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O Peso das Coisas Exposição Coletiva de Escultura Portuguesa


Artistas convidados:

Ana João Almeida José Aurélio Rita Cabrita Sérgio Carronha Marta Castelo Constança Clara Thierry Ferreira Virgínia Fróis Luis Qual João Rolaça De Almeida e Silva Inês Teles Curadoria: João Rolaça Apoios: Centro Cultural do Cartaxo Mosaico – Associação Cultural do Cartaxo JMFernandes


Agradecimentos Agradeço a todos os artistas pela sua disponibilidade e cooperação na realização desta exposição. Saúdo o Centro Cultural Município do Cartaxo nas pessoas de Marco Guerra, Carlos Ouro, Maria Carlota Lomba, Salomé Monteiro, Fátima e Leonor. Especial agradecimento também a Luísa Salvador pela sua colaboração com o belíssimo texto deste catálogo. Obrigado a Catarina Gaspar e Francisco Costa pela sua ajuda na instalação da exposição. Obrigado JMFernandes, Vidreira da Lapa, pelo vosso apoio. Agradeço também às entidades que colaboraram na divulgação da exposição: Rádio Cartaxo, Revista Dada, Jornal O Mirante, Jornal O Ribatejo e RTP1.

João Rolaça


Para a Maria


O Peso das Coisas Esta exposição desenvolve-se a partir da vontade de reunir um grupo heterogéneo de artistas, que se relaciona pelo recurso ao trabalho tridimensional na sua criação artística. Pretende-se questionar o que é a prática da Escultura nos dias de hoje. Que matérias usam os escultores contemporâneos? Será a utilização de determinados materiais, mais ou menos convencionais que faz de um objecto final uma Escultura? Que relações estabelecem estas propostas artísticas com o espaço já existente? Como é que os artistas pensam o espaço? Que ideias exploram estes autores e que cruzamentos podemos estabelecer entre eles? Em O Peso das Coisas a multiplicidade de abordagens à Escultura, a adaptação das peças ao espaço do Centro Cultural do Cartaxo e os materiais utilizados é imensa e diversificada. Os artistas foram convidados a desenvolver e apresentar obras de larga escala, sitespecific, quando possível, tendo total liberdade criativa. O resultado é uma exposição que apela a todos os sentidos, criando na sua globalidade uma experiência


verdadeiramente escultórica, isto é, que desperta o corpo do espetador relativamente às obras e ao próprio edifício do CCC, tornando possível uma percepção renovada da vivência que se faz neste lugar. João Rolaça

Artista e Curador da exposição


A propósito  d’ “O Peso das Coisas” Luísa Salvador

Novembro 2013 | Janeiro 2014

A exposição “O Peso das Coisas”, desenvolvida para o Centro Cultural do Cartaxo, conta com obras de Ana João Almeida, José Aurélio, Rita Cabrita, Sérgio Carronha, Marta Castelo, Constança Clara, Thierry Ferreira, Virgínia Fróis, Luís Qual, João Rolaça, De Almeida e Silva e Inês Teles. Percorrendo o espaço expositivo, damo-nos conta da multiplicidade de abordagens feitas à prática escultórica. Encontram-se trabalhos suspensos pelo tecto e pela escadaria, desafiando a força gravítica, outros apropriando-se das várias paredes do espaço arquitectónico, alguns com um carácter mais objectual e menores dimensões, outros


explorando a relação directa com a frente de rua que o grande envidraçado da fachada principal do edíficio potencia. “O Peso das Coisas” detém um carácter quasipedagógico sobre o que pode ser considerado como Escultura, actualmente. A multiplicidade de abordagens artísticas feitas em torno da Escultura, presentes, evidencia como esta está em constante redefinição. Uma definição convencional é a de que Escultura é a arte de esculpir; obra esculpida; estatuária; uma das artes plásticas cujo meio de expressão é o volume e a forma¹. A verdade é que já não conseguimos definir Escultura. O termo tornou-se muito abrangente. E este não é um fenómeno recente. Podemos atestar que há características comuns à maioria das obras expostas em “O Peso das Coisas” tais como a Escala, a Proporção, a Forma e Massa – todas qualidades físicas. A Escultura trabalha com o campo do objectivo, com a realidade tangível a que se quer reportar e à qual vai responder. A Escultura está vinculada a questões concretas: Espaço, Luz e Materiais.


A Escultura tem uma natureza táctil. A Escultura ocupa espaço. A Escultura confronta a gravidade. Dimensão. A Escultura é regida por uma lógica interna própria. Até ao século XX, regeu-se por um conjunto de princípios como a de se afirmar como monumento, utilizar uma linguagem simbólica, marcando um lugar específico. O pedestal era uma parte importante da própria Escultura, servindo de intermediário entre o real e o representado, entre o homem e a linguagem simbólica a que esta se reportava. Durante muitos séculos da História Ocidental a Escultura reportava-se a esta lógica interna com leis próprias. A convenção e as suas leis no entanto não são imutáveis e chegou uma altura, já no século XIX, em que se iniciou um desvanecimento da lógica do monumento, com as obras de Auguste Rodin. Este escultor, além de renunciar à lógica do pedestal, tinha diversas cópias das suas obras em lugares diferentes, rompendo assim com a ideia de originalidade e unicidade da obra escultórica e, também, com a especificidade do lugar a que esta pertencia. Os projectos escultóricos desenvolvidos ao


longo do século XX seguiram este rumo. Acentuado este efeito na modernidade, em que a Escultura se tornou auto-referencial, tornou-se também condição negativa do monumento, caracterizando-se em função daquilo que não era e assim tornando-se umacombinação de exclusões. A combinação de exclusões das características télicas da Escultura foi objecto de atenção, de alguns artistas, a partir dos anos 60. O campo das acções artísticas tornou-se um campo expandido, segundo Rosalind Krauss, reduzindo-se à problematização deste conjunto de oposições: “A escultura é apenas um termo na periferia do campo, há.” outras possibilidades estruturadas de maneiras diferentes As obras de arte realizadas na segunda metade do século XX e, mais precisamente, nas décadas de 60 e 70, iniciaram a expansão para variados campos de acção. Assim, termos como Pintura e Escultura deixaram de ser estanques e as suas categorias clássicas foram amassadas, esticadas e retorcidas para fazer “referência a qualquer coisa”, como apontou Rosalind Krauss.

Alguns artistas compreenderam as potencialidades de trabalhar e conceber este campo expandido. Morris, Smithson, Heizer, Irwin, LeWitt e Nauman criaram situações que não se podem apelidar de


“modernas”, mas às quais por se constituírem com uma ruptura histórica e uma alteração no conceito de Escultura, ao nível da sua estrutura, Krauss aplicará o termo de “pós-modernidade”. As obras evidenciam por si só essa ruptura com a carga histórica inerente ao termo. Manipulação física de lugares, como as obras de Heizer, ou a sinalização de lugares pela via da fotografia, como os Yucatan Mirror Displacements de Smithson, e as intervenções no espaço construído da Arquitectura através do desenho, a sua reconstrução parcial ou uso de espelhos, asseguram e legitimam o termo “campo expandido”. A própria prática artística deixou de se referir a um só meio de especialização, encontrando-se os artistas a ocupar lugares diferentes, sucessivamente, neste “campo expandido”, experimentando novos meios de produção. Assim, com a pós-modernidade, a prática não se define por relação a uma só via, como a da Escultura, mas sim através de muitas outras operações lógicas sobre meios mais abrangentes, que cruzam diferentes áreas. Tal como se podem utilizar diferentes meios, também o artista pode ocupar posições diversas através do campo do seu trabalho. Esta noção de campo expandido é muito recente no discurso da História da Arte. Rosalind Krauss, influenciada pelo projecto pósestruturalista de Roland Barthes, entendeu que existe


uma noção de historicidade vinculada aos próprios conceitos que, por serem parte integrante de um sistema num determinado momento, têm essa componente histórica inerente. Em “Sculpture in the Expanded Field”, a autora demonstra, que tudo o que abarca a Escultura tem uma carga que não é nem neutra nem vazia, tendo pelo contrário, sido melhorada e consolidada pelo próprio tempo histórico. Rosalind Krauss tentou libertar a Escultura da carga histórica que lhe estava associada, substituindo o termo “Escultura” pelo termo “campo expandido”, atribuindo-lhe assim uma nova denominação, não existente até então. A obra, ou objecto de referência, ganha então um carácter de estrutura, completamente liberto da carga do passado, podendo transitar para outros campos, por ser autónoma. A questão desta concepção de “campo expandido” de Krauss é que, provavelmente, a autora não imaginava que o termo fosse de tal forma utilizado nos discursos referentes às artes plásticas, a partir dos anos 70, que se tornou ele próprio uma construção histórica do discurso sobre as artes plásticas e, nomeadamente, sobre a Escultura. O ideal de Krauss, de libertar a Escultura do seu vínculo utilização de termos por estes terem


clássico e histórico, criando o termo “campo expandido”, falhou. Talvez a solução esteja mesmo no emprego da palavra “Coisa”, tal como foi utilizado no título da exposição no Centro Cultural do Cartaxo: “O Peso das Coisas”. Ao contrário do projecto pós-estruturalista de Barthes, que defendia a não uma carga histórica associada, talvez possamos apropriar-nos de um termo que assimile a carga histórica associada à Escultura – a Coisa, desvinculando o termo Escultura de séculos de tradição: Coisa é tudo o que existe ou pode existir real ou abstractamente; qualquer objecto inanimado (…). Luísa Salvador

Artista e Doutoranda em História da Arte

1 Costa, J. Almeida; Melo, A. Sampaio, Dicionário da Língua Portuguesa. 6ª edição. Porto: Porto Editora, s.d. 2 Krauss, Rosalind, “Sculpture in the Expanded Field”, Passages in Modern Sculpture, MIT Press, Cambridge, Massachusetts, 1978.


Vista da exposição.


D.A.E.S. (De Almeida e Silva). Milka für Alle. Madeira, cactos, tela, poster e óleo, metal. 200 x 30 x 90. 2013


José Aurélio. Ampulheta de Mim I. Aço. 300 x 65 x 65 cm. 2007


Marta Castelo. Sem Título –O Peso das Coisas. Argila, cerâmica e água. 357 x 42 cm. 2013


Vista da exposição.


Constança Clara. Sem título. Técnica mista. 220 x 160 cm. 2013


João Rolaça. Kastalian. Água de Delfos, garrafa, vidro, espelho. 135 x 30 x 30 cm.  2013


Luís Qual. Resistência. Cana policromada. 13,6 x 1,55 x 1,55 m. 2013


Inês Teles. Floating Shape. Pintura sobre papel em suporte metálico. 150x125x30cm, 2013.


Thierry Ferreira. Casa Estore I. 185 x 140 x 3. Plástico. 2010


Primeiro plano: Thierry Ferreira. Estrutura I. Madeira. Dimensões variáveis. 2013


Vista da exposição


Virgínia Fróis. Dois Discos. Cera virgem, chumbo, ferro, cabo de aço e giz. Instalação site-specific. 2013


Inês Teles. Pinturas de Revolução. Óleo s/ papel. Dimensões variadas. 2013


Rita Cabrita. Netwørk. Farrapos. Instalação site-specific. 2013


Sérgio Carronha. Formas à luz do Sol. Barro s/ vidro. Instalação site-specific. 2013


João Rolaça. Entre . Gesso, madeira e tinta. 216 x 74 x 74 cm. 2013


Ana João Almeida. Assim na Terra como no Céu. Cerâmica, madeira, terra e plantas. Dimensões variáveis. 2013


Ana João Almeida Nasceu em Lisboa, 1986 Licenciada em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa www.anajoaoalmeida.com José Aurélio Nasceu em Alcobaça em 1938 Numerosas exposições individuais e colectivas. Numerosos prémios nacionais e internacionais. Representado em museus e colecções particulares, nacionais e internacionais. www.armazemdasartes.pt Rita Cabrita Nasceu em Lisboa em 1984 Licenciada em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa Algumas exposições individuais e colectivas. www.ritacabrita.com www.facebook.com/Networkcabrita


Sérgio Carronha Nasceu em Cascais em 1984 Apanha uma pedra. Atribui-lhe valor. Espaço Arte Tranquilidade, Lisboa, 2013 Os seres sensíveis nos mundos da forma e nos mundos do desejo, Espaço Parkour, Lisboa, 2012 www.sergiocarronha.com Marta Castelo Nasceu em Lisboa em 1980 Doutoranda na especialidade de Escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e licenciada pela mesma instituição. Desenvolve a sua actividade entre a Escultura e a Fotografia tendo realizado diversas exposições das quais se destaca a exposição e o livro de artista intitulado Papel, 2012 martarncastelo@hotmail.com Constança Clara Nasceu em Lisboa em 1986 Pós-graduação em Artes Plásticas pela Central Saint Martins, Londres Licenciada em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa constancaclara@gmail.com


Thierry Ferreira Licenciado em Artes Plásticas pela ESAD, Caldas da Rainha em 2009 Numerosas exposições colectivas e individuais, assim como prémios em Portugal e no estrangeiro. www.thierryferreira.com Virgínia Fróis A sua prática interliga três vertentes essenciais no seu percurso: a criação artística, o ensino e a animação cultural, valorizando as questões do património e dos saberes tradicionais. Fundadora das Oficinas do Convento, Montemor-oNovo. Actualmente desenvolve o projecto Ressonânias no Brasil. http://projetoressonancias.blogspot.pt Luís Qual Nasceu em 1969 Trabalha com técnicas diversas e em diferentes materiais, como a cerâmica, a madeira, a pedra, o ferro e o bronze. As suas esculturas fazem parte do espólio de várias entidades portuguesas e estrangeiras. oficinaluisqual.blogspot.com/


João Rolaça Nasceu em Santarém em 1988 Mestrado em Artes Plásticas pela Central Saint Martins, Londres Licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas Artes www.joaorolaca.com D. A. E. S. (De Almeida e Silva) www.facebook.com/dealmeidaesilva Inês Teles  Mestrado em Pintura na Slade School of Fine Arts, Londres Pós-Graduação em Artes Plásticas na Byam Shaw School of Arts Licenciatura em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa Numerosas exposições coletivas, individuais, residências e publicações em Portugal e no estrangeiro. http://cargocollective.com/inesteles


Catálogo o peso das coisas  

Patente do Centro Cultural do Cartaxo de 09 de Novembro '13 a 19 de Janeiro de '14

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