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As novas caras

de Fernando Pessoa Kentenich Batista e Pedro Henrique Vilella

Um grupo de jovens pesquisadores europeus e latino-americanos lança em Portugal vários inéditos do autor lisboeta. São poemas, contos, argumentos para cinema e ensaios sobre política.


Abertura

“Pessoa disse, certa vez, que o reconhecimento seria a memória futura. Claramente tinha a noção de sua genialidade”, aponta Vasco Silva, diretor do selo Babel, que nos últimos anos vem trazendo à tona muito texto desconhecido do autor. “Cerca de 30% do espólio segue inédito. Por diversas vezes, se pensou que o essencial da obra de Pessoa estivesse publicado, mas não está. Há material para décadas. Ele foi um trabalhador infatigável, e tratá-lo como poeta não é de todo correto. Afinal, escreveu até mais em prosa do que em poesia”, diz o publisher que, com orgulho, se apresenta como o editor que mais publicou Pessoa


O poeta no colo da mãe, em 1888, e aos 7 anos, em 1895. Ele era trilíngue - dominava português, o inglês e o francês.

No início dos anos 40, a Ática, dona do selo coordenado por Vasco Silva, foi a primeira casa a lançar versos do literato após sua morte. Ao longo das décadas seguintes, deu a conhecer a grandeza de heterônimos como Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Deste último editou, em 1982, o Livro do Desassossego. A obra, de prosa, demonstrou que, ao contrário do que se dizia, ainda havia muita riqueza de Pessoa a ser descoberta. Trata-se da mesma sensação que se tem hoje com as recentes publicações de inéditos. São poemas, ensaios sobre tradições portuguesas e sobre política, contos, correspondências amorosas e até argumentos de filmes. Um tesouro que as editoras brasileiras ainda não adquiriram.


Grafia incompreensível

Causa estranheza que, 77 anos depois da morte de um dos maiores poetas do século 20, continue existindo tanto material desconhecido. Uma das explicações possíveis é que a pesquisa dos documentos legados por Pessoa nunca foi fácil. Primeiro, porque os papéis estiveram espalhados durante décadas e quase inacessíveis à consulta. Depois, porque Pessoa anotava em qualquer lugar – muitas vezes uma mesma página trazia extratos de textos diferentes –, e compreender sua grafia, principalmente a do final da vida, é tarefa quase de detetive. Das cerca de 30 mil folhas encontradas nas duas arcas, a grande maioria se constitui de manuscritos, embora haja alguns textos datilografados. Não bastasse, o autor deixou centenas de projetos inconclusos, o que também dificulta a tarefa de ordenar o material. Escreveu sobre assuntos absolutamente diversos (filosofia, astrologia, ocultismo) e em três idiomas, já que nasceu em Lisboa, mas aos seis anos se mudou com a família para a África do Sul, onde foi alfabetizado em inglês. O francês, aprendeu quando adulto. Hoje, quase todo o seu espólio está digitalizado e já não é necessário pagar direitos autorais de nenhuma obra aos herdeiros. Daí terem surgido recentemente tantas publicações com inéditos de Pessoa. Um dos responsáveis, e talvez o maior deles, por tal advento é Jerônimo Pizarro, colombiano de 35 anos que dedicou os últimos dez a estudar o legado do autor, com a ajuda de bolsas científicas. Em suas pesquisas nos papéis deixados pelo poeta, acabou por conhecer outros investigadores, jovens como ele – e, na maioria, estrangeiros –, que vêm desenvolvendo estudos semelhantes. Graças ao suporte do selo Babel, o colombiano passou a coordenar o grupo e as publicações dos novos livros, sejam os que trazem textos do próprio Pessoa, sejam os que discorrem sobre ele e seus heterônimos. Por sinal, foi devido a Alberto Caeiro que Pizarro travou os primeiros contatos com o escritor português, ainda na Colômbia, há 15 anos. “Lembrome até hoje. Estava no gramado da universidade e tinha nas mãos um livro de poesia do Caeiro.”

À esquerda, o autor com 27 anos. À direita, em outro retrato famoso, caminhando por Lisboa.


‘‘O Jerônimo revelou-se essencial para juntar pessoas que são completamente diferentes e que, se não fosse por ele, provavelmente nunca trabalhariam juntas”, diz Patricio Ferrari, doutor em linguística de 37 anos. O argentino editou em 2010, ao lado de Pizarro, o livro Provérbios Portugueses, compilação inédita de 300 máximas que Pessoa reuniu e traduziu para o inglês entre 1913 e 1914.

Em fevereiro de 2003, após uma longa viagem à Índia, Ferrari – que morou por uma década nos Estados Unidos –fazia mestrado em literatura comparada na França quando, aconselhado pelo irmão, leu o poema Tabacaria, de Álvaro de Campos. Sentiu uma empatia tão profunda que, meses depois, desembarcou em Lisboa para continuar seus estudos, agora tendo como foco a poesia trilíngue de Pessoa. Caminho parecido seguiu o filósofo Antonio Cardiello, também de 37 anos. Em 1999, por recomendação de um amigo, o italiano de Padova leu o Livro do Desassossego. “Comecei a folhear uma versão traduzida numa livraria. Como não sabia quem era Pessoa, achei que estivesse vivo. Foi um amor cego. Não conseguia entender como um autor desconhecido internacionalmente podia ter escrito prosa tão linda e tão fecunda em termos filosóficos.” À semelhança dos outros dois pesquisadores, Cardiello chegou a Lisboa atraído pelo poeta e sem falar português. “Em 2006, conheci o Pizarro, que me levou à Biblioteca Nacional, onde está guardado o espólio. Até então, me parecia que Pessoa não passava de uma invenção, talvez do [Jorge Luis] Borges. Só tive certeza de que realmente existiu quando vi aquele material, com a caligrafia dele.” Cardiello e o colombiano editaram, em 2012, a antologia Prosa de Álvaro de Campos e desnudaram uma faceta inesperada do heterônimo que se dizia engenheiro.


Companheirismo “Quando se diz que cada pessoano quer o poeta só para si é verdade. Mas nossa geração procura ficar fora disso”, afirma Cardiello. Sob a ótica do italiano, a chave para estudar e editar Pessoa é ser humilde e não buscar sentenças conclusivas. “Todos nós corremos o risco de assumir uma posição definitiva em relação à Além da equipe ligada a Pizarro e do selo Babel, há obra e aos pensamentos dele, o que seria uma tolice. outros investigadores descobrindo novas caras do po- Pessoa nunca foi definitivo.” eta e outras editoras publicando materiais inéditos. Em 2012, a Assírio Alvim, por exemplo, lançou uma coletânea de contos de Pessoa e um livro com as cartas de amor trocadas entre ele e a namorada Ofélia. Não é casual, aliás, que sejam pesquisadores jovens e em sua maioria estrangeiros que estejam na vanguarda dos estudos pessoanos. Como se viu, para fazer um trabalho de qualidade a respeito do literato, é necessário debruçar-se sobre os milhares de papéis deixados por ele, tarefa que requer tempo e disciplina. Boa parte dos estrangeiros que chegou a Lisboa na década passada com o intuito de analisar o escritor tinha bolsas acadêmicas e podia se dedicar exclusivamente à pesquisa. “Curiosamente, não há vaidade entre nós. Pelo contrário, existe muito companheirismo. Um ajuda o outro, até mesmo a decifrar a caligrafia de Pessoa”, garante o espanhol Pablo Javier Pérez López, 29 anos, que descobriu “o poeta filósofo” numa visita a Portugal. Ele publicou recentemente na Espanha um livro sobre a filosofia na obra do lisboeta (Poesía, Ontología y Tragedia en Fernando Pessoa). Essa união de cérebros num projeto coletivo era algo até então raro nos estudos do autor português. Havia muita competição e desconfiança entre os investigadores, e cada um guardava suas descobertas como se fosse um segredo. Das esq. para a dir., Patricio Ferrari, Jerónimo Pizarro e Antonio Cardiello. Os três são responsavéis por muitas das novas descobertas sobre Fernando Pessoa.


“Sê plural como o universo!”, escreveu certa vez o autor, dando a pista de que não se deve buscar a unidade em sua obra e, sim, tratar de entendê-la como uma colcha de fragmentos Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. A tarefa é importante por dois motivos. Primeiro, porque, ao analisar minuciosamente a biblioteca, consegue-se decifrar o que o literato estava lendo enquanto escrevia determinados textos. Ou melhor: pode-se avaliar a influência de certos autores em sua obra. O segundo motivo deriva da peculiaridade de o escritor fazer muitas notas marginais em seus livros. Por isso, ao folheá-los, existe a chance de descobrir preciosidades. Foi o que aconteceu numa tarde de 2008, quando Cardiello se encontrava sozinho na Casa Fernando Pessoa, escarafunchando o livro Pioneer Humanists, de John M. Robertson. Na última página, se deparou com umas anotações. “Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito/ Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?”, diziam as primeiras linhas de uma poesia sem título de Alberto Caeiro. “Vi que se tratava de um poema completo, acabado, mas imaginei que o Jerônimo já o conhecia. Quando ele voltou do almoço e leu os versos, percebemos que estávamos diante de algo inédito. Foi um dia muito especial”, recorda o italiano. Depois de anos em Portugal, a legião estrangeira de pesquisadores começa se separar. Pérez Lopez regressou à Espanha. Pizarro voltou a Bogotá, onde é professor catedrático de literatura. Ferrari obteve uma bolsa de pós-doutorado e passará seu tempo entre Lisboa, Rhode Island e Estocolmo. Já Cardiello sonha em ir para o Brasil. “A situação na Europa está muito difícil. Aqui não acontece mais nada. O único país que pode seguir os passos de Portugal na tarefa de divulgar Fernando Pessoa é o Brasil.” O grupo se distancia geograficamente, mas tem claro que sua missão não terminou. “Ainda desconhecemos muito do que o Pessoa conhecia”, resume Pérez Lopez.


Box Título: Museu de grandes obras Sub-título: Sete livros que trazem inédito do autor - Cancioneiro - Mensagem - Poemas de Fernando Pessoa - Poemas Traduzidos - Primeiro Fausto - O Banqueiro Anarquista - O Eu profundo e os outros Eus Janela Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada coisa a Lua toda Brilha, porque alta vive. Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa)

Kentenich e pedro  
Kentenich e pedro  
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