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PORTEFÓLIO M magazine

Perfil/Entrevista Roberta e Roberto Medina Reportagem Fundação Champalimaud Roteiro Sintra Reportagem Clean Feed Records Reportagem de viagem Macau Perfil/Entrevista Malcolm Gladwell Reportagem de viagem Terras Altas escocesas Especial 25 motivos de orgulho em ser português


TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA LUÍS DE BARROS

PERFIL FALADO

A DOIS MESES DA QUARTA EDIÇÃO DO «MAIOR FESTIVAL DE ENTRETENIMENTO DO MUNDO» EM LISBOA, ROBERTA MEDINAFALA DAS SUAS ORIGENS, DA PAIXÃO POR PORTUGAL, DA FAMA INESPERADA E DOS MOTIVOS POR QUE FAZ AQUILO QUE FAZ — SEMPRE COM UM SORRISO CONTAGIANTE.

18.magazine

março/abril 2010


TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA LUÍS DE BARROS

PERFIL FALADO

A DOIS MESES DA QUARTA EDIÇÃO DO «MAIOR FESTIVAL DE ENTRETENIMENTO DO MUNDO» EM LISBOA, ROBERTA MEDINAFALA DAS SUAS ORIGENS, DA PAIXÃO POR PORTUGAL, DA FAMA INESPERADA E DOS MOTIVOS POR QUE FAZ AQUILO QUE FAZ — SEMPRE COM UM SORRISO CONTAGIANTE.

18.magazine

março/abril 2010


AR DE ROCK

PERFIL FALADO

A música é uma linguagem universal.» Roberta cresceu a

“GOSTO DE REALIZAR COISAS, TIRAR IDEIAS DO PAPEL, TRABALHAR COM COISAS QUE MEXAM COM A EMOÇÃO DAS PESSOAS.”

ouvir esta expressão, repetindo-a sem conhecer o seu verdadeiro significado. Até ao dia em que, sozinha num concerto de U2 em Los Angeles, mas rodeada por uma multidão, sentiu algo de inédito: «Quando a banda começou, estávamos todos cantando num único idioma, o da emoção.» Tinha 19 anos e, dentro de si, qualquer coisa acabara de mudar. Dois anos antes, ao passar com o pai pelo Barra Shopping, no Rio de Janeiro, deu sem saber o primeiro passo do seu percurso profissional: «A gente encontrou o gerente de marketing do “shopping” e eles dois começaram a falar da promoção dos “shows” da Disney para o Natal.» Roberta meteu-se na conversa dos adultos. «Eu adoro Disney, então comecei a dar palpites.» O gerente achou-lhe piada e convidou-a para trabalhar. «Acabei fazendo a ligação entre a equipa do marketing e a de promoção do evento e, desde esse dia, a minha função sempre foi a de ligação de peças.» Até conquistar o seu próprio espaço, não foi fácil viver à sombra de Roberto Medina. «Você fica pensando se existe, se as pessoas são simpáticas porque é filha ou porque é boa profissional.» Passou a ir para as reuniões de “tailleur” e óculos e a tratar o pai pelo nome. «Com a cara de criança que tinha não dava para levar a sério, eu precisava de credibilidade, de separar as coisas, de me sentir mais forte.» Hoje ainda o trata por Roberto, mas apenas para se perceber se está «falando do pai ou do profissional». «Não é a mesma coisa e é bom que as pessoas percebam.» Aos 32 anos, Roberta Medina é directora geral da Better World, o braço internacional da Dream Factory, empresa de eventos sediada no Brasil. Para o público português, é a figura de proa da edição lisboeta do Rock in Rio e, desde Agosto do ano passado, a jurada «boazinha» do “talent show” “Ídolos”. «Me diverti imenso», recorda. «Aquilo correu bem porque eu me ponho do lado das pessoas, eu sou público; quando o Laurent [Filipe] dizia “está um tom para cá, um tom para lá”, eu dava uma risada.» Com a presença regular na televisão, a sua vida passou a ser motivo de atenção pública. De repente, sem saber bem como, começava a dar autógrafos na rua. «É estranhíssimo, às primeiras vezes você fica assim “Autógrafo?! Mas para quê?!”.» Entretanto, aprendeu a lidar com a fama. «No fundo, é muito querido da parte das pessoas – o que eu faço é devolver esse carinho.» Durante o festival, e ao contrário do que se possa julgar, Roberta tira pouco proveito dos concertos. «A direcção fica disponível para resolver assuntos, entrevista aqui, entrevista ali, a gente está sempre andando.» A tarefa, este ano, poderá ser dificultada, agora que se tornou uma cara conhecida. «Vou ter de parar algumas vezes, mas o público é muito bacana, acho que não vão interferir.» Este é o sexto Rock in Rio que organiza, mas nem por isso as coisas se tornaram mais fáceis. «Tem sido cada vez mais gostoso, a equipe vai ficando junta, está mais afinado, o stress é menor, mas a gente tem um desafio muito grande: se você tem uma posição de liderança, tem de estar na frente, não pode ficar sossegado.» O seu «baptismo» aconteceu em 2001, na terceira edição brasileira do evento. «Roberto tinha juntado as pessoas para uma reunião e, no final, falou: “Roberta vai ser 20.magazine

março/abril 2010

DATAS. 1978. Nasce, no Rio de Janeiro, a 15 de Março, filha do publicitário Roberto Medina e de Maria Alice Cordeiro Couto.

a coordenadora de produção”. Era uma loucura da cabeça dele, eu não tinha nenhuma ideia de o que era ser coordenador de produção.» Perante a insistência do pai, aceitou. «Pulei muitas etapas, por ser filha, e porque ele provocou, sempre me botou para coordenar coisas.» No entanto, aprendeu e depressa justificou a confiança. «Para mim, foi uma “surra” de muita informação, muito aprendizado, muita responsabilidade: assinar contratos, controlar o orçamento, tomar decisões em cima de coisas que eu não tinha conhecimento.» E é a primeira a reconhecer que «a equipa era brilhante». Com essa prova de fogo, ganhou bagagem para o desafio que se seguia: a expansão para Portugal. «Foi uma tensão muito grande. Era como fazer uma grande festa para pessoas que você não conhece; chegou a me dar uma sensação de estar deslocada. Mas depois do “show” dos Xutos e de ver a reacção do público, sentimos que realmente tínhamos chegado a uma nova casa.» No Brasil, dizem-lhe que está «meio portuguesa». Cá, é «meio brasileira»: o seu português já não é bem aquele que se usa do lado de lá do Atlântico, mas ainda não perdeu o jeito açucarado de falar. Roberta chegou a Portugal em 2004, à boleia da primeira edição do Rock in Rio fora do Rio. Nunca cá tinha vindo. «Nem lembrava que existia», admite. Mesmo sendo neta de um portuense de gema. «Meu avô foi muito cedo para o Brasil, não tem sotaque, e minha mãe nunca trouxe para mim essa história.» Agora, tenta recuperar o tempo perdido: tem nacionalidade portuguesa, vive na Linha de Cascais, é uma apaixonada por Lisboa e declara-se angustiada por «ver que os brasileiros não têm uma noção real de o que é o Portugal moderno». E, sem papas na língua, aponta o problema: «A imagem do país é má para valer, é antiga, se promove os Jerónimos e Fátima... cadê os restaurantes incríveis, a gente bonita, as festas?» Percebe-se, no entusiasmo com que fala do

1980. Para a campanha de uma marca de whisky, Roberto Medina organiza um concerto de Frank Sinatra no Maracanã, com uma audiência de 170.000 pessoas. Roberta cresceu «ouvindo histórias desse show»: «Se tenho pena de alguma coisa é de não o ter visto.» 1992. Sete anos após a primeira edição, o Rock in Rio regressa. Ao acompanhar o processo de montagem e desmontagem do evento, Roberta apercebe-se do que quer ser quando for grande. 1995. Mete-se numa conversa entre o pai e um cliente e, com isso, consegue o seu primeiro emprego: assistente de marketing num centro comercial.

assunto, que há também vontade de fazer. «Me encanta pensar a cidade; estamos trabalhando em algumas ideias e espero que, em breve, possa botar em prática algumas coisas.» Quanto ao seu Rio de Janeiro natal, tem também alguns projectos na cabeça. Se tiver a oportunidade de colaborar nos Jogos Olímpicos de 2016, nem pensa duas vezes: «Gostava de fazer toda a logística, polícia, público, limpeza, transportes, acho isso incrível.» No fundo, e ao contrário do que se possa pensar, aquilo que mais a entusiasma na organização de um evento como o Rock in Rio nem é a música. «Gosto de realizar coisas; quando eu descobri que as ideias podiam sair do papel...» A frase fica pendurada, embora se perceba a conclusão pelo seu sorriso. «Eu achava que ia ser directora de arte da agência do meu pai, mas quando vi palco ser construído, desmontado, luz, etc., para mim foi encantador: pensar a logística toda, a dinâmica do evento. Nunca mais quis fazer outra coisa.» A música, claro, também é importante. Os nomes, as discografias, o conhecimento enciclopédico sobre artistas e estilos é que não são «a sua praia», como gosta de dizer. «Eu ouço muito rádio, gosto da música mas não sou fanática de ficar buscando, comprando: toca na rádio, fico contente.» Não é fã de muita coisa. Mas adora Frank Sinatra e Rod Stewart. Bem como Xutos & Pontapés e Rui Veloso, que descobriu já em Portugal. E sonha um dia trazer Robbie Williams e Coldplay, «mas eles estão sempre em tournée em ano ímpar e nós somos sempre em ano par.» O importante, contudo, é agradar ao público. «Na hora em que o público está feliz, as pessoas estão vibrando, está funcionando bem. Se você não pára para olhar aquilo, perde o momento e parece que nada valeu a pena. Gosto de trabalhar em coisas que mexem com a emoção das pessoas.» Essa, sim, é a verdadeira linguagem universal.

2000. Aos 22 anos, estreia-se na «primeira divisão» do “showbiz”, como coordenadora de produção do terceiro Rock in Rio, que teria lugar daí a um ano. 2004. Começa o desafio da expansão internacional. Roberta aterra pela primeira vez em Portugal para montar o Rock in Rio - Lisboa. E descobre uma nova casa, para onde se muda de armas e bagagens. 2008. No ano da terceira edição portuguesa, o Rock in Rio conquista um novo território: Espanha. 2009. Ao surgir — ao lado de Manuel Moura dos Santos, Laurent Filipe e Pedro Boucherie Mendes — no júri do programa televisivo “Ídolos”, deixa de ser apenas uma figura de bastidores: surgem clubes de fãs, os pedidos de amizade no Facebook multiplicam-se e passa a ter de dar autógrafos na rua.

março/abril 2010

magazine.21


AR DE ROCK

PERFIL FALADO

A música é uma linguagem universal.» Roberta cresceu a

“GOSTO DE REALIZAR COISAS, TIRAR IDEIAS DO PAPEL, TRABALHAR COM COISAS QUE MEXAM COM A EMOÇÃO DAS PESSOAS.”

ouvir esta expressão, repetindo-a sem conhecer o seu verdadeiro significado. Até ao dia em que, sozinha num concerto de U2 em Los Angeles, mas rodeada por uma multidão, sentiu algo de inédito: «Quando a banda começou, estávamos todos cantando num único idioma, o da emoção.» Tinha 19 anos e, dentro de si, qualquer coisa acabara de mudar. Dois anos antes, ao passar com o pai pelo Barra Shopping, no Rio de Janeiro, deu sem saber o primeiro passo do seu percurso profissional: «A gente encontrou o gerente de marketing do “shopping” e eles dois começaram a falar da promoção dos “shows” da Disney para o Natal.» Roberta meteu-se na conversa dos adultos. «Eu adoro Disney, então comecei a dar palpites.» O gerente achou-lhe piada e convidou-a para trabalhar. «Acabei fazendo a ligação entre a equipa do marketing e a de promoção do evento e, desde esse dia, a minha função sempre foi a de ligação de peças.» Até conquistar o seu próprio espaço, não foi fácil viver à sombra de Roberto Medina. «Você fica pensando se existe, se as pessoas são simpáticas porque é filha ou porque é boa profissional.» Passou a ir para as reuniões de “tailleur” e óculos e a tratar o pai pelo nome. «Com a cara de criança que tinha não dava para levar a sério, eu precisava de credibilidade, de separar as coisas, de me sentir mais forte.» Hoje ainda o trata por Roberto, mas apenas para se perceber se está «falando do pai ou do profissional». «Não é a mesma coisa e é bom que as pessoas percebam.» Aos 32 anos, Roberta Medina é directora geral da Better World, o braço internacional da Dream Factory, empresa de eventos sediada no Brasil. Para o público português, é a figura de proa da edição lisboeta do Rock in Rio e, desde Agosto do ano passado, a jurada «boazinha» do “talent show” “Ídolos”. «Me diverti imenso», recorda. «Aquilo correu bem porque eu me ponho do lado das pessoas, eu sou público; quando o Laurent [Filipe] dizia “está um tom para cá, um tom para lá”, eu dava uma risada.» Com a presença regular na televisão, a sua vida passou a ser motivo de atenção pública. De repente, sem saber bem como, começava a dar autógrafos na rua. «É estranhíssimo, às primeiras vezes você fica assim “Autógrafo?! Mas para quê?!”.» Entretanto, aprendeu a lidar com a fama. «No fundo, é muito querido da parte das pessoas – o que eu faço é devolver esse carinho.» Durante o festival, e ao contrário do que se possa julgar, Roberta tira pouco proveito dos concertos. «A direcção fica disponível para resolver assuntos, entrevista aqui, entrevista ali, a gente está sempre andando.» A tarefa, este ano, poderá ser dificultada, agora que se tornou uma cara conhecida. «Vou ter de parar algumas vezes, mas o público é muito bacana, acho que não vão interferir.» Este é o sexto Rock in Rio que organiza, mas nem por isso as coisas se tornaram mais fáceis. «Tem sido cada vez mais gostoso, a equipe vai ficando junta, está mais afinado, o stress é menor, mas a gente tem um desafio muito grande: se você tem uma posição de liderança, tem de estar na frente, não pode ficar sossegado.» O seu «baptismo» aconteceu em 2001, na terceira edição brasileira do evento. «Roberto tinha juntado as pessoas para uma reunião e, no final, falou: “Roberta vai ser 20.magazine

março/abril 2010

DATAS. 1978. Nasce, no Rio de Janeiro, a 15 de Março, filha do publicitário Roberto Medina e de Maria Alice Cordeiro Couto.

a coordenadora de produção”. Era uma loucura da cabeça dele, eu não tinha nenhuma ideia de o que era ser coordenador de produção.» Perante a insistência do pai, aceitou. «Pulei muitas etapas, por ser filha, e porque ele provocou, sempre me botou para coordenar coisas.» No entanto, aprendeu e depressa justificou a confiança. «Para mim, foi uma “surra” de muita informação, muito aprendizado, muita responsabilidade: assinar contratos, controlar o orçamento, tomar decisões em cima de coisas que eu não tinha conhecimento.» E é a primeira a reconhecer que «a equipa era brilhante». Com essa prova de fogo, ganhou bagagem para o desafio que se seguia: a expansão para Portugal. «Foi uma tensão muito grande. Era como fazer uma grande festa para pessoas que você não conhece; chegou a me dar uma sensação de estar deslocada. Mas depois do “show” dos Xutos e de ver a reacção do público, sentimos que realmente tínhamos chegado a uma nova casa.» No Brasil, dizem-lhe que está «meio portuguesa». Cá, é «meio brasileira»: o seu português já não é bem aquele que se usa do lado de lá do Atlântico, mas ainda não perdeu o jeito açucarado de falar. Roberta chegou a Portugal em 2004, à boleia da primeira edição do Rock in Rio fora do Rio. Nunca cá tinha vindo. «Nem lembrava que existia», admite. Mesmo sendo neta de um portuense de gema. «Meu avô foi muito cedo para o Brasil, não tem sotaque, e minha mãe nunca trouxe para mim essa história.» Agora, tenta recuperar o tempo perdido: tem nacionalidade portuguesa, vive na Linha de Cascais, é uma apaixonada por Lisboa e declara-se angustiada por «ver que os brasileiros não têm uma noção real de o que é o Portugal moderno». E, sem papas na língua, aponta o problema: «A imagem do país é má para valer, é antiga, se promove os Jerónimos e Fátima... cadê os restaurantes incríveis, a gente bonita, as festas?» Percebe-se, no entusiasmo com que fala do

1980. Para a campanha de uma marca de whisky, Roberto Medina organiza um concerto de Frank Sinatra no Maracanã, com uma audiência de 170.000 pessoas. Roberta cresceu «ouvindo histórias desse show»: «Se tenho pena de alguma coisa é de não o ter visto.» 1992. Sete anos após a primeira edição, o Rock in Rio regressa. Ao acompanhar o processo de montagem e desmontagem do evento, Roberta apercebe-se do que quer ser quando for grande. 1995. Mete-se numa conversa entre o pai e um cliente e, com isso, consegue o seu primeiro emprego: assistente de marketing num centro comercial.

assunto, que há também vontade de fazer. «Me encanta pensar a cidade; estamos trabalhando em algumas ideias e espero que, em breve, possa botar em prática algumas coisas.» Quanto ao seu Rio de Janeiro natal, tem também alguns projectos na cabeça. Se tiver a oportunidade de colaborar nos Jogos Olímpicos de 2016, nem pensa duas vezes: «Gostava de fazer toda a logística, polícia, público, limpeza, transportes, acho isso incrível.» No fundo, e ao contrário do que se possa pensar, aquilo que mais a entusiasma na organização de um evento como o Rock in Rio nem é a música. «Gosto de realizar coisas; quando eu descobri que as ideias podiam sair do papel...» A frase fica pendurada, embora se perceba a conclusão pelo seu sorriso. «Eu achava que ia ser directora de arte da agência do meu pai, mas quando vi palco ser construído, desmontado, luz, etc., para mim foi encantador: pensar a logística toda, a dinâmica do evento. Nunca mais quis fazer outra coisa.» A música, claro, também é importante. Os nomes, as discografias, o conhecimento enciclopédico sobre artistas e estilos é que não são «a sua praia», como gosta de dizer. «Eu ouço muito rádio, gosto da música mas não sou fanática de ficar buscando, comprando: toca na rádio, fico contente.» Não é fã de muita coisa. Mas adora Frank Sinatra e Rod Stewart. Bem como Xutos & Pontapés e Rui Veloso, que descobriu já em Portugal. E sonha um dia trazer Robbie Williams e Coldplay, «mas eles estão sempre em tournée em ano ímpar e nós somos sempre em ano par.» O importante, contudo, é agradar ao público. «Na hora em que o público está feliz, as pessoas estão vibrando, está funcionando bem. Se você não pára para olhar aquilo, perde o momento e parece que nada valeu a pena. Gosto de trabalhar em coisas que mexem com a emoção das pessoas.» Essa, sim, é a verdadeira linguagem universal.

2000. Aos 22 anos, estreia-se na «primeira divisão» do “showbiz”, como coordenadora de produção do terceiro Rock in Rio, que teria lugar daí a um ano. 2004. Começa o desafio da expansão internacional. Roberta aterra pela primeira vez em Portugal para montar o Rock in Rio - Lisboa. E descobre uma nova casa, para onde se muda de armas e bagagens. 2008. No ano da terceira edição portuguesa, o Rock in Rio conquista um novo território: Espanha. 2009. Ao surgir — ao lado de Manuel Moura dos Santos, Laurent Filipe e Pedro Boucherie Mendes — no júri do programa televisivo “Ídolos”, deixa de ser apenas uma figura de bastidores: surgem clubes de fãs, os pedidos de amizade no Facebook multiplicam-se e passa a ter de dar autógrafos na rua.

março/abril 2010

magazine.21


AR DE ROCK

PERFIL FALADO

CONVERSA DE BASTIDORES.

Foi um prejuízo, porque você não pode dar continuidade. Por isso, o evento não aconteceu a cada dois anos no Brasil.

R) Outro pedido curioso: no primeiro Rock in Rio, contratei o Ozzy Osbourne. E tinha uma história que ele comia morcego no meio do “show”. Aí a Sociedade Protectora dos Animais do Brasil – vê que coisa maluca! – mandou um expediente dizendo que não aceitava o Ozzy no Brasil se ele não se comprometesse a não comer morcego. No contrato dele, está escrito: «Não comer morcego, pintinhos e congéneres»!

Tem algum artista favorito? R) No Rock in Rio, em 1985, adorei o James

Que artista não voltariam a contratar? R) Tem um que se portou mal, mas eu

Taylor. E o Freddie Mercury [Queen]. Em Portugal, Bon Jovi [em 2008] foi o melhor. E acho que o Elton John vai ser muito bacana. R) E fã? Você é fã de quem? R) Roberto Carlos. R) Saiu diferente. Achei que era do Sinatra... R) Ah não, Sinatra é outra coisa. Ele era de um carisma que não tem nada para comparar com banda nenhuma de rock nem nada. Ele entrava, parava o ambiente. Da primeira vez que eu vi ele, estava no Waldorf Astoria, em Nova Iorque. Ele me recebeu e eu falei «Hoje em dia você já entra em palco brincando, não?». E ele respondeu «As minhas pernas sempre tremem antes de entrar». Foi por isso, talvez, que encantou tantas pessoas.

contrataria de novo: quando Queens of the Stone Age tocou, em 2001, o baixista tocou pelado. Mas pronto, não quer dizer que a gente não contrataria. R) Ou contrataria com uma cláusula dizendo que tem de tocar com roupa.

NUMA CURTA PASSAGEM POR LISBOA, ROBERTO MEDINA RECEBEU-NOS NO SEU GABINETE — CHEIO DE GUITARRAS ASSINADAS E RECORDAÇÕES DE SETE EDIÇÕES DE ROCK IN RIO — PARA UM BEM-HUMORADO DIÁLOGO A TRÊS.

O que sentem quando, por fim, está tudo montado, o público está diante do palco e o espectáculo vai começar? Roberta) Não é esse o momento. Para a gente é a hora que se abre as portas e as pes-

soas entram na Cidade do Rock. Roberto) Quando abre o portão, as pessoas entram na tua fantasia. Até aí é uma coisa irreal, que está na tua cabeça. Quando as pessoas passam a habitar a tua fantasia é uma emoção muito grande. Hoje você até tem uma visão mais clara do que vai acontecer. Mas imagina em 1985! Estava fazendo uma coisa completamente anormal para o país. Quando as pessoas chegaram, eu disse «Caramba, meu sonho virou realidade!». Em que momento podem respirar fundo? R) Quando acaba. R) São dois anos de trabalho para funcionar

tudo no primeiro minuto. E são 12 horas de primeiros minutos, vezes cinco dias. Tem de dar certo sempre, não tem tempo de consertar nada. E o dia seguinte, como é? R) Um grande vazio. Nos dois primeiros meses, você não sabe o que fazer. R) E aqui ainda se nota mais. Em Julho, a gente está «desproduzindo», mas

em Agosto o país desliga. Não se consegue falar com ninguém. Você não se consegue distrair com outro assunto. Qual foi o erro mais grave que se lembram de ter cometido? R) Desde que me lembro, a gente não tem tido grandes erros: nunca

teve um aci-

dente nem nada de complicado. R) Eu não gostei quando o Rock in Rio saiu da Cidade do Rock para o estádio do Maracanã, em 1991. Perdeu a circulação, ficou confinado a um palco. Foi o melhor cartaz de sempre: Prince, George Michael, INXS, Guns n’ Roses. Só que não tinha o espírito. Foi legal – ou «giro», como vocês costumam dizer –, as pessoas gostaram, mas se sentiu falta da Cidade do Rock. R) Tem algo muito bacana nessa história, que poderia ser visto como um grande erro, mas como aquele senhor é um bocado desprogramado do mundo real, não foi erro e virou o que a gente tem hoje: A primeira edição foi muito difícil, a nível financeiro foi complicado, com muitos desafios, conflitos políticos... Qualquer pessoa minimamente normal não teria continuado. É esse o mérito: encarar a vida pelo lado positivo, pelo que pode ser construído, e acreditar num sonho. A primeira edição deu prejuízo? R) Naquela época, o governador do

Rio de Janeiro entendia que eu – que, sem querer, fiquei muito conhecido – podia ser candidato a governador ou coisa semelhante. E aí, ele começou uma guerra política gigantesca e derrubou a Cidade do Rock. 22.magazine

março/abril 2010

Ainda recebem pedidos estranhos de parte dos artistas? R) Cada vez menos. Era surreal. O

Prince pediu 700 toalhas brancas. Não queria entrar sem as toalhas. Usou três. R) O Paul McCartney [2001] não queria carne na Cidade do Rock. A gente conseguiu convencer que era só no “catering” dele. R) Não era só na Cidade do Rock: num determinado raio, não podia ter nenhum restaurante servindo carne! R) Mas o Brasil não estava aberto para produtos importados. Um cara pedia uma Evian e era coisa para se suicidar. Hoje em dia, se pede japonês você vai na esquina e pega. A globalização facilita. Acabaram os pedidos esdrúxulos.

Estão em vias de implantar o Rock in Rio na Polónia... R) Sim, para 2011. Mas não sabemos se

vamos conseguir a tempo porque não chegámos a um acordo com a câmara de Poznan em termos de Cidade do Rock. Mas a volta para o Brasil é muito possível para finais de 2011. O Roberto chegou a falar em expandir a marcar para os EUA e para a China... R) Era um exemplo. Mas, por acaso, a

China mandou cá uma comitiva e a Roberta foi lá. O modelo do Rock in Rio vai evoluir para outras praças. EUA e China são dois desafios complexos. R) As discussões na China até foram bastante concretas, mas pegámos o momento em que a crise explode. E acho que, culturalmente, ainda precisa de alguns anos. Eles são muito fechados, estão muito preocupados em controlar o que os artistas dizem. De qualquer forma, somos uma empresa pequena, temos de ir pautando bem os mercados a que vamos. Mas a China é uma loucura: tem dimensão para um Rock in Rio a cada três meses numa cidade diferente! l março/abril 2010

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AR DE ROCK

PERFIL FALADO

CONVERSA DE BASTIDORES.

Foi um prejuízo, porque você não pode dar continuidade. Por isso, o evento não aconteceu a cada dois anos no Brasil.

R) Outro pedido curioso: no primeiro Rock in Rio, contratei o Ozzy Osbourne. E tinha uma história que ele comia morcego no meio do “show”. Aí a Sociedade Protectora dos Animais do Brasil – vê que coisa maluca! – mandou um expediente dizendo que não aceitava o Ozzy no Brasil se ele não se comprometesse a não comer morcego. No contrato dele, está escrito: «Não comer morcego, pintinhos e congéneres»!

Tem algum artista favorito? R) No Rock in Rio, em 1985, adorei o James

Que artista não voltariam a contratar? R) Tem um que se portou mal, mas eu

Taylor. E o Freddie Mercury [Queen]. Em Portugal, Bon Jovi [em 2008] foi o melhor. E acho que o Elton John vai ser muito bacana. R) E fã? Você é fã de quem? R) Roberto Carlos. R) Saiu diferente. Achei que era do Sinatra... R) Ah não, Sinatra é outra coisa. Ele era de um carisma que não tem nada para comparar com banda nenhuma de rock nem nada. Ele entrava, parava o ambiente. Da primeira vez que eu vi ele, estava no Waldorf Astoria, em Nova Iorque. Ele me recebeu e eu falei «Hoje em dia você já entra em palco brincando, não?». E ele respondeu «As minhas pernas sempre tremem antes de entrar». Foi por isso, talvez, que encantou tantas pessoas.

contrataria de novo: quando Queens of the Stone Age tocou, em 2001, o baixista tocou pelado. Mas pronto, não quer dizer que a gente não contrataria. R) Ou contrataria com uma cláusula dizendo que tem de tocar com roupa.

NUMA CURTA PASSAGEM POR LISBOA, ROBERTO MEDINA RECEBEU-NOS NO SEU GABINETE — CHEIO DE GUITARRAS ASSINADAS E RECORDAÇÕES DE SETE EDIÇÕES DE ROCK IN RIO — PARA UM BEM-HUMORADO DIÁLOGO A TRÊS.

O que sentem quando, por fim, está tudo montado, o público está diante do palco e o espectáculo vai começar? Roberta) Não é esse o momento. Para a gente é a hora que se abre as portas e as pes-

soas entram na Cidade do Rock. Roberto) Quando abre o portão, as pessoas entram na tua fantasia. Até aí é uma coisa irreal, que está na tua cabeça. Quando as pessoas passam a habitar a tua fantasia é uma emoção muito grande. Hoje você até tem uma visão mais clara do que vai acontecer. Mas imagina em 1985! Estava fazendo uma coisa completamente anormal para o país. Quando as pessoas chegaram, eu disse «Caramba, meu sonho virou realidade!». Em que momento podem respirar fundo? R) Quando acaba. R) São dois anos de trabalho para funcionar

tudo no primeiro minuto. E são 12 horas de primeiros minutos, vezes cinco dias. Tem de dar certo sempre, não tem tempo de consertar nada. E o dia seguinte, como é? R) Um grande vazio. Nos dois primeiros meses, você não sabe o que fazer. R) E aqui ainda se nota mais. Em Julho, a gente está «desproduzindo», mas

em Agosto o país desliga. Não se consegue falar com ninguém. Você não se consegue distrair com outro assunto. Qual foi o erro mais grave que se lembram de ter cometido? R) Desde que me lembro, a gente não tem tido grandes erros: nunca

teve um aci-

dente nem nada de complicado. R) Eu não gostei quando o Rock in Rio saiu da Cidade do Rock para o estádio do Maracanã, em 1991. Perdeu a circulação, ficou confinado a um palco. Foi o melhor cartaz de sempre: Prince, George Michael, INXS, Guns n’ Roses. Só que não tinha o espírito. Foi legal – ou «giro», como vocês costumam dizer –, as pessoas gostaram, mas se sentiu falta da Cidade do Rock. R) Tem algo muito bacana nessa história, que poderia ser visto como um grande erro, mas como aquele senhor é um bocado desprogramado do mundo real, não foi erro e virou o que a gente tem hoje: A primeira edição foi muito difícil, a nível financeiro foi complicado, com muitos desafios, conflitos políticos... Qualquer pessoa minimamente normal não teria continuado. É esse o mérito: encarar a vida pelo lado positivo, pelo que pode ser construído, e acreditar num sonho. A primeira edição deu prejuízo? R) Naquela época, o governador do

Rio de Janeiro entendia que eu – que, sem querer, fiquei muito conhecido – podia ser candidato a governador ou coisa semelhante. E aí, ele começou uma guerra política gigantesca e derrubou a Cidade do Rock. 22.magazine

março/abril 2010

Ainda recebem pedidos estranhos de parte dos artistas? R) Cada vez menos. Era surreal. O

Prince pediu 700 toalhas brancas. Não queria entrar sem as toalhas. Usou três. R) O Paul McCartney [2001] não queria carne na Cidade do Rock. A gente conseguiu convencer que era só no “catering” dele. R) Não era só na Cidade do Rock: num determinado raio, não podia ter nenhum restaurante servindo carne! R) Mas o Brasil não estava aberto para produtos importados. Um cara pedia uma Evian e era coisa para se suicidar. Hoje em dia, se pede japonês você vai na esquina e pega. A globalização facilita. Acabaram os pedidos esdrúxulos.

Estão em vias de implantar o Rock in Rio na Polónia... R) Sim, para 2011. Mas não sabemos se

vamos conseguir a tempo porque não chegámos a um acordo com a câmara de Poznan em termos de Cidade do Rock. Mas a volta para o Brasil é muito possível para finais de 2011. O Roberto chegou a falar em expandir a marcar para os EUA e para a China... R) Era um exemplo. Mas, por acaso, a

China mandou cá uma comitiva e a Roberta foi lá. O modelo do Rock in Rio vai evoluir para outras praças. EUA e China são dois desafios complexos. R) As discussões na China até foram bastante concretas, mas pegámos o momento em que a crise explode. E acho que, culturalmente, ainda precisa de alguns anos. Eles são muito fechados, estão muito preocupados em controlar o que os artistas dizem. De qualquer forma, somos uma empresa pequena, temos de ir pautando bem os mercados a que vamos. Mas a China é uma loucura: tem dimensão para um Rock in Rio a cada três meses numa cidade diferente! l março/abril 2010

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AR DE ROCK

PERFIL FALADO

EM DISCURSO DIRECTO. QUANDO ME ENCONTREI COM FRANK SINATRA EM NOVA IORQUE, FALEI «HOJE EM DIA VOCÊ JÁ ENTRA EM PALCO BRINCANDO, NÃO?». E ELE RESPONDEU «AS MINHAS PERNAS SEMPRE TREMEM ANTES DE ENTRAR». FOI POR ISSO, TALVEZ, QUE ENCANTOU TANTAS PESSOAS. QUANDO VOCÊ PERDE A HUMILDADE, É O INÍCIO DO FIM. TEM DE ESTAR SEMPRE SE TESTANDO.

O Rock in Rio não é um festival de rock na comum acepção da palavra. É mais uma atitude rock – inconformismo, liberdade –, e dentro dela você tem várias tribos: o heavy metal, o pop, o jovem rockeiro... É pegar o espectro da família como um todo. E esse sempre foi o espírito: o primeiro Rock in Rio tinha música popular brasileira, jazz, pop, rock, heavy. Tinha tudo. Por isso teve 1.380.000 pessoas. A marca Rock in Rio nasceu, num dia de insónia, 25 anos atrás. Eu não tinha experiência de projecto de rock, de captar patrocínios. Cada patrocinador principal era um investimento de 20 milhões de dólares. Como é que faz isso? Eu não sabia, mas tinha convicção de como ia fazer. Foi fruto de uma intuição: eu, como publicitário, achava que era uma experiência importante para o patrocinador estar com 1,5 milhões de pessoas. Eu não sou, originalmente, um promotor de concertos: sou um homem de comunicação. Nesse mundo de concertos, só se contrata artistas e vende bilhetes. Isso não é a parte maior daquilo que a gente faz. É um detalhe. Quando você pensa em festival, pensa em lama, falta de estrutura, absoluta desorganização. O mundo evoluiu mas os grandes eventos de música não: a parte do público é a mesma confusão. Então, a gente fez uma coisa que me parece um passo além. Mesmo no princípio, o Rock in Rio era mais sofisticado do que é hoje o melhor evento no mundo. Comida extremamente bem preparada, preços controlados, etc. Tinha ofertas diversas para o público poder usufruir. E o sistema de tráfego da cidade foi todo estudado e combinado para isso. O maior evento, até então, era Woodstock,

com 380 mil pessoas. Como é que sai de 380 mil para um milhão de pessoas? Não tenho ideia de como essa história se montou. Foi um pouco de falta de conhecimento. Que é sadio, em determinado momento. Porque se me tivessem explicado que não podia, talvez não fizesse. Como ninguém me explicou...

Assistente de fotografia: Filipe Serralheiro Maquilhadora: Sónia Pessoa I Pós-Produção: Álvaro Teixeira

Tudo foi feito em função de necessidade. O evento não se pagaria com

dinheiro do público – nem com cinco milhões de pessoas. O bilhete era muito barato. Então tinha de ter as marcas. E a dimensão também não é à toa: para ajudar a pagar a conta, precisava ter muita gente. O modelo do Rock in Rio vai evoluir

Uma companhia de cerveja

que estava envelhecendo sua marca queria qualquer coisa jovem. Por outro lado, tinha essa ideia de fazer um evento de multidão. Em determinado momento, juntei as duas peças. Quando formatei o conceito do Rock in Rio, imediatamente tive a ideia do patrocínio, que era o que esse cliente estava precisando fazer. Nasceu assim o Rock in Rio. 24.magazine

março/abril 2010

para outras praças. EUA e China são dois desafios complexos, mas são mercados que me fascinam. Ainda não há nada concreto em relação a esses países. Mas o projecto vai acabar aí. Não tenha dúvida. março/abril 2010

magazine.25


AR DE ROCK

PERFIL FALADO

EM DISCURSO DIRECTO. QUANDO ME ENCONTREI COM FRANK SINATRA EM NOVA IORQUE, FALEI «HOJE EM DIA VOCÊ JÁ ENTRA EM PALCO BRINCANDO, NÃO?». E ELE RESPONDEU «AS MINHAS PERNAS SEMPRE TREMEM ANTES DE ENTRAR». FOI POR ISSO, TALVEZ, QUE ENCANTOU TANTAS PESSOAS. QUANDO VOCÊ PERDE A HUMILDADE, É O INÍCIO DO FIM. TEM DE ESTAR SEMPRE SE TESTANDO.

O Rock in Rio não é um festival de rock na comum acepção da palavra. É mais uma atitude rock – inconformismo, liberdade –, e dentro dela você tem várias tribos: o heavy metal, o pop, o jovem rockeiro... É pegar o espectro da família como um todo. E esse sempre foi o espírito: o primeiro Rock in Rio tinha música popular brasileira, jazz, pop, rock, heavy. Tinha tudo. Por isso teve 1.380.000 pessoas. A marca Rock in Rio nasceu, num dia de insónia, 25 anos atrás. Eu não tinha experiência de projecto de rock, de captar patrocínios. Cada patrocinador principal era um investimento de 20 milhões de dólares. Como é que faz isso? Eu não sabia, mas tinha convicção de como ia fazer. Foi fruto de uma intuição: eu, como publicitário, achava que era uma experiência importante para o patrocinador estar com 1,5 milhões de pessoas. Eu não sou, originalmente, um promotor de concertos: sou um homem de comunicação. Nesse mundo de concertos, só se contrata artistas e vende bilhetes. Isso não é a parte maior daquilo que a gente faz. É um detalhe. Quando você pensa em festival, pensa em lama, falta de estrutura, absoluta desorganização. O mundo evoluiu mas os grandes eventos de música não: a parte do público é a mesma confusão. Então, a gente fez uma coisa que me parece um passo além. Mesmo no princípio, o Rock in Rio era mais sofisticado do que é hoje o melhor evento no mundo. Comida extremamente bem preparada, preços controlados, etc. Tinha ofertas diversas para o público poder usufruir. E o sistema de tráfego da cidade foi todo estudado e combinado para isso. O maior evento, até então, era Woodstock,

com 380 mil pessoas. Como é que sai de 380 mil para um milhão de pessoas? Não tenho ideia de como essa história se montou. Foi um pouco de falta de conhecimento. Que é sadio, em determinado momento. Porque se me tivessem explicado que não podia, talvez não fizesse. Como ninguém me explicou...

Assistente de fotografia: Filipe Serralheiro Maquilhadora: Sónia Pessoa I Pós-Produção: Álvaro Teixeira

Tudo foi feito em função de necessidade. O evento não se pagaria com

dinheiro do público – nem com cinco milhões de pessoas. O bilhete era muito barato. Então tinha de ter as marcas. E a dimensão também não é à toa: para ajudar a pagar a conta, precisava ter muita gente. O modelo do Rock in Rio vai evoluir

Uma companhia de cerveja

que estava envelhecendo sua marca queria qualquer coisa jovem. Por outro lado, tinha essa ideia de fazer um evento de multidão. Em determinado momento, juntei as duas peças. Quando formatei o conceito do Rock in Rio, imediatamente tive a ideia do patrocínio, que era o que esse cliente estava precisando fazer. Nasceu assim o Rock in Rio. 24.magazine

março/abril 2010

para outras praças. EUA e China são dois desafios complexos, mas são mercados que me fascinam. Ainda não há nada concreto em relação a esses países. Mas o projecto vai acabar aí. Não tenha dúvida. março/abril 2010

magazine.25


LINHA DA FRENTE

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA PEDRO LOUREIRO

CUMPRINDO A VONTADE DE ANTÓNIO CHAMPALIMAUD FOI CRIADO EM LISBOA UM CENTRO DE INVESTIGAÇÃO EM CIÊNCIAS MÉDICAS, SOB A ÉGIDE DA FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD, PRESIDIDA POR LEONOR BELEZA, E COM UMA EQUIPA QUE INCLUI ALGUNS DOS MELHORES CIENTISTAS MUNDIAIS EM ONCOLOGIA E NEUROCIÊNCIAS. OFICIALMENTE INAUGURADO A 5 DE OUTUBRO, O CENTRE FOR THE UNKNOWN PREPARA-SE PARA ABRIR AS PORTAS DO DESCONHECIDO.

FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

O DESCONHECIDO MORA AQUI 40.magazine

novembro/dezembro 2010

novembro/dezembro 2010

magazine.41


LINHA DA FRENTE

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA PEDRO LOUREIRO

CUMPRINDO A VONTADE DE ANTÓNIO CHAMPALIMAUD FOI CRIADO EM LISBOA UM CENTRO DE INVESTIGAÇÃO EM CIÊNCIAS MÉDICAS, SOB A ÉGIDE DA FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD, PRESIDIDA POR LEONOR BELEZA, E COM UMA EQUIPA QUE INCLUI ALGUNS DOS MELHORES CIENTISTAS MUNDIAIS EM ONCOLOGIA E NEUROCIÊNCIAS. OFICIALMENTE INAUGURADO A 5 DE OUTUBRO, O CENTRE FOR THE UNKNOWN PREPARA-SE PARA ABRIR AS PORTAS DO DESCONHECIDO.

FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

O DESCONHECIDO MORA AQUI 40.magazine

novembro/dezembro 2010

novembro/dezembro 2010

magazine.41


LINHA DA FRENTE FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

A PROXIMIDADE É UM DOS PILARES DO PROJECTO: O DOENTE TERÁ ACESSO AO CIENTISTA, A QUEM PODERÁ EXPÔR AS SUAS DÚVIDAS.

O nome não podia ter sido mais bem escolhido: Centre for the Unknown (CftU). Ou, em português, Centro para o Desconhecido. O ponto de partida é simples: aceitar que tudo aquilo que hoje se sabe nunca é suficiente. É preciso ir mais longe, derrubar barreiras, enfim, aprofundar o conhecimento científico. De momento, o centro – uma obra magistral do arquitecto indiano de ascendência portuguesa Charles Correa – é ainda um edifício vazio, apenas ocupado por electricistas, pintores e técnicos que tratam dos últimos preparativos antes da entrada em pleno funcionamento no próximo ano. O primeiro «lote» de cientistas chegará em Janeiro, com o arranque do atendimento a doentes previsto para Março/Abril e a entrada em «velocidade de cruzeiro» para final do Verão. Em breve, as centenas de postos de trabalho que agora estão a ser montadas serão ocupadas por outros tantos investigadores, divididos por duas áreas distintas: Oncologia e Neurociências. Distintas porém complementares, em determinados pontos. «Há vários mecanismos comuns a ambos os processos, especialmente no estudo do desenvolvimento do sistema nervoso», aponta a neurocientista Marta Moita, coordenadora do grupo de Neurobiologia do Comportamento. «Uma das vantagens de trabalharmos todos numa zona comum é a de podermos aprender uns com os outros», acrescenta Fátima Cardoso, directora da Unidade de Cancro da Mama. E dá um exemplo: «Se, por um lado, sabemos que as células que se dividem menos no nosso corpo são os neurónios, por outro, com o cancro sucede exactamente o contrário, é um processo muito rápido. Se conseguirmos perceber o que faz o neurónio dividir-se mais lentamente, poderemos aplicar esse conhecimento para diminuir a proliferação das células tumorais.» Esta é apenas uma das imensas possibilidades desta cooperação multidisciplinar.

42.magazine

novembro/dezembro 2010

CORTAR A META

Enquanto aguarda pela mudança para o seu novo gabinete, Fátima Cardoso recebe-nos na sede da Fundação Champalimaud, na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa. A médica/investigadora de 44 anos, figura eminente no estudo do cancro da mama, trabalhava no Institute Jules Bordet, em Bruxelas, quando recebeu o convite de Leonor Beleza. «Este projecto tem imensas potencialidades, tanto a nível de cuidados como de investigação.» Aliás, foi a problemática da investigação que, em 2000, a motivou a sair de Portugal: «Tem sempre de ser feita fora das horas de trabalho e com poucas condições. E acaba por ser de pouca qualidade.» Essa questão não se colocará aqui. «Os médicos que contratarmos terão 50 por cento do seu tempo reservado à investigação», garante Rhagu Kalluri, Director do Centro de Cancro, em entrevista ao “Público”. «Não lhes vamos dizer como devem utilizar esses 50 por cento do seu tempo, mas têm de o utilizar para pensar. Dar tempo aos médicos é bom para os seus doentes.» Esta é outra das particularidades inéditas do CftU. «Temos um médico norueguês que me


LINHA DA FRENTE FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

A PROXIMIDADE É UM DOS PILARES DO PROJECTO: O DOENTE TERÁ ACESSO AO CIENTISTA, A QUEM PODERÁ EXPÔR AS SUAS DÚVIDAS.

O nome não podia ter sido mais bem escolhido: Centre for the Unknown (CftU). Ou, em português, Centro para o Desconhecido. O ponto de partida é simples: aceitar que tudo aquilo que hoje se sabe nunca é suficiente. É preciso ir mais longe, derrubar barreiras, enfim, aprofundar o conhecimento científico. De momento, o centro – uma obra magistral do arquitecto indiano de ascendência portuguesa Charles Correa – é ainda um edifício vazio, apenas ocupado por electricistas, pintores e técnicos que tratam dos últimos preparativos antes da entrada em pleno funcionamento no próximo ano. O primeiro «lote» de cientistas chegará em Janeiro, com o arranque do atendimento a doentes previsto para Março/Abril e a entrada em «velocidade de cruzeiro» para final do Verão. Em breve, as centenas de postos de trabalho que agora estão a ser montadas serão ocupadas por outros tantos investigadores, divididos por duas áreas distintas: Oncologia e Neurociências. Distintas porém complementares, em determinados pontos. «Há vários mecanismos comuns a ambos os processos, especialmente no estudo do desenvolvimento do sistema nervoso», aponta a neurocientista Marta Moita, coordenadora do grupo de Neurobiologia do Comportamento. «Uma das vantagens de trabalharmos todos numa zona comum é a de podermos aprender uns com os outros», acrescenta Fátima Cardoso, directora da Unidade de Cancro da Mama. E dá um exemplo: «Se, por um lado, sabemos que as células que se dividem menos no nosso corpo são os neurónios, por outro, com o cancro sucede exactamente o contrário, é um processo muito rápido. Se conseguirmos perceber o que faz o neurónio dividir-se mais lentamente, poderemos aplicar esse conhecimento para diminuir a proliferação das células tumorais.» Esta é apenas uma das imensas possibilidades desta cooperação multidisciplinar.

42.magazine

novembro/dezembro 2010

CORTAR A META

Enquanto aguarda pela mudança para o seu novo gabinete, Fátima Cardoso recebe-nos na sede da Fundação Champalimaud, na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa. A médica/investigadora de 44 anos, figura eminente no estudo do cancro da mama, trabalhava no Institute Jules Bordet, em Bruxelas, quando recebeu o convite de Leonor Beleza. «Este projecto tem imensas potencialidades, tanto a nível de cuidados como de investigação.» Aliás, foi a problemática da investigação que, em 2000, a motivou a sair de Portugal: «Tem sempre de ser feita fora das horas de trabalho e com poucas condições. E acaba por ser de pouca qualidade.» Essa questão não se colocará aqui. «Os médicos que contratarmos terão 50 por cento do seu tempo reservado à investigação», garante Rhagu Kalluri, Director do Centro de Cancro, em entrevista ao “Público”. «Não lhes vamos dizer como devem utilizar esses 50 por cento do seu tempo, mas têm de o utilizar para pensar. Dar tempo aos médicos é bom para os seus doentes.» Esta é outra das particularidades inéditas do CftU. «Temos um médico norueguês que me


LINHA DA FRENTE FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

Marta Moita, coordenadora do grupo de Neurobiologia do Comportamento

Fátima Cardoso, directora da Unidade de Cancro da Mama

disse que, mesmo num país abastado como a Noruega, não há nenhum sítio onde se possa trabalhar com estas condições», comenta Vítor Cunha, porta-voz da Fundação. Aqui, tudo será diferente: a investigação é prioritária, essencial na progressão rumo ao desconhecido. «E se começarmos a ter muitos doentes a necessitar de cuidados, o objectivo é obter mais médicos e não retirar tempo à investigação», acrescenta Fátima Cardoso. A proximidade entre o doente e o médico/investigador é um dos pilares do projecto. O paciente terá acesso aos cientistas, a quem poderá fazer perguntas, colocar dúvidas. E verá a investigação «acontecer», através de paredes de vidro que, embora separem a área clínica da científica, reforçam a transparência e intercomunicabilidade do Centro. «Os doentes vêem que algo está a ser feito para eles, o que lhes dá esperança no futuro, e os investigadores percebem que vão ter de trabalhar ainda mais para salvar os seus doentes», aponta Kalluri. Boa parte da investigação desenvolvida no CftU será de âmbito translacional, ou, como explicou Leonor Beleza em entrevista à Agência Lusa, «muito virada para traduzir conhecimento». Isto é: pôr os resultados da investigação básica em prática o mais rapidamente possível, em benefício do paciente. Mesmo no que diz respeito às Neurociências, «o plano é que haja investigação ligada à prática clínica, mas num futuro menos próximo», afiança Marta Moita. «Há ainda muito trabalho a fazer em investigação básica para que se possa chegar a esse ponto.» No campo da Oncologia, também haverá lugar para a investigação básica, com ênfase nos cancros metastáticos. «Queremos saber porque é que um tumor se espalha, porque é que, mesmo com o melhor tratamento, tomando como exemplo o cancro da mama, 30% a 50% das mulheres desenvolvem metásteses.» Fátima Cardoso fala um misto de confiança e espírito de dever perante um terrível facto: «É a doença metastática que mata, não é curável.» Raghu Kalluri coloca a fasquia bem no alto: «Daqui a cinco anos, gostaríamos de ser reconhecidos como um dos melhores sítios do mundo para a investigação de metásteses. É essa a derradeira fronteira que precisamos de conquistar, a disseminação do cancro no organismo.» O Centro para o Desconhecido começa já a sua missão: derrubar barreiras. l

GRANDE PARTE DA INVESTIGAÇÃO SERÁ DE ÂMBITO TRANSLACIONAL: PÔR RESULTADOS EM PRÁTICA O MAIS RAPIDAMENTE POSSÍVEL, EM BENEFÍCIO DO PACIENTE.

44.magazine

novembro/dezembro 2010

O CENTRO EM NÚMEROS. 2 PRÉMIOS NOBEL. No naipe de cientistas de renome ligados à Fundação há dois laureados com o Prémio Nobel da Medicina: James Watson, co-autor da descoberta da estrutura molecular do ADN (1962), e Susumo Tonegawa, que desvendou as bases genéticas da diversidade dos anticorpos (1987).

300 PACIENTES. O hospital terá capacidade para prestar tratamento a 300 doentes oncológicos por dia. 700 FUNCIONÁRIOS. No fim do Verão de 2011, prevê-se que o centro empregue 700 pessoas, entre cientistas, médicos e serviços técnicos e de apoio.

1.000.000 EUROS. O Prémio António Champalimaud de Visão, atribuído anualmente, tem o valor de um milhão de euros.

100.000.000 EUROS. A construção do centro custou 100 milhões de euros, dos quais dez milhões investidos em equipamento de última geração. 500.000.000 EUROS. No seu testamento, António Champalimaud destinou 500 milhões de euros à criação de uma instituição dedicada ao avanço da ciência médica em Portugal, na Europa e no Mundo. Daí nasceria a Fundação.

PUB


LINHA DA FRENTE FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

Marta Moita, coordenadora do grupo de Neurobiologia do Comportamento

Fátima Cardoso, directora da Unidade de Cancro da Mama

disse que, mesmo num país abastado como a Noruega, não há nenhum sítio onde se possa trabalhar com estas condições», comenta Vítor Cunha, porta-voz da Fundação. Aqui, tudo será diferente: a investigação é prioritária, essencial na progressão rumo ao desconhecido. «E se começarmos a ter muitos doentes a necessitar de cuidados, o objectivo é obter mais médicos e não retirar tempo à investigação», acrescenta Fátima Cardoso. A proximidade entre o doente e o médico/investigador é um dos pilares do projecto. O paciente terá acesso aos cientistas, a quem poderá fazer perguntas, colocar dúvidas. E verá a investigação «acontecer», através de paredes de vidro que, embora separem a área clínica da científica, reforçam a transparência e intercomunicabilidade do Centro. «Os doentes vêem que algo está a ser feito para eles, o que lhes dá esperança no futuro, e os investigadores percebem que vão ter de trabalhar ainda mais para salvar os seus doentes», aponta Kalluri. Boa parte da investigação desenvolvida no CftU será de âmbito translacional, ou, como explicou Leonor Beleza em entrevista à Agência Lusa, «muito virada para traduzir conhecimento». Isto é: pôr os resultados da investigação básica em prática o mais rapidamente possível, em benefício do paciente. Mesmo no que diz respeito às Neurociências, «o plano é que haja investigação ligada à prática clínica, mas num futuro menos próximo», afiança Marta Moita. «Há ainda muito trabalho a fazer em investigação básica para que se possa chegar a esse ponto.» No campo da Oncologia, também haverá lugar para a investigação básica, com ênfase nos cancros metastáticos. «Queremos saber porque é que um tumor se espalha, porque é que, mesmo com o melhor tratamento, tomando como exemplo o cancro da mama, 30% a 50% das mulheres desenvolvem metásteses.» Fátima Cardoso fala um misto de confiança e espírito de dever perante um terrível facto: «É a doença metastática que mata, não é curável.» Raghu Kalluri coloca a fasquia bem no alto: «Daqui a cinco anos, gostaríamos de ser reconhecidos como um dos melhores sítios do mundo para a investigação de metásteses. É essa a derradeira fronteira que precisamos de conquistar, a disseminação do cancro no organismo.» O Centro para o Desconhecido começa já a sua missão: derrubar barreiras. l

GRANDE PARTE DA INVESTIGAÇÃO SERÁ DE ÂMBITO TRANSLACIONAL: PÔR RESULTADOS EM PRÁTICA O MAIS RAPIDAMENTE POSSÍVEL, EM BENEFÍCIO DO PACIENTE.

44.magazine

novembro/dezembro 2010

O CENTRO EM NÚMEROS. 2 PRÉMIOS NOBEL. No naipe de cientistas de renome ligados à Fundação há dois laureados com o Prémio Nobel da Medicina: James Watson, co-autor da descoberta da estrutura molecular do ADN (1962), e Susumo Tonegawa, que desvendou as bases genéticas da diversidade dos anticorpos (1987).

300 PACIENTES. O hospital terá capacidade para prestar tratamento a 300 doentes oncológicos por dia. 700 FUNCIONÁRIOS. No fim do Verão de 2011, prevê-se que o centro empregue 700 pessoas, entre cientistas, médicos e serviços técnicos e de apoio.

1.000.000 EUROS. O Prémio António Champalimaud de Visão, atribuído anualmente, tem o valor de um milhão de euros.

100.000.000 EUROS. A construção do centro custou 100 milhões de euros, dos quais dez milhões investidos em equipamento de última geração. 500.000.000 EUROS. No seu testamento, António Champalimaud destinou 500 milhões de euros à criação de uma instituição dedicada ao avanço da ciência médica em Portugal, na Europa e no Mundo. Daí nasceria a Fundação.

PUB


TEXTO CARLOS ALVES FOTOGRAFIA PAULO BARATA

ED

GE

CA

O UB

DA EI M

D

O RB

A

.B

SINTRA

AL

SA

A

AS QUEIJADAS, AS CASAS DE CHÁ E OS LOCAIS AOS QUAIS PROMETEMOS SEMPRE UM BREVE REGRESSO.

«

Sair para ver o mundo e não passar por Sintra é andar às cegas», narra um ditado espanhol. Sintra, tal como Évora ou Guimarães, é um dos nossos lugares sentimentais – todos os países têm os seus –, onde gostamos de levar visitantes estrangeiros. Adoramos vê-los deslumbrados. Nesses momentos, questionamos a razão de não a visitarmos mais vezes, ficando a promessa: «Um dia destes, volto a Sintra.» O Palácio da Vila, invariável ponto de partida, abre o apetite para as obrigatórias delícias locais, a queijada e o travesseiro. Nessa altura, todos os caminhos vão dar à concorrida Piriquita, a dois passos do Palácio. As melhores queijadas, porém – garante quem já se deu ao trabalho de comparar – são as da Sapa, a meio caminho entre a Vila Velha e a Estefânea. Para uma prova exaustiva, deve-se também experimentar as da Casa do Preto e as do Gregório. A par do ritual doceiro vem um outro, o do chá, que ganha mais elegância num cenário destes. Casas de chá não faltam. A da Raposa é, talvez, a mais conhecida. Há coisa de meio ano abriu a convidativa Maggie’s Tea Spot, no coração da Vila Velha, e a antiga Fábrica de Queijadas Finas Mathilde foi convertida na genuinamente portuguesa Saudade. Qualquer uma delas serve na perfeição como pretexto para nos reapaixonarmos por Sintra. Por essa Sintra feita de histórias, de monumentos, de cultura – que não se esgota nos palácios nem nas crónicas do antigamente. Se, no passado, excêntricos milionários deram à paisagem faustosos palácios e “chalets”, em tempos mais recentes o empresário José Berardo enriqueceu a vila com um valioso Museu de Arte Contemporânea. Por detrás desse museu reside outra instituição cultural de referência, o Centro Cultural Olga Cadaval, assim rebaptizado em homenagem à Marquesa de Cadaval – também ela mecenas das artes –, uma italiana que fez da região a sua casa. «Diz-se que todo o estrangeiro poderá encontrar em Sintra um pedaço da sua pátria; eu descobri aí a Dinamarca», anotou Hans Christian Andersen, um dos muitos escritores que fizeram de Sintra cenário das suas narrativas. Arturo Pérez-Reverte, um dos mais aclamados romancistas espanhóis da actualidade, aqui situou parte da acção de “O Clube Dumas” (1993). Roman Polanski adaptou (vagamente) a história ao grande ecrã, em “A Nona Porta” (1999), com Johnny Depp enquanto protagonista. Em cena, vê-se o Chalet Biestes, o Hotel Central, o Palácio da Vila. O tesouro português dava nas vistas pelas salas de cinema de todo o mundo. Inevitavelmente, tornava-se mais conhecido. O orgulho nacional, esse não parou de aumentar. Mesmo quando lemos na imprensa internacional aquilo que já sabemos: «Um dos mais belos sítios da Europa», atesta a “Forbes”. «Como uma página retirada de um conto de fadas», acrescenta o guia “Lonely Planet”. Sim, Sintra é, possivelmente, o segredo mais mal guardado de Portugal. Gostamos que assim continue.

AM AL

PATRIMÓNIO AFECTIVO

1

GA

ß

ROTEIRO SINTRA

RR

AV

RUA CÂMARA PESTANA

1

HOTEL TIVOLI PALÁCIO DE SETEAIS. RUA BARBOSA DU BOCAGE, 10

Outrora residência do cônsul holandês, o Palácio de Seteais é hoje «um dos mais grandiosos hotéis “boutique” da Europa», segundo a revista “Travel + Leisure”. Reaberto em 2009, após um ano de trabalhos de restauro, este palácio setecentista tem 29 quartos, uma suite e, entre outros apelativos, uma vista deslumbrante sobre a região. www.tivolihotels.com

1

RESTAURANTE SETEAIS. RUA BARBOSA DU BOCAGE, 10

Uma panorâmica soberba para o jardim, uma sala onde o requinte palaciano é a nota dominante e uma carta feita tanto de sabores tradicionais como de cozinha internacional, assinada pelo chefe Luís Baena. O cenário ideal para um jantar inesquecível. www.tivolihotels.com

janeiro/fevereiro 2010

magazine.63

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TEXTO CARLOS ALVES FOTOGRAFIA PAULO BARATA

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AS QUEIJADAS, AS CASAS DE CHÁ E OS LOCAIS AOS QUAIS PROMETEMOS SEMPRE UM BREVE REGRESSO.

«

Sair para ver o mundo e não passar por Sintra é andar às cegas», narra um ditado espanhol. Sintra, tal como Évora ou Guimarães, é um dos nossos lugares sentimentais – todos os países têm os seus –, onde gostamos de levar visitantes estrangeiros. Adoramos vê-los deslumbrados. Nesses momentos, questionamos a razão de não a visitarmos mais vezes, ficando a promessa: «Um dia destes, volto a Sintra.» O Palácio da Vila, invariável ponto de partida, abre o apetite para as obrigatórias delícias locais, a queijada e o travesseiro. Nessa altura, todos os caminhos vão dar à concorrida Piriquita, a dois passos do Palácio. As melhores queijadas, porém – garante quem já se deu ao trabalho de comparar – são as da Sapa, a meio caminho entre a Vila Velha e a Estefânea. Para uma prova exaustiva, deve-se também experimentar as da Casa do Preto e as do Gregório. A par do ritual doceiro vem um outro, o do chá, que ganha mais elegância num cenário destes. Casas de chá não faltam. A da Raposa é, talvez, a mais conhecida. Há coisa de meio ano abriu a convidativa Maggie’s Tea Spot, no coração da Vila Velha, e a antiga Fábrica de Queijadas Finas Mathilde foi convertida na genuinamente portuguesa Saudade. Qualquer uma delas serve na perfeição como pretexto para nos reapaixonarmos por Sintra. Por essa Sintra feita de histórias, de monumentos, de cultura – que não se esgota nos palácios nem nas crónicas do antigamente. Se, no passado, excêntricos milionários deram à paisagem faustosos palácios e “chalets”, em tempos mais recentes o empresário José Berardo enriqueceu a vila com um valioso Museu de Arte Contemporânea. Por detrás desse museu reside outra instituição cultural de referência, o Centro Cultural Olga Cadaval, assim rebaptizado em homenagem à Marquesa de Cadaval – também ela mecenas das artes –, uma italiana que fez da região a sua casa. «Diz-se que todo o estrangeiro poderá encontrar em Sintra um pedaço da sua pátria; eu descobri aí a Dinamarca», anotou Hans Christian Andersen, um dos muitos escritores que fizeram de Sintra cenário das suas narrativas. Arturo Pérez-Reverte, um dos mais aclamados romancistas espanhóis da actualidade, aqui situou parte da acção de “O Clube Dumas” (1993). Roman Polanski adaptou (vagamente) a história ao grande ecrã, em “A Nona Porta” (1999), com Johnny Depp enquanto protagonista. Em cena, vê-se o Chalet Biestes, o Hotel Central, o Palácio da Vila. O tesouro português dava nas vistas pelas salas de cinema de todo o mundo. Inevitavelmente, tornava-se mais conhecido. O orgulho nacional, esse não parou de aumentar. Mesmo quando lemos na imprensa internacional aquilo que já sabemos: «Um dos mais belos sítios da Europa», atesta a “Forbes”. «Como uma página retirada de um conto de fadas», acrescenta o guia “Lonely Planet”. Sim, Sintra é, possivelmente, o segredo mais mal guardado de Portugal. Gostamos que assim continue.

AM AL

PATRIMÓNIO AFECTIVO

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ROTEIRO SINTRA

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RUA CÂMARA PESTANA

1

HOTEL TIVOLI PALÁCIO DE SETEAIS. RUA BARBOSA DU BOCAGE, 10

Outrora residência do cônsul holandês, o Palácio de Seteais é hoje «um dos mais grandiosos hotéis “boutique” da Europa», segundo a revista “Travel + Leisure”. Reaberto em 2009, após um ano de trabalhos de restauro, este palácio setecentista tem 29 quartos, uma suite e, entre outros apelativos, uma vista deslumbrante sobre a região. www.tivolihotels.com

1

RESTAURANTE SETEAIS. RUA BARBOSA DU BOCAGE, 10

Uma panorâmica soberba para o jardim, uma sala onde o requinte palaciano é a nota dominante e uma carta feita tanto de sabores tradicionais como de cozinha internacional, assinada pelo chefe Luís Baena. O cenário ideal para um jantar inesquecível. www.tivolihotels.com

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MARIA SAUDADE.

QUEIJADAS DA SAPA.

SAUDADE.

RUA COSTA DO CASTELO, 1

RUA DA FERRARIA, 15

VOLTA DO DUQUE, 12

Aqui não há queijadas nem travesseiros. Há chás Mariage Frères, há bolos e biscoitos de fabrico artesanal (os de cerveja são qualquer coisa de fantástico) e há, de vez em quando, exposições de arte e de artesanato, e jazz ao vivo. Nos dias de Sol, a esplanada dá-lhe outra alegria. maggiesteaspot.blogspot.com

Do galo de Barcelos «redecorado» às malas de materiais reciclados, com um lugar para as marcas do antigamente, como os lápis Viarco ou os sabonetes Ach. Brito — ou não fosse Saudade o seu nome. Este espaço é em simultâneo um atelier e uma loja de artesanato (tradicional e urbano), acessórios de autor e produtos clássicos portugueses. T.: 915805319

O nome completo é categórico: Fábrica das Verdadeiras Queijadas da Sapa. E quem já correu as «capelinhas» todas confere-lhe o título. As queijadas são feitas no local, segundo uma tradição com mais de 250 anos (a casa foi fundada em 1756), e, com tempo, saboreiam-se melhor na pequena sala dos fundos, com vista para o Palácio da Vila. T.: 219230493

AVENIDA MIGUEL BOMBARDA, 6 Mal passamos pela primeira vez o limiar da porta, tudo nos parece familiar. A dada altura, dá até a ideia de que fomos lanchar a casa de alguém que não víamos há muito tempo. A partir de uma antiga fábrica de queijadas, Luís e Maria Pereira criaram o café mais nostálgico de Sintra. A (re)descobrir. Várias vezes. saudadevidaeartedopovoportugues.blogspot.com

8 NA

STA

A PE

MAR

CÂ RUA

7

AV. HELIODO

RO SALGADO

MAGGIE’S TEA SPOT.

ESTEFÂNEA

SINTRA

AL

LG. AFONSO ALBUQUERQUE

RUA CÂMARA PESTANA

6

PR OF

.D

R.

AL

FR ED

O

DA

CO

ST

A

AM DA . DOS GR C AN OMB DE A GU TENT ER RA ES

RU

A

RUA ANDRÉ ALBUQUERQUE

5

US

RUA JOÃO

DE

DE

RUA DO PAÇO

6

7 4

G SPOT. ALAMEDA COMBATENTES DA GRANDE GUERRA, 12 A/B

28.magazine

janeiro/fevereiro 2010

VILA VELHA VOLTA DO DUCHE RUA VI

SC. DE

TE

EN

3

IC

LV

A

GI

2

RU

NA

PE

ESTR. DA

Os chefes João Sá e André Simões e o premiado escansão Manuel Moreira — todos eles ex-sócios do extinto 100 Maneiras, em Cascais — voltaram a juntar-se para criar este espaço despretensioso que privilegia a cozinha de autor a preços convidativos e uma carta de vinhos a condizer. T.: 927508027

PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA

MONSE

RRATE RUA MARECHAL . SALDANHA

8

SINTRA MUSEU DE ARTE MODERNA.

CENTRO CULTURAL OLGA CADAVAL.

AVENIDA HELIODORO SALGADO

LARGO FRANCISCO SÁ CARNEIRO

No antigo Casino — convertido em Museu de Arte Moderna em 1997, a partir da colecção Berardo —, estará patente até 11 de Abril a exposição “Índia — Mito, Sensualidade e Ficção”, que reúne trabalhos de Umrao Singh Sher-Gil, Amrita Sher-Gil, Vivan Sundaram e Navina Sundaram, bem como um núcleo de antiguidades decorativas indianas e uma fotobiografia de Ghandi. www.berardocollection.com

No lugar do antigo Cine-Teatro Carlos Manuel (um projecto de 1945, assinado pelo arquitecto Norte Júnior), nasceu um activo centro cultural que, aos poucos, se tem vindo a afirmar muito para lá da região de Sintra. Para os próximos meses, estão agendados os concertos de Roland Tchakounté (26 de Fevereiro), Mayra Andrade (27 de Fevereiro) e Nouvelle Vague (26 de Março). www.ccolgacadaval.pt

janeiro/fevereiro 2010

magazine.29


SINTRA

ROTEIRO

2

3

4

5

MARIA SAUDADE.

QUEIJADAS DA SAPA.

SAUDADE.

RUA COSTA DO CASTELO, 1

RUA DA FERRARIA, 15

VOLTA DO DUQUE, 12

Aqui não há queijadas nem travesseiros. Há chás Mariage Frères, há bolos e biscoitos de fabrico artesanal (os de cerveja são qualquer coisa de fantástico) e há, de vez em quando, exposições de arte e de artesanato, e jazz ao vivo. Nos dias de Sol, a esplanada dá-lhe outra alegria. maggiesteaspot.blogspot.com

Do galo de Barcelos «redecorado» às malas de materiais reciclados, com um lugar para as marcas do antigamente, como os lápis Viarco ou os sabonetes Ach. Brito — ou não fosse Saudade o seu nome. Este espaço é em simultâneo um atelier e uma loja de artesanato (tradicional e urbano), acessórios de autor e produtos clássicos portugueses. T.: 915805319

O nome completo é categórico: Fábrica das Verdadeiras Queijadas da Sapa. E quem já correu as «capelinhas» todas confere-lhe o título. As queijadas são feitas no local, segundo uma tradição com mais de 250 anos (a casa foi fundada em 1756), e, com tempo, saboreiam-se melhor na pequena sala dos fundos, com vista para o Palácio da Vila. T.: 219230493

AVENIDA MIGUEL BOMBARDA, 6 Mal passamos pela primeira vez o limiar da porta, tudo nos parece familiar. A dada altura, dá até a ideia de que fomos lanchar a casa de alguém que não víamos há muito tempo. A partir de uma antiga fábrica de queijadas, Luís e Maria Pereira criaram o café mais nostálgico de Sintra. A (re)descobrir. Várias vezes. saudadevidaeartedopovoportugues.blogspot.com

8 NA

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AV. HELIODO

RO SALGADO

MAGGIE’S TEA SPOT.

ESTEFÂNEA

SINTRA

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LG. AFONSO ALBUQUERQUE

RUA CÂMARA PESTANA

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RUA ANDRÉ ALBUQUERQUE

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RUA JOÃO

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RUA DO PAÇO

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7 4

G SPOT. ALAMEDA COMBATENTES DA GRANDE GUERRA, 12 A/B

28.magazine

janeiro/fevereiro 2010

VILA VELHA VOLTA DO DUCHE RUA VI

SC. DE

TE

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PE

ESTR. DA

Os chefes João Sá e André Simões e o premiado escansão Manuel Moreira — todos eles ex-sócios do extinto 100 Maneiras, em Cascais — voltaram a juntar-se para criar este espaço despretensioso que privilegia a cozinha de autor a preços convidativos e uma carta de vinhos a condizer. T.: 927508027

PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA

MONSE

RRATE RUA MARECHAL . SALDANHA

8

SINTRA MUSEU DE ARTE MODERNA.

CENTRO CULTURAL OLGA CADAVAL.

AVENIDA HELIODORO SALGADO

LARGO FRANCISCO SÁ CARNEIRO

No antigo Casino — convertido em Museu de Arte Moderna em 1997, a partir da colecção Berardo —, estará patente até 11 de Abril a exposição “Índia — Mito, Sensualidade e Ficção”, que reúne trabalhos de Umrao Singh Sher-Gil, Amrita Sher-Gil, Vivan Sundaram e Navina Sundaram, bem como um núcleo de antiguidades decorativas indianas e uma fotobiografia de Ghandi. www.berardocollection.com

No lugar do antigo Cine-Teatro Carlos Manuel (um projecto de 1945, assinado pelo arquitecto Norte Júnior), nasceu um activo centro cultural que, aos poucos, se tem vindo a afirmar muito para lá da região de Sintra. Para os próximos meses, estão agendados os concertos de Roland Tchakounté (26 de Fevereiro), Mayra Andrade (27 de Fevereiro) e Nouvelle Vague (26 de Março). www.ccolgacadaval.pt

janeiro/fevereiro 2010

magazine.29


LINHA DA FRENTE

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA PEDRO LOUREIRO

CLEAN FEED

ATITUDE JAZZ NASCEU HÁ DEZ ANOS, EM LISBOA, COM O OBJECTIVO QUASE IMPOSSÍVEL DE SE TORNAR UMA EDITORA GLOBAL DE JAZZ. REMANDO CONTRA MARÉS DE CRISE, CONSTRUIU UM CATÁLOGO DE 240 DISCOS ELOGIADO PELA MAIS EXIGENTE IMPRENSA INTERNACIONAL, AO PONTO DE SER APONTADA COMO EXEMPLO DE EMPREENDEDORISMO POR CAVACO SILVA. A CLEAN FEED RECORDS É HOJE UMA REFERÊNCIA EM TODO O MUNDO.

setembro/outubro 2011

magazine.63


LINHA DA FRENTE

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA PEDRO LOUREIRO

CLEAN FEED

ATITUDE JAZZ NASCEU HÁ DEZ ANOS, EM LISBOA, COM O OBJECTIVO QUASE IMPOSSÍVEL DE SE TORNAR UMA EDITORA GLOBAL DE JAZZ. REMANDO CONTRA MARÉS DE CRISE, CONSTRUIU UM CATÁLOGO DE 240 DISCOS ELOGIADO PELA MAIS EXIGENTE IMPRENSA INTERNACIONAL, AO PONTO DE SER APONTADA COMO EXEMPLO DE EMPREENDEDORISMO POR CAVACO SILVA. A CLEAN FEED RECORDS É HOJE UMA REFERÊNCIA EM TODO O MUNDO.

setembro/outubro 2011

magazine.63


LINHA DA FRENTE CLEAN FEED RECORDS

PEDRO COSTA, ACOMPANHADO POR DOIS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA EQUIPA CLEAN FEED: O DESIGNER TRAVASSOS E HERNÂNI FAUSTINO, UM DOS QUATRO SÓCIOS (FORA DO RETRATO FICARAM ILÍDIO NUNES E CARLOS COSTA).

“Jazz is boring”. O mesmo é dizer, «o jazz é aborrecido». Estranha forma de começar uma conversa com o fundador de uma das maiores editoras de jazz da actualidade. Mas é o próprio, Pedro Costa, que defende: «Se o entendermos como uma música ambiente, cristalizada, tocada por músicos que não tentam puxar a coisa para a frente, se for só aquilo que muita gente defende, do “swing” e esse tipo de coisas, então para nós é mesmo “boring”.» Sendo o jazz «uma música que não é pura nem nunca foi», acrescenta, «para continuar a fazer sentido hoje em dia tem de passar pela vontade de ir mais longe, seja pela mistura com electrónica, rock, punk, músicas do mundo, pela improvisação ou pela exploração da melodia, que é uma coisa intemporal.» O projecto de criar em Portugal uma editora especializada em jazz arrancou em 2001, com uma pequena loja num centro comercial em estado de semi-abandono, um orçamento de quatro mil euros e um disco gravado ao vivo no Festival de Jazz do Seixal, “The Implicate Order”, com o trio norte-americano Steve Swell, Kien Filiano e Lou Grassi e os saxofonistas portugueses Rodrigo Amado e Paulo Curado. «Começámos devagarinho – dois ou três discos no primeiro ano, cinco no segundo – mas de imediato pensámos em fazer mais, para conseguirmos arranjar distribuidores.» Passados dez anos, o catálogo reúne 240 títulos e todos os anos cresce a olhos vistos – em 2010, foram lançados 48 novos discos e até ao final de 2011 estão previstos 33. E a crise? «Já começámos em crise, primeiro a do suporte em CD, depois a crise económica. Nunca soubemos o que era não estar em crise. Portanto, vamos compensando com o aumento de edições, com o crescimento da editora: é muito mais fácil sustentar um catálogo de 240 referências do que um de dez ou 15.» À partida, a escolha de Lisboa para quartel-general poderia ser lida como uma condenação ao fracasso – afinal, a editora estava a instalar-se na periferia dos grandes centros de jazz, demasiado longe de cidades como Nova Iorque, Estocolmo, Chicago ou Paris. No entanto, isso é só uma maneira (pessimista) de ver as coisas. «O que se tem passado no jazz ao longo destes 100 anos é que as editoras estão sempre ligadas a uma cena: a Blue Note não tem nada que não seja músicos americanos, tal como a ECM grava essencialmente músicos europeus que, além de estarem confinados a um certo estilo, estão muito concentrados no Norte da Europa.» A Clean Feed decidiu fazer da desvantagem um ponto a seu favor. «Sempre fomos muito curiosos acerca do que se passa no mundo inteiro e achámos que fazia sentido uma editora que cobrisse tudo, que documentasse esta época da música em termos globais.» Nate Chinen, crítico do jornal “New York Times”, assina por baixo: «A vanguarda do jazz sempre foi um território multinacional. Não é de estranhar que uma das discográficas mais vibrantes da cena jazz actual esteja sediada em Lisboa. A ascensão da Clean Feed Records ilustra até que ponto o intercâmbio global se tornou fluido.» A música sempre fez parte da vida de Pedro Costa. Comprou o seu primeiro disco aos 8 anos, aos 15 descobriu o jazz e, a partir daí, «abriu-se um mundo de coisas novas.» Primeiro, deixou-se obcecar pelo género, com o tempo foi alargando o 64.magazine

setembro/outubro 2011

espectro de interesses. «É importante manter a abertura de espírito, até porque o jazz hoje em dia é uma coisa muito mais ampla.» O seu percurso profissional acabou por estar directamente ligado à música – mesmo antes de embarcar na aventura de criar uma editora com os seus irmãos Carlos e Nuno, trabalhou em lojas como a Fnac ou a Valentim de Carvalho, onde foi coordenador da secção de jazz. E se nos primórdios da Clean Feed recebia dois ou três discos por ano, hoje são dois ou três por dia e só se lamenta de não ter tempo para ouvir mais música. «Chego ao fim do mês com uns 100 discos para ouvir.» Mais do que uma obrigação, é uma missão: «Temos de ter a capacidade de reconhecer a música quando ela está a acontecer, há demasiados exemplos de músicos que fizeram coisas incríveis e só tiveram o mérito passados 30 anos. Nós tentamos trazer reconhecimento à música que se passa hoje em dia.» Volvida uma década sobre “The Implicate Order”, a Clean Feed é respeitada pelo mercado, elogiada pela crítica, seguida de perto pelos fãs e apetecida pelos artistas. O catálogo inclui nomes consagrados como Gerry Hemingway, Tony Malaby, Anthony Braxton, Bernardo Sassetti ou Ken Vandermark. «Para eles, é bom estar numa editora com vitalidade, que continua a investir em músicos novos – talvez lhes interesse mais isso do que estar numa editora que até paga mais mas tem um catálogo sem vida». Mais de metade da produção (75%) é vendida fora de portas, principalmente nos Estados Unidos, Alemanha, Japão e Polónia. Para manter o contacto com seguidores e artistas, a “label” organiza há cinco anos o Clean Feed Fest em Nova Iorque, iniciativa que


LINHA DA FRENTE CLEAN FEED RECORDS

PEDRO COSTA, ACOMPANHADO POR DOIS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA EQUIPA CLEAN FEED: O DESIGNER TRAVASSOS E HERNÂNI FAUSTINO, UM DOS QUATRO SÓCIOS (FORA DO RETRATO FICARAM ILÍDIO NUNES E CARLOS COSTA).

“Jazz is boring”. O mesmo é dizer, «o jazz é aborrecido». Estranha forma de começar uma conversa com o fundador de uma das maiores editoras de jazz da actualidade. Mas é o próprio, Pedro Costa, que defende: «Se o entendermos como uma música ambiente, cristalizada, tocada por músicos que não tentam puxar a coisa para a frente, se for só aquilo que muita gente defende, do “swing” e esse tipo de coisas, então para nós é mesmo “boring”.» Sendo o jazz «uma música que não é pura nem nunca foi», acrescenta, «para continuar a fazer sentido hoje em dia tem de passar pela vontade de ir mais longe, seja pela mistura com electrónica, rock, punk, músicas do mundo, pela improvisação ou pela exploração da melodia, que é uma coisa intemporal.» O projecto de criar em Portugal uma editora especializada em jazz arrancou em 2001, com uma pequena loja num centro comercial em estado de semi-abandono, um orçamento de quatro mil euros e um disco gravado ao vivo no Festival de Jazz do Seixal, “The Implicate Order”, com o trio norte-americano Steve Swell, Kien Filiano e Lou Grassi e os saxofonistas portugueses Rodrigo Amado e Paulo Curado. «Começámos devagarinho – dois ou três discos no primeiro ano, cinco no segundo – mas de imediato pensámos em fazer mais, para conseguirmos arranjar distribuidores.» Passados dez anos, o catálogo reúne 240 títulos e todos os anos cresce a olhos vistos – em 2010, foram lançados 48 novos discos e até ao final de 2011 estão previstos 33. E a crise? «Já começámos em crise, primeiro a do suporte em CD, depois a crise económica. Nunca soubemos o que era não estar em crise. Portanto, vamos compensando com o aumento de edições, com o crescimento da editora: é muito mais fácil sustentar um catálogo de 240 referências do que um de dez ou 15.» À partida, a escolha de Lisboa para quartel-general poderia ser lida como uma condenação ao fracasso – afinal, a editora estava a instalar-se na periferia dos grandes centros de jazz, demasiado longe de cidades como Nova Iorque, Estocolmo, Chicago ou Paris. No entanto, isso é só uma maneira (pessimista) de ver as coisas. «O que se tem passado no jazz ao longo destes 100 anos é que as editoras estão sempre ligadas a uma cena: a Blue Note não tem nada que não seja músicos americanos, tal como a ECM grava essencialmente músicos europeus que, além de estarem confinados a um certo estilo, estão muito concentrados no Norte da Europa.» A Clean Feed decidiu fazer da desvantagem um ponto a seu favor. «Sempre fomos muito curiosos acerca do que se passa no mundo inteiro e achámos que fazia sentido uma editora que cobrisse tudo, que documentasse esta época da música em termos globais.» Nate Chinen, crítico do jornal “New York Times”, assina por baixo: «A vanguarda do jazz sempre foi um território multinacional. Não é de estranhar que uma das discográficas mais vibrantes da cena jazz actual esteja sediada em Lisboa. A ascensão da Clean Feed Records ilustra até que ponto o intercâmbio global se tornou fluido.» A música sempre fez parte da vida de Pedro Costa. Comprou o seu primeiro disco aos 8 anos, aos 15 descobriu o jazz e, a partir daí, «abriu-se um mundo de coisas novas.» Primeiro, deixou-se obcecar pelo género, com o tempo foi alargando o 64.magazine

setembro/outubro 2011

espectro de interesses. «É importante manter a abertura de espírito, até porque o jazz hoje em dia é uma coisa muito mais ampla.» O seu percurso profissional acabou por estar directamente ligado à música – mesmo antes de embarcar na aventura de criar uma editora com os seus irmãos Carlos e Nuno, trabalhou em lojas como a Fnac ou a Valentim de Carvalho, onde foi coordenador da secção de jazz. E se nos primórdios da Clean Feed recebia dois ou três discos por ano, hoje são dois ou três por dia e só se lamenta de não ter tempo para ouvir mais música. «Chego ao fim do mês com uns 100 discos para ouvir.» Mais do que uma obrigação, é uma missão: «Temos de ter a capacidade de reconhecer a música quando ela está a acontecer, há demasiados exemplos de músicos que fizeram coisas incríveis e só tiveram o mérito passados 30 anos. Nós tentamos trazer reconhecimento à música que se passa hoje em dia.» Volvida uma década sobre “The Implicate Order”, a Clean Feed é respeitada pelo mercado, elogiada pela crítica, seguida de perto pelos fãs e apetecida pelos artistas. O catálogo inclui nomes consagrados como Gerry Hemingway, Tony Malaby, Anthony Braxton, Bernardo Sassetti ou Ken Vandermark. «Para eles, é bom estar numa editora com vitalidade, que continua a investir em músicos novos – talvez lhes interesse mais isso do que estar numa editora que até paga mais mas tem um catálogo sem vida». Mais de metade da produção (75%) é vendida fora de portas, principalmente nos Estados Unidos, Alemanha, Japão e Polónia. Para manter o contacto com seguidores e artistas, a “label” organiza há cinco anos o Clean Feed Fest em Nova Iorque, iniciativa que


LINHA DA FRENTE CLEAN FEED RECORDS

também já passou por Chicago, Madrid, Amesterdão, Liubliana e chega este ano a Portugal (em Novembro), dividida entre Porto e Lisboa. A imprensa especializada internacional, que rapidamente reparou na qualidade do trabalho desenvolvido pela jovem editora, é unânime em apontá-la como uma das mais importantes da actualidade (aliás, «a» mais importante, segundo alguns críticos). Por cá, as coisas foram um pouco mais difíceis. «A malta é muito desconfiada das coisas nacionais, pensam logo “Editora portuguesa de jazz? Quem mete lá discos é porque não arranja outra!”.» Pedro Costa refere-se tanto à crítica como ao público em geral. «Havia uma certa pressão para não sairmos, para sermos pequeninos, para editarmos só música portuguesa e pelo simples facto de ser portuguesa.» E isso era (e continua a ser) um ponto inegociável: «Nós queremos é editar música boa, não interessa de onde os músicos são.» O segredo, garante, «é ir sempre aos bocadinhos»: «Por exemplo, há um ano esteve cá o Presidente de República, e atrás veio a imprensa – isso foi mais um bocadinho. Se sai um disco que é um sucesso, é outro bocadinho.» Com todos esses «bocadinhos» se contam os dez anos de percurso de um projecto inédito em Portugal, aplaudido por Cavaco Silva como um «exemplo de empreendedorismo jovem, criatividade e inovação no espaço urbano». «O nosso interesse é fazer: fazer mais, fazer bem, fazer melhor», sintetiza Pedro Costa. Com orgulho. Afinal, «o jazz é uma questão de atitude». l

TREM AZUL. A face mais visível da Clean Feed é a Trem Azul. Além de funcionar como sede da editora (numa sala dos fundos), é uma excelente loja de jazz com tudo o que caiba dentro da categoria, posto de escuta (com confortáveis cadeirões) e espaço para “showcases” ao vivo. Rua do Alecrim, 21ª (Cais do Sodré), Lisboa Tel.: 213 423 140 tremazul.com

POSTO DE ESCUTA

AS SUGESTÕES DE PEDRO COSTA.

LAWNMOWER, “WEST” (2010)

TRIPLEPLAY, “GAMBIT” (2004)

Um disco na fronteira da folk.

FIGHT THE BIG BULL, “ALL IS GLADNESS IN THE KINGDOM” (2010)

Representa mais um passo da

Segunda passagem do grupo pela

da actualidade que mais admiro, pelo

Clean Feed na direcção de uma

Clean Feed, este disco teve a particu-

conceito, pela seriedade, pelo profissio-

cada vez maior diversidade estilística.

laridade de contar com a colaboração

nalismo. Já o gravámos quatro vezes

É um CD controverso, do qual nem

de Steven Bernstein nos arranjos e de

em Portugal e no que respeita a con-

toda a gente gosta. As guitarras são

ter causado um inesperado aplauso,

certos é o nosso visitante mais regular.

ambientais e muito “folky”, nada

sobretudo nos EUA e em Portugal.

Após Tripleplay, todos os projectos de

jazzísticas, o que torna o grupo muito

São músicos muito jovens, cheios

Vandermark por nós lançados nasceram

original. Tudo o que acontece,

de energia positiva e competência.

em Portugal, casos do 4Corners,

incluindo as improvisações,

O potencial revelou-se tão grande que

com Adam Lane, Magnus Broo e Paal

obedece a um conceito global.

o seu líder, Matt White, decidiu contra-

Nilssen-Love, do trio Side A com Havard

tar um publicista que concebesse uma

Wiik e Chad Taylor, do grupo Platform 1

campanha especial de promoção.

e do seu novo quarteto Made to Break.

66.magazine

setembro/outubro 2011

Ken Vandermark é um dos músicos

O ‘JAZZMAN’ CARLOS BARRETO, DE VISITA À TREM AZUL, FOI CONVIDADO A JUNTAR-SE AO RETRATO DE FAMÍLIA.


LINHA DA FRENTE CLEAN FEED RECORDS

também já passou por Chicago, Madrid, Amesterdão, Liubliana e chega este ano a Portugal (em Novembro), dividida entre Porto e Lisboa. A imprensa especializada internacional, que rapidamente reparou na qualidade do trabalho desenvolvido pela jovem editora, é unânime em apontá-la como uma das mais importantes da actualidade (aliás, «a» mais importante, segundo alguns críticos). Por cá, as coisas foram um pouco mais difíceis. «A malta é muito desconfiada das coisas nacionais, pensam logo “Editora portuguesa de jazz? Quem mete lá discos é porque não arranja outra!”.» Pedro Costa refere-se tanto à crítica como ao público em geral. «Havia uma certa pressão para não sairmos, para sermos pequeninos, para editarmos só música portuguesa e pelo simples facto de ser portuguesa.» E isso era (e continua a ser) um ponto inegociável: «Nós queremos é editar música boa, não interessa de onde os músicos são.» O segredo, garante, «é ir sempre aos bocadinhos»: «Por exemplo, há um ano esteve cá o Presidente de República, e atrás veio a imprensa – isso foi mais um bocadinho. Se sai um disco que é um sucesso, é outro bocadinho.» Com todos esses «bocadinhos» se contam os dez anos de percurso de um projecto inédito em Portugal, aplaudido por Cavaco Silva como um «exemplo de empreendedorismo jovem, criatividade e inovação no espaço urbano». «O nosso interesse é fazer: fazer mais, fazer bem, fazer melhor», sintetiza Pedro Costa. Com orgulho. Afinal, «o jazz é uma questão de atitude». l

TREM AZUL. A face mais visível da Clean Feed é a Trem Azul. Além de funcionar como sede da editora (numa sala dos fundos), é uma excelente loja de jazz com tudo o que caiba dentro da categoria, posto de escuta (com confortáveis cadeirões) e espaço para “showcases” ao vivo. Rua do Alecrim, 21ª (Cais do Sodré), Lisboa Tel.: 213 423 140 tremazul.com

POSTO DE ESCUTA

AS SUGESTÕES DE PEDRO COSTA.

LAWNMOWER, “WEST” (2010)

TRIPLEPLAY, “GAMBIT” (2004)

Um disco na fronteira da folk.

FIGHT THE BIG BULL, “ALL IS GLADNESS IN THE KINGDOM” (2010)

Representa mais um passo da

Segunda passagem do grupo pela

da actualidade que mais admiro, pelo

Clean Feed na direcção de uma

Clean Feed, este disco teve a particu-

conceito, pela seriedade, pelo profissio-

cada vez maior diversidade estilística.

laridade de contar com a colaboração

nalismo. Já o gravámos quatro vezes

É um CD controverso, do qual nem

de Steven Bernstein nos arranjos e de

em Portugal e no que respeita a con-

toda a gente gosta. As guitarras são

ter causado um inesperado aplauso,

certos é o nosso visitante mais regular.

ambientais e muito “folky”, nada

sobretudo nos EUA e em Portugal.

Após Tripleplay, todos os projectos de

jazzísticas, o que torna o grupo muito

São músicos muito jovens, cheios

Vandermark por nós lançados nasceram

original. Tudo o que acontece,

de energia positiva e competência.

em Portugal, casos do 4Corners,

incluindo as improvisações,

O potencial revelou-se tão grande que

com Adam Lane, Magnus Broo e Paal

obedece a um conceito global.

o seu líder, Matt White, decidiu contra-

Nilssen-Love, do trio Side A com Havard

tar um publicista que concebesse uma

Wiik e Chad Taylor, do grupo Platform 1

campanha especial de promoção.

e do seu novo quarteto Made to Break.

66.magazine

setembro/outubro 2011

Ken Vandermark é um dos músicos

O ‘JAZZMAN’ CARLOS BARRETO, DE VISITA À TREM AZUL, FOI CONVIDADO A JUNTAR-SE AO RETRATO DE FAMÍLIA.


VIAGEM MACAU

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA PAULO BARATA

VENTOS DE BONANÇA.

NASCEU COMO ESPAÇO

PASSADOS ONZE ANOS SOBRE O «REGRESSO À PÁTRIA-MÃE». LUGAR SENTIMENTAL

INVENTADO, ALGURES ENTRE A CHINA E O OCIDENTE, E ASSIM PRETENDE CONTINUAR, PARA PORTUGUESES, POR UM LADO, CADA VEZ MAIS PARQUE DE DIVERSÕES PARA

ASIÁTICOS, POR OUTRO, MACAU MUDA TODOS OS DIAS.

46.magazine

janeiro/fevereiro 2011

janeiro/fevereiro 2011

magazine.47


VIAGEM MACAU

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA PAULO BARATA

VENTOS DE BONANÇA.

NASCEU COMO ESPAÇO

PASSADOS ONZE ANOS SOBRE O «REGRESSO À PÁTRIA-MÃE». LUGAR SENTIMENTAL

INVENTADO, ALGURES ENTRE A CHINA E O OCIDENTE, E ASSIM PRETENDE CONTINUAR, PARA PORTUGUESES, POR UM LADO, CADA VEZ MAIS PARQUE DE DIVERSÕES PARA

ASIÁTICOS, POR OUTRO, MACAU MUDA TODOS OS DIAS.

46.magazine

janeiro/fevereiro 2011

janeiro/fevereiro 2011

magazine.47


VIAGEM MACAU

VENTOS DE BONANÇA

NO INÍCIO, MACAU NÃO TINHA NEM METADE DA ÁREA QUE TEM HOJE.

Constncoes e epnipamentos be cozinha.» O letreiro, tão difícil de decifrar para um lusófono como para quem não percebe patavina de português, é revelador. Como idioma oficial que é (ao lado do chinês), a língua de Camões está por todo o lado. Nas placas das ruas, ainda que a toponímia chinesa não seja uma tradução do «original»; nos sinais de trânsito; nos comunicados emitidos por entidades públicas; nos letreiros das lojas, mesmo que os donos não saibam o significado real daquilo que têm escrito na montra. Um restaurante é um «estabelecimento de comidas». Há consultórios de «massagista de quedas e pancadas». E a loja San Weng Heng vende «constncoes e epnipamentos be cozinha». Entre expatriados, luso-asiáticos e estudantes 48.magazine

janeiro/fevereiro 2011

A DADA ALTURA, SENTIU-SE DEMASIADO PEQUENA PARA A SUA AMBIÇÃO.

chineses de olho em apetecíveis mercados emergentes, como Angola e Brasil, estima-se que existam cerca de cinco mil lusofalantes, o que não corresponde sequer a 1% da população de 600 mil. Não é fácil encontrar quem fale a língua. Joy Ana Souza é a primeira a responder à letra ao nosso «bom dia». Apesar de luso-descendente, foi já em adulta que esta freira indiana aprendeu português. Encontramo-la atrás do balcão da Livraria de São Paulo, pertencente à congregação religiosa. Não é só a palavra de Deus que enche as estantes: há muitos títulos em português, nomeadamente manuais de direito, clássicos da nossa literatura e algumas novidades, como a mais recente colecção das aventuras de Tintin. E têm procura, garante. janeiro/fevereiro 2011

magazine.49


VIAGEM MACAU

VENTOS DE BONANÇA

NO INÍCIO, MACAU NÃO TINHA NEM METADE DA ÁREA QUE TEM HOJE.

Constncoes e epnipamentos be cozinha.» O letreiro, tão difícil de decifrar para um lusófono como para quem não percebe patavina de português, é revelador. Como idioma oficial que é (ao lado do chinês), a língua de Camões está por todo o lado. Nas placas das ruas, ainda que a toponímia chinesa não seja uma tradução do «original»; nos sinais de trânsito; nos comunicados emitidos por entidades públicas; nos letreiros das lojas, mesmo que os donos não saibam o significado real daquilo que têm escrito na montra. Um restaurante é um «estabelecimento de comidas». Há consultórios de «massagista de quedas e pancadas». E a loja San Weng Heng vende «constncoes e epnipamentos be cozinha». Entre expatriados, luso-asiáticos e estudantes 48.magazine

janeiro/fevereiro 2011

A DADA ALTURA, SENTIU-SE DEMASIADO PEQUENA PARA A SUA AMBIÇÃO.

chineses de olho em apetecíveis mercados emergentes, como Angola e Brasil, estima-se que existam cerca de cinco mil lusofalantes, o que não corresponde sequer a 1% da população de 600 mil. Não é fácil encontrar quem fale a língua. Joy Ana Souza é a primeira a responder à letra ao nosso «bom dia». Apesar de luso-descendente, foi já em adulta que esta freira indiana aprendeu português. Encontramo-la atrás do balcão da Livraria de São Paulo, pertencente à congregação religiosa. Não é só a palavra de Deus que enche as estantes: há muitos títulos em português, nomeadamente manuais de direito, clássicos da nossa literatura e algumas novidades, como a mais recente colecção das aventuras de Tintin. E têm procura, garante. janeiro/fevereiro 2011

magazine.49


VIAGEM MACAU

Uma coisa é a China, outra é Macau.

«Um país, dois sistemas», estipula o regime de autonomia da Região Administrativa Especial. E não é só uma questão de língua – são muitas as diferenças. Exemplos flagrantes: a liberdade de expressão, o sistema penal e o nível de vida, com o PIB “per capita” a rondar os 33 mil dólares, cinco vezes mais elevado do que na China. Ou o jogo: Macau é o único lugar em todo o subcontinente onde os casinos são legais. A liberalização do sector, em 2002, trouxe os gigantes norte-americanos Wynn, Venetian e MGM, colocando um ponto final no longo monopólio de Stanley Ho e do Casino Lisboa. O magnata de Hong Kong pouco se terá importado: se o negócio valia na globalidade 6.870 milhões de dólares em 2006, ano em que Las Vegas

A NEVE AQUI TÃO PERTO

perdeu o trono de capital do jogo, 2010 fechou com uma facturação de 24.300 milhões. E as empresas de Ho arrecadaram uma considerável fatia desse bolo (30%). A jóia da coroa do império Ho é agora o Grand Lisboa, um colosso com 56 andares, 260 metros de altura e um espalhafato de cor e brilho capaz de deixar Tomás Taveira de boca aberta. Nele, tudo é luxo, dos 400 quartos às estrelas Michelin dos seus restaurantes The Eight (2*), Tim’s Kitchen (2*) e Robuchon A Galera (3*), os dois últimos no «velho» Hotel Lisboa, do outro lado da avenida. Boa parte desse luxo é “show-off ” e Stanley Ho não se poupa a esforços para atrair mais pessoas aos seus casinos. «Agora em exposição no “lobby”: esmeralda de 270 quilates», informa, em inglês e chinês, um ecrã gigante

colocado à porta do Grand Lisboa. Ho não está sozinho no campeonato da ostentação. O actor Jackie Chan, por exemplo, decorou o átrio do seu casino, o Grand Emperor, com 78 barras de um quilo de ouro de 24 quilates, expostas sob o chão de vidro, com vários diamantes «semeados» entre elas. E se o Grand Lisboa tem porteiros vestidos de campino, aqui a farda copia a da guarda real britânica, arma (de plástico) incluída. À boca da sala de jogo, um ecrã convida a entrar, com um “clip” promocional onde um par recém-casado, muito apaixonado, testa a sorte no casino: noiva na “slot machine”, grande plano da sua cara sorridente, depois a do noivo e uma roleta a girar. Os chineses acreditam na sorte – e no azar. E gostam de pô-los à prova. Mais

HÁ UM SÉCULO NADA DISTO EXISTIA, NEM O CHÃO ONDE ASSENTA

ESTA SELVA DE PRÉDIOS GRADEADOS DO PRIMEIRO AO ÚLTIMO PISO.

janeiro/fevereiro 2011

magazine.51


VIAGEM MACAU

Uma coisa é a China, outra é Macau.

«Um país, dois sistemas», estipula o regime de autonomia da Região Administrativa Especial. E não é só uma questão de língua – são muitas as diferenças. Exemplos flagrantes: a liberdade de expressão, o sistema penal e o nível de vida, com o PIB “per capita” a rondar os 33 mil dólares, cinco vezes mais elevado do que na China. Ou o jogo: Macau é o único lugar em todo o subcontinente onde os casinos são legais. A liberalização do sector, em 2002, trouxe os gigantes norte-americanos Wynn, Venetian e MGM, colocando um ponto final no longo monopólio de Stanley Ho e do Casino Lisboa. O magnata de Hong Kong pouco se terá importado: se o negócio valia na globalidade 6.870 milhões de dólares em 2006, ano em que Las Vegas

A NEVE AQUI TÃO PERTO

perdeu o trono de capital do jogo, 2010 fechou com uma facturação de 24.300 milhões. E as empresas de Ho arrecadaram uma considerável fatia desse bolo (30%). A jóia da coroa do império Ho é agora o Grand Lisboa, um colosso com 56 andares, 260 metros de altura e um espalhafato de cor e brilho capaz de deixar Tomás Taveira de boca aberta. Nele, tudo é luxo, dos 400 quartos às estrelas Michelin dos seus restaurantes The Eight (2*), Tim’s Kitchen (2*) e Robuchon A Galera (3*), os dois últimos no «velho» Hotel Lisboa, do outro lado da avenida. Boa parte desse luxo é “show-off ” e Stanley Ho não se poupa a esforços para atrair mais pessoas aos seus casinos. «Agora em exposição no “lobby”: esmeralda de 270 quilates», informa, em inglês e chinês, um ecrã gigante

colocado à porta do Grand Lisboa. Ho não está sozinho no campeonato da ostentação. O actor Jackie Chan, por exemplo, decorou o átrio do seu casino, o Grand Emperor, com 78 barras de um quilo de ouro de 24 quilates, expostas sob o chão de vidro, com vários diamantes «semeados» entre elas. E se o Grand Lisboa tem porteiros vestidos de campino, aqui a farda copia a da guarda real britânica, arma (de plástico) incluída. À boca da sala de jogo, um ecrã convida a entrar, com um “clip” promocional onde um par recém-casado, muito apaixonado, testa a sorte no casino: noiva na “slot machine”, grande plano da sua cara sorridente, depois a do noivo e uma roleta a girar. Os chineses acreditam na sorte – e no azar. E gostam de pô-los à prova. Mais

HÁ UM SÉCULO NADA DISTO EXISTIA, NEM O CHÃO ONDE ASSENTA

ESTA SELVA DE PRÉDIOS GRADEADOS DO PRIMEIRO AO ÚLTIMO PISO.

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VIAGEM MACAU

VENTOS DE BONANÇA

O MAIOR, O MAIS VALIOSO, O MAIS ESPALHAFATOSO: O ‘SHOW-OFF’

de metade do crescente número de visitantes (que em 2010 terá atingido os 23 milhões) são chineses, que atravessam a movimentada fronteira Zhuhai-Portas do Cerco convictos de que naquele dia a fortuna lhes sorrirá. À sua espera estão os autocarros dos casinos, que carregam e descarregam gente a um ritmo alucinante. Em Macau, tudo anda depressa: carros e motas, para quem as passadeiras não existem; os elevadores dos hotéis, que voam do rés-do-chão ao 20º piso em menos de um fósforo; a polícia de alfândega, que carimba passaportes à velocidade da luz; o Grande Prémio, que todos os anos, em Novembro, transforma as ruas e avenidas da cidade numa das pistas mais desafiantes do calendário mundial da Fórmula 3. 52.magazine

janeiro/fevereiro 2011

No Jardim Camões, o tempo abranda. Todos os dias de manhã, um grupo de senhoras idosas reúne-se para praticar “tai-chi”. A coordenação não é perfeita – ainda menos quando o desajeitado espectador aceita o convite para entrar na «dança». O que importa é o convívio. «Dizem que faz bem à saúde, mas é uma ilusão», explica João Sales, um espirituoso macaense de ascendência russa e luso-asiática designado pela Direcção de Serviços de Turismo para nos acompanhar. «São pessoas sozinhas e com o “tai-chi” conhecem outras pessoas, convivem, gastam energia, dormem melhor, recuperam o apetite.» Talvez esteja aí uma das razões para a esperança média de vida rondar os 84 anos, uma das mais elevadas do planeta. Um pouco acima, é o sítio dos homens, que se juntam à volta de

duas mesas de pedra onde se joga dominó chinês. «A dinheiro?», pergunto. «Jogar a feijões é uma perda de tempo, mesmo entre família.» O tom de João é esclarecedor: o jogo está-lhes no sangue. Pela escadaria que desce das traseiras do jardim, a espaços ocupada por altares e fumegantes pauzinhos de incenso, mergulhamos na selva urbana, de prédios estreitos e suficientemente altos para deixar estas ruas à sombra mesmo com o Sol quase a pique. Há um século nada disto existia, nem o próprio chão onde assentam os edifícios. A dada altura, Macau sentiu-se demasiado pequena para a sua ambição. Se hoje tem perto de 30 quilómetros quadrados de área, no início não tinha sequer metade – com a construção de diversos aterros, fez-se recuar o mar, expandindo a península e

É A ALMA DO NEGÓCIO E NÃO HÁ CASINO QUE SE POUPE A ESFORÇOS.


VIAGEM MACAU

VENTOS DE BONANÇA

O MAIOR, O MAIS VALIOSO, O MAIS ESPALHAFATOSO: O ‘SHOW-OFF’

de metade do crescente número de visitantes (que em 2010 terá atingido os 23 milhões) são chineses, que atravessam a movimentada fronteira Zhuhai-Portas do Cerco convictos de que naquele dia a fortuna lhes sorrirá. À sua espera estão os autocarros dos casinos, que carregam e descarregam gente a um ritmo alucinante. Em Macau, tudo anda depressa: carros e motas, para quem as passadeiras não existem; os elevadores dos hotéis, que voam do rés-do-chão ao 20º piso em menos de um fósforo; a polícia de alfândega, que carimba passaportes à velocidade da luz; o Grande Prémio, que todos os anos, em Novembro, transforma as ruas e avenidas da cidade numa das pistas mais desafiantes do calendário mundial da Fórmula 3. 52.magazine

janeiro/fevereiro 2011

No Jardim Camões, o tempo abranda. Todos os dias de manhã, um grupo de senhoras idosas reúne-se para praticar “tai-chi”. A coordenação não é perfeita – ainda menos quando o desajeitado espectador aceita o convite para entrar na «dança». O que importa é o convívio. «Dizem que faz bem à saúde, mas é uma ilusão», explica João Sales, um espirituoso macaense de ascendência russa e luso-asiática designado pela Direcção de Serviços de Turismo para nos acompanhar. «São pessoas sozinhas e com o “tai-chi” conhecem outras pessoas, convivem, gastam energia, dormem melhor, recuperam o apetite.» Talvez esteja aí uma das razões para a esperança média de vida rondar os 84 anos, uma das mais elevadas do planeta. Um pouco acima, é o sítio dos homens, que se juntam à volta de

duas mesas de pedra onde se joga dominó chinês. «A dinheiro?», pergunto. «Jogar a feijões é uma perda de tempo, mesmo entre família.» O tom de João é esclarecedor: o jogo está-lhes no sangue. Pela escadaria que desce das traseiras do jardim, a espaços ocupada por altares e fumegantes pauzinhos de incenso, mergulhamos na selva urbana, de prédios estreitos e suficientemente altos para deixar estas ruas à sombra mesmo com o Sol quase a pique. Há um século nada disto existia, nem o próprio chão onde assentam os edifícios. A dada altura, Macau sentiu-se demasiado pequena para a sua ambição. Se hoje tem perto de 30 quilómetros quadrados de área, no início não tinha sequer metade – com a construção de diversos aterros, fez-se recuar o mar, expandindo a península e

É A ALMA DO NEGÓCIO E NÃO HÁ CASINO QUE SE POUPE A ESFORÇOS.


VIAGEM MACAU

VENTOS DE BONANÇA

ÚTIL. Xangai

CHINA

COMO IR. Uma vez que o Aeroporto Internacional de Macau só tem voos regionais, o mais simples é voar até Hong Kong (a partir de €494, com a Lufthansa; lufthansa.com) e depois apanhar o “jetfoil” para

Cantão Macau

TAIWAN

Macau (a partir de 134HKD/

Hong Kong

trajecto; www.turbojet.com.hk). QUANDO IR. O Outono é a estação mais agradável, em

VIE

particular para adeptos dos o Grande Prémio a dominar as

Manila

atenções em Novembro. O Inverno,

E

AM

TN

A

desportos motorizados, com

embora mais frio, é também

DESTAQUES.

agradável. O Verão e a Primavera são as alturas mais chuvosas e propícias a tempestades tropicais.

CENTRO HISTÓRICO. «TESTEMUNHO DO PRIMEIRO E MAIS DURADOURO EN-

UMA COISA É A CHINA, OUTRA É MACAU, UMA REALIDADE INVENTADA, UM ESPAÇO INTERMÉDIO ENTRE A ÁSIA E O OCIDENTE. ligando entre si as ilhas de Taipa e Coloane, inventando um espaço de 5,6 quilómetros quadrados a que se chamou CoTai. Nem todos terão ficado a ganhar com a

expansão do território. Cumprindo os preceitos elementares do “feng shui”, a Casa do Mandarim (séc. XIX) foi construída de costas para a montanha e de frente para o mar. Com a «fuga» do mar, acabou cercada de prédios. Por sorte, o «mandarim» já não mora lá: recentemente aberta ao público, após dez anos de trabalhos de recuperação, funciona como exemplo de residência cantonense com algumas influências ocidentais à vista. É uma das muitas visitas que se pode dar como «obrigatórias» em qualquer roteiro iniciático de Macau. O pequeno e castiço Largo do Lilau também. Não fica muito longe, junto ao Beco, 54.magazine

janeiro/fevereiro 2011

ao Pátio, à Calçada e à Rua do Lilau. Impõe-se a pergunta: o que é o «lilau»? «Significa “Algo que vem e vai”.» João Sales não parece 100% seguro da sua própria resposta. No entanto, já o ditado prevê que «Quem bebe água do Lilau regressará a Macau». Ou, noutra versão, «não mais esquece Macau». Beber da dita fonte é hoje desaconselhado. Nem por isso Lilau é menos inesquecível: as suas pequenas e coloridas casas de primeiro andar, sedes de consulado nos tempos áureos do comércio marítimo, parecem reunir elementos de várias proveniências, como se Portugal inteiro (ou quase) coubesse neste pequeno largo. Aliás, esse sentimento invade-nos repetidamente quando caminhamos pelo centro histórico. No monumental Largo do Senado. Na ainda mais monumental fachada da arruinada

Igreja de São Paulo. Ou na sobranceira Fortaleza do Monte, onde funciona o Museu de Macau, que, apesar de ser um museu «à antiga», não deixa de ser um interessante condensado de como duas culturas se moldaram mutuamente para criar uma «raça» nova, espaço intermédio que, não existindo, teve de ser inventado. Macau é isso, no fundo: uma realidade que, por mais voltas que o mundo dê, se manterá diferente desse gigante de uniforme que é a China. Sentado num dos bares da Avenida Dr. Sun Yat Sen, apercebo-me, no curto silêncio entre duas canções do pop genérico que preenche o ambiente, de que no bar ao lado passa “Chinese Democracy”, tema que dá nome ao último álbum de Guns n’ Roses, banido na China mal foi lançado. Confirma-se: Macau é diferente. l

CONTRO ENTRE O OCIDENTE E A CHINA», SEGUNDO A UNESCO (QUE EM 2005 O

MOEDA. A moeda local é a pataca

CLASSIFICOU DE PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE), O CENTRO HISTÓRICO DE

(1EUR=10,411MOP), embora o dólar

MACAU ESTENDE-SE DO JARDIM CAMÕES AO LARGO DA BARRA (E INCLUI TAMBÉM O FORTE E

de Hong Kong seja geralmente

O FAROL DA GUIA, NO LADO ORIENTAL DA PENÍNSULA), ABRANGENDO MARCAS DA INFLUÊNCIA

aceite (1EUR=10,1075HKD). O

PORTUGUESA, COMO O LARGO DO SENADO E AS RUÍNAS DE SÃO PAULO, E TRAÇOS DA IGUAL-

contrário, porém, não acontece,

MENTE HISTÓRICA PRESENÇA CHINESA, COMO O TEMPLO DE A-MA (www.macauheritage.net).

pelo que se pensa visitar também a antiga colónia britânica é

TORRE DE MACAU. DO TOPO DESTA TORRE DE 338 METROS VÊ-SE TUDO – DESDE QUE O CÉU

aconselhável trocar os euros por

TURVO O PERMITA. NO 60º PISO HÁ UM RESTAURANTE GIRATÓRIO, APROPRIADAMENTE CHAMADO

dólares no aeroporto. O custo de

CAFÉ 360 (PREÇO MÉDIO 300MOP). JANTAR COM MACAU AOS PÉS É INESQUECÍVEL. CONTUDO, O

vida em Macau é relativamente

PRATO FORTE DA TORRE É A ADRENALINA: O SKYWALK (CAMINHADA EM TORNO DA CÁPSULA, A

baixo. Uma refeição pode custar

233M DO CHÃO) E O MAIOR SALTO “BUNGY” DO MUNDO (233M) SÃO ALGUMAS DAS PROPOSTAS.

menos de 50MOP. E o preço do “portuguese egg tart”, a ubíqua

COLOANE. O «PULMÃO» DE MACAU FICA A 20 MINUTOS DO CENTRO E É UM OÁSIS DE SOSSEGO

versão macaense do pastel de nata

(RELATIVAMENTE) LONGE DO BULÍCIO DA CIDADE. MARQUE-SE MESA NO NGA TIM (+853 2888 2086)

(que, ao contrário do original,

PARA UM INESQUECÍVEL JANTAR DE MARISCO E OUTRAS ESPECIALIDADES MACAENSES.

leva nata), ronda as 7MOP.

VANTAGEM MILLENNIUM.

Cartão Millennium Prestige: TAEG de 29,3%

OS TITULARES do Cartão Prestige beneficiam de um desconto de 7,5% sobre os seguintes produtos, publicados em brochura Abreu para destinos na China: Pérolas da China / Hong Kong e Macau; China Fascinante; China Milenária; China Misteriosa; e China — Cruzeiro no Rio Yangtzé. Isenção de aplicação de taxa de emissão sobre passagens aéreas para Hong Kong na Air France. Descontos válidos até 31 de Março de 2011 e não-acumuláveis com outras promoções Condições válidas na rede de Lojas Abreu ou pela linha Abreu Directo 707 201 840 (7 dias por semana, 10h00-22h00). Prestige Security: TAEG de 29,3% e TAN de 21,190% para crédito de 2.500€ pago em 12 prestações mensais iguais no valor de 230,65€. Montante total imputado ao Cliente: 2.852,75€, incluindo anuidade e impostos.

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VENTOS DE BONANÇA

ÚTIL. Xangai

CHINA

COMO IR. Uma vez que o Aeroporto Internacional de Macau só tem voos regionais, o mais simples é voar até Hong Kong (a partir de €494, com a Lufthansa; lufthansa.com) e depois apanhar o “jetfoil” para

Cantão Macau

TAIWAN

Macau (a partir de 134HKD/

Hong Kong

trajecto; www.turbojet.com.hk). QUANDO IR. O Outono é a estação mais agradável, em

VIE

particular para adeptos dos o Grande Prémio a dominar as

Manila

atenções em Novembro. O Inverno,

E

AM

TN

A

desportos motorizados, com

embora mais frio, é também

DESTAQUES.

agradável. O Verão e a Primavera são as alturas mais chuvosas e propícias a tempestades tropicais.

CENTRO HISTÓRICO. «TESTEMUNHO DO PRIMEIRO E MAIS DURADOURO EN-

UMA COISA É A CHINA, OUTRA É MACAU, UMA REALIDADE INVENTADA, UM ESPAÇO INTERMÉDIO ENTRE A ÁSIA E O OCIDENTE. ligando entre si as ilhas de Taipa e Coloane, inventando um espaço de 5,6 quilómetros quadrados a que se chamou CoTai. Nem todos terão ficado a ganhar com a

expansão do território. Cumprindo os preceitos elementares do “feng shui”, a Casa do Mandarim (séc. XIX) foi construída de costas para a montanha e de frente para o mar. Com a «fuga» do mar, acabou cercada de prédios. Por sorte, o «mandarim» já não mora lá: recentemente aberta ao público, após dez anos de trabalhos de recuperação, funciona como exemplo de residência cantonense com algumas influências ocidentais à vista. É uma das muitas visitas que se pode dar como «obrigatórias» em qualquer roteiro iniciático de Macau. O pequeno e castiço Largo do Lilau também. Não fica muito longe, junto ao Beco, 54.magazine

janeiro/fevereiro 2011

ao Pátio, à Calçada e à Rua do Lilau. Impõe-se a pergunta: o que é o «lilau»? «Significa “Algo que vem e vai”.» João Sales não parece 100% seguro da sua própria resposta. No entanto, já o ditado prevê que «Quem bebe água do Lilau regressará a Macau». Ou, noutra versão, «não mais esquece Macau». Beber da dita fonte é hoje desaconselhado. Nem por isso Lilau é menos inesquecível: as suas pequenas e coloridas casas de primeiro andar, sedes de consulado nos tempos áureos do comércio marítimo, parecem reunir elementos de várias proveniências, como se Portugal inteiro (ou quase) coubesse neste pequeno largo. Aliás, esse sentimento invade-nos repetidamente quando caminhamos pelo centro histórico. No monumental Largo do Senado. Na ainda mais monumental fachada da arruinada

Igreja de São Paulo. Ou na sobranceira Fortaleza do Monte, onde funciona o Museu de Macau, que, apesar de ser um museu «à antiga», não deixa de ser um interessante condensado de como duas culturas se moldaram mutuamente para criar uma «raça» nova, espaço intermédio que, não existindo, teve de ser inventado. Macau é isso, no fundo: uma realidade que, por mais voltas que o mundo dê, se manterá diferente desse gigante de uniforme que é a China. Sentado num dos bares da Avenida Dr. Sun Yat Sen, apercebo-me, no curto silêncio entre duas canções do pop genérico que preenche o ambiente, de que no bar ao lado passa “Chinese Democracy”, tema que dá nome ao último álbum de Guns n’ Roses, banido na China mal foi lançado. Confirma-se: Macau é diferente. l

CONTRO ENTRE O OCIDENTE E A CHINA», SEGUNDO A UNESCO (QUE EM 2005 O

MOEDA. A moeda local é a pataca

CLASSIFICOU DE PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE), O CENTRO HISTÓRICO DE

(1EUR=10,411MOP), embora o dólar

MACAU ESTENDE-SE DO JARDIM CAMÕES AO LARGO DA BARRA (E INCLUI TAMBÉM O FORTE E

de Hong Kong seja geralmente

O FAROL DA GUIA, NO LADO ORIENTAL DA PENÍNSULA), ABRANGENDO MARCAS DA INFLUÊNCIA

aceite (1EUR=10,1075HKD). O

PORTUGUESA, COMO O LARGO DO SENADO E AS RUÍNAS DE SÃO PAULO, E TRAÇOS DA IGUAL-

contrário, porém, não acontece,

MENTE HISTÓRICA PRESENÇA CHINESA, COMO O TEMPLO DE A-MA (www.macauheritage.net).

pelo que se pensa visitar também a antiga colónia britânica é

TORRE DE MACAU. DO TOPO DESTA TORRE DE 338 METROS VÊ-SE TUDO – DESDE QUE O CÉU

aconselhável trocar os euros por

TURVO O PERMITA. NO 60º PISO HÁ UM RESTAURANTE GIRATÓRIO, APROPRIADAMENTE CHAMADO

dólares no aeroporto. O custo de

CAFÉ 360 (PREÇO MÉDIO 300MOP). JANTAR COM MACAU AOS PÉS É INESQUECÍVEL. CONTUDO, O

vida em Macau é relativamente

PRATO FORTE DA TORRE É A ADRENALINA: O SKYWALK (CAMINHADA EM TORNO DA CÁPSULA, A

baixo. Uma refeição pode custar

233M DO CHÃO) E O MAIOR SALTO “BUNGY” DO MUNDO (233M) SÃO ALGUMAS DAS PROPOSTAS.

menos de 50MOP. E o preço do “portuguese egg tart”, a ubíqua

COLOANE. O «PULMÃO» DE MACAU FICA A 20 MINUTOS DO CENTRO E É UM OÁSIS DE SOSSEGO

versão macaense do pastel de nata

(RELATIVAMENTE) LONGE DO BULÍCIO DA CIDADE. MARQUE-SE MESA NO NGA TIM (+853 2888 2086)

(que, ao contrário do original,

PARA UM INESQUECÍVEL JANTAR DE MARISCO E OUTRAS ESPECIALIDADES MACAENSES.

leva nata), ronda as 7MOP.

VANTAGEM MILLENNIUM.

Cartão Millennium Prestige: TAEG de 29,3%

OS TITULARES do Cartão Prestige beneficiam de um desconto de 7,5% sobre os seguintes produtos, publicados em brochura Abreu para destinos na China: Pérolas da China / Hong Kong e Macau; China Fascinante; China Milenária; China Misteriosa; e China — Cruzeiro no Rio Yangtzé. Isenção de aplicação de taxa de emissão sobre passagens aéreas para Hong Kong na Air France. Descontos válidos até 31 de Março de 2011 e não-acumuláveis com outras promoções Condições válidas na rede de Lojas Abreu ou pela linha Abreu Directo 707 201 840 (7 dias por semana, 10h00-22h00). Prestige Security: TAEG de 29,3% e TAN de 21,190% para crédito de 2.500€ pago em 12 prestações mensais iguais no valor de 230,65€. Montante total imputado ao Cliente: 2.852,75€, incluindo anuidade e impostos.

janeiro/fevereiro 2011

magazine.55


LINHA DA FRENTE

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA NEVILLE ELDER

/

CORBIS

MALCOLM GLADWELL DIRECTO AO ASSUNTO ESCREVE SOBRE COISAS DO DIA-A-DIA, OS SEUS LIVROS VENDEM-SE AOS MILHÕES EM TODO O MUNDO E É A REFERÊNCIA MAIOR DA “SOCIOLOGIA POP” NOS EUA. COM UMA RARA COMBINAÇÃO DE RIGOR E CLAREZA, CONTA HISTÓRIAS ENVOLVENTES A PARTIR DE TEXTOS CIENTÍFICOS, UTILIZANDO A SUA FALTA DE FORMAÇÃO NA MATÉRIA COMO VANTAGEM: «SEI QUE PERGUNTAS ÓBVIAS DEVO COLOCAR.»

62.magazine

março/abril 2011

março/abril 2011

magazine.63


LINHA DA FRENTE

TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA NEVILLE ELDER

/

CORBIS

MALCOLM GLADWELL DIRECTO AO ASSUNTO ESCREVE SOBRE COISAS DO DIA-A-DIA, OS SEUS LIVROS VENDEM-SE AOS MILHÕES EM TODO O MUNDO E É A REFERÊNCIA MAIOR DA “SOCIOLOGIA POP” NOS EUA. COM UMA RARA COMBINAÇÃO DE RIGOR E CLAREZA, CONTA HISTÓRIAS ENVOLVENTES A PARTIR DE TEXTOS CIENTÍFICOS, UTILIZANDO A SUA FALTA DE FORMAÇÃO NA MATÉRIA COMO VANTAGEM: «SEI QUE PERGUNTAS ÓBVIAS DEVO COLOCAR.»

62.magazine

março/abril 2011

março/abril 2011

magazine.63


LINHA DA FRENTE MALCOLM GLADWELL

escontando a rebelde cabeleira encaracolada, Malcolm Gladwell tem uma figura discreta, de corpo franzino e modos serenos, acompanhados de um sorriso que transmite desde logo acessibilidade. À primeira impressão, não se imagina que é uma espécie de “rock star” da não-ficção, com mais de dez milhões de livros vendidos, e uma das pessoas mais influentes do mundo segundo a revista “Time”. Mas as primeiras impressões, por vezes, enganam-nos. E ele sabe disso: há seis anos, publicou um livro sobre o assunto, “Blink! – The Power of Thinking Without Thinking”, onde analisa, com base num extenso rol de estudos científicos, vários casos em que as decisões instantâneas podem ser mais acertadas do que as cuidadosamente ponderadas. Com o devido enfoque no «podem ser»: «É um livro que tanto nos alerta para os perigos de confiar na intuição como tenta identificar as situações em que podemos realmente fazê-lo», esclarece, acrescentando que depois de escrever “Blink!” passou a seguir menos os seus instintos. O “Pepsi Challenge” e a «guerra das colas», o modo como o treinador de ténis Vic Braden consegue inexplicavelmente antever se um jogador vai cometer dupla falta, ou a meteórica ascensão de Warren Harding, um dos piores presidentes da História dos EUA, eleito apenas pela sua aparência física, são alguns dos casos de que se socorre, intercalando com outras histórias e provas científicas para desenhar a «narrativa» deste “best-seller” cujos direitos chegaram a ser comprados pela Universal para uma adaptação cinematográfica – com argumento do oscarizado Stephen Gaghan (“Traffic – Ninguém Sai Ileso”) e Leonardo DiCaprio no papel principal – que nunca chegou a sair do papel. «Achei a ideia hilariante e excitante», recorda. «Não foi a lado nenhum mas foi divertido enquanto durou.» Malcolm Gladwell, 47 anos, vive em Nova Iorque e é cronista da revista “The New Yorker” desde 1996. Quando muda de «chapéu» (a metáfora é sua, explicada no “website” gladwell.com), é escritor de “best-sellers” internacionais e um orador exímio, com uma agenda repleta de palestras em universidades, empresas e onde mais lhe pedirem para falar. De pena ou microfone na mão, o seu poder de comunicação mantém-se em alta, articulando com destreza e clareza toda uma série de episódios e factos científicos para ilustrar uma determinada ideia – simples e brilhante, quase sempre. «Gosto de analisar à lupa questões mundanas, não tenho interesse no exótico.» Quando lhe pediram um artigo sobre moda, no seu primeiro trabalho para a “The New Yorker”, escolheu escrever sobre “t-shirts”. «É muito 64.magazine

março/abril 2011

mais interessante escrever algo sobre alguém que faz “t-shirts” por oito dólares do que sobre um vestido que custa 100 mil. Qualquer pessoa pode fazer um vestido por 100 mil dólares – o difícil é fazer uma t-shirt por oito dólares.» Em 2008, procurou desenterrar as raízes do sucesso – dissecando casos exemplares como os Beatles ou Bill Gates – no livro “Outliers – The Story of Success”, onde contraria a ideia de meritocracia perfeita, colocando o enfoque em coisas tão elementares como família, herança cultural ou oportunidades excepcionais. «Temos o hábito de olhar para as árvores altas, mas acho que devíamos olhar antes para a floresta», afirma, sublinhando que o talento, a ambição e a determinação, embora essenciais, precisam do devido estímulo. «Pode-se aprender muito mais sobre o sucesso observando o contexto da pessoa bem-sucedida: a que cultura pertence, que profissão tinham os seus pais», disse em entrevista à “Forbes”. «Pessoas de sucesso são pessoas que tiraram máximo partido de uma série de dádivas que lhes foram proporcionadas.» Veja-se o caso de Bill Gates: estudou numa escola privada (que não teria frequentado se não fosse de uma família abastada) onde havia uma sala de computadores, coisa rara nos anos 1960 (90% das universidades americanas ainda não tinha este tipo de equipamento). Começou a programar aos 13 anos; aos 15 descobre que o “mainframe” da Universidade de Washington estava livre entre as duas e as seis da manhã, oportunidade que agarra com unhas e dentes. Todos os dias foge pela janela do quarto, às escondidas dos pais, para aproveitar essas valiosas

“GOSTO DE ANALISAR À LUPA AS QUESTÕES MUNDANAS. NÃO TENHO INTERESSE NO EXÓTICO.”


LINHA DA FRENTE MALCOLM GLADWELL

escontando a rebelde cabeleira encaracolada, Malcolm Gladwell tem uma figura discreta, de corpo franzino e modos serenos, acompanhados de um sorriso que transmite desde logo acessibilidade. À primeira impressão, não se imagina que é uma espécie de “rock star” da não-ficção, com mais de dez milhões de livros vendidos, e uma das pessoas mais influentes do mundo segundo a revista “Time”. Mas as primeiras impressões, por vezes, enganam-nos. E ele sabe disso: há seis anos, publicou um livro sobre o assunto, “Blink! – The Power of Thinking Without Thinking”, onde analisa, com base num extenso rol de estudos científicos, vários casos em que as decisões instantâneas podem ser mais acertadas do que as cuidadosamente ponderadas. Com o devido enfoque no «podem ser»: «É um livro que tanto nos alerta para os perigos de confiar na intuição como tenta identificar as situações em que podemos realmente fazê-lo», esclarece, acrescentando que depois de escrever “Blink!” passou a seguir menos os seus instintos. O “Pepsi Challenge” e a «guerra das colas», o modo como o treinador de ténis Vic Braden consegue inexplicavelmente antever se um jogador vai cometer dupla falta, ou a meteórica ascensão de Warren Harding, um dos piores presidentes da História dos EUA, eleito apenas pela sua aparência física, são alguns dos casos de que se socorre, intercalando com outras histórias e provas científicas para desenhar a «narrativa» deste “best-seller” cujos direitos chegaram a ser comprados pela Universal para uma adaptação cinematográfica – com argumento do oscarizado Stephen Gaghan (“Traffic – Ninguém Sai Ileso”) e Leonardo DiCaprio no papel principal – que nunca chegou a sair do papel. «Achei a ideia hilariante e excitante», recorda. «Não foi a lado nenhum mas foi divertido enquanto durou.» Malcolm Gladwell, 47 anos, vive em Nova Iorque e é cronista da revista “The New Yorker” desde 1996. Quando muda de «chapéu» (a metáfora é sua, explicada no “website” gladwell.com), é escritor de “best-sellers” internacionais e um orador exímio, com uma agenda repleta de palestras em universidades, empresas e onde mais lhe pedirem para falar. De pena ou microfone na mão, o seu poder de comunicação mantém-se em alta, articulando com destreza e clareza toda uma série de episódios e factos científicos para ilustrar uma determinada ideia – simples e brilhante, quase sempre. «Gosto de analisar à lupa questões mundanas, não tenho interesse no exótico.» Quando lhe pediram um artigo sobre moda, no seu primeiro trabalho para a “The New Yorker”, escolheu escrever sobre “t-shirts”. «É muito 64.magazine

março/abril 2011

mais interessante escrever algo sobre alguém que faz “t-shirts” por oito dólares do que sobre um vestido que custa 100 mil. Qualquer pessoa pode fazer um vestido por 100 mil dólares – o difícil é fazer uma t-shirt por oito dólares.» Em 2008, procurou desenterrar as raízes do sucesso – dissecando casos exemplares como os Beatles ou Bill Gates – no livro “Outliers – The Story of Success”, onde contraria a ideia de meritocracia perfeita, colocando o enfoque em coisas tão elementares como família, herança cultural ou oportunidades excepcionais. «Temos o hábito de olhar para as árvores altas, mas acho que devíamos olhar antes para a floresta», afirma, sublinhando que o talento, a ambição e a determinação, embora essenciais, precisam do devido estímulo. «Pode-se aprender muito mais sobre o sucesso observando o contexto da pessoa bem-sucedida: a que cultura pertence, que profissão tinham os seus pais», disse em entrevista à “Forbes”. «Pessoas de sucesso são pessoas que tiraram máximo partido de uma série de dádivas que lhes foram proporcionadas.» Veja-se o caso de Bill Gates: estudou numa escola privada (que não teria frequentado se não fosse de uma família abastada) onde havia uma sala de computadores, coisa rara nos anos 1960 (90% das universidades americanas ainda não tinha este tipo de equipamento). Começou a programar aos 13 anos; aos 15 descobre que o “mainframe” da Universidade de Washington estava livre entre as duas e as seis da manhã, oportunidade que agarra com unhas e dentes. Todos os dias foge pela janela do quarto, às escondidas dos pais, para aproveitar essas valiosas

“GOSTO DE ANALISAR À LUPA AS QUESTÕES MUNDANAS. NÃO TENHO INTERESSE NO EXÓTICO.”


LINHA DA FRENTE MALCOLM GLADWELL

Malcolm nasceu em Inglaterra, em 1963, filho de uma psicoterapeuta jamaicana e de um matemático inglês. Cedo se começou a ambientar ao meio académico, deambulando pelos corredores da Universidade de Waterloo, onde o pai era professor. «Toda a gente era amistosa, as portas estavam sempre abertas. Foi nessa altura que me apaixonei por bibliotecas», contou à “Time”. Pelo lado da mãe, também escritora, aprendeu os rudimentos da comunicação, pela via da Psicologia e

pela da Literatura. «Ela sempre foi o meu exemplo no que respeita à escrita», afirmou no “talkshow” do decano jornalista Charlie Rose. Além da influência positiva dos pais, outros elementos se conjugaram para ter chegado onde está hoje. À “Time” revela alguns: «Pertenço a uma das últimas gerações a entrar para os quadros de um jornal quando os jornais ainda contratavam muita gente nova. E tenho a sorte de ser um “outsider” na América – ainda sinto que não compreendo completamente este país.» Apesar de viver nos EUA há mais de duas décadas, manteve a cidadania canadiana – tinha seis anos quando a família se mudou para a pequena cidade de Elmira, na província de Ontario. Desde muito novo se deixou deslumbrar pelos livros de História. «Fiquei fascinado com a ideia de podermos fazer alguém interessar-se por ler algo sobre coisas que aconteceram séculos antes de termos nascido. Achava extraordinária a capacidade dos historiadores para tecer uma intrincada narrativa a partir de algo muito antigo – e era esse o

FOTOGRAFIA PAULO SOUSA COELHO

“NÃO INVENTEI NADA. LIMITO-ME A FAZER O QUE AS PESSOAS NESTA PROFISSÃO TÊM FEITO DESDE QUE SE ESCREVEM LIVROS.”

quatro horas à frente do supercomputador. Aos 20 anos, Gates tinha mais experiência em programação do que muitos veteranos na matéria. O talento, devidamente estimulado pelas circunstâncias, fez o resto. Bill Gates é um “outlier”, assim como os Beatles ou o cientista nuclear Robert Oppenheimer. O termo, usado em estatística, significa algo (ou, neste caso, alguém) que excede a norma. De certo modo, também se aplica a Gladwell, pela sua excepcional capacidade para pegar em artigos científicos, descodificar o seu fraseado hermético e devolvê-los sob a forma de histórias interessantes e surpreendentemente fáceis de ler. «O facto de não ser cientista acaba por ser uma vantagem quando pretendo explicar ideias muito complicadas», afirma, tentando convencer-me de que não faz nada de extraordinário: «Abordo estes assuntos sob a perspectiva dos meus leitores: sei que perguntas óbvias devo colocar. Só assim se pode escrever com clareza sobre um tema complexo – começando pelo princípio.» Mas este dom não veio do nada.

DIRECTO AO ASSUNTO

LEITURA OBRIGATÓRIA.

Todos estes títulos estão publicados em Portugal pela D. Quixote (www.dquixote.pt).

66.magazine

março/abril 2011

THE TIPPING POINT (2000) A chave do sucesso

BLINK! (2005) Decidir num piscar de olhos

O subtítulo original explica tudo: “Como pequenas coisas podem fazer uma grande diferença”. No seu primeiro livro, Gladwell investiga a vertente «epidémica» das mudanças sociais e o momento em que atingem o «ponto de viragem», dissecando casos tão diversos como a queda da criminalidade em Nova Iorque, a marca de sapatos que se tornou moda ou o tabagismo entre os adolescentes norte-americanos.

Motivado pelo episódio em que foi confundido com um violador procurado pela polícia (cuja única semelhança era o cabelo), o jornalista mergulhou fundo nos mistérios das primeiras impressões e outras decisões inconscientes, cruzando experiências científicas, acontecimentos históricos, recortes de jornal e histórias do dia-a-dia. A “Time” não teve dúvidas e escolheu-o uma das personalidades mais influentes desse ano de 2005.

270 páginas . Preço: 17,92€

266 páginas . Preço: 17,92€

OUTLIERS (2008) Os melhores, os mais inteligentes, os mais bem sucedidos

tipo de contador de histórias que eu queria ser.» Formou-se em História, na Universidade de Toronto. Emigrou para os EUA e, depois de alguns trabalhos menos relevantes, entra para a redacção do “Washington Post”, onde dá os seus primeiros passos sérios no jornalismo. E foi através do jornalismo que se tornou o contador de histórias que sempre sonhara ser. A “Time” aponta-o como o maior “sociólogo pop” norte-americano e fundador do género literário “economia pop”. «Isso parece palavreado do meu agente», brinca, refutando a «acusação» com uma careta. «Faço aquilo que muita gente faz. O papel do jornalista é ser um tradutor, todos o fazemos, de diferentes maneiras. Posso ter a minha forma de abordar as coisas, mas não inventei nada – limito-me a fazer o que as pessoas nesta profissão têm feito desde que se escrevem livros.» Não é uma mera primeira impressão: apesar do estatuto e do impressionante currículo, Malcolm Gladwell mantém-se uma pessoa humilde. Porque só assim consegue fazer as perguntas certas. l

O QUE O CÃO VIU e outras histórias (2009)

Gladwell volta a cruzar factos curiosos, dados científicos e um aguçado sentido de observação para explicar por que motivo ser génio não basta para ter sucesso. Envolvente sociocultural, oportunidades extraordinárias ou detalhes aparentemente tão insignificantes como a data de nascimento são alguns dos factores que validam a tese.

Desta vez, não há «um» fio condutor. O autor seleccionou 19 dos artigos que regularmente publica na “The New Yorker” e agrupou-os por temas: pessoas realmente boas naquilo que fazem (entre elas, o «encantador de cães» Cesar Millan), falhanços baseados na previsão estatística (como o escândalo da Enron) e a forma como avaliamos pessoas (as entrevistas de emprego são um dos exemplos).

306 páginas . Preço: 17,92€

469 páginas . Preço: 22,71€

março/abril 2011

magazine.67


LINHA DA FRENTE MALCOLM GLADWELL

Malcolm nasceu em Inglaterra, em 1963, filho de uma psicoterapeuta jamaicana e de um matemático inglês. Cedo se começou a ambientar ao meio académico, deambulando pelos corredores da Universidade de Waterloo, onde o pai era professor. «Toda a gente era amistosa, as portas estavam sempre abertas. Foi nessa altura que me apaixonei por bibliotecas», contou à “Time”. Pelo lado da mãe, também escritora, aprendeu os rudimentos da comunicação, pela via da Psicologia e

pela da Literatura. «Ela sempre foi o meu exemplo no que respeita à escrita», afirmou no “talkshow” do decano jornalista Charlie Rose. Além da influência positiva dos pais, outros elementos se conjugaram para ter chegado onde está hoje. À “Time” revela alguns: «Pertenço a uma das últimas gerações a entrar para os quadros de um jornal quando os jornais ainda contratavam muita gente nova. E tenho a sorte de ser um “outsider” na América – ainda sinto que não compreendo completamente este país.» Apesar de viver nos EUA há mais de duas décadas, manteve a cidadania canadiana – tinha seis anos quando a família se mudou para a pequena cidade de Elmira, na província de Ontario. Desde muito novo se deixou deslumbrar pelos livros de História. «Fiquei fascinado com a ideia de podermos fazer alguém interessar-se por ler algo sobre coisas que aconteceram séculos antes de termos nascido. Achava extraordinária a capacidade dos historiadores para tecer uma intrincada narrativa a partir de algo muito antigo – e era esse o

FOTOGRAFIA PAULO SOUSA COELHO

“NÃO INVENTEI NADA. LIMITO-ME A FAZER O QUE AS PESSOAS NESTA PROFISSÃO TÊM FEITO DESDE QUE SE ESCREVEM LIVROS.”

quatro horas à frente do supercomputador. Aos 20 anos, Gates tinha mais experiência em programação do que muitos veteranos na matéria. O talento, devidamente estimulado pelas circunstâncias, fez o resto. Bill Gates é um “outlier”, assim como os Beatles ou o cientista nuclear Robert Oppenheimer. O termo, usado em estatística, significa algo (ou, neste caso, alguém) que excede a norma. De certo modo, também se aplica a Gladwell, pela sua excepcional capacidade para pegar em artigos científicos, descodificar o seu fraseado hermético e devolvê-los sob a forma de histórias interessantes e surpreendentemente fáceis de ler. «O facto de não ser cientista acaba por ser uma vantagem quando pretendo explicar ideias muito complicadas», afirma, tentando convencer-me de que não faz nada de extraordinário: «Abordo estes assuntos sob a perspectiva dos meus leitores: sei que perguntas óbvias devo colocar. Só assim se pode escrever com clareza sobre um tema complexo – começando pelo princípio.» Mas este dom não veio do nada.

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Todos estes títulos estão publicados em Portugal pela D. Quixote (www.dquixote.pt).

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THE TIPPING POINT (2000) A chave do sucesso

BLINK! (2005) Decidir num piscar de olhos

O subtítulo original explica tudo: “Como pequenas coisas podem fazer uma grande diferença”. No seu primeiro livro, Gladwell investiga a vertente «epidémica» das mudanças sociais e o momento em que atingem o «ponto de viragem», dissecando casos tão diversos como a queda da criminalidade em Nova Iorque, a marca de sapatos que se tornou moda ou o tabagismo entre os adolescentes norte-americanos.

Motivado pelo episódio em que foi confundido com um violador procurado pela polícia (cuja única semelhança era o cabelo), o jornalista mergulhou fundo nos mistérios das primeiras impressões e outras decisões inconscientes, cruzando experiências científicas, acontecimentos históricos, recortes de jornal e histórias do dia-a-dia. A “Time” não teve dúvidas e escolheu-o uma das personalidades mais influentes desse ano de 2005.

270 páginas . Preço: 17,92€

266 páginas . Preço: 17,92€

OUTLIERS (2008) Os melhores, os mais inteligentes, os mais bem sucedidos

tipo de contador de histórias que eu queria ser.» Formou-se em História, na Universidade de Toronto. Emigrou para os EUA e, depois de alguns trabalhos menos relevantes, entra para a redacção do “Washington Post”, onde dá os seus primeiros passos sérios no jornalismo. E foi através do jornalismo que se tornou o contador de histórias que sempre sonhara ser. A “Time” aponta-o como o maior “sociólogo pop” norte-americano e fundador do género literário “economia pop”. «Isso parece palavreado do meu agente», brinca, refutando a «acusação» com uma careta. «Faço aquilo que muita gente faz. O papel do jornalista é ser um tradutor, todos o fazemos, de diferentes maneiras. Posso ter a minha forma de abordar as coisas, mas não inventei nada – limito-me a fazer o que as pessoas nesta profissão têm feito desde que se escrevem livros.» Não é uma mera primeira impressão: apesar do estatuto e do impressionante currículo, Malcolm Gladwell mantém-se uma pessoa humilde. Porque só assim consegue fazer as perguntas certas. l

O QUE O CÃO VIU e outras histórias (2009)

Gladwell volta a cruzar factos curiosos, dados científicos e um aguçado sentido de observação para explicar por que motivo ser génio não basta para ter sucesso. Envolvente sociocultural, oportunidades extraordinárias ou detalhes aparentemente tão insignificantes como a data de nascimento são alguns dos factores que validam a tese.

Desta vez, não há «um» fio condutor. O autor seleccionou 19 dos artigos que regularmente publica na “The New Yorker” e agrupou-os por temas: pessoas realmente boas naquilo que fazem (entre elas, o «encantador de cães» Cesar Millan), falhanços baseados na previsão estatística (como o escândalo da Enron) e a forma como avaliamos pessoas (as entrevistas de emprego são um dos exemplos).

306 páginas . Preço: 17,92€

469 páginas . Preço: 22,71€

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TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA JOAQUIM GROMICHO

ESCÓCIA

/ VOLTA AO MUNDO

BEM-VINDOS A UMA TERRA ONDE OS HOMENS DE BARBA RIJA USAM SAIA, OS LAGOS SÃO HABITADOS POR MONSTROS AQUÁTICOS E A PAISAGEM, DE TÃO PERFEITA, PARECE (E É MESMO) CENÁRIO DE FILME.

44.magazine

julho/agosto 2010

julho/agosto 2010

magazine.45


TEXTO JOÃO MESTRE FOTOGRAFIA JOAQUIM GROMICHO

ESCÓCIA

/ VOLTA AO MUNDO

BEM-VINDOS A UMA TERRA ONDE OS HOMENS DE BARBA RIJA USAM SAIA, OS LAGOS SÃO HABITADOS POR MONSTROS AQUÁTICOS E A PAISAGEM, DE TÃO PERFEITA, PARECE (E É MESMO) CENÁRIO DE FILME.

44.magazine

julho/agosto 2010

julho/agosto 2010

magazine.45


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

O

s miúdos lançam-se da ponte, sorridentes, mergulhando sem medo nas águas geladas do rio Ness. Saem a tremer de frio, com os lábios roxos, e correm de volta para um novo salto. Não terão mais de 10 anos, mas é de pequeno que aqui se começa a dar provas de virilidade – o whisky, o rugby ou o “caber toss”, a curiosa competição de lançamento de troncos, ficarão para mais tarde. Importa por estes dias aproveitar o Verão para

46.magazine

julho/agosto 2010

mergulhar no rio, que temperaturas assim não duram o ano todo: estarão, no máximo, uns 20 graus, o Sol espreita de vez em quando e, no início da manhã, já chuviscou. Estamos em Inverness, capital das Terras Altas e bastião da cultura “highlander”. O seu temperamento é algo diferente do de outras cidades escocesas. Mais descontraído, talvez; menos sombrio, até, em parte devido aos edifícios de pedra avermelhada que, aqui e ali, contrariam o tradicional granito. E há o rio Ness, que verte as águas do mais famoso lago britânico para ao mar e cria uma ampla avenida que divide a cidade ao meio e lhe dá espaço para «respirar». Em dez minutos de caminhada, no sentido inverso ao da corrente, ficamos no meio da natureza: as ilhas alongadas que se formam na bifurcação das águas do Ness são autênticas florestas em ponto pequeno (com vida selvagem a condizer), ideais para passeios, piqueniques e, nestes dias «quentes», ver as crianças a mergulhar da ponte. «Viram-me a saltar?», pergunta o pequeno Eric, num sotaque com tanto de dócil como de provocador. Está de abalada, montado na sua BMX. «Voltem amanhã ao meio-dia, que eu vou saltar outra vez!» A bazófia adora ter público, seja onde for. Para grande pena de Eric, os nossos planos para o dia seguinte não incluem o seu “one-man-show” – temos encontro marcado com um monstro aquático. É praticamente impossível não avistá-lo. O monstro do Loch Ness (ou “Nessie”, como carinhosamente lhe chamam por estas bandas) está por todo o lado: há museus (sim, no plural) dedicados às suas aparições, estátuas, lojas de recordações com canecas, porta-chaves e ímanes de frigorífico. E há também cruzeiros em embarcações equipadas com sonar para controlar os movimentos da criatura, um sucesso entre turistas japoneses e americanos. É caso para dizer que, se o bicho torna a espreitar, a aparição será devidamente documentada

PARA ONDE QUER QUE SE OLHE, HÁ ALGO QUE EVOCA UMA OU OUTRA PASSAGEM DE ALGUM CLÁSSICO DO GRANDE ECRÃ – QUASE SEMPRE FILMES DE CAPA E ESPADA, HISTÓRIAS DE HERÓIS, ÉPICOS À MEDIDA DE UMA PAISAGEM ÉPICA.


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

O

s miúdos lançam-se da ponte, sorridentes, mergulhando sem medo nas águas geladas do rio Ness. Saem a tremer de frio, com os lábios roxos, e correm de volta para um novo salto. Não terão mais de 10 anos, mas é de pequeno que aqui se começa a dar provas de virilidade – o whisky, o rugby ou o “caber toss”, a curiosa competição de lançamento de troncos, ficarão para mais tarde. Importa por estes dias aproveitar o Verão para

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mergulhar no rio, que temperaturas assim não duram o ano todo: estarão, no máximo, uns 20 graus, o Sol espreita de vez em quando e, no início da manhã, já chuviscou. Estamos em Inverness, capital das Terras Altas e bastião da cultura “highlander”. O seu temperamento é algo diferente do de outras cidades escocesas. Mais descontraído, talvez; menos sombrio, até, em parte devido aos edifícios de pedra avermelhada que, aqui e ali, contrariam o tradicional granito. E há o rio Ness, que verte as águas do mais famoso lago britânico para ao mar e cria uma ampla avenida que divide a cidade ao meio e lhe dá espaço para «respirar». Em dez minutos de caminhada, no sentido inverso ao da corrente, ficamos no meio da natureza: as ilhas alongadas que se formam na bifurcação das águas do Ness são autênticas florestas em ponto pequeno (com vida selvagem a condizer), ideais para passeios, piqueniques e, nestes dias «quentes», ver as crianças a mergulhar da ponte. «Viram-me a saltar?», pergunta o pequeno Eric, num sotaque com tanto de dócil como de provocador. Está de abalada, montado na sua BMX. «Voltem amanhã ao meio-dia, que eu vou saltar outra vez!» A bazófia adora ter público, seja onde for. Para grande pena de Eric, os nossos planos para o dia seguinte não incluem o seu “one-man-show” – temos encontro marcado com um monstro aquático. É praticamente impossível não avistá-lo. O monstro do Loch Ness (ou “Nessie”, como carinhosamente lhe chamam por estas bandas) está por todo o lado: há museus (sim, no plural) dedicados às suas aparições, estátuas, lojas de recordações com canecas, porta-chaves e ímanes de frigorífico. E há também cruzeiros em embarcações equipadas com sonar para controlar os movimentos da criatura, um sucesso entre turistas japoneses e americanos. É caso para dizer que, se o bicho torna a espreitar, a aparição será devidamente documentada

PARA ONDE QUER QUE SE OLHE, HÁ ALGO QUE EVOCA UMA OU OUTRA PASSAGEM DE ALGUM CLÁSSICO DO GRANDE ECRÃ – QUASE SEMPRE FILMES DE CAPA E ESPADA, HISTÓRIAS DE HERÓIS, ÉPICOS À MEDIDA DE UMA PAISAGEM ÉPICA.


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

COM OU SEM MONSTRO À VISTA, AO LOCH NESS NÃO FALTA FOTOGENIA – EM ESPECIAL AO NASCER (OU AO DESCER) DO SOL.

48.magazine

julho/agosto 2010

julho/agosto 2010

magazine.49


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

COM OU SEM MONSTRO À VISTA, AO LOCH NESS NÃO FALTA FOTOGENIA – EM ESPECIAL AO NASCER (OU AO DESCER) DO SOL.

48.magazine

julho/agosto 2010

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HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

são um dos motivos que mais encantam na paisagem escocesa. Aceite a sugestão: o Loch Lomond, a menos de uma hora a noroeste de Glasgow, corresponde melhor a esse imaginário.

NAS “HIGHLANDS”, É REDUNDANTE FALAR EM ESTRADAS PANORÂMICAS: POUCAS SÃO AS QUE NÃO ATRAVESSAM CENÁRIOS DESLUMBRANTES. por um batalhão de câmaras fotográficas. Para a fama que tem, o lago não é dos que mais deslumbram. Sim, é imenso: tem 37 quilómetros de comprimento e mais de 200 metros de profundidade. E, sim, é fo50.magazine

julho/agosto 2010

togénico, particularmente ao nascer do dia e se as ruínas do castelo de Urquhart entrarem no enquadramento. A sua forma, contudo, fá-lo parecer mais um (grande) rio do que um lago – e os lagos

Falar em estradas panorâmicas nas Terras Altas é, de certa forma, redundante. Poucas são as que não atravessam cenários deslumbrantes, de uma beleza agreste e delicada, marcada pelo negro da rocha montanhosa, pelo ondulante verde que a envolve e pelo espelho das águas de incontáveis “lochs”. Uma solidão, ocasionalmente interrompida por uma manada de lãzudas vacas “kyloe”. É redundante falar em estradas panorâmicas, mas ainda assim é inevitável mencionar a “Road to the Isles”, a A830, que liga Fort William a Mallaig, porto de embarque dos “ferries” que seguem para as ilhas de Rum, Muck, Canna, South Uist, Barra, Eigg, Coll e para a vizinha Skye, que se avista logo ali. Pelo caminho, o traçado da A830 acompanha o Loch Eil e o Eilt, vislumbra o Loch Shiel e contorna ao largo o profundo Loch Morar, que tem também o seu monstro-mascote, “Morag”. Ultrapassada a confusão inicial de conduzir do lado «errado» da estrada (pode durar um par de dias), o automóvel é a forma mais eficiente de explorar as “Highlands”. Mas para ir de Fort William a Mallaig há uma opção mais cinematográfica: o “Jacobite”, comboio a vapor de inícios do século XX (puxado por uma locomotiva “made in” Vila do Conde) que os fãs da saga Harry Potter reconhecerão de imediato como “Hogwarts Express”. Daí que, ao passar por Glenfinnan, o imponente viaduto ferroviário de 21 arcos que contorna a povoação também nos pareça vagamente familiar. A familiaridade é uma sensação recorrente ao longo da viagem pelas Terras Altas. E a sétima arte tem a sua quota-parte de responsabilidade. Sentimo-lo ao trilhar pelo Glen Nevis, o vale glaciar onde tem início a subida ao Ben Nevis (1.344m), ponto mais alto da Grã-Bretanha

– que logo nos lembra Mel Gibson correndo montanha acima, na pele de William Wallace, em “Braveheart” (1995). Ou quando nos encontramos diante do castelo de Eilean Donan que, além de ser o local mais fotografado da Escócia, ficou eternizado em “Highlander” (1986), com Christopher Lambert no papel do imortal Connor MacLeod. Para onde quer que se olhe, há algo que evoca uma ou outra passagem de algum clássico do

grande ecrã – quase sempre filmes de capa e espada, histórias de heróis, épicos à medida de uma paisagem épica. Bem, nem todos: o castelo Stalker, construído sobre uma ilha diminuta no Loch Linnhe, fez as vezes do quimérico Castelo de Aaaaarrrrrrggghhh, alvo da demanda do Rei Artur e dos seus «bravos» cavaleiros no clássico da comédia absurda “Monty Python e o Cálice Sagrado” (1975). Na Escócia nem tudo é virilidade, afinal.

Os “highlanders” têm sentido de humor. E um bom exemplo disso é o prato nacional que tanto gostam de sugerir ao visitante: coração, fígado, pulmões e sebo de carneiro, guisados dentro do estômago do dito com cebola, aveia e temperos diversos. Chama-se “haggis” e é servido com puré de nabo e de batata. Também há em versão vegetariana, para estômagos pouco dados a estas provas de masculinidade.l julho/agosto 2010

magazine.51


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

são um dos motivos que mais encantam na paisagem escocesa. Aceite a sugestão: o Loch Lomond, a menos de uma hora a noroeste de Glasgow, corresponde melhor a esse imaginário.

NAS “HIGHLANDS”, É REDUNDANTE FALAR EM ESTRADAS PANORÂMICAS: POUCAS SÃO AS QUE NÃO ATRAVESSAM CENÁRIOS DESLUMBRANTES. por um batalhão de câmaras fotográficas. Para a fama que tem, o lago não é dos que mais deslumbram. Sim, é imenso: tem 37 quilómetros de comprimento e mais de 200 metros de profundidade. E, sim, é fo50.magazine

julho/agosto 2010

togénico, particularmente ao nascer do dia e se as ruínas do castelo de Urquhart entrarem no enquadramento. A sua forma, contudo, fá-lo parecer mais um (grande) rio do que um lago – e os lagos

Falar em estradas panorâmicas nas Terras Altas é, de certa forma, redundante. Poucas são as que não atravessam cenários deslumbrantes, de uma beleza agreste e delicada, marcada pelo negro da rocha montanhosa, pelo ondulante verde que a envolve e pelo espelho das águas de incontáveis “lochs”. Uma solidão, ocasionalmente interrompida por uma manada de lãzudas vacas “kyloe”. É redundante falar em estradas panorâmicas, mas ainda assim é inevitável mencionar a “Road to the Isles”, a A830, que liga Fort William a Mallaig, porto de embarque dos “ferries” que seguem para as ilhas de Rum, Muck, Canna, South Uist, Barra, Eigg, Coll e para a vizinha Skye, que se avista logo ali. Pelo caminho, o traçado da A830 acompanha o Loch Eil e o Eilt, vislumbra o Loch Shiel e contorna ao largo o profundo Loch Morar, que tem também o seu monstro-mascote, “Morag”. Ultrapassada a confusão inicial de conduzir do lado «errado» da estrada (pode durar um par de dias), o automóvel é a forma mais eficiente de explorar as “Highlands”. Mas para ir de Fort William a Mallaig há uma opção mais cinematográfica: o “Jacobite”, comboio a vapor de inícios do século XX (puxado por uma locomotiva “made in” Vila do Conde) que os fãs da saga Harry Potter reconhecerão de imediato como “Hogwarts Express”. Daí que, ao passar por Glenfinnan, o imponente viaduto ferroviário de 21 arcos que contorna a povoação também nos pareça vagamente familiar. A familiaridade é uma sensação recorrente ao longo da viagem pelas Terras Altas. E a sétima arte tem a sua quota-parte de responsabilidade. Sentimo-lo ao trilhar pelo Glen Nevis, o vale glaciar onde tem início a subida ao Ben Nevis (1.344m), ponto mais alto da Grã-Bretanha

– que logo nos lembra Mel Gibson correndo montanha acima, na pele de William Wallace, em “Braveheart” (1995). Ou quando nos encontramos diante do castelo de Eilean Donan que, além de ser o local mais fotografado da Escócia, ficou eternizado em “Highlander” (1986), com Christopher Lambert no papel do imortal Connor MacLeod. Para onde quer que se olhe, há algo que evoca uma ou outra passagem de algum clássico do

grande ecrã – quase sempre filmes de capa e espada, histórias de heróis, épicos à medida de uma paisagem épica. Bem, nem todos: o castelo Stalker, construído sobre uma ilha diminuta no Loch Linnhe, fez as vezes do quimérico Castelo de Aaaaarrrrrrggghhh, alvo da demanda do Rei Artur e dos seus «bravos» cavaleiros no clássico da comédia absurda “Monty Python e o Cálice Sagrado” (1975). Na Escócia nem tudo é virilidade, afinal.

Os “highlanders” têm sentido de humor. E um bom exemplo disso é o prato nacional que tanto gostam de sugerir ao visitante: coração, fígado, pulmões e sebo de carneiro, guisados dentro do estômago do dito com cebola, aveia e temperos diversos. Chama-se “haggis” e é servido com puré de nabo e de batata. Também há em versão vegetariana, para estômagos pouco dados a estas provas de masculinidade.l julho/agosto 2010

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HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

ÚTIL.

Inverness Ilha de Skye

Urquhart Eilean Donan

QUANDO IR. Os meses de Verão

Loch Ness

são a melhor altura: além de a

Mallaig

probabilidade de chuva ser menor

Loch Morar

(mas sem garantias de Sol cons-

Loch Eilt Glenfinnan Loch Shiel Loch Eil Fort William Loch Linhe

tante), as temperaturas máximas atingem uma média de 19 graus e, graças à latitude, a noite chega

Stalker

mais tarde (por vezes, só às 23h). COMO IR. À partida de Lisboa, a EasyJet (easyjet.com) tem voos directos para Edimburgo a Loch Lomond

partir de €70. Saindo do Porto,

Edimburgo

Glasgow

a Lufthansa (lufthansa.com) voa para Edimburgo, via Frankfurt,

DESTAQUES.

a partir de €232. Para quem partir de Faro, há ligações directas a Glasgow a partir de €40, com

EXPRESSO HARRY POTTER. O “JACOBITE” (www.westcoastrailways.co.uk;

a RyanAir (ryanair.com).

BILHETE ADULTO SIMPLES/IDA E VOLTA A PARTIR DE 23,50£/31£), COMBOIO A VAPOR QUE GANHOU FAMA NOS FILMES DA SAGA DO APRENDIZ DE FEITICEIRO, PRO-

CIRCULAR. O comboio é uma

PORCIONA UMA DAS VIAGENS MAIS INESQUECÍVEIS QUE A ESCÓCIA TEM PARA OFERECER.

boa forma de visitar a Escócia.

O PERCURSO, DE FORT WILLIAM A MALLAIG, DURA DUAS HORAS.

Tem, porém, dois inconvenientes: o preço e a configuração da

ILHA DE SKYE. APESAR DE ESTAR LIGADA À ILHA PRINCIPAL POR UMA PONTE QUE LEVA

rede, que obriga a algumas

UM MINUTO A ATRAVESSAR DE CARRO (E CERCA DE 20 MINUTOS A PÉ), SKYE TEM UMA PER-

ligações de autocarro para evitar

SONALIDADE MUITO PRÓPRIA. ILUSTRAM-NO A SINALIZAÇÃO EM GAÉLICO, A AUSÊNCIA DE

desvios forçados por Edimburgo

CADEIAS DE “FAST FOOD” OU A ESCASSEZ DE CAIXAS MULTIBANCO. GANHA (E MUITO) EM

ou Glasgow. Planeie a viagem

AUTENTICIDADE E BELEZA SELVAGEM.

em www.scotrail.co.uk. Em certos

PUB

casos, pode compensar a compra BEN NEVIS. NOS RAROS DIAS EM QUE NÃO ESTÁ ENVOLVIDO EM NEBLINA, O PONTO MAIS ALTO

do InterRail One Country Pass,

DAS ILHAS BRITÂNICAS RECOMPENSA QUEM VENCE OS SEUS 1.344 METROS COM UMA

a partir de €126/€194

PANORÂMICA SOBERBA QUE CHEGA A ALCANÇAR A IRLANDA DO NORTE. É UMA CAMINHADA

(jovem/adulto; válido por três

DE NÍVEL INTERMÉDIO (CERCA DE SETE HORAS, COM O REGRESSO), EXIGINDO ALGUMA

dias; informações e mais

PREPARAÇÃO E EQUIPAMENTO ADEQUADO (visit-fortwilliam.co.uk).

modalidades em www.cp.pt).

VANTAGEM UM BANCO SEMPRE PRÓXIMO. Se estiver no estrangeiro, são várias as plataformas de acesso ao Millennium bcp. O portal www.millenniumbcp.pt permite realizar todo o tipo de operações e obter informações sobre os produtos que tenha contratado com o Banco. Os clientes registados no portal podem ainda aceder ao Banco através de telemóvel, “smartphone” ou BlackBerry com acesso à Internet. Trata-se do serviço “mobile banking” e o endereço a digitar é http://mobile.millenniumbcp.pt. Recentemente, o Millennium bcp lançou a App Millennium, uma nova aplicação de banca móvel — disponível para iPhone, BlackBerry e Smartphones (Java) — que permite aos clientes registados em www.millenniumbcp.pt aceder às contas e movimentar o seu património financeiro de forma simples, rápida e segura. Através do telemóvel pode também aceder ao Banco através do serviço Mobile SMS – após activar o serviço no portal, poderá realizar as principais consultas e operações bancárias por mensagem para o nº 3352. Por último, pode contactar o seu Banco por telefone a partir do estrangeiro, pelos números +351 707 502424 e +351 210052424, conforme a sua conveniência, acedendo ao serviço de atendimento automático (24 horas por dia) ou personalizado (08:00-24:00, todos os dias) da banca telefónica do Millennium bcp. Tenha sempre presente o seu código multicanal.

52.magazine

julho/agosto 2010

março/abril 2010

magazine.53


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

ÚTIL.

Inverness Ilha de Skye

Urquhart Eilean Donan

QUANDO IR. Os meses de Verão

Loch Ness

são a melhor altura: além de a

Mallaig

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Loch Morar

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magazine.53


25

ARQUITECTURA n ARTE URBANA n CIÊNCIA n CINEMA n DESIGN n DESPORTO n ENTRETENIMENTO

MOTIVOS DE ORGULHO EM SER PORTUGUÊS Ninguém contesta: 2011 foi um ano muito difícil para Portugal. No entanto, na hora de olhar para trás, há razões de sobra para recordá-lo da melhor maneira. Escolhemos 25 motivos de orgulho com selo nacional que provam — a quem ainda duvide — que vencer faz parte do nosso destino, mesmo quando os cabos se afiguram de diversas tormentas.

G A S T R O N O M I A

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L I T E R A T U R A

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M Ú S I C A

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T U R I S M O


25

ARQUITECTURA n ARTE URBANA n CIÊNCIA n CINEMA n DESIGN n DESPORTO n ENTRETENIMENTO

MOTIVOS DE ORGULHO EM SER PORTUGUÊS Ninguém contesta: 2011 foi um ano muito difícil para Portugal. No entanto, na hora de olhar para trás, há razões de sobra para recordá-lo da melhor maneira. Escolhemos 25 motivos de orgulho com selo nacional que provam — a quem ainda duvide — que vencer faz parte do nosso destino, mesmo quando os cabos se afiguram de diversas tormentas.

G A S T R O N O M I A

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M Ú S I C A

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S O L I D A R I E D A D E

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T U R I S M O


2.

1 JOSÉ MOURINHO

UM PRÉMIO COM SABOR ESPECIAL MELHOR TREINADOR DO MUNDO.

A 10 de Janeiro de 2011, a FIFA declarou oficialmente aquilo de que desconfiávamos há algum tempo: José Mourinho é o melhor treinador do mundo. Na decisão da autoridade máxima do futebol mundial pesou, evidentemente, a campanha brilhante no Inter de Milão na época 2009/2010 — com a conquista da Liga A, a Taça de Itália e a Liga dos Campeões. «Trabalhei muito para chegar aqui, mas não cheguei sozinho», fez questão de sublinhar, em português, na gala da FIFA. «Tive a ajuda dos meus jogadores, dos meus colaboradores e contei com a força daqueles que me amam.» Anunciados os nomeados para a segunda edição do troféu (um lote de dez nomes que inclui outro português, André Villas-Boas), em 2012 Mourinho pode repetir a proeza, desta vez com um novo grupo de jogadores a quem agradecer. Ao comando do Real Madrid desde Junho de 2010, “El Especial” venceu já a Taça do Rei, que escapava ao clube desde 1993; terminou a Liga espanhola, disputada ponto a ponto com o Barcelona, em segundo lugar; e alcançou as meias-finais da Liga dos Campeões. Pep Guardiola, do rival Barcelona e outro forte candidato ao prémio da FIFA, garante: «Mourinho é, provavelmente, o melhor treinador do mundo.» O vencedor será conhecido a 9 de Janeiro. Mourinho, já se sabe, só joga para ganhar. «Mas alguém anda nesta vida para perder?», perguntou em entrevista à “M Magazine”. «O sabor da derrota e o da vitória não são comparáveis.»

A R Q U I T E C T U R A

CONDECORAÇÃO.

O governo francês agraciou o arquitecto João Carrilho da Graça com a insígnia de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras. «A sua obra reflecte tanto o universalismo, como o génio específico de Portugal», elogiou o embaixador francês Pascal Teixeira da Silva. «É por isto que a República Francesa quis distingui-lo, pois o universalismo francês (…) manifesta-se nos dois sentidos: não só pela difusão dos seus valores pelo mundo, mas também pelo reconhecimento do estatuto universal a que alguns criadores, de qualquer nacionalidade, ascendem.» PRÉMIOS ARCHDAILY.

O influente ArchDaily.com, “website” de arquitectura com dois milhões de visitas por mês, conta com a opinião dos utilizadores para a eleição dos edifícios do ano. Este ano, entre os 14 premiados, estão três portugueses: o bar temporário da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, de Diogo Aguiar e Teresa Otto (categoria “Hotéis e Restaurantes”); a Closet House, em Matosinhos, do gabinete Consexto (“Interiores”); e o icónico edifício da Vodafone no Porto, assinado pelo ateliê Barbosa & Guimarães (“Institucional”). NOVA CAPITAL.

O ateliê português Ideias do Futuro (ideiasdofuturo.pt) desenvolveu o conceito da futura nova capital administrativa da Guiné Equatorial. Djibloho será construída de raiz numa área de 8150 hectares, terá cerca de 160 mil habitantes e pretende ser a primeira capital mundial inteiramente dependente de energias renováveis e sustentáveis. Os trabalhos nas vias de acesso e principais avenidas já começaram, mas o prazo de conclusão previsto é 2026.

3

A VOZ DE UM POVO FADO. Independentemente da decisão do Comité Intergovernamental da Convenção da UNESCO, a candidatura a Património Imaterial da Humanidade é um bom pretexto para falar de fado. Afinal, como garante o comité de peritos na sua avaliação, «reforça o sentimento de pertença e de identidade no seio da comunidade de Lisboa». De Lisboa e de todo o País — afinal, a canção nacional ouve-se e canta-se de norte a sul. E, cada vez mais, além-fronteiras. Ao longo do último ano, o fado deu várias voltas ao mundo, nas vozes de Ana Moura, António Zambujo, Katia Guerreiro, Mariza, Carlos do Carmo ou Carminho. 2011 assistiu também ao nascimento do Festival de Fado de Madrid. E à chegada do fado a Nova Iorque: a 2 e 3 de Dezembro, a Brooklyn Academy of Music acolhe “Tudo Isto É Fado”, com Camané, Amália Hoje e Deolinda a tomarem conta do palco. museudofado.pt

novembro/dezembro 2011

magazine.9


2.

1 JOSÉ MOURINHO

UM PRÉMIO COM SABOR ESPECIAL MELHOR TREINADOR DO MUNDO.

A 10 de Janeiro de 2011, a FIFA declarou oficialmente aquilo de que desconfiávamos há algum tempo: José Mourinho é o melhor treinador do mundo. Na decisão da autoridade máxima do futebol mundial pesou, evidentemente, a campanha brilhante no Inter de Milão na época 2009/2010 — com a conquista da Liga A, a Taça de Itália e a Liga dos Campeões. «Trabalhei muito para chegar aqui, mas não cheguei sozinho», fez questão de sublinhar, em português, na gala da FIFA. «Tive a ajuda dos meus jogadores, dos meus colaboradores e contei com a força daqueles que me amam.» Anunciados os nomeados para a segunda edição do troféu (um lote de dez nomes que inclui outro português, André Villas-Boas), em 2012 Mourinho pode repetir a proeza, desta vez com um novo grupo de jogadores a quem agradecer. Ao comando do Real Madrid desde Junho de 2010, “El Especial” venceu já a Taça do Rei, que escapava ao clube desde 1993; terminou a Liga espanhola, disputada ponto a ponto com o Barcelona, em segundo lugar; e alcançou as meias-finais da Liga dos Campeões. Pep Guardiola, do rival Barcelona e outro forte candidato ao prémio da FIFA, garante: «Mourinho é, provavelmente, o melhor treinador do mundo.» O vencedor será conhecido a 9 de Janeiro. Mourinho, já se sabe, só joga para ganhar. «Mas alguém anda nesta vida para perder?», perguntou em entrevista à “M Magazine”. «O sabor da derrota e o da vitória não são comparáveis.»

A R Q U I T E C T U R A

CONDECORAÇÃO.

O governo francês agraciou o arquitecto João Carrilho da Graça com a insígnia de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras. «A sua obra reflecte tanto o universalismo, como o génio específico de Portugal», elogiou o embaixador francês Pascal Teixeira da Silva. «É por isto que a República Francesa quis distingui-lo, pois o universalismo francês (…) manifesta-se nos dois sentidos: não só pela difusão dos seus valores pelo mundo, mas também pelo reconhecimento do estatuto universal a que alguns criadores, de qualquer nacionalidade, ascendem.» PRÉMIOS ARCHDAILY.

O influente ArchDaily.com, “website” de arquitectura com dois milhões de visitas por mês, conta com a opinião dos utilizadores para a eleição dos edifícios do ano. Este ano, entre os 14 premiados, estão três portugueses: o bar temporário da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, de Diogo Aguiar e Teresa Otto (categoria “Hotéis e Restaurantes”); a Closet House, em Matosinhos, do gabinete Consexto (“Interiores”); e o icónico edifício da Vodafone no Porto, assinado pelo ateliê Barbosa & Guimarães (“Institucional”). NOVA CAPITAL.

O ateliê português Ideias do Futuro (ideiasdofuturo.pt) desenvolveu o conceito da futura nova capital administrativa da Guiné Equatorial. Djibloho será construída de raiz numa área de 8150 hectares, terá cerca de 160 mil habitantes e pretende ser a primeira capital mundial inteiramente dependente de energias renováveis e sustentáveis. Os trabalhos nas vias de acesso e principais avenidas já começaram, mas o prazo de conclusão previsto é 2026.

3

A VOZ DE UM POVO FADO. Independentemente da decisão do Comité Intergovernamental da Convenção da UNESCO, a candidatura a Património Imaterial da Humanidade é um bom pretexto para falar de fado. Afinal, como garante o comité de peritos na sua avaliação, «reforça o sentimento de pertença e de identidade no seio da comunidade de Lisboa». De Lisboa e de todo o País — afinal, a canção nacional ouve-se e canta-se de norte a sul. E, cada vez mais, além-fronteiras. Ao longo do último ano, o fado deu várias voltas ao mundo, nas vozes de Ana Moura, António Zambujo, Katia Guerreiro, Mariza, Carlos do Carmo ou Carminho. 2011 assistiu também ao nascimento do Festival de Fado de Madrid. E à chegada do fado a Nova Iorque: a 2 e 3 de Dezembro, a Brooklyn Academy of Music acolhe “Tudo Isto É Fado”, com Camané, Amália Hoje e Deolinda a tomarem conta do palco. museudofado.pt

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6.

UM BOM ANO

C I Ê N C I A

CEGUEIRA.

4

VINHOS. Longe vai o tempo em que beber um copo de vinho era «dar de comer a um milhão de portugueses». Os milhões são agora outros: em 2010, a exportação de vinhos registou um aumento de 16% e cifrou-se nos 649,1 milhões de euros, número ao qual não é alheia a relevância que Portugal tem vindo a ganhar nos certames internacionais. No que respeita a prémios, a colheita de 2011 foi particularmente generosa. O Concurso Mundial de Bruxelas deu nove «Grandes Medalhas de Ouro» a vinhos portugueses. No italiano La Selezione del Sindaco, a «selecção nacional» arrebatou 45 medalhas, incluindo 12 de ouro e uma de «grande ouro» (Munda Tinto 2008, Dão). O Challenge International du Vin distinguiu 82 vinhos nacionais (14 medalhas de ouro). No International Wine and Spirits, a contagem situou-se nas 200 medalhas, entre elas nove de ouro “Best in Class” e três de ouro. E o Mundis Vini, a maior «prova cega» do mundo, valeu a Portugal 139 medalhas (5 grande ouro, 31 ouro, 83 prata) e o quinto lugar no “ranking”. No que respeita a revistas: a “Decanter” incluiu três vinhos nacionais no seu Top 25 — Madeira Henriques & Henriques 15 Anos Verdelho, moscatel Bacalhôa 2004 e tinto Tagus Creek Shiraz & Trincadeira 2010 (Alentejo). A “Wine & Spirits” incluiu Aveleda, Niepoort, Quinta das Bageiras e Quinta do Noval no Top 100 dos produtores do ano. A «bíblia» “Wine Enthusiast” elegeu o Quinta do Vallado Touriga Nacional 2008 (Douro) um dos 10 vinhos do ano. E no habitual “Top100 Best Buys” da “Wine Enthusiast” conta-se dez entradas em português — apenas EUA e França conseguiram representação mais expressiva — e o tinto Serrado Colheita 2007 (Dão) na quarta posição.

5 FUTEBOL

FINAL EM PORTUGUÊS LIGA EUROPA. Em nove anos, três títulos europeus — depois do díptico Taça UEFA / Liga dos Campeões da era Mourinho (2002/03 e 2003/04, respectivamente), o Futebol Clube do Porto selou, com um golo solitário de Radamel Falcao, a conquista da Liga Europa. A final, realizada a 18 de Maio, em Dublin, constituiu um momento inédito no futebol português: foi disputada entre duas equipas nacionais, com o Sporting de Braga no papel de vencido. No entanto, não deixou de ser um momento histórico para o clube minhoto, que nunca tinha além dos oitavos-de-final em competições europeias.

10.magazine

novembro/dezembro 2011

Uma equipa de cientistas da Universidade de Oxford está a testar uma terapia inédita para a coroideremia — cegueira incurável provocada por degeneração progressiva da retina. A técnica, que consiste na injecção de um vírus terapêutico que transporta o gene saudável até às células fotossensíveis da retina, foi desenvolvida, ao longo dos últimos 20 anos, por um grupo de investigação liderado pelo português Miguel Seabra (Imperial College de Londres / Universidade Nova de Lisboa). BIOMATERIAIS.

Rui Reis, professor do Departamento de Engenharia de Polímeros da Universidade do Minho, director do 3B’s Research Group e, entre outros cargos internacionais, coordenador do Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, foi distinguido com o George Winter Award, principal galardão europeu na área dos biomateriais. Do seu vasto corpo de trabalho de investigação destaca-se o desenvolvimento de biomateriais a partir de polímeros de origem natural para aplicações biomédicas, nomeadamente na reconstrução de cartilagem e osso. NANOTECNOLOGIA.

Em Fevereiro foi inaugurado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa o primeiro laboratório português de nanofabricação. Esta unidade irá «permitir avanços enormes no domínio das nanotecnologias, quer ao nível de potenciar as propriedades dos materiais à nano escala, quer no desenvolvimento de novos materiais e produtos, incluindo dispositivos electrónicos», explicou ao “Diário Económico” Elvira Fortunato, coordenadora do projecto e depositária de uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação no valor de 2,25 milhões de euros.

7 MUNDO PORTUGUÊS NOVOS EMIGRANTES. «Nem só de fado e futebol se faz a imagem do sucesso português fora de portas», escrevíamos na edição nº 6 da “M Magazine”, em artigo dedicado aos portugueses com sucesso fora de portas. Falámos de Joana Carneiro, maestrina e directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, distinguida com o prémio Helen M. Thompson, da Liga de Orquestras Americanas. Do fotógrafo Edgar Martins, radicado em Londres, apontado pela crítica norte-americana como um dos artistas mais importantes da sua geração. Do designer Rui Docouto, fundador do ateliê de design de mobiliário e interiores «altamente criativos» Site Specific Design (Nova Iorque). De Pedro Baroso, “chef de cuisine” do restaurante Mediterraneo, no Armani Hotel Dubai. E do investigador Pedro Nunes, titular de uma cátedra de Biologia de Espécies Invasoras na Universidade de Algoma (Canadá). Pelas páginas da “M” passaram também o actor português mais internacional de sempre, Joaquim de Almeida; a actriz/cantora Sofia Escobar, protagonista do musical “O Fantasma da Ópera” no West End londrino; Ricardo Pereira, o português preferido do público brasileiro, actor residente da máquina de fazer telenovelas Globo; o designer Felipe de Oliveira Baptista, director criativo da Lacoste. Podíamos continuar a enumerá-los dias a fio. Se as estimativas oficiosas estiverem correctas, seremos cinco a dez milhões de portugueses por esse mundo fora. Os casos de sucesso, esses, vão-se multiplicando, felizmente.

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6.

UM BOM ANO

C I Ê N C I A

CEGUEIRA.

4

VINHOS. Longe vai o tempo em que beber um copo de vinho era «dar de comer a um milhão de portugueses». Os milhões são agora outros: em 2010, a exportação de vinhos registou um aumento de 16% e cifrou-se nos 649,1 milhões de euros, número ao qual não é alheia a relevância que Portugal tem vindo a ganhar nos certames internacionais. No que respeita a prémios, a colheita de 2011 foi particularmente generosa. O Concurso Mundial de Bruxelas deu nove «Grandes Medalhas de Ouro» a vinhos portugueses. No italiano La Selezione del Sindaco, a «selecção nacional» arrebatou 45 medalhas, incluindo 12 de ouro e uma de «grande ouro» (Munda Tinto 2008, Dão). O Challenge International du Vin distinguiu 82 vinhos nacionais (14 medalhas de ouro). No International Wine and Spirits, a contagem situou-se nas 200 medalhas, entre elas nove de ouro “Best in Class” e três de ouro. E o Mundis Vini, a maior «prova cega» do mundo, valeu a Portugal 139 medalhas (5 grande ouro, 31 ouro, 83 prata) e o quinto lugar no “ranking”. No que respeita a revistas: a “Decanter” incluiu três vinhos nacionais no seu Top 25 — Madeira Henriques & Henriques 15 Anos Verdelho, moscatel Bacalhôa 2004 e tinto Tagus Creek Shiraz & Trincadeira 2010 (Alentejo). A “Wine & Spirits” incluiu Aveleda, Niepoort, Quinta das Bageiras e Quinta do Noval no Top 100 dos produtores do ano. A «bíblia» “Wine Enthusiast” elegeu o Quinta do Vallado Touriga Nacional 2008 (Douro) um dos 10 vinhos do ano. E no habitual “Top100 Best Buys” da “Wine Enthusiast” conta-se dez entradas em português — apenas EUA e França conseguiram representação mais expressiva — e o tinto Serrado Colheita 2007 (Dão) na quarta posição.

5 FUTEBOL

FINAL EM PORTUGUÊS LIGA EUROPA. Em nove anos, três títulos europeus — depois do díptico Taça UEFA / Liga dos Campeões da era Mourinho (2002/03 e 2003/04, respectivamente), o Futebol Clube do Porto selou, com um golo solitário de Radamel Falcao, a conquista da Liga Europa. A final, realizada a 18 de Maio, em Dublin, constituiu um momento inédito no futebol português: foi disputada entre duas equipas nacionais, com o Sporting de Braga no papel de vencido. No entanto, não deixou de ser um momento histórico para o clube minhoto, que nunca tinha além dos oitavos-de-final em competições europeias.

10.magazine

novembro/dezembro 2011

Uma equipa de cientistas da Universidade de Oxford está a testar uma terapia inédita para a coroideremia — cegueira incurável provocada por degeneração progressiva da retina. A técnica, que consiste na injecção de um vírus terapêutico que transporta o gene saudável até às células fotossensíveis da retina, foi desenvolvida, ao longo dos últimos 20 anos, por um grupo de investigação liderado pelo português Miguel Seabra (Imperial College de Londres / Universidade Nova de Lisboa). BIOMATERIAIS.

Rui Reis, professor do Departamento de Engenharia de Polímeros da Universidade do Minho, director do 3B’s Research Group e, entre outros cargos internacionais, coordenador do Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, foi distinguido com o George Winter Award, principal galardão europeu na área dos biomateriais. Do seu vasto corpo de trabalho de investigação destaca-se o desenvolvimento de biomateriais a partir de polímeros de origem natural para aplicações biomédicas, nomeadamente na reconstrução de cartilagem e osso. NANOTECNOLOGIA.

Em Fevereiro foi inaugurado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa o primeiro laboratório português de nanofabricação. Esta unidade irá «permitir avanços enormes no domínio das nanotecnologias, quer ao nível de potenciar as propriedades dos materiais à nano escala, quer no desenvolvimento de novos materiais e produtos, incluindo dispositivos electrónicos», explicou ao “Diário Económico” Elvira Fortunato, coordenadora do projecto e depositária de uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação no valor de 2,25 milhões de euros.

7 MUNDO PORTUGUÊS NOVOS EMIGRANTES. «Nem só de fado e futebol se faz a imagem do sucesso português fora de portas», escrevíamos na edição nº 6 da “M Magazine”, em artigo dedicado aos portugueses com sucesso fora de portas. Falámos de Joana Carneiro, maestrina e directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, distinguida com o prémio Helen M. Thompson, da Liga de Orquestras Americanas. Do fotógrafo Edgar Martins, radicado em Londres, apontado pela crítica norte-americana como um dos artistas mais importantes da sua geração. Do designer Rui Docouto, fundador do ateliê de design de mobiliário e interiores «altamente criativos» Site Specific Design (Nova Iorque). De Pedro Baroso, “chef de cuisine” do restaurante Mediterraneo, no Armani Hotel Dubai. E do investigador Pedro Nunes, titular de uma cátedra de Biologia de Espécies Invasoras na Universidade de Algoma (Canadá). Pelas páginas da “M” passaram também o actor português mais internacional de sempre, Joaquim de Almeida; a actriz/cantora Sofia Escobar, protagonista do musical “O Fantasma da Ópera” no West End londrino; Ricardo Pereira, o português preferido do público brasileiro, actor residente da máquina de fazer telenovelas Globo; o designer Felipe de Oliveira Baptista, director criativo da Lacoste. Podíamos continuar a enumerá-los dias a fio. Se as estimativas oficiosas estiverem correctas, seremos cinco a dez milhões de portugueses por esse mundo fora. Os casos de sucesso, esses, vão-se multiplicando, felizmente.

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9.

10

FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

A PORTA DO DESCONHECIDO CENTRE FOR THE UNKNOWN. Se em vida António de Sommer Champalimaud (1918-2004) não ficou particularmente conhecido como filantropo, revelado o seu testamento o homem mais rico de Portugal surpreendeu muita gente. Da fortuna de dois mil milhões de euros destinou parte considerável — 500 milhões — à criação de uma instituição para o avanço da ciência médica, não só a nível nacional, mas também europeu e mundial. A Fundação Champalimaud nasceria em finais de 2004. A 5 de Outubro de 2010, este projecto científico sem precedentes ganha uma casa definitiva. Sob o olhar atento da comunidade científica internacional, foi inaugurado em Lisboa o Centre for the Unknown, dedicado ao estudo das neurociências e da oncologia, norteado pela investigação translacional — a aplicação prática dos resultados tão rapidamente quanto possível, em benefício do paciente. No campo da oncologia, é dada grande ênfase ao cancro metastático. «Queremos saber porque é que um tumor se espalha», explica Fátima Cardoso, directora da Unidade de Cancro da Mama. A criação do primeiro centro mundial dedicado exclusivamente à investigação, prevenção e tratamento de metástases é um dos projectos em marcha. «Daqui a cinco anos, gostaríamos de ser reconhecidos como um dos melhores sítios do mundo para a investigação de metástases», defende Raghu Kalluri, investigador da Harvard Medical School e colaborador da Fundação. Axel Ullrich, director do Instituto Max Planck, não tem dúvidas: «De momento, Lisboa não é o centro mundial da ciência, mas pode passar a sê-lo se tudo isto for bem encaminhado.» fchampalimaud.org

8

M O D A L I D A D E S

GINÁSTICA.

Após vencer duas Taças do Mundo (e terminar outras três no pódio, com uma medalha de prata e duas de bronze), a dupla Nuno Merino e Diogo Ganchinho venceu o circuito mundial de elites da Federação Internacional de Ginástica em trampolim sincronizado. Na ginástica acrobática, Gonçalo Roque e Sofia Rolão sagraram-se campeões europeus. JUDO.

Um ano em cheio para o judo português. Entre os judocas em destaque: Ana Hormigo, vencedora das Taças do Mundo de Praga e Lisboa (-42kg) e da Taça da Europa de Hamburgo (-52kg), e terceiro lugar nas Taças do Mundo de Samoa e Roma; Yahima Ramirez (-78kg), prata nas Taças do Mundo de Samoa e São Paulo e bronze em Sófia e Oberwart e na Taça da Europa de Hamburgo; Joana Ramos (-52kg), vice-campeã europeia e terceiro lugar no Grand Slam de Moscovo; e João Pina (-73kg), bicampeão europeu e medalha de prata no Grand Slam do Rio de Janeiro. CANOAGEM.

Nuno Barros (classe C1) e José Ramalho (K1) são campeões europeus de maratona. Nas Taças do Mundo, destacaram-se Teresa Portela, com ouro na classe K1 200m, e prata (com Helena Rodrigues, Joana Vasconcelos e Beatriz Gomes) e bronze (com H. Rodrigues, Joana Sousa e B. Gomes) em K4 500m; e Fernando Pimenta, com três medalhas de ouro (K1 5000m; K2 1000m com João Ribeiro; K4 1000m com Emanuel Silva, David Fernandes e J. Ribeiro), uma de prata (K1 1000m) e duas de bronze (K1 5000m com E. Silva; K4 1000m com E. Silva, David Fernandes e J. Ribeiro).

VIAJANTE GOURMET ESTRELA MICHELIN. Nuno Mendes não precisou de esperar um ano sequer. Nove meses após abrir as portas do Viajante, no “district” londrino de Bethnal Green, o chefe português recebeu um inestimável voto de confiança: uma estrela no Guia Michelin — Reino Unido & Irlanda 2011, depois de ter sido distinguido como o melhor novo restaurante de Londres pelo guia Harden’s. Bacalhau, secretos de porco e queijo da Ilha são alguns dos ingredientes de uma carta feita, essencialmente, de sabores do mundo — o nome «Viajante» não está lá por acaso. Nascido em Lisboa, corria 1973, Nuno Mendes saiu de Portugal aos 27 anos para estudar na California Culinary Academy de São Francisco e passou pelas cozinhas do Jean Georges, em Nova Iorque, e do El Bulli, de Ferran Adrià. viajante.co.uk

11 CENTRAL DE CRIATIVIDADE EXPERIMENTA DESIGN. Começou como projecto — utópico q.b. — de uma estudante de design e acabou em referência mundial. Em pouco mais de uma década, Guta Moura Guedes transformou Lisboa num espaço internacional de debate sobre as indústrias criativas e as problemáticas do design, exportou o conceito para Amesterdão e prepara-se para estreá-lo em São Paulo. A Experimenta Design, garante o “Modem — The International Design Reference Guide” (Paris, 2003), «desempenha um papel essencial na descoberta de novas formas de reposicionar a cultura de design como ponto estratégico de alavancagem entre a capacidade económica e a identidade cultural». experimentadesign.pt

novembro/dezembro 2011

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9.

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FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD

A PORTA DO DESCONHECIDO CENTRE FOR THE UNKNOWN. Se em vida António de Sommer Champalimaud (1918-2004) não ficou particularmente conhecido como filantropo, revelado o seu testamento o homem mais rico de Portugal surpreendeu muita gente. Da fortuna de dois mil milhões de euros destinou parte considerável — 500 milhões — à criação de uma instituição para o avanço da ciência médica, não só a nível nacional, mas também europeu e mundial. A Fundação Champalimaud nasceria em finais de 2004. A 5 de Outubro de 2010, este projecto científico sem precedentes ganha uma casa definitiva. Sob o olhar atento da comunidade científica internacional, foi inaugurado em Lisboa o Centre for the Unknown, dedicado ao estudo das neurociências e da oncologia, norteado pela investigação translacional — a aplicação prática dos resultados tão rapidamente quanto possível, em benefício do paciente. No campo da oncologia, é dada grande ênfase ao cancro metastático. «Queremos saber porque é que um tumor se espalha», explica Fátima Cardoso, directora da Unidade de Cancro da Mama. A criação do primeiro centro mundial dedicado exclusivamente à investigação, prevenção e tratamento de metástases é um dos projectos em marcha. «Daqui a cinco anos, gostaríamos de ser reconhecidos como um dos melhores sítios do mundo para a investigação de metástases», defende Raghu Kalluri, investigador da Harvard Medical School e colaborador da Fundação. Axel Ullrich, director do Instituto Max Planck, não tem dúvidas: «De momento, Lisboa não é o centro mundial da ciência, mas pode passar a sê-lo se tudo isto for bem encaminhado.» fchampalimaud.org

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M O D A L I D A D E S

GINÁSTICA.

Após vencer duas Taças do Mundo (e terminar outras três no pódio, com uma medalha de prata e duas de bronze), a dupla Nuno Merino e Diogo Ganchinho venceu o circuito mundial de elites da Federação Internacional de Ginástica em trampolim sincronizado. Na ginástica acrobática, Gonçalo Roque e Sofia Rolão sagraram-se campeões europeus. JUDO.

Um ano em cheio para o judo português. Entre os judocas em destaque: Ana Hormigo, vencedora das Taças do Mundo de Praga e Lisboa (-42kg) e da Taça da Europa de Hamburgo (-52kg), e terceiro lugar nas Taças do Mundo de Samoa e Roma; Yahima Ramirez (-78kg), prata nas Taças do Mundo de Samoa e São Paulo e bronze em Sófia e Oberwart e na Taça da Europa de Hamburgo; Joana Ramos (-52kg), vice-campeã europeia e terceiro lugar no Grand Slam de Moscovo; e João Pina (-73kg), bicampeão europeu e medalha de prata no Grand Slam do Rio de Janeiro. CANOAGEM.

Nuno Barros (classe C1) e José Ramalho (K1) são campeões europeus de maratona. Nas Taças do Mundo, destacaram-se Teresa Portela, com ouro na classe K1 200m, e prata (com Helena Rodrigues, Joana Vasconcelos e Beatriz Gomes) e bronze (com H. Rodrigues, Joana Sousa e B. Gomes) em K4 500m; e Fernando Pimenta, com três medalhas de ouro (K1 5000m; K2 1000m com João Ribeiro; K4 1000m com Emanuel Silva, David Fernandes e J. Ribeiro), uma de prata (K1 1000m) e duas de bronze (K1 5000m com E. Silva; K4 1000m com E. Silva, David Fernandes e J. Ribeiro).

VIAJANTE GOURMET ESTRELA MICHELIN. Nuno Mendes não precisou de esperar um ano sequer. Nove meses após abrir as portas do Viajante, no “district” londrino de Bethnal Green, o chefe português recebeu um inestimável voto de confiança: uma estrela no Guia Michelin — Reino Unido & Irlanda 2011, depois de ter sido distinguido como o melhor novo restaurante de Londres pelo guia Harden’s. Bacalhau, secretos de porco e queijo da Ilha são alguns dos ingredientes de uma carta feita, essencialmente, de sabores do mundo — o nome «Viajante» não está lá por acaso. Nascido em Lisboa, corria 1973, Nuno Mendes saiu de Portugal aos 27 anos para estudar na California Culinary Academy de São Francisco e passou pelas cozinhas do Jean Georges, em Nova Iorque, e do El Bulli, de Ferran Adrià. viajante.co.uk

11 CENTRAL DE CRIATIVIDADE EXPERIMENTA DESIGN. Começou como projecto — utópico q.b. — de uma estudante de design e acabou em referência mundial. Em pouco mais de uma década, Guta Moura Guedes transformou Lisboa num espaço internacional de debate sobre as indústrias criativas e as problemáticas do design, exportou o conceito para Amesterdão e prepara-se para estreá-lo em São Paulo. A Experimenta Design, garante o “Modem — The International Design Reference Guide” (Paris, 2003), «desempenha um papel essencial na descoberta de novas formas de reposicionar a cultura de design como ponto estratégico de alavancagem entre a capacidade económica e a identidade cultural». experimentadesign.pt

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S O L I D A R I E D A D E

14.

BANCO ALIMENTAR UM PAÍS SOLIDÁRIO.

EDUARDO SOUTO DE MOURA

NO PANTEÃO DOS GRANDES

12

PRÉMIO PRITZKER 2011.

AOS OLHOS DO MUNDO CINEMA. Faltam os prémios mediáticos, mas 2011 deu ao cinema português uma dose considerável de distinções internacionais. Por falta de espaço, mencionamos apenas algumas. A curta de animação “Os Olhos do Farol”, de Pedro Serrazina, passou por festivais de todo o mundo e foi premiada no Cineport (Brasil), no Lucas International Children’s Film Festival (Alemanha) e no Festival Ibérico de Cinema (Espanha). “Contraluz”, a aventura hollywoodesca de Fernando Fragata, colheu uma menção especial no Las Vegas Film Festival, Palma de Prata no Mexico International Film Festival e três Los Angeles Movie Awards (“Award of Excellence”, melhor direcção de arte e melhor actriz, Skyler Day). O certame californiano laureou também o jovem realizador André Badalo pela curta “Catarina e os Outros”. “Complexo: Universo Paralelo”, documentário de Pedro e Mário Patrocínio sobre o quotidiano da favela Complexo do Alemão, foi galardoado com o prémio de direitos humanos no Artivist Film Festival (EUA). O decano Festival de Locarno (Suíça) distinguiu “Não É na Lua, É na Terra” de Gonçalo Tocha e “Liberdade” de Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty. E o compositor Nuno Maló recebeu o prémio revelação da International Film Music Critics Association Award pela banda sonora de “Amália”. Óscares ainda não há. Talvez para o ano — o documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é o nosso candidato a candidato para a categoria de melhor filme estrangeiro. Em Janeiro (dia 24) se saberá o veredicto da Academia.

13 CAMPEÃO DOS NÚMEROS OLIMPÍADAS DA MATEMÁTICA. Nuno Crato não conseguia esconder o entusiasmo. «É um resultado incrível!» O ministro da Educação — e antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática — fez questão de ir ao aeroporto receber o novo herói nacional. Aos 16 anos, Miguel Martins dos Santos, aluno do 10º ano da Escola Secundária de Alcanena, conseguiu um feito inédito: tornou-se o primeiro português a vencer a medalha de ouro nas Olimpíadas Internacionais da Matemática, destacando-se entre mais de 570 participantes.

14.magazine

15

novembro/dezembro 2011

ADESÃO-RECORDE. A notícia repete-se, mudam apenas os números. O Banco Alimentar Contra a Fome organiza duas campanhas anuais de recolha de alimentos, em Maio e em Novembro (em ambas conta com o apoio do Millennium bcp). De ano para ano, a adesão cresce a olhos vistos. Em Novembro de 2009, assinalava-se o recorde de 2498 toneladas de bens angariados. Passados doze meses, o volume subia para as 3265 toneladas, novo feito inédito, apesar da crise, do pessimismo, da quebra de expectativas. «Os cidadãos portugueses são intrinsecamente generosos», resume Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa de Bancos Alimentares Contra a Fome. Em Maio último, deram entrada nos 19 Bancos Alimentares do País mais de 2300 toneladas de alimentos, um aumento de 14,9% em comparação à recolha de idêntico período de 2010 (por norma, a adesão à campanha de Maio é ligeiramente inferior), recolhidas com a colaboração de 31.900 voluntários, outro recorde. Os portugueses são solidários. E têm orgulho nisso. bancoalimentar.pt

«É um prémio justíssimo.» A notícia não surpreendeu Álvaro Siza Vieira. Quando o arquitecto de 78 anos soube que o seu discípulo tinha sido laureado com o maior galardão mundial de arquitectura, não perdeu tempo a elogiá-lo: «Esperava todos os anos, desde há algum tempo, que [Souto Moura] fosse contemplado com esse prémio.» Aos 58 anos, Eduardo Elísio Machado Souto de Moura tornou-se o segundo português a receber o Pritzker Prize (sucedendo ao seu mestre, distinguido em 1992), oficiosamente chamado de «Nobel da Arquitectura». Mais do que os 100 mil dólares de prémio monetário, vale ao titular um lugar no panteão dos grandes, ao lado de figuras como Oscar Niemeyer, Frank Gehry, I. M. Pei ou Rem Koolhas. Souto de Moura nasceu no Porto, em 1952, lançando-se no ofício por conta própria aos 28 anos, recém-licenciado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e após seis anos no ateliê de Siza. «Foi difícil começar, mas usar a sua “linguagem” parecia-me uma traição e mesmo que o quisesse, não o conseguia fazer, por pudor», reconheceu no discurso de agradecimento. Peter Palumbo, presidente do júri, sublinha que ao longo da sua carreira «Souto de Moura produziu um corpo de trabalho que tanto é do nosso tempo como também transporta ecos da tradição arquitectónica». O comunicado cita como exemplos o Estádio Municipal de Braga ou a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. «Os seus edifícios têm uma capacidade única de conciliar características aparentemente incompatíveis — poder e modéstia, audácia e subtileza, evidente autoridade pública e sentido de intimidade.»


S O L I D A R I E D A D E

14.

BANCO ALIMENTAR UM PAÍS SOLIDÁRIO.

EDUARDO SOUTO DE MOURA

NO PANTEÃO DOS GRANDES

12

PRÉMIO PRITZKER 2011.

AOS OLHOS DO MUNDO CINEMA. Faltam os prémios mediáticos, mas 2011 deu ao cinema português uma dose considerável de distinções internacionais. Por falta de espaço, mencionamos apenas algumas. A curta de animação “Os Olhos do Farol”, de Pedro Serrazina, passou por festivais de todo o mundo e foi premiada no Cineport (Brasil), no Lucas International Children’s Film Festival (Alemanha) e no Festival Ibérico de Cinema (Espanha). “Contraluz”, a aventura hollywoodesca de Fernando Fragata, colheu uma menção especial no Las Vegas Film Festival, Palma de Prata no Mexico International Film Festival e três Los Angeles Movie Awards (“Award of Excellence”, melhor direcção de arte e melhor actriz, Skyler Day). O certame californiano laureou também o jovem realizador André Badalo pela curta “Catarina e os Outros”. “Complexo: Universo Paralelo”, documentário de Pedro e Mário Patrocínio sobre o quotidiano da favela Complexo do Alemão, foi galardoado com o prémio de direitos humanos no Artivist Film Festival (EUA). O decano Festival de Locarno (Suíça) distinguiu “Não É na Lua, É na Terra” de Gonçalo Tocha e “Liberdade” de Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty. E o compositor Nuno Maló recebeu o prémio revelação da International Film Music Critics Association Award pela banda sonora de “Amália”. Óscares ainda não há. Talvez para o ano — o documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é o nosso candidato a candidato para a categoria de melhor filme estrangeiro. Em Janeiro (dia 24) se saberá o veredicto da Academia.

13 CAMPEÃO DOS NÚMEROS OLIMPÍADAS DA MATEMÁTICA. Nuno Crato não conseguia esconder o entusiasmo. «É um resultado incrível!» O ministro da Educação — e antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática — fez questão de ir ao aeroporto receber o novo herói nacional. Aos 16 anos, Miguel Martins dos Santos, aluno do 10º ano da Escola Secundária de Alcanena, conseguiu um feito inédito: tornou-se o primeiro português a vencer a medalha de ouro nas Olimpíadas Internacionais da Matemática, destacando-se entre mais de 570 participantes.

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novembro/dezembro 2011

ADESÃO-RECORDE. A notícia repete-se, mudam apenas os números. O Banco Alimentar Contra a Fome organiza duas campanhas anuais de recolha de alimentos, em Maio e em Novembro (em ambas conta com o apoio do Millennium bcp). De ano para ano, a adesão cresce a olhos vistos. Em Novembro de 2009, assinalava-se o recorde de 2498 toneladas de bens angariados. Passados doze meses, o volume subia para as 3265 toneladas, novo feito inédito, apesar da crise, do pessimismo, da quebra de expectativas. «Os cidadãos portugueses são intrinsecamente generosos», resume Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa de Bancos Alimentares Contra a Fome. Em Maio último, deram entrada nos 19 Bancos Alimentares do País mais de 2300 toneladas de alimentos, um aumento de 14,9% em comparação à recolha de idêntico período de 2010 (por norma, a adesão à campanha de Maio é ligeiramente inferior), recolhidas com a colaboração de 31.900 voluntários, outro recorde. Os portugueses são solidários. E têm orgulho nisso. bancoalimentar.pt

«É um prémio justíssimo.» A notícia não surpreendeu Álvaro Siza Vieira. Quando o arquitecto de 78 anos soube que o seu discípulo tinha sido laureado com o maior galardão mundial de arquitectura, não perdeu tempo a elogiá-lo: «Esperava todos os anos, desde há algum tempo, que [Souto Moura] fosse contemplado com esse prémio.» Aos 58 anos, Eduardo Elísio Machado Souto de Moura tornou-se o segundo português a receber o Pritzker Prize (sucedendo ao seu mestre, distinguido em 1992), oficiosamente chamado de «Nobel da Arquitectura». Mais do que os 100 mil dólares de prémio monetário, vale ao titular um lugar no panteão dos grandes, ao lado de figuras como Oscar Niemeyer, Frank Gehry, I. M. Pei ou Rem Koolhas. Souto de Moura nasceu no Porto, em 1952, lançando-se no ofício por conta própria aos 28 anos, recém-licenciado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e após seis anos no ateliê de Siza. «Foi difícil começar, mas usar a sua “linguagem” parecia-me uma traição e mesmo que o quisesse, não o conseguia fazer, por pudor», reconheceu no discurso de agradecimento. Peter Palumbo, presidente do júri, sublinha que ao longo da sua carreira «Souto de Moura produziu um corpo de trabalho que tanto é do nosso tempo como também transporta ecos da tradição arquitectónica». O comunicado cita como exemplos o Estádio Municipal de Braga ou a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. «Os seus edifícios têm uma capacidade única de conciliar características aparentemente incompatíveis — poder e modéstia, audácia e subtileza, evidente autoridade pública e sentido de intimidade.»


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VIAGENS NA NOSSA TERRA

INTERACTIVO PROACTIVO

DESTINO: PORTUGAL. Na qualidade

de destino internacional por excelência, Portugal foi motivo de conversa várias vezes ao longo do ano. Logo em Janeiro, o “New York Times” antecipou-se a 2012 e incluiu a futura Capital Europeia da Cultura na lista dos «41 sítios a visitar em 2011». Lado-a-lado com destinos de fama mundial como Londres ou Milão, Guimarães destacava-se por se estar a transformar «num dos “hotspots” culturais da Península Ibérica». A Lonely Planet (editora especializada em viagens e autoridade mundial na matéria) assina por baixo, apontando Guimarães como uma das «10 cidades para 2012» na habitual compilação “Best in Travel”. Este «anuário» destaca também o Porto, no “top” dos «10 destinos “best value” para 2012», com a quantidade de voos “low-cost” para o Aeroporto Sá Carneiro e o preço do alojamento como pontos de partida para explorar as «charmosas vielas, praças que mais parecem de aldeia e edifícios cobertos de azulejos», a par da região vinhateira do Alto Douro, onde se pode «dormir em casas bicentenárias por 60€». A UNESCO decretou duas novas Reservas da Biosfera em território nacional: as Berlengas e o município de Santana (Madeira). As primeiras pelas «características geofísicas e ecológicas únicas» que «as autoridades e as gentes de Peniche ajudam a manter, promovendo o desenvolvimento sustentável». E Santana pela «rica fauna e flora de elevado grau endémico» e pela representatividade enquanto amostra «das unidades ecológicas mais relevantes da Madeira, dos ecossistemas marinhos e costeiros à vegetação de alta altitude, passando pela Floresta Laurissilva». Um bom pretexto para recordar as restantes Reservas da Biosfera portuguesas: as ilhas de Corvo, Graciosa e Flores, a Reserva Natural de Paúl do Boquilobo e o Parque Internacional Luso-Galaico Gerês/Xurés.

17 CONTRA A CRISE, EXPORTAR. NEGÓCIOS. Nicolas Cage usa-os. Kate Moss também. E Oprah Winfrey não passa sem eles. Em 2007 fez mesmo rasgados elogios no seu “talk show” e, com isso, a popularidade internacional da marca portuguesa disparou. Hoje, com 124 anos, a Ach. Brito está mais jovem do que nunca, marcando presença em meia centena de países — dos Estados Unidos à Nova Zelândia, da Suécia à Jordânia — e exportando um terço da sua produção. Em 2011 marcou presença nas páginas da imprensa de todo o mundo: na revista australiana de design “Belle”, no suplemento de luxos “How To Spend It” (“Financial Times”) ou na “O: The Oprah Magazine”, onde os sabonetes fabricados em Vila do Conde são eleitos uma das “Favorite Things” de sempre da mulher mais poderosa da televisão americana. Se em 2010 a facturação atingiu os 4,5 milhões de euros, 2011 pode fechar com um crescimento do volume de negócios na casa dos dois dígitos. A Ach. Brito é uma das muitas empresas portuguesas que teimam em demonstrar que o sucesso no mercado global é possível. clausporto.com

ENTRETENIMENTO. Nuno Bernardo não se deixou intimidar pela pouca tradição nacional de exportação de conteúdos audiovisuais. Quando decidiu criar uma empresa de entretenimento interactivo, o ex-jornalista e ex-publicitário percebeu que, para vingar, teria de ser global. A série multiplataforma “O Diário de Sofia”, «telenovela adolescente interactiva» criada em 2003, foi o primeiro sucesso da produtora BeActive. Após quatro temporadas em Portugal, o formato conhece já adaptações na Alemanha, Chile, China, Estados Unidos, Grécia, Irlanda, Reino Unido, Turquia, Vietname. “T2 Para 3” (2008) — série que cruza televisão, “online”, telemóvel e “vídeo-on-demand” — está já presente em Espanha Grécia, Irlanda, Reino Unido e Rússia. O portefólio da BeActive inclui ainda o telefilme “Castigo Final” (Brasil, 2010), nomeado para um Emmy internacional; a série televisiva “Living In Your Car” (Canadá, 2010), nomeada para três Gemini Awards (equivalente canadiano dos Emmy); a série documental “Yes I Can” (Irlanda, 2011); e a série “The Line” (Canadá, 2010), com Linda Hamilton. Actualmente está em produção “350 South”, documentário de aventura multiplataforma — incluindo “website”, Facebook, Twitter, blogue, “app” para iPhone e iPad, canal YouTube e mapa interactivo com localizador GPS — que acompanha a viagem de bicicleta de dois ambientalistas ao longo da Estrada Pan-Americana, entre o Alasca e a Terra do Fogo. beactivemedia.com

19 PORTUGAL AO ESPELHO FFMS/PORDATA. Nasceu com o objectivo de estimular o estudo da realidade portuguesa, contribuir para o desenvolvimento da sociedade, e reforçar os direitos dos cidadãos e a melhoria das instituições públicas. Criada em 2009, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) desempenha um papel fundamental, ajudando Portugal a conhecer-se a si próprio. «A informação isenta e rigorosa, divulgada da maneira mais aberta possível, é um instrumento de liberdade», escreve o sociólogo António Barreto, presidente do conselho de administração, no “website” da FFMS. A colecção “Ensaios da Fundação” — já com mais de 20 livros publicados (sempre a preços acessíveis), assinados por especialistas nas diversas matérias — é um dos vértices visíveis deste grande projecto, assim como o portal Pordata, base de dados estatísticos de consulta fácil e rápida que tanto permite analisar a evolução de Portugal nos últimos 50 anos em diversas áreas, como traçar um retrato do País em tempo real. Em 2011, foi distinguido pela UNESCO com um World Summit Award. pordata.pt

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VIAGENS NA NOSSA TERRA

INTERACTIVO PROACTIVO

DESTINO: PORTUGAL. Na qualidade

de destino internacional por excelência, Portugal foi motivo de conversa várias vezes ao longo do ano. Logo em Janeiro, o “New York Times” antecipou-se a 2012 e incluiu a futura Capital Europeia da Cultura na lista dos «41 sítios a visitar em 2011». Lado-a-lado com destinos de fama mundial como Londres ou Milão, Guimarães destacava-se por se estar a transformar «num dos “hotspots” culturais da Península Ibérica». A Lonely Planet (editora especializada em viagens e autoridade mundial na matéria) assina por baixo, apontando Guimarães como uma das «10 cidades para 2012» na habitual compilação “Best in Travel”. Este «anuário» destaca também o Porto, no “top” dos «10 destinos “best value” para 2012», com a quantidade de voos “low-cost” para o Aeroporto Sá Carneiro e o preço do alojamento como pontos de partida para explorar as «charmosas vielas, praças que mais parecem de aldeia e edifícios cobertos de azulejos», a par da região vinhateira do Alto Douro, onde se pode «dormir em casas bicentenárias por 60€». A UNESCO decretou duas novas Reservas da Biosfera em território nacional: as Berlengas e o município de Santana (Madeira). As primeiras pelas «características geofísicas e ecológicas únicas» que «as autoridades e as gentes de Peniche ajudam a manter, promovendo o desenvolvimento sustentável». E Santana pela «rica fauna e flora de elevado grau endémico» e pela representatividade enquanto amostra «das unidades ecológicas mais relevantes da Madeira, dos ecossistemas marinhos e costeiros à vegetação de alta altitude, passando pela Floresta Laurissilva». Um bom pretexto para recordar as restantes Reservas da Biosfera portuguesas: as ilhas de Corvo, Graciosa e Flores, a Reserva Natural de Paúl do Boquilobo e o Parque Internacional Luso-Galaico Gerês/Xurés.

17 CONTRA A CRISE, EXPORTAR. NEGÓCIOS. Nicolas Cage usa-os. Kate Moss também. E Oprah Winfrey não passa sem eles. Em 2007 fez mesmo rasgados elogios no seu “talk show” e, com isso, a popularidade internacional da marca portuguesa disparou. Hoje, com 124 anos, a Ach. Brito está mais jovem do que nunca, marcando presença em meia centena de países — dos Estados Unidos à Nova Zelândia, da Suécia à Jordânia — e exportando um terço da sua produção. Em 2011 marcou presença nas páginas da imprensa de todo o mundo: na revista australiana de design “Belle”, no suplemento de luxos “How To Spend It” (“Financial Times”) ou na “O: The Oprah Magazine”, onde os sabonetes fabricados em Vila do Conde são eleitos uma das “Favorite Things” de sempre da mulher mais poderosa da televisão americana. Se em 2010 a facturação atingiu os 4,5 milhões de euros, 2011 pode fechar com um crescimento do volume de negócios na casa dos dois dígitos. A Ach. Brito é uma das muitas empresas portuguesas que teimam em demonstrar que o sucesso no mercado global é possível. clausporto.com

ENTRETENIMENTO. Nuno Bernardo não se deixou intimidar pela pouca tradição nacional de exportação de conteúdos audiovisuais. Quando decidiu criar uma empresa de entretenimento interactivo, o ex-jornalista e ex-publicitário percebeu que, para vingar, teria de ser global. A série multiplataforma “O Diário de Sofia”, «telenovela adolescente interactiva» criada em 2003, foi o primeiro sucesso da produtora BeActive. Após quatro temporadas em Portugal, o formato conhece já adaptações na Alemanha, Chile, China, Estados Unidos, Grécia, Irlanda, Reino Unido, Turquia, Vietname. “T2 Para 3” (2008) — série que cruza televisão, “online”, telemóvel e “vídeo-on-demand” — está já presente em Espanha Grécia, Irlanda, Reino Unido e Rússia. O portefólio da BeActive inclui ainda o telefilme “Castigo Final” (Brasil, 2010), nomeado para um Emmy internacional; a série televisiva “Living In Your Car” (Canadá, 2010), nomeada para três Gemini Awards (equivalente canadiano dos Emmy); a série documental “Yes I Can” (Irlanda, 2011); e a série “The Line” (Canadá, 2010), com Linda Hamilton. Actualmente está em produção “350 South”, documentário de aventura multiplataforma — incluindo “website”, Facebook, Twitter, blogue, “app” para iPhone e iPad, canal YouTube e mapa interactivo com localizador GPS — que acompanha a viagem de bicicleta de dois ambientalistas ao longo da Estrada Pan-Americana, entre o Alasca e a Terra do Fogo. beactivemedia.com

19 PORTUGAL AO ESPELHO FFMS/PORDATA. Nasceu com o objectivo de estimular o estudo da realidade portuguesa, contribuir para o desenvolvimento da sociedade, e reforçar os direitos dos cidadãos e a melhoria das instituições públicas. Criada em 2009, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) desempenha um papel fundamental, ajudando Portugal a conhecer-se a si próprio. «A informação isenta e rigorosa, divulgada da maneira mais aberta possível, é um instrumento de liberdade», escreve o sociólogo António Barreto, presidente do conselho de administração, no “website” da FFMS. A colecção “Ensaios da Fundação” — já com mais de 20 livros publicados (sempre a preços acessíveis), assinados por especialistas nas diversas matérias — é um dos vértices visíveis deste grande projecto, assim como o portal Pordata, base de dados estatísticos de consulta fácil e rápida que tanto permite analisar a evolução de Portugal nos últimos 50 anos em diversas áreas, como traçar um retrato do País em tempo real. Em 2011, foi distinguido pela UNESCO com um World Summit Award. pordata.pt

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22.

A CORRIDA DO OURO.

MARÉ ALTA

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SURF. A 28 de Fevereiro, a organização internacional Save The Waves Coalition concedeu à Ericeira o estatuto de Reserva Mundial de Surf — a segunda do mundo e a primeira da Europa. A área protegida estende-se ao longo de quatro quilómetros de linha costeira e abrange os “spots” de Pedra Branca, Reef, Ribeira d’Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço. Para 2012 está em marcha a candidatura de outra onda portuguesa, a do Cabo Mondego (Figueira da Foz). Além desta iniciativa, as ondas nacionais estiveram em destaque nas competições da ASP, Association of Surfing Professionals, que levaram a Peniche, Ericeira e São Miguel os melhores surfistas da actualidade. Para não falar na onda gigante da Nazaré, que pôs Portugal nos noticiários de todo o mundo em Novembro e o surfista havaiano Garrett McNamara na história da modalidade.

21 GALERIA A CÉU ABERTO ARTE URBANA. Arte ou vandalismo? A discussão, embora legítima, é aqui posta de lado. Não é preciso ser-se um apreciador encartado para distinguir rabiscos aleatórios destinados a «marcar território» de verdadeiras obras de arte a céu aberto. Lisboa tem vários exemplares de ambos, mas são os segundos que mais importam. A Avenida Fontes Pereira de Melo concentra uma parte importante do roteiro de arte urbana da capital, com vários prédios devolutos transformados em telas para “graffiti” de proporções gigantescas. De tão perplexa, a jornalista britânica Rachel Dixon dedicou-lhes um vasto artigo nas páginas do “The Guardian”, traçando um roteiro que passa também pela Galeria de Arte Urbana (gau-lisboa.blogspot.com), pelo trabalho de Camilla Watson na Mouraria (camillawatsonphotography.net) ou pelos retratos de VHILS, artista português (alexandrefarto.com) com trabalhos em várias cidades mundiais, e que em Agosto viu o seu “graffito” junto à estação de Waterloo, em Londres, eleito por aquele jornal inglês um dos dez melhores exemplares de arte urbana do mundo. cargocollective.com/crono

18.magazine

novembro/dezembro 2011

ATLETISMO. Mesmo sem medalhas nos Mundiais de Atletismo, em ano de preparação para as Olimpíadas de Londres os atletas portugueses prestaram provas de competência no circuito internacional. Marco Borges alcançou o segundo lugar do pódio na Taça da Europa de Lançamentos, em Sófia. Sara Moreira e Youssef el Kalai valeram duplo ouro a Portugal na Taça da Europa dos 10.000 metros — e contribuíram para a prata e o bronze na prova de equipas (feminina e masculina, respectivamente). A modalidade viu ainda a atleta Catarina Ribeiro terminar em terceiro no Campeonato da Europa de Sub23, disputado na República Checa — de onde Marcos Chuva regressou com o título de campeão no salto em comprimento. Nelson Évora, por sua vez, regressou das Universíadas de Shenzen (China) com o ouro no triplo salto. Em Paris, no Campeonato Europeu de Atletismo em Pista Coberta, Naide Gomes segurou a medalha de prata no salto em comprimento. E Francis Obikwelu, mesmo a correr apenas por gosto — recorde-se que deixou a competição após a desilusão nos Jogos Olímpicos de Atenas (2008) —, não só bateu o recorde nacional dos 60 metros como venceu o ouro.

HOTELARIA E TURISMO

SELECÇÃO NACIONAL

23

OS MELHORES ENTRE OS MELHORES. Por mais que gostemos daquilo que é português, um elogio vindo de fora é sempre recebido com redobrado orgulho. Em especial quando se trata do sector do Turismo, responsável por 43,1% das exportações nacionais (Janeiro-Agosto 2011, dados AICEP), que alguém um dia designou como «o petróleo português». A revista norte-americana “Condé Nast Traveller”, «bíblia» das novas tendências no mundo das viagens, publica anualmente a “Hot List”, com os melhores novos hotéis do planeta. Na edição de 2011, Portugal é o país europeu com mais entradas na lista (oito): Vidago Palace (Vidago), The Yeatman (Porto), Areias do Seixo (A-dos-Cunhados), Hotel da Estrela (Lisboa), Inspira Santa Marta (Lisboa), Lx Boutique Hotel (Lisboa), The Oitavos (Cascais) e Martinhal (Sagres). A “Travel + Leisure” (outra publicação de referência, igualmente sediada nos EUA), na hora de eleger os 25 melhores hotéis do mundo, deixou a escolha nas mãos dos leitores — que colocaram o Olissippo Lapa Palace na 18ª posição. Além deste “ranking”, o clássico lisboeta está também no 4º lugar dos “Europe’s Best Hotels” e é o vencedor da categoria “Melhor Serviço” no que respeita a hotéis citadinos, tanto da Europa como a nível mundial. Para quem preferir prémios mais «oficiais», também os há, os World Travel Awards, mais conhecidos como «Óscares do mundo das viagens». Em 2010, o Vila Joya (Praia da Galé) foi eleito “Melhor ‘Boutique Resort’ do Mundo” (título que segura desde 2006) e a TAP recebeu o prémio de “Melhor Companhia Área — Destino América do Sul”. Quanto a 2011, ainda só são conhecidos os vencedores das categorias europeias — e, uma vez mais, lá está o Vila Joya. Os melhores do mundo só serão anunciados em Janeiro. Entre os nomeados (Portugal tem nove), destaca-se Lisboa, indicada para os prémios de “Melhor Destino Mundial”, “Melhor Destino de Cruzeiros” e “Melhor Porto de Cruzeiros”. worldtravelawards.com


22.

A CORRIDA DO OURO.

MARÉ ALTA

20

SURF. A 28 de Fevereiro, a organização internacional Save The Waves Coalition concedeu à Ericeira o estatuto de Reserva Mundial de Surf — a segunda do mundo e a primeira da Europa. A área protegida estende-se ao longo de quatro quilómetros de linha costeira e abrange os “spots” de Pedra Branca, Reef, Ribeira d’Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço. Para 2012 está em marcha a candidatura de outra onda portuguesa, a do Cabo Mondego (Figueira da Foz). Além desta iniciativa, as ondas nacionais estiveram em destaque nas competições da ASP, Association of Surfing Professionals, que levaram a Peniche, Ericeira e São Miguel os melhores surfistas da actualidade. Para não falar na onda gigante da Nazaré, que pôs Portugal nos noticiários de todo o mundo em Novembro e o surfista havaiano Garrett McNamara na história da modalidade.

21 GALERIA A CÉU ABERTO ARTE URBANA. Arte ou vandalismo? A discussão, embora legítima, é aqui posta de lado. Não é preciso ser-se um apreciador encartado para distinguir rabiscos aleatórios destinados a «marcar território» de verdadeiras obras de arte a céu aberto. Lisboa tem vários exemplares de ambos, mas são os segundos que mais importam. A Avenida Fontes Pereira de Melo concentra uma parte importante do roteiro de arte urbana da capital, com vários prédios devolutos transformados em telas para “graffiti” de proporções gigantescas. De tão perplexa, a jornalista britânica Rachel Dixon dedicou-lhes um vasto artigo nas páginas do “The Guardian”, traçando um roteiro que passa também pela Galeria de Arte Urbana (gau-lisboa.blogspot.com), pelo trabalho de Camilla Watson na Mouraria (camillawatsonphotography.net) ou pelos retratos de VHILS, artista português (alexandrefarto.com) com trabalhos em várias cidades mundiais, e que em Agosto viu o seu “graffito” junto à estação de Waterloo, em Londres, eleito por aquele jornal inglês um dos dez melhores exemplares de arte urbana do mundo. cargocollective.com/crono

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novembro/dezembro 2011

ATLETISMO. Mesmo sem medalhas nos Mundiais de Atletismo, em ano de preparação para as Olimpíadas de Londres os atletas portugueses prestaram provas de competência no circuito internacional. Marco Borges alcançou o segundo lugar do pódio na Taça da Europa de Lançamentos, em Sófia. Sara Moreira e Youssef el Kalai valeram duplo ouro a Portugal na Taça da Europa dos 10.000 metros — e contribuíram para a prata e o bronze na prova de equipas (feminina e masculina, respectivamente). A modalidade viu ainda a atleta Catarina Ribeiro terminar em terceiro no Campeonato da Europa de Sub23, disputado na República Checa — de onde Marcos Chuva regressou com o título de campeão no salto em comprimento. Nelson Évora, por sua vez, regressou das Universíadas de Shenzen (China) com o ouro no triplo salto. Em Paris, no Campeonato Europeu de Atletismo em Pista Coberta, Naide Gomes segurou a medalha de prata no salto em comprimento. E Francis Obikwelu, mesmo a correr apenas por gosto — recorde-se que deixou a competição após a desilusão nos Jogos Olímpicos de Atenas (2008) —, não só bateu o recorde nacional dos 60 metros como venceu o ouro.

HOTELARIA E TURISMO

SELECÇÃO NACIONAL

23

OS MELHORES ENTRE OS MELHORES. Por mais que gostemos daquilo que é português, um elogio vindo de fora é sempre recebido com redobrado orgulho. Em especial quando se trata do sector do Turismo, responsável por 43,1% das exportações nacionais (Janeiro-Agosto 2011, dados AICEP), que alguém um dia designou como «o petróleo português». A revista norte-americana “Condé Nast Traveller”, «bíblia» das novas tendências no mundo das viagens, publica anualmente a “Hot List”, com os melhores novos hotéis do planeta. Na edição de 2011, Portugal é o país europeu com mais entradas na lista (oito): Vidago Palace (Vidago), The Yeatman (Porto), Areias do Seixo (A-dos-Cunhados), Hotel da Estrela (Lisboa), Inspira Santa Marta (Lisboa), Lx Boutique Hotel (Lisboa), The Oitavos (Cascais) e Martinhal (Sagres). A “Travel + Leisure” (outra publicação de referência, igualmente sediada nos EUA), na hora de eleger os 25 melhores hotéis do mundo, deixou a escolha nas mãos dos leitores — que colocaram o Olissippo Lapa Palace na 18ª posição. Além deste “ranking”, o clássico lisboeta está também no 4º lugar dos “Europe’s Best Hotels” e é o vencedor da categoria “Melhor Serviço” no que respeita a hotéis citadinos, tanto da Europa como a nível mundial. Para quem preferir prémios mais «oficiais», também os há, os World Travel Awards, mais conhecidos como «Óscares do mundo das viagens». Em 2010, o Vila Joya (Praia da Galé) foi eleito “Melhor ‘Boutique Resort’ do Mundo” (título que segura desde 2006) e a TAP recebeu o prémio de “Melhor Companhia Área — Destino América do Sul”. Quanto a 2011, ainda só são conhecidos os vencedores das categorias europeias — e, uma vez mais, lá está o Vila Joya. Os melhores do mundo só serão anunciados em Janeiro. Entre os nomeados (Portugal tem nove), destaca-se Lisboa, indicada para os prémios de “Melhor Destino Mundial”, “Melhor Destino de Cruzeiros” e “Melhor Porto de Cruzeiros”. worldtravelawards.com


25 GONÇALO M. TAVARES

A NOVA EPOPEIA LITERATURA. A epopeia contemporânea que Gonçalo M. Tavares escreveu em “Uma Viagem à Índia” é um dos momentos altos na carreira do escritor que em pouco mais de dez anos já ultrapassou os 40 livros publicados. As distinções sucedem-se desde o início de 2011, com destaque para o Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol e o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, para não falar do segundo lugar no prestigiadíssimo Prémio Portugal Telecom de Literatura, que une Portugal e Brasil (em 2007, Gonçalo M. Tavares conquistou o primeiro lugar com “Jerusalém”). De França chegaram também dois galardões de nomeada: Prémio do Melhor Livro Estrangeiro em 2010 (pelo romance “Aprender a Rezar na Era da Técnica”), considerado uma espécie de «antecâmara do Nobel» e cuja lista de vencedores tem nomes como Robert Musil, Gabriel García Marquez, Mario Vargas Llosa, Salman Rushdie, Philip Roth ou António Lobo Antunes; e o Prémio Literário dos Jovens Europeus, atribuído pela Escola Europeia de Comércio a “Senhor Kraus”, quinto livro da série “O Bairro”.

24 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

HOMENAGEM INTERNACIONAL LITERATURA. É um ano inesquecível para o escritor que se estreou na literatura portuguesa em 1979, com a publicação de “Memória de Elefante”. Em França, o primeiro semestre de 2011 da MC93, «instituição» teatral parisiense, foi inteiramente dedicado a António Lobo Antunes, com espectáculos, leituras e instalações a partir de vários textos. «É a primeira vez que se faz uma homenagem destas a um escritor vivo, seja ele de que nacionalidade for», garantia a editora Maria Piedade Ferreira no início do ano. Em Setembro, outro teatro, o São Luiz, em Lisboa, utilizou a obra do autor galardoado em 2007 com o Prémio Camões para abrir a nova temporada. No mesmo mês era lançado o seu 23º romance, “Comissão de Lágrimas” (Dom Quixote), depois de ter sido um dos 32 candidatos ao Prémio Príncipe das Astúrias das Letras 2011. No entanto, o dia que marca o ano de Lobo Antunes está assinalado no calendário a 9 de Outubro, quando viaja até Cambridge para se encontrar com George Steiner, professor e ensaísta britânico, um dos maiores intelectuais deste tempo, que em Março referia à revista “LER” ser o escritor português «um gigante» merecedor do Nobel.

20.magazine

novembro/dezembro 2011


HIGHLANDS UMA QUESTÃO DE ATITUDE

ESCÓCIA

ÚTIL.

Inverness Ilha de Skye

Urquhart Eilean Donan

QUANDO IR. Os meses de Verão

Loch Ness

são a melhor altura: além de a

Mallaig

probabilidade de chuva ser menor

Loch Morar

(mas sem garantias de Sol cons-

Loch Eilt Glenfinnan Loch Shiel Loch Eil Fort William Loch Linhe

tante), as temperaturas máximas atingem uma média de 19 graus e, graças à latitude, a noite chega

Stalker

mais tarde (por vezes, só às 23h). COMO IR. À partida de Lisboa, a EasyJet (easyjet.com) tem voos directos para Edimburgo a Loch Lomond

partir de €70. Saindo do Porto,

Edimburgo

Glasgow

a Lufthansa (lufthansa.com) voa para Edimburgo, via Frankfurt,

DESTAQUES.

a partir de €232. Para quem partir de Faro, há ligações directas a Glasgow a partir de €40, com

EXPRESSO HARRY POTTER. O “JACOBITE” (www.westcoastrailways.co.uk;

a RyanAir (ryanair.com).

BILHETE ADULTO SIMPLES/IDA E VOLTA A PARTIR DE 23,50£/31£), COMBOIO A VAPOR QUE GANHOU FAMA NOS FILMES DA SAGA DO APRENDIZ DE FEITICEIRO, PRO-

CIRCULAR. O comboio é uma

PORCIONA UMA DAS VIAGENS MAIS INESQUECÍVEIS QUE A ESCÓCIA TEM PARA OFERECER.

boa forma de visitar a Escócia.

O PERCURSO, DE FORT WILLIAM A MALLAIG, DURA DUAS HORAS.

Tem, porém, dois inconvenientes: o preço e a configuração da

ILHA DE SKYE. APESAR DE ESTAR LIGADA À ILHA PRINCIPAL POR UMA PONTE QUE LEVA

rede, que obriga a algumas

UM MINUTO A ATRAVESSAR DE CARRO (E CERCA DE 20 MINUTOS A PÉ), SKYE TEM UMA PER-

ligações de autocarro para evitar

SONALIDADE MUITO PRÓPRIA. ILUSTRAM-NO A SINALIZAÇÃO EM GAÉLICO, A AUSÊNCIA DE

desvios forçados por Edimburgo

CADEIAS DE “FAST FOOD” OU A ESCASSEZ DE CAIXAS MULTIBANCO. GANHA (E MUITO) EM

ou Glasgow. Planeie a viagem

AUTENTICIDADE E BELEZA SELVAGEM.

em www.scotrail.co.uk. Em certos

PUB

casos, pode compensar a compra BEN NEVIS. NOS RAROS DIAS EM QUE NÃO ESTÁ ENVOLVIDO EM NEBLINA, O PONTO MAIS ALTO

do InterRail One Country Pass,

DAS ILHAS BRITÂNICAS RECOMPENSA QUEM VENCE OS SEUS 1.344 METROS COM UMA

a partir de €126/€194

PANORÂMICA SOBERBA QUE CHEGA A ALCANÇAR A IRLANDA DO NORTE. É UMA CAMINHADA

(jovem/adulto; válido por três

DE NÍVEL INTERMÉDIO (CERCA DE SETE HORAS, COM O REGRESSO), EXIGINDO ALGUMA

dias; informações e mais

PREPARAÇÃO E EQUIPAMENTO ADEQUADO (visit-fortwilliam.co.uk).

modalidades em www.cp.pt).

VANTAGEM UM BANCO SEMPRE PRÓXIMO. Se estiver no estrangeiro, são várias as plataformas de acesso ao Millennium bcp. O portal www.millenniumbcp.pt permite realizar todo o tipo de operações e obter informações sobre os produtos que tenha contratado com o Banco. Os clientes registados no portal podem ainda aceder ao Banco através de telemóvel, “smartphone” ou BlackBerry com acesso à Internet. Trata-se do serviço “mobile banking” e o endereço a digitar é http://mobile.millenniumbcp.pt. Recentemente, o Millennium bcp lançou a App Millennium, uma nova aplicação de banca móvel — disponível para iPhone, BlackBerry e Smartphones (Java) — que permite aos clientes registados em www.millenniumbcp.pt aceder às contas e movimentar o seu património financeiro de forma simples, rápida e segura. Através do telemóvel pode também aceder ao Banco através do serviço Mobile SMS – após activar o serviço no portal, poderá realizar as principais consultas e operações bancárias por mensagem para o nº 3352. Por último, pode contactar o seu Banco por telefone a partir do estrangeiro, pelos números +351 707 502424 e +351 210052424, conforme a sua conveniência, acedendo ao serviço de atendimento automático (24 horas por dia) ou personalizado (08:00-24:00, todos os dias) da banca telefónica do Millennium bcp. Tenha sempre presente o seu código multicanal.

52.magazine

julho/agosto 2010

março/abril 2010

magazine.53


PORTEFÓLIO M magazine

Perfil/Entrevista Roberta e Roberto Medina Reportagem Fundação Champalimaud Roteiro Sintra Reportagem Clean Feed Records Reportagem de viagem Macau Perfil/Entrevista Malcolm Gladwell Reportagem de viagem Terras Altas escocesas Especial 25 motivos de orgulho em ser português

M magazine - alguns artigos  

Compilação de artigos publicados na "M magazine" (revista híbrida corporativa/entretenimento do Millennium bcp); Selection of articles publi...

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