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Faculdade de Arquitectura e Artes Mestrado em Arquitectura

Arquitectura em Reencontro com a tradição Centro de interpretação das Tradições

João Filipe Cruz Meneses

Porto Julho 2013


João Filipe Cruz Meneses

Arquitectura Reencontro com a tradição Centro de Interpretação das Tradições

Dissertação apresentada à Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada do Porto para a obtenção do grau de Mestre em Arquitectura. A dissertação foi escrita de acordo com o guia de orientação de Mestrado de 2011 da Universidade Lusíada de Lisboa e de acordo com a antiga ortografia.

Orientadora: Professora Doutora Maria Xavier Diogo Co-orientadora: Professora Doutora Cláudia Gonçalves Lima

Porto Julho 2013


DEDICATÓRIA À minha família, pelo apoio incondicional. Aos meus amigos, pela ajuda e criticas, nos momentos mais difíceis da construção deste trabalho, pois foram um verdadeiro ânimo para a retoma do melhor caminho do projecto. Aos colegas e professores, que foram perseverantes na discussão e partilha de experiências, ideias e bons momentos que definiram o meu carácter como aluno de Arquitectura. E por último, mas talvez mais importante, à força e ajuda dada por Jéssica Santos na realização deste trabalho e na insistência em atingir o sucesso e os meus objectivos enquanto aluno e crescer como pessoa.


AGRADECIMENTOS Às Professoras Doutoras Maria Xavier Diogo e Cláudia Gonçalves Lima, pela disponibilidade ao longo do ano, mostrando-se sempre prontas nas críticas e no estabelecimento de um método de trabalho onde nos momentos de impasse definiram o caminho certo. À Câmara Municipal de Mogadouro, assim como à Junta de Freguesia de Bemposta pelo fornecimento de documentação sobre a freguesia. Agradeço também aos arquitectos José Cid e Isabel Aires pela informação cedida, e ao grupo de trabalho formado pela turma C.


“Aprender a ver, que é fundamental, para um arquitecto e para todas as pessoas. Não só a olhar, mas a ver em profundidade, em detalhe, na globalidade.” VIEIRA, Álvaro Siza. (2003) – Revista UPORTO, entrevista a Bernardo Pinto de Almeida (2003) N. 9, Outubro de 2003, p 31


APRESENTAÇÃO

Arquitectura: Reencontro com a tradição Centro de Interpretação das Tradições João Filipe Cruz Meneses

Esta dissertação tem como objectivo de estudo a intervenção no património vernacular, na região transfronteiriça do nordeste transmontano, mais propriamente na freguesia de Bemposta, município do Mogadouro. O trabalho baseia-se no enquadramento e contextualização física, humana e arquitectónica desta região de forma a perceber a sua orografia, clima, flora e fauna, assim como os factores históricos, sócio económicos e etnográficos. O objectivo deste trabalho, passa também por analisar e comparar as dinâmicas organizacionais, assim como, identificar obstáculos e fortalecer o trabalho pático. Irá ser criado e trabalhado ao pormenor um centro de interpretação ambiental das tradições locais, onde terá várias actividades e atracções paisagísticas para que seja possível divulgar o património material e imaterial. Esta dissertação utiliza uma metodologia mista. Toda a informação necessária foi recolhida através de várias fontes, tais como: bibliotecas, portais governamentais, pesquisa on-line, entre outras. No final de toda a recolha procedeu-se a uma análise descritiva, comparativa e projectual para fundamentar a dissertação. Dentro desta intervenção, iremos também, abordar o vasto património histórico e cultural. A realização deste trabalho, tem como finalidade contribuir para o desenvolvimento da região, de forma a reforçar a intenção de preservar e revitalizar o património vernacular, assim como analisar e discutir o contributo da recuperação e reabilitação da arquitectura. Como conclusão do trabalho, é apresentado um caso de estudo com o intuito de reunir soluções que levem, através da arquitectura, a reavivar vivências tradicionais do povo transmontano.

Palavras-chave: Arquitectura, Património Vernacular, Tradições, Bemposta.


PRESENTATION

Architecture: Reunion with tradition Centro de Interpretação das Tradições

João Filipe Cruz Meneses

Keywords: Architecture, Vernacular Heritage, Traditions, Bemposta


SUMÁRIO 1.Introdução.................................................................................................................. 21 2.Enquadramento territorial.......................................................................................... 29 2.1. Contextualização Física............................................................................. 29 2.1.1. Orografia...................................................................................... 31 2.1.2. Clima............................................................................................ 33 2.1.3. Flora e Fauna.............................................................................. 35 2.2. Contextualização Humana......................................................................... 37 2.2.1. Factores Históricos...................................................................... 39 2.2.2. Factores Sócio económicos......................................................... 39 2.2.3. Factores Etnográficos.................................................................. 41 3.Arquitectura do Lugar................................................................................................ 47 3.1. Morfologia e Tipologia do Lugar................................................................. 47 3.2. Diagnóstico do Lugar.................................................................................. 51 4.Recuperação do Património....................................................................................... 57 4.1. O Restauro................................................................................................. 59 4.2. Obras de Referencia.................................................................................. 67 5.Estudo de Caso......................................................................................................... 87 5.1. Estratégia de Desenvolvimento................................................................. 91 5.2. Proposta..................................................................................................... 95 6.Conclusões................................................................................................................ 105 Referencias .................................................................................................................. 109 Bibliografia.................................................................................................................... 115 Apêndices..................................................................................................................... 117 Anexos...........................................................................................................................144


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1.INTRODUÇÃO

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1. INTRODUÇÃO Enquadramento ao tema Várias áreas do conhecimento têm como âmbito de acção, a intervenção em zonas rurais, implantando estratégias de desenvolvimento, revitalizadoras do território e do futuro sustentável, mesmo no rural profundo. Trabalhando no domínio da educação e formação, promoção da coesão social e económica, apoio a crianças e idosos, valorização de recursos endógenos e protecção do ambiente e da paisagem. Esta análise da dimensão sociocultural, mais especificamente no território transfronteiriço do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) e o Parque Natural Arribes del Duero (PNAD), tem como objectivo estudar práticas inovadoras, problemas, estímulos e desafios à sustentabilidade. Para um desenvolvimento sustentado e ligado à actividade turística, resultante de várias condições geográficas, politicas, sociais e económicas tais como, atracções paisagísticas e tradicionais, alojamentos rurais, temporários, turísticos e modos de transporte, exigem a criação de infra-estruturas de distribuição de produtos turísticos tais como a produção e divulgação de bens alimentares, artesanato e lazer desta região. Esta gestão espacial resulta de um grau de conhecimento do sector turístico de cada região, contribuindo, ainda, para o desenvolvimento regional sustentado. A globalização possui por um lado, dinamismo, crescimento e oportunidades, mas por outro, assimetrias e exclusão de território que traz a estes meios rurais um processo de marginalização e abandono, derivados da concentração de recursos em locais mais produtivos e rentáveis que estão situados, normalmente, no litoral do país. Contudo, esta zona rural, e a sua identidade pode ser geradora de oportunidades quando bem explorada, tendo assim possibilidades de acesso a novos mercados, a novas actividades nos sectores ambientais e no acolhimento residencial, fruto do desenvolvimento turístico e recreativo. Destacando as áreas fronteiriças da zona de Castilla y Leon e o nordeste transmontano, a estratégia presente neste estudo passa pela exploração das tradições e costumes populares, sendo estas o sistema dominante e catalisador de oportunidades. Pretende-se também contrariar as tendências de marginalização e promover projectos de desenvolvimento centrados nas pessoas e nas comunidades locais, que valorizem os recursos e as vantagens competitivas dos territórios, servindo

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as necessidades da população, ou seja, um desenvolvimento centrado nas pessoas e no território. Motivações A motivação, para esta investigação, ou estudo, parte da necessidade de receber formação no mundo da recuperação, reabilitação, intervenção e salvaguarda do património arquitectónico. Foi decisivo para a escolha deste tema, a inexistência deste tipo de trabalhos ao longa da formação académica do candidato na Universidade. A recuperação e conservação de zonas rurais são áreas que exigem uma formação específica, que o candidato sentiu que poderia receber de forma a completar o seu percurso académico. O rápido desenvolvimento dos materiais e técnicas de construção, que na contemporaneidade se afastaram da prática tradicional, são aspectos decisivos na divisão entre a arte da construção e os princípios da conservação e restauro. Com este tema existe a possibilidade do candidato aprofundar o conhecimento da história dos materiais e técnicas utilizadas na construção tradicional e ainda explorar as novas técnicas e materiais contemporâneos, que possibilitem uma maior durabilidade e conservação desse património arquitectónico. O surgimento de uma consciência pública da necessidade de proteger o património material e imaterial, suscitou ao candidato o interesse pelo estudo desta temática, assim como, a possibilidade de trabalhar não só no meio urbano mas também no meio rural. Âmbito A Faculdade de Arquitectura e Artes, no ano lectivo de 2012/2013, definiu vários temas possíveis de investigar, sendo que a turma C, escolhida pelo candidato, apresenta um tema no âmbito da recuperação, reabilitação e salvaguarda do património. No âmbito da investigação do GITCD, o território de estudo escolhido foi a aldeia de Bemposta situada no concelho de Mogadouro dentro do Parque Natural do Douro Internacional, situado no nordeste trasmontano numa zona transfronteiriça. Como forma de preservar o património, a identidade cultural e proteger a memória das populações locais, é importante a divulgação dos seus lugares históricos. Depois de uma visita ao local, o grupo de estudo decidiu intervir na zona mais antiga da aldeia,

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localizado dentro dos limites do que foi a antiga muralha, mais precisamente no Inferno de Bemposta e o aglomerado habitacional envolvente, conjunto este que necessita de uma rápida intervenção e recuperação de forma a salvaguardar a sua história e memória colectiva da aldeia, mantendo assim, como muitas vezes refere Norberg Schulz, o seu génius loci. Objectivos Os objectivos deste estudo passam por analisar e comparar as dinâmicas organizacionais ligadas ao desenvolvimento rural e local nos territórios em causa, identificando os grandes marcos da sua evolução e tendências de desenvolvimento futuro; identificar obstáculos ao melhor desempenho das organizações e necessidades da mesma nos domínios da formação directiva e técnica; e estabelecer/fortalecer o trabalho em rede envolvendo investigadores e actores no desenvolvimento do território. Visto a inexistência deste tipo de equipamentos, o programa pretende relacionar os diversos factores de desenvolvimento ambiental com o passado da aldeia, definindo objectivos para a afirmação do património com grande destaque no panorama nacional e internacional devido à proximidade com a fronteira, sendo deste modo uma espécie de portal para as tradições Transmontanas. O objectivo operativo passará por criar um espaço que sirva de centro de interpretação ambiental e das tradições locais, equipado com um núcleo museológico, salas de formação e ateliers, de forma a preencher uma grave lacuna ao nível do estudo e divulgação do património e tradições da aldeia, situada em plena reserva natural. A crescente afirmação das disciplinas ambientais, das tradições e da recuperação arquitectónica contribuirão para a qualidade de vida contemporânea, sendo que este tipo de equipamentos, no nosso entender, têm um grande significado estratégico para o desenvolvimento do território. O Inferno mais especificamente, deve ser alvo de intervenção urgente antes que se perca. Já o historiador António Rodrigues Mourinho Júnior, no contexto da aldeia, refere que o Inferno é uma construção relevante, que necessita urgentemente de ser recuperada através de um programa que revitalize não só o local em si como as tradições adjacentes ao local, tais como as adegas no subsolo do aglomerado, o forno, a casa do tear e a própria paisagem envolvente. Sentimos assim, tal como constatou António Mourinho, também a necessidade de

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propôr o equipamento neste local, com o intuito de recuperar, modernizar e dinamizar o edificado que se encontra num estado avançado de degradação, assim como a diversidade cultural, paisagística e ambiental do local e região. Ao traçar estes objectivos e lançar intensões de trabalho em resposta, estamos conscientes que existe uma necessidade de intercâmbio humano e cultural capaz de criar fluxos diferenciados, mais especificamente o fluxo turístico de forma a desenvolver e impulsionar esta região. Estado da arte Para o enquadramento teórico do objecto de estudo foram seleccionadas algumas obras e autores que apoiam e completam a investigação dos temas debatidos ao longo da dissertação, principalmente autores que reflectiram sobre a região do nordeste transmontano, descrevendo e relatando factores vernaculares, de forma a impulsionar a visibilidade e riqueza cultural do Planalto Mirandês. No estudo da arquitectura popular portuguesa, referenciamos Raul Lino, pelo seu trabalho e teorização das casas portuguesas. Para melhor compreender as condições geográficas, físicas, e tectónicas do território foi analisada informação fulcral presente na obra Atlas de Portugal do Instituto Geográfico e Orlando Ribeiro, principal investigador de geografia do século XX. Já os aspectos etnográficos de importante valor para o conhecimento de uma cultura e localidade, foram fundados na obra Etnografia Transmontana de Lourenço Fontes. Para a sustentação da análise do território é também necessário compreender a acção humana e daqui toda a componente cultural, social, económica e política. Neste aspecto podemos referenciar A Arquitectura da Cidade de Aldo Rossi; A imagem da Cidade de Kevin Linch; Vazios Urbanos uma publicação da Trienal de Lisboa e a obra Arquitectura Paisagista uma publicação PROAP. Para perceber o conceito de lugar e não-lugares

destacamos

também

a

Introdução

a

uma

Antropologia

da

Sobremodernidade de Marc Augé. No âmbito do tema da conservação, reabilitação, intervenção e salvaguarda do património arquitectónico, o candidato destaca Análise de práticas de conservação e reabilitação de edifícios com valor patrimonial de Rui Oliveira e a Alegoria do

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Património de Françoise Choay, assim como as varias cartas e autores importantes para o tema do Património, da arquitectura vernacular e da sua intervenção operativa. A nível histórico, destacamos Francisco Manuel Alves, conhecido por Abade de Baçal, com o estudo Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, assim como António Maria Mourinho reconhecido principalmente pelo estudo da língua Mirandesa e pelos Pauliteiros de Miranda do Douro. Temos ainda José Leite de Vasconcelos, historiador com a obra Etnologia Portuguesa. Para o estudo do lugar, é importante referir o trabalho realizado pelo grupo, formado pela turma C, onde foram feitos levantamentos, fichas técnicas e conversas informais com os habitantes de Bemposta. Estrutura Metodológica Esta dissertação utiliza uma metodologia mista (qualitativa e quantitativa) onde foram recolhidos elementos que permitem o estabelecimento do estado da arte; das diferentes componentes do ordenamento do território e arquitectura transmontana ou seja, os conceitos abordados, as temática e processos operativos de destaque e significado específico desta dissertação. Quanto à documentação acima enumerada foi obtida através do acesso a diferentes fontes, tais como: bibliotecas; livrarias; portais governamentais; portais de instituições, públicas e privadas; pesquisa on-line; trabalhos produzidos por outros alunos. A bibliografia relacionada com o tema é explorada e classificada de maneira a contribuir para a dissertação, que resume-se à leitura de um conjunto variado de dissertações de mestrado e doutoramento, relatórios técnicos diversos, publicações periódicas e permanentes, bem como, de obras publicadas. Os resultados serão transpostos para uma análise descritiva, comparativa e projectual. Feita a recolha de informação procedeu-se a uma análise descritiva, comparativa e projectual de modo a melhor fundamentar a dissertação e o projecto prático aqui explanado. A estrutura desta dissertação assenta numa abordagem que se pretende de inicio holístico, abordando temáticas gerais, afunilando para a componente operativa, que põe em prática toda a reflexão teórica abordada.

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Esta encontra-se dividida em várias partes, das quais, a primeira designada de “Introdução”, faz a Introdução ao tema, expõe os objectivos e explica a estrutura do trabalho. Relativamente ao “Enquadramento Territorial”, este é constituída por dois grandes temas; designadamente, “Contextualização Física” e “Contextualização Humana”. Aqui é introduzido o território em causa, apresentadas as características que identificam, tais como a sua localização, orografia, clima, flora e fauna, assim como os factores históricos, sócio económicos e etnográficos. A “Arquitectura do Lugar”, é subdividida por três pontos. Aqui é explicado o conceito de arquitectura vernacular, seguido de uma analise tipológica dos edifícios e do espaço público presentes em Bemposta, e, por fim, feito um diagnóstico do lugar, onde são referenciados os pontos fortes, fracos, ameaças e oportunidades para este território. De seguida, “Recuperação do Património”, tem como objectivo apresentar o estudo realizado pelo candidato sobre a temática, analisando vários conceitos importantes como: monumento, restauro, e abordagem às cartas de conservação e restauro. Aqui são ainda apresentadas quatro obras de referência também utilizadas na realização do caso de estudo: a obra de Építész Stúdió, Laurent Savioz, Isabel Aires e José Cid e Peter Zumthor, sendo as mesmas importantes exemplos no contexto da recuperação do património português e internacional. O “Estudo de caso”, tem como objectivo testar e operacionalizar a aquisição de conhecimentos realizados no âmbito da presente dissertação. Foi feita uma análise do existente com recurso á observação directa, participação activa em levantamentos e leitura de obras sobre o lugar, assim como uma análise SWOT e aí feita a estratégia de desenvolvimento e a proposta de execução aqui representada pelo Centro Interpretativo das Tradições (CIT). Finalmente é apresentada a parte das “Considerações Finais”, na qual se sumariza todo o processo que levou á componente operativa, realçando objectivos atingidos e apontado á importância do tipo de estratégia apresentado para a dinamização e revitalização dos nossos núcleos rurais.

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2.ENQUADRAMENTO TERRITORIAL

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2.ENQUADRAMENTO TERRITORIAL 2.1 Contextualização Física A área de estudo considerada está localizada num dos parques naturais na península ibérica, com a particularidade de ser um dos dois parques transfronteiriços Portugal/Espanha, ambos situados no Norte de Portugal, como podemos observar na ilustração 1. Sendo um parque transfronteiriço, a área de investigação sobrepõe o Parque Natural de Arribes del Duero (PNAD), da rede de espaços protegidos da Comunidade de Castilla y Leon, criada através do Decreto nº 164/2001, de 7 de Junho do Boletim Oficial de Castilla y Leon n.º114 com o Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), classificado pela Resolução de Conselho de Ministros n.º 8/98 de Maio, que determina: Ao longo de mais de 130 quilómetros o Rio Douro e seu afluente Águeda constituem a fronteira natural entre Portugal e Espanha. Neste troço o vale do Douro assume devido à sua geomorfologia uma estrutura de canhão fluvial, com declivosas vertentes, ditas arribas, onde abundam os afloramentos rochosos. Este enclave orográfico de características únicas em termos geológicos e climáticos condicionou as comunidades florística, faunística e as actividades rurais. [DECRETO REGULAMENTAR nº 8/1998. D.R. I-B Série. 108 (1998-05-11) p.2164.]

A área total dos parques engloba uma superfície de 191 625 hectares, dos quais 85 125 hectares no território português distribuída por 4 concelhos (Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada-à-Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo) e em Espanha numa área de 106 500 hectares por 37 municípios, 24 na província de Salamanca e 13 na província de Zamora. Ainda sobre o PNDI, é aqui característica a importante diversidade de ecossistemas devido a sua posição numa zona de transição entre regiões climáticas atlântica e mediterrânea além das diferentes altitudes ao longo do Parque, como observamos na ilustração 2 e no seguinte texto, pelo Instituto da Conservação da Natureza: O Parque Natural do Douro Internacional é verdadeiramente a Catedral onde o homem se encontra com a natureza na sua plenitude e harmonia, contemplando o equilíbrio entre a rusticidade da paisagem e a beleza de formas indescritíveis.

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(...)Sem dúvida, este Parque Natural é verdadeiramente uma escola de vida onde a natureza é preservada e as espécies vivas mantidas no seu ambiente natural sem poluição sonora, sem grandes intervenções humanas, numa conjugação perfeita entre os interesses das populações e a preservação de memórias e formas de vida genuínas. (ICN, 2006, p.2)

Numa aproximação ao local, e na intersecção do PNDI com o Distrito de Bragança, o alvo de investigação recai sobre o concelho de Mogadouro, que dista 85Km da capital de Distrito – Bragança, e se integra entre o vale profundo do Douro e a bacia do Sabor, ocupando o prolongamento do Planalto Mirandês, seguindo-se o Planalto Leonês (região de Zamora e Salamanca). Esta área é delimitada pelos concelhos de Vimoso, Miranda do Douro, Alfândega de Fé, Torre de Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta e pelos Ayuntamientos ribeirinhos do Douro, de Salamanca e Zamora. Mogadouro ocupa uma área de 756Km 2 distribuídos por 28 freguesias, 56 povoações, com 11350 habitantes (CMM, 2012) No extremo Sudoeste do concelho, e do distrito, a 6 Km da margem direita do rio Douro, a 26 Km de Mogadouro e a 114 Km de Bragança, está situada a aldeia de Bemposta como observamos na ilustração 4. Estando anexadas a esta, durante muitos anos, Peredo da Bemposta, Algosinho, Brunhosinho, Tó e o lugar de Lamoso sendo que hoje, só permanecem como tal, Lamoso e o Cardal do Douro. A aldeia de Bemposta é então o objecto de estudo desta investigação, encontrando-se inserida no PNDI, como observamos nas ilustrações 3 e 4 .O estudo levado a cabo nesta dissertação recai no núcleo principal da freguesia, que dá pelo nome da mesma. Bemposta é a mais distante aldeia do concelho de Mogadouro, fica na margem direita do rio Douro, representado na ilustração 5, fazendo fronteira, do lado direito, com as províncias espanholas de Zamora e de Salamanca.

2.1.1 Orografia Aprofundando agora, mais especificamente, a freguesia de Bemposta no seu contexto de inserção no PNDI, em termos de fronteiras físicas, o limite territorial é bem definido pelas formas do próprio relevo. Consultando o PDM de Mogadouro, Bemposta é a maior freguesia do concelho e tem 1139 hectares de superfície. Encontra-se inserida no Planalto Mirandês, toda a faixa a Este correspondente ao canhão fluvial do rio Douro, que marca a fronteira física com Espanha, sendo também banhada pelas

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ribeira de Bemposta, Lamoso, e de Culmeães, Urrós. Em termos gerais é possível salientar, na área, unidades e elementos geomorfológicos fundamentais, sendo a superfície fundamental de aplanamento da Meseta Ibérica situada, em geral, entre os 600 e os 800 metros de altitude estando Bemposta, segundo o PDM de Mogadouro a uma altitude de 638 metros. Este aplanamento, em Portugal, apresenta maior expressão no Planalto Mirandês, tendo continuidade para sul do Douro (Pereira, 2002). O seu correspondente do lado espanhol designa-se por Planície Salmantina-Zamorana (Carvalho, 1984). Na área de estudo existem extensas áreas graníticas que pela sua morfologia contribuem para a sua paisagem, com destaque para as extensas áreas da própria superfície do Planalto Mirandês, em contra ponto com as Arribes del Duero, que tanto caracterizam a aldeia de Bemposta através dos seus miradouros, representados na ilustração 6. Na definição da orografia é de salientar a forte importância do Rio Douro, não só no enquadramento da área em estudo, mas também pela sua dimensão Ibérica, como representa a ilustração 7.

2.1.2 Clima Bemposta está situada na zona planáltica de cota superior à média do PNDI, correspondente à depressão formada pelos vales do Douro e principais afluentes criando deste modo um microclima (I.N.M.G., 1984) diferenciado por dois factores: a relação entre precipitação e temperatura determinadas pela geografia física; e pelo efeito da continentalidade/massa quente. A parte Norte do PNDI e o extremo sul corresponde a uma zonas com pouca influência atlântica, à qual se dá o nome de “Terra Fria Transmontana”. Na parte central e centro sul, o vale já se assemelha ao “Douro vinhateiro”, sendo um microclima marcado pela aridez do Verão e amenas temperaturas do Inverno, chamando-se assim “Terra Quente.

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Transmontana” (ERENA, 2004), sendo que Bemposta está então inserida na zona de transição entre as duas, como demonstra a ilustração 8. Na generalidade, os vales apresentam valores de precipitação mais baixos do que as regiões envolventes, assim como maior frequência de nevoeiros e orvalho, e com maiores contrastes térmicos, como observamos nas ilustrações 9 e 10 (ERENA, 2004). 2.1.3 Flora e Fauna O PNDI contém uma variedade de factores locais regionais e ibéricos que marcam a multiplicidade de biótopos que se devem à variações de clima, relevo, geologia e outros aspectos históricos e culturais que caracterizaram a paisagem diversificada. Por entre fraguedos hercúleos, uma vegetação virgem desafia as leis do equilíbrio e da sobrevivência e os verdes, os castanhos e os vermelhos de infindos arbustos e plantas enfeitam a paisagem, testemunho da boa vizinhança entre portugueses e espanhóis. (ICN, 2006, p.2)

Na Freguesia de Bemposta encontramos dois tipos de Flora; uma na zona inserida nas encostas na qual se identificam os bosques de lódão-bastardo (Celtis australis), e outras nas encostas mais húmidas, não só do Douro como também dos seus afluentes, como é o caso da ribeira do Mosteiro e ribeira da Sapinha. O ICN refere ainda que, na zona do planalto Mirandês, onde se insere o aglomerado de Bemposta, temos uma conjugação entre os locais mais temperados, com carvalhais de carvalho-negral

(Quercus pyrenaica), e em zonas marcadamente

mediterrânicas, com azinhais, sobreirais (Quercus suber) e com zimbros (Junipersus Communis). (ICN, 2012) Em termos faunísticos, o PNDI é uma das zonas mais importantes no contexto nacional, e mesmo ibérico. A sua riqueza e diversidade de espécies deriva das mesmas condições físicas e humanas em cima referidas (Junta de Castilla y Leon, 2000, Monteiro e Amaral, 2011, p.220). O mesmo autor refere ainda que podemos considerar duas realidades ecológicas principais, os vales declivosos, chamadas de arribas, e os planaltos.

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A fauna de vertebrados silvestres do PNDI é composta por 238 espécies, dos quais 28 mamíferos, 168 aves, 17 répteis, 11 anfíbios e 14 peixes. Dentro desta divisão, a que é considerada a mais importante é a das Aves, não só pela sua diversidade, mas também por ser nesta área que as suas populações nidificam a nível nacional e ibérico, representando 110 das 168 espécies de aves presentes no Parque (ICNF, 2012).

O silêncio fala-nos doutros tempos e doutras culturas e só o voo picado e os gritos das aves de rapina nos dizem que a vida existe e é preservada, para que os vindouros possam contemplar espécies raras que ainda habitam em ecossistemas ideais. (ICN, 2006, p.2)

A criação de gado, representada na ilustração 11, é mais representativa na criação de ovinos e caprinos, com uma média de 60 000 cabeças, distribuída numa densidade de 28,6 cabeças/Km2. Além destes existe também a criação de gado asinino, muar e bovino, este último maioritariamente destinado à produção leiteira, (ERENA, 2001, p.215).

2.2 Contextualização Humana A densidade populacional do local em estudo é uma das mais baixas da região norte do país, com uma média de 16,6 hab/ Km2. Em Espanha a densidade populacional média, é consideravelmente mais alta que a portuguesa, principalmente, nos concelhos considerados, entre os 18,9 e os 28,2 hab./Km2, como é representado na ilustração 12. Cerca de metade da população, dividida por pequenas e médias povoações, dedica-se �� agricultura, onde as principais culturas são a oliveira, a vinha e a amendoeira; sendo o território florestal inferior a 10% da área, e os terrenos não cultivados mais de 25% da área. O território, devido à sua diversidade cultural e paisagista, é um ponto de interesse turístico, atraindo assim alguma da população para este ramo, assim como para actividades desportivas, entre elas a pesca e a caça (ERENA, 2001, p.215).

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2.2.1 Factores Históricos Segundo dados retirados da página electrónica oficial de Bemposta, esta foi vila e sede de concelho até ao século XVIII, com foral de D. Dinis em 1315, e foral novo de D. Manuel em 1512. Contudo, a sua história começa muito antes, como refere Manuel Fernandez e José Pereira na monografia Hístorico-Antropologica de Bemposta, remotando ao período calcolítico, documentada em várias pinturas rupestres. Também, nesta monografia, é referido o Castro de Oleiros do período neolítico, hoje imóvel de interesse publico. A muralha de Bemposta (hoje um fragmento) foi construída a mando do rei D. Dinis de modo a permitir a defesa contra perigos que assolavam as populações e também como sinal de autonomia da aldeia. A muralha foi mandada construir a semelhança da muralha de Miranda, como é explicado no texto a seguir transcrito: E o muro seja feito, em altura e largura, pela medida e pela marca do de Miranda e façam duas portas a esse muro e em cada porta desse muro façam dois dos Cubelos1 e deverão faze-lo desde S. João Baptista, que agora se comemora, até daqui a cinco anos e devem faze-lo de pedra e cal, assim como virem os mestres de obra que sejam de bom labor e os moradores e seus sucessores devem manter este Muro e refaze-lo sempre que for necessário. (D. Dinis, 1315, p.137)

Além das duas portas existia ainda uma porta falsa nas muralhas, um túnel subterrâneo que foi escavado para dar saída para os campos. É um túnel de cerca de oitenta metros de comprimento, que está parcialmente destruído e faz parte do conhecido “Inferno de Bemposta” onde ao longo do tempo recebeu as características de adega, estando hoje abandonada e em ruína, como vemos na ilustração 13. Da cerca da muralha, que durante a Idade Média defendia Bemposta, apenas nos chegam hoje alguns vestígios possíveis de observar por entre o casario. Os elementos mais significativos detectam-se, junto da igreja matriz, no ponto mais elevado da aldeia, retratada na ilustração 14. Ao longo dos anos, esta muralhas têm vindo a ser destruída e as suas pedras utilizadas em novas construções.

2.2.2 Factores Socioeconómicos O principal factor social e económico está ligado à agricultura e produção tradicional1. Nas décadas de 60/70, devido à situação económica e política do país procuram-se

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Em conversas informais entre o candidato e os habitantes da aldeia.

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novos modos de vida, eram, segundo Taborda, na monografia Alto Trás-os-MontesEstudo Geográfico, na terra a principal e única fonte de riqueza , o que levou ao êxodo dos campos. Apesar da sua riqueza agrária, muita da população era jeireira, ou seja, dependia sazonalmente da apanha de frutos e legumes. A emigração foi e continua a ser, assim, uma escapatória e uma busca de novos modos de vida, devido à insuficiência de condições económicas, educativas e de saúde. Este factor de emigração, faz com que nos períodos de férias, e principalmente em Agosto, agora, se concentrem de volta os emigrantes, com os seus novos comportamentos e confrontados com a realidade tradicional. Devido à falta de mão-de-obra, os modelos agrários tradicionais foram substituídos por maquinaria e os filhos da gente “rica” substituíram a aldeia pela cidade numa procura de formação intelectual e socioeconómica melhor. Devido a estes acontecimentos, as terras de cultivo foram sendo deixadas ao abandono. Os campos estão agora ocupados pelos mais idosos. Os jovens, que não querem abandonar a sua terra, estão cada vez mais desmotivados para se dedicarem, a tempo inteiro, à agricultura. A emigração então volta-se, hoje, para Espanha onde os mais jovens se dedicam à construção civil. A nova Bemposta cresce assim construída pelos emigrantes, com o dinheiro poupado nas suas vidas fora do país, marcando uma época na vida dos bempostenses, importando a chamada linguagem da casas de emigrantes. Apesar deste fenómeno, Bemposta, como todo o Nordeste Transmontano, tornou-se cada vez mais desertificada, tendo vida apenas no Verão e épocas festivas locais, como representa a ilustração 15, com a vinda dos emigrantes para visitar familiares, e os que decidiram enveredar pelo ensino superior raramente voltarão para a aldeia.

2.2.3 Factores Etnográficos

A agricultura é o meio de auto-sustento principal da aldeia, ocupando a maioria dos seus habitantes, tendo cada habitação associada uma pequena horta. A cultura do cereal, vinha e olival e criação de gado, são a maior fonte de rendimento e, não só

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alimenta as pessoas que nela trabalham, como desenvolve as artes, o comércio e a indústria. A vinha é, também muito importante na aldeia de Bemposta. A cultura da vinha é feita, principalmente, nas encostas do rio Douro para o melhor aproveitamento da incidência solar, no entanto, tem sido de manutenção e trabalho difícil devido ao relevo acentuado, que impossibilita a utilização da máquina. Contudo, a baixa produtividade compensa a grande qualidade do produto. Do artesanato de Bemposta eram conhecidas as cestas e os asnais feitos em vime, e as cestas de canasta. A olaria teve uma grande expressão entre as mulheres. Mas os trabalhos manuais não se limitavam a estas actividades, a arte de trabalhar o ferro era possível nas forjas de fole e fornalha. Os pica-portas, as grades das varandas, os apetrechos da lavoura, os batentes das casas, as facas, as machadas, as relhas e muitos dos utensílios de cozinha, eram feitos pelo ferreiro. Outra actividade que assumiu particular relevo, foi a carpintaria. Nesta arte são de notar os desenhos feitos à goiva e a formão, como observamos na ilustração 16, uma obra do Sr. Falcão2. É de salientar, ainda, as máscaras do chocalheiro, como representa a ilustração 17, concebidas por artesãos da aldeia. São dignos de realce ainda hoje, devido à sua beleza e espectacularidade, os trabalhos realizado por tecedeiras e rendilheiras e até o simples croché, feito junto à lareira no inverno e à porta de casa no verão, como representa a ilustração 18. No olhar etnográfico de Pimenta de Castro, sobre festas e romarias em todo o planalto Mirandês, de um modo geral, as feiras realizavam-se dentro das muralhas do castelo. As primeiras feiras realizavam-se em épocas relacionadas com festas religiosas. Não faltava, na altura, varias diversões como os bailes, tabernas, comes e bebes, folias e jogos de azar (AA VV, 1998, pp.77-89). Nas suas origens, o primeiro documento que se conhece sobre uma feira no Douro, como forma de estimular a defesa da fronteira, data dos fins do séc. XIII, no reinado de D. Dinis.

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Habitante da aldeia e carpinteiro.

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Existiriam, nestas feiras, fabricantes de linho e de lã, latoeiros, oleiros, sapateiros, cardadores, tecelões, curtidores de peles, fabricantes de cortiça, ferreiros, lavradores e carpinteiros. (Bemposta, 2012) Bemposta teve, em tempos, feira de produtos agrícolas e de animais, mas face à sua localização periférica foi perdendo feirantes, o que levou à extinção da feira. Nos anos 60, com o desenvolvimento populacional e comercial da barragem, voltou a ser instituída, mas perde-se outra vez, e cai em desuso até nos dias de hoje. Tal como a maior parte das aldeias rurais do interior transmontano, Bemposta possui um vasto património arquitectónico fruto da arquitectura do lugar.

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3.ARQUITECTURA DO LUGAR

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3.ARQUITECTURA DO LUGAR A arquitectura vernacular é um dos aspectos mais fundamentais e caracterizadores das aldeias tradicionais portuguesas. Marcada pelo aspecto da intervenção humana na paisagem, em que, na sua pluralidade tipológica, é manifestada por diversas condicionantes especificas do local, tal como os factores geográficos, económicos, sociais, históricos e culturais anteriormente estudados e apresentados. Existem vários factores que caracterizam a arquitectura das aldeias transmontanas. A necessidade de privatizar o território, ligada à topografia, origina uma separação de espaços ao nível da consolidação das aldeias, sendo o assentamento rural caracterizado pela sua envolvente natural, resultando da divisão de terras e da produção agrícola. Este tipo de construção caracteriza-se assim, como um resultado imediato da relação do Homem com o meio natural envolvente, na necessidade básica de um abrigo por parte do primeiro e na procura de harmonia com o segundo. A arquitectura do lugar então diferenciada regionalmente pela utilização de materiais e técnicas locais, pela adaptação as especificidades climáticas e morfológicas, à estrutura familiar e respectiva economia e aos costumes da comunidades (Cerqueira, 2005, pp.41-52). A particularidade do lugar é provavelmente o principal denominador da forma arquitectónica vernacular, não sendo por isso aleatória a diferença entre a habitação do interior alentejano e a habitação transmontana por exemplo. Desta diferenciação formal arquitectónica depreende-se sempre dependente nos factores climatéricos, geográficos e humanos na adaptação apropriada às melhores condições de conforto para o habitante.

3.1 Morfologia e Tipologia do Lugar No território de Bemposta, representado na ilustração 19, constatamos a presença de pequenas estruturas como pombais, moinhos e abrigos de pastores que antecedem à chegada a aldeia, em espaços abertos como baldios ou pastos, que apesar de terem um dono, geralmente podem ser de usufruto colectivo, como o exemplo representado na ilustração 20.

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Na generalidade podemos constatar que existem duas realidades morfológicas no território de Bemposta: sendo que uma é definida pelo núcleo originário da aldeia, com uma malha orgânica compacta e de perfil de rua estreito; e a outra vem associada a um eixo e não mantem coerência formal com a anterior, sendo que os espaços exteriores não são potenciados para servirem como espaços públicos, e no qual se verifica uma maior preocupação com o edificado em detrimento dos espaços vazios. O principal acesso à aldeia faz-se por um eixo que a liga a outras aldeias, assim como à barragem, sendo que é neste que se desenvolve a parte nova da aldeia. Aqui podemos encontrar, predominantemente, a habitação secundária de dois pisos, à face da via, assim como alguns apontamentos de pequeno comércio no rés do chão, na sua maior parte associados à própria habitação. Além deste edificado, à “porta” da aldeia, encontramos edifícios de serviço comunitário, como a escola primária e o pavilhão desportivo. Já no interior da aldeia podemos verificar exemplos de arquitectura popular misturados com habitação de construção mais recente. Pontualmente encontramos pequenos largos associados à arquitectura religiosa ou equipamentos públicos, como o edifício dos CTT, que é também sede da junta de freguesia, ou pequenas capelas e o pelourinho, como visualizamos na ilustração 21. Desde a chegada, o percurso é feito com várias mudanças de pavimento, começando pelo asfalto, passando pelo paralelo à terra batida, sendo que na aproximação ao núcleo não existe distinção entre o percurso automóvel e o pedonal. A rua principal desemboca numa estrutura orgânica de estreitas ruelas com um denso aglomerado de casas, de várias épocas e de vários pisos, como observamos nas ilustrações 22 e 23. Chegando ao ponto mais alto da aldeia encontramos dois largos ligados por duas ruas que atravessam o centro originário de Bemposta, onde a construção é quase toda ela feita com técnicas e materiais característicos da região, neste caso o granito e a madeira. Tal como é característico das aldeias portuguesas, neste ponto mais alto, a igreja surge ligada directamente a um dos largos, sendo caracterizadora de uma identidade reguladora, onde o seu adro se torna num ponto fulcral para a vida da aldeia, sendo um espaço público que agrega a população. Ainda anexado à igreja encontramos o cemitério e a casa mortuária, assim como a capela de Santa Bárbara, posicionada num afloramento rochoso que serve também como miradouro para a magnifica paisagem, tendo Espanha como pano de fundo. A partir deste espaço também se dá

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passagem para os campos onde encontramos pequenas estruturas para a criação de animais e para a agricultura. Percorrendo a rua do Castelo, que sai do adro da igreja em direcção ao centro originário da aldeia, testemunhamos outro tipo de construções de interesse arquitectónico, tais como a antiga prisão e o tribunal, assim como na rua da muralha onde encontramos a bodega do Inferno e a casa do tear. Ainda neste local encontramos um forno e um lagar, partilhado, em tempos, por toda a comunidade. Seguindo este percurso encontramos o outro grande largo da aldeia, centrado por uma amoreira, onde podemos testemunhar exemplos de recuperação de habitações de carácter vernacular, que mantiveram a matriz identitária, representadas nas ilustração 24 e 25, assim como o próprio largo na imagem 26.

3.2 Diagnóstico do Lugar Segundo a análise realizada anteriormente, sobre o território de Bemposta, foi possível perceber que a aldeia é um ponto de referência e de centralidade regional, dentro do enquadramento estratégico do PNDI e podemos depreender, também, os valores identitários que lhe estão subjacentes, assim como as suas debilidades e oportunidades. Como pontos fortes, esta região está inserida num clima favorável e diferenciado, constituída por uma população hospitaleira e com uma grande diversidade de recursos endógenos com possibilidades de valorização. O património natural, cultural e imaterial diferenciados, podem responder a diferentes motivações,

tal

como

centros

históricos,

como

o

caso

de

Bemposta.

As

potencialidades da diversificação das actividades turísticas, tal como o património natural e paisagístico diversificado, que se encontra nos parques naturais, possibilitam um crescimento na vertente natural, em espaços rurais, ecoturismo, entre outros. Em suma, é também uma mais valia a inserção destes locais em espaços naturais protegidos que não sofrem os danos do desenvolvimento, à imagem das cidades, nomeadamente a poluição; Dentro do carácter da nossa intervenção, existe um vasto património histórico e Cultural, manifestado através de eventos de carácter tradicional como as romarias,

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folclore e procissões, assim como a oferta gastronómica variada e de qualidade, mostrando a diversidade de saberes e valores culturais. Os pontos fracos desta região encontram-se na insuficiente divulgação da aldeia como um espaço apelativo para o turismo e lazer, a deficiente sinalização turística e divulgação da mesma, por falta da integração dos operadores turísticos e das agências de viagens nacionais, tal como a insuficiente informação sobre o valor patrimonial do parque. Existe também falta de recursos humanos e qualificação profissional nos serviços turísticos assim como uma forte deficiência de acessibilidades inter-regionais e carência de equipamentos e espaços de lazer. Ao contrário, do território espanhol, como no caso de Fermoselle representado na ilustração 27, os postos de informação turística são escassos no que se refere à área pertencente a Portugal, onde a oferta de lazer e animação é reduzida e pouco organizada, e o mesmo se contesta sobre a rede de infra-estruturas hoteleiras e restauração, no aproveitamento de recursos naturais e ambientais e a reduzida articulação entre concelhos no que se refere ao desenvolvimento do PNDI; O património histórico e arquitectónico existentes estão em estado de degradação e os sectores tradicionais tem dificuldade de reestruturação e modernização devido ao abandono destas actividades tradicionais pela população mais jovem, à fraca capacidade de iniciativa por parte dos investidores, assim como as relações de cooperação e parcerias entre entidades locais e o PNDI. Existe no entanto uma forte capacidade da oferta responder às motivações diferenciadas da procura e às raízes e valores culturais passíveis de dinamização e projecção numa aposta de novos produtos turísticos, potenciando os recursos da região, tal como o rio Douro possibilita a realização de actividades fluviais, e a possibilidade de criação de rotas e circuitos culturais utilizando o património cultural existente e a riqueza natural possibilita a realização de educação ambiental e actividades científicas, ligadas também a barragem de Bemposta, representada na ilustração 28; A localização do PNDI numa região fronteiriça pode gerar fluxos de turistas entre ambos os países o que traduz a necessidade de criação de infra-estruturas para

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cativar os visitantes para uma permanência mais prolongada aproveitando as casas rústicas e solares para o turismo em espaço rural. O investimento na diversidade das tradições, como o artesanato, pode gerar dividendos para as populações locais, dada a diversidade de recursos existentes, o que permite a implementação de múltiplas actividades associadas a esses recursos. As ameaças que encontramos são fruto da incapacidade de resposta às motivações diferenciadas da procura devido aos desequilíbrios ambientais provocados pelo turismo não planeado e a desertificação humana de parcelas significativas do território regional influenciadas pela dinâmica demográfica envelhecida; Desta análise percebemos que muito se pode fazer para reforçar a imagem e aproveitar o potencial do PNDI como destino e promover o aumento da competitividade turística no nordeste transmontano. Através de uma estratégia de dinamização cultural e turística seria possível alavancar o crescimento da região e mais especificamente de Bemposta. Para cumprir estes objectivos, iremos abordar a temática da recuperação de património de forma a que através da reabilitação de edifícios, com carácter patrimonial, consigamos dinamizar e projectar a aldeia, assim como recuperar as tradições.

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