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A INTERPRETAÇÃO DE LEONARDO

Se algo há de mais evidente na obra de Leonardo é a variedade de seus interesses e o brilhantismo que dedicou a cada um deles, individualmente. Sua obra, no conjunto, extrapola disciplinas isoladas. Foi pintor, escultor, engenheiro, arquiteto, físico, biólogo e filósofo, contribuindo qualitativamente nestas áreas do conhecimento. Transborda de interesses sua obra ao pesquisador contemporâneo, como uma luz do passado brilhando no presente. No entanto, não há como inteirar-se dele, humano como foi. Não há como resgatar, empaticamente, o cerne vital de seu sentimentos. A luz de seu íntimo apagou-se para nós no momento de sua morte. Dele, do universo que foi seu espírito, há, para nós, “apenas" o que é mediado pela obra que deixou. Do seu alcance espiritual resta-nos nada além que o revelado na "Monalisa", na "Santa Ceia" ou no "São João". Da sua curiosidade científica somente o que apreendemos nos inúmeros tratados e estudos sobre anatomia e física. Da inventividade genial, do engenho assombroso, nada mais do que se vê, por exemplo, em uma exposição como esta da IBM.

Leonardo e o signo Este é o ponto de cisão, em que a perspectiva semioticista se afasta do historicismo clássico e se projeta como um método historiográfico, duplamente válido pelo rigor de abordagem e pela riqueza de desdobramentos. O que nos resta de Leonardo, quer queiramos ou não, é esse multifacetado e rico legado. É através desta benjaminiana constelação de obras, desse emaranhado objetivo, que se pode entreolhar Leonardo. Mas, não vê-lo como indivíduo que foi, mas como ele se mostra, ou melhor, como suas obras o representam, mediam. Não se vê mais Leonardo, mas o Leonardo. Suas obras, como signos, apontam para além delas próprias, alguém que nem mesmo existe entre nós. Ao invés de personalista, a análise semiótica - que vê as obras como signos - desvela um outro signo - um interpretante mental - que é a imagem que temos, hoje, de Leonardo.

História das interpretações São quase 500 anos de acumulação de interpretações e análises, desde a morte de Leonardo. Análise refutando análise, interpretação ampliando interpretação. A diferença reside em que, enquanto o historicista pretende um passado fidedignamente descrito em suas análises, o semiota sabe que esse mesmo passado só existe, para nós, através destas mediações. Numa metáfora, enquanto o garimpeiro historicista espera, lançando sua peneira n'água, retirar a pepita da verdade no fundo do rio, o semiota sabe que, no rio da

Texto de João Werner


história, apenas outras peneiras serão encontradas. Ao invés de lançá-las fora, o semioticista observa se, em algumas das peneiras pescadas, não encontra o ouro embutido na sua construção. A cada nova faceta do gênio revelada em alguma pesquisa, não importa, apenas, o "quem foi Leonardo". Importa, antes, o quanto e como uma nova interpretação vem se somar ao conjunto de nossas interpretações. Importa relacionar esta nova interpretação com o signo Leonardo, com o contexto das outras interpretações possíveis, e, também, com o contexto interpretativo daquele que lançou a nova idéia. Cabe também perguntar: por que este garimpeiro lançou aqui sua peneira e não lá, no rio da História? Esta belíssima exposição que a IBM traz a Londrina é uma destas peneiras lançadas à história. Não se engane o espectador, Leonardo lá não estará. No entanto será possível compreender, abandonadas as expectativas historicistas, uma importante ótica da obra de Leonardo. Em um mundo em que a tecnologia e cientificismo têm colorido a filosofia moderna como uma paradigma, esta exposição vem acrescentar ao signo Leonardo mais este significado: o assombro de seu gênio antecipador.

Texto de João Werner


A interpretação de Leonardo