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BATALHA NO SETOR VEGA Autor

K. H. SCHEER Tradução

Maria M. Würth Teixeira Digitalização

VITÓRIO Revisão

ARLINDO_SAN


Terceira Potência conheceu um período de paz após a ameaçadora invasão de seres extraterrenos, rechaçada por Perry Rhodan com o auxílio da técnica arcônida e dos extraordinários poderes de seu corpo de mutantes. A Terceira Potência representa a mais poderosa nação terrestre, a despeito de sua reduzida dimensão territorial. Galáxia, a supermoderna cidade dotada de uma imensa base espacial, e de amplos complexos industriais operados quase que exclusivamente por robôs, é o monumento mais impressionante da nova civilização. Mas, de repente, Galáxia é colocada em estado de alarma. A bordo da Good Hope, a nave auxiliar do destruído cruzador cósmico dos arcônidas, Perry Rhodan decola em direção ao sistema planetário de Vega, na distante constelação de Lira.

= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência. Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência. General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos. Dr. Frank Haggard — Ministro da saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida. Homer G. Adams — Ministro das finanças da Terceira Potência, e diretor da General Cosrnic Company. Coronel Freyt — Chefe da Força de Caça Espacial da Terceira Potência. Major Deringhouse — Comandante do 1o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência. Major Nyssen — Comandante do 2o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência. Capitão Klein — Agente de segurança da Terceira Potência. Tenente Li Shai-tung — Oficial de ligação da Terceira Potência com o Serviço Secreto da Federação Asiática. Thora e Crest — Arcônidas, respectivamente, comandante da nave arcônida destruída, e cientista-chefe da raça. Betty Toufry — Telepatia e telecinésia. John Marshall — Telepatia e supercérebro. Tako Kakuta — Teleportação. Wuriu Sengu — visão raio-X. Ralf Marten — parapsicologia e exopersonificação. Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa. Marechal Gregor Petronski — Chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental. Kosselov — Chefe do Serviço Secreto Oriental. Thort — Chefe supremo dos ferrônios e do sistema Vega. Chaktor — Ferrônio resgatado no espaço por Rhodan e seu intérprete. Lossos — Cientista-chefe ferrônio. Crek-Orn — Almirante-chefe dos tópsidas Galáxia — Cidade da Terra, capital da Terceira Potência. Good Hope — Nave com que Rhodan viaja para Vega. Ex-nave auxiliar do cruzador arcônida destruído na Lua. Perrol — Oitavo planeta de Vega, habitado pelos ferrônios. Rofus — Nono planeta de Vega, com a capital Chuguinor. Tópsidas — Raça oriunda do sistema Orion-Delta, a estrela dupla. Descendentes de répteis, são inteligentes, altamente civilizados, porém cruéis e insensíveis. Ferrônios — Raça semelhante à humana. Inteligentes e avançados, têm pele azul e povoaram os planetas do sistema Vega.


Em obediência à estridente voz de comando, duzentos braços mecânicos ergueram no ar seu fulgor metálico. Cem fuzis de raios apontaram as bocas para o céu sem nuvens do deserto de Gobi. Cem soldados-robôs de aço perfilaram-se em total imobilidade, porém com as entranhas eletrônicas em silenciosa e invisível atividade. — Nosso visitante será recebido com as devidas honras! — disse o coronel Freyt, com um olhar irônico para o oficial que comandava os guerreiros de metal. O capitão Klein pigarreou discretamente. Semicerrando os olhos, examinou a aeronave recém-pousada. — Um tanto familiar, não lhe parece? — comentou. — Você oficia a cerimônia, coronel? Rígido como um boneco, Freyt, chefe da Força de Caça Espacial da Terceira Potência, encaminhou-se para o avião. O leme do gigantesco bombardeiro a jato ostentava a insígnia da Força Espacial dos Estados Unidos. Freyt aguardou junto à escada rolante. Na estreita porta de desembarque desenhou-se um vulto alto e imponente. Em silêncio, o general Lesley Pounder, chefe da Força Espacial americana, olhou em torno. Por instantes, seu olhar se deteve sobre a formação impecável das máquinas de lutar. Correspondeu com displicência à continência do capitão Klein. Sua atenção estava voltada para as manobras tonitruantes dos aparelhos, mal e mal visíveis no céu azul a considerável altura. Estava-se no mês de maio e o relógio marcava pouco mais de treze horas. O calor era opressivo. Uma série de estrondosos trovões indicou que a esquadrilha, rumando para o espaço cósmico, rompera a barreira do som. Porém os minúsculos pontinhos prateados desapareceram do campo visual muito antes que as ondas de som alcançassem o solo. — Um belo espetáculo! — elogiou Pounder, impressionado. — Como vai, Freyt? Faz tempo que não nos vemos, não é? Comentário óbvio, para disfarçar o constrangimento. Também para Pounder o momento do reencontro era um tanto deprimente. — Sim, cerca de três anos, general — confirmou Freyt, evasivamente. — O senhor tinha me enviado à Lua, num foguete do tipo Stardust. A missão resultou tão desastrosa quanto a aterrissagem no nosso satélite. E se Perry Rhodan não nos tivesse resgatado com a nave esférica, o senhor teria mais três nomes de pilotos de provas em sua lista de baixas. Pounder, o baixo e corpulento chefe da Força Espacial, reprimiu a custo sua


conhecida irritabilidade. — Sorte sua... — constatou em tom seco. — E em conseqüência disso, o senhor tem usado nos últimos três anos a farda da Terceira Potência. Mas até que o uniforme é bonito. Um tanto utópico, talvez... Vejo que foi promovido. O coronel Freyt preferiu não dar resposta. Pounder vinha visitar a Terceira Potência em caráter oficial; portanto, não havia sentido algum em discutir com seu antigo superior hierárquico. — O carro está a sua espera, general! — disse, para desviar o assunto. — O chefe ainda não regressou. Enviou-nos uma mensagem há meia hora. Encontra-se nas proximidades de Marte, testando um caça espacial. O general Pounder engoliu igualmente aquela pílula. Com que naturalidade seu exsubordinado falava de proezas ainda inconcebíveis para homens comuns! — Nas proximidades de Marte, ora vejam! — murmurou Pounder. — Como soam importantes suas palavras, coronel! O senhor foi longe... certamente muito mais longe do que lhe seria possível na Força Espacial. E isto aqui progrediu, não é? Cheio de admiração, o general lançou um demorado olhar aos distantes edifícios em forma de torre da nova cidade. Ficavam ao norte, perto do lago Goshun. Perry Rhodan dera à capital da Terceira Potência o nome de Galáxia. A última visita de Pounder datava de três anos, quando as instalações não passavam de construções provisórias. E agora aquilo! Só os dois aeroportos constituiriam motivo de orgulho para qualquer nação. E a base espacial ultrapassava qualquer empreendimento jamais criado por mãos humanas. — Planejamos para o futuro — respondeu Freyt, em tom neutro. — O território que adquirimos da Federação Asiática abrange quarenta mil quilômetros quadrados. E Galáxia conta, segundo o último censo, duzentos e trinta mil habitantes. Pronto para embarcar, general? Nosso pessoal se encarregará do avião. Com um ligeiro olhar para o enorme bombardeiro, acrescentou com uma ponta de ironia: — Carreta meio primitiva essa! Vocês ainda empregam os antiquados propulsores atômicos? — Foi este tipo de propulsão que o levou à Lua, Freyt! Faz mesmo questão de me mostrar o quanto estamos atrasados, não? Mas convém não esquecer que tanto o senhor como Perry Rhodan receberam sua formação na Força Espacial. Se eu não tivesse enviado Rhodan à Lua, ele jamais encontraria os arcônidas. É assim que se chamam os extraterrenos, não? — Exatamente, general! — confirmou Freyt. — E este progresso todo só foi possível com a colaboração dos cérebros espaciais — disse Pounder, com um riso sarcástico. — Rhodan teve muita sorte em conquistar-lhes a confiança. Foi o que lhe permitiu criar a Terceira Potência. Mas deixemos o assunto de lado. Que tal é Rhodan como chefe de Estado? — Refere-se ao senhor Presidente, general? Resfolegando indignado, Pounder explodiu: — Freyt, para mim, seu presidente continuará sendo sempre o major Rhodan! O recruta que treinei pessoalmente e designei para o primeiro vôo tripulado à Lua... E dê-lhe este recado na primeira ocasião! — Ele não esqueceu, general! — respondeu Freyt, rindo. — E, aparte nossas diferenças, afirmo-lhe que é um prazer revê-lo entre nós. Pretende negociar com o chefe sobre o fornecimento de pulsopropulsores? O general deteve seus passos. Da distante base espacial vinha novamente o rugido


avassalador. Silhuetas fulgurantes ganharam o espaço, impelidas por quase imperceptíveis fluxos de impulsos. Pounder aguardou a diminuição da infernal barulheira. — O esquadrão de Deringhouse — explicou Freyt. — Ótimo elemento este rapaz... O senhor soube escolher seus homens, general, sem dúvida! — Naturalmente! E foi por isso que Rhodan fez de vocês seus oficiais. Para mim, foi uma perda lamentável. Como sabe de meus planos? Freyt não estranhou a brusca mudança de rumo da conversa, nem a expressão severa do rosto do general. — O chefe me falou disso. Se me permite um palpite, acho inútil insistir na obtenção de propulsores completos. A Terceira Potência reserva-se o privilégio de construir naves espaciais mais velozes do que a luz. Sugiro que desista do intento. Mas tenho autorização para mostrar-lhe nossos novos estaleiros oficiais, caso esteja interessado. Normalmente estão interditados para visitantes. Porém guardamos afeto todo especial ao nosso antigo comandante... Pounder afastou-se sem uma palavra. O sorriso do homem mais jovem o atingira em cheio. Ainda calado, tomou lugar no turbo-carro aberto. Seus olhos se voltaram para a cintilante cúpula energética visível do aeroporto. Aliás, o extenso domo de dez quilômetros de diâmetro não podia deixar de ser notado. Freyt acomodou com alguma dificuldade o corpo comprido ao lado do general. Este estabeleceu involuntariamente uma comparação: Freyt e Perry Rhodan poderiam ser irmãos. Ambos altos e magros, com as diminutas rugas no canto dos olhos revelando permanente disposição para rir. E haviam recebido formação idêntica, numa escola tida comumente por dura e implacável. Pounder sentiu-se invadido por uma onda de orgulho. Aqueles jovens tinham criado uma instituição que prometia revolucionar toda a ordem até então estabelecida no mundo. Com um breve aceno para Klein, Freyt comentou: — Ele fez parte outrora do serviço secreto da OTAN, sob as ordens de Allan D. Mercant. Inacreditável, não? Com um suspiro, o coronel continuou: — A raça humana parece estar criando juízo devagarinho. Ainda posso recordar o momento em que dei ordem para lançar as três bombas de hidrogênio. Na ocasião em que destruímos o cruzador arcônida... Nossa velha Lua entrou em ebulição em alguns pontos. Mas muita coisa mudou depois disso. A humanidade parece ter compreendido, afinal. — Compreendido? — repetiu o general. — Eu diria que ficou convencida. Se algum doido conseguisse eliminar sumariamente a Terceira Potência, o mundo se tornaria um hospício da noite para o dia! As nações desencadeariam uma luta mortal pela posse de seus conhecimentos técnico-científicos. “No interesse de nossa autoconservação lamentamos ser obrigados à adoção de rigorosas medidas preventivas.” Não é assim que se expressariam os diplomatas? O pessimismo do general, aparentemente acabou com o bom humor de Freyt. O chefe da Força de Caça Espacial mostrou rugas de preocupação. — Não conjure os demônios, general! — disse, pensativo. — Aquela cúpula energética foi alvejada por mais de seis mil projéteis de fabricação terrena por semanas inteiras, sem o menor resultado. Apenas um poder superior será capaz de nos destruir e não existe na face da Terra ninguém com capacidade para isso. Todos nós temos que aceitar como fato irrefutável a existência de seres extraterrestres altamente civilizados. E se não nos acautelarmos, qualquer dia nossa própria sobrevivência estará em jogo. É mais do que hora de adotar e manter atitudes racionais. A idéia de Perry Rhodan é estabelecer um governo terrestre central, com representantes de todas as nações do mundo. A questão da


cota de participação de cada uma pode ser resolvida mais tarde; acho que não será difícil chegar a um entendimento. — Impraticável! — afirmou Pounder, secamente. — Freyt, você pode ser um bom militar e um astronauta excepcional, mas não entende coisa alguma de assuntos desta espécie. Que é aquilo ali? “Tática de evasão”, disse Freyt para si mesmo. E teve a desagradável sensação de que o general lhe ocultava algo da maior importância. Dirigiu o olhar para os prédios do complexo industrial do qual se aproximavam. Uma série de hangares e torres, imaculadamente limpos, sem traço da fumaça ou fuligem provocadoras de poluição ambiental. E, no entanto, a produção era superior à de qualquer fábrica do mundo. — As seções de acabamento final — disse Freyt, com naturalidade. — E os estaleiros oficiais da Terceira Potência para fabricação de naves espaciais. Tudo criado do nada em pouco mais de três anos. — Complexos industriais acabados em apenas três anos? — duvidou Pounder. — Produção dos foguetes, estandes de testes, linhas de montagem final? Freyt, qualquer mortal comum levaria três anos só para lançar os fundamentos de uma obra tão gigantesca! — Colocamos dez mil robôs especializados em ação — explicou Freyt, com um sorriso levemente arrogante. — Além disso, empregamos máquinas que executaram o trabalho de aplainamento com a ajuda de campos antigravitacionais de alta intensidade. Com recursos comuns, a tarefa levaria pelo menos vinte anos! É difícil conceber a magnitude dos recursos arcônidas. Pounder desistiu. Era inútil discutir com pessoas que argumentavam com conceitos super-humanos e utilizavam máquinas extraterrenas. O veículo parou diante da linha vermelha. A poucos passos erguia-se a parede de inconcebível energia, mal e mal visível de tão perto. — Um campo estrutural em cinco dimensões — explicou Freyt, sorrindo. — Com quem posso me entender aí dentro? — indagou Pounder, ignorando o esclarecimento dado por Freyt. Espiou para a área coberta pela cúpula energética. Era fértil e viçosa, com alguns poucos edifícios esparsos. Mas estes eram gigantescos. O palácio do governo da Terceira Potência representava uma combinação harmoniosa de elementos arquitetônicos arcônidas e terrestres. Todo branco, o belo prédio se destacava entre os demais. — Sua excelência, o ministro da segurança, lhe concederá audiência — observou Freyt, esforçando-se por disfarçar a ironia. — Pois o senhor ministro, ou seja, o capitão Reginald Bell, manifestou extrema simpatia diante de sua visita iminente. — Bell! — gemeu o general. — Essa não! Aquele palerma que ria à toa e nunca conseguia manter a disciplina! Quantos esforços me custou impedir sua degradação ao posto de tenente! E está disposto a me conceder audiência... Pois bem, vá dizer ao seu ministro que talvez eu o reconheça como representante da Terceira Potência... caso ele consiga fazer uma continência mais ou menos correta! *** Homer G. Adams apareceu no telecom, ocupando com seu rosto de testa larga quase toda a tela colorida e tridimensional. O legendário diretor da General Cosmic Company, denominada abreviadamente GCC, chamava da distante Nova Iorque. — Ah, o chefe ainda está viajando? Que pena! — a voz de Adams soava impessoal e fria no alto-falante. — Escute, Bell, não me agrada a idéia de saber que você está sozinho


com Pounder. Não leve a mal meus escrúpulos, porém considero-me um bom psicólogo. Pounder é um gênio militar, fato que em si não constitui risco maior. Mas, além disso, é um homem extraordinário, a quem você deve gratidão, respeito e consideração, mesmo que recuse admiti-lo. Acho que você não tem condições para enfrentar o general. Espere pelo chefe! O homem baixo e atarracado, trajando o uniforme verde-pálido da Terceira Potência, disfarçou o constrangimento com um sorriso. Reginald Bell não se sentia de fato à altura da situação. Lá em Nova Iorque seus olhos azuis muito claros apareciam como pálidas manchas luminosas na tela. — Vou aceitar sua sugestão, Adams! — disse Bell, acenando com a cabeça. — Mas pode me pôr a par de suas intenções? A visita do general não foi iniciativa sua? — Certamente; porém eu ignorava que Perry Rhodan estaria ausente, em vôo de experiência. Bell, ganhe tempo com o general! Aguarde pelo menos até que eu chegue ao deserto de Gobi. Não lhe reconheço competência para conduzir negociações delicadas como essas! Pounder embrulharia você com a maior facilidade. — Acho que está certo, Adams. Afinal, não é à toa que você é o nosso ministro das finanças, não é? — respondeu Bell, sorrindo. — Minha vontade se resume em abraçar o velho ferrabrás e bater um papo amistoso. Fazem bem quatro anos que não o vejo... Você pode vir imediatamente? — Meio difícil... — respondeu Adams, indeciso. — Encontro-me em negociações com uma companhia de mineração latino-americana. Vocês querem cobre barato, não é? Bell levou os dedos inconscientemente à cintilante insígnia de seu posto, no bolso superior esquerdo. Curioso, no íntimo tinha a inquietante sensação de que as conversações com Pounder já estavam fadadas ao fracasso antes mesmo de terem começado. — Sim, confesso que me sinto em desvantagem diante do velho! — disse, com inusitada gravidade. — Emocionalmente, compreende?... Gosto demais dele. O general comeu fogo por nossa causa. E foi ele que nos equipou com todo o conhecimento de que hoje fazemos uso. Jamais teríamos chegado à Lua se não fosse o total apoio de Pounder. Largue tudo e corra para cá, Adams! Acho que o representante do poder econômico número um do mundo pode se dar ao luxo de adiar uma conferência. Homer G. Adams, o mutante de memória fotográfica, tido como maior gênio financeiro de todos os tempos, deixou ver um pouco de calor humano em seu sorriso. Pena do ar meio desamparado de Bell, talvez... — Bem, chamei você para combinarmos tudo direitinho. Não queremos cometer erros, não é? Vou providenciar minha partida imediata. Mais alguma coisa? O rosto de Adams mudou de expressão ao perceber a repentina tensão de seu interlocutor. Ao mesmo tempo, o ótimo sistema de som fez ouvir um uivo estridente. Bell transformou-se instantaneamente no homem dos nervos de aço. Algo de inesperado devia ter ocorrido em Galáxia. — Bell! — gritou Adams, alarmado. — Que foi que aconteceu? — Pode cancelar a viagem, por enquanto, Adams. Espere novo comunicado. Estamos sob alarma. Transmissão encerrada! Adams viu a imagem se desvanecer na tela côncava do telecom. Permaneceu imóvel em sua cadeira. O gabinete no topo do gigantesco arranha-céu lhe pareceu de repente nu e desolado. O uivo das sirenas continuava. Chegava ligeiramente atenuado à grande metrópole, porém seu impacto não foi menor do que o causado no palácio do governo da Terceira Potência. Homer G. Adams não era homem de se deixar descontrolar por barulhentas manifestações de aparelhamento acústico. Principalmente naquele dia, quando a jovem


Terceira Potência, sob a direção do ex-major e piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos, Perry Rhodan, era o eixo econômico, político e militar do planeta Terra. O fato de aquele conglomerado de poderes ser fruto da inteligência superior e capacidade de produção de uma raça cósmica, alheia à Terra, era de menor importância. O mais surpreendente no caso era ver reconhecida como potência mundial uma pequena nação perdida no coração do continente asiático; não sem algumas dificuldades iniciais, é claro. Uma vez estabelecida a soberania da Terceira Potência, a General Cosmic Company encontrara bases sólidas para se desenvolver. Adams estava em vias de revolucionar toda a economia mundial com os produtos e técnicas arcônidas. Segundo o cômputo mais recente, o capital social da GCC se elevara a duzentos bilhões de dólares; e estava iminente o lançamento de novas subscrições no montante de mais setenta bilhões. Sem dúvida, a instituição criada por Homer G. Adams era sólida e economicamente estável. Nada, até então, levara este homem a perder a calma e a serenidade, nem sequer por uma fração de segundo. Portanto, era bastante estranho vê-lo trêmulo e de olhos arregalados, atento para o lamento das sirenas. Momentos após chegou a confirmação ótica. Luzes violetas piscavam ininterruptamente. Aos poucos, a tonalidade alarmante predominou sobre a iluminação natural na peça semi-obscurecida. Homer G. Adams sobressaltou-se, como que despertando de um pesadelo. — Não! — murmurou, com os lábios comprimidos num esgar de angústia. — Isso não! Meu Deus, tudo, menos isso!


— Para trás com esse carro! — gritou o jovem oficial de guarda. — Não vê que a passagem está impedida? Ande! Recue pelos menos uns trinta metros! O rapaz suava em bicas. Após o cessar do frenético lamento das sirenas, o território da Terceira Potência parecia ter virado casa de loucos. Para cúmulo da confusão, acabara de chegar a coluna de transportes da Mongólia, com seu carregamento de máquinas. E o tenente encarregado do posto na fronteira era impotente para prestar auxílio aos perturbados asiáticos. Pois o cérebro-robô positrônico dos arcônidas assumira a direção dos acontecimentos. A máquina era inexorável. Acionada ao primeiro sinal de alarma, deixava aos humanos o prazo de apenas dois minutos exatos para se porem em segurança. Depois a cerca de energia foi erguida, estendendo-se ao longo de toda a fronteira. Uma barreira luminosa e flamejante de energia pura impedia a passagem do que quer que fosse. E era irremediavelmente mortal. Também não era aconselhável sobrevoar o intrincado entrelaçado de linhas e espirais energéticas; acoplado a inúmeros localizadores, o cérebrorobô não hesitaria um só instante em abater o invasor alado com uma bateria de canhões de raios. Afinal, o alerta geral fora amplamente difundido, a fim de evitar ocorrências desta espécie. O tenente recolheu-se apressadamente a sua casamata de concreto, dentro da cerca energética. Os enormes soldados-robôs — pesadas máquinas portando armas nos braços articulados e providos de mini-mecanismos atômicos nos corpos metálicos — recusavam há quatro minutos qualquer ordem humana. Eram comandados agora pelo cérebro eletrônico. Momentos após chegou o comunicado automático a todos os postos de fronteira e estações de controle: Alerta com prioridade 1 em efeito. Ninguém poderia deixar o território da Terceira Potência e, muito menos, entrar nele. A imensa cúpula energética, localizada no centro geométrico dos quarenta mil quilômetros quadrados de área da nação, intensificou seu brilho. O fulgor intenso e ofuscante feria os olhos. Tinha-se a impressão de ver surgir de repente um sol artificial. Da base espacial, agora invisível, os novos caças da Força de Caça Espacial se projetaram, rugindo, para o alto. O general Pounder, cujo carro cruzara os limites no


último instante, segundos antes da barreira energética entrar em funcionamento, viu-se de repente abandonado. Apenas um soldado-robô montava guarda ao veículo. Pálido e consternado, o general não obtinha resposta às suas inquietas perguntas. Todo mundo parecia ignorar sua presença ou esquecê-la de todo. O coronel Freyt desaparecera com uma sonora praga. Correndo provavelmente, para seu posto de comando nas cercanias da base espacial... Pounder não viu outra solução a não ser armar-se de paciência e esperar. Alguém acabaria por dar-lhe atenção. Desconhecendo o funcionamento de um cérebro-robô positrônico, não podia saber que este já registrara sua presença. Não era em vão que o soldado-robô tomara posição junto ao carro do general. Assim que o cérebro-robô arcônida verificou que o general era inofensivo e que se tratava de pessoa devidamente anunciada, enviou uma inaudível ordem radiofônica ao guerreiro mecânico. Com um sobressalto, Pounder sentiu o carro arrancar bruscamente e rumar em alta velocidade para o palácio do governo. Lá, deparou com um oficial do serviço de segurança à sua espera. Após ligeira hesitação, Pounder reconheceu o homem sorridente e atencioso. Li Shai-tung ganhara as manchetes mundiais três anos atrás. Ocupava agora o posto de elemento de ligação com o Serviço Secreto da Federação Asiática. Levando a mão ao quepe, Pounder pensou consigo mesmo: “Mais um velho conhecido, ora veja!”... — Queira aguardar na recepção, por favor! — foi-lhe dito. — Espero que compreenda a indisponibilidade momentânea de qualquer dos dirigentes. — Qual a razão do alarma? — indagou o general, secamente. — Pode me explicar o que está acontecendo? — Fui destacado especialmente para informá-lo, general. Queira entrar, por obséquio. Não se deixe impressionar pela atitude ameaçadora dos robôs; faz parte do sistema de alarma. Não há perigo algum; eles são controlados automaticamente. Por aqui, general!... Pounder inspecionou com o olhar o amplo recinto composto de vidros, material sintético e efeitos luminosos. Também aqui a movimentação era febril. Percebeu ao fundo os vãos fulgurantes dos fabulosos elevadores antigravitacionais. Tanto na construção, como nos acabamentos e nas instalações, evidenciava-se a aplicação de técnicas superavançadas. “Devem ter gasto uns cento e vinte milhões de dólares nisso”, calculou o general, habituado a fazer avaliações daquela espécie. — Bell não tardará a vir cumprimentá-lo, general. Sua inesperada presença acabou sendo providencial. Fui encarregado de lhe prestar as informações preliminares. É provável que lhe solicitemos, em vista das circunstâncias, a convocação urgente da Comissão de Segurança Mundial, em caráter de emergência prioritária. Talvez em Pequim, por sua localização centralizada. Terá que tomar decisões muito rápidas. Nossos meios de comunicação estão ao seu dispor. A emoção embargava a voz de Pounder. — Compreendo, tenente! A situação está preta outra vez, não? Ainda recordo a crise anterior, há três anos, quando seres extraterrenos se introduziram sorrateiramente nos corpos e mentes de nossos mais destacados cientistas e políticos, subjugando-os por completo. Os serviços de segurança já foram informados? — Sim. O código preestabelecido foi emitido automaticamente. Não perdemos tempo aqui, general... Ainda não dispomos de informações precisas. Nossa estação de observação em Plutão apenas nos transmitiu os dados registrados pelos sensores de deformação da


estrutura espacial. — Tenente, você tem diante de si um homem de boa paz, que se pergunta de vez em quando com que direito se intitula chefe da Força Espacial dos Estados Unidos — observou Pounder, sarcástico. — Voamos em foguetes obsoletos, enquanto vocês usam naves espaciais mais velozes do que a luz. Que diabo vem a ser um sensor de deformação da estrutura espacial? Li Shai-tung sorriu. Lá fora reboava um rugido infernal. Foi crescendo de forma alarmante, até se extinguir gradualmente, à medida que as ondas sonoras se dissipavam no ar. Pounder conhecia bem o fenômeno mas não com tal intensidade. — É a Good Hope decolando sob o comando dos dois arcônidas — explicou o agente chinês, com displicência. — A nave auxiliar do cruzador arcônida destruído na Lua, lembra? — Nave auxiliar! — suspirou o general. — Tenente, para mim, uma nave espacial esférica com sessenta metros de diâmetro representa um verdadeiro colosso, entendeu? E o que é um sensor de deformação da estrutura espacial? — Um aparelho de detecção arcônida, para localizar e medir diretamente alterações quadridimensionais da estrutura espacial no cosmo normal. O instrumento mede desvios de gravitação. E como a gravitação é uma forma de energia do hiperespaço, os sensores funcionam forçosamente a velocidades superiores à da luz. Quando emitem sinal, sabemos que em algum ponto situado num raio de cerca de cinqüenta anos-luz a estrutura curva do espaço foi abalada, rompida por forças poderosas. Por experiência, sabemos que isso só pode ser ocasionado pelo hipersalto de uma nave mais veloz do que a luz: a denominada transição. E quando o fato se dá a uma distância tão próxima, a Central de Defesa da Terceira Potência toma providências imediatas. Pois a coisa pode ser conosco, general! Pounder murchou, sem ter entendido uma só palavra da explicação. — Está bem, tenente! Pode poupar seu latim. Não passo de um homem das cavernas diante dos conhecimentos científicos de Rhodan e você. Sempre lhe dei apoio total; primeiro, quando desobedeceu às minhas ordens; depois às custas de minha consciência de militar; mais tarde com a sanção oficial do meu governo. Pode ir, eu espero... Deve ter obrigações a cumprir. Só não esqueça que deixou um homem desarvorado sentado aqui. — General, todos estes conhecimentos serão amplamente divulgados no dia em que a humanidade chegar a uma verdadeira comunhão espiritual. Não há dúvida de que cresce dia a dia a garantia de uma paz mundial permanente e duradoura; mas, por enquanto, para a própria consolidação deste objetivo, é preciso que o poder se concentre exclusivamente nas mãos de Perry Rhodan. O que lhe acarreta a obrigação de proteger tanto o seu mundo quanto o nosso. Medite sobre o que eu disse, general, por favor. Os chefes dos três grandes serviços secretos devem chegar dentro de uma hora, no máximo. E agora, peço permissão para me retirar. Tenho efetivamente obrigações a cumprir. Li afastou-se apressado. Perturbado e preocupado com o que ouvira, Pounder fixou o olhar ausente sobre o mostrador do relógio. Porém, pôs-se de pé rapidamente ao avistar a jovem. Conhecia-a bem; mas, da frágil menina de rosto pálido e olhos ardentes, apenas ouvira falar. — Como está? — indagou ele, mecanicamente, enquanto procurava sondar os misteriosos olhos infantis. Recapitulou mentalmente o que sabia sobre aquela menina. Sem dúvida, Betty Toufry fazia parte do legendário Exército de Mutantes da Terceira Potência. Pounder engoliu em seco, impressionado com o incrível da situação. Porém sabia que o pai de Betty trabalhara num laboratório nuclear, tendo sofrido alterações em seu gen. Na filha, estas alterações não se manifestaram sob a forma de deformidade física, mas


resultaram numa capacidade mental extraordinária, muito acima da de qualquer ser humano comum. Pounder ignorava as qualidades específicas da inteligência da menina, mas decidiu levar o caso ao chefe do Serviço Secreto Ocidental. Não lhe agradava a idéia de ver Perry Rhodan dar guarida a tais monstruosidades; muito menos a de que as submetia a treinamento especial. Sobressaltou-se ao ver Betty se afastar abruptamente. Chegando junto ao cintilante campo energético dos elevadores antigravitacionais, a menina murmurou: — O senhor não devia pensar isso, general! As palavras cruzaram o vasto recinto como um sussurro trazido pela brisa. Pounder deixou-se cair de volta na cadeira. Percebera estar diante de uma telepata espontânea, um ser para o qual não existiam pensamentos secretos e privados. O general sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. *** Um vulto corria alucinado pelo negrume do espaço. O silvo agudo dos pulsopropulsores trabalhando no máximo de sua capacidade parecia passar inteiramente despercebido para o homem imóvel, sentado diante dos controles. Os pensamentos de Perry Rhodan, no entanto, fervilhavam. Cruzou a órbita lunar a toda a velocidade. Na frente do pequeno caça espacial brilhava já a Terra. Os jatos de reversão de campo cuspiam para a frente uma torrente de partículas, em sentido contrário à direção do vôo. Em conseqüência, o pequeno aparelho em forma de torpedo era freado, com uma desaceleração da ordem de quinhentos quilômetros por segundo. Rhodan verificou mais uma vez os dados do aparelho automático de aproximação. À altura da órbita dos satélites, o caça deveria estar na velocidade apropriada para a aterrissagem. Pontinhos luminosos dançavam na tela do hipersensor, que trabalhava com velocidade superior à da luz. No alto-falante audiofônico espocavam palavras esparsas. O que se projetava para o espaço, ali à sua frente, era obra construída por mãos humanas, assim como eram humanos os ocupantes das exíguas cabinas pressurizadas. O rosto de um rapaz surgiu na pequena tela do telecom. Sorrindo e acenando com a cabeça, ele informou: — Deringhouse para Cometa 1: segundo grupo decolando a fim de tomar posição de alerta. Alguma ordem, chefe? Rhodan puxou o microfone articulado para diante da boca. À frente de seu caça, a Terra emergia do vazio espacial como uma gigantesca bola de inflar. Avistava-se nitidamente as Américas e um extenso trecho do Oceano Pacífico. O litoral europeu envolvia-se lentamente nas sombras crescentes da noite. — Nenhuma; ao menos por enquanto. Nada de explicações compridas, por favor. Recebi o aviso. O alarma foi desencadeado? — Conforme programado. Aquilo lá embaixo virou um inferno! Rhodan cortou a comunicação. Os caças sob o comando de Deringhouse prosseguiram em sua alucinante corrida para o espaço, enquanto Rhodan iniciava a primeira órbita de frenagem. Após uma volta completa em torno do globo terrestre, ele mergulhou nas camadas superiores da atmosfera, com os anteparos térmicos flamejando. Os gases incandescentes das massas de ar violentamente deslocadas precipitavam-se estourando no vácuo criado pelo aparelho em queda. Parecia um meteoro consumindo-se em fogo, na atmosfera cada vez mais espessa. Era a técnica de aterrissagem de aproximação rápida dos arcônidas. Cabia a projetores especiais, embutidos nos anteparos térmicos, a tarefa de ionizar as renitentes


moléculas gasosas, a fim de expulsá-las da trajetória do aparelho que se precipitava em direção ao solo. Também aquilo constituía um processo avançado, que mesmo um homem competente como o general Pounder não imaginava nem em sonhos. Perry Rhodan valiase dele com a tranqüila naturalidade do iniciado. Por força do hábito, mal percebia a violenta turbulência produzida na atmosfera agora mais densa. Seus pensamentos se concentravam inteiramente no alarma. Uma situação aguardada com lúcida ansiedade tinha se concretizado, afinal! No entanto, Rhodan ainda ignorava os detalhes essenciais. Mas, como o cérebro-robô positrônico havia desencadeado o alarma, era de supor que a posição galáctica do planeta Terra corria risco imediato. A posição galáctica! Durante os últimos três anos, toda a preocupação de Rhodan havia girado em torno deste ponto. Pois há três anos, pouco após a criação da Terceira Potência, seres extraterrenos haviam conseguido pôr pé na Terra pela primeira vez. Debelado o perigo, semanas, meses e anos decorreram sem ocorrências dignas de menção, a não ser que se considerasse fora do comum a febril atividade de construção desenvolvida na área territorial da Terceira Potência. Rhodan fora brindado com uma trégua de três anos. E neste espaço de tempo o exmajor e piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos conseguira pelo menos estabilizar definitivamente a vacilante paz mundial e congregar as nações mais poderosas da Terra numa coalizão de defesa. Mas tudo aquilo seria ilusório caso a Terra fosse novamente descoberta! O que ocorreria caso as indubitavelmente existentes inteligências extraterrenas tentassem alcançar a pátria dos homens — com armas de poderio infinitamente superior — a fim de estabelecer-se nela, ou desencadear um ataque de surpresa? O alarma declarado tinha vindo confirmar os temores recônditos de Rhodan. O litoral norte da Sibéria surgiu à vista. Os sensores indicavam que o caça estava sendo detectado por diversas estações de radar. Que diferença fazia? O pessoal lá embaixo sabia muito bem quem era o suposto maluco que se precipitava do espaço pilotando um aparelho aparentemente desgovernado. Rhodan avistava agora a Mongólia. Quando começou a aparecer nas telas a cercadura luminosa em torno da área territorial da Terceira Potência, Rhodan recordou o desesperado pouso de emergência feito ali três anos antes. Ele regressava da Lua, onde fora o primeiro homem a pisar, trazendo consigo os dois arcônidas. E a presença dos seres extraterrenos é que o tinha levado a descer num ponto isolado do globo. Aquilo havia sido o começo de tudo. Seguiram-se graves e profundos desentendimentos com as nações mais poderosas da Terra; atacaram seguida e impiedosamente o novo poder em formação, até verificar a total impotência diante da tecnologia e armas de defesa dos extraterrenos. O termo arcônidas passou a ser assunto de manchetes mundiais. Agora reconhecia-se de bom grado os benefícios prestados à humanidade pela raça interestelar. Por outro lado, existia o ponderável fato de que a vinda acidental dos arcônidas à Terra aumentara muito o risco de esta ser descoberta por outros seres cósmicos. Provavelmente o planeta Terra continuaria sendo um corpo celeste desconhecido por anos e anos se o cruzador arcônida, destruído por mãos humanas, não tivesse irradiado pedidos de socorro. Os sinais se espalharam pelo cosmo. E dali em diante acabara-se a doce ilusão da humanidade de ser única no universo. Rhodan forneceu o código apropriado, para que o cérebro-robô lhe permitisse passagem; o caça passou a ser pilotado pela estação de controle remoto em terra. Perry


Rhodan ficou livre para entregar-se às suas cogitações. Percebia com nitidez que a humanidade se encontrava diante de um repentino despertar, que encerrava um terrível potencial de perigo. E os homens teriam que admitir a existência positiva de outros seres dotados de inteligência, talvez superior à deles próprios. E o pior, pouco ou nada tinham para opor-se a eles... A face do homem alto e magro, confinado na apertada cabina pressurizada do caça, denotava profunda preocupação. Pois compreendia que caberia a ele e aos dois arcônidas sobreviventes tomarem medidas para a segurança da Terra. A nave pousou suavemente. O pequeno reator de alto rendimento, por trás da blindagem anti-radiação na cabina do piloto, foi desligado. Em conseqüência, cessou igualmente a atividade do poderoso conversor de energia, e do aparelhamento auxiliar, sem os quais jamais seria possível controlar o tremendo potencial de força liberado. O coronel Freyt estava a postos para receber o comandante que regressava. Sua saudação foi curta e breve, enquanto fitava Rhodan com expectativa. Empurrando para trás o capacete, Rhodan aceitou o cigarro oferecido. Nos olhos cinzentos brilhava mal contida tensão. Porém nada em sua aparência externa denotava que há menos de uma hora se encontrava nas proximidades de Marte, testando um novo caça espacial. Era o impassível comandante de sempre, o homem sem nervos. Possuía, pelo menos, extraordinária capacidade de negar a existência de semelhantes contingências físicas. — A Good Hope decolou com Thora e Crest, chefe! — informou Freyt laconicamente. — Deringhouse e Nyssen estão no espaço, com quarenta e cinco aparelhos cada um. Conservei o terceiro esquadrão em terra, em rigorosa prontidão. Apto para levantar vôo em cinqüenta segundos, se for preciso. O general Pounder chegou pouco antes do alarma. Está aguardando no palácio do governo. Posso fazer uma pergunta, chefe! Que se passa! Cá embaixo, nós... — Bell não deu um pio, não é? — interrompeu Rhodan. — A mim não adianta perguntar. Não tenho a menor idéia. Mas fique de olhos abertos, está bem? Meu aparelho?... Freyt ficou vendo o helicóptero se afastar com uma expressão de profunda inquietação. Em flagrante contraste com as avançadas instalações na área da Terceira Potência, o helicóptero era produto terrestre comum. Lá longe, a cintilante cúpula energética desfez-se por um breve segundo, admitindo a entrada do aparelho. Mas tornou a erguer-se outra vez com o mesmo brilho contra o céu azul do deserto de Gobi. Rhodan pousou no heliporto do palácio do governo, situado no topo do edifício. Recebeu com um sorriso irônico as honras militares prestadas pelos robôs de guarda. Sempre lhe parecera fútil sobrecarregar os complexos cérebros dos guerreiros mecanizados com aquela programação supérflua. Além dos robôs, só uma pessoa havia comparecido para recebê-lo. Rhodan dispensava as cerimônias de estilo. O homem de cabelos negros e rosto fino envergava igualmente o uniforme da Terceira Potência. Porém, o elegante macacão não trazia insígnias de posto; apenas no bolso esquerdo superior luzia um símbolo estranho. Olhando de perto, via-se que era um cérebro cercado por brilhante auréola. O mutante John Marshall procurou o olhar de Rhodan. Adivinhava intuitivamente o que ia na cabeça do presidente. E pareceu-lhe que Rhodan retardava propositalmente a entrada na Central de Comando do palácio. — Olá, Marshall! Como vai indo a leitura de pensamentos? — Mal, no que toca ao senhor, chefe! — constatou o mutante. — O senhor está sendo aguardado. Bell está uma pilha de nervos. Dentro de quinze minutos chega o pessoal


dos serviços secretos. Que fazemos com eles? Sem uma palavra, Rhodan entrou no campo cintilante dos elevadores antigravitacionais. Libertos de peso, flutuaram suavemente para baixo. Marshall procurava antecipar mentalmente a provável atitude de Rhodan naquela emergência. Em contraste com a frenética agitação reinante no palácio do governo, Rhodan era a calma personificada. Marshall sondou cautelosamente as ondas cerebrais de seu acompanhante, ainda metido em seu traje espacial e com os cabelos louro-escuros empastados de suor. — Desista, Marshall! — disse a voz grave. — É como dar contra uma parede... Chegou a sondar o general Pounder? Marshall fez uma careta, com os olhos brilhando de indignação. — Ele nos toma por monstros! — resmungou. — Há gente que se recusa a compreender que o que eles chamam de monstros resultou de pesquisas monstruosas, das forças nucleares que jogaram contra nós... — Mas fora isso, Pounder é legal, não é? — respondeu Rhodan, sorrindo. — Escute, John, você não devia levar a sério essas alusões a monstros e coisas semelhantes. Procure pensar de preferência na impressão que seus dotes super-humanos causam em viventes comuns. Pois eu... Suas palavras foram abafadas pelo rugido de uma nave espacial em processo de aterrissagem. Rhodan saltou do elevador no pavimento seguinte. — Ué, a Good Hope está voltando? — Era o recado que eu tinha para lhe dar. Thora acha mais conveniente, por enquanto, deixar a nave abrigada sob a cúpula energética. Bell bloqueia o cérebro; não consegui saber o que ele pensa a respeito disso tudo. Nem ao menos sei o que está se passando! As linhas angulosas do rosto contraído de preocupação suavizaram-se num momentâneo sorriso. — Que falta de consideração de Bell, não acha? Muito bem, Marshall, chegou o momento! Você percebeu que eu procurava ganhar tempo, não? Rhodan fitou a pesada porta blindada de aço arcônida que constituía a única entrada para a Central de Comando do palácio. Dois enormes soldados-robôs montavam guarda diante dela, com as carabinas energéticas engatilhadas, prontas para disparar seus raios mortais. O telepata sorriu; claro que tinha percebido. — Vamos lá! E peça a Deus para que saiamos disso incólumes também desta vez! Por enquanto, a Terra é fraca demais para enfrentar ataques de alguma poderosa nação galáctica. Nossos diminutos caças espaciais não valeriam nada diante de uma frota de verdade. Venha!


A atitude dela era fria, controlada e arrogante. Mas ninguém podia ter certeza de que dominava efetivamente seus nervos. Thora, a ex-comandante do cruzador espacial em missão de pesquisa, forçado a pousar na Lua e posteriormente destruído por obra humana, tornava a tomar consciência de sua condição de arcônida. Rígida e ereta, sua atitude denotava mais tensão do que propriamente dignidade. Em silêncio, ela observava a agitada movimentação de pessoas dentro da Central de Comando. Rhodan achava melhor não instalar aquela Central de Comando, o ponto vital da Terceira Potência, no subsolo. Pois no caso de a cúpula energética falhar, fosse qual fosse a causa, até os mais sólidos abrigos subterrâneos seriam inúteis. O belo rosto de Thora, que não permitia adivinhar sua verdadeira idade, assemelhava-se a uma máscara sem expressão. Já tinha apresentado suas exigências. Agora cabia a Perry Rhodan definir-se, mostrando até onde estava disposto a satisfazê-las. Thora não se sentia à vontade entre aquelas pessoas afobadas, ocupadas e entregues a acaloradas discussões. Descendente direta da dinastia reinante do Império Arcônida, ela dera a entender por mais de uma vez que considerava a raça humana inferior e subdesenvolvida. Seu olhar dirigiu-se para o fundador e dirigente da mininação terrestre chamada Terceira Potência. Um travo de amargura repuxou involuntariamente os lábios bem formados. Perry Rhodan era, sem dúvida, um ser humano excepcional. E depois de haver absorvido, através da aprendizagem hipnótica, todos os conhecimentos da raça arcônida, tinha adquirido status super-humano. Nada mais conseguiria surpreendê-lo. Mas nem por isso justificava-se sua atual soberba; devia lembrar-se com mais freqüência de que devia toda aquela capacidade e conhecimento aos arcônidas. Era a opinião de Thora, pelo menos. Irritava-a um pouco ver com que grandiosa e impressionante naturalidade Rhodan fazia uso dos conceitos fornecidos por uma cultura superior, cultura que os homens, três anos atrás, nem em sonhos imaginavam existir. E, no entanto, Rhodan manuseava forças elementares e projetos ousados com uma segurança incrível, fazendo até a mulher arcônida perder o fôlego. E ela tirara a falsa conclusão de que Rhodan era a única pessoa merecedora de atenção no meio dos quase quatro bilhões de habitantes da Terra. Uma ira profunda transpareceu na testa franzida quando Thora percebeu o pressuroso entusiasmo de seu conselheiro científico e companheiro de raça. Crest, o líder dos cientistas arcônidas e representante da grandeza intelectual do Grande Império, parecia estar inteiramente subjugado à vontade de Rhodan. Era surpreendente ver o quanto esse


homem dominava o melhor cérebro do planeta Árcon. Thora continuava a se manter à parte, na expectativa, absorta em seu estranho sentimento de amor-ódio pelo homem que lhe despertava incontida admiração, mas a quem não fazia concessão alguma. Ao lado de uma ilimitada indignação, turbilhonavam em sua mente pensamentos suaves e ternos. Nas telas côncavas do cérebro-robô positrônico piscavam e brilhavam as fórmulas dos cálculos finais. Rhodan manipulava os controles com incrível desembaraço, dominando uma máquina cuja perfeição mecânica jamais deveria admitir ordens humanas. E, no entanto, ela obedecia a Rhodan. — Ruptura estrutural No 118! — anunciou a voz rouca de um homem atarracado, de ombros largos. Thora estremeceu. Reginald Bell, ex-capitão da Força Espacial dos Estados Unidos e pioneiro lunar, demonstrava seu propalado sangue-frio diante de emergência. Mas era preciso conhecê-lo bem para adivinhar a férrea calma que ia por trás da face zombeteira. — Mais um salto, a centésima décima nona transição... — disse Bell, elevando a voz acima do zunido dos aparelhos. — É o quanto basta! Para que continuar escutando as mensagens? E agora?... Seu olhar ia de Perry Rhodan para Crest, num incessante vaivém. Sabia que as opiniões dos dois homens divergiam. — Insiste nisso, Crest? — perguntou Rhodan, erguendo-se da cadeira giratória. O arcônida demonstrava sinais de excitação. Ocorrência incomum na maneira de ser, em geral ponderada e cordata, do ser extraterreno. Rhodan sentia que a Terceira Potência do planeta Terra se encontrava em vias de entrar numa nova fase. Portanto, acrescentou à sua pergunta: — Parece-me que acaba de iniciar-se a segunda etapa de nosso empreendimento. Medite sobre isso. As informações transmitidas por nossas estações-robôs em Plutão indicam com clareza que as rupturas registradas pelos sensores estruturais ocorreram no setor do sol Vega. Foi constatado igualmente que inúmeras astronaves, vindas do hiperespaço, executaram ali sua reentrada no universo normal. Significando que seres desconhecidos estão explorando ativamente o sistema planetário que deve existir em torno de Vega. Conserve-se lúcido, Crest! Prezo muito sua inteligência e tolerância e o auxílio que prestou à Terra e aos homens tem sido inestimável. — Pois então não lhe custaria nada atender uma vez a um pedido nosso! — interrompeu Thora, do lugar onde estava. Haggard e Manoli, os dois médicos, se entreolharam. O cenho franzido de Haggard revelava séria preocupação: Thora estava criando problemas! — Não nos foi possível até agora atender os pedidos que me fizeram — respondeu Rhodan, secamente. — A posição galáctica da Terra precisa ser mantida em segredo, custe o que custar. Já me bastou o incidente com invasores extraterrenos há três anos passados. Crest, está redondamente enganado com suas suposições! — Pois continuo pedindo e implorando uma expedição imediata ao setor do sol Vega! — insistiu Crest. — Meus cálculos provam, sem sombra de dúvida: o mundo que tenho procurado tão desesperadamente se encontra entre os planetas do sistema Vega! Perry, pelo menos uma vez, aceda aos meus desejos! Faz quase quatro anos, na medida terrena do tempo, que fomos forçados a descer na Lua. Coisa que não fazia parte dos nossos planos. Eu vim para este setor remoto da galáxia em busca de um planeta cujos habitantes conhecem o segredo da conservação biológica das células. O que quer dizer: a vida eterna. — Mas o senhor ainda nem pode afirmar com certeza que Vega possui planetas! —


objetou Reginald Bell. — Seus cálculos podem estar corretos. Mas e daí? Para mim não é motivo suficiente para alguém se jogar naquele caldeirão de bruxas. As naves que emergiram lá do hiperespaço não ameaçam a Terra por enquanto, mesmo que o cérebro positrônico tenha alvitrado a possibilidade da Terra ter sido descoberta. Por razões óbvias, não creio que seja o caso. Rhodan persistia em seu inquietante mutismo. Lá embaixo, no vasto salão de conferências, aguardavam os chefes dos serviços secretos e os delegados das nações terrestres. O alarme fora de âmbito mundial. E agora aquela surpresa! — Mas trata-se de naves arcônidas, cujos comandantes vêm igualmente com a missão de procurar o mundo da vida eterna, tenho certeza! — teimou Crest. A impassibilidade de Rhodan parecia transtorná-lo profundamente. Novamente a resposta foi dada por Bell: — Por que tenta iludir-se a si próprio, Crest? Todos nós sabemos que a outrora poderosa e ativa raça dos arcônidas degenera a olhos vistos. O declínio mental já era tão acentuado há quatro anos que a tarefa de equipar seu cruzador de pesquisa custou esforços inauditos. A turma que surgiu do hiperespaço lá em Vega não tem nada a ver com seus patrícios, os arcônidas. Confie em meu instinto. Recuso decolar com a Good Hope num vôo mais rápido do que a luz. Assim como detectamos e localizamos com exatidão os abalos da estrutura espacial, os desconhecidos nos perceberão por sua vez. Com o que delataríamos a posição de nosso sistema solar. Que diabo, afinal eu sou o ministro da segurança, não é? Bell ergueu-se da poltrona de controle. Acima dele cintilavam as telas dos hipersensores, funcionando em velocidade superior à da luz. O major Nyssen, comandante do 2o Grupo de Caça Espacial, comunicava não haver vestígio de objetos estranhos no âmbito do sistema solar. — Viu? — exclamou Bell, carrancudo, com os pálidos olhos azuis cheios de animosidade. — Crest, ninguém vai me forçar a sacrificar a Good Hope! Os sensores estruturais em Plutão registraram até agora cento e vinte e duas transições. Todas na vizinhança imediata de Vega! Pretende mesmo jogar nossa única espaçonave grande no meio daquele caos? Seria rematada loucura! — Sua opinião não é a decisiva, Bell! — exclamou Thora, acremente, enquanto assumia uma postura ainda mais rígida. Porém o rosto denotava intensa comoção. “Uma bela mulher!” constatou Rhodan. Não pela primeira vez; já se habituara a reconhecer a beleza da arcônida, e seu cérebro apenas confirmava automaticamente o fato, como coisa rotineira. Ficou observando Thora com os olhos semicerrados. Ela emudeceu no meio da frase ao ver o estranho sorriso de Rhodan. A face contraída não escondia mais o nervosismo. — Prossigamos! — encorajou Rhodan. — Que mais precisa ser dito? Bell cerrou os poderosos punhos. — Eu nada tenho a dizer! — reclamou, irritado. — Perry é que é o chefe. Sei que não me suporta, Thora; mas bem que poderia pensar um pouco na nossa nave. E a única mais rápida do que a luz disponível no momento. A sorte ainda nos protegeu desta vez, está claro? Quando escutei o primeiro sinal de alarma da estação em Plutão, imaginei ver surgir sobre a Terra uma frota atacante. Prefiro pecar por excesso de cautela, o que não pode prejudicar nem a Humanidade, nem a vocês, arcônidas. Dentro de aproximadamente um ano, nossos estaleiros terão concluído a construção das novas naves e então poderemos fazer outros planos. Vou erguer as mãos para os céus se nos deixarem em paz até lá. Atualmente não dispomos ainda de armas para enfrentar inteligências cósmicas. E justamente nestas circunstâncias você insiste em fazer o que vínhamos evitando nos


últimos três anos, por medida de segurança: um hipersalto espacial. E em direção de Vega, ainda por cima, onde acaba de aparecer uma numerosa frota espacial! Rhodan pigarreou. John Marshall sorriu zombeteiro. O coronel Freyt, chefe da Força de Caça Espacial, que chegara momentos antes, divertia-se com a eloqüente arenga de Bell. — Você me recusa toda e qualquer oportunidade, Perry! — queixou-se o arcônida, com voz magoada. — Durante três anos tem se oposto até a viagens curtas, no raio de cinqüenta anos-luz. — Exato. Sempre fui obrigado a refrear minha própria curiosidade a bem da segurança da Terra. Poderiam nos localizar. Sabe muito bem que nenhuma concentração de energia incipiente é tão fácil de localizar quanto uma distorção da estrutura gravitacional. — Já esperamos bastante! Continuo a afirmar que as naves surgidas no sistema Vega provêm de Árcon, minha pátria. Justamente por causa da degeneração que se alastra cada vez mais, somos obrigados a tentar prolongar a vida útil das mentes ainda sãs, submetendo-as a um processo artificial de rejuvenescimento. O Conselho Central de Árcon deve ter feito um esforço supremo a fim de possibilitar ainda no último momento a descoberta do planeta da preservação celular. — Exijo a partida imediata! — manifestou-se novamente Thora. — Estou certa de poder entrar em contato com meu povo no sistema Vega. Transmitimos a você tudo que sabemos através da hipnoinstrução, portanto não precisa mais de nós, Rhodan. Faço-lhe presente da Good Hope. Leve adiante seu plano de elevar sua tão amada Humanidade a um poder galático, da forma que achar melhor. Mas primeiro será preciso domar os seres primitivos de sua raça, dominados pelo instinto. Meios para isso não lhe faltam. Portanto, repito minha exigência: quero decolar e ser conduzida para Vega! — Que idéia absurda! — gritou Bell, furioso. — Será preciso lhe dizer claramente que a altiva raça arcônida chegou ao fim? Sinto muito, porém é tempo de que alguém lhe abra os olhos, Thora. Ainda guardo nitidamente na memória a expressão passiva e sonolenta dos rostos dos tripulantes de seu cruzador aniquilado. Você e Crest podem se dar por satisfeitos, ainda conservam a mente ilesa. Pois usem-na para pensar e não para alimentar fantasias irreais! As palavras eram duras, de uma franqueza quase brutal. Rhodan aguardou o resultado delas. Thora tremia de indignação. Crest pareceu desmoronar interiormente. Abalado, deixou-se cair no primeiro assento que encontrou. Na Central de Comando o silêncio era opressivo. Apenas o berreiro incessante do radio-transmissor galático se fazia ouvir da peça vizinha. — Coronel Freyt! A voz de Rhodan era seca e impessoal. Sobressaltando-se, Freyt assumiu involuntariamente a posição de sentido. Bell fitou o comandante com os olhos arregalados. Conhecia bem aquela expressão. Rhodan era o tipo humano classificado pelos psicólogos da Força Espacial como de adaptação instantânea. E o hipnotreinamento recebido dos arcônidas intensificara ainda mais essa capacidade. Perry Rhodan era agora o comandante severo e intransigente que não admitia contradições. — Às ordens! — respondeu Freyt, engolindo em seco. — Mande o major Deringhouse aterrissar imediatamente! Nyssen fica em órbita lunar com seu grupo. Obrigado! Capitão Klein?


O segundo homem se perfilou diante do comandante. Os olhos cinza-névoa deste não encorajavam perguntas. Rhodan não tinha consciência de que dominava os presentes com o poder de sua vontade, forçando-os inconscientemente a aceitar suas sugestões. — Colocar em prontidão um esquadrão de emergência. Cinqüenta homens bastam. Assuma o comando. Sintonize igualmente cem guerreiros-robôs para freqüência individual. Decolamos dentro de cinco horas, exatamente. Obrigado! Dois homens abalados deixaram o recinto. Crest ergueu-se lentamente; o rosto ao mesmo tempo jovem e idoso refletia profunda emoção. — Muito obrigado! — falou, com voz embargada. — Encontrará todo o apoio imaginável no sistema Vega. Talvez eu possa conseguir até que lhe cedam um cruzador espacial realmente capaz de enfrentar batalhas. O Grande Império protegerá a Terra em toda e qualquer circunstância. Jamais esqueceremos o que fez por nós. Eu!... Mas Crest calou diante do olhar do homem magro, de estatura elevada. Pois leu no fundo dos olhos claros um remoto indício de piedade, amenizando a anterior expressão autoritária. — Crest, lamento ter que dizer isso, mas não vai encontrar uma só nave arcônida no sistema Vega! Não se iluda! A ansiedade enche sua mente de sonhos. A raça arcônida não possui mais condições para desencadear um ataque maciço desta espécie. Lembre-se de que localizamos mais de cento e vinte espaçonaves em transição. Isso não é gente sua! O corpulento ministro da defesa se adiantou. — Exatamente o que penso! Mas por que insiste em decolar, Perry, se é que me permite a pergunta? De acordo com as observações feitas, o ataque não se dirige contra nós. Por que atrair a atenção dos desconhecidos, homem? Por quê, Rhodan? É mais do que evidente que a ação deles se concentra em torno do sol gigante. Será que refreamos à toa nossa impaciência por vôos interestalares nestes três últimos anos? Parece que todo mundo ficou biruta de repente por aqui! — Se eu fosse ditador, você estaria frito agora, Bell! — murmurou Rhodan, com seu famoso sorriso enigmático brincando no canto dos lábios. — Nunca lhe ocorreu que poderia estar enganado? — Enganado, eu? — replicou Bell, atônito. — Sim, isso mesmo. A Good Hope decola dentro de cinco horas! Exclusivamente no interesse da Terra, em missão de reconhecimento. Pensa que vou permanecer de braços cruzados diante de uma invasão extraterrena a apenas vinte e sete anos-luz daqui? E tratase efetivamente de uma invasão! Negociantes ou pesquisadores nunca se apresentariam assim em massa, com naves evidentemente poderosas. E mais uma coisa!... Perry Rhodan olhou em torno com ar severo. — ...mais uma coisa, senhores, que passou despercebida de todos: alguém, lá longe no espaço galático, cometeu um pequeno erro de cálculo. Esta invasão tinha por objeto real a Terra, e não Vega. Os chamados de socorro emitidos da Lua pelo cruzador arcônida foram registrados com uma falha infinitesimal. Ora, levando em conta as distâncias galácticas, um desvio mínimo na navegação hiperespacial resulta em errar o alvo visado por vinte e sete anos-luz. É por isso que vamos dar uma olhada nos acontecimentos. Senhores, a segunda etapa está se iniciando. Ou a segunda crise, se preferirem. Marshall, anuncie-me aos delegados no salão! Rhodan colocou o quepe na cabeça, fez uma rápida continência e encaminhou-se para a porta blindada. O tenso silêncio provocado por suas últimas palavras foi rompido por uma risada sarcástica. Reginald Bell postou-se com ar de desafio diante dos complicados aparelhos de


detecção. — Veremos quem está com a razão, comandante. Mas, se com esta doidice atrairmos seres estranhos para a Terra, eu me permitirei a liberdade de taxar de irresponsável o ilustre major Perry Rhodan, dirigente da Terceira Potência. E, com sua licença, comandante, se algum subordinado meu cometesse erro de tal monta, eu o mandaria submeter à corte marcial, sob a acusação de comprometer deliberadamente a segurança mundial. Firmando as mãos sobre o encosto de uma das poltronas, o Dr. Manoli aguardou fremente a reação de Rhodan. Voltando-se lentamente, ele declarou em tom suave, acompanhado de uma olhar enigmático: — Eu também faria o mesmo, Bell! A porta de aço fechou-se com um baque surdo. Os braços metálicos dos guerreirosrobôs de fabricação arcônida abaixaram imediatamente as armas apresentadas em continência. O chefe se retirara. — Bom psicólogo é que você não é! — comentou o Dr. Haggard, ministro da saúde da Terceira Potência desde sua criação e fundador da renomada Clínica Arcônida. O corpulento gigante tomou o rumo da porta blindada. Eric Manoli, ex-médico de bordo da Stardust acompanhou-o sem comentários. Reginald Bell seguiu-os com um olhar sombrio. Depois fitou os dois arcônidas. E compreendeu, num relance, por que Rhodan desistira de sua contínua oposição contra viagens espaciais mais rápidas do que a luz: porque fora obrigado a ceder. As circunstâncias não permitiam mais a recusa de um vôo interestelar. Pois a possibilidade de transformar Thora e Crest em ferrenhos inimigos da Humanidade era muito mais arriscada do que a eventual descoberta da Terra por seres estranhos. Além disso, havia desconhecidos operando relativamente perto dali... *** O ruído dos potentes pulsopropulsores em funcionamento fazia pensar no rufar de imensos tambores acionados por gigantes invisíveis. Rugindo, a Good Hope se ergueu no ar. Seu local de pouso ficava debaixo da grande cúpula energética. Assim que a curvatura do pólo superior da esfera com sessenta metros de diâmetro ameaçou tocar a radiosa cobertura, o cérebro-robô positrônico reagiu, com a precisão de um mecanismo desprovido de nervos. O campo energético entrou em colapso, deixando passar a nave. Porém, segundos após, voltou a ver-se a intensa luminosidade produzida pela incompreensível força desconhecida. Com o reerguimento do anteparo protetor emudeceu igualmente o tonitruante rugido do aparelho em ascensão. Segundos após, ele sumiu no céu do deserto. Rhodan acelerava com valores que levariam à incandescência, por efeito da fricção do ar, qualquer outro veículo. O general Pounder refreou a custo seus sentimentos. Para o homem habituado à atividade espacial, constituía espetáculo grandioso ver a gigantesca nave projetar-se para o alto com tamanha facilidade. Diante daquilo, os foguetes usados pela Força Espacial dos Estados Unidos pareciam lerdos e pesados; ineficientes com seu primitivo sistema de propulsão nuclear. E não só os americanos! Também o marechal Gregor Petronski, chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental, não conseguia disfarçar a emoção nos traços pétreos do rosto. Os olhares dos dois altos oficiais se cruzaram. Pounder disse:


— Que é feito de nosso orgulho? Uma formiguinha pisada por pé gigante não poderia se sentir mais indefesa e insignificante... O marechal preferiu não responder. Sua atitude era significativa. Não havia mais lugar para divergências e inimizades mal disfarçadas. Pelo menos aquilo Perry Rhodan conseguira obter com o simples fato de criar sua Terceira Potência. O homem baixo e franzino, aureolado com uma coroa de cabelos dourados, sorriu com benevolência. Ninguém diria que se tratava do chefe todo-poderoso de um serviço secreto denominado Conselho Internacional de Defesa. Allan D. Mercant avançou alguns passos. A conferência-relâmpago realizada por Rhodan causara tremendo impacto. Mercant consultou o relógio. Sua voz era calma e amável como sempre: — Vamos, cavalheiros? Ou alguém ainda duvida da existência de raças altamente desenvolvidas além da nossa? Em caso negativo, rogo-lhes que comuniquem aos respectivos governos o resultado de nossas conversações. Estarei em Washington durante os próximos dias. Viajamos juntos, general? Pounder concordou com um aceno. — E o que acontecerá caso o vôo de Rhodan acabe em insucesso? — indagou uma voz. Pertencia a Kosselov, o chefe do Serviço Secreto Oriental. Mercant enxugou o suor da testa com as costas da mão. — Neste caso, só nos restaria fazer votos pela não-descoberta da Terra. Senhores, é imprescindível alertar nossos governos para o fato de que não estamos mais sós! E seria mais do que oportuno renunciar de uma vez por todas a qualquer preconceito ainda existente contra a unidade universal. A Humanidade não pode apresentar-se desunida diante de eventuais invasores cósmicos. O grupo se desfez. — Faço votos pelo êxito da expedição! — murmurou Petronski. — Se os dados registrados pelos localizadores forem corretos, Rhodan vai se meter num verdadeiro inferno. Qual é a capacidade de reação da Good Hope? — Tudo depende das armas possuídas pelos adversários desconhecidos! — Bem, aguardemos! — respondeu Petronski. — Vou preparar o alarma atômico em minha área de comando. Pois gostaria de estar razoavelmente preparado caso seres estranhos comecem a se interessar por nós.


A densa floresta de Vênus ainda reverberava com o eco da estrondosa decolagem da Good Hope, porém a nave já desaparecera no turbilhão convulso que sua ascensão provocara na cobertura de nuvens do segundo planeta do sistema solar. As massas de ar violentamente deslocadas e comprimidas haviam sido aquecidas até quase a incandescência; uma faixa luminosa revelava o rumo tomado pela nave, que decolara verticalmente, após vencer a distância Terra—Vênus em cerca de quarenta minutos. Para Perry Rhodan, a escala em Vênus não passava de um breve pouso com a finalidade de colher informações. Porém estas informações eram de vital importância. É que o cérebro-robô, relativamente pequeno, existente na área terrestre da Terceira Potência não continha dados sobre o provável sistema planetário do sol Vega; portanto, Rhodan alimentava a vaga esperança de encontrar algo no computador gigante de Vênus. O monstro mecânico-positrônico, construído por cientistas arcônidas na remota era de sua expansão galáctica, fornecera de fato os dados que Perry Rhodan precisava. O mais difícil fora convencer Thora e Crest da necessidade do pouso prévio em Vênus. Mas, por trás do sorriso amável, a exigência de Rhodan era explícita: só arriscaria a transição para Vega, a apenas vinte e sete anos-luz de distância dali, se pudesse obter primeiro dados reais e concretos sobre a família planetária da estrela gigante. Thora a Crest encerraram-se em teimoso mutismo. A situação a bordo da Good Hope beirava perigosamente os limites de uma séria desavença. E Rhodan percebia a necessidade urgente de chegar a uma solução mediadora. A consulta ao gigante positrônico, mil vezes mais eficiente do que o cérebro retirado da Good Hope e instalado na Terra, resultou positiva. Realmente, as naves arcônidas tinham explorado as vizinhanças do Sistema solar há cerca de dez mil anos, em contagem terrena de tempo, por ocasião das expedições migratórias então efetuadas. A fortaleza em Vênus fora construída com a finalidade de servir como uma espécie de refúgio cósmico para situações de emergência. Na ocasião, os atualmente degenerados arcônidas deviam encontrar-se ainda em plena posse de sua capacidade mental e criativa. Nada mais natural, portanto, do que acumular informações acerca do armamento vizinho à Terra. Perry Rhodan contara com isso. Mas, para Thora e Crest, era uma inesperada surpresa. Como o cérebro-robô do cruzador de pesquisa destruído não continha tais dados em seu banco de memória, os dois arcônidas haviam concluído que o computador gigante de Vênus nada saberia também acerca do sistema planetário de Vega. Rhodan viu-se obrigado, a contragosto, a chamar a atenção do cientista Crest para um


engano freqüentemente cometido por sua raça: o arquivo positrônico central do distante planeta Árcon não era tão completo quanto os arcônidas julgavam. Acabavam de ter uma prova positiva disso. De onde se poderia concluir que muitas das expedições feitas pelos arcônidas a mundos afastados jamais haviam sido reveladas e registradas. Fato que Crest costumava negar com veemência. Provido com informações essenciais, Rhodan levantou vôo de Vênus, mas agora com seu rumo bem traçado. *** Na cabina de comando da nave esférica mal se ouvia o ronco surdo dos propulsores trabalhando em carga máxima. Carga máxima; isso significava a expulsão, à velocidade exata da luz, de um jato de partículas coerentes, compactadas por um campo energético gerado em espaço hiperestrutural. Perry Rhodan e os arcônidas denominavam o processo onda de corpúsculos, noção que provocara verdadeira sensação nos meios científicos terrestres. A tecnologia arcônida parecia estar ferozmente empenhada em invalidar as teorias prevalentes na Terra, e em tornar realidade impossibilidades científicas. A julgar pela última aula de Rhodan na mundialmente famosa Academia Espacial, seria preciso esquecer a maior parte do que os homens tinham aprendido até então caso quisessem enfronhar-se nos conhecimentos arcônidas. Ou então reformular por completo a maneira de ver as coisas. Pulsopropulsão e onda de corpúsculos eram conceitos explicáveis apenas através da matemática pentadimensional. A Good Hope acelerou na razão aparentemente alucinante de quinhentos quilômetros por segundo, o que, em teoria, lhe permitiria alcançar velocidade igual à da luz em dez minutos. Também aqui se aplica o princípio claramente estabelecido para a velocidade relativística, de acordo com a simples relação linear de que a velocidade é igual a tempo vezes aceleração constante. Para o observador na Terra, no entanto, após dez minutos de aceleração constante, a nave teria alcançado apenas uma velocidade correspondente a 70% da luz. Para Rhodan se tornavam aplicáveis os conceitos mais elementares da contração relativística proporcional do tempo. Sob o ponto de vista dos conhecimentos humanos, as equações envolvidas eram bastante complexas; porém, arcônidas do nível de Crest costumavam fazer os cálculos mentalmente. O domínio de uma nave interestelar acarreta inúmeros problemas. A despeito de sua excepcional capacidade científica,, Rhodan e Reginald Bell se defrontariam com obstáculos insuperáveis não fosse o hipnotreinamento recebido dos arcônidas. Rhodan pilotava com mão firme e ânimo tranqüilo a nave, em seu vertiginoso vôo pelo sistema solar. Os controles quase totalmente automatizados permitiam que a Good Hope fosse controlada por uma só pessoa em caso de necessidade, desde que esta estivesse familiarizada com a técnica arcônida. Crest e Thora aguardavam a transição iminente com a indiferente calma provinda do hábito. Rhodan e Bell, no entanto, não escondiam seu nervosismo, apesar de terem sido devidamente preparados para a experiência. E as coisas corriam bem demais!... Os cálculos necessários para o vencimento de um trecho espacial correspondente a, vinte e sete anos-luz já estavam sendo feitos, com Vega por objetivo final. Compilando os dados básicos fornecidos pelos localizadores — a distância do alvo, a massa da nave e os campos gravitacionais prevalentes — o computador galatonáutico calculou a taxa de impulsão,


conceito completamente incompreensível para pessoas comuns, e que os arcônidas denominavam hipervelocidade de fuga universal. Rhodan sabia muito bem que o rompimento da barreira da luz não podia ser nem concebido nem explicado com a matemática terrena. Portanto viu-se obrigado a relegar ao esquecimento toda sua bagagem de aprendizado tradicional e guiar-se apenas pelos preceitos da ciência arcônida. Era suficiente para provocar tanto nele como em Bell profundos conflitos emocionais. Haviam passado por todas as experiências possíveis e imagináveis, o que não os impedia, porém de se sentir agora como o homem pré-histórico diante de seu primeiro contato com o fogo: sabiam como usá-lo, porém ainda ignoravam que ele podia igualmente ferir e matar. O ruído dos quatro pulsopropulsores sincronizados intensificou-se, lembrando trovoada roncando ao longe. Quanto mais a Good Hope se aproximava da velocidade exata da luz, tanto mais acelerado se tornava o trabalho das máquinas de fabricação extraterrena. A órbita terrestre ficara para trás. A nave afastava-se do Sol, a fim de iniciar o salto hiperespacial ainda no âmbito do sistema solar. Quando o ponteiro do velocímetro chegou a uma fração centesimal da marca que indicava a velocidade da luz e os sinais acústicos do piloto automático principal clamaram por empuxo adicional, Rhodan soltou as mãos dos controles e girou em sua poltrona. Apenas os líderes da reduzida tripulação se encontravam reunidos na cabina de comando. Nas numerosas telas de observação externa cintilavam sóis remotos, muitos dos quais deviam possuir sistemas planetários. Um rápido toque no comutador extinguiu as luzes piscantes no painel do hipercontrole. Thora olhou para Rhodan intrigada, perguntando em tom inquieto: — Por que suspendeu a aceleração, Rhodan? O comandante ergueu-se lentamente de seu assento. Bell ficou na expectativa. Algo estava errado. — O excelente hipnotreinamento que recebi me gravou firmemente na memória que não é aconselhável iniciar um hipersalto de dentro de um sistema planetário — explicou Rhodan, pausadamente. — Vamos prosseguir em queda livre até atingir a órbita de Júpiter, em velocidade um por cento abaixo da luz. Prefiro não provocar indesejáveis distúrbios no campo magnético da Terra. Querem vir comigo até a cantina? Bell ligou os hipersensores, para detecção imediata de qualquer corpo estranho, conectando-os com os projetores dos anteparos de defesa. Depois seguiu Rhodan. O piloto automático inteiramente positrônico merecia total confiança, mais do que qualquer ser humano. John Marshall, o mutante dotado de qualidades telepáticas, sondou de longe os dois arcônidas. Não conseguindo penetrar nas mentes bloqueadas, virou-se para pedir auxilio à menina magra, de olhos imensos. Betty Toufry brindou-o com um ligeiro sorriso que, no entanto, não tinha nada de infantil. Com um movimento de ombros, deu a entender que também ela não conseguia captar o conteúdo mental dos extraterrenos, apesar de seus dons serem mais fortes do que os de Marshall. Tako Kakuta, o diminuto japonês que ainda há pouco estivera de pé ao lado de Bell, desapareceu de repente. O jovem com o espantoso dom da teleportação preferira mais uma vez o caminho mais curto. Era parte de sua constante prática e treinamento. Além de Marshall, Betty e do franzino japonês, encontravam-se a bordo duas pessoas que Bell antes da decolagem conhecia apenas de nome. Rhodan mandara dois caças espaciais ultra-rápidos ir buscá-los em Vênus, onde ambos concluíam seu curso de especialização.


Dizia-se que Wuriu Sengu, o japonês gordo e troncudo, era capaz de enxergar através de corpos sólidos usando exclusivamente sua força mental. Mineiro de profissão, sempre maravilhara seus companheiros com sua infalível precogniçâo da produtividade de tal ou qual nova galeria de carvão aberta. O Corpo de Busca de Mutantes da Terceira Potência fora descobrir Sengu no Japão. Ralf Marten, nascido igualmente no Japão, filho de um comerciante alemão e mãe nativa, possuía dotes ainda mais espantosos. Também ele pertencia à geração vinda ao mundo pouco após a explosão atômica sobre Hiroshima. O alto e esbelto jovem era capaz de abolir temporariamente a própria identidade, assumindo parapsicologicamente a de outra pessoa. Via por seus olhos e ouvia por seus ouvidos, sem que a vítima encontrasse meio de eximir-se dessa invasão. Capacidade que poderia explicar o extraordinário êxito de Ralf Marten no mundo dos negócios. Tako Kakuta, cuja mera presença provocava acessos de irritabilidade em Reginald Bell, possuía o dom da teleportação. Sem qualquer artifício, transportava seu corpo para outro local em questão de segundos. Betty, a menina, era duplamente excepcional. Além de seus poderosos dons telepáticos, era capaz de executar a telecinésia: usar seu poder mental para mover objetos sem tocá-los com as mãos. Estranhos tripulantes aqueles cinco mutantes! Para os arcônidas, cuja cultura mais adiantada admitia tais fenômenos, o grupo ainda era considerado tolerável. Mas os tripulantes humanos comuns consideravam-nos verdadeiras monstruosidades. Claro que jamais alguém expressava esta opinião em voz alta, evitavam até pensar nisso, porém era a maneira de ver que predominava entre os demais membros da tripulação. Na espaçosa cantina da ex-nave auxiliar do cruzador arcônida, adaptada às necessidades humanas, formou-se uma nítida barreira de separação entre os mutantes e os cinqüenta homens da tropa de choque destacada para a missão. Apenas olhares carregados de respeito, admiração incontida, desconfiança e curiosidade voavam de um lado para outro. O Exército de Mutantes, unidade especial da Terceira Potência, constituía poderoso fator de segurança. Era compreensível que os cinqüenta integrantes da tropa de choque se sentissem inferiorizados, a despeito de sua formação categorizada. Rhodan tinha plena consciência de não poder harmonizar em uma só geração o cisma profundo entre pessoas normais e mutantes. Portanto contentava-se em obter um convívio razoavelmente tolerável entre os dois grupos. Reinava na cantina um clima feito de extrema tensão, excitamento e conformada resignação. Esta provinha principalmente de Reginald Bell, que via suas enérgicas objeções à expedição interestelar serem completamente ignoradas. Rhodan foi breve. O impaciente olhar para o relógio denotou que não estava disposto a perder tempo com argumentos prolixos. — Assim que chegarmos à órbita de Júpiter, partimos para o primeiro salto hiperespacial jamais realizado por homens! — anunciou, calmamente. No entanto, seu nervosismo íntimo era aparente. — Peço-lhes encarecidamente que obedeçam à risca às instruções dadas. Os doutores Haggard e Manoli se encarregarão da assistência médica assim que emergirmos no hiperespaço. A ocorrência de danos físicos é pouco provável; a mente também não será afetada. Se o processo fosse perigoso, a raça arcônida teria sido extinta dez mil anos atrás. Mantenham o maior relaxamento possível durante a transição. A desmaterialização é inevitável durante o fenômeno de passagem para o hiperespaço pentadimensional. Nossos organismos sofrerão uma passageira solução de continuidade, pois não podem subsistir no estado presente num plano supernatural. Mas podem estar certos de que, por ocasião do regresso à dimensão quadridimensional de nosso mundo


normal, cada qual encontrará novamente seu apêndice no lugar exato determinado pela mãe-natureza. Mais uma observação... Rhodan percorreu a atenta audiência com um olhar imperscrutável. — O cérebro-robô de Vênus forneceu-me dados exatos sobre o sol Vega. De acordo com ele, a estrela contava há dez mil anos, tempo terrestre, com quarenta e dois planetas. Fato nada surpreendente, em vista de suas dimensões gigantescas. Uma expedição arcônida andou explorando a área na época mencionada, colhendo informações detalhadas. Vida inteligente só foi constatada no oitavo planeta, denominado Ferrol. Consta que os ferrônios têm aparência humana; pelo menos possuem dois braços, duas pernas, uma só cabeça e andam eretos. Quando os arcônidas visitaram Ferrol, os nativos acabavam de descobrir a pólvora. O que nos permite deduzir que atualmente, dez mil anos após, possuam armas nucleares, ou estejam capacitados para viagens interestelares. Podemos deparar com uma raça altamente desenvolvida; ou com um monte de detrito planetário, girando deserto e solitário em torno de seu sol, inteiramente arrasado pela radioatividade. Seja como for, estejam preparados para surpresas e mantenham a calma. Recomendo uma hora de sono para quem conseguir adormecer. Seria ótimo passar pela transição em estado de sonolência. Rhodan despediu-se com uma breve saudação e voltou à cabina de comando. O capitão Klein dispensou os homens. O major Deringhouse, responsável pelos dois caças arcônido-terrestres trazidos a bordo, decidiu ir inspecionar seus aparelhos. Ao acionar a porta blindada que dava acesso ao hangar dos aviões, ele murmurou consigo mesmo: — Sei lá, a coisa não me cheira bem! Bell alimentava dúvidas semelhantes. Dispensando o elevador antigravitacional, subiu resfolegando pela escada espiral de emergência. Entrando na central de comando repleta de instrumentos que ainda lhe aturdiam os pensamentos, Bell percebeu um ligeiro clarão à sua frente. Do nada emergiu um vulto humano que, em fração de segundos, se materializou na frágil e inequívoca silhueta do japonês Kakuta. A face infantil e compenetrada mostrava um amável sorriso: — Esqueceu seu quepe, capitão! — disse ele. — Aqui está! Contando mentalmente até três, Bell desferiu um soco na direção do risonho jovem. Mas como este voltara a tornar-se invisível, não havia o que acertar e o golpe se perdeu no ar. Bell encaminhou-se para o assento do co-piloto. Rhodan recebeu-o com expressão impassível; mas as minúsculas rugas nos cantos dos olhos revelavam vontade de rir. — Os mutantes têm ordem para treinar seus excepcionais poderes sempre e onde puderem! — comentou, ironicamente. Bell fixou o olhar sobre as telas fronteiras, sem dar resposta. Marte, o planeta vermelho, aparecia no quadrante direito superior da tela de estibordo. A Good Hope cruzava em velocidade máxima. Thora, a esguia arcônida, ocupava o assento diante do computador galatonáutico. Sua expressão era enigmática. — Como se sente? — indagou Rhodan. — Ótima, obrigada! Perry, você se parece com um campo energético instável, pronto a entrar em colapso a qualquer momento. Sem responder, Rhodan mantinha o olhar fixo para a frente. Em algum lugar das profundezas do espaço devia estar o ponto cujas coordenadas estavam sendo levantadas pelo computador. Era essencial que o hipersalto se processasse exatamente na fração de


segundo determinada. Thora lançou um olhar suplicante para Crest. Não sabia por que se sentia de repente tão deprimida.


A transição se processou com a rapidez de um relâmpago. Fugaz demais para ser percebida pela consciência. Mal ressoou nos ouvidos o reboar estrondoso dos conversores do campo estrutural, acionados espontaneamente, as telas refletiram luz violeta e tudo se transformou de repente. A cabina de comando parecia o olho incandescente de um gigante mitológico; o aparelhamento foi se dissolvendo em névoa e desapareceu. A incipiente sensação de dor era aguda e lancinante. Cessou ao atingir o auge, como se o sistema nervoso tivesse se desligado espontaneamente. Dentro do campo estrutural erigido com toda a energia disponível, a fim de excluir por completo a entrada de qualquer força quadridimensional, a Good Hope transformou-se num corpo incapaz de continuar mantendo sua estabilidade. A física avançada dos arcônidas dava ao fenômeno o nome de efeito de sublimação. Ao mesmo tempo, as ondas corpusculares que acionavam os pulsopropulsores convertiam-se em unidades energéticas pentadimensionais, uma vez que também não conseguiam conservar as características normais dentro do campo de absorção esférico. Portavam-se como água diante de uma fonte térmica intensa: era forçada a vaporizar-se, por não poder continuar em estado líquido no ambiente modificado. Rhodan tentara passar pela transição em estado consciente. Porém não havia evidentemente diferença entre cérebros arcônidas e humanos neste particular. Seu último pensamento, antes de penetrar no hiperespaço, foi para a futura rematerialização. Afinal, transformar matéria em energia era simples; porém nunca se conseguira obter substância física de energia pura, fosse qual fosse seu estado ou constituição. Todavia, no caso de uma transição, o efeito ocorria forçosamente, só que a rematerialização consistia apenas na reversão exata ao estado de origem. O processo todo durou pouquíssimo. O anterior conceito relativista de tempo perdera toda a validade. Anos podiam valer por segundos, e vice-versa. A sombria cor vermelha ainda predominava no ambiente quando a dor excruciante voltou, aliada a aguda sensação de desintegração. Mas os contornos dos objetos eram novamente visíveis na cabina de comando. O regresso ao universo normal foi espontâneo, sem qualquer estágio intermediário. A visão clareou, os sentidos retomaram o funcionamento normal, como se nunca o tivessem interrompido. Apenas as imagens captadas pelas telas eram radicalmente diferentes. Nos vídeos frontais brilhava de forma deslumbrante uma imensa estrela, que, de forma alguma,


poderia ser confundida com o sol terrestre. Era grande e quente demais para isso, além de irradiar luz mais clara. Perry Rhodan foi arrancado do estado semiconsciente pelo zumbido do sistema de alarma. Um gemido de dor acabou de acordá-lo. Ao seu lado, uma voz preocupada dizia: — Parada dura, não é chefe? Tudo em ordem agora? Rhodan viu-se diante de Tako Kakuta. O mutante capaz de teleportação achava-se de pé diante do painel de controle aparentando total indiferença. — Senão...! — suspirou o comandante. — Como é que você?... — Ora, estou mais do que familiarizado com o processo. Rematerializações são sempre iguais, quer sejam provocadas por forças físicas ou psíquicas. Com o tempo a gente se acostuma, pode crer. O alarma, comandante! Os localizadores detectaram algo. Rhodan não se preocupou com as irritadas exclamações de seu co-piloto, que levantava cambaleante do assento. Com a face contraída de dor, Bell apalpou os membros, um por um. Mas o sinal de alarma seguinte fez com que ele ficasse instantaneamente alerta. Também Crest e Thora davam sinais de vida. Das várias seções da nave chegavam comunicados dizendo que estava tudo bem. Haggard e Manoli confirmaram o bom estado da tripulação. O alarma fora ativado pelos sensores estruturais da própria nave; tinham detectado violentas deformações na estrutura do espaço. Os sinais continuaram a manifestar-se por alguns momentos; depois foram rareando, até que a última lâmpada se extinguiu. Rhodan fitou os companheiros em silêncio. Estavam todos presentes e, ao que parecia, sem ter sofrido o menor dano. A atitude de Thora denotava tal superioridade e condescendência que Rhodan não ousou expressar a pergunta que lhe queimava os lábios. Bell, no entanto, não se dominava tão bem. Vacilando, e com a vista turva, aproximou-se das telas, indagando: — Chegamos inteiros? Isso ai é Vega? Soberbamente, a arcônida respondeu: — Que acha? As hipertransições de nossas naves sempre se processam com absoluto êxito! — Saltamos por cima de vinte e sete anos-luz? — Bell engoliu em seco, praguejando baixinho. Sem mais comentários, voltou à sua poltrona, e pôs-se a recolher as informações que iam sendo fornecidas, numa fita, pelo painel de controle. Sim, tudo corria muito bem. Um acontecimento inédito e espetacular para a tripulação humana decorrera com a precisão de um mecanismo de relógio bem ajustado. E ninguém parecia impressionar-se com isso, muito menos os arcônidas. Crest postara-se, fremente, diante dos calculadores dos sensores estruturais. O resultado dos cálculos, inteiramente automáticos, indicava a aproximação do primeiro planeta. O fato era confirmado pelos hipervelozes localizadores; seus impulsos se projetavam na dianteira da Good Hope, sendo refletidos com a mesma incalculável rapidez. Nas telas começaram a brilhar inúmeros pontinhos verdes. Eram eles que despertavam o ardoroso interesse do cientista arcônida. — Nossas naves! — murmurou Crest, comovido. — E uma frota inteira! Veja as indicações dos sensores estruturais, Rhodan: mais de cinqüenta delas emergiram quase simultaneamente do hiperespaço. — Quando, exatamente? — indagou Rhodan, com fria impassibilidade. — Bem ao mesmo tempo que nós. — Ótimo! — exclamou Rhodan. — Portanto não devem ter detectado o abalo estrutural que provocamos com nossa aparição. Coincidência benéfica, não?


— Seria conveniente proceder a um reconhecimento mútuo — interveio Thora, excitada. — Não sinto disposição para prolongar as buscas. Mande calcular o curso para o oitavo planeta, por favor. Garanto que daremos com nossas naves de pesquisa lá. — É, talvez tenha razão, Thora... — respondeu Rhodan com voz pausada. Depois levantou a voz, ordenando energicamente: — Bell, todos em prontidão de combate! Dê alarma geral. Thora, encarrregue-se dos localizadores. Bell, você fica com o comando do centro de armamento! Bell não fez comentários. O brilho dos olhos de aço do chefe lhe dizia o suficiente. As campainhas de alarma se fizeram ouvir em todas as dependências da nave. Entreolhando-se alarmados, os homens fizeram seus preparativos. Deringhouse anunciou pelo intercom que os dois caças estavam prontos para a manobra de ataque. — Você enlouqueceu? — gritou Thora, com os olhos vermelhos flamejando de ira. Ereta, diante do homem alto e magro, tremia de ódio. — Talvez sim, talvez não... — replicou Rhodan com a maior tranqüilidade. — Mas não sou louco bastante para me precipitar ébrio de alegria num sistema planetário desconhecido. Já lhes disse mais de uma vez que não creio na existência de naves arcônidas. Queira ocupar sua posição de combate, por obséquio. Furiosa, Thora obedeceu, sob o olhar indiferente de Rhodan. — Capitão Klein! Cuide da orientação... — ordenou Rhodan, tranqüilo. — Wuriu Sengu, mantenha-se atento. Atravessaremos o sistema Vega em cerca de oito horas. São quarenta e dois planetas, com distâncias fabulosas entre um e outro. Obrigado, é tudo! Ao retomar seu lugar de piloto, os reatores do circuito externo começaram a funcionar ruidosamente. Em torno do revestimento da nave foi-se formando, após breves lampejos luminosos, o anteparo protetor de unidades energéticas extradimensionais. Seguiu-se o campo repulsor de corpos materialmente estáveis. Com isso, a Good Hope munira-se dos recursos defensivos mais avançados da tecnologia arcônida. Os pontinhos verdes continuavam a luzir nas telas dos sensores. Distantes ainda, a mais de três horas-luz, que a Good Hope percorreria com sua velocidade normal. — Exijo uma transição de curta distância! — gritou Thora. Rhodan não lhe respondeu. Thora calou-se, porém era evidente que não se conformava. Ao fundo da cabina, os cinco mutantes formavam um grupo unido e quieto. Betty Toufry e John Marshall captavam sensações e pensamentos que nenhum mortal comum perceberia. Momentos após, a menina murmurou, baixinho: — Ouço almas chorando! Tem gente morrendo. Muitos mortos. O espaço está repleto de lamentos e soluços. Desespero, dor, morte! Os olhos profundos estavam dilatados, vastos como o espaço cósmico. Bell fitou-a, impressionado. Nas telas dos detectores da nave interestelar os pontos verdes se multiplicavam. Rhodan ordenou alarma total, o sistema positrônico de mira entrou em funcionamento. No vídeo, Vega brilhava como o olho ciclópico de um deus ameaçador. Lá adiante, nas profundezas do sistema planetário da grande estrela, sucedia algo ainda não de todo compreensível... *** O grito ecoou surdamente na cabina de comando. Ninguém havia contado com o que estava acontecendo e os fatos tinham chegado de surpresa, precipitando-se sobre eles como uma ágil fera dando o bote.


A gigantesca Vega, principal estrela da constelação da Lira, refletia-se nos vídeos como uma imensa bolha de sabão iridescente. Um sol de proporções verdadeiramente avantajadas. Com isso, a tripulação tardou a discernir os longínquos raios luminosos, finos como fios de cabelo, e o relampejar contínuo de minúsculas explosões. Apenas as telas amplificadoras, com sua magnitude de foco, acabaram revelando a ocorrência de um tremendo conflito nas imediações da órbita do décimo quarto planeta. Cinco minutos após a detecção positiva, os hipervelozes sensores de localização se fizeram ouvir. Seu estridente clamor ainda prosseguia. O equipamento altamente sensível, que reagia à presença de descargas energéticas, não fora instalado em vão. Mas era tarde demais, pois a Good Hope seguia com a mesma velocidade, quase igual à da luz. Portanto seria impossível desviar das naves surgidas de maneira tão inesperada, ou esquivar-se de passar através de suas confusas trajetórias. Os propulsores gêmeos de estibordo rugiram numa furiosa exibição de força. Um desvio mínimo de rumo bastaria, naquela velocidade alucinante, para arrancar a Good Hope da área imediata de perigo. Mas os amortecedores de inércia protestaram guinchando, obrigados a dissipar a energia que Rhodan canalizara, momentos atrás, para os projetores dos anteparos de defesa. A seta luminosa que se lançava contra a Good Hope não podia estar se movendo com a velocidade da luz. Pois se estivesse, os videoscópios só captariam sua imagem no momento do impacto. Porém ela vinha com rapidez suficiente para arrancar exclamações de susto dos homens na cabina de controle. Conheciam o cintilante fenômeno; por trás de seu aspecto inofensivo se escondia a morte. Rhodan acionou novamente o reostato dos propulsores de estibordo. Porém era impossível forçar uma mudança de rumo acentuado naquela altura. Também a técnica arcônida tinha as suas limitações e continuava aceitando o princípio de que um corpo voando à velocidade da luz não pode ser detido em instantes. E as manobras de esquivamento não podiam ser executadas abruptamente, nem em ângulo reto. O máximo que se podia conseguir era uma deflexão curva, com um arco de pelo menos dois milhões de quilômetros. Afinal, massa em movimento era massa em movimento e nada podia ser feito a respeito. No entanto, a manobra forçada, que submetia o material da nave a uma rigorosa prova de resistência, bastou para arrancar a esfera da zona perigosa no momento crucial. A seta luminosa, formada por um fogo energético concentrado de alta intensidade, passou a um escasso quilômetro da nave desviada, perdendo-se no vazio do espaço interplanetário. — Bela recepção! — reclamou Rhodan, furioso. Muito pálida, Thora encarou o comandante, cujos traços se contraíam de preocupação. A seguir, aconteceu o que era inevitável diante daquele aglomerado de naves. Os pontinhos anteriormente avistados apareciam agora nos videoscópios como corpos volumosos, agrupados no espaço em fileiras densas e traçando na escuridão profunda do cosmo uma filigrana multicolorida. A exclamação de angústia viera de Crest. Com os olhos fixos nas telas, fitava estarrecido as naves que apareciam nitidamente. Eram de dois tipos diversos. Klein focalizava justamente uma delas no localizador de curta distância. Tratava-se de uma das unidades ovóides, presentes na área conflagrada em nítida superioridade numérica. O propulsor traseiro desta nave expulsava jatos de luz extremamente intensa, cujo brilho ofuscante feria os olhos. Porém a quantidade delas não impedia que fossem rapidamente dizimadas pelas


naves adversárias. O espaço interplanetário de Vega enchia-se de catastróficas explosões nucleares, sob o efeito das quais as naves ovóides se desintegravam em número crescente. Pareciam completamente indefesas, o que se poderia atribuir em primeiro lugar à volumosidade excessiva. Os computadores já haviam revelado a Rhodan que as naves desconhecidas possuíam reduzida taxa de aceleração. Com isso, suas manobras eram penosamente lentas. E iam-se transformando em bombas, uma a uma, sob o impacto das setas luminosas. — Elas não têm anteparos protetores! — gritou Klein, excitado. — Nem sistema detector de energia, chefe! Não passam de tartarugas, não têm chance alguma! Rhodan atentava para suas ousadas manobras de esquivamento. Caso a Good Hope prosseguisse no rumo atual, mergulharia inevitavelmente no grosso da confusão. Crest deixou escapar nova exclamação. No vídeo mais amplo da popa surgiu outro tipo de nave. Em contraste com as rotundas e pesadas formas antes avistadas, estas apresentavam o aspecto de um longo e delgado cilindro. No meio deste destacava-se um forte abaulamento central. Como se alguém tivesse atravessado uma castanha com um lápis, deixando-a espetada exatamente no meio. — Depressa! Aumente a deflexão! — gritou Crest, fora de si. Sua habitual compostura desaparecera agora. Naquele instante, o sábio arcônida não era mais do que um trêmulo feixe de nervos. A resposta de Rhodan era dispensável. Com os propulsores soltando fogo, a Good Hope procurava evitar o centro da batalha, porém continuava sendo alvejada. Havia uma quantidade excessiva das misteriosas e desconhecidas naves espalhadas num extenso setor espacial de Vega. Mais uma vez perceberam, no último instante, a seta luminosa, quase tão rápida como a luz. O sistema de detecção positrônico entrou em ação automaticamente, porém os propulsores recusavam fornecer empuxo mais poderoso. Já estavam funcionando com carga máxima. A seta atingiu a Good Hope em cheio. E ela saltou fora de seu curso, rodopiando, como uma bola chutada com violência. No amplo videoscópio externo brilhou uma descarga luminosa de fulgor ofuscante; um tremendo estouro acompanhou o fenômeno luminoso. O corpo da nave, feito de aço arcônida, pôs-se a reverberar como um sino, em conseqüência das vibrações resultantes do impacto. O imaterial dedo de fogo continuou sua trajetória pelo espaço. Lá longe, uma das naves cilíndricas se afastava velozmente. Fora de sua cúpula armada que partira o tiro. Os tripulantes da cabina de comando viram Rhodan rir. Não podiam ouvir a risada, pois o eco trovejante produzido pelo tiro quase fatal ainda reboava pelo recinto. Crest continuava de pé diante das telas. A área conflagrada foi ficando para trás. As naves espaciais, fielmente retratadas há pouco, voltaram a assumir a forma de pontinhos luminosos. Em troca, a relativamente pequena nave esférica dos arcônidas deixou de ser alvejada. Muito atrás da Good Hope, as naves ovóides continuavam a explodir. Seu número se reduzia mais e mais, principalmente porque novas formações inimigas acabavam de emergir do hiperespaço. A última situação crítica surgiu quando atravessaram com velocidade alucinante uma massa de gás incandescente. Segundos antes, uma das naves ovóides explodira no local, atingida pelo inimigo. Os anteparos protetores externos uivaram novamente seu protesto, mas a Good Hope conseguiu passar incólume. À frente dela brilhava o décimo quarto planeta de um sistema solar nunca imaginado. Parecia tratar-se de uma imensa esfera gasosa, semelhante a Júpiter. Rhodan desligou os propulsores de estibordo; a cessação do


barulhento ronco do motor foi bem-vinda e a nave dirigiu-se em queda livre para o ainda distante planeta. — Grandes recursos é que eles não possuem! — comentou Reginald Bell, com a irritante calma de um homem que nada consegue abalar. — Será que consideram aquela beliscadinha arma energética? Quem tem comentários a fazer? Bell olhou de esguelha para Rhodan, que se levantava do lugar do piloto. Vagarosamente, aproximou-se dos dois arcônidas. Crest esboçou um gesto de recuo diante do sorriso semidisfarçado do comandante. Mas logo Rhodan reassumiu o ar severo do inflexível piloto de provas que não admitia situações ambíguas. — Estava querendo dizer qualquer coisa antes de sermos atingidos — disse Rhodan. — O que era? O aspecto de Crest era lamentável. Pálido e desfeito, afundara numa poltrona. — Eu estava enganado! — murmurou o grande cientista, com voz embargada. — Cometi realmente um erro! Perdoe-me! — Um erro? Ora, isso não é novidade que abale o mundo. O que ia dizer no momento do ataque? Os olhos vermelhos de Crest suplicavam: sua perturbação era evidente. — Aquelas naves cilíndricas, com o bojo central... eu as conheço! Qualquer arcônida as conhece. Não pode haver dúvida. Só uma raça em toda a galáxia emprega esse sistema extraordinariamente incomum de aeronaves. — E de onde vêm eles? Crest vacilou. O Dr. Haggard conduziu-o de volta à sua poltrona. Dali, o sábio arcônida explicou, abalado: — Não é Árcon, é claro. A raça dos tópsidas provém de um tronco reptílico. São altamente inteligentes, ativos e cruéis. Não têm nada de humanos! Dominam três pequenos sistemas solares. Seu mundo principal é Topsid. Em relação à Terra, o sistema fica a cerca de oitocentos e quinze anos-luz, no setor de Órion. O planeta Topsid gravita em torno de Orion-Delta, a estrela dupla. Uma tem luz branca; a da outra é roxa. Não posso imaginar o que é que os tópsidas procuram aqui. Foi a primeira raça colonial que se sublevou contra o poder do Grande Império. Há uns mil anos, em tempo terrestre, enviamos algumas expedições punitivas contra eles. Rhodan deu uma curta risada. — Há mil anos! — repetiu, suspirando. — Ora, meu caro! E ainda queria me convencer de que seu povo conseguiu reunir energia suficiente para organizar uma poderosa expedição de pesquisa! Aliás, eu posso revelar-lhe o que esses sujeitos procuravam. — Nós? — indagou o capitão Klein, inquieto. — Exatamente! E nós, patetas, lhes fizemos o favor de nos colocar diretamente na mira de seus canhões energéticos! Estamos às voltas com uma poderosa nação galáctica e a Terra tem desesperadamente pouco com que se opor a ela. Não adianta aborrecer-se, Thora! Seu famoso Grande Império encontra-se em derrocada. É tempo dos arcônidas tomarem conhecimento do que se passa na periferia da galáxia. Ainda julga conveniente chamar alguma daquelas naves pelo rádio? É evidente que os tópsidas conhecem navegação interestelar. Talvez lhe ofereçam uma carona para Árcon, caso se disponham a reconhecer sua posição de descendente dos soberanos arcônidas. As palavras eram ofensivas. A única reação dos dois arcônidas foi a de abaixar as cabeças. Rhodan afastou-se, mas foi detido pela pergunta de Crest: — Mas a quem pertencem aquelas naves pesadonas? Viu com que facilidade se deixavam aniquilar?


— Claro! Não passavam de um rebanho de mansas e tranqüilas ovelhas diante dos ferozes agressores. Representavam exatamente o papel que nos tocaria, em escala mais ampla, caso os tópsidas resolvessem invadir o sistema solar. Bell, quer fazer o favor de tirar os dedos dos controles das armas? Se um só de nós perder a cabeça agora, teremos aquele bando de lagartixas pululando sobre a Terra amanhã. Não descobriram, por enquanto, seu pequeno engano; e não darão por ele enquanto os nativos de Vega continuarem a reagir de maneira semelhante à que faríamos nós próprios. Mas os coitados só podem se defender, serão inexoravelmente vencidos. Deve se tratar dos seres inteligentes que habitam Ferrol, o planeta de Vega descoberto há dez mil anos por uma viagem de exploração arcônida. Os seres, então primitivos, evoluíram para espaçonautas capazes. E estão sendo forçados a engolir o angu preparado para nós. Rhodan calou-se. A Good Hope disparava pelo espaço sem ser molestada. O campo de batalha tinha ficado longe. — E agora? — indagou Reginald Bell. — Sumimos do cenário? E, em caso afirmativo, como? Rhodan sentou-se pensativo em sua poltrona de comando. — Sim, no interesse da Terra, temos que desaparecer; porém, discretamente. Vamos atravessar o sistema de Vega em velocidade ligeiramente inferior à da luz. Depois teremos que arriscar um hipersalto espacial. Tudo indica que a distorção estrutural não será percebida no meio do caos reinante. Tem alguma coisa a dizer, Crest? O arcônida sacudiu negativamente a cabeça. Rhodan deu início à programação. Novamente os propulsores de estibordo da Good Hope entraram em ação, rugindo. A manobra de retorno consumiria um considerável espaço de tempo, pois Rhodan não pensava em desacelerar até zero, para depois rumar em sentido oposto. As ordens se sucederam, breves e concisas. No pólo superior da nave esférica, o major Deringhouse saiu, resmungando, da carlinga de seu caça. Havia contado o tempo todo com uma emocionante expedição punitiva. Três minutos após, os sensores indicaram a proximidade de objetos à frente da nave. Destroços juncavam o trajeto a ser percorrido. Era evidente que, recentemente, houvera violenta batalha nas proximidades do décimo quarto planeta. — Interessante! — comentou Bell. — Será que há sobreviventes? Suponho que esses tais de ferrônios conhecem trajes espaciais... Bem que poderíamos tentar conversar com um deles. Rhodan levou alguns momentos para responder, absorvido por um pequeno ajuste nos controles. Todos os quatro propulsores da Good Hope começaram a rugir; desta vez, porém, com os jatos em reversão. Crest estremeceu. Mal aquele homem esguio tinha acabado de declarar que precisavam afastar-se do sistema Vega o mais depressa possível, ele recorria a toda a potência da nave para uma manobra de frenagem. Rhodan era imprevisível, uma pessoa fenomenal. Ocorreu a Crest que em todo o Grande Império não existia mais ninguém capaz de tomar decisões com tanta rapidez. — Armamento em prontidão! — ordenou Rhodan, em voz rouca. — Sabe que a idéia não é má, Bell? — Parece que é bem fácil fazê-lo mudar de opinião, não é, Perry? — disse Thora, ironicamente. — É só dar um palpite e você faz exatamente o contrário do que pretendia antes. Raramente se via Rhodan sorrir tão zombeteiro. A face de Thora tingiu-se de rubro sob o olhar do comandante. — Há um ligeiro engano — corrigiu ele, mansamente. — Não foi a sugestão de Bell


que me fez mudar de idéia e sim as informações mais recentes dos computadores positrônicos. Olhe para estes diagramas! Os compridos canudos dos tópsidas não podem comparar-se com a Good Hope em matéria de aceleração. Antes que consigam atingir a velocidade da luz, temos dez oportunidades de sumir no hiperespaço. As naves ovóides dos ferrônios são ainda mais vagarosas. O cérebro do computador determinou a natureza da propulsão que empregam: geradores de fótons ultraconcentrados. Não se pode esperar nenhum rendimento espetacular de propulsores desta espécie. Portanto, vamos examinar de perto o que flutua aí na nossa frente, no vácuo. — Destroços sem conta! — murmurou o Dr. Manoli. — Olhe! Os localizadores respondem de todas as direções. Deve haver, de fato, sobreviventes. Betty Toufry olhou para Rhodan com um sorriso tímido. Conseguira ler parte de seus pensamentos. Rhodan fizera a Good Hope parar não porque a sabia superior às naves inimigas. Pensava também nos seres vivos talvez existentes naquela área vizinha do décimo quarto planeta, perdidos e abandonados no vazio. A taxa de desaceleração era agora de quinhentos quilômetros por segundo. No hangar dos pequenos caças de bordo, o major Deringhouse tornava a espremer a elevada estatura na apertada carlinga pressurizada. Os homens da tropa de choque fecharam a cúpula transparente sobre sua cabeça.


A manobra não fora nada fácil, visto que tinha que ser executada sob a intensa atração gravitacional de um planeta gigante. O número quatorze devia ter três vezes o diâmetro de Júpiter. O próprio Crest demonstrou surpresa diante das dimensões enormes daquele mundo. Os destroços do que haviam sido naves espaciais já iniciavam a lenta e inevitável descida para a superfície do planeta, atraídos pela gravidade, antes que Rhodan conseguisse posicionar a Good Hope em rumo e velocidade adequados para a operação de salvamento. Buscas prolongadas no vazio resultaram no resgate de um sobrevivente. Um, apenas... Após trazer a criatura para bordo com os jatos de sucção, através da escotilha estanque, verificaram que se encontrava semimorta por asfixia. Além disso, o corpo do estranho estava coberto de queimaduras, causadas evidentemente pela radiação ultravioleta da imensa Vega. O pobre ser se mantivera trêmulo e intimidado num canto, até que as atenções dos doutores Haggard e Manoli lhe provaram que ninguém atentaria contra a sua vida. Tratava-se, efetivamente, de um ferrônio. Descendente dos que uma expedição de pesquisa arcônida localizara há dez mil anos. Já haviam ultrapassado a idade da pólvora, evidentemente. Porém Rhodan achou que a raça poderia ter avançado mais naqueles dez mil anos. A humanidade havia precisado de apenas quinhentos para chegar da arma de fogo ao primeiro foguete-satélite. Aplicando padrão semelhante, os ferrônios deveriam conhecer há séculos as viagens interestelares. Mas seus sistemas de propulsão tinham se detido no ponto máximo permitido pelos princípios adotados. Uma evolução maior requereria conceitos inteiramente diversos. Donde era possível deduzir que os ferrônios eram incapazes, por natureza, de raciocinar em termos de quinta dimensão; portanto, criar um sistema matemático correspondente não cabia em sua capacidade mental. E sem essa matemática em nível superior, condicionada pelo poder do raciocínio abstrato, as viagens mais rápidas do que a luz eram irrealizáveis. Em conseqüência, os ferrônios continuavam a fazer uso de seus propulsores quânticos, extraordinariamente eficientes, e que lhes permitiam alcançar facilmente a velocidade da luz. Por outro lado, tinham desenvolvido uma tecnologia fabulosamente exata no campo da micromecânica. Rhodan emitiu assobios de admiração ao examinar superficialmente alguns pedaços dos destroços trazidos para bordo.


De uma maneira geral, era preciso reconhecer que os ferrônios eram muito superiores aos homens em todos os sentidos. Jamais a Humanidade havia alcançado um estágio tão avançado. Porém ferrônio algum podia medir-se com a técnica superior dos arcônidas. Assim que o ferrônio foi embarcado e quando seus processos mentais começaram a emergir da letargia da exaustão total, Rhodan comunicara pelo intercom a toda a tripulação: — Ele está voltando a si. Os mutantes vão lançar as primeiras bases para a comunicação, por meio da telepatia. Ordeno que ninguém se refira ao planeta Terra. Não esqueçam que a localização de nosso mundo deve permanecer em absoluto segredo. Muita atenção neste particular, portanto! Para qualquer ser vivente, seja qual for seu nome ou aparência, nós somos arcônidas! A Good Hope é prova evidente dessa afirmação. Além disso, a aparência física com os arcônidas nos favorece. Risquem da memória, por enquanto, o fato de sermos terrestres. Esqueçam até onde fica a Terra! É tudo! A ordem era clara e explícita. Com uma sensação de amargura, os dois arcônidas perceberam que Rhodan se preocupava apenas com seu mundo e com a Humanidade. A atitude poderia passar por egoísta. Mas a própria Thora foi obrigada a admitir, a contragosto, que a camuflagem era absolutamente necessária. Para ela, o súbito aparecimento da raça reptílica fora um golpe severo. O instrumento especial, de funcionamento totalmente positrônico, era mais uma das maravilhas da técnica arcônida. Era o tradutor automático. Assim que registrou e classificou os primeiros sons da língua ferrônia, a comunicação se processou com facilidade. Fazia três horas que o ferrônio tinha sido recolhido. Betty Toufry e John Marshall anotavam telepaticamente uma série de dados que eram fornecidos à máquina tradutora. Assim a tarefa era relativamente simples. Crest e Thora, valendo-se do privilégio de possuir memória fotográfica, já começavam a falar aos poucos a língua ferrônia. Enquanto isso, a Good Hope continuava a descrever a ampla órbita em torno do décimo quarto planeta. Perry Rhodan mantinha-se à parte do grupo empenhado na conversação, apesar de ser alvo constante dos olhares do estranho. Este parecia ter percebido que era aquele homem alto e magro quem dava as ordens. Rhodan examinou-o atentamente. O ferrônio era de estatura relativamente baixa, porém robusto e de músculos poderosos. Ferrol, seu planeta nativo, possuía uma gravidade de 1,4 g. Portanto, o corpo atarracado não era de surpreender. Braços e pernas eram do tipo humanóide; assim como a cabeça e a espessa cabeleira. Os olhos eram miúdos e afundados por trás de uma fronte fortemente abaulada. A boca era surpreendentemente pequena. A diferença mais flagrante com a raça humana residia na cor da pele, de um azul pálido, o que contrastava com os cabelos cor de fogo. Enfim, não se tratava de nenhum monstro. Devia haver, forçosamente, diferenças anatômicas, porém era mais difícil determinar o fato de imediato. Atento ao som das palavras que não compreendia, Rhodan tentava analisar uma sensação indefinível que crescia dentro dele. Nada de concreto e perceptível; apenas uma vaga e distante noção de perigo iminente. John Marshall acercou-se da poltrona do comandante. O olhar do ferrônio o seguiu. Quando Rhodan se voltou, o estranho empertigou-se, levando a mão direita ao peito. Rhodan acenou com a cabeça. O traje espacial do ferrônio era de excelente qualidade, tão bem acabado nos detalhes que permitia avaliar com precisão a adiantada técnica que o produzira. Para Rhodan, era um tanto melancólico constatar o quanto a Humanidade estava atrasada em relação àqueles seres. Não obstante, o ferrônio salvo demonstrava claramente


sua convicção de encontrar-se diante de gente infinitamente superior ao seu povo. — Que há? — indagou Rhodan. — Problemas? A expressão de seu rosto não me agrada. O telepata mostrou um sorriso contrariado. — Crest está enchendo o espírito do estranho com relatos fabulosos e mirabolantes acerca do poderio do Grande Império! — queixou-se Marshall. — Sei disso. Foi ordem minha. Que mais? — Ordem sua? Essa não! Também deu ordem para contornar todas as questões importantes e ficar perguntando insistentemente sobre o tal mundo da vida eterna? Há aspectos que me parecem muito mais merecedores de atenção no momento. — Ele não desiste, não é? — murmurou Rhodan. — A comunicação funciona? — Maravilhosamente bem. A máquina é fenomenal e Crest já formou um vocabulário bastante amplo. — Vantagem da memória fotográfica... Que diz o ferrônio sobre a batalha? John Marshall lançou um olhar ao desconhecido. Haggard acabava de administrar-lhe a segunda injeção, que o ferrônio suportou calmamente. — Chama-se Chaktor e comandava uma pequena nave, destruída há cerca de vinte e quatro horas. Aqui, diante do décimo quarto planeta, ficava a primeira linha de defesa. A segunda está sendo dispersada no momento presente. A terceira fica em torno do planeta principal, o oitavo. Chaktor informou que as naves inimigas surgiram há uma semana, de surpresa. O pânico tomou conta de Ferrol. A frota espacial dos ferrônios está sendo totalmente aniquilada. O ferrônio implora freneticamente por ajuda, baseando-se no ilimitado exagero das palavras de Crest. Chefe, isso não me parece direito! Marshall mordeu os lábios. Parecia estar muito perturbado. — Que mais possuem os ferrônios? — perguntou Rhodan. — Muito pouco. Não têm a menor noção de viagens interestelares. Daí o imenso respeito que nos devotam. Para Chaktor, você é um personagem miraculoso. Não possuem anteparos protetores de espécie alguma. Quando uma de suas naves é atingida pelos raios energéticos, está perdida. Dispõem de uma frota espacial muito numerosa, porém formada em sua maioria por naves comerciais, equipadas com armas de pequeno calibre. Não conhecem armas energéticas. Empregam principalmente projéteis-foguete dotados de cabeçotes atômicos que explodem por impacto; e são espetacularmente eficientes. Valeram-lhes brilhantes vitórias no começo da luta. Crest diz que os invasores tópsidas têm armas defensivas verdadeiramente desprezíveis. Seus anteparos protetores não valem nada. Chaktor confirmou isso. Mas os tópsidas aprenderam gradualmente a esquivar-se dos foguetes atômicos. Estes alcançam mal e mal 30% da velocidade da luz, e demoram a atingir o alvo. Sabendo disso, os tópsidas tomam medidas preventivas a tempo. Acertam, também, os projéteis ferrônios em vôo com seus raios energéticos, fazendo-os explodir muito antes de chegar ao destino. Chefe, nós devíamos... Rhodan interrompeu-o com um gesto da mão. — Um momento, John! Como é que os ferrônios possuem uma frota espacial tão vasta? Existem outros seres inteligentes por aqui? — Só subdesenvolvidos. Os ferrônios povoaram, além de seu mundo principal, só os planetas sete e nove. Em especial este último. Respiram oxigênio, porém em temperatura superior à que nós estamos habituados. O oitavo deve ser bastante quente, mas suportaríamos viver no nono. O Ferrônio pede para ser deixado ali. O planeta se chama Rofus. Rhodan agradeceu. Ouvira o suficiente. Olhou para Bell, pensativo; este se reclinava com aparente indiferença na poltrona ao lado.


— E então? Que lhe parece? — Grato por indagar minha opinião! — resmungou Bell, com sarcasmo na voz. — Foi-se nosso plano de sumir sem mais nem menos, percebe, Perry? Enquanto as coisas não estiverem em ordem por aqui, a Terra corre perigo. Que representam os insignificantes vinte e sete anos-luz para os tópsidas? Acho melhor explorar um pouco esta zona, principalmente para conhecer os pontos fracos do adversário. Creio que podemos chegar a um entendimento satisfatório com os ferrônios. E proveitoso ao mesmo tempo... Possuem uma série de coisinhas de que a Humanidade poderia fazer bom uso. Gostei de seus métodos de produção e fabricação; técnica e acabamento de primeira. Não custa examinálos mais de perto. Dificilmente correremos algum risco. A Good Hope sobrepuja as naves tópsidas tanto em velocidade como em poder ofensivo. E ainda nos resta o recurso de mergulhar no hiperespaço a qualquer instante, se for preciso. Rhodan ergueu-se com ar meditativo. — É, seu miolo ainda funciona... Era exatamente o que eu tencionava fazer. Localize o oitavo planeta e forneça os dados ao computador positrônico. Não quero perder tempo. Incomoda-me saber que o verdadeiro objetivo dos tópsidas era a Terra. Vamos olhar esses caras de perto. Dê as ordens necessárias. Momentos após, Rhodan estava diante do estranho. Chaktor dobrou humildemente um joelho. Depois pôs-se a falar apressadamente. O tradutor automático dava a versão em linguagem humana. Crest interrompeu, excitado: — Constatei a existência de algumas contradições surpreendentes nesta gente! Possuem transmissores de matéria, coisa que só é possível mediante o conhecimento da matemática pentadimensional. No entanto, os ferrônios não têm a menor capacidade para construir tais aparelhos, que transportam corpos desmaterializados com a velocidade da luz. O que é indício evidente da existência de uma raça superior entre eles! Chaktor falou qualquer coisa sobre contato com entes superiores em época muito remota. Perry, você precisa ir até o planeta principal dos ferrônios! Estou convencido de que o mundo da vida eterna se encontra no sistema Vega. É de lá que procedem esses transmissores de matéria, tenho certeza! — Bem que eles me interessariam! — disse Rhodan, secamente. — O cavalo de batalha de sempre, não é, Perry? Tudo pelo bem da Humanidade... — interrompeu Thora com sarcasmo. Rhodan voltou-se para Chaktor, cuja atitude era quase solene. Sentia uma impressão estranha. Há quatro anos, ele próprio era bem mais ignorante do que aquele comandante espacial ferrônio. Naquela ocasião, Rhodan seria nitidamente o inferior. Os olhos vermelhos de Thora zombavam. Parecia adivinhar o que ia pela mente do comandante. — Vou conduzi-lo ao nono planeta de seu sistema — disse Rhodan no microfone da máquina de traduzir. — Pode providenciar que suas próprias naves não nos ataquem? Chaktor aguardou a tradução. Depois a face achatada irradiou alegria. Novamente repetiu a embaraçosa genuflexão. — Distância para o oitavo cerca de onze horas-luz! — informou Bell. Chaktor confirmou a indicação, fazendo uso de símbolos já conhecidos pelo tradutor. O ferrônio olhava maravilhado para o pequeno aparelho. Pouco a pouco era levado a considerar aqueles homens como deuses. Depois sua resposta chegou. Sim, ele poderia transmitir o código adequado, caso lhe fornecessem um transmissor. — Puxa, e agora? — exclamou Klein. — Que será que esses caras usam para transmitir? — Mostre-lhe o funcionamento dos aparelhos terrestres, temos alguns deles


instalados na nave. Talvez ele saiba como usar a onda curta normal. Garanto que não conhecem o sistema de hipertransmissão. Três horas mais tarde, segundo o relógio de bordo, o aprendizado terminara. Chaktor não teve, aparentemente, dificuldade em entender o funcionamento do rádio terreno. Betty Toufry, a menina telepata-, comunicou a Rhodan, com um sorriso disfarçadamente zombeteiro: — Chaktor se pergunta em que monte de lixo vocês poderiam ter recolhido esse trambolho primitivo. Thora explodiu numa sonora gargalhada. Rhodan fitou o estranho com ar atônito, enquanto Bell praguejava entre dentes: — Que diabo! É o mais moderno, avançado e complexo transmissor jamais construído na Terra! E o sujeito vem me dizer que é um trambolho primitivo! O capitão Klein disfarçou um sorriso, enquanto Rhodan, respirando fundo, procurava uma saída diplomática. — Betty, diga-lhe que adquirimos o aparelho de uma tribo selvagem num mundo remoto, apenas por curiosidade. Nossa intenção era exibi-lo num museu. O Doutor Haggard estava achando aquilo tudo engraçadíssimo. Chaktor tomou conhecimento da resposta de Rhodan, o que o relegou novamente à anterior posição de inferioridade. — Pílula amarga essa! — disse Rhodan. — Doutor, pare com essas risadas! Poderiam nos denunciar... E você, Thora, não me venha de novo com a perpétua acusação de que seríamos uns ignorantes sem sua preciosa técnica arcônida. Com o tempo isso satura, entendeu? Rhodan ligou o sistema de radiocomunicação interna e postou-se diante do vídeo. — Atenção! Do comandante a toda a tripulação: largada para uma curta transição de cerca de onze horas-luz. Que nos levará à área espacial entre o oitavo e o nono planeta deste sistema. Manter rigorosa prontidão de combate e não dar importância excessiva à ligeira sensação de dor. É possível que nos precipitemos bem no meio de uma violenta batalha. Fogo livre para todas as armas. Mostrem o que valemos. Major Deringhouse, de prontidão para ataque, junto com o capitão Klein. Vou ejetá-los no espaço assim que chegarmos. Ajustem os localizadores de contato dos caças aos sensores da Good Hope, para poderem nos reencontrar. Em caso de emergência, aterrissem em Rofus, o nono planeta. Chaktor anunciará nossa chegada. Verão uma cidade imensa na zona equatorial, a única do planeta, que é uma espécie de colônia dos ferrônios. Fim! Dez minutos depois, a nave alcançava a velocidade exata da luz. O enorme mundo número quatorze ficou para trás. Não havia um só adversário à vista. O espaço interplanetário do sistema Vega parecia ter sido totalmente evacuado.


Se horas atrás tinham acreditado estar no meio de uma acirrada batalha espacial, agora se defrontavam com um verdadeiro inferno. Os enervantes sinais dos detectores eram ininterruptos. O espaço todo estava repleto de naves. Mas não se tratava evidentemente de uma competição pacífica entre duas culturas de igual nível de civilização. E a nave subitamente surgida foi recebida com um chuveiro de cintilantes raios energéticos. Antes mesmo que Rhodan superasse a dor da transição, a Good Hope já se encontrava sob fogo cruzado. Nos vídeos brilhava o nono planeta do sistema Vega. Pelo menos a transição de curta distância funcionara com a mais absoluta precisão. Mas bem que Rhodan teria preferido emergir no hiperespaço a alguns milhões de quilômetros dali. Mas talvez isso não viesse alterar basicamente a situação, pois a feroz batalha se desenrolara praticamente num plano. No entanto, as naves estavam espalhadas por uma área de alguns milhões de quilômetros quadrados. Antes que o eco dos gritos de comando de Rhodan se apagasse, Bell já abria fogo contra o inimigo. Por entre o estrondoso trovejar dos raios energéticos acertando seus alvos, os torretes armados da Good Hope entraram em ação. A mira era controlada automaticamente. Todo o trabalho de Bell era conferir as coordenadas fornecidas pelos localizadores e calcar botões. Mais uma demonstração da eficiência da tecnologia arcônida. Usando a força total dos propulsores, Rhodan arrancara a nave da área imediata do fogo cruzado dos azulados raios energéticos. Mais uma vez o superdimensionado anteparo de defesa provou ser imune a armas rotineiras, que não conseguiam nem rompê-lo, nem neutralizá-lo. Apenas as furiosas descargas não podiam ser evitadas. Além do intenso efeito térmico, a violenta repercussão se transmitia ao casco externo da nave. Pelo jeito, os tópsidas não possuíam armamento teledirigido mais veloz do que a luz, pois o campo de repulsão mecânico-gravitacional da Good Hope ainda não fora obrigado a entrar em ação. Ou então o inimigo preferia lutar exclusivamente com seus canhões energéticos. Quando o clamor estridente do último impacto diminuiu, ouvia-se o pipocar das armas arcônidas. Neste ponto, pelo menos a Good Hope estava muito melhor provida do que várias naves tópsidas somadas. Como nave auxiliar de um cruzador de pesquisa sempre exposto a riscos, o equipamento de defesa era suficientemente amplo para satisfazer até o mais exigente artilheiro.


John Marshall tomava conta dos detectores; Quando a primeira linha das naves cilíndricas atacantes ficou para trás da Good Hope, e os tiros de perseguição não conseguiam mais emparelhar com a nave mais rápida do que a luz, Marshall anunciou o aparecimento de novas unidades. Porém estavam mais espalhadas. Além disso, travavam luta com um infindável enxame de naves ovóides, no meio das quais as explosões se sucediam sem parar. — Corrigir a mira! — gritou Rhodan no minúsculo microfone do radiotransmissor embutido no capacete. Já não havia condições para a comunicação normal diante da ensurdecedora barulheira reinante. — Temos que forçar passagem a qualquer custo, senão nunca nos livraremos desse inferno! Thora, dê uma mãozinha a Bell. Acione as bombas gravitacionais. Vejamos do que elas são capazes. Bell espiou rapidamente para a sua esquerda, onde a mulher arcônida assumia o comando dos manipuladores de controle. “Bombas de gravidade”, pensou ele, com um ligeiro arrepio. “A mais poderosa arma criada pelos arcônidas.” Na realidade, não se tratava de bombas na acepção usual do termo. Ao menos Bell achava impróprio dar o nome de bomba a um campo em espiral de energia estabilizada, projetada com a velocidade da luz. Campos que eram quanta energéticos extradimensionais, com a extraordinária capacidade de dissolver matéria comum, arrancando-a da estrutura curva do espaço. Luzes vermelhas brilharam na tela de mira de Bell. O localizador automático detectara três alvos. Quando apertou os botões, os três pulsocanhões abriram fogo simultaneamente, sacudindo com violência a nave de ponta a ponta, por efeito da força de recuo dos tiros. Faixas roxas de energia se lançaram pela perpétua escuridão do espaço, com a velocidade exata da luz. Não deixavam ao adversário tempo para percebê-las. Antes que qualquer instrumento chegasse a acusar seu brilho, elas atingiam o alvo visado. O inimigo ainda se encontrava a cerca de dois milhões de quilômetros de distância. Precisamente sete segundos após o disparo, viu-se um relampejar por entre as densas fileiras das naves tópsidas. Os impactos foram registrados pelos hipersensores antes que o brilho ofuscante das explosões se tornasse visível, sete segundos mais tarde. John Marshall manejava agora os pesados projetores neutrônicos. Seu efeito só se tornava aparente quando se via a nave inimiga perder o rumo e vagar desarvorada no espaço, por falta de mãos nos controles. Pois os ultraconcentrados raios neutrônicos afetavam apenas a vida orgânica. Thora lançou duas bombas gravitacionais. A tripulação acompanhou com o olhar o trajeto das tremeluzentes espirais, afundando nas trevas. Duas unidades inimigas desintegraram-se por entre ofuscantes explosões. Rhodan nunca vira a bela e estranha mulher em tal estado. Absolutamente imóvel, ela se limitava a tocar com as pontas dos dedos os botões de controle das terríveis armas. Apenas nos olhos transparecia o fogo interior que a consumia. Sua educação inflexível vinha à tona naquele momento e ela agia de acordo com a máxima fundamental da dinastia arcônida soberana: quem quer que se oponha ao poder do Grande Império deve perecer. — Eles devem ter percebido agora com quem lidam! — murmurou ela, com voz fria e impessoal. — Cabeças ocas! Vou acabar com eles antes que consigam fugir! Rhodan gritou nova série de ordens. A trajetória em arco iniciada não podia ser alterada. A Good Hope ia ter que passar bem no meio das fileiras cada vez mais densas do adversário, a toda a velocidade. — Deringhouse! Aprontar para ejeção! — berrou ele no radiofone. — Abra uma brecha nas fileiras, depois cubra nosso flanco. Fique perto de nós, entendido?


Deringhouse confirmou a ordem recebida. Jamais imaginara possíveis os acontecimentos que presenciava. Enquanto a Good Hope em pleno vôo mantinha o fogo e o decrescente bombardeio energético do inimigo totalmente confuso era neutralizado pelos anteparos de defesa, os dois caças com Deringhouse e Klein chisparam para fora dos tubos de lançamento. Já lançados com a velocidade da nave-mãe, ainda levavam a vantagem da mobilidade maior. Afastaram-se da Good Hope em ângulo agudo e segundos após os canhões fixos da popa despejaram fogo. Tratava-se de pulso-canhões de grosso calibre, ocupando com seu volume a maior parte do espaço dos pequenos aviões. A apenas dois segundos-luz das naves tópsidas, ambos os caças acertaram nos alvos pela primeira vez. Depois a Good Hope emparelhou com eles e o grupo cruzou velozmente através de nuvens de fogo, que instantes atrás haviam sido pesadas astronaves. Também desta vez precisaram apenas de alguns instantes para atravessar as cerradas filas inimigas. Todas as armas concentravam o fogo sobre a área que acabavam de cruzar. A tripulação sentiu-se invadida por incontrolável sensação de euforia, incrementada pelo excitado ferrônio, que saudava cada tiro com estridentes berros de alegria ou apoio. Rhodan sabia dos riscos implícitos contidos naquela sensação de superconfidência. A situação poderia sofrer uma súbita reviravolta. O mutante Tako Kakuta devia ter lido seu pensamento. Arrancou o ferrônio de seu lugar diante das telas, empurrando-o para diante do equipamento tele-radiofônico pronto para funcionar. Rhodan manejava os controles com gestos rápidos e enérgicos. Os quatro propulsores em plena ação aumentavam ainda mais o fragor da fantástica batalha. — Diga a ele que envie sua mensagem! — gritou Rhodan para Betty Toufry. — Depressa! As naves dos ferrônios começam a apontar na nossa frente. Meu Deus, como são lerdas! Vou desacelerar! Enquanto a Good Hope reduzia sua velocidade igual à da luz com o máximo poder de repulsão, disponível, Chaktor começou a falar rapidamente no microfone. Ainda não era certo que o captassem imediatamente. Devido à desaceleração, produzia-se um fenômeno curioso: os raios energéticos das naves tópsidas, apesar de menos velozes do que a luz, ganhavam terreno agora. Aproximavam-se mais e mais da nave em processo de desaceleração constante. Impossível pensar em manobras de esquivamento durante o processo de frenagem. Portanto, Rhodan recebeu com estóica tranqüilidade os dois impactos — o homem desprovido de nervos, o comandante que observava com calma férrea e não perdia um só detalhe. A nave recomeçou a vibrar. Apesar da maior abertura do foco do raio, devido à distância percorrida, o impacto foi tremendo. Mas o destrutivo efeito térmico não chegou a alcançar o casco da nave. O pessoal da central de força comunicou uma sobrecarga passageira nos diversos reatores de corrente. O hipercampo de alta tensão devorava imensa quantidade de energia, que nem o aparelhamento arcônida estava em condições de fornecer. — Não exagere! — gemeu Crest. — Lembre-se de que tem em mãos uma simples nave auxiliar e não um cruzador equipado com máquinas poderosas! Rhodan teve que rir. Crest tinha conceitos muito peculiares sobre potência e capacidade destrutiva. No rastro da Good Hope reinava a maior balbúrdia. Thora acionara também os canhões desintegradores, capazes de desmanchar totalmente qualquer estrutura cristalina. Os incansáveis aparelhos positrônicos acusavam fielmente os resultados obtidos. — Passamos! — anunciou Bell, com voz neutra. Mas tinha o corpo todo banhado em suor. — Os anteparos defensivos deles não resistem a uma só de nossas armas.


— Obtivemos contato! — gritou Tako Kakuta, agitando as mãos, excitado. — Chaktor conseguiu se comunicar! O pessoal dele já nos percebeu. Temos permissão para atravessar as linhas dos ferrônios quando for preciso. Rhodan virou-se. Na ampla tela do videofone via-se o rosto sorridente de um Ferrônio idoso. Um oficial superior, obviamente. Apontando para o painel de controle, Chaktor despejou nova torrente de palavras no microfone. O som das palavras se perdia por entre o fragor das armas em ação e do rugido dos motores. Apenas os dois telepatas se encontravam em condições de inteirar-se do conteúdo mental do nervoso ferrônio. Betty alinhavou uma explicação através do fone de seu capacete. — Aquele é o comandante da frota ferrônia. Comunicou nossa aparição ao quartelgeneral no nono planeta. Chaktor está combinando um código suplementar, válido especialmente para nós... Espere! O comandante está fazendo um pedido insistente: quer que continuemos a prestar-lhe ajuda na batalha. Perry, ele diz que está disposto a passarlhe o comando geral! Rhodan não conseguiu reprimir uma praga. O alucinante ímpeto da Good Hope dificilmente poderia ser contido antes de chegar às linhas das naves ovóides. Os propulsores já sobrecarregados não se prestariam de maneira alguma a uma desaceleração superior aos quinhentos quilômetros por segundo que vinha fazendo. — Diga a ele que se defenda! — ordenou Rhodan. — Vou atacar o inimigo pelos flancos e do alto. E mande Chaktor dar o recado de que é impraticável organizar uma frente de defesa eficiente com uma única nave. Nossa atuação terá que reduzir-se a ataques de provocação, mais não podemos fazer. Concretizara-se, pois, o dilema sempre presente no subconsciente de Rhodan. O observador neutro, vindo apenas para avaliar a situação, acabara se tornando participante ativo de acontecimentos que, por enquanto, não representavam risco iminente para a Humanidade. Porém forçavam Rhodan a tomar medidas preventivas, rechaçando os agressores tópsidas. Eles não eram humanos. Quando se compenetrou desse fato, sua própria condição de homem tornava inevitável sua intervenção no conflito. Pela primeira vez na sua existência concordou com a máxima arcônida de que entes não-humanos só poderiam ser tolerados em circunstâncias muito excepcionais. Pois regiam-se por uma ética muito diversa, alimentando conceitos existenciais incrivelmente estranhos. Se apareciam com más intenções, não havia outra alternativa a não ser a guerra de extermínio. A Good Hope encontrava-se a apenas alguns segundos-luz das oscilantes linhas ferrônias quando ecoou o clamoroso som de alarme emitido pelos hipersensores. Junto com o berreiro dos alto-falantes, a tremenda zoeira se transformava em algo quase palpável. Depois os alto-falantes emudeceram de repente, assim como as indicações luminosas da tela dos instrumentos. Algo de proporções monstruosas devia ter abalado a curvatura estrutural do universo normal nas imediações. O anteparo protetor da Good Hope foi percorrido por cintilante luminescência. Por segundos, o campo energético entrou em completo colapso. Os reatores de corrente giraram em seco, sem carga alguma. Descargas coruscantes saltavam intermitentemente dos fusíveis dos conversores de energia. Os supersensíveis sensores estruturais se fundiram. O odor acre e penetrante invadiu a cabina de comando. Compreendendo intuitivamente o acontecido, Rhodan deu ordem para a colocação dos capacetes pressurizados. As esferas transparentes foram encaixadas nos aros magnéticos dos trajes espaciais. Automaticamente entraram em funcionamento os sistemas vitais de fornecimento de ar condicionado, oxigênio e radiocomunicação. Reduzida a uma velocidade correspondente a apenas 25% da da luz, a Good Hope


viu-se de repente no meio de uma descarga energética de inacreditável intensidade. Chamas azuis envolveram o casco externo de aço. Todo o poder ofensivo até então desenvolvido pelas naves invasoras tornava-se insignificante diante daquela força titânica. O grito de pavor foi ouvido por todos. Alastrando-se por intermédio dos alto-falantes embutidos nos capacetes, acendeu nos cérebros humanos uma centelha de pânico. Rhodan viu Crest correr para o painel do hipercomunicador. Antes que as oscilações da nave se estabilizassem, o cientista arcônida começou a falar diante das telas transmissoras iluminadas. Até então Rhodan estivera entregue à tarefa de manter a Good Hope mais ou menos sob controle. Deu, então, com o monstruoso vulto de metal e energia que emergia do hiperespaço, a cerca de cinqüenta quilômetros de distância dali. — Não! — gemeu ele. Depois berrou: — Thora, isso é...? — Uma nave de guerra arcônida! — completou ela, afobada. — Da classe imperial, o último modelo desenvolvido pelo Império. Conheço bem o tipo. Eu poderia conquistar um sistema solar inteiro com ela. Perry, nossa gente está chegando! Crest, transmita o código de reconhecimento. Lá em Árcon devem ter percebido o que ocorre em Vega. Veja só, Perry! Um gigante invencível, equipado com magníficas armas. Deve ter um diâmetro mínimo de oitocentos metros, segundo os padrões terrestres. Eu...! O que está fazendo? As juntas dos dedos crispados de Rhodan se abateram sobre o reostato que comandava os quatro propulsores principais. Luzes de controle piscantes indicavam uma reversão de cento e oitenta graus nos campos de força dos jatos. Mal acabara a manobra de frenagem, a nave retomou impulso com o máximo de velocidade. O rosto de Rhodan estava contraído. Reginald Bell foi o primeiro a compreender. Seu grito rouco de alerta se transmitiu através do intercom. Apenas os dois arcônidas continuavam radiantes. Mas momentos depois Crest caiu em si e afastou-se do hipercomunicador, profundamente perturbado. — Contato nulo! — queixou-se ele. — Mas o computador central da nave de guerra deveria ter identificado imediatamente o código dado. Não compreendo o que...! — Ainda não percebeu que naquela nave não há um só arcônida? — gritou Rhodan, exaltado. — Ela está dando volta e abre fogo contra as linhas ferrônias! — anunciou a voz do mutante Ralf Marten que estava tomando conta dos detectores. Rhodan não podia fazer mais do que já fizera. O gigante espacial, produto máximo da técnica arcônida, não perdia terreno para a Good Hope em fuga. Apesar de suas impressionantes dimensões, conseguia uma taxa de aceleração idêntica. Quando o raio violeta se projetou da gigantesca esfera, era tarde demais para desviar. Disparado com a velocidade exata da luz, percepção e impacto do raio foram simultâneos na relativamente minúscula nave auxiliar do ex-cruzador arcônida. O artilheiro da nave de guerra não lhe concedera a menor chance. A potente faixa energética, ultraconcentrada, media bem quarenta metros de diâmetro. Caso tivesse atingido a Good Hope em cheio, esta se transformaria instantaneamente numa nuvem gasosa. Porém a nave resistiu ao tremendo impacto produzido pelo tiro de raspão. Descargas flamejantes explodiram ruidosamente nos anteparos de defesa; o campo energético desmoronou, impotente para opor-se a forças tão poderosas. Reduzida agora a uma simples partícula de pó, a esfera espacial virou joguete indefeso de uma tremenda onda energética, desferida pelo gigante voador sem maiores preocupações, apenas de passagem, para aproveitar a situação. Rhodan ainda chegou a perceber que quase toda a maquinaria da Good Hope tinha deixado de funcionar. O baque violento de comportas de segurança fechando-se


automaticamente provava que mesmo o tiro de raspão provocara tremendos estragos. Antes de ser arrancado de seu assento diante dos controles, ainda escutou o incipiente zumbido da reversão dos campos de força. Processo automático, cuja finalidade era canalizar, em caso de catástrofe, a energia disponível para os amortecedores de inércia. Se isso não tivesse acontecido, não haveria mais vida na nave violentamente arrancada de seu rumo por uma força extraordinária. O major Deringhouse, cujo veloz caça se havia aproximado até uma distância de cerca de dois quilômetros da Good Hope em virtude da manobra de frenagem desta, viu que a nave esférica rodava desarvorada pelo espaço, como uma bola chutada com violência. Só Deringhouse se encontrava em posição de verificar que o terrível raio energético tocara apenas a curvatura do pólo inferior da nave. No entanto, ele estava incandescente. O aço arcônida derretera como manteiga ao sol ardente do deserto. Cintilantes vapores metálicos se desprendiam ainda da parte inferior da esfera. A Good Hope arrastava consigo pelo espaço uma extensa cauda luminosa, como se fosse um cometa. A luminescência dos anteparos defensivos se extinguira. A única avaria visível agora era o pólo inferior em brasa. Deringhouse chamou desesperadamente Rhodan e os outros tripulantes a bordo da Good Hope, porém não obteve resposta alguma. Só lhe restava acompanhar a pobre nave ferida em sua trajetória de fuga forçada. Muito adiante o supergigante esférico deslizava pela escuridão do espaço, com os torretes armados espalhando destruição. Estava transformando as semi-organizadas linhas ferrônias num confuso amontoado de vultos fugitivos, dominados pelo pânico total. O número das naves ovóides reduzia-se aceleradamente sob o impacto dos tremendos golpes desferidos por um atacante de poder ofensivo infinitamente superior. Era um golpe fatal para os ferrônios. Pálido e desfeito, Deringhouse tinha os olhos fixos nas telas de seu caça. A Good Hope corria em direção do nono planeta, com a avaria mortal em seu casco brilhantemente rubra. — Acho que eles sobreviveram ao tiro! — disse de repente uma voz no alto-falante do telecomunicador de bordo do caça. Era o capitão Klein, no segundo aparelho. — Aguardemos, está bem? Foi apenas um tiro de raspão. Se for preciso, posso tentar engatar no canal de lançamento superior. Eles voam apenas com 30% da velocidade da luz. — Tiro de raspão?! — exclamou Deringhouse, com um riso sarcástico. — De onde será que surgiu o diabo daquele monstro espacial? Apareceu de repente... Ande, acerquemo-nos deles. Vão direto para o planeta nove!


Reduzida a dois propulsores em funcionamento precário, a Good Hope precisou de oito horas para completar a viagem. Poderia ter desenvolvido velocidade maior caso os neutralizadores de inércia estivessem funcionando; mas estavam seriamente avariados. E com eles fora de ação, a desaceleração tinha que se limitar à capacidade de absorção dos projetores, cujo funcionamento era intermitente. A penetração na densa atmosfera do nono planeta assemelhou-se a um mergulho do alto na água. Rhodan viu-se obrigado a submeter a tripulação a uma desaceleração de gravidade extremamente severa, pois as forças de inércia geradas não podiam mais ser absorvidas. Também tivera que ligar rapidamente a carga máxima de retropropulsão, pois ao primeiro contato com as moléculas de ar deixaram de funcionar os projetores de campos de absorção. Portanto a nave auxiliar se precipitou através das massas de ar cada vez mais densas como um meteoro em brasa. Caso os aparelhos antigravitacionais tivessem recusado igualmente funcionar, a Good Hope se espatifaria contra o solo do planeta. No entanto, com a nave quase desprovida de peso, foi possível equilibrá-la ainda, se bem que a aterrissagem não fosse das mais suaves. Todas as instalações da metade inferior da nave haviam sido destruídas. Seria impraticável fazer reparos durante a morosa operação de frenagem; além da elevada temperatura reinante na zona avariada, surgira nela uma mortal radiação gama. Numa fração de segundo, a Good Hope fora transformada num destroço indefeso. Já não havia condições para pensar em vôos mais rápidos do que a luz. Os hiperconversores, essenciais para a formação dos campos estruturais de defesa, haviam sido totalmente destruídos. O grupo de reparos, protegido por trajes espaciais, só encontrou montinhos de metal fundido por ocasião da vistoria feita posteriormente. Os demais aparelhos poderiam ser consertados, mas aquele equipamento essencial estava definitivamente perdido. Antes de mergulhar na atmosfera, sob a orientação de Chaktor, Perry Rhodan tomara consciência do irreversível fato de que se tornara prisioneiro do sistema Vega. Após a descida no espaçoporto da cidade principal do nono planeta, foram recebidos com bastante frieza pelos oficiais ferrônios. Estes limitaram-se a providenciar a retirada da nave severamente avariada da pista de aterrissagem desprotegida. Agora a Good Hope repousava num hangar subterrâneo, estalando em todas as juntas enquanto se processava gradualmente o resfriamento da massa superaquecida. O recinto não apresentava nada de extraordinário; em qualquer ponto da Terra se encontraria um semelhante. Klein e Deringhouse tinham aterrissado sem maiores problemas. Rhodan enviara-os


novamente ao espaço, a fim de prestar apoio à frota ferrônia em sua precipitada retirada e escoltá-la até a volta ao oitavo planeta. Aquela pequena colaboração em prol da defesa comum lhe parecera imprescindível. Quando Deringhouse anunciou pelo hiperrádio que a gigantesca nave aparecida de surpresa se juntara às fileiras dos tópsidas, um sorriso frio surgiu nos lábios de Rhodan. Dali em diante, pouco falou. Encontravam-se num mundo alheio, entre seres estranhos, que pareciam encarar o desastre ocorrido com a Good Hope com sentimentos contraditórios. A análise psicológica da situação efetuada pelo Dr. Haggard fora quase desnecessária. Mesmo sem ela, Rhodan sabia que o vivo entusiasmo inicial da tripulação por ele, e a confiança no poder ofensivo da Good Hope tinham diminuído consideravelmente. Chaktor, o ferrônio resgatado do vácuo, ocupava passivamente uma poltrona na cabina de controle. Bell e uma equipe de técnicos tentavam recuperar pelo menos a aparelhagem de controle mais importante. Crest parecia ter desmoronado interiormente; matinha-se num canto, silencioso e apático. Thora, ainda mais suscetível do que o sábio arcônida, debatia-se contra um incipiente colapso nervoso. Os mutantes circulavam, procurando avaliar as circunstâncias. Ralf Marten, o homem dotado das qualidades mais peculiares em todo o grupo, rondava ã sua maneira, por perto e por longe: há mais de uma hora não se movia da poltrona, rígido e hirto como se estivesse em transe. Periodicamente relatava, em voz impessoal, o que observara através dos olhos de algum chefe ferrônio, ou o que escutara pelos ouvidos dele. Pelo que informava, os habitantes do planeta não nutriam intenções malévolas contra os visitantes humanos. O sentimento predominante era de profunda desilusão, diante do súbito fim das esperanças despertadas pelo aparecimento da espaçonave terrena. Os telepatas confirmaram as observações de Ralf Marten. Diante disso. Rhodan deu ordem para recolher os guerreiros-robôs, prontos para entrar em ação, ao compartimento de carga da nave. Reginald Bell emergiu da estreita portinhola das escadas de emergência. Os elevadores antigravitacionais já não funcionavam. Resmungando baixinho, ele se desembaraçou do pesado traje protetor e estendeu a mão para um cigarro. Entrementes, as pessoas presentes na cabina de comando tinham adquirido a impressão de que Rhodan se transformara de repente num calado sonhador. Fazia horas que não pronunciava uma só palavra. Mas ergueu a cabeça com a chegada de Bell. Vagarosamente ele se levantou do assento que ocupava. Os olhares dos dois homens se cruzaram. — E agora? As palavras ficaram no ar, carregadas de inquietação. Bell deu de ombros. Esmagou o cigarro recém-aceso sob a sola do sapato. — Fim da linha para nós! — declarou, sem o menor traço de emoção no rosto. — Aquele raio energético da supernave acabou com a Good Hope. Começo a compreender agora as contínuas alusões de Crest, classificando nosso veículo de nave auxiliar. Não passava de porcaria diante de uma nave de guerra autêntica, apesar de nos julgarmos possuidores de uma arma poderosa. — Foi suficiente para revidar o ataque das naves tópsidas! — Certo, mas faríamos feio diante de um cruzador arcônida. E quando se topa de cara com uma supernave que lança raios energéticos de diâmetro quase superior ao da Good Hope, então... Bell interrompeu-se, com uma risada seca. Depois concluiu: — Pois é, que mais posso dizer? Estamos encalacrados. Foi quase um milagre


conseguirmos aterrissar mais ou menos inteiros. Os pulsopropulsores precisam de completa revisão. Viagens interestelares estão fora de cogitação. E como os ferrônios desconhecem os princípios envolvidos no sistema, nosso destino é ficar em Vega até o fim de nossos dias. Em resumo: a pior calamidade jamais sofrida até hoje pela Terceira Potência. A central de força pode ser reparada. Portanto poderemos pelo menos notificar a Terra. Daqui por diante, vai depender do coronel Freyt mantê-la forte e unida. Se a sorte nos favorecer de maneira extraordinária, nosso pessoal talvez venha nos buscar daqui a uns dois anos, quando concluírem a construção das novas espaçonaves. — A idéia é sedutora, mas improvável — corrigiu Rhodan, friamente. — Lembre-se de que as novas naves jamais levantarão vôo sem nossos conhecimentos especializados. — Intensa comoção em área próxima! — avisou Betty Toufry, a telepata. De olhos fechados, ela continuou a dizer: — Grande consternação entre os ferrônios. Pensamentos confusos se cruzando. Um alto dignitário abandonou seu povo. — Marten, tente introduzir-se na mente de um ferrônio bem informado. De preferência um dos que se encontram no local que Betty estuda. Ajude-o, menina! Marshall, entre no circuito também. Entre Rhodan e Bell surgiu uma aura luminosa, que deu lugar ao aparecimento do teleportador Tako Kakuta. O frágil rosto infantil mostrava evidentes sinais de cansaço. Desde a aterrissagem o rapaz estivera constantemente em movimento. — Caos em todo o planeta! — anunciou ele. — Mas parece que os tópsidas desistiram de um ataque direto; colocaram apenas algumas naves de observação em órbitas bem afastadas. O planeta é jovem, o clima terrestre, o povoamento escasso. Há oceanos, montanhas e planícies muito semelhantes às da Terra. Esta cidade se chama Chuguinor, a única concentração populacional mais densa do planeta, que leva o nome de Rofus. É aqui que fica o espaçoporto principal, só que não vi muitas naves ferrônias. Devem estar todas no espaço. Apenas uma ou outra unidade avariada ficou em terra. Novas ordens, chefe? — Descanse um pouco, Tako — murmurou Rhodan, absorto. — Você parece fatigado. Por enquanto pouco nos interessa o aspecto da paisagem. Este planeta não deve diferir muito de dez mil outros da mesma espécie. Interessante... aos poucos começo a raciocinar em termos cósmicos. — Rhodan riu, depois acrescentou, com um sorriso: — Nada de esforços desnecessários agora, Tako! Em breve vou ter que destacá-lo para uma missão bem difícil. Alertado pelo tom da voz de Rhodan, Bell fitou-o, intrigado. Depois comentou: — Você anda tramando alguma coisa, não é? O hipertransmissor trazia uma mensagem do major Deringhouse, cuja.face se tornou visível na tela. Foi um bom pretexto para poupar Rhodan de responder. — Estamos perto do planeta principal — informou Deringhouse. — A derradeira linha de defesa dos ferrônios está sendo destroçada. Abatemos sete naves tópsidas, mas agora a grandona anda olhando para o nosso lado. Parece não estar gostando de nossa interferência. Que faço, chefe? O gigante vem em minha direção. Estou com ele na mira. Ataco? —Você ficou louco? — gritou Rhodan. — Trate é de dar o fora, e depressa, ouviu? Com toda a potência das máquinas! Tática de esquivamento e cuidado para não se deixar espetar pelas setas de fogo do gigante. Ainda vou precisar de você, rapaz! Volte imediatamente! — Chefe, os ferrônios não vão gostar! Cada caça nosso vale por cem das naves ovóides. Por incrível que pareça, acabamos sendo a espinha dorsal da frota ferrônia. — Caia fora, já disse! Klein também! Se a nave de guerra não for no encalço de vocês, podem voltar para a luta. Mas por enquanto tomem distância. Que tal a cena em


torno do oitavo planeta? — Os tópsidas começam a aterrissar. Sem lançar grandes ataques. Contentam-se com o bombardeio de locais determinados; centros militares, provavelmente. Estão poupando as cidades. Posso contar nos dedos as explosões nucleares lá embaixo. E nem são das grandes. Rhodan desligou, comentando: — Bem que acertei quando preferi não pousar em Ferrol. Aquilo virou um inferno. As lagartixas vão aterrissar, instalar-se na área e dar início à conquista dos planetascolônias vizinhos. Por enquanto estamos seguros aqui. Que tem ele? Rhodan percebera que Chaktor dialogava diante do videofone comum com um companheiro de raça. Bell prestou atenção. Crest mantinha-se na mesma atitude de apática resignação, desinteressado do que acontecia. Ninguém aguardava novidades naquele momento. Deringhouse anunciou alegremente que a nave gigante se desinteressara de vez pelos caças, aprestando-se, pelo jeito, para aterrissar no oitavo planeta. — Não ganhamos em velocidade, mas somos mais ágeis do que ela — continuou a informar Deringhouse. — Crest! O chamado foi tão enérgico que o arcônida se ergueu num pulo. Viu-se diante de um homem de expressão dura e decidida. — Antes que torne a mergulhar novamente na letargia, quero uma curta informação. Tem certeza de que a nave gigante é um vaso de guerra de sua raça? — Claro! Que outra espaçonave seria capaz de nos derrotar? — É pouco provável que arcônidas participem de uma invasão promovida por seres não-humanos. Portanto, a nave deve ter tripulação tópsida. Sabe me dizer como é que esses indivíduos conseguiram se apoderar de uma das naves mais poderosas da frota imperial? Crest deu de ombros, desanimado, sem encontrar resposta. Thora fitava com olhar ausente a parede mais próxima. — Existem duas possibilidades — continuou Rhodan. — Ou a nave foi entregue aos tópsidas por oficiais arcônidas decadentes, indiferentes ao destino de sua raça, ou foi simplesmente capturada pelo inimigo. O que não seria de admirar, diante da inigualável passividade e apatia de seu povo. Em qualquer dos casos, porém, pergunto-me como é que os tópsidas conseguem manejar tão bem o complexo aparelhamento de uma espaçonave de guerra arcônida. Talvez as duas hipóteses sejam válidas: arcônidas cativos passaram seus conhecimentos aos tópsidas. — Isto é um insulto! — protestou Thora. — Apenas repetição do que ocorreu conosco. Vocês estavam em situação difícil e compartilharam sua ciência conosco. Só que caíram nas mãos de seres humanos e não de tópsidas. Nisto reside a diferença. Thora, peço que inicie imediatamente o treinamento dos meus homens! Ela ergueu a cabeça, surpresa. Rhodan encaminhou-se para o ferrônio, que prosseguia em sua animada palestra diante do videofone. Na tela, além do rosto de seu interlocutor, via-se um vasto recinto abobadado. — Que treinamento? — indagou a arcônida, com evidente incompreensão. O interesse de Crest parecia despertar, se bem que sua testa se enrugasse de preocupação. Bell sorriu. Conhecia a fundo seu ex-capitão. Para ele, a palavra impossível não existia. — Perdi sete homens na batalha. Portanto você, que já comandou um cruzador de guerra vai se encarregar de instruir os quarenta e três sobreviventes no manejo dos


principais instrumentos de uma supernave bélica. Ou ela pode ser controlada por um só homem? — Nunca! Seriam imprescindíveis pelo menos trezentos homens especialmente treinados, apesar da automatização quase total. Perry, você enlouqueceu! Não pode... — Posso e não vai demorar muito! — interrompeu Rhodan, secamente. — Ou acha que pretendo passar o resto de meus dias num planeta de Vega? As naves ferrônias não ultrapassam a velocidade da luz; portanto não me interessam. E jamais entenderemos o funcionamento daqueles trambolhos tópsidas. Logo, só nos resta a opção de pensar na supernave arcônida, pelo menos seu manejo nos deve ser mais familiar. Vamos abocanhar o naco maior, entendeu? Inicie o treinamento imediatamente. Obrigado! O chefe falara. Os presentes trocaram olhares significativos. Os dois arcônidas ainda não haviam se recuperado da surpresa. Por fim, Thora murmurou: — Já lhe ocorreu que a nave de guerra está aterrissando no oitavo planeta? Rhodan sorriu de leve. — Estou começando a me preocupar com este aspecto do problema — disse, mansamente. — Já olhou para esta tela? Observe aqueles imensos aparelhos em formato de coluna ligados a potentes cabos de força. Deve estar lembrada de que Crest se referiu a algo semelhante a transmissores de matéria, com os quais os ferrônios poderiam transladar qualquer espécie de matéria. Pois bem, o que cintila naqueles campos energéticos bem pode ser vida orgânica! O zumbido surdo proveniente dos alto-falantes chamou-lhe a atenção. Chaktor apontava excitado para a tela, gritando algumas palavras para Betty Toufry. Ela traduziu sem demora: — Vejo na mente dele que pensa numa pessoa altamente colocada. Está se definindo... Dá ao dignitário o nome de Thort. Não é um nome próprio, e sim um título. Assim como rei ou imperador. Não, não é bem isso... O Thort é o Senhor, o governante. — Estão abandonando o barco que soçobra — murmurou Rhodan, semicerrando os olhos. — Chegam mulheres e crianças, também. Portanto, a família governante evacua a pátria ameaçada para vir refugiar-se aqui. As coisas estão ficando interessantes. Que foi? Chaktor dirigia-se a Rhodan, numa arenga nervosa. Betty captou o sentido das palavras lendo a mente do ferrônio. — O Thort quer conferenciar com você, imediatamente. O comandante da frota ferrônia fez um relato completo há algumas horas. O Thort está perfeitamente a par de nossa atuação. Sabe igualmente que fomos alvejados. Não vai ter que perder tempo em explicações. Rhodan engoliu em seco; depois pigarreou. Bell foi menos reticente. Respirando fundo, opinou: — Puxa, se o chefão em pessoa se digna pisar num transmissor só para falar com você, estamos feitos! Essa gente é bem superior ao gênero humano. Caso consigamos um entendimento com o Thort, o futuro pode ser risonho. Nós... — Em primeiro lugar, temos que voltar para a Terra — interrompeu Rhodan, com sarcasmo. — No momento, precisamos manter a aparência de superioridade. Aliás, não nos resta outra alternativa; temos que poupar o coitado de uma tremenda desilusão. Parece que nós e a Good Hope representamos o recurso derradeiro para a salvação deles. Além disso... — Rhodan fez uma pausa para pensar, e continuou: — ...além disso, é muito fácil negociar com oprimidos e refugiados. Costumam ser acessíveis a argumentos lógicos. Prefiro tratar com o Thort aqui na cabina de comando. Eu me sentiria inseguro demais lá fora. Bell, ligue a máquina de traduzir. Precisamos aprender o idioma ferrônio. Crest pode


nos dar uma mão com um breve hipnotreinamento. A memória do aparelho já possui um bom estoque de vocábulos. Rhodan fitou Chaktor que fremia de reverente antecipação. Evidentemente este seria o primeiro encontro de sua vida com o Thort. — Vamos com calma, Perry! — observou Bell. — Afinal, o homem domina todo um sistema planetário! Rhodan aproximou-se do tradutor automático. Chaktor seguiu-o, emocionado. — Betty, diga que o comandante desta espaçonave solicita a visita do Thort, uma vez que só aqui poderão ser superadas as dificuldades de comunicação; o aparelho destinado a isso não é portátil. A telepata transmitiu o recado a Chaktor, através da máquina; imediatamente, o ferrônio repetiu a mensagem no telecom, em seu próprio idioma. A confirmação levou apenas alguns segundos: sim, o Thort viria. Na tela do vídeo surgiu um ferrônio de meiaidade. — É Lossos, o mais eminente cientista ferrônio — informou Betty. Rhodan murmurou algumas palavras no minúsculo transmissor em seu pulso. No compartimento de carga da nave, os guerreiros-robô despertaram. Com passos pesados, mas surpreendentemente rápidos, marcharam pela ampla rampa de descarga para o ar livre. — Não faça bobagens! — cochichou Bell, preocupado. — Para que isso? — Para impressionar, mais nada! — respondeu Rhodan. — Marshall, seu uniforme é bastante decorativo. Sabe berrar? — Como um touro, chefe, se for preciso. — Pois então, poste-se no alto da rampa e comande os robôs. Quero cerimônias militares em grande estilo, apesar de achá-las ridículas há alguns dias. O Thort deve ser recebido com todas as honras. O mutante desapareceu. — Será que vai dar certo? — indagou Thora, nervosa. — O que vai dizer ao Thort? Não se esqueça de que lida com uma raça superiormente civilizada. — Sei disso! — concordou Rhodan, com franqueza. — Os conhecimentos deles são superiores aos dos homens, exceto nós mesmos. Peço-lhe que não me contradiga enquanto falo com eles. Para os ferrônios, somos todos arcônidas, vindo de um planeta a trinta e quatro mil anos-luz daqui... — Como quiser — disse ela, ironicamente. Rhodan ajustou seu uniforme. Os dois guerreiros-robôs de pé na cabina de comando receberam instruções especiais. As luzes de controle dos poderosos geradores de pulsos se acenderam. As máquinas estavam prontas para funcionar. — Tudo deve ter a aparência de estar em perfeita ordem — disse Rhodan. — Bell, o tradutor automático está ligado? Obrigado! Betty, sonde o conteúdo mental do governante ferrônio. Gostaria de saber o que se oculta por trás de seus gestos e palavras. A menina aquiesceu, com um leve sorriso lhe brincando nos lábios. Do lado de fora ouviu-se um brado sonoro: — A-pre-sen-taaar armas! Realmente, Marshall berrava como se quisesse alertar o mundo inteiro contra um ataque inesperado. Seguiu-se um rumor surdo. Os braços armados dos robôs perfilados haviam se erguido simultaneamente, atendendo à ordem dada. O ferrônio idoso estacou. Os oficiais de sua comitiva demonstravam profunda admiração. A figura de Marshall surgiu nas telas. Em rígida posição de sentido, prestando uma continência que arrancaria louvores até do general Pounder, caso estivesse presente. O Thort agradeceu, com as mãos estendidas para a frente. Era um belo quadro.


— Senhores! Não esqueçam por um só instante que representamos o gênero humano. Portem-se com urbanidade, mas com dignidade. Evitem dar a impressão de se sentirem superiores. Bell, você se encarrega das formalidades de recepção e introdução. — E como você quer que eu o apresente? — gemeu Bell, transpirando nervosamente. — Como presidente da Terceira Potência, idêntica com o Grande Império. Para o Thort, o título de presidente vale tanto como qualquer outro. Deve achá-lo tão estranho quanto a denominação Thort é para nós. Aí vem ele! — Pretensioso! — murmurou Thora. Mas Crest sorriu, compreensivo. O eminente sábio arcônida adivinhara as intenções de Rhodan. Este postou-se imóvel ao lado do aparelho tradutor. Quando a saudação de Bell, em idioma ferrônio, ecoou através do alto-falante, o Thort recebeu o segundo choque de surpresa. Evidentemente atônito, fitou a extraordinária máquina. Rhodan sorriu-lhe com cordialidade. Sua saudação foi respeitosa, porém ligeiramente mais condescendente do que a de Bell. Depois os dois representantes de culturas tão diversas se viram frente a frente. O Thort, idoso, baixo e acabrunhado; Perry Rhodan, alto, esbelto, senhor de si da cabeça aos pés. — Seja bem-vindo, Senhor. Tome lugar, por favor. Os dois guerreiros-robôs postaram-se silenciosamente ao lado do comandante, com as bocas de suas armas apontando para o alto. Após examiná-los demoradamente, o governante ferrônio deixou-se cair numa das poltronas. Rhodan expressou ainda algumas frases de cortesia, por meio do aparelho automático. O Thort aguardou a tradução. Sua resposta foi breve e surpreendente. Parecia compreender o que se ocultava por trás daquelas demonstrações e aceitava plenamente as implicações nelas contidas. Tinha consciência de estar diante de um ser totalmente estranho, conforme ocorria igualmente com Rhodan. Mas sabia que os humanos tinham corrido em socorro dos ferrônios durante a luta. — Sua espaçonave está seriamente avariada — dizia o aparelho, traduzindo as palavras do Thort. — E o senhor sabe que, sem sua ajuda, nós estaremos perdidos. Portanto, em que posso ajudá-lo? Meu império está à sua disposição. A nave pode ser reparada? Palavras claras e explícitas, que não causaram estranheza a Rhodan. O Thort não era um fraco e sim um pensador lúcido. A resposta ainda mais breve e sucinta correspondia ao caráter de Rhodan. A situação exigia a mais absoluta franqueza. Mas antes que Rhodan pudesse responder, o hiperrádio trouxe a notícia de que a imensa nave esférica tinha aterrissado no oitavo planeta. O major Deringhouse aguardava novas ordens. Rhodan mandou-o prosseguir na missão de observação, pedindo ao mesmo tempo que procurasse obter boas telefotos da nave. Depois desligou. — Eram os pilotos daquelas naves minúsculas? — indagou um dos altos oficiais, excitado. Rhodan confirmou. — Mas como é que conseguem comunicar-se com tal rapidez? — Distância não tem significação para nós. Assim como viajamos com velocidade superior à da luz, dominamos a comunicação audiovisual hiperrápida. Ao ser divulgada a tradução, o oficial ferrônio olhou em torno, triunfante. Aparentemente já fizera afirmações naquele sentido antes, deparando com a incredulidade de seus colegas. Rhodan bem podia imaginar o que se passava no íntimo daquela gente. Dali por diante, os oficiais ferrônios guardaram respeitoso silêncio. Apenas os olhos atentos do Thort examinavam tudo com a maior atenção. — Com sua licença, posso saber se chegou até aqui por meio de um transmissor de


matéria? — perguntou Rhodan. Percebeu uma reação estranha no regente de pele azul. — Claro! Fui forçado a deixar o oitavo mundo. Que sabe sobre os transmissores? Conhece o princípio que os faz funcionar? É o maior segredo do universo! — Nem tanto! — replicou Rhodan, suavemente, porém sem acrescentar mais nenhum comentário. A perturbação do Thort já era suficiente. — Oferece-me sua assistência, senhor. Sim, minha nave não tem mais condições de vôo. Não pode ser reparada com os recursos de que dispõe. O tiro da espaçonave bélica que surgiu tão inesperadamente foi fatal. — Quer dizer que sou obrigado a renunciar ao seu auxílio? Rhodan viu a face azul entristecer-se. Nos olhos mortiços refletia-se o desespero. — De maneira nenhuma. Seria necessário apenas que me cedesse sua estação transmissora de matéria. Acabei de saber que a nave gigante pousou no oitavo planeta. Preciso de uma oportunidade para ir até lá e os transmissores resolverão este problema. Caso não possa utilizá-lo para transportar meus homens, serei obrigado a recorrer à alternativa mais trabalhosa de usar meus dois caças. O Thort parecia assombrado. Porém concordou imediatamente. No entanto, ainda alimentava uma dúvida: — Que pretende fazer lá? O planeta está ocupado pelos inimigos. — Vou apoderar-me da nave de guerra! Depois disso faremos novos planos. Rhodan sorria. — Conforme já disse, esta pequena nave já não me serve. Era apropriada para a curta expedição exploratória que empreendíamos. Caso eu tivesse sabido que se processava uma invasão por aqui, teria vindo com uma frota inteira. Lamento... Bell dominava-se a custo. Os ferrônios faziam perguntas excitadas. Rhodan explicou detalhadamente quem eram os tópsidas, de onde vinham e qual era sua natureza. O Thort prometeu toda a assistência possível. Rhodan recebeu permissão para usar os transmissores. Depois veio a pergunta embaraçosa: — Vai ser capaz de manejar a nave gigante? — Trata-se de um vaso de guerra de meu povo, senhor! — disse Rhodan, tranqüilamente. A reação foi violenta. Os oficiais imobilizaram-se em respeitoso silêncio. Apenas o Thort não se alterou. Sabia raciocinar. — Mas não tripulado por gente de sua raça, não é verdade? — Claro que não. Não imagino como foi parar nas mãos dos tópsidas. Portanto, necessito urgentemente de um tópsida vivo, custe o que custar. Existem prisioneiros? Não, os ferrônios não tinham conseguido capturar um só tópsida vivo. No entanto, um oficial mais jovem informou ter visto um bote salva-vidas tópsida destacar-se de uma das naves abatidas. Havia descido na região do pólo norte do planeta. Os soldados ferrônios destacados para aprisionar a tripulação não conseguiam aproximar-se pois eram repelidos com armas desconhecidas. Rhodan não hesitou um momento. — Senhor, mande levar dois de meus homens ao local, o mais rápido possível e dê ordem de retirada às suas próprias tropas. Preciso daqueles sujeitos vivos! — Eles possuem armas terríveis! — objetou Lossos, o cientista ferrônio. — As nossas são melhores. Tome as providências necessárias, Senhor, e ponha à disposição de meu pessoal sua aeronave mais veloz, ou uma pequena nave espacial. Não podemos perder tempo. Enquanto o Thort agia, Rhodan pôs-se a examinar com atenção os membros presentes de sua tripulação. Por fim decidiu:


— Tako Kakuta e Betty, aprontem-se. Equipem-se com psicorradiadores e convençam aqueles tópsidas a sair de suas tocas como meninos obedientes. Aguardo aqui. Quero de preferência os oficiais. Deve haver alguns entre eles. Tako, se for preciso, salte para a retaguarda dos tópsidas. E procurem voltar inteiros! Os mutantes aprontaram-se. O japonês sorria, Betty era a calma personificada. — Como? É com estas pessoas que pretende dominar uma tripulação fortemente armada?! — exclamou o Thort, com o rosto azul se tingindo de sombras escuras. Pela primeira vez Rhodan o via descontrolado. — São mais do que suficientes. Dispomos de poderes que o senhor desconhece. O transporte está pronto? Tako retirou-se, piscando um olho. O Thort tornou a sentar-se, calado. — Isso ultrapassa minha compreensão — murmurou ele no microfone do aparelho de tradução. — Quem são vocês? De onde vêm? Infundem temor com suas capacidades aparentemente ilimitadas... Rhodan forneceu as explicações necessárias, porém sem aludir à Terra. Para os ferrônios, eles eram e continuariam a passar por arcônidas. As palavras de Rhodan foram aceitas sem a menor sombra de dúvida. Ele procurou aproveitar o período de espera. Gradualmente estabeleceu um excelente relacionamento com o Thort, cujo cargo não era hereditário, conforme depreendeu da conversa. Após sua morte, um novo Thort seria eleito entre os homens mais capazes do reino. Intrigas políticas pareciam ser coisa desconhecida. Rhodan entrevia um futuro brilhante para aquela raça mas percebia que faltava algo indefinível para concretizá-lo. Duas horas mais tarde, segundo o relógio de bordo, Tako manifestou-se por meio do microtransmissor que levara. — Conseguimos, chefe! Cinco tópsidas vivos, sendo que dois deles são oficiais. Foi brincadeira. Betty localizou-os e eu saltei para perto deles. Reagiram logo aos psicorradiadores. Dentro de meia hora estaremos de volta. A aeronave é bem veloz. — Vamos ver o que acontecerá agora — disse Rhodan, em tom neutro. O Thort estremeceu. De repente via aquele homem com outros olhos. Toda a urbanidade desaparecera. Com um sorriso apenas perceptível, o governante observou: — Começo a compreender que não passo de um insignificante funcionário de província diante de sua elevada posição. Disponha de mim, mas só lhe peço que ajude meu povo. Nunca em toda a sua vida Rhodan sentira tão embaraçosa comoção. Bell mordeu os lábios e o Dr. Haggard mal disfarçava o constrangimento.


— Se há mesmo oficiais tópsidas entre os prisioneiros, devem falar o idioma intercosmo, conhecido em todos os sistemas do Grande Império — disse Crest. — Todo oficial tópsida é obrigado a conhecê-lo. Momentos após, os prisioneiros foram introduzidos, completamente submissos à vontade do mutante Kakuta. O profundo efeito pós-hipnótico do raio psíquico fazia dos estranhos obedientes autômatos. Com uma exclamação de susto, o Thort ergueu-se da poltrona. Nunca vira um tópsida de perto e os ferrônios ignoravam a natureza de seus agressores. Instintivamente, os oficiais levaram as mãos às suas armas. Eram pistolas de raios, altamente eficientes: seu funcionamento baseava-se em quanta luminosos de alta concentração. As passivas criaturas que penetravam na cabina de comando viram-se diante de uma bateria de bocais finos como agulhas, até que Rhodan disse, com um suspiro nervoso: — Por favor, baixem essas armas! Poderiam precipitar um acidente. Seus homens estão preocupados, senhor. Diga-lhes que eu me responsabilizo por sua segurança. O Thort transmitiu as ordens necessárias. As pequenas pistolas de raios foram recolocadas nos respectivos coldres. O interrogatório foi realizado na cabina de comando semidestruída. Os doutores Haggard e Manoli ausentaram-se brevemente, a fim de irem buscar algum instrumental médico na enfermaria de bordo. Não havia a menor dúvida; aqueles seres nada tinham de humanos! Percebia-se claramente que descendiam de répteis. Rhodan examinou-os de cima a baixo. Vestiam uniformes justos, que acentuavam ainda mais as linhas dos corpos altos e delgados. — Tako, mande o da esquerda tirar a roupa. E depressinha! Marshall, sonde as mentes desses indivíduos. Tako dirigiu o foco do psicoirradiador, em leque bem aberto, para o tópsida colocado à esquerda do grupo. Com gestos ágeis, ele começou a despir as peças da farda. Rhodan mordeu os lábios, a fim de não deixar escapar um gemido, conforme sucedia com o regente ferrônio. Pela primeira vez lhes era revelada a verdadeira natureza dos tópsidas. Os dois médicos, que acabavam de retornar, complementariam as observações. — Meu Deus! — suspirou o Dr. Haggard, com a face congestionada. — Por isso eu não esperava! — Diga-lhe que pode tornar a vestir-se — ordenou Rhodan, com voz rouca. — Bell!


Thora e Betty podem voltar à cabina. O caso está resolvido. Tako, regule o radiador para bloco-hipnose. Transmita ordem permanente para responderem com a verdade às nossas perguntas. Enquanto Tako regulava o aparelho, Rhodan lançou um último olhar perscrutador aos estranhos indivíduos. Apesar de possuírem dois braços, duas pernas e andarem eretos, não eram humanóides. Respiravam igualmente oxigênio, porém com isso acabava a semelhança com seres humanos. A pele escamosa, marrom-escura, já constituía prova insofismável. Também a constituição orgânica devia ser radicalmente diferente e Rhodan nem se arriscava a conjeturar sobre seu sistema metabólico. Os crânios achatados e calvos eram nitidamente de répteis, com lábios finos como lâminas de faca e enormes olhos protuberantes, de surpreendente mobilidade. A intensa luminosidade de Vega devia ser-lhes bastante desconfortável. Sua grande inteligência não ocultava o fato de possuírem caráter frio e desumano, com conceitos radicalmente diversos sobre tolerância, ética e moral. Compaixão e piedade eram sentimentos inexistentes neles. No entanto, tinham suas próprias regras de conduta, que aos olhos dos homens eram estranhas e até ridículas. Só com a maior cautela se poderia tratar com aqueles reptilóides providos de seis dedos nos membros. Conforme Crest já observara anteriormente, qualquer acordo ou tratado feito com eles não conservava a validade por muito tempo. Rhodan começou a interrogar um dos oficiais. O prisioneiro respondeu em fluente intercosmo, o que dissipou qualquer dúvida por ventura ainda existente quanto à sua real identidade. Após algumas perguntas rotineiras, Rhodan foi ao âmago do problema: — Declara que sua nave foi abatida por um pequeno veículo arcônida nas proximidades do nono planeta. O senhor era o comandante. Portanto, deve saber de onde veio aquela nave gigante arcônida, do tipo Império, de modo tão inesperado. Como é que foi parar nas mãos dos tópsidas? Quem são seus tripulantes? Há arcônidas a bordo? — Foram mortos! — explicou o oficial, em tom monótono. Os enormes olhos mortiços pareciam não enxergar, sob a influência constante do psicoirradiador. — Capturamos a nave de guerra no planeta Topsid III. Ela desceu lá para se reabastecer com água potável. A tripulação dormia. Dominamos as sentinelas com gás. Os arcônidas foram forçados a nos treinar. Aquela nave representa o sustentáculo de nossa frota espacial. As explicações vinham aos arrancos, interrompidas por numerosas perguntas. Rhodan deu-se por satisfeito; guardas ferrônios levaram os prisioneiros. — Bem que gostaria de saber o que os levou a atacar o sistema Vega. Mas esse sujeito parece não ter a menor idéia. O almirante-chefe dos tópsidas é que deve saber. Como se chama? — Crek-Orn — informou o cientista arcônida. — Nome bastante conhecido; o homem está em vias de tornar-se uma personalidade importante no reino tópsida. Seria bom ficar de olho nele. Assim que os tópsidas saíram, Rhodan entrou imediatamente em contato radiofônico com o major Deringhouse. Os dois caças já rumavam para o nono planeta. O Thort acompanhava atentamente o diálogo. — Calma em toda a frente — informou Deringhouse. — A nave de guerra pousou num imenso espaçoporto. A invasão encontra resistência quase nula. Em terra travam-se violentas lutas, mas os ferrônios estão em desvantagem. No setor do espaço em que me encontro, não há sombra de naves inimigas. Concentraram-se exclusivamente sobre o mundo principal. Cerca de cento e cinqüenta unidades da frota ferrônia, entre naves


grandes e pequenas, regressam conosco. Não podemos acelerar muito, senão ficam para trás. Portanto, ainda temos um bom tempo de viagem. Estamos exaustos. Deringhouse esperou a resposta de Rhodan, que não tardou: — Não espere pelas outras naves. Acelere o mais que puder e venha logo. Os caças estão intactos? — De ponta a ponta. Apenas Klein tem uns arranhões na pintura externa, escapou por pouco de um tiro energético. O sorriso de Deringhouse iluminava sua face coberta de sardas. Acenou alegremente para o Thort, quando este se mostrou na tela do caça. Rhodan sorriu imperceptivelmente e desligou. — Meus homens estão prontos, senhor! — disse ele ao Thort. — Ficar-lhe-ia muito grato se providenciasse a fim de que sejam instruídos no uso dos transmissores. O Thort respondeu: — Vou ter que deixá-los agora. Mas logo contarão com a assistência do engenheirochefe de uma fortaleza secreta do deserto. Trata-se de fortificações subterrâneas, construídas na época em que os diversos grupos de minha raça ainda viviam desunidos. Eu recomendaria o transporte da nave avariada para esse local. Os transmissores daqui terão que ser inativados, pois estão ligados diretamente ao meu palácio. Meus homens não conseguirão defendê-lo por muito tempo, o que poderia ocasionar uma utilização indesejável dos transmissores. Portanto, em hipótese alguma vocês poderiam usar os daqui. A fortaleza no deserto possui equipamento similar, plenamente utilizável. Vou tomar as providências necessárias imediatamente. Com isso, o senhor supremo de um sistema planetário inteiro se retirou. — Bem, este caso está resolvido! — exclamou Rhodan. — Crest, calcule onda e direção para um hiperchamado à Terra. Vou ditar a mensagem ao codificador. Quero que seja enviada em freqüência muito alta, com condensação máxima. E mande repeti-la várias vezes, pois o coronel Freyt não poderá acusar o recebimento de modo algum sob risco de sermos localizados. Temos que enviá-la ao acaso, esperando que seja devidamente captada. Capriche nos cálculos, Crest! Para a Good Hope iniciava-se um período de repouso. Quando Rhodan se encaminhou para sua cabina foi interpelado por Bell, que parecia fatigado. — Não acha bom a gente se interessar de perto por esses transmissores de matéria, chefe? Estou vindo do laboratório de controle dos ditos cujos. Os troços são enormes e, pelo jeito, funcionam com velocidade superior à da luz. A Humanidade poderia fazer bom uso deles... Rhodan esforçou-se por sorrir. Bell semicerrou os olhos, resignado, ao escutar o leve suspiro do comandante. — Meu caro, até você dar pela coisa, eu já agi. Por que acha que insisti tanto em usar as máquinas? Pois, em caso de emergência, poderíamos voar para o oitavo planeta nos caças, espremendo quatro pessoas em cada um, não é verdade? Mas é hora de dormir! Quando você tornar a ver Vega surgir no firmamento amanhã, com todo o seu esplendor, terá com que se ocupar. Rhodan desapareceu. Reginald Bell afastou-se, resmungando, em direção à sua própria cabina. Não, Rhodan não era homem de deixar passar despercebida qualquer coisa que, em última instância, pudesse beneficiar a Humanidade. Porém mesmo um homem loucamente temerário como Bell era forçado a confessar que não seria tarefa fácil apoderar-se da nave gigante arcônida. Mas tinham que tentar! Antes de qualquer outro empreendimento, era preciso garantir a retaguarda.


A noite caía sobre o nono planeta de Vega. O espaço estava tão vazio como se jamais houvesse existido uma frota tópsida. Só se via as estrelas, e elas eram eternas.

***

A Good Hope não passa de um destroço incapaz de voltar ao sistema solar. Perry Rhodan está consciente disso. Mas sabe que os tópsidas possuem uma espaçonave que corresponderia aos planos que tem em mente. Portanto, Rhodan concebe algo incrivelmente arrojado e ataca de surpresa com seus mutantes. A próxima aventura de Perry Rhodan intitula-se MUTANTES EM AÇÃO.

P 010 batalha no setor vega k h scheer