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46 | PÚBLICO, QUI 26 JUL 2012

Um ano depois, o que se espera do PS MIGUEL MANSO

Francisco Assis António José Seguro começa a ter condições para ser o próximo primeiro-ministro de Portugal

1.

Lembro-me dessa noite com uma nitidez cruel. Era Verão, os carros buzinavam nas ruas e as pessoas, ora apressadas, ora vagarosas, caminhavam pelos passeios de Lisboa. Uma atmosfera de música frívola e feliz evolava-se de alguns lugares. Lá estavam, como sempre, o Largo do Rato e o enorme casarão que alberga a sede do PS. Recém-chegado de Amarante, cumprimentei o porteiro e entrei. Numa sala ignota, vazia, um pouco escura, encontrei o António Costa, que me abraçou, sem demasiada intimidade, como é próprio de um homem digno e verdadeiramente solidário; num outro aposento, onde havia já mais luz, percebi o sorriso de lágrimas da Ana Catarina, amiga até à dor, mulher de uma ternura nunca inteiramente revelada. Ao fundo, sereno e sábio, lá estava o Afonso Abreu, filho de um grande amigo, e amigo para sempre no fim de uma interminável campanha eleitoral. De súbito, como sempre, terá irrompido o Vasco, assessor de imprensa e grande praticante de tudo o que é solar. Estavam ainda outras pessoas, poucas, naquela hora sempre demasiado poucas, sérias, de uma coragem rara, solidárias, que seria injusto esquecer. E por isso jamais esquecerei. Também na política há noites que são mais que uma noite, são instantes fixados para sempre naquilo que, com alguma imodéstia, costumamos designar por destino. Aconteça o que acontecer, esses homens e essas mulheres estavam lá, naquele lugar, naquela hora, naquele abandono que é muito mais do que a experiência da solidão. É como a solidariedade dos combatentes de guerra. Apesar de tudo, nenhum homem pode viver sem algumas certezas. Não são ideias, são pessoas. Não são abstracções, são sentimentos. Não são sistemas, é a vida. Isso não passa, o resto passa. Já passou.

2.

António José Seguro tem liderado o PS com sensatez, elevado sentido de responsabilidade institucional, com a devida dose de ousadia crítica. Quando me solicitam um balanço sobre a sua liderança não hesito em considerá-la positiva. Faço-o com agrado. Não é reconhecidamente fácil liderar a oposição num país mentalmente

conservador como o nosso teima em sê-lo. De alguma forma, os portugueses projectam mais expectativas em quem detém a incumbência de ser alternativa do que em quem tem a responsabilidade efectiva de exercer o poder. É curioso, mas é verdade. Um líder da oposição é, não raras vezes, acusado de não agir com suficiente firmeza para obrigar quem está no poder a actuar do modo mais adequado e conforme às expectativas das pessoas. Há uma razão, ainda que relevando de uma certa iniquidade, para tal atitude: a circunstância de estar na oposição constitui uma vulnerabilidade acrescida face aos ímpetos da fúria popular. Por isso mesmo o destino das oposições, num país como o nosso, vagueia entre a demagogia e a irrelevância. Isso não tem acontecido com o Partido Socialista. Relembremos alguns factos importantes da presente legislatura. Não era fácil ter optado pela abstenção aquando da votação do Orçamento de Estado para este ano. O conteúdo desse

Não é fácil liderar a oposição num país mentalmente conservador como o nosso teima em sê-lo

documento, impregnado de uma vertigem ideológica neoliberal e de uma ortodoxia filogermânica, aconselharia um voto contra. Justamente por isso, vastos e respeitáveis sectores do Partido Socialista propugnaram publicamente por tal orientação de voto. Mau grado isso, a direcção nacional do PS, evidenciando uma aguda compreensão da natureza excepcional que caracterizava a realidade nacional, preconizou, e democraticamente optou pela abstenção. Ao assumir, com firmeza e coragem, tal orientação, decerto pouco popular nalgumas das chamadas “bases” partidárias, António José Seguro revelou um raro sentido de Estado e demonstrou que o Partido Socialista não se acantona numa oposição sectária, por muito que a irresponsabilidade do actual Governo a tal comportamento induza. Em vários outros momentos, como foi notoriamente o caso da apreciação parlamentar do denominado “pacto orçamental”, o Partido Socialista agiu com irrepreensível sentido do realismo político e unicamente preocupado com a projecção externa da imagem do Estado português. Como ficou então claro, não se tratava de uma adesão à doutrina económicofinanceira subjacente a tal documento, mas antes da afirmação de uma vontade de contribuir para o reforço da integração económica e política da União Europeia. Num tempo em que os profetas e os demagogos suscitam a preferência de alguma opinião amplamente mediatizada, é reconfortante constatar que há quem não ignora as responsabilidades específicas do mundo político. É verdade, isso comporta

um elevado risco de incompreensão, o que torna ainda mais respeitável a opção pelo caminho do rigor. Se é verdade que o PS com este comportamento adquiriu uma indiscutível credibilidade pública, terá agora que se empenhar na construção de uma verdadeira alternativa política. Isso passa, a meu ver, antes de mais por três aspectos a que atribuo especial importância. Em primeiro lugar, o Partido Socialista terá de explorar aquela que me parece ser a principal insuficiência do actual Governo – a ausência de um pensamento minimamente elaborado sobre a Europa e a nossa integração na mesma. Desse indesculpável vazio doutrinário decorre uma absoluta incapacidade de produção de uma estratégia acertada que permita ao Estado português garantir a salvaguarda dos seus interesses vitais em articulação com outros Estados-membros da União Europeia. A aparente opção pela linha de orientação do aluno empenhado e diligente, sempre disponível para uma postura de subalternidade face ao poder hegemónico alemão, resulta mais da preguiça intelectual do que de qualquer alinhamento táctico consistente. Com isso, Portugal perde. O Partido Socialista deve investir fortemente na formulação de um discurso consistente sobre a Europa, e deve procurar articular-se com forças políticas que serão absolutamente determinantes na definição do futuro europeu, como é o caso do SPD alemão. Por aí passará o devir da Europa e o futuro de Portugal. Em segundo lugar, o PS deve, para além da sua necessária preocupação com os sectores mais débeis da sociedade, promover um reencontro com os agentes mais inovadores da nossa economia. Nessa perspectiva, o pior que nos poderia acontecer seria a rendição ao discurso de uma certa esquerda arcaica que se limita a reproduzir as reivindicações das várias corporações existentes no nosso país. A receita é simples: é preciso recuperar algumas das prioridades do período de governação de José Sócrates. Nessa altura, havia um pensamento económico para o país. Hoje não há. Em terceiro lugar, o Partido Socialista deve estabelecer como um dos objectivos fundamentais em matéria autárquica a recuperação da liderança da Área Metropolitana do Porto. Por aí, como procurarei esclarecer em próximo artigo, poderá passar grande parte do nosso futuro nacional. Um Porto fraco reconhecidamente fragiliza Portugal. Chegou a hora de perceber que a recuperação da vitalidade daquela região constitui condição imprescindível para o sucesso de um projecto de verdadeira regeneração nacional. O PS deve liderar esse combate. Deputado (PS). Escreve à quinta-feira


Um ano depois, o que se espera do PS - Francisco Assis