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Uma Viagem difícil... Foto Ilustrativa

“Essa é a história de uma viagem que fiz quando era criança e da qual nunca vou me esquecer”. Antonio Amorim Costa


Uma Viagem difícil... Índice As vantagens de morar no campo

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A grande preocupação

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O mensageiro enviado pelo meu pai

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Pág. 03

O acidente doméstico

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A grande oportunidade

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Pág. 03

A localização

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Pág. 04

O início da minha trajetória

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Pág. 04

A grande aventura

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Pág. 05

As dificuldade para lidar com o animal

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Pág. 06

Lutando contra o cansaço

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Pág. 06

A noite chega

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Pág. 06

Chegada a terra indígena

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Pág. 07

Tentando vencer o medo

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Pág. 08

A escuridão da noite se aproximava

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Pág. 08

A chegada da tempestade

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Pág. 09

A minha jornada estava perto do fim

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Pág. 12

Enfim cheguei ao meu destino

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Antonio Amorim Costa


Uma Viagem difícil... As vantagens de morar no campo Foto Ilustrativa

Para o meu pai, um homem criado no sertão, tudo que estava ligado à vida do homem da cidade era perigoso enquanto que toda a atividade de quem morava no campo não oferecia nenhum risco.

A grande preocupação Andar de bicicleta, dirigir um automóvel e até mesmo atravessar uma rua para ele era o maior perigo, em compensação dava o maior apoio quando via algum dos seus filhos pequenos tentando montar num animal bravo.

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Uma Viagem difícil...

O mensageiro enviado pelo meu pai Havia ficado somente eu e minha mãe na cidade de Floresta quando um portador vindo de Pajeú trouxe um recado do meu pai avisando que estavam se esgotando os mantimentos da cozinha e que não restava nem sal para temperar a comida do dia seguinte. Que ele esperava a nossa ida pra lá levando o que faltava e mais algumas ferramentas de uso na lavoura que ele havia comprado.

O acidente doméstico Justo naquele dia minha mãe havia se queimado quando um tacho de sabão que ela estava mexendo virou sobre o seu pé e não tinha a menor condição de fazer aquela viagem. Foto Ilustrativa

A grande oportunidade Aproveitei então para me oferecer para atender ao pedido do meu pai. Pra mim era a oportunidade de mostrar a minha coragem embora no fundo eu não a tivesse tanto. Foto Ilustrativa

Antonio Amorim Costa

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Uma Viagem difícil... A localização Pajeú era o lugarejo onde ficava o sítio da família e estava a cinco léguas de Floresta.

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O início da minha trajetória Até lá gastava-se umas três horas de viagem a cavalo. Eu já tinha feito aquele trajeto com meu pai várias vezes e guardava na cabeça os pontos de referência por onde passávamos ao longo da jornada.

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Uma Viagem difícil...

A grande aventura Fazer aquela viagem sozinho com apenas sete anos era uma façanha que ninguém da minha idade jamais havia feito. E com certeza meu pai iria se vangloriar do feito de seu filho. Saí galopando pela entrada principal da cidade até encontrar o leito da estrada de ferro, por onde teria que seguir por um longo pedaço de chão.

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De lá, por causa dos dormentes que atrapalhavam o pisar do cavalo, tive que mantê-lo trotando até terminar o trecho. Depois alcancei uma parte de areia pesada onde pretendia continuar o galope por mais algum tempo. O problema é que, a partir dali o cavalo passou não querer mais obedecer ao meu comando. Ainda estava no areão e o sol já começava a se esconder na serra ao longe.

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Uma Viagem difícil... As dificuldades para lidar com o animal Foto Ilustrativa

Tentei por todos os meios fazer o cavalo acelerar a pisada, mas ao contrário, cada vez mais ele diminuía o passo. Desmontei, quebrei uma vara nova de pau-pereira no mato para usar como chicote e decidi tirar as alpercatas e ir a pé tocando o bicho. Lutando contra o cansaço Aí, sempre chicoteando fiz o cavalo correr até o fim do areão. Quando alcançamos à rodagem outra vez, não aguentava mais. Além do cansaço as pedras duras da estrada estavam esfolando minha sola do pé. Tive que montar outra vez e seguir na minha angústia.

A noite chega Toc, toc, toc. Não sei a hora, mas já era a lua que iluminava o caminho quando passei pelo sítio Barrigudinha e peguei a ladeira que dava acesso à reserva indígena Brejo dos Padres por onde teria que passar.

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Uma Viagem difícil...

Chegada a terra indígenas A partir daquele momento não sei o que mais me afligia, se as bolhas no calcanhar causadas pela espora, o esfolado da sola do pé ou a preocupação do que teria que enfrentar dali pra frente. Já havia passado pela aldeia dos índios várias vezes e nunca nada havia acontecido. Mas naquela hora só o que me vinha à cabeça eram as histórias que ouvira de coisas ruins cometidas por eles para quem entrasse em suas terras.

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Surra de cansanção, xaropada purgativa, e até alvo de tiro de flecha. Além do mais quando saísse dali ainda tinha que atravessar a Serra da Onça que diziam que a noite era infestada pelas "bichas" que saiam para caçar.

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Uma Viagem difícil... Tentando vencer o medo E até de passar na tapera de Maria Chulé, àquela hora me dava medo.

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Diziam que ela botava uma mandinga que quem passasse ali na lua minguante : se fosse homem virava lobisomem e se fosse mulher virava mãe dágua.

A escuridão da noite se aproximava Pra piorar a situação, as nuvens começaram a esconder a lua e já não se conseguia enxergar o caminho. O cavalo que no começo era o vilão agora era só quem conseguia distinguir a nossa trilha.

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Uma Viagem difícil...

A chegada da tempestade

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Alguns relâmpagos e trovões que se ouviam de longe logo nos alcançaram numa tempestade estarrecedora. Os coriscos partiam das nuvens atingindo a terra em todas as direções seguidos do rugir dos trovões.

Agora também o equilíbrio do cavalo era ameaçado pelo chão escorregadio e pelas valas que se formavam cruzando a estrada. E numa dessas, creio que incandescido por um relâmpago, o cavalo, ao pular a vala, pisou em falso e despencou. Na queda me jogou no chão e pra se levantar ainda espalhou mais lama em mim. Aí sim, chorei. Com a cabeça encostada na sela, enquanto a chuva caía eu chorava. Estava precisando. Desabafei, me acalmei. Montei outra vez. Pior que aquilo, não podia acontecer mais nada, pensei. Era aguentar o frio da roupa molhada e tocar o barco. Acabou a descida e entramos no plano do vale onde se situava o Brejo. A chuva parou, a lua voltou e já dava para ver e ser visto pelos índios dos ranchos que ficavam próximo do caminho. Depois da chuva, no plano o cavalo ensaiou um trote, mas não durou muito.

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Uma Viagem difícil...

Voltou pró toc toc toc e enquanto ia nesse ritmo, escutei um grito vindo da porta do rancho mais perto. Hei, mínino, pare aí. Se vei pra dança do cansanção, perdeu. Foi onte. _ Não, tô indo pro Pajeú, respondi. _ Ele se aproximou e falou _ Num tem medo do lubisome? Diz que ele costuma aparecer com essa lua.

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E da bicha da serra? Ta na hora que ela sai pra caçar. Nessa passada se ela aparecer cê tá frito. Eu que já estava conformado em seguir, mesmo com medo, à medida que fui lembrando daquelas coisas o medo foi aumentando e a coragem diminuindo. E o índio chegando mais perto e me vendo todo encharcado insistiu. _Vem home vem tirar essa roupa moiada. Fiz de conta que não estava desconfiado e segui o homem até a casa. Desapeei e entrei. _ Tá vendo essa moça deitada debruça na rede? É minha fia. Tá toda incalombada mas tá feliz. Ela foi a rainha da festa de onte. (No ritual da dança do cansanção os índios tomam uma bebida fermentada com o sumo da folha da erva e ao som de um batuque de cuias de cabaça fazem uma dança, chicoteando de leve com a urtiga nas costa uns nos outros. A moça que suportar por mais tempo o suplício é proclamada a rainha do cansanção.) Muié prepare aquele teiú cum óio de maniçoba pra ceia e arranje um carção inxuto pró minino. A mulher me deu um calção com umas tiras de palha de bananeira, eu vesti e fui estender a roupa molhada num garrancho do lado de fora. Página 10

Antonio Amorim Costa


Uma Viagem difícil...

Desarreei o cavalo e amarrei num pasto ao lado. Fui sentindo mais confiança no índio. Não é possível que esse tal de teiú tenha alguma mandinga, pensei. Daí a pouco a mulher veio com a caça estirada na farinha num tacho de barro._ Coma home, é pró cê. Nós já cumemo, o homem falou.Puta merda, pensei. Ter que comer aquilo. Parecia uma lagartichona pelada.

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Naquela hora não era medo da mandinga era medo de encarar o bicho. Seja lá o que Deus quiser, pensei. Enchi a boca de farinha e meti o dente no rabo da caça. Misturando com a farinha consegui comer quase tudo. Com a fome que estava só consegui sentir o gosto estranho do óleo de maniçoba quando já estava de barriga cheia. Elogiei e agradeci a comida e o índio se desculpou por não ter coisa melhor. Depois armou minha rede, fez uma prece na língua deles e foi dormir também. Quando deitei senti o estômago meio pesado e não conseguia pegar no sono. Levantei-me um pouco pra fazer a digestão, e enquanto estive de pé vi que voltara a chover. Achei que estava melhor e deitei outra vez. Agora não era mais peso no estômago era dor de barriga mesmo. E aquela dor que vem pressionando tudo pra fora. O que fazer? Casa de índio não tem banheiro Sair lá fora, impossível. A trovoada era forte. Segurar não dava mais. Com o clarão dos relâmpagos enxerguei na trempe da cozinha aquele tacho com o resto do teiú. Deus me perdoe. Vai ser ali mesmo. Só tive tempo de me ajeitar. Me aliviei. E agora, o que fazer com aquilo? Nem eu aguentava o odor. Não tive dúvida. Abri a porta com cuidado, peguei o tacho e fiz dele um disco voador soltando merda pra todo lado. De madrugada, antes do povo se acordar eu levantei, vesti minha roupa, arreei o cavalo, agradeci ao índio de novo e peguei o rumo de minha viagem outra vez.

Antonio Amorim Costa

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Uma Viagem difícil...

A minha jornada estava perto do fim

Dali pra frente nada mais me afligia. Até o cavalo passou a obedecer meu comando e galopava ao meu menor sinal. Encontramos mais algumas valas deixadas pela chuva no vale do Brejo, mas o cavalo as pulou sem dificuldade. Alcançamos a Serra da Onça durante o nascer do sol e apenas um lobo guará cruzou nosso caminho correndo com medo de nós. Na tapera de Maria Chulé, nenhum sinal da velha. O sol tinha acabado de nascer quando cheguei em casa no Pajeú. Meu pai ainda estava dormindo quando bati a porta. Veio me receber meio desconfiado, mas se mostrando contente.

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Antonio Amorim Costa


Uma Viagem difícil...

Enfim cheguei ao meu destino

Cadê sua mãe? Quando expliquei que ela não pôde viajar mais estava bem ele comentou._ Sabia que se houvesse uma necessidade eu podia sempre contar com a sua coragem meu filho.

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Preferi deixar essa sensação de orgulho pro meu pai e guardar a lembrança do que passei para um dia escrever essa história.

Fim Antonio Amorim Costa

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Uma Viagem difícil... É UMA PUBLICAÇÃO E AUTORIA DE ANTONIO AMORIM COSTA TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Contato: tonyamorim@ig.com.br ILUSTRAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO: JOÃO BATISTA FEITOSA DE OLIVEIRA Contato: (11)8275-1537 Email: joaoindiano2008@hotmail.com


Livro 1 - Uma viagem difícil