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TELEMILÊNIO

QUEM DISSE QUE NÃO TE ENTENDO?

Um webfilme de

JOÃO PAULO HERGESEL

Alumínio, SP 2018


CENA 01 – INT./DIA – SALA DE AULA

*Edu está em companhia de Claudinho e Belinha* EDU (OFF) – Um ainda me tratam por Eduardo, mas a maioria espalhafatosa chama só de Edu. PESSOA A – Edu, me ajuda na lição de astrofísica nuclear? PESSOA B – Edu, tem alface no seu nariz! PESSOA C – Edu, quer provar meu milk-shake de batata? PESSOA D – Edu, seu sobrenome é Cação? EDU (OFF) – Já estava acostumado com todo esse Edu daqui e Edu de lá, mas ainda me derretia quando o Edu vinha de acolá...

*Letícia chega na sala de aula e se dirige até ele* LETÍCIA – Edu... EDU – Oi, Lê... LETÍCIA – Cê tá com o pé no meu lugar. EDU (OFF) – Maior mancada do que apoiar o tênis sujo na cadeira da menina por quem se está apaixonado é a melhor amiga dela assistir à cena e soltar um... BELINHA – Se ficar a marca do tênis na sua calça, vão falar que ele te deu um pé na bunda! LETÍCIA – Belinha!!


BELINHA – A partir de hoje, não quero mais ser chamada de Belinha. Meu apelido oficial, ouçam bem, será Isa.

*Silêncio. Risada de Belinha* BELINHA – Zoeira, gente! Tá louco! Isa nem é nome de gente doida! LETÍCIA – Sem falar que Belinha combina mais com sua altura, né, amiga? CLAUDINHO – Se fosse pra combinar com o peso, teria que ser IsaBOLA, diz aí... BELINHA – Falando em bola, você tá querendo perder as suas, né? CLAUDINHO – Não tá mais aqui quem falou... Edu, chega aí!

*Claudinho arrasta Edu para um canto* EDU – Que foi, cara? CLAUDINHO – Tô a fim de uma mina. EDU – Espero que seja mina de ouro ou de carvão, senão não é novidade. CLAUDINHO – Credo! Falando assim parece até que sou galinha... EDU – Quem foi que beijou NOVE na festa de aniversário da Letícia, hein, senhor João Cláudio?! CLAUDINHO – Mas as amigas dela eram todas modelos... Dá um desconto! EDU – Você ficou com a minha prima no velório da minha mãe! CLAUDINHO – Aquilo realmente não foi muito legal... Mas agora o que tô sentindo é diferente...


EDU – Vai, fala logo. Quem é?

*Claudinho aponta com o olhar* EDU – A Belinha? CLAUDINHO – Claro que não! A Letícia! EDU (OFF) – Ele concretizou em palavras. Palavras de concreto. Palavras que desceram em avalanche, soterrando cada narciso do meu emocional. Palavras que desajustaram os parafusos de um sistema nervoso que lutava consigo próprio para se manter calmo. Palavras que, mais do que pareciam dizer, realmente diziam: “Viu só, trouxa? Não se declarou enquanto tinha tempo, agora sofre”. CLAUDINHO – Não vai dizer nada? EDU (OFF) – As palavras fugiram. Haviam se escondido debaixo do colchão do silêncio. Dentro da vontade de chorar, havia a vontade de matar e, dentro dessa vontade de matar, havia a vontade de rir.

*Edu sorri* EDU – Boa sorte!

*A professora de espanhol entra na sala* PROFESSORA – ¡Buenos días, chicos y chicas! Hoy vamos a leer un poema de Pablo Neruda... LETÍCIA (aos amigos) – É aquele cara que só falava de amor, né? CLAUDINHO – “Por eso te amo cuando no te amo y por eso te amo cuando te amo”.


*Edu joga a cabeça na carteira*

CENA 02 – EXT./DIA – PISCINA

*Edu está nadando* CRIS – Vai, Edu! Não perde o fôlego. Você consegue... E foi! EDU – E aí, Cris... Novo recorde? CRIS – Ainda pergunta? EDU – Méritos da treinadora. CRIS – Xi, sou peixe fora d’água. Seu esforço é que vai te dar o troféu do campeonato regional este ano. EDU – Prometo que vou intensificar a partir da próxima semana.

*Edu sai da água* CRIS – Edu, tem uma coisa meio chata que preciso te contar... EDU – O quê? Que você vai tirar férias? Por favor, só faça isso depois da competição... CRIS – Não é isso, não... É que a gerência do clube me pediu para conversar com você... EDU – Eu fiz alguma coisa errada? CRIS – As mensalidades das aulas... Já faz três meses que estão atrasadas.


EDU – Quê? CRIS – Veja bem... Por mim, isso não interfere em nada... Mas pode ser que o pessoal do financeiro queira barrar o seu acesso. EDU – Nossa... CRIS – Se você puder conversar com o seu pai... EDU – Sim, vou ver com ele o que tá acontecendo. CRIS – E desculpa pela notícia. EDU – Não, não... Tá tranquilo... Valeu por avisar!

*Claudinho se aproxima* CLAUDINHO – E aí, vambora?

CENA 03 – INT./DIA – CASA DE EDU

*Edu entra e se depara com sua tia Cecília* EDU – Tia Ciça? Que cê tá fazendo aqui? CIÇA – Isso é jeito de falar com sua tia mais próxima? EDU – Realmente é a mais próxima, porque depois que a tia Lola se mudou pra Argentina nunca mais deu as caras. CIÇA – Se Dolores, minha irmã, fosse sua vizinha, era capaz de não querer passar um tempo aqui cuidando de você.


EDU – Você vai passar um tempo aqui? CIÇA – Como assim? Seu pai não te contou? EDU – Não que eu me lembre... CIÇA – Ele fez uma viagem a trabalho. Sei lá quando volta. EDU – Então você não tem prazo pra ir embora? CIÇA – Isso não é ótimo?! Vamos poder nos divertir por bastante tempo. EDU – Mas e a Lurdinha?

*Lurdinha entra* LURDINHA – Me chamou? EDU – Credo! Você parece satanás! LURDINHA (irônica) – Isso feriu meus sentimentos. Estou morrendo lentamente por dentro. CIÇA – Agora parem vocês dois. Depois do almoço vocês brincam. Vamos comer que você tá muito magrinho! EDU – Na verdade, eu tenho uma dieta especial por causa da natação... LURDINHA – Falou a palavra proibida... CIÇA – Dieta é uma invenção dos espíritos malignos que assolam a sociedade corroendo os sentimentos felizes que a comida pode nos trazer... Mas fiz seu frango com batata doce.


CENA 04 – INT./NOITE – QUARTO DO EDU

*Edu tira a camiseta para dormir. Senta-se na cama e olha pela janela. Céu sem estrelas* EDU – Uma vez eu li numa revista que falar sozinho ajuda a organizar os pensamentos e põe mais confiança na gente mesmo... Parece que comigo não tem funcionado.

*Uma estrela aparece no céu* EDU – Que foi? Quer conversar? Conversar com estrelas parece uma loucura menor do que falar sozinho, né? Então: “Oi, eu sou o Edu”.

*Pausa* EDU – Minha mãe morreu já faz um ano e só agora as coisas começaram a se ajeitar. Mas parece que hoje tudo voltou a perder o sentido. Tô correndo o risco de ser cortado da natação, que é a coisa que mais me dá prazer, e meu pai simplesmente resolveu sumir por um tempo. Meu melhor amigo decidiu ficar a fim da menina que eu gosto e tem uma espinha nascendo num lugar tão esquisito que até usar sunga tá ficando doloroso. No fundo, só queria minha mãe agora...

*A estrela brilha* EDU – Dizem que a primeira estrela que aparece no céu à noite é capaz de realizar desejos, né? Isso é verdade? Se for, quero um beijo cinematográfico da Letícia amanhã.

*A estrela brilha* EDU – Quanta bobagem! Às vezes, nem eu me entendo...

*Edu se afasta da janela*


VOZ – Quem disse que não te entendo?

*Edu volta para a janela. Céu sem estrelas*

CENA 05 – INT./DIA – SALA DE AULA

*Edu está em companhia de Claudinho e Belinha* EDU – A Letícia tá atrasada de novo... BELINHA – Grande novidade! Sério, não sei o que ela fala pra convencer o porteiro a deixar ela entrar depois do horário. CLAUDINHO – Ela não precisa falar nada. Ela pode. BELINHA – Só porque ela desfila e modela pra uma grife, isso não faz dela a todopoderosa... EDU / CLAUDINHO (não concordando) – Err...

*Letícia chega* LETÍCIA – Gente, tenho novidades! BELINHA – Se for sobre seu desfile sábado, o universo inteiro já sabe. Você marcou todo mundo na postagem. LETÍCIA – Não é isso, não!

*Letícia olha pra Claudinho* LETÍCIA – Você ainda não contou nada, né?


CLAUDINHO – Prometi pra você que não ia contar. LETÍCIA – Quer contar agora ou eu conto? CLAUDINHO – Por que a gente não mostra? BELINHA – Mostrar o quê, gente?

*Letícia e Claudinho se beijam*

CENA 06 – INT./DIA – BANHEIRO MASCULINO

*Edu está chorando em uma das cabines. Alguém entra no banheiro* DUDA – Tá tudo bem aí? EDU – Tá, sim... DUDA – Olha, cara... Não sei quem é você, mas cê tá chorando... E eu já chorei muito nessa vida, e sei que isso só acontece quando a gente não tá bem. EDU – Você não vai poder me ajudar. DUDA – Posso pelo menos tentar?

*Edu abre a porta* EDU – Eu não conheço você, eu acho... DUDA – Cheguei esta semana na escola. Tô no terceiro. Você deve ser do primeiro ou do segundo... EDU – Primeiro.


DUDA – E o que é que um cara do primeiro ano faz chorando no banheiro? Não vai dizer que a Maestra Guadalupe resolveu passar algum drama latino e você se emocionou... EDU – Minha vida já é uma novela mexicana. DUDA – Fale mais... O que acontece nessa história? EDU – Ah, é que sei lá... É difícil falar dessas coisas... DUDA – Você tá gostando de uma menina e ela te deu o fora? EDU – Mais ou menos isso... Como você sabe? DUDA – Todo mundo passa por algo assim. E dói pra caramba. Mas quer saber o lado bom? A gente sobrevive. EDU – Tem manual pra sobrevivência? DUDA – Olha... Geralmente estar com os amigos é o melhor remédio. EDU – Isso vai ser um problema agora. Meu melhor amigo é justamente o cara que começou a namorar a tal menina. DUDA – Poxa, irmão! Que droga! EDU – Nem a Maestra Guadalupe deve conhecer tragédias do tipo. DUDA – Vamos fazer assim: a partir de agora, eu sou seu amigo, falou? E você vai me contar tudo que te faz mal... EDU – Mas eu nem te conheço...


DUDA – Eu também não conheço você... Já é algo em comum. EDU – Posso saber seu nome pelo menos? DUDA – Eduardo... Mas pode chamar de Duda. EDU –Você tá me zoando? DUDA – Você achou “Duda” tão ruim assim? Minha mãe me chama de Dudu, mas acho tão infantil. EDU – Não é isso... É que eu também sou Eduardo... Edu. DUDA – Legal... Prazer, xará!

*Duda sai. Edu recebe uma mensagem* EDU – Ué...

CENA 07 – EXT./DIA – PISCINA

*Edu vai à natação* CRIS – Que bom que você veio, Edu... EDU – Recebi sua mensagem, mas não entendi. Achei que o clube não me deixaria entrar até pagar as mensalidades em atraso... CRIS – Sim, mas elas já foram pagas. EDU – Como assim? Eu não consegui falar com meu pai sobre isso ainda. CRIS – O que importa é que não tem mais nenhuma dívida na sua matrícula.


EDU – Será que meu pai se lembrou e fez uma transferência bancária lá de “sabe-se lá onde ele está”? CRIS – Quem sabe?! Mas foca na natação. A competição tá chegando e quero ver o troféu de campeão nas suas mãos. EDU – Vamos trabalhar pra isso! CRIS – Então vai se trocar que a gente tá perdendo tempo.

*Edu sai*

CENA 08 – INT./NOITE – QUARTO DO EDU

*Edu está conversando com a estrela* EDU – Tô dizendo que alguma coisa muito estranha tá acontecendo. Por um lado, o Claudinho e a Letícia resolveram namorar de fato, e isso tá acabando comigo. Mas por outro lado, conheci um cara maneiro que parece ser um bom amigo.

*A estrela brilha* EDU – Eu preciso parar de conversar com estrelas. VOZ – Clarice. EDU – Quê? Quem é Clarice? É seu nome? LURDINHA – Edu... Tá falando sozinho? EDU – Ai, que susto, amostra grátis do capeta! Você não bate, não? Eu podia, sei lá, estar pelado.


LURDINHA – Eca! Quando for fazer isso, tranque a porta. EDU – Mas o que é que você quer? LURDINHA – Sei lá... Saber se tá tudo bem com você. Sei que a gente se vê pouco, mas continuo sendo sua prima... E você parece estranho. EDU – Você também é estranha, e eu não falo nada. LURDINHA – Não digo nesse sentido. Mas é que parece que tem muita tristeza em volta de você... EDU – Quê? Não. Não tá acontecendo nada. Aliás, até as mensalidades da natação, que estavam atrasadas, meu pai pagou hoje... LURDINHA – Seu pai? Mas ele nem tá aqui. EDU – Também não entendi direito isso. Acho que ele deve ter se lembrado e entrou em contato com o clube... LURDINHA – Isso não parece ser o perfil do tio Ricardo. EDU – Eu achei esquisito também. Mas se não foi ele, quem foi? LURDINHA – Não tem mais ninguém que faria isso por você? Que queira muito que você continue com as aulas? EDU – Cris... LURDINHA – Se eu fosse você, dava um jeito de agradecer. EDU – Mas como?


LURDINHA – Não tem nada que possa servir como presente? EDU – O desfile da Letícia! LURDINHA – Quê?

*Edu manda um áudio pelo celular* EDU – Oi, Cris! Tá a fim de ver um desfile de moda sábado?

CENA 09 – INT./NOITE – FAZENDA

*Cris e Edu chegam ao celeiro* CRIS – Quando você me chamou para um desfile de moda, pensei que seria no shopping ou em algum hotel. EDU – Acho que me esqueci de mencionar que era uma coleção de roupa country... CRIS – E agora só tem eu, toda com roupa de festa, no meio do mato. EDU – Desculpa. CRIS – Que nada! Adoro mato!

*Letícia passa nos bastidores* EDU – Eu já volto!

*Edu vai até Letícia* EDU – Ei, Lê!


LETÍCIA – Edu... Que bom que você veio. EDU – É pra isso que servem os amigos. LETÍCIA – Claudinho não veio com você, né? EDU – Não. Eu vim com a Cris, da natação. LETÍCIA – Ah, ainda bem! Não ia suportar ver aquele embuste na plateia. EDU – Ué, por quê? Ele não é seu namorado? LETÍCIA – A gente terminou. EDU – Quê? Sério? Digo... Mas tão rápido? LETÍCIA – Eu estive vendo as redes sociais dele... Acredita que ele já tuitou sobre toda modelo ser burra e coisa do tipo? EDU – Não creio... Verdade? Que cara idiota! LETÍCIA – A gente se engana com as pessoas. EDU – Mas logo você encontra um cara legal, que vai gostar de verdade de você. LETÍCIA – Agora eu quero fica um bom tempo sem compromisso, isso sim. EDU – Quem é que sabe do destino?

CENA 10 – INT./NOITE – CASA DO EDU

*Edu chega em casa. Tia Ciça está à sua espera, com um tablet na mão*


TIA CIÇA – Ai, que bom que você já chegou. EDU – Puxa, tia, não precisava ficar me esperando acordada. TIA CIÇA – Na verdade, eu tô preocupada. EDU – Eu já sei me virar bem fora de casa, não tem com o que se preocupar. TIA CIÇA – Não é isso, Edu... EDU – E então? TIA CIÇA – O seu pai... Ele foi pego pela polícia quando tentava fazer check-in no aeroporto. EDU – Como assim? Mas ele está bem? TIA CIÇA – Ele tinha alguns animais... peles de animais, não sei direito. EDU – Mas ele é contador. O que isso tem a ver com peles? TIA CIÇA – Era alguma coisa a ver com o novo negócio dele. EDU – Novo negócio?

*Tia Ciça mostra o tablet* TIA CIÇA – Saiu nos jornais agora à noite. Ele é traficante de animais. Está envolvido com comércio ilegal de casacos de pele.

*Edu senta*

*Indicação de dias se passando*


CENA 11 – INT./NOITE – QUARTO DO EDU

*Edu conversa com a estrela* EDU – Cara amiga estrela, dá pra acreditar que já faz um mês que meu pai foi preso? Tia Ciça praticamente não aguenta mais ficar por aqui e quer me levar para morar com ela, na capital. Mas não quero. Não posso. Minha vida está aqui. A escola, a natação, os amigos, tudo está aqui. A Letícia está aqui.

*A estrela brilha* EDU – Se minha mãe também estivesse aqui, seria bem diferente. VOZ – Elis.

*Edu se assusta e olha ao redor, como se procurasse o som* EDU – Ah, voltei a ouvir demais! Melhor eu dormir.

CENA 12 – INT./DIA – PÁTIO DO COLÉGIO

*Edu e Duda estão conversando* DUDA – E aí, cara? Já contou pra sua mina que tá a fim dela? EDU – Ainda não. Mas já tem quase um mês que venho fazendo a lição de casa dela. DUDA – Já falei que ela não vai perceber nada desse jeito... EDU – Mas eu não tenho coragem de chegar nela e dizer na cara. DUDA – Me conta logo quem ela é. Eu posso ajudar.


EDU – Jamais! Se eu contar, você vai nela e me entrega. DUDA – E a gente fica sabendo a resposta. EDU – Deixa que eu chego lá no meu tempo... DUDA – Você que sabe.

CENA 13 – INT./DIA – SALA DE AULA

*Belinha e Letícia estão cochichando e sorrindo. Edu percebe e tenta escutar a conversa, disfarçadamente* BELINHA – Amiga, para de negar que você tem um crush! LETÍCIA – Ah, Belinha! É que é complicado... Tá bom! Acho que talvez eu goste de um garoto aí... BELINHA – O nome dele começa com “Edu” e termina com “ardo”? LETÍCIA – Como é que você sabe, sua doida? BELINHA – Te conheço! E percebo que você se derrete com os mimos que ele te faz. LETÍCIA – Tá, mas não espalha, por favor! BELINHA – Chega logo nele! LETÍCIA – Preciso ter certeza de tudo, antes... Quem sabe ele não chega em mim primeiro?

*Edu se arregala*


CENA 14 – EXT./DIA – FRENTE DO COLÉGIO

*Edu, eufórico, corre atrás de Duda na saída* EDU – Duda! Duda! DUDA – Que foi, irmão? Ganhou na loteria? EDU – Agora eu sei: ela também gosta de mim. DUDA – Sério? Como você descobriu isso? EDU – Eu ouvi, sem querer, ela falando pra uma amiga. DUDA – Vai fazer o quê, agora? EDU – Eu tive uma ideia. O plano é o seguinte...

CENA 15 – EXT./DIA – PISCINA

*Edu está treinando. Pode haver momentos dele jogando água na Cris, fazendo exercícios na piscina, etc.* EDU (OFF) – Vou treinar o máximo que puder até o fim de semana, para vencer o campeonato de natação no sábado.

CENA 16 – INT./DIA – COLÉGIO

*Edu está falando com os amigos* EDU (OFF) – Vou chamar a escola toda para me ver levantar aquele troféu.


CENA 17 – EXT./DIA – IMAGINAÇÃO

*Edu está levantando o troféu, com uma medalha de ouro no pescoço* EDU (OFF) – Então, na hora do discurso, eu dedico o prêmio a ela.

CENA 18 – INT./NOITE – QUARTO DO EDU

*Edu está debruçado na janela, conversando com a estrela* EDU – Diz se não é a melhor prova de amor?!

CENA 19 – INT./DIA – CASA DO EDU

*Tia Ciça está tomando café e vê Edu agitado* TIA CIÇA – Não vai tomar café, Edu? Você não pode competir em jejum. EDU – Acordei mais cedo e já tomei. Nem consegui dormir direito, na verdade. TIA CIÇA – Tô percebendo. Parece que tem uma escola de samba desfilando dentro de você. Não sabia que a natação te deixava tão ansioso. EDU – A ansiedade hoje vai além da natação.

*Lurdinha aparece e joga um livro sobre a mesa* LURDINHA – Eu sou durona, mas essa Clarice Lispector, vou te falar... Mesmo com todo sentimentalismo, a gente percebe a força da mulher.


EDU – Clarice? *Flashback da cena em que a estrela pronuncia “Clarice” para Edu* EDU – Onde você achou esse livro, Lurdinha? É seu mesmo? LURDINHA – Peguei na sua estante. Nem você sabe os livros que tem? EDU – Na verdade, esses livros eram da minha mãe... TIA CIÇA – Grande Amélia! Honrava o nome e era uma mulher de verdade. E admirava as artistas mulheres... Clarice Lispector na literatura, Elis Regina na música... EDU – Elis? *Flashback da cena em que a estrela pronuncia “Elis” para Edu* TIA CIÇA – Tá tudo bem, Edu? EDU – Tia, acho que minha mãe virou uma estrela... literalmente. *Expressão de “aff, Edu!” no rosto de Tia Ciça*

CENA 20 – INT./DIA – VESTIÁRIO

*Edu está se trocando para a competição e Duda acompanha* DUDA – Muito ansioso, irmão? EDU – Coração a mil. DUDA – Já viu se ela tá na arquibancada?


EDU – Vi. Tá mais linda do que nunca. DUDA – Então, boa sorte, cara! E que tudo corra bem. EDU – Valeu por vir, aliás. DUDA – Que é isso?! Faz parte da função de amigo. E eu aproveitei para trazer minha nova namorada. Ela vai gostar de um evento romântico inesperado.

*Edu sorri*

CENA 21 – EXT./DIA – NATAÇÃO

*Os competidores estão na água. Foco na locução* LOCUTOR – O competidor da raia 5 vem se aproximando, mas ninguém segura o da raia 7. Vai dar atleta da casa... E... deu! Eduardo! É ouro!

*A arquibancada comemora. Cris pula na água*

CENA 22 – EXT./DIA – PÓDIO

*Edu carrega o troféu e a medalha, ao lado de Cris* CRIS – Como treinadora, só posso dizer que... Esse garoto consegue fazer essa professora de natação aqui se afogar em lágrimas...

*Aplausos* CRIS – Agora fala você, que eu não consigo mais.


EDU – Puxa, Cris! Eu só tenho a agradecer. Agradecer a você e à minha família e aos meus amigos, que sempre estão me apoiando de alguma forma. BELINHA (gritando) – É nóis, Edu! EDU – Antes de entregar o microfone, eu queria dedicar esse prêmio a uma pessoa especial.

*Na arquibancada, Duda faz sinal de positivo. Há uma garota desconhecida ao lado dele, a possível namorada. Letícia está próxima, com o olhar apaixonado* EDU – Esse prêmio, eu dedico àquela que... eu fico até tímido... mas que é o grande amor da minha vida.

*A plateia fica em polvorosa. Letícia cutuca Duda. Ele a abraça e ambos se beijam. Edu recolhe o sorriso e o transforma em uma expressão de decepção* CRIS – Fala logo! Quem é ela?

*Edu segura o choro* PLATEIA – Fala! Fala! Fala! EDU – Minha mãe. Minha saudosa mãe.

*Aplausos*

CENA 23 – INT./DIA – CARRO

*Edu, Lurdinha e Tia Ciça estão voltando para casa* TIA CIÇA – Grande prêmio, hein, Edu?! Parecia um peixe de verdade naquela piscina... Chuá, chuá... E que discurso!


LURDINHA – Arrepiou até o pelo da minha bunda. TIA CIÇA – Lurdinha! Isso não é coisa que se fala! Pede desculpa, já. LURDINHA (irônica) – Mil perdões. Estou tão profundamente arrependida. TIA CIÇA – Mas essa menina não tem jeito!

*Edu se mantém em silêncio* TIA CIÇA – Que foi, Edu? Peixe não fala? EDU – Tia, a mudança pra capital... continua de pé?

FIM

ROTEIRO: Quem disse que não te entendo?  

Roteiro para webfilme (curta-metragem) inspirado no livro "Quem disse que não te entendo?", de João Paulo Hergesel.

ROTEIRO: Quem disse que não te entendo?  

Roteiro para webfilme (curta-metragem) inspirado no livro "Quem disse que não te entendo?", de João Paulo Hergesel.

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