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Sobre os Passos da Paixão e a Veneração das Imagens do séc. XX A Procissão dos Passos da cidade de Setúbal iniciava-se na igreja de Santa Maria da Graça (por detrás, e anexada à Sé de Setúbal encontrava-se a capela e Colégio dos Jesuítas) e terminava na antiga igreja da Nossa Senhora da Anunciada onde se encontra, actualmente, o Centro de S. Francisco Xavier, da Caritas Diocesana de Setúbal. Assim, a procissão começava e acabava sempre nas igrejas paroquiais de Santa Maria da Graça e da antiga paroquial de Nossa Senhora da Anunciada. Os Passos são conhecidos, popularmente, de nascente para poente por: 1º - Sé Paroquial de Setúbal - Santa Maria da Graça – Pretório 2º - Passo de S. Francisco Xavier, junto à capela de S. António - Primeira das três quedas de Cristo, prostrado por terra sob o peso do madeiro da cruz. 3º - Passo que é actualmente uma ourivesaria, este Passo pertencia à Santa Casa da Misericórdia de Setúbal que ocupara o espaço do medieval Hospital do Espírito Santo, onde se encontra, actualmente, a Sociedade Filarmónica Capricho Setubalense - O doloroso reencontro de Maria com seu Filho. 4º - Passo de S. Cristóvão, anexo ao Clube Militar dos Oficiais (Casa do Corpo da Guarda) Simão Cireneu ajuda Cristo, prostrado, a suportar o peso da cruz. 5º - Passo da Verónica ou Passo de S. Tiago, Largo da Verónica - Verónica enxuga o rosto de Cristo. 6º - Passo de S. Marçal, Rua Frei Agostinho da Cruz - O encontro de Cristo com as mulheres de Jerusalém que choram por Ele. 7º - Antiga igreja Paroquial de Nossa Senhora da Anunciada, actualmente é o Centro de S. Francisco Xavier, da Caritas Diocesana de Setúbal - Calvário


Sempre que nos referimos a estes edifícios, não devemos esquecer que a designação correcta é a de Passo, porque capela é, e como exemplo, a de Santo António perto do Passo de S. Francisco Xavier, diferente tipologicamente, ainda que se armasse Passo dentro da Igreja de Santa Maria da Graça (Pretório) e dentro da antiga igreja da Nossa Senhora da Anunciada (Calvário). Antes de se construírem os passos de alvenaria, os mesmos já eram assim designados, apesar de serem estruturas precárias, temporárias e de madeira.

OS PASSOS E A VENERACÃO DAS IMAGENS DO SÉC. XX Os nomes S. Francisco Xavier, S. Cristóvão e restantes, são os nomes que se conhecem actualmente porque encontramos estas figuras da história da cristandade nos respectivos passos, mas não são estes os nomes originais. Os Passos seriam conhecidos pelas cenas da procissão que retratavam a agonia (Paixão) de Cristo desde o Pretório ao Calvário, como foi dito anteriormente. No interior de cada passo encontrava-se um retábulo belissimamente decorado e que descrevia a cena apresentada nesse passo da procissão. Por serem nomes bastante extensos, em alguns casos, a população de Setúbal referia-se aos mesmos de acordo com o poder político, religioso, social que se associava a estes edifícios ou pelo próprio local onde se encontravam. Os Passos da Paixão de Lisboa eram reconhecidos da mesma forma.


Assim, o Passo de S. Francisco Xavier seria conhecido pelo Passo do Largo de S. António porque se encontra junto à capela de Sto. António e que deu o nome ao largo que aí se encontra, representando algumas das mais importantes confrarias profissionais de artesãos (pedreiros e carpinteiros) que aí se instituíram. O Passo que actualmente é uma ourivesaria, seria conhecido por Passo da Rua dos Ourives mas é possível consultar em alguns documentos que também se designava por Passo da Misericórdia, porque a Santa Casa se instalara nas antigas instalações do hospital do Espírito Santo a poucos metros deste passo e como patrona desta procissão, detinha o poder sobre este. O Passo de S. Cristóvão, anexado à Casa do Corpo da Guarda (actualmente Clube Militar dos Oficiais) representava o poder militar (responsável pela gestão deste passo) mas também o poder nobiliário, entronizado pelo palácio dos Salemas que se encontrava à sua frente, seria conhecido pelo Passo da Casa do Corpo da Guarda. O Passo do Largo da Verónica ou Passo da Verónica, já no bairro do Troino, é o único que ainda conserva o nome original, facto incontornável porque nele se apresenta o retábulo onde se pode ver Verónica piedosa enxugando o rosto de Cristo (passagem de origem popular), cena que deu o nome ao largo onde se encontra. Esta memória, confirmada pela documentação consultada, foi preservada desde o século XVIII, período da edificação destes passos na cidade de Setúbal. Este passo e o passo seguinte representavam o novo poder religioso e popular que crescia no bairro do Troino enfatizado pela antiga Igreja da Anunciada que aí se encontrava, ainda hoje são dos passos mais venerados pelos fiéis. Por fim o Passo de S. Marçal, este passo seria conhecido por Passo do largo da Anunciada, actualmente Largo Teófilo Braga, que precedia o adro da antiga igreja de Nossa Senhora da Anunciada (actualmente é o Centro de S. Francisco Xavier, da Caritas Diocesana de Setúbal), surgia junto à igreja paroquial, à semelhança do que acontecia noutros locais onde se realizava esta devota procissão. Anexado à paroquial de Nossa Senhora da Anunciada encontrava-se o Hospital das Mulheres no local onde encontramos, actualmente, a Cúria Diocesana de Setúbal. Este facto enaltece o cariz popular deste passo assim como o do Largo da Verónica que, também, se encontrava junto ao Hospital das Mulheres.


SOBRE O NOME DA PROCISSÃO… Desde que foi criada, foi sempre apelidada de diversas formas. A procissão é conhecida por, Procissão do Senhor dos Passos, Procissão dos Passos (de modo abreviado), entre outros nomes mas a designação completa e que melhor descreve a mesma é, Procissão dos Passos da Paixão e da Santa Vera Cruz de Cristo, nome que caiu em desuso por se uniformizar com o da irmandade que fundou esta procissão, Irmandade do Senhor dos Passos, logo, Procissão do Senhor dos Passos. O mesmo acontece com o nome da Irmandade dos Passos: esta irmandade tem sido denominada indiferentemente, desde 1586 (ano da sua fundação em Lisboa), de, Irmandade da Vera Cruz, Irmandade da Vera Cruz e Passos de Cristo, Irmandade da Santa Cruz, Confraria dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Irmandade dos Passos de Jesus, Irmandade da Santa Vera Cruz e Passos de Cristo Senhor Nosso, etc.

REFLEXÃO FINAL Os nomes pelos quais os passos eram conhecidos, não correspondiam às figuras religiosas que encontramos actualmente em cada um deles. Os passos durante o século XVIII e até ao fim da manifestação religiosa que os caracterizava eram conhecidos pelas cenas do trajecto de Cristo desde o Pretório até ao Calvário e igualmente conhecidos, de acordo com os lugares onde se encontravam. As figuras de S. Francisco Xavier, S. Cristóvão, S. Tiago e S. Marçal são figuras que os fiéis veneram nos passos provavelmente desde a primeira metade do século XX (não se consegue precisar quando começou a veneração de cada imagem, no passo correspondente) até aos dias de hoje. Mais uma vez terão sido os fiéis, os responsáveis pela veneração destas figuras da cristandade, que de um modo ou de outro marcaram a história da religiosidade da cidade de Setúbal. Todos os anos dedica-se a S. Marçal uma procissão em sua honra que envolve o Passo onde se encontra a sua imagem e que é organizada pelos bombeiros de Setúbal, uma vez que S. Marçal, também, é o patrono dos bombeiros, além de patrono de outros ofícios.


Assim, e para concluir, a veneração destas imagens não corresponde aos preceitos religiosos da procissão original mas sim à vontade que os fiéis sempre demonstraram em continuar a utilizar estes edifícios para a prática do culto religioso, reconhecendo desta forma a importância deste património cultural. No que diz respeito ao processo de classificação apresentado na dissertação de mestrado Os Passos da Paixão de Cristo, o que é sugerido, e que está previsto pelo IGESPAR, é a classificação dos Passos de "Interesse Público" ou "Interesse Municipal" (classificação camarária), sendo que os diferentes níveis de classificação remetem-nos, da maior importância para a menor: ''Interesse Nacional'' (com a designação de "Monumento Nacional"), "Interesse Público" ou "Interesse Municipal" (classificação camarária). O Bem a classificar deve obedecer a: "critérios de carácter geral - histórico-cultural, estético-social e técnico-científico; e de carácter complementar integridade, autenticidade e exemplaridade do bem". in [IGESPAR]. O que se ganharia com este tipo de classificação? A preservação deste património, a criação de zonas de protecção que salvaguardassem a história e linguagem arquitectónicas destes edifícios, bem como a salvaguarda e garante de que em futuras reabilitações a sua autenticidade e verdadeira natureza dos seus materiais e da sua construção fossem preservados, como nos ensina John Ruskin com as suas Sete Lâmpadas da Arquitectura.


SetĂşbal Abril de 2011


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