Continuei impassível. 247


Jocelino Freitas – Não precisa falar se não quiser. Pode apenas mexer a cabeça. Está entendendo o que digo? Balancei confirmando.

a

cabeça

lentamente,

– Que bom! Começamos a nos comunicar. Eu soube que você foi visitado por um dos policiais que o prenderam. Por que ele veio aqui? Ele o ameaçou de alguma forma? Meu rosto parecia uma pedra, sem manifestar qualquer emoção. Em meu íntimo a vontade era de gritar, contar todo o ocorrido. O silêncio, contudo, me era ordenado. Tudo o que eu precisava fazer era contar àquele homem sobre as perseguições, as ameaças, a violência que sofri. Quando estava investigando o caso da agressão a Emanuel, cheguei a procurar a Corregedoria de Polícia, mas ninguém me deu ouvidos. Ninguém parecia dar muito valor a um preso morto e desaparecido. Agora o caso era diferente: eu era uma pessoa conhecida por meu trabalho na televisão e estava ali, numa cama de hospital, preso sob a acusação de porte ilegal de armas e tráfico de drogas. Nunca havia tido antecedentes e isso soava suspeito a qualquer um que tivesse o mínimo de bom senso. Não era novidade para ninguém, muito menos para a Corregedoria, a existência de ameaças e agressões em casos nos quais policiais estivessem sendo investigados. – Você é um repórter famoso. Não têm sentido essas acusações. Soubemos dos atentados contra seu carro e a escola de seu 248


O Cristo da Periferia filho. Seu sogro falou com o Secretário de Segurança. Estávamos procurando você há dias. Naquele momento lembrei de Graça e do pequeno Bruno. Uma lágrima escorreu de meus olhos. – Não se preocupe. Sua família está bem. Não sabemos onde eles estão, mas seu sogro disse que estão em lugar seguro. Agora precisamos tirar você daqui e levá-lo para um hospital particular. Mas para isso é preciso que você conte o que aconteceu. O juiz só está esperando o seu depoimento para expedir o alvará de soltura. Continuei calado, olhos marejados.

olhando

para

ele,

os

– Por favor, responda. Eu posso ajudar. Alguém o ameaçou? Você está com medo de dizer a verdade? Vamos! Balance a cabeça! Sim ou não? Nada do que ele disse foi capaz de me fazer falar. Parecia que uma força bem maior estava comandando meus atos. Minha razão dizia que eu devia falar, mas meu coração lembrava que eu escapara duas vezes da morte certa. A lembrança das palavras de Emanuel me servia de consolo. Eu deveria estar morto naquele momento. Portanto, não era eu quem comandaria os meus atos doravante.

249


Jocelino Freitas

250


O Cristo da Periferia

48 – Você está louco? Quer ficar preso? – gritava o meu sogro quando lhe disse que não aceitaria o advogado que contratou para me defender. – É o advogado mais respeitado da cidade. Foi professor de quase todos os juízes. Tira você daqui num instante. – Dr. Jordão! Eu sei o que estou fazendo – contestei. – Sabe nada! Se soubesse não estaria aqui. Teria ficado com o segurança que pus à sua disposição e nada disso teria acontecido. – Eu não quero que o senhor pague gente pra cuidar de mim. Sou bem grandinho para ficar escoltado por uma babá. Ademais, eu quero ficar aqui. – Pra quê? O que está investigando aqui? Você é um repórter, um apresentador. Não pode mergulhar assim numa matéria. – Não estou mergulhando na matéria, Dr. Jordão. Só acho que devo ficar por aqui. – Mas você não ficará aqui por muito tempo. Logo vai para um presídio se não se defender. 251


Jocelino Freitas – Não me importo com isso. – E com seu filho, você se importa? Como acha que ele vai ficar sabendo que o pai está preso porque não quis se defender? – Deixe o Bruno fora disso. Ele está em segurança. Não precisa saber o que está acontecendo aqui. – Você está louco mesmo. Vou mandar o advogado alegar insanidade. – Dr. Jordão. Eu já lhe pedi para ficar fora disso. – Ficar fora? Ficar fora? Eu movi mundos e fundos pra te localizar. Pensava que estivesse morto. Falei até com o governador. Toda esta cidade estava a sua procura. Agora me pede para ficar fora? Está maluco? – Estou fazendo o que é preciso fazer. Por favor, atenda meu pedido. Deixe-me cuidar disso sozinho. – Escute rapaz! Se você não se defender será condenado. Depois não tem volta. Aceite o advogado. – Não. – Você tem consciência de que está preso? Seus pais e seus irmãos não podem entrar aqui para vê-lo. Eu só entrei porque o Secretário de Segurança ligou pessoalmente autorizando. – Eu sei disso. Até prefiro que não me vejam assim. Diga a eles que estou sendo bem cuidado aqui. 252


O Cristo da Periferia – Então lamento, filho. Você está sozinho agora. Depois não diga que não avisei. Meu sogro saiu cuspindo fogo com minha atitude. Eu também não me entendia. Jogara fora mais uma oportunidade de sair dali. Por pouco não pulei daquela cama e saí correndo, todo quebrado mas livre. Pensei em meus familiares, todos eles. O orgulho que sentiam poderia estar abalado. Como meus pais explicariam um filho na prisão? Seria muito vergonhoso para eles. E quanto a Graça e o pequeno Bruno? O que pensariam de mim? Como meu filho seria visto na escola? De filho de repórteres famosos a um pai presidiário. Talvez nem fosse bom que voltasse, mesmo que estivesse seguro. O ideal seria a mãe retomar o trabalho e permanecerem em Paris. Assim ele aprenderia bem o francês e ficaria longe do desconforto causado por mim. Como estava difícil seguir o chamado do Mundo. Dez anos antes teria sido bem mais fácil, pois eu não tinha esposa nem filho e minha carreira estava apenas começando. Emanuel pediu que eu largasse tudo e o seguisse, mas recusei. Escolhi minha carreira e família e não me arrependi. O destino, contudo, cruzou nossos caminhos outra vez. Talvez aquele encontro estivesse programado e eu apenas seguisse o inevitável. Não entendia porque havia sido escolhido. Por que justamente eu deveria herdar até mesmo os poderes de Emanuel? Estava ouvindo vozes e fazendo milagres. Era uma mudança muito grande em minha vida, que sofreu mais atentados desde que me envolvi novamente com o Cristo da 253


Jocelino Freitas periferia que em todo o período anterior. Pensando bem, a única vez em que estive em perigo real anteriormente, fora justamente quando Tiago tentou me assaltar dez anos antes. Significava que todas as situações complicadas que passei na vida estavam ligadas a Emanuel. Mesmo nas reportagens que fiz ao longo da carreira, passei por lugares que eram considerados perigosos, mas nunca fui agredido nem ameaçado, sequer senti medo. Outros repórteres enfrentavam problemas e eu passava incólume por tudo, como se tivesse um passe livre para entrar e sair de qualquer lugar. Todos diziam que eu conseguia ficar invisível quando era necessário, pois ninguém me impedia de conseguir uma boa entrevista, passando por seguranças e bloqueios. Parecia que o mundo me havia protegido para o destino que traçou. – Cara! Tu é mesmo doidão – disse o meu colega de enfermaria, que assistira à conversa com meu sogro. – Se fosse eu, já estava longe daqui.

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O Cristo da Periferia

49 O horário de início da audiência já havia passado e meu defensor ainda não chegara. – Acho que terei de nomear outro defensor para o senhor, pois o Dr. Álvaro Alvarenga não veio – disse o juiz, olhando o relógio. Nada respondi, mesmo porque não era uma pergunta, apenas um comentário do magistrado, preocupado em não atrasar a sua pauta. Nisso adentra uma figura que pouco se assemelhava a um advogado. Estava sem terno, vestindo uma calça jeans desbotada e camisa surrada de manga curta. Calçava sapato mocassim marrom. Era um mulato magro e tinha uma barbicha mal cuidada. Os cabelos crespos e sem corte até que combinavam com a barba. Óculos de aro grosso, consertado com fita adesiva. Entrou rapidamente, vestiu uma beca tão desbotada quanto ele próprio e sentou-se a meu lado, sem sequer me olhar. – Dr. Álvaro. Está atrasado dez minutos. Acho que já lhe disse que não vou mais nomeálo como defensor nesta Vara. Não sei por que ainda insisto nisso. Acho que é porque a lista de defensores está em ordem alfabética e seu nome é o primeiro. 255


Jocelino Freitas – Foi o trânsito – dizia enquanto abria a pasta de couro mole com fivelas de cinto sobre a mesa, como se a bronca do juiz não lhe causasse qualquer espanto. – Da próxima vez tomarei um ônibus mais cedo. – Podemos começar, então, o interrogatório do réu. Senhor Paulo, consta dos autos que na noite do dia quatorze de setembro o senhor foi parado numa operação policial de rotina, ocorrida na rodovia que liga Curitiba a Campo Magro, tendo os policiais encontrado em seu veículo um revólver calibre 38; ao ser questionado, respondeu que não tinha registro de tal arma ou permissão para portá-la; em seguida os policiais encontraram em seu bolso um pacote com uma substância de cor branca em forma de pó, que depois constataram ser cocaína, na quantidade de noventa e oito gramas; que após isso o senhor empreendeu fuga, adentrando na mata, sendo perseguido pelos policiais; que em virtude da fuga caiu numa ribanceira, sofrendo diversas lesões e fraturas, sendo então levado ao hospital, onde permaneceu até esta data. O senhor confirma essas acusações? Permaneci quieto, olhando para o juiz. – Não quer responder? – inquiriu o juiz. Mantive-me calado, atendendo ao comando que recebia. – Senhor Paulo. Devo adverti-lo que tem o direito de permanecer em silêncio. Contudo, a presunção será de que confirma as acusações.

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O Cristo da Periferia – Será que ele é mudo? – comentou o defensor a meu lado. – Será que está entendendo as perguntas? – Dr. Álvaro. Por favor, não intervenha. O interrogatório é pessoal. – Só estou defendendo meu cliente. Que tal que ele é mudo? Daí não pode responder. – Se o defensor tivesse chegado a tempo de ler os autos, veria que o réu se recusou a prestar depoimento ao delegado, tendo o hospital informado que está lúcido e pode falar. Só não o faz porque não quer. – Então fala, homem de Deus! – disse o advogado olhando para mim. – Desembucha logo o que aconteceu! Não reagi. – Então, quedando silente o réu, preso em flagrante delito, determino que o mesmo seja recolhido à prisão provisória desta Capital, onde permanecerá sob custódia até o julgamento definitivo da ação penal. Concedo ao defensor prazo de três dias para apresentar defesa prévia. – Não vai fixar fiança? – perguntou o advogado. – Os crimes são inafiançáveis, doutor! Devia se preparar melhor para suas audiências! – exclamou o juiz, já impaciente. – A audiência está encerrada!

257


Jocelino Freitas Fui retirado da sala pelos policiais que me escoltavam, enquanto meu defensor coรงava a barba, sem saber direito o que fazer.

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O Cristo da Periferia

50 A vida na prisão provisória era horrível. Mesmo tendo cela especial, pelo fato de ter curso superior e não estar, ainda, condenado, não podia dizer que o ambiente era suportável. Havia muitos condenados lá, pois os presídios não tinham vagas para recebê-los, mesmo depois de receberem sentenças definitivas. Essa presença de criminosos perigosos tornava o clima do lugar muito carregado. Desde a chegada fiquei sabendo de desentendimentos entre facções do crime organizado. Eu estava relativamente protegido em minha cela especial, que dividia com três outros companheiros de infortúnio. Todos se diziam inocentes injustiçados, vítimas de erros judiciais. Somente eu não tentava provar inocência, preferindo ficar calado a despejar argumentos inúteis a ouvintes inexpressivos. Confesso que me sentia revoltado por estar ali. Não ouvira mais o sussurro depois de minha chegada e estava ali por causa dele. Nem mesmo o irritante comando para calar eu ouvi. Uma semana antes me impedira de apresentar defesa no tribunal, fazendo com que fosse levado para aquele lugar. Antes havia feito com que pedisse para ser defendido por um idiota que mal sabia abrir a boca e só levou bronca do 259


Jocelino Freitas juiz. Se bem que eu não o havia ajudado em nada, ficando calado. Nem mesmo o grande catedrático que meu sogro queria contratar me livraria daquela situação se eu não colaborasse. Minhas dores aumentaram longe do hospital, pois os agentes penitenciários não me davam remédios, mesmo eu pedindo. As pernas e o braço quebrados não estavam mais engessados, apenas enfaixados. A instalação na cadeia de verdade, longe do hospital, levou-me a pensar muito em minha vida depois do reencontro com Tiago, no dia em que quase o atropelei. Tinha uma vida estável, uma carreira de sucesso e perdi tudo em poucos meses. Como a vida podia ser tão frágil? Quem era eu, afinal? Apeguei-me ao que construí, a minha família, esquecendo que todas as pessoas estão suscetíveis a vontade do Mundo, de Deus. Jamais pude compreender a figura de Abraão sacrificando o próprio filho para atender a vontade de Deus. Era uma resignação na qual eu jamais acreditara. Ninguém mataria o filho, ainda que recebesse ordem de Deus. Entendi, finalmente, que Abraão só podia mesmo era atender a ordem recebida, pois sabia que não haveria lugar onde pudesse esconder o filho do Mundo. O sacrifício lhe estava sendo pedido e a ele não competia entender os motivos. Não tinha escolha. Ou fazia ou o Mundo lhe tomaria o filho por outros meios, talvez piores. A idéia era obedecer cegamente, mesmo que lhe fosse determinado que acabasse com a vida de quem mais amava. Eu perdera tudo, mas surpreendentemente ganhara confiança. Graça e Bruno estavam seguros, mesmo eu não sabendo 260


O Cristo da Periferia onde estavam. Minha fé aumentara. Aprendera a confiar cegamente. Por isso tinha certeza de que estava mais protegido naquela cela de prisão do que em qualquer outro lugar. Eu sabia que estava ali por causa da armação planejada pelos inimigos de Emanuel, inimigos da verdade absoluta acima dos interesses mesquinhos. Comigo na cadeia acabavam os seus medos. Meu medo aparente punha em segurança todos meus outros parentes: meus pais, irmãos e sobrinhos. A segurança deles era um fantasma que me atormentara antes da prisão. Havia protegido minha mulher e filho, mas tinha consciência de que todos ao meu redor corriam perigo e eu não podia protegê-los. Por isso foi conveniente que a cólera de meus perseguidores fosse descarregada sobre mim. Meu silêncio nos depoimentos os levaria a pensar que conseguiram me calar sem matar. Já não culpava os policiais que me agrediram e prenderam, pois eles também foram usados pelo sistema. Eram pobres e ambiciosos. Certamente foram convencidos a me agredir com o pagamento de uma propina maior que seus salários. Se não fossem eles, outros fariam. O mundo dá livre arbítrio a todos para escolher seus caminhos. Poucos sabem realmente utilizar essa liberdade para fazer o bem despretensioso. Eu estava vendo lógica, afinal, nos acontecimentos. Emanuel havia dito para seguir os conselhos do Mundo, por mais absurdos que parecessem. Eu os segui e estava, finalmente, entendendo a sua lógica. Mesmo confinado na pior situação de minha vida, eu estava confiante, acreditando fielmente que os 261


Jocelino Freitas caminhos se abririam diante de mim como o Mar Vermelho se abriu diante de Moisés. Bastava ter fé e seguir. Depois de alguns dias na prisão, consegui ter acesso a papel e caneta. Não era bem uma caneta, mas somente a carga com tinta, pois os agentes penitenciários disseram que o tubinho servia para muitas coisas; para consumir drogas e até virar arma. O importante foi que pude escrever, extravasar o pensamento do repórter trancafiado, chegar onde queria com minha visão do mundo através da palavra. Escrevi uma carta a meus pais pedindo que tentassem não se preocupar, pois eu estava bem. Disse que não deviam imaginar os motivos que me faziam estar ali, mas apenas acreditar que era a vontade de Deus. Eu sabia que tudo que escrevesse seria censurado antes de sair dali. Por isso era importante escrever de uma forma que não impedisse a remessa, sem falar em culpa ou inocência. Em seguida escrevi outra carta, destinada a Tiago e seus amigos. Quando comecei a redigir a carta, percebi que escrevia coisas que eu não sabia. A caligrafia era minha, mas as palavras não. O sussurro havia voltado e estava ditando o que eu escrevia. A carta foi se desenvolvendo como uma forma de orientação, não por mim mas através de mim. Começou recomendando que nunca se afastassem do caminho que trilharam com seu mestre. Jamais deveriam esquecer de suas palavras, de seu exemplo e da verdade que sua existência entre nós representava. Por isso era importante que não se entregassem ao desânimo ou à falta de fé. Cada um era 262


O Cristo da Periferia responsável por propagar os ensinamentos recebidos. Tinham consciência do poder e capacidade que Emanuel vira neles, pessoas sem valor para a sociedade mas preciosas para o Mundo. A narração prosseguiu, dando conselhos gerais e individuais, se referindo a fatos ocorridos ao longo dos dez anos de pregação de Emanuel, coisas que eu não sabia e tomei conhecimento somente ali, através dos escritos que minha mão ia criando, obra daquela inexplicável possessão.

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Jocelino Freitas

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O Cristo da Periferia

51 Tarde de sol no presídio, que alguém um dia disse que era uma prisão provisória. Talvez quem deu esse nome devesse passar qualquer dia ali para uma visita. Veria que de provisória não havia nada. Na verdade era uma fábrica de bandidos, pois as conversas que se ouvia eram todas de técnicas criminosas e maneiras de praticar delitos sem ser preso. Depois de passada a fase inicial, na qual todos tentavam convencer os demais de sua inocência, presenciei as revisões de vida de meus companheiros de cárcere. Aproveitava os momentos de convívio para tomar depoimentos, pois pretendia escrever um livro quando saísse dali. Os presos contavam seus casos, suas vidas, suas formas de pensar e eu anotava tudo quando voltava à minha cela. Era uma forma de me distrair, de abstrair o pensamento enquanto estava naquele lugar horrível, último reduto a que pode chegar a dignidade humana. Eu não entendia o que o Mundo queria de mim. Por que me havia exposto a ficar num lugar onde só estava o pior da raça, onde minha capacidade de repórter em nada poderia ser útil. Lá fora a vida fluía e eu estava ali, encarcerado, sem poder influir decisivamente nos acontecimentos. Se estivesse solto teria um instrumento 265


Jocelino Freitas poderoso para difundir as idéias. Entraria em cada lar, através da televisão, podendo falar do amor, da amizade sincera, de como cada um pode ficar atento e ouvir os sinais. Mas estando ali, trancado e acusado de ser um criminoso, quem me daria ouvidos? Ninguém... ninguém... – Você é o repórter que está bisbilhotando a vida de todos aqui para escrever um livro? – perguntou o sujeito com cara de poucos amigos. – Sou eu mesmo. Gostaria de contar a sua história? – Minha história não merece estar em nenhum livro. Eu queria mesmo era que ela fosse apagada e pudesse começar tudo de novo. – Sempre é tempo de recomeçar. Você pode fazer isso agora mesmo – respondi sabiamente, repetindo o que o sussurro dizia. – Agora não posso mais. Meu fígado está desmanchando e meu pulmão parece uma bomba d’água. Consumi tanta droga que já não tenho mais saúde. Sei que vou morrer antes de mudar qualquer coisa. – Você está arrependido de seus pecados? – Claro. Enquanto pensava só em mim os meus filhos cresceram e eu não vi. Tenho trinta e quatro anos e já sou avô. Não criei meus filhos e eles estão cometendo o mesmo erro com meus netos. Como não poderia estar arrependido? – Quanto tempo ainda vai ficar preso? – Fui condenado a seis anos pelo ‘um cinco sete’ – depois de algum tempo descobri que ‘um 266


O Cristo da Periferia cinco sete’ é uma referência ao artigo 157 do Código Penal, que significa assalto a mão armada. – Estou aqui há nove meses. Daqui a três meses vou para a colônia penal agrícola, onde devo ficar mais dois anos. Depois posso receber liberdade condicional. Mas não sei se viverei tanto tempo. – Você viverá. O mundo quer lhe dar uma nova chance – falei ainda conduzido pelo sussurro. – Você só precisa estar atento aos sinais que ele envia. Neste momento as suas doenças estão sendo curadas. Seu fígado e seu pulmão estão novos. Faça o que disse que queria fazer. Construa uma nova vida. E não esqueça que ela um dia vai acabar. Nesse dia terá de prestar contas do que fez com o presente que acaba de receber. Os olhos do homem se encheram de lágrimas. Seu semblante pareceu mais saudável no mesmo instante. – Rapaz, você é um santo – gritava. – Ele me curou! Me curou! Os outros presos olhavam com ar de desconfiança, imaginando que o pobre coitado estivesse louco. – Você enrolou ele legal! – disse meu companheiro de cela, que estava sentado próximo e ouvira tudo. – Não enrolei – respondi. Ele está curado mesmo.

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Jocelino Freitas – Está dizendo que é um santo milagreiro? – perguntou cético. – A prisão está pirando você também? – Acho que sim – respondi encerrando a conversa. A cura do preso, que depois soube que se chamava Lázaro, provocou uma revolução na prisão provisória. No dia seguinte todos viram Lázaro aproveitar a tarde de sol para se exercitar como se fosse um atleta. Fazia flexões, levantava os pesos improvisados, pendurava-se na barra. Não demorou para que outros presos me procurassem pedindo cura para seus males. O problema era que o mundo havia escolhido Lázaro por seu arrependimento. Qualquer um que quisesse um milagre deveria estar sinceramente arrependido e disposto a mudar sua vida. Nenhum dos outros demonstrou arrependimento sincero e todos receberam somente conselhos para mudar a vida, desarmar o coração antes de pedir milagres. Era isso que o sussurro dizia através de mim. Eu aproveitava esse aumento na procura para colher mais depoimentos para meu livro. Mesmo que o Mundo não atendesse os pedidos de todos, eu anotava suas histórias. Essa notoriedade, contudo, me expôs e atraiu a atenção dos inimigos de Emanuel.

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O Cristo da Periferia

52 Cheguei ao tribunal no humilhante camburão. Já devia estar acostumado, pois nos últimos três meses havia sido meu único meio de locomoção. O que mais me incomodava, no entanto, era estar algemado e escoltado por dois soldados gigantes, cada um com a mão na arma, como se eu fosse atacá-los a qualquer momento. Fui colocado numa cadeira e as algemas removidas, com os dois policiais se sentando atrás, prontos para pular sobre mim ao menor esboço de tentativa de levantar-me. Podia sentir suas respirações ansiosas. Parecia até que eu era um assassino ou um devorador de pessoas. Fiquei novamente na presença do juiz que me mandou para a prisão provisória. Ao seu lado um outro homem, que imaginei ser o promotor de justiça e, do outro lado, um datilógrafo em frente a um teclado e monitor de computador. Ao meu lado estava meu defensor, o Dr. Álvaro, que me cumprimentou como se não lembrasse direito da minha fisionomia. Então o juiz mandou entrar a primeira testemunha de acusação. Era um dos policiais que havia me prendido. Com riqueza de detalhes foi construindo uma história mentirosa sobre como eu havia sido preso, sobre a arma e as drogas que encontraram comigo e minha 269


Jocelino Freitas tentativa de fuga. Quando meu advogado fez perguntas, estranhando que um homem desarmado pudesse escapar de cinco policiais treinados e armados, disse que eu havia demonstrado muita habilidade e velocidade, surpreendendo-os, fazendo com que tivessem de correr pela mata para impedir a fuga. Disse que eu só não consegui meu intento porque caí no barranco e quebrei as pernas. Do contrário nem mesmo a superioridade numérica e física deles teria impedido que eu fugisse. Meu advogado perguntou como foi que meu rosto ficou ferido, com hematomas incompatíveis com a queda. O policial se exaltou, tendo que ser advertido pelo juiz. Respondeu que provavelmente eu havia batido o rosto dentro do camburão para tentar acusá-los de lesões corporais; essa era uma atitude comum de marginais experientes para comprometer policiais honestos e tentar revogar a prisão. Então o Dr. Álvaro disse que eu não era um criminoso experiente; ao contrário, um jornalista honesto e responsável que nunca tivera passagem pela polícia. – Se fosse tão honesto não estaria com uma arma e cocaína – comentou, irônico, o maldoso policial. O Dr. Álvaro não caiu na provocação e perguntou se ele sabia que eu estava investigando a atuação da polícia; respondeu que não. Perguntou se o mesmo havia participado da prisão de Emanuel da Silva, o Cristo da periferia; respondeu que não, nem sabia quem era. 270


O Cristo da Periferia Em seguida foram ouvidos os outros policiais, testemunhas de acusação. Um a um, todos foram confirmando a história mentirosa contada pelo primeiro. O Dr. Álvaro se desmanchava em perguntas para tentar colocálos em contradição mas, salvo pequenos detalhes, os depoimentos eram iguais e consistentes. Até eu acreditaria neles se não tivesse acontecido comigo. Meu defensor me surpreendeu positivamente. Embora eu não tivesse ajudado em nada, fez perguntas pertinentes e senti que empreendeu um grande esforço para tentar me inocentar. De vez em quando me olhava e cochichava perguntando se era verdade o que a testemunha dizia. Outras vezes perguntava se eu queria que perguntasse algo. Senti vontade de ajudar, de falar a ele para perguntar isso ou aquilo, mas recebi o mesmo comando sussurrado das vezes anteriores: – Cale-se! Cale-se! Cale-se! A quinta testemunha de acusação não compareceu. Era o policial que eu havia curado no hospital. O promotor de justiça pediu ao juiz que dispensasse o seu depoimento, porque as testemunhas ouvidas foram unânimes em confirmar a denúncia. Estava fartamente demonstrada a minha culpa e, como não havia testemunhas de defesa, já poderia ser prolatada a sentença condenatória. Então o Dr. Álvaro me surpreendeu mais uma vez. Sem que eu lhe dissesse nada, sem que jamais tivéssemos trocado uma palavra, disse ao juiz que não concordava com a dispensa da testemunha. 271


Jocelino Freitas Embora se tratasse de testemunha de acusação, sua ausência devia ser interpretada como sinal de que não concordava com seus companheiros. Insistiu no depoimento, pedindo que o mesmo fosse conduzido para depor. O juiz acatou o pedido do advogado e marcou uma nova data para audiência, determinando que o policial ausente fosse requisitado para seu comandante, bem como que fosse escoltado ao tribunal caso se recusasse a comparecer espontaneamente. Como gostava de implicar com meu defensor, não deixou de fazer um comentário desairoso: – Vou deferir, doutor, somente para que não se alegue cerceamento de defesa. Mas acho que o senhor está apenas insistindo em produzir mais uma prova para condenar o seu cliente. – E isso mudaria disparou o advogado, raciocínio rápido.

a sua sentença? – surpreendendo pelo

– É! Não mudaria nada. – Então vamos ouvir o que o homem tem a dizer. Pior do que está não fica. Nada falei ao Dr. Álvaro, mas devo ter deixado escapar um sinal de aprovação e admiração por sua atuação naquela audiência. Ele apenas se despediu de mim com um sorriso contido, enquanto minha escolta recolocava as algemas e me conduzia de volta ao camburão. Meu defensor havia falado em sinais e captado claramente a mensagem de que o policial ausente deveria ser ouvido. Qualquer outro em seu lugar teria agradecido por não precisar ouvir mais uma testemunha de acusação. Ele, no 272


O Cristo da Periferia entanto, foi muito hábil em concluir que não tinha testemunhas de defesa e que a sentença seria condenatória de qualquer jeito, ainda que a testemunha comparecesse para confirmar os depoimentos de seus colegas. No mínimo ganharia mais algum tempo para mim na prisão provisória, que diziam ser melhor que o presídio. Se bem que não era muito provável que houvesse vaga no presídio para mais um condenado. A estratégia também me garantia mais um tempo de cela especial, pois os condenados não gozavam desse benefício, mesmo que tivessem curso superior. Cada dia que eu ficasse ali seria um dia a menos para cumprir no presídio. Se desse sorte de pegar uma pena leve, por ser primário, logo seria transferido para a colônia penal agrícola, como Lázaro, onde os presos tinham uma sensação maior de liberdade, pois não havia muros.

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53 De volta à prisão provisória, fiquei pensando em quanto tempo mais eu teria que permanecer recluso. As chances de me defender haviam se acabado no dia em que recusei a ajuda de meu sogro. Fiquei calado diante do delegado, do corregedor e do juiz. Todos pareciam dispostos a me livrar da prisão. Afinal, eu era uma pessoa de imagem pública, que teria todos os motivos imagináveis para ser envolvida num flagrante forjado. Todos estranharam minha atitude, mas nada puderam fazer se não me defendi. Senti que o Mundo queria de mim uma entrega incondicional, que rompesse todos os laços de segurança e rotas de fuga. Estava entregue ao destino e nada aconteceria por minha vontade exclusiva. Somente a força que me livrara duas vezes da morte, e tirara tudo que eu tinha, seria capaz de traçar o meu futuro, de guiar os meus passos. Lembrei-me do dia em que cheguei à casa de Emanuel com um frango assado e uma cesta básica. Dona Maria não tinha mais nada na despensa. Nem eu sabia que estava escalado para ser o provedor daquela noite. Emanuel, no entanto, tinha uma confiança tão grande de que a comida estaria lá na hora certa, que nem se preocupava em imaginar de onde ela viria. Esse era um exemplo de fé que eu deveria exercitar: a confiança cega. Como 275


Jocelino Freitas não tinha alternativa, meu caminho era esperar e confiar. – Daí São Paulo, chega aí – disse o homem baixinho entroncado, por trás dos dois negros mal encarados que protegiam a entrada da cela. – Deixem ele passar. É sangue bom. Vão querer matar um santo? – Você é o Carioca? – perguntei. – Soube que quer falar comigo. – Pois quero mesmo. A gente não se cruza por aí, mas já ouvi falar de ti. Curou o meu chegado Lázaro. – Também já ouvi falar de você. O Lázaro disse que vocês são muito amigos – fui delicado, pois sabia que o Carioca era o maior chefão do tráfico por ali. – É o seguinte, gente fina. Eu te chamei aqui pra avisar pra tu te cuidar – o sotaque era um carioca bem carregado, justificando o apelido. – Tem neguinho querendo te pegar. – Mas por que alguém iria querer me pegar? Não faço mal a ninguém – perguntei meio assustado com a notícia. – Tu não faz mal, mas é perigoso pros homens do dinheiro. – Como assim? Que homens do dinheiro são esses? – Ô São Paulo, não te faz de bobo não, mermão. Tô falando dos caras que mandaram armar pra ti. 276


O Cristo da Periferia – Armar pra mim? – perguntei, medindo as palavras para tentar descobrir o que ele sabia. – É isso aí. Tu não tá em cana porque tava na cola de uns caras? – balancei a cabeça afirmativamente, mas Carioca não me deixou falar. – Pois é! Esses caras querem te ver morto. Tua cabeça tá valendo dez mil. – Sério? O que mais eles querem? Já conseguiram me prender e me calar. Por que não me deixam em paz? – desabafei, visivelmente transtornado. – É que tu disse que tinha uma testemunha que era uma bomba. Agora eles estão com medo dessa pessoa, pois tu tá preso, mas ela não. – Eu nem sei se essa testemunha está viva ou morta. – Tá viva, meu santo. Se estivesse morta os homens não iriam pagar pra arrancar de ti o nome dela. – Não entendi. Não é pra me matar que estão pagando dez mil? – Só te matar não garante o prêmio. Neguinho tem que te pendurar e arrancar o nome da testemunha. Só depois pode te apagar – falava como se me matar fosse a coisa mais natural do mundo. – E você vai querer ganhar esse prêmio? – perguntei suando frio. – Fica frio, São Paulo. Aqui ninguém rela a mão em ti. Eu te chamei pra te avisar. Tu fica na 277


Jocelino Freitas proteção dos meus chegados que eu não deixo ninguém te tocar. Mas se descuidar com neguinho do lado de lá, vai comer capim pela raiz, sacou? – Agradeço a sua preocupação comigo, mas vou dispensar a proteção. – Tu tá doido, São Paulo. Se os camaradas te pegam, tu tá frito mermão. – Se eu estou aqui é pela vontade de Deus. Se ele quiser que eu morra, estou preparado! – o danado do sussurro estava ditando essas palavras para que eu falasse. Eu, por minha vez, estava assustadíssimo. – Tu é mesmo doido. Mas tenho que admitir que é macho pra caramba. Minha oferta taí e é de graça. Se precisar é só chamar. Agradeci e saí, mais assustado do que nunca. Afinal, um prêmio de dez mil reais era excelente para qualquer preso. Parei na porta da cela e voltei-me para o Carioca. – Pode me responder uma pergunta? – Pode falar – disse, visivelmente chateado com minha recusa de ajuda. – Quem é que está pagando para me ver morto? – Isso eu não sei, porque não foi comigo que negociaram. Só ouvi o boato. Seja quem for, tá com muita raiva de ti.

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O Cristo da Periferia

54 Depois de passar a tremedeira por ter a cabeça a prêmio, entendi perfeitamente a atitude do sussurro, Não era conveniente que eu aceitasse a proteção oferecida por Carioca. Bem ou mal ele representava uma das facções que lutavam para dominar o tráfico de drogas e eu não queria ter meu nome associado ao dele, mesmo que fosse como seu protegido. Afinal, eu era acusado de tráfico e a associação com o crime organizado não me ajudaria. Ninguém faz nada de graça. Certamente Carioca iria cobrar a proteção de alguma forma compatível com seu caráter criminoso. Não dava para confiar num traficante de drogas, que estava rodeado de capangas mesmo dentro da prisão. Quanto ao perigo que corria, o mundo já me livrara de situações extremas e eu aprendera a confiar nele. Ao menos estava treinando para confiar. Não era fácil, mas eu tinha que me adaptar. Quem não aceitou quieto a minha recusa foi Lázaro. Passou a ser meu fiel seguidor onde quer que eu fosse. Conseguiu até ser transferido para minha cela, utilizando da influência de Carioca para colocar um preso sem curso superior numa cela especial. Os agentes penitenciários aprovaram, pois temiam que eu fosse atacado e a presença de Lázaro, que me 279


Jocelino Freitas venerava, seria um trabalho a menos para eles, caso um de meus outros colegas de cela sofresse uma recaída e pensasse no prêmio oferecido pela minha cabeça numa bandeja. Eu tinha certeza de que algum dos agentes poderia ser corrompido. Afinal, eu fora preso por policiais corruptos, pessoas que deviam proteger a população, não atacá-la. Felizmente o diretor da prisão provisória era uma pessoa extremamente séria e fez uma reunião com todos os agentes, revelando sua preocupação comigo, dizendo que estaria de olho em cada um que se aproximasse de mim. Que não colocaria ‘panos quentes’ e perseguiria o responsável até que fosse preso se algo me acontecesse. Isso eu soube através do próprio diretor, que mandou que eu fosse levado à sua sala, para recomendar que eu tivesse muita cautela e evitasse andar sozinho perto da facção oposta à do Carioca, que resolvera me proteger mesmo sem eu aceitar sua oferta. Como eu já me sentia protegido pelo mundo, não demonstrei qualquer preocupação – meus exercícios de confiança estavam surtindo resultados positivos – aproveitei o encontro com o diretor para entrevistá-lo para o meu livro. Numa conversa informal, contou-me como lidava com os problemas de falta de verba, corrupção de agentes, tráfico de drogas e organizações criminosas. Era realmente um homem honesto, mas esbarrava em diversos obstáculos para fazer daquele um lugar decente. Quanto à existência de gangues ali dentro, disse que era um fenômeno decorrente da própria personalidade dos presos, sendo impossível 280


O Cristo da Periferia controlar a afinidade entre eles. Apenas se controlava a rivalidade, mantendo distantes os rivais, na medida do espaço disponível. O maior problema, contudo, era o ingresso de drogas. Toda vez que se descobria uma forma de ingresso, os traficantes inventavam outras, de modo que só se havia conseguido diminuir, mas nunca interromper o tráfico. Isso aumentava o poder de gente como o Carioca, que dominava seus colegas de reclusão pelo poder do vício. O ideal seria que pudesse fazer varreduras constantes em todas as celas, mas isso só acontecia quando tinha ajuda da polícia militar, que não vinha se não houvesse rebelião. O quadro de agentes mal dava para manter a mínima segurança por ali. E ainda havia os corruptos, que certamente eram os responsáveis pelo ingresso de drogas. De vez em quando um era descoberto, mas a praga da corrupção se espalhava feito erva daninha, não acabando nunca. Tive de ser hábil quando ele quis falar sobre os motivos que me levaram à prisão. Com educação, mas com firmeza, disse a ele que preferia deixar o caso para ser decidido pela justiça. O diretor aceitou minha esquiva. Devia estar tão acostumado a falar com gente que queria convencê-lo da inocência, que ficou até agradecido por eu não entrar no mérito do meu problema com a justiça. Afinal, estava ali para cumprir sentenças e não para analisar crimes.

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55 Naquela noite sonhei com Emanuel. Eu estava caminhando sozinho pelo corredor da prisão quando o encontrei e ele disse: – Vem comigo! Você precisa ver isso! Instantaneamente fomos transportados para outro lugar. Estava escuro, só dois carros estacionados num local ermo, parecia o pátio de uma fábrica abandonada. Caminhamos em direção aos faróis acesos e percebemos que havia umas pessoas perto dos carros. Paramos ao lado e elas não perceberam nossa presença. Era como se não estivéssemos ali. Percebi então que alguém estava ajoelhado, com uma arma apontada para sua cabeça. Os outros só olhavam, sem nada fazer. Olhando mais atentamente reconheci cada um deles. Eram os soldados que me acusaram, todos sem uniforme. Ajoelhado estava aquele que eu curei e, com a arma na mão apontando para sua cabeça, o delegado bonachão que prendera Emanuel. – Então você pensou que poderia nos trair? – perguntou o delegado. – Eu não traí vocês! – falava o outro ajoelhado, aos prantos. 283


Jocelino Freitas – Traiu sim! Não compareceu na audiência e despertou a atenção daquele defensorzinho de merda. – Mas eu não podia ir. Tinha compromisso. – Pare de mentir. Diga logo que você é um incompetente. Deixou o cara vivo no hospital. – Ele não contou o nome da testemunha. O senhor disse pra não matar antes dele contar. Quando comecei a apertar o pescoço do cara chegou gente e eu tive que parar. – Não minta pra mim, desgraçado! O enfermeiro falou que não chegou ninguém. Foi você que o chamou pra levar o safado de volta pro quarto. – Eu não podia matar ele! Eu não podia matar ele! – Mas eu posso matar você! – disparou um tiro contra a cabeça do pobre homem, que caiu morto. Naquele momento Emanuel avançou por entre os homens e pegou o morto pelo braço, ajudando-o a se levantar. Ele ficou em pé, com cara de assustado. Eu, que estava perto, vi uma cena surpreendente: Emanuel segurando o braço do homem em pé e todos os outros olhando para o corpo do mesmo homem, morto no chão. Emanuel e o soldado afastaram-se um pouco, enquanto o assassino chutava o corpo caído para ver se estava mesmo morto. Entraram nos carros e foram embora, enquanto os olhávamos sem que nos vissem. O soldado falou, em tom emocionado: 284


O Cristo da Periferia – Eu tentei ajudar! Acreditem em mim! Eu tentei de todas as formas. – E você conseguiu – interveio Emanuel. – Você ajudou muito e será recompensado. Cumpriu a sua parte de homem honrado. Seu tempo neste mundo acabou, mas você conseguiu se redimir e se transformou numa pessoa melhor. Pode descansar em paz. Acordei impressionado com a cena que acabara de sonhar. Aquele soldado era minha esperança de liberdade. Talvez meu subconsciente estivesse divagando. Eu esperava tanto do seu depoimento que estava tendo alucinações. Não. Era um sinal do Mundo, dizendo que eu não deveria ter esperanças. Ele me manteria ali enquanto quisesse. Não deveria pensar em sair antes de sua permissão. Senti pena do soldado morto. Ganhou uma vida nova e não teve tempo para aproveitá-la. Poderia ser somente um sonho, mas em minha cabeça pareceu bem real. No dia seguinte, quando as portas das celas foram abertas, um agente penitenciário me impediu de sair. – Você não, São Paulo! O clima está pesado lá fora hoje. O diretor achou melhor você ficar na cela.

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56 – O que aconteceu? – retruquei. – Não sei o que aconteceu. Só recebi ordem de segurar você aqui e te proteger. Achei estranha a notícia. O que teria ocorrido? Lázaro também estranhou e, por precaução, achou prudente ficar comigo na cela, para ter certeza de que o agente não estava mentindo e usando o nome do diretor. Com tantas denúncias de corrupção não seria de se estranhar se isso acontecesse. Meia hora depois da saída dos presos, o barulho vindo do pátio dava a impressão de que algo diferente acontecia. Havia uma gritaria que não dava para distinguir. Os presos estavam exaltados e parecia haver briga. Em seguida ouvimos sirenes, dando conta de que a polícia militar estava entrando na prisão provisória. – Estão chegando reforços. A coisa deve estar preta – disse o agente penitenciário. Pouco depois da chegada da polícia militar ouvimos barulho de marcha. Era como se centenas de soldados ingressassem no local para conter uma rebelião. Felizmente as portas dos corredores haviam sido trancadas e estávamos protegidos ali. 287


Jocelino Freitas O som do batalhão em marcha aumentou, dando a noção de aproximação. A porta da grade do corredor foi aberta, mas o agente não permitiu que olhássemos, mandando que ficássemos no fundo da cela, voltados para a parede, como sinal de que não estávamos rebelados. – Você vem comigo! – ouvi a voz do diretor. – O prêmio pela sua cabeça subiu para cem mil, sem tortura. Parece que já encontraram a testemunha que você escondia. Não tenho mais como mantê-lo aqui. Há um presídio inteiro querendo matá-lo. O diretor trazia um uniforme policial de meu tamanho. Vesti rapidamente e recebi uma arma sem munição, um escudo e um cacetete. Então coloquei o capacete que cobria boa parte do rosto, me escondi atrás do escudo e comecei a marchar como os soldados, saindo com o pelotão que entrara para me resgatar, cercado por todos os lados, sem que os outros presos suspeitassem da minha identidade. Ao passar pelo pátio, por trás do cordão que isolava os presos, vi que havia dois grupos separados. Num deles estavam os ligados ao Carioca; do outro lado a facção inimiga dele. Entre os dois grupos havia marcas de sangue no chão, dando conta de que uma luta se travara ali. Imaginei que o grupo do Carioca me protegeu enquanto a polícia não chegava. O Mundo colocava anjos protetores em meu caminho sem que eu fizesse ou pedisse nada. Eu jamais poderia pensar que um líder do crime organizado pudesse colocar a sua estrutura para 288


O Cristo da Periferia me proteger. Eu nada fiz para isso. Nem mesmo a cura de Lázaro eu podia explicar. Depois que foi curado passaram a me chamar de São Paulo e a me proteger sem pedir nada em troca. O sussurro me havia proibido de aceitar a ajuda, por isso ela vinha espontaneamente, sem qualquer negociação. Quanto a Lázaro, eu não tinha palavras para agradecer pela amizade e lealdade que demonstrou. Saí sem falar com ele, pois estávamos numa situação de emergência. Apenas o olhei ao sair, acenando com a mão e senti a emoção em seus olhos, como se agradecesse pelo milagre que havia recebido através de mim. Fui levado para a delegacia da Polícia Federal. A cela era bem mais confortável que a da prisão provisória. Não havia outros presos lá. Eu estava sozinho, protegido por toda uma estrutura policial. Continuava preso, mas protegido. Quando finalmente fiquei só e a adrenalina baixou, associei meu sonho ao que havia acontecido. Será que a testemunha a que se referiam era o soldado? Será que minha morte havia sido determinada porque pensaram que ele era a testemunha bombástica que eu prometia apresentar antes de ser preso? Mas ele não participara da prisão de Emanuel! Ou participara? Isso eu não podia saber, pois ele não prestara depoimento. Sempre imaginei que a prisão de Emanuel fora feita por policiais civis ligados ao delegado bonachão. Contudo, se o soldado era mesmo o que eu estava imaginando, devia ter participado da prisão de Emanuel. Podia ter ocorrido como no meu caso, com os 289


Jocelino Freitas militares prendendo e entregando à delegacia. Só que eu não passei pela delegacia. Fui direto do hospital para a prisão provisória. Mais uma vez eu estava numa situação para a qual não havia contribuído com nada. Fui pivô de uma rebelião e nem mesmo sabia o motivo pelo qual o Mundo queria que eu ficasse preso. Meu destino era mesmo o conformismo com os acontecimentos e obediência cega aos sinais que recebesse. Concluí que meu tempo na prisão provisória havia acabado, que já fizera o que deveria ter feito lá – embora não fizesse a mínima idéia do que era. – Deveria aceitar a mudança e viver meu tempo no lugar em que o mundo havia me colocado.

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O Cristo da Periferia

57 Uma semana depois de minha chegada à polícia federal fui levado ao fórum. Ainda não era o dia marcado para a audiência, por isso estranhei quando o carcereiro veio me buscar. A transferência, pela primeira vez desde que eu havia sido preso, foi feita comigo sentado num banco da viatura e não no camburão. Foi um procedimento bem menos traumático que os anteriores. Os agentes conversavam comigo como se eu não estivesse preso. Para minha surpresa um deles pediu um autógrafo meu para sua coleção. Eu já nem lembrava que era apresentador de telejornal antes de ser preso. Sentia como se fizesse uma eternidade que estava fora da mídia. Aquele homem talvez não soubesse o resgate que estava fazendo de minha auto-estima. Contive por pouco o choro. Apenas duas lágrimas correram de meus olhos, sentindo o peso de tudo que havia passado nos últimos meses. Agora compareceria diante do juiz com a certeza de que a testemunha que poderia me inocentar estava morta. Só me restaria receber a sentença e ser transferido para um presídio, pois a cela em que estava não era adequada para longa estadia. A delegacia não tinha sequer lugar para tomar sol. Por isso fiquei a 291


Jocelino Freitas semana toda confinado na cela, só vendo gente quando traziam comida. Nem mesmo o sussurro se apresentou para me dar alento ou fazer companhia. Talvez o meu esgotamento fosse consequência dessa solidão, dessa falta de perspectiva. Mas eu havia optado por seguir os sinais do Mundo e iria para onde ele me levasse. Começada a audiência, o juiz esclareceu que havia antecipado a data a pedido do promotor de justiça, concedendo-lhe a palavra. Este informou que a testemunha que deveria prestar depoimento havia sido assassinada na semana anterior, não havendo mais razão para que se aguardasse a data designada. Senti calafrios quando ele confirmou que o quinto soldado responsável pela minha prisão havia sido encontrado morto, com um tiro na nuca, no estacionamento de um barracão abandonado na cidade industrial, onde outrora funcionou uma grande indústria de tecidos. Contudo, diante de fatos e circunstâncias verificados em outros processos daquela promotoria, era imperativo que fosse ouvida uma outra testemunha, o Doutor Antonio Souza. Para minha grande surpresa, a testemunha que entrou na sala era o corregedor de polícia, que havia me visitado quando estava no hospital. Depois do juramento de dizer a verdade começou a inquirição pelo juiz. – Doutor Antonio, o senhor trabalha na corregedoria, é verdade? – Sim, sou assessor do corregedor geral de polícia. 292


O Cristo da Periferia – E nessa qualidade o senhor investigou o presente caso? – Sim, a corregedoria suspeitava que o réu estivesse sendo coagido a permanecer calado. – E qual a razão dessa suspeita? – O réu nunca teve qualquer envolvimento com a polícia e tudo indicava que fora detido num flagrante armado. – Mas se fosse isso ele não contaria em juízo? – Seria de se esperar. Ocorre que o sogro do réu informou que ele havia tirado a esposa e o filho do país, depois de um atentado na escola do menino. Antes, o próprio réu havia registrado queixa porque alguém o teria tentado jogar para fora da estrada. Suspeitávamos que o policial que o visitou no hospital o tivesse ameaçado, forçando-o a calar. – Faz sentido, mas meras presunções não são suficientes para inocentar o réu. A corregedoria encontrou alguma prova? – As investigações continuaram chegávamos a nenhuma prova cabal.

e

não

– Então, se não há provas, não podemos levar em consideração o seu depoimento, pois o senhor não presenciou os fatos – tremi ao ouvir isso do juiz. – Mas hoje temos muitas provas – falou o corregedor, devolvendo a cor a meu rosto. – E que provas são essas? 293


Jocelino Freitas – Logo depois da última audiência desta ação penal, fomos procurados por uma pessoa, que pediu proteção especial para testemunhar. Queria prestar depoimento mediante perdão judicial de sua participação nos crimes que denunciaria, alem de troca de identidade com pensão vitalícia. – E o que foi feito? – Chamamos a promotoria de investigações criminais e pedimos permissão para fazer o acordo com a testemunha. – E a permissão foi concedida? – A promotoria não tinha alçada para negociar perdão. Tinha que pedir permissão judicial para negociar. – E a permissão judicial foi concedida? – Não deu tempo. A testemunha foi assassinada antes que pudesse assinar o acordo de colaboração. – E quem era essa testemunha? – Era o soldado Cirineu, a quinta testemunha desta ação, um dos que prenderam o réu. – Por isso o senhor está aqui, eu suponho. – Sim senhor. – E esse soldado Cirineu revelou o que sabia sobre esta ação penal? – Sim. Ele disse que havia cometido uma grande injustiça para com o réu. – E que injustiça foi essa? 294


O Cristo da Periferia – Ele contou que foi contratado, juntamente com os outros quatro soldados, para prender o réu com um flagrante preparado. – Seria um depoimento contra os quatro que temos. Nem que o soldado Cirineu estivesse vivo conseguiria impor sua versão à dos outros. – Também pensamos isso. Com as informações prévias, pedimos quebra do sigilo bancário e telefônico dos outros soldados. – E o que descobriram? – Através das conversas telefônicas chegamos a um delegado de polícia, que espantosamente tratava os militares como subordinados. – Mas descobriram algum crime nisso? – Sim. Descobrimos que as informações do soldado Cirineu tinham fundamento. – Eu não entendi direito. O senhor pode explicar melhor? – Sim. O soldado havia dito que foi ele que visitou o réu no hospital. Ao contrário do que imaginávamos, não foi lá para ameaçar o réu, mas para torturá-lo e matá-lo. – Mas por que torturaria o réu? O queria saber? – A prisão era para desacreditar o réu, porque ele estava fazendo acusações sérias contra a polícia. Mas o delegado queria saber quem era a testemunha que o réu escondia. Então Cirineu foi contratado para ir ao hospital, arrancar o nome e paradeiro da testemunha 295


Jocelino Freitas misteriosa. Obtida a informação, deveria matar o réu. – E por que não o fez? – O soldado relatou, emocionado, que um milagre ocorreu naquele dia. – Milagre? O senhor há de convir comigo que essa história está ficando mirabolante. – Pois é. Essa foi uma parte do depoimento que não compreendemos. Reputamos a uma religiosidade momentânea do soldado, talvez uma crise tardia de consciência. – Entendo. Que milagre foi esse que salvou a vida do réu? – O soldado relatou que estava sofrendo de dores gástricas, em consequência de úlcera que o acometia desde muito antes. Com a tensão pelo ocorrido com o réu, estava sentindo muita dor. Quando tocou o réu a dor foi passando. O réu, com palavras sábias, disse que ele estava curado. A partir desse dia, resolveu mudar de vida. – Isso não ajuda, doutor. Dá a impressão de que esse soldado Cirineu sofreu uma crise psicótica, o que torna o seu depoimento suspeito e fantasioso. O senhor ainda não apresentou nenhuma prova consistente. – Tem razão Excelência, mas elas existem e já vou falar delas. – Então fale logo. Não temos o dia todo. – Como eu disse, não podíamos tomar medidas efetivas antes que o soldado Cirineu 296


O Cristo da Periferia assinasse o acordo de cooperação. Mas as escutas telefônicas continuaram revelando as relações estranhas entre os soldados e o delegado. Quando o soldado Cirineu decidiu romper com eles, começaram uma caçada por ele nesta cidade. Não podíamos protegê-lo oficialmente, mas nos colocamos à disposição para recebê-lo quando se sentisse em perigo. Naquela noite, contudo, ele não teve tempo de chegar à corregedoria. Interceptamos a ligação de um dos soldados avisando ao delegado que haviam encontrado o traidor. – Então vocês sabiam do crime antes dele acontecer? Por que não o impediram? – Quando o delegado recebeu a ligação, mandou que o levassem à delegacia. Imediatamente deslocamos nosso contingente para lá. Queríamos resgatar o soldado antes que algo pior acontecesse. Mas quando chegamos à delegacia fomos informados que o delegado havia saído sem dizer para onde iria. Começamos uma busca desesperada. O delegado não atendia o celular. Os soldados também não atendiam, pois não estavam em serviço e não tinham obrigação de atender telefonema do quartel, de onde eram geradas as chamadas, para não levantar suspeita. Finalmente um deles atendeu o celular. Um colega falou com ele como se quisesse contar alguma fofoca do quartel. Acabamos descobrindo que estavam na cidade industrial, mas já estavam voltando. Alguns minutos depois os carros em que estavam foram vistos, mas o soldado Cirineu já não estava com eles. Não tivemos outra alternativa senão interceptar os 297


Jocelino Freitas veículos e deter todos eles. Foram recolhidos ao quartel da polícia, cada qual numa sala separada. Enquanto os interrogávamos as outras equipes vasculhavam a cidade industrial em busca do soldado Cirineu. Todos foram muito resistentes ao interrogatório, mas havia contradições. Um telefonema pela manhã confirmou nossos temores. Um guardião havia visto dois carros entrando na fábrica abandonada. Ouviu barulhos que pareciam tiros, mas disparados com abafadores de som, o que o deixou em dúvida. Quando amanheceu foi até lá e encontrou o corpo de nossa testemunha. Conhecendo essa informação e juntando-a às demais que tínhamos, conseguimos obter a confissão de um dos detidos. Depois dele os outros foram confessando, um a um, com exceção do delegado. Este só confessou no dia de ontem. Acabou confessando, também, o crime cometido contra Emanuel da Silva, o Cristo da periferia. Apontou os mandantes, três líderes religiosos. Com todos os depoimentos pedimos a prisão temporária dos religiosos. O juiz da terceira vara criminal concedeu e os mandados foram cumpridos na manhã de hoje. – Realmente, o senhor tem provas incontestáveis. Senhor Promotor, tem alguma pergunta? – Não, Excelência. – Senhor pergunta?

advogado

de

defesa,

tem

– Pode prolatar a sentença agora? – respondeu o Dr. Álvaro, que ainda não havia dito nada naquela audiência. 298


O Cristo da Periferia – Para a testemunha, doutor! – advertiu o juiz. – E precisa perguntar mais alguma coisa? – remendou meu valoroso defensor. – Foi isso que eu lhe perguntei. O senhor quer perguntar mais alguma coisa à testemunha? – Eu não. Quero mais é que o senhor sentença logo, que eu já estou com fome. um pão-de-queijo delicioso na lanchonete ao lado do fórum. Quero levar o réu experimentar.

dê a Tem aqui para

– Contenha-se, doutor. Ainda não sentenciei. Concedo a palavra ao Promotor de Justiça para suas alegações finais. – Meritíssimo! Diante da prova irrefutável dos autos, esta promotoria requer a absolvição do réu em relação aos delitos relatados na denúncia. – O defensor tem a palavra para suas alegações finais. – Nunca se deixe levar pela impressão inicial! – As suas alegações, doutor! – cobrou o juiz. – Estamos dispensando suas máximas filosóficas. – Eu estou alegando, não percebeu? O réu chegou aqui como criminoso e era inocente. Passou três meses preso. Vai pedir desculpas a ele? 299


Jocelino Freitas – Vamos acabar logo com isso antes que eu mande prender o advogado no lugar do réu. Aceito isso como alegações finais. Diante da prova produzida e do pedido do promotor de justiça, absolvo o réu de todas as acusações, determinando que seja posto imediatamente em liberdade.

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O Cristo da Periferia

58 Saí do fórum acompanhado do Dr. Álvaro. Nem sabia direito o que fazer ou para onde ir. Era época de Natal, tempo de recordar o nascimento de Jesus Cristo. A esperança de uma vida nova em cada coração. Eu entendia isso como ninguém naquele momento, pois minha vida acabara de recomeçar. A cidade estava toda decorada e o lusco-fusco do fim de tarde já permitia ver as luzes que iluminavam as fachadas de algumas casas e prédios. Quase esqueci como era bom estar livre. Meu defensor me ofereceu uma carona. – O senhor comprou um carro? Na primeira audiência disse que se atrasou por causa do ônibus. – Na verdade eu disse que atrasei por causa do “trânsito” e que da próxima vez tomaria um “ônibus” mais cedo. Não falei que vim de ônibus. Eu só quis aborrecer o juiz. Juízes precisam fazer exercício de humildade de vez em quando, pois recebem o poder de julgar as atitudes de seus semelhantes. Por isso alguns se acham mais importantes que as pessoas comuns. Estão acostumados a ver advogados posudos e cheios de palavras 301


Jocelino Freitas difíceis. Então eu os desafio a dizer que não posso ser simples e objetivo. Passamos na lanchonete vizinha e ele comprou alguns pães-de-queijo, que fomos comendo enquanto me levava à casa de meus pais. Foram as primeiras pessoas que eu quis abraçar. Depois da prisão de meus perseguidores, Graça e Bruno poderiam voltar para casa e eu queria enchê-los de beijos. Estava com muita saudade deles. A vontade era de subir num avião e ir ao encontro de minha mulher e filho. O carro do Dr. Álvaro, para minha surpresa, não era um carro simples como supus. Era um Ômega novinho em folha, com vidros escurecidos, que ele parou num estacionamento a duas quadras. O estranho era que havia um estacionamento em frente ao fórum. – Não gosto que vejam meu carro. Prefiro que pensem que não tenho – justificou sem que eu tivesse perguntado, provavelmente adivinhando meu pensamento. – Desculpe se me espanto – falei – mas as pessoas costumam gostar de mostrar seu sucesso. Por que esconder um carro tão bonito e caro? – Porque desviando os olhos de mim, os juízes olham para os réus. Eu sou apenas o mensageiro; eles são a mensagem – as palavras me surpreenderam, pois eram de outra pessoa. Será que ele conhecia?... De repente a fisionomia do Dr. Álvaro começou a se transformar. Suas feições foram 302


O Cristo da Periferia mudando, seus cabelos alisando, sua barba encolhendo, seu nariz afilando, seus olhos mudando de cor e a pele clareando. Em poucos segundos quem estava dirigindo o carro era Emanuel. Arregalei os olhos, surpreso e espantado com o que via. Ele sorria, naturalmente, como se nada de espantoso tivesse acontecido. – Então era você o tempo todo? – Eu nunca saí do seu lado, meu amigo. – Mas se você tem tantos poderes, se tem tantos recursos, por que precisou de mim? – Na verdade foi você que precisou de mim. – Como assim? -Para descobrir o que aconteceu comigo você estava trilhando um caminho perigoso. Então precisou ser afastado, para sua própria segurança. – Segurança? Está dizendo que tudo o que passei nos últimos meses não foi perigoso? – Estou falando da segurança da alma. Fisicamente você sofreu, mas só o que podia suportar. Sua alma é que estava em perigo, pois pensou que podia resolver tudo sem ajuda. Você enfrentou problemas crônicos do Mundo e nem aceitou ajuda. Dispensou até o anjo que foi mandado para guardá-lo: o segurança que seu sogro contratou. Então foi preciso enviar um pelotão de anjos: o delegado que o visitou no hospital, o corregedor Antonio, o soldado Cirineu, o Lázaro, o Carioca, o diretor da prisão 303


Jocelino Freitas provisória. Cada um deles, a seu tempo e a seu modo, protegeu você e intercedeu em seu favor. – Como é que bandidos podem ser anjos? – Não são anjos em tempo integral. Só foram usados para fazer a vontade do Mundo. – Mas por que o Mundo permite que os problemas crônicos, que você falou, existam? – Porque ainda não chegou o dia em que eles vão acabar. Cada coisa tem o seu tempo e você tem que aceitar isso. – E eu só precisei ficar calado. O mundo resolveu tudo sem que eu fizesse nada. – Deus não escolhe os preparados, mas prepara os escolhidos. Percebeu que tudo aconteceu na hora certa? Você até fez milagres, São Paulo! – piscou. – E por que eu fui escolhido para fazer aqueles milagres? Por que passei por tantas experiências? – Você é um homem de sucesso, um iluminado. Um dia será herdeiro de uma grande fortuna. O mundo quis que você vivenciasse o outro lado, que experimentasse a instabilidade da vida. – Mas precisava mandar só uns sinais?

tanto?

Não

dava

pra

Emanuel soltou uma gargalhada. – Você continua sendo muito espontâneo. É isso que impressiona em seu caráter. O Mundo não gosta de dar lições triviais, dessas que você aprende em qualquer almanaque. Você é alguém 304


O Cristo da Periferia muito especial e merecia conviver com os sinais, ouvir a vontade do Mundo. De quebra ainda teve muita gente que recebeu lição de vida através de você. – Emanuel, tenho pergunta: Você é Jesus?

que

repetir

essa

– Todos nós somos um pouco de Jesus. Ele renasce a cada dia nos cortiços, nas mansões, em todos os cantos deste planeta. – Mas você – insisti – tem muito mais de Jesus do que qualquer outra pessoa. – Eu tive a sorte de receber e compreender os sinais. Essa compreensão fez de mim um emissário do mundo. Tudo o que aprendi me libertou do corpo, da vida, enfim, das armadilhas humanas. – Então você morreu? – Nunca morre quem conhece o sentido da vida. – E qual é o sentido da vida? – Não descobriu ainda? – perguntou. – Então terá que viver um pouco mais para perceber – disse sorrindo. – Desde que não tenha que passar por tudo de novo – brinquei. – Fique tranquilo – sorriu. – Você já aprendeu esta lição. Receberá outras. Por isso é preciso estar atento aos sinais que o mundo mandará. Mas nunca se esqueça que você não é dono de nada. Se tiver algum bem, será porque o Mundo quer que tenha. Se não tiver, resigne305


Jocelino Freitas se, tenha paciência, siga os sinais. Não vá contra eles se não quiser quebrar a cara. – Ainda vou te ver? – perguntei quando ele estacionou em frente à casa de meus pais, sem que eu tivesse indicado o caminho. – Verá sim. Eu estarei em cada rosto, em cada esquina, em cada pessoa que cruzar o seu caminho. Ajude-os e estará me ajudando. Cuide deles e estará cuidando de mim. Dê-lhes roupa e comida e estará me vestindo e alimentando. – Você conheceu Jesus? – perguntei ao apertar sua mão, já fora do carro. – Melhor que isso! Você o conheceu! – respondeu antes de arrancar com o belo Ômega e desaparecer como num passe de mágica.

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O Cristo da Periferia