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o marketing e o espetáculo, o que realmente importa? RONALDO S/A Entre O articulista Vinícius Mesquita responde. página 8

Jornal

Goiânia, 2011/1

Araguaia Com que roupa?

A mídia

responde.

Não há como negar: faz parte da cultura da mídia o poder de ditar regras, transformar guarda-roupas, construir estilos de vida e influenciar diretamente no comportamento das pessoas. E você, até que ponto é influenciado pela mídia na hora de escolher com que roupa? página 4

Tecnologia para enfrentar o trânsito

Cultura explícita. E invisível

Depois de ficar parado por duas horas na ruas de Goiânia, Rodrigo Kono criou o @ transitogo no Twitter, uma verdadeira ‘mão na roda’ para motoristas página 6

Ela passa o dia com você. Está nas roupas que veste, no corte de cabelo que usa e até nas gírias que fala. E, mesmo assim, você sequer as percebe. Ela se importa? Claro que não. Aliás, quanto menos você a repara mais ela irá mandar nas suas escolhas. página 2


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Goiânia, 2011/1

Araguaia

Cultura explícita. E invisível

Expediente

Ela passa o dia com você. Está nas roupas que veste, no corte de cabelo que usa e até nas gírias que fala. E, mesmo assim, você sequer as percebe. Ela se importa? Claro que não. Aliás, quanto menos você a repara mais ela irá Lucas Bittencourt mandar nas suas Editor de Cultura escolhas. O caro leitor já parou pra pensar em quantas vezes no dia toma uma decisão por conta do que viu na TV, ouviu no Rádio ou até leu em um folheto colado no poste mais próximo? Pois fique sabendo que, em todas estas escolhas, você foi influenciado pela cultura da mídia. E não adianta esbravejar em protesto: você sempre se relacionará com ela. A menos, é claro, que decida largar tudo e adotar costumes eremíticos, mas até assim ela conseguiu lhe influenciar. Já que, então, não pode fugir dela, não seria melhor entender como a cultura da mídia funciona? Agora é sempre uma boa hora pra começar! Se você está aí, de bobeira, e de repente pretende ser uma celebridade midiática,

Textos: Gissely Martins Honória Diets Jéssyca Évelin João Damasio Keila Nunes Lucas Bittencourt Thaís Rocha Wanderson Thomaz

é bom estar atento a essa dica. Guarde bem este papel. Aqui vai a chave para abrir os portões do sucesso que muitos já conquistaram. Não custa dinheiro, no máximo tempo. E está muito longe do que talvez você está imaginando. Essa chave nada mais é que o comportamento. Sim, sim! Só esta palavra mesmo. A Cultura da Mídia dita e é ditada pelo C-O-M-P-O-RT-A-M-E-N-T-O. De Coca-Cola à Madonna, marcas e estilos permanecem vivos durante gerações justamente porque perceberam que esse tal de comportamento evolui e se altera durante o passar dos anos. Não fosse assim, pararíamos no tempo e ainda estaríamos munidos de fraudas como vestuário e chupetas como acessórios. Mas cada pessoa evolui, passa a ter novas necessidades e passa a integrar grupos que, constantemente, precisam se adequar às regras de nossas cruéis selvas de pedra globalizadas. Cito como exemplo os telejornais. Após anos de um tom mais formal e padronizado, eles vêm se adaptando a uma linguagem mais próxima de seus telespectadores, que tiveram suas preferências e comportamentos alterados pela interatividade da internet. Na música - essa que é talvez a mais democrática forma de expressão humana

Editores: Adriana Barbosa João Damasio Lucas Bittencourt Paula Máximo Vinícius Mesquita

Edição geral: Patrícia Drummond

-, pudemos ver uma minoria, com gosto alternativo à cultura de massa, movendo decisões políticas que ajudaram a levar um obsoleto Centro Cultural a ser reaberto. Nas telonas, os filmes nacionais mostram que, além de entreter, podem conscientizar, trazendo a todos uma realidade que poucos poderiam conhecer de outra forma. E se é pra falar de realidade, o que dizer dos jornais no período de regime militar? Driblaram a censura por mais de uma vez e mostraram que a cultura da mídia é feita, também, por vontade própria e não por abrupta imposição. A imprensa ajudou a mostrar que a característica midiática fundamental é jamais se silenciar ... É aí que se entende todo o organismo dessa mídia. E, se notar bem, poderá ver que células chamadas ‘você’ constituem esse sistema. Pois a cultura mídiática é, ao mesmo tempo, de todos e de ninguém. Única e cheia de multiplicidades. Singular e plural. Não se cala. Se adapta. Conscientiza e até faz minorias terem voz. Muitos sabem disso e fizeram desse conhecimento uma ferramenta. Quanto a você ... É o seu conhecimento sobre ela que poderá decidir em qual lugar ficará nessa engrenagem toda.

Diagramação: Rodolfo Cardoso Thaís Rocha

Supervisão: Flávio Gomes


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Goiânia, 2011/1

Araguaia

A cultura da internet como estilo de vida

Por Jéssyca Évelin e Wanderson Thomaz. Heber Alves da Silva é auxiliar administrativo e tem 36 anos. Três décadas de vida que foram suficientes para presenciar a revolução cultural causada pelas novas mídias. Quando nasceu não existiam computadores pessoais nem telefones celulares. Hoje, ele não sai de casa sem o notebook na mochila e, por isso, se assume como usuário frenético de internet e mídias sociais. Conectado à internet cerca de dez horas por dia, Heber não abre mão de estar online aonde quer que vá. No clube, na faculdade, no carro, nas viagens e até mesmo em festas. “Sempre arranjo tempo para checar os recados no Facebook, Sonico, Orkut e em outros sites de relacionamento”, diz. O auxiliar administrativo comenta que isso interfere positivamente em sua vida: “Acho que é importante estar sempre disponível para todos da minha rede de amigos. Antigamente, não era tão fácil assim. Hoje, quando acesso a internet, logo encontro as pessoas com quem preciso falar e escolho os conteúdos que quero consumir”. Heber interage no meio social, mantém contatos profissionais e pessoais através das redes virtuais. “Descobri as redes sociais há mais ou menos seis anos,

“Com a internet, o planeta Terra é uma espécie de liquidificador de culturas, que aos poucos começa a se movimentar” Marcus Minuzzi, doutor em Ciências da Comunicação quando criei minha primeira conta em um site chamado MySpace e, desde então, não me imagino longe dessa mídia”, declara. Jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS/ RS), o professor Marcos Minuzzi, da Faculdade Araguaia, atesta que, de fato, o surgimento de novas mídias resultou em uma transformação cultural. “A mediação da internet gerou novas formas de ser e agir, transformou o princípio de cada indivíduo de ampliar seu arco de influência, expandindo-o para as redes sociais”, avalia o especialista. “Temos a sensação de companhia mundial, de um estar junto que é muito mais intenso. Para o ser humano, nada é mais importante do que ter a consciência da não solidão”, acrescenta.

Auxiliar administrativo, Heber Alves da Silva: sempre conectado. Convergência midiática Para concorrer com a agilidade da internet, as mídias tradicionais tentam se adaptar e, neste processo, a sociedade emerge em um volume enorme de conteúdos vindos de todos os meios. Na opinião do professor Marcus Minuzzi, a tendência é convergir. E, para ele, a convergência midiática, nesse sentido, representa uma transformação cultural “sem precedentes na história”. “A internet é um campo de batalha que permite, de forma mais suave, uma luta entre civilizações com seus respectivos valores culturais. O que diferencia a internet de outras mídias é que ela permite que as culturas se misturem e se influenciem mutuamente, de modo mais fácil”, argumenta Minuzzi. Heber é um exemplo claro do que diz o doutor em Comunicação. Ele representa a geração que consome todos os conteúdos em um só lugar, onde todos os meios podem convergir: na internet. “Neste momento, com a internet, o planeta Terra é uma espécie de liquidificador de culturas, que aos poucos começa a se movimentar”, analisa o professor Marcus Minuzzi, ao falar sobre o mito de que os meios de comunicação convencionais podem ser ‘engolidos’ pela rede mundial de computadores. Mais que convergir: socializar Assim como o auxiliar administrativo Heber Alves da Silva, muita gente participa das redes sociais para manter contato com os amigos. Mas há também quem as utilize como um eficiente meio de informação. Por que acessar conteúdos nas páginas de notícias se podemos ler este conteúdo e já interagir com ele por meio das redes sociais? Como usuário destas novas mídias, Heber acredita que a internet possibilita mais acesso às tecnologias e notícias. “Uso a internet como fonte de informação. Conectado

nas redes sociais o dia todo me mantenho atualizado com as notícias. Mas também acesso portais de notícias como Terra. com e G1.com”, destaca. No aspecto cultural, Heber ressalta a facilidade do acesso. “Hoje em dia, a informação e as redes sociais são mais populares, tudo deixou de ser elitizado como no início. Também percebemos isso nas operadoras de telefonia, que fazem pacote de dados para acesso à internet em celular a partir de 50 centavos por dia”, aponta o auxiliar administrativo. O analista de mídias digitais Marcos Borges enxerga a convergência nas redes sociais de forma mais ampla que simples tecnologia: “As redes sociais sempre existiram, mas só agora acordamos para elas. Acredito que teremos redes cada vez mais segmentadas, com dados cada vez mais precisos, fazendo parte de vários contextos do cotidiano. Fazer parte de uma rede social será tão comum quanto ter uma carteira de identidade”, prevê. Marcos exemplifica quão longe já chegaram essas transformações. “As redes sociais ajudam muito no aspecto profissional. Há cinco anos não faço um currículo e, quando me pedem um, logo digo: ‘entra no meu site’. Quer currículo melhor do que um portfólio, página no Facebook, vídeos produzidos ou marcados como favoritos no YouTube? O currículo em papel já morreu. Novos negócios, parcerias, relacionamentos e projetos nascem da interação que mantemos com as mídias digitais e, nesse caso, as possibilidades são ilimitadas”, ressalta o profissional. “Precisamos da interação das redes sociais. Você e eu já nascemos comunicando, chorando aos quatro cantos e chamando a atenção. Em parte, já nascemos jornalistas”, compara. Marcos conclui que, frente às transformações no modo de agir das pessoas, “conteúdo nunca vai faltar”. Ele espera, contudo, “que não faltem profissionais para tanto.”


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Goiânia, 2011/1

Araguaia

Com que roupa? A mídia responde. Ultrapassando

as fronteiras da mídia

Por Keila Nunes. Sempre escutamos por aí que o corte de cabelo da atriz de novela está na moda. Passa, então, a ser o mais copiado nos salões de beleza. Uma roupa, uma cor, várias cores. Basta aparecerem na televisão para fazerem sucesso entre as mulheres que querem estar na moda. Isto é a influência da mídia na vida das pessoas. Muitas tendências são lançadas por cantores, atores e famosos. Estes ídolos são admirados e imitados por seus fãs, que utilizam roupas, corte de cabelo, sapatos e trejeitos similares. O que está cada vez mais comum em nosso cotidiano. Em entrevista, a psicóloga Janete Capel Hernandez afirma que muitas pessoas deixam-se influenciar pela mídia voluntariamente. “Essas pessoas buscam constantemente serem aceitas pela sociedade, vivem à procura de uma autoafirmação”, diz ela. “A mídia domina a vontade das pessoas para que elas consumam uma falsa identidade, agindo no desejo e no inconsciente. Quando nos comparamos com alguém da mídia, consumimos, e isso é bastante rentável”, avalia a especialista, que acrescenta: “Já que você não tem o corpo parecido com o daquela pessoa famosa, nem a pele, diga-se de passagem, tratada pelo Photoshop, você acaba comprando o shake, a sopa, o creme, o esfoliante e tudo o mais para ver se consegue ficar o mais parecido possível”. A vendedora e gerente da loja Rosa Brasil, Katiuscia Silva, de 27 anos, assume que convence suas clientes ao explicar que a roupa que está vendendo foi usada por determinada celebridade na TV: “Nossas roupas são vestidas por várias mulheres famosas, um exemplo é esta blusa que a apresentadora do Fantástico, Patrícia Poeta, usou no último domingo”. Sabendo que Patrícia Poeta é uma celebridade que se veste muito bem e é copiada pelo seu público, Katiuscia faz questão de dizer isso às consumidoras para tentar garantir a venda. Consumidora compulsiva assumida, Kênia Nunes (foto), 19, afirma que gosta de assistir aos programas de TV e novelas que têm maior audiência somente para copiar os looks das famosas. Com esse objetivo, mantém o hábito de ler revistas femininas para sempre estar por dentro das últimas tendências. “Ler revistas e assistir programas de grande audiência é meu hobby, não apenas para ficar sempre bem informada, mas também para estar antenada à moda”, ressalta. A jovem argumenta, ainda, que sempre procura copiar as famosas por ter medo de errar em suas escolhas e para estar sempre elegante.

Por Thaís Rocha.

“Leio revistas e assisto programas de grande audiência para estar antenada à moda” Kênia Nunes Universo masculino Mas não são somente as mulheres que andam imitando as celebridades. O corte de cabelo do cantor Justin Bieber virou moda no mundo inteiro. Marca registrada do artista, é inspiração para muitos fãs que lhe copiam o visual e o estilo. “Levei uma fotografia do Justin Bieber para o cabeleireiro fazer um corte igual”, admite Lucas Andrade, de 14 anos, dizendo acreditar que o cantor faz sucesso em suas conquistas amorosas por causa do estilo e do corte de cabelo. Todos devem lembrar da febre que as calças coloridas causaram no ano de 2010. Esse tipo de roupa lembra o estilo emo, mas quem usa a calça não necessariamente adota a filosofia dessa tribo. As calças coloridas viraram moda após serem usadas pelo cantor Fiuk na produção global Malhação e pelos meninos da banda Restart, que se tornaram bastante populares, assim como seus respectivos figurinos. Na maioria dos sites de marcas de roupa, calçados, jóias e acessórios, entre outros artigos relacionados à moda, o ícone ‘mídia’ já integra, com destaque, o menu de acesso - é onde todo e qualquer mortal pode visualizar o que os famosos vestem. E copiar. Não há como negar: faz parte da cultura da mídia o poder de ditar regras, transformar guarda-roupas, construir estilos de vida e influenciar diretamente no comportamento das pessoas. E você, até que ponto é influenciado pela mídia na hora de escolher com que roupa?

Em 2010, o filme Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro , tornou-se o responsável pela maior bilheteria da história do cinema nacional. Mais de 10,7 mil espectadores assistiram ao filme. O longa-metragem, dirigido por José Padilha, é um recorde de influência que ultrapassou os limites da mídia e fez com que o cinema brasileiro alcançasse prestígio internacional. Diferentemente do primeiro filme da série, Tropa de Elite 2 deixa um pouco da violência dos morros do Rio de Janeiro para mostrar, em pleno ano eleitoral, a face das milícias e da política brasileira. Como afirma o próprio Padilha, “o filme trata da relação entre segurança pública e financiamento de campanha. Faz ligação entre a segurança e a política”. Tropa de Elite 2 conseguiu conciliar cinema da melhor qualidade - com um ponto de vista narrativo bem definido, personagens ricos e bem desenhados - e uma mensagem forte, capaz de provocar grande impacto no público. “Poucas vezes o cinema brasileiro mostrou de forma tão clara a realidade do país”, atesta o blogueiro e jornalista Luciano Trigo, responsável pelo blog Máquina de Escrever, um olhar crítico sobre literatura, cinema e artes plásticas. Para Luciano, o próprio tema pode explicar o sucesso do longa metragem. “É um tapa na cara do telespectador”, afirma ele, assinalando que o filme contribui para que a sociedade “abra cada vez mais os olhos para a verdadeira origem de toda a violência no Brasil”. A influência do filme sobre a sociedade é tanta que chega a mudar a visão da polícia do Rio de Janeiro, principalmente com relação aos policiais do BOPE, agora vistos como heróis nacionais. A Revista Veja, inclusive, dedicou, à época, uma capa ao longa, destacando o heroísmo em nível nacional de seu protagonista, Coronel Nascimento. As grandes feridas expostas do povo brasileiro diante da violência também podem explicar a boa aceitação do filme. Assim como outras produções brasileiras que defenderam causas e abordaram problemas sociais - como Cidade de Deus e Central do Brasil - Tropa de Elite 2 mostra que o cinema tem um papel fundamental de conscientização e que, quando traz à tona realidades tão próximas à ficção, tende a influenciar o comportamento e a cultura da sociedade.


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Goiânia, 2011/1

Araguaia

ENTREVISTA - Telejornais para um novo público? Por Gissely Martins. O Jornal Araguaia convidou o jornalista, cineasta e professor Márcio Venício para uma rápida entrevista, em que o objetivo é entender melhor como os telejornais têm se adaptado ao novo comportamento e exigência de seus telespectadores. Há alguns anos a audiência dos telejornais já não é mais tão concentrada. Novos meios de transmitir informação ganharam espaço, mudando assim, a maneira de se levar a notícia até a sociedade. Editores, produtores e reporteres vêm buscando diferentes maneiras para trazer esse público novamente para perto da TV? Márcio Venício: Sim, o que se observa de alguns anos pra cá é essa preocupação dos veículos com a audiência. Meu trabalho hoje é voltado mais do que nunca com audiência qualificada. Muitas vezes pesa a diferença

de pontuação de uma emissora pra outra e isso afeta também a credibilidade do telejornal. Não adianta fugir, o bom jornal é aquele que vende melhor. Empresa voltada pra comunicação é a que tem audiência, hoje tudo depende muito disso. Os telejornais veículados por volta do meio-dia possuem um público bastante diversificado. Existe algum grupo de pessoas em específico que sempre é considerado na hora de se fazer uma reportagem? Márcio: Claro. No próprio Jornal Anhanguera 1° Edição há uma atenção muito grande voltada para mulher. Elas tem assistido mais jornal do que o homem. Não faço uma pauta pensando no que vale ou não a pena mostrar e sim em quem está assistindo aquele telejornal e tem interesse naquele conteúdo. Os jovens têm na internet uma maneira mais próxima e interativa de buscar informações. O telejornal tem alguma preocupação em

especial com este público? Márcio: Eles tem uma participação efetiva no JA 1ª Edição. Lá, temos um quadro que se chama “perfil jovem”, totalmente voltado para eles. Os temas são relacionados as suas necessidades como o desejo de ter seu primeiro carro, como tirar a carteira de motorista, e ate o comportamento destes jovens nas ruas. Com uma abordagem mais próxima fica evidente que você consegue segurar o público em termos de audiência. A audiência, em geral, do telejornal também passou a ser repensada? Márcio: Há necessidade de se trabalhar com reportagens voltadas ao interesse de um público mais amplo. Indo diretamente ao encontro das necessidades de moradores dos bairros mais afastados. Assim esse público vai se sentir mais identificado com seu programa gerando audiência e exercendo inclusive o chamado jornalismo comunitário.

O corvo diz nunca mais

Por João Damasio.

Ícone mundial do mau agouro, o corvo vem de longe. De 1845. Quando nem mídia existia. Ele vem atazanar o século XXI com sua famosíssima elocução transcrita por Edgar Allan Poe: “Disse o corvo, ‘Nunca mais’.” Clamores pretéritos não encorajam a juventude que só ouviu o corvo. Os jovens dos anos 60, velhos de hoje em dia, nos dizem: Não há nem sinal das frases de outrora, a juventude morreu! Isolados em qualquer boate, os tatuados e os roqueiros não gritam mais o hino pinkfloydiano, Another brick in the wall. Ah, esses roqueiros de hoje em dia curtem frases curtas, ritmos mansinhos... E repetem “Que você me adora e que me acha foda”, como grito de guerra. Tem base? De que nos valeu a Diretas Já nos anos 80 ou a Eco 92 e o Protocolo de Kioto? Afinal, hoje o mundo explode em corrupção e desmatamento e os jovens não estão nem ai. Ouvi dizer que existe o Coletivo Jovem de Meio Ambiente, mas para eles a saída é educação ambiental. Que educação ambiental que nada! O certo é punir e castigar os destruidores da Amazônia! Não é? E eles ainda me chamam de ignorante. Antigamente, havia movimentação e protesto dos Black Powers e dos punks. Já hoje, não vejo mais do que esses jovenzinhos calça-pintada, na vibe de

roupas coladas e coloridas a la Restart (que é isso mesmo hein? Ah, sim, uma banda pop!). Prossigamos. Para finalizar, o pessoal ainda vem me dizer que hoje em dia, tudo você pode fazer pela internet. Melhorar o mundo pela internet? Ah, tenha dó! Outro dia me contaram que existe um site chamado www. avaaz.org e que, a partir dele, milhões de pessoas se manifestavam. Mas cadê as

cornetas? E as faixas enormes? Não vão mais sair às ruas? Bom, dizem que isso tudo é só uma forma diferente de se manifestar num tempo de transformações midiáticas, mas, por enquanto, acho que alguém tem que falar, alguém tem que bradar. Eu só ouço o corvo dizer que nunca, nunca mais irei reencontrar aquele tempo... E no fim das contas, eu sou o corvo.


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Goiânia, 2011/1

Araguaia

Tecnologia para enfrentar o trânsito Por Honória Diets.

Depois de ficar parado por duas horas nas ruas de Goiânia, Rodrigo Kono criou o @transitogo no Twitter, uma verdadeira ‘mão na roda’ para motoristas

Avenida T-8 congestionada, Marginal Botafogo impossível, acidente na BR-153, sentido São Paulo – Brasília, trânsito parado nas imediações da Praça do Cruzeiro. Estas expressões não são somente reclamações dos usuários do trânsito de Goiânia. São mensagens trocadas diariamente através do Twitter por mais de 3 mil motoristas da capital goiana. O trânsito de Goiânia é um dos grandes problemas enfrentados pela população. Aqui, a frota de veículos é, proporcionalmente, uma das maiores do País: um automóvel para cada adulto com idade para ter a carteira de habilitação. Soma-se a esta demanda, o grande número de motociclistas, estacionamentos em locais inadequados, excessivas rotatórias e a falta do uso da grande mídia no serviço de orientação aos condutores, como ocorre na maioria das metrópoles brasileiras, onde o rádio oferece informações úteis em tempo real. Com a ineficiência do poder público para solucionar os problemas do trânsito, os próprios motoristas goianos buscam meios para diminuir os transtornos. O empresário da área de tecnologia e informação, Rodrigo Kono, teve a iniciativa de usar a rede social

Twitter como instrumento de avisos de incidências no trânsito. Por meio do perfil @transitogo, milhares de participantes transmitem avisos rápidos e precisos em tempo real sobre o andamento das diversas áreas da Capital. O empresário diz que a ideia de usar o Twitter como ferramenta colaborativa surgiu depois que ficou parado durante quase duas horas em um congestionamento, no ano de 2010. Segundo ele, o objetivo principal é retransmitir todas as informações registradas pelos usuários, tais como engarrafamentos, acidentes, problemas com semáforos e outras situações que podem comprometer a fluidez do trânsito. Ele ressalta que o diferencial do uso desta conta é o fato de os usuários serem agentes ativos. “Os adeptos não são apenas meros receptores de mensagens, mas colaboradores que fornecem informações sobre as vias de tráfego”, argumenta Kono. Para o médico cardiologista Marcos Rocha, que sempre precisa de agilidade no trânsito, a leitura das mensagens do perfil ajudam a realizar seu trabalho em tempo hábil. “Atento aos alertas do @transitogo, me oriento na escolha das melhores alternativas para conseguir atender os pacientes nos

hospitais das diferentes regiões em que trabalho”, relata. Já a estudante Mayara Christina Lima - que ainda não tem habilitação para dirigir -, diz sentir-se uma “co-pilota”, pois é ela quem acessa o microblog enquanto o pai dirige. “Como participante do @transitogo, mesmo não estando ao volante, posso contribuir na escolha do melhor trajeto, bem como evitar alguns aborrecimentos no trânsito”, conta a jovem. Papel da mídia Com exceção da TV Anhanguera, nenhum outro veículo de comunicação oferece informações ou imagens ao vivo sobre as condições do tráfego em Goiânia. Recentemente, a emissora instalou câmeras em dois pontos estratégicos da Capital: um, na Avenida Jamel Cecílio, com alcance para mostrar trechos da BR-153, GO-020 e Estádio Serra Dourada, e, outro, no cruzamento das Avenidas Araguaia e Independência, com alcance à Federação da Indústria do Estado de Goiás (FIEG), Marginal Botafogo e Aeroporto Santa Genoveva. Trata-se do Sistema de Monitoramento de Trânsito, que faz parte do projeto de


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Goiânia, 2011/1 digitalização da televisão e disponibiliza imagens das principais avenidas e locais de grande movimentação na cidade. Funciona 24 horas, nos sete dias da semana. As imagens são transmitidas ao vivo pelos telejornais da emissora e colaboram nas escolhas e mudanças de rotas por parte dos motoristas. O coordenador da central de mídias da TV Anhanguera, Marcelo Nogueira Campos, afirma que esta prestação de serviço contribui para o aumento da audiência. “O telespectador gosta de sentir-se integrado a tudo que acontece na comunidade, além da comodidade de saber como está o trânsito antes de sair de casa”, atesta. Oficial A Agência Municipal de Trânsito de Goiânia (AMT) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que também está prevista a criação de uma conta oficial no Twitter para o órgão, que servirá para divulgar as ações da Prefeitura na área e também funcionará como “Central de Congestionamento”. Por enquanto, a AMT disponibiliza o e-mail amt@ amt.goiania.go.gov.br e o telefone 156 para reclamações e sugestões da população. No entanto, a reportagem do Jornal Araguaia fez o teste e não conseguiu falar no número de telefone indicado, mesmo tentando em dias e horários diversos. A população de Goiânia cresceu muito além da previsão de 50 mil habitantes para a

Novo CD da banda Black Drawing Chalks - Live in Goiânia. Já à venda!

Araguaia qual foi projetada pelo seu fundador, Pedro Ludovico Teixeira. No entanto, a estrutura urbana não acompanhou a explosão demográfica dos 77 anos de existência. A cidade dispõe de algumas vias de circulação rápida e viadutos, mas o trânsito não suporta os 800 mil veículos da cidade somados aos ônibus e aos inumeráveis carros vindos do interior do Estado. As autoridades públicas reconhecem os problemas e têm vários projetos, como o metrô de superfície e ciclovias. No entanto, alegam dificuldades financeiras para a execução de grandes obras. Na avaliação do engenheiro civil Renato Mundim, mestre em transportes pela Universidade de Brasília (UnB), é ilusório pensar em soluções sem intervenções na estrutura da cidade e na melhoria e ampliação do transporte público. Enquanto não acontecem as melhorias e nem o uso das mídias convencionais de maior alcance - como o rádio -, os próprios gestores públicos utilizam a rede social Twitter para esclarecimentos. Como foi o caso do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, que, no dia 26 de março de 2011, respondeu várias reclamações dos motoristas: “Tem serviços que não podem esperar, tenha tolerância, por favor, e obrigado pelo aviso”, tuitou ele. Atitudes de cooperação Embora os membros do @transito representem menos de 1% dos motoristas

goianienses, o uso desta ferramenta mostra, além do domínio da tecnologia, avanço nas relações humanas, pois o sistema exige cooperação mútua. E esta nova postura de vida é contraditória à ideologia defendida pela mídia, pois ela atua na construção das ideias sobre as melhores formas de locomoção e, por meio da publicidade, difunde o conceito de liberdade e individualismo atrelados ao uso de veículos automotores, entre tantos outros. Prova disso é que a maioria dos carros circula com apenas um ocupante, ou seja, o próprio condutor. As redes sociais como instrumento de comunicação entre os motoristas da região metropolitana de Goiânia modifica a ação dos mesmos, pois socializam os problemas e dão dicas de caminhos e vias de tráfego. O depoimento do bancário Filismino de Oliveira é um dos exemplos desta atitude de colaboração: “Depois de trinta anos dirigindo sozinho, agora, com o Twitter do @transitogo, sinto-me acompanhado por milhares de pessoas e tenho a boa sensação de pertencer a uma coletividade”, comenta. Ele revela que, por sua vez, já parou o carro diversas vezes para enviar mensagens informando a situação das vias por onde passa. Cooperação mais que saudável, que poderia se estender a outros setores do tumultuado dia a dia do goiano ...


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Goiânia, 2011/1

Araguaia

Coluna do Esporte

Ronaldo S/A Vinícius Mesquita Editor de Esportes

“Entre o marketing e o espetáculo, o que realmente importa?” Cristiano Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo (ufa!), Kaká, Messi, Kobe Bryant, Alex Rodrigues (baseball) Tom Brady (jogador de futebol americano e marido de Gisele Bündchen)... Esses, sem dúvida, são alguns dos astros que recebem as maiores cifras do esporte mundial, o que os transforma em uma espécie de empresa. Ronaldo, o Fenômeno, é um

dos maiores astros que já surgiram, esportiva e mercadologicamente falando. Estampou e continua a estampar várias ações de marketing que proporcionam aos seus parceiros valores que poucas pessoas são capazes de atrair. Ele, com certeza, não reflete a realidade da maioria dos atletas. Você com certeza já se deparou com produtos e comerciais de TV que relacionam a imagem das estrelas a alguma marca. Esses atletas são carismáticos, talentosos, exibem corpos musculosos e, algumas vezes, são bonitos. Ou seja, são o modelo ideal que o marketing procura. Eles são capazes de gerar receitas espetaculares, e as empresas sabem disso. O grande problema é que, no meio esportivo, uns ganham muito, mas muito mesmo, e ganham porque podem ganhar e fazem por onde. Porém, a maioria ganha pouco, e uma parte dessa maioria ganha menos ainda. A desigualdade de dividendos entre um superatleta e um atleta comum - na minha opinião de articulista e torcedor apaixonado - é prejudicial em vários fatores. Em primeiro lugar, porque cria um abismo social no Esporte, gerando uma queda de qualidade competitiva. Por quê? Simples:

os grandes utilizam os melhores equipamentos do mercado, enquanto que, os comuns, usam o que o seu próprio dinheiro pode comprar - na maioria das vezes, equipamentos de segunda linha. Penso que os atletas devem, sim, ganhar bons salários, mas tudo passa por diminuir essa diferença exorbitante entre a maioria - que recebe valores irrisórios, não condizentes a com sua atuação profissional - e a ‘elite’ do mundo esportivo marqueteiro. Uma solução? Boa pergunta! Acho que começa pela união dos próprios atletas em suas associações, reivindicando um teto salarial ou um piso que diminua esse abismo, além de uma política, por parte das federações, de investimento em atletas mais humildes e uma adequação do fundo de aposentadoria para quem ganha a vida se dedicando ao esporte. Se não houver uma mudança, quem perderá, aliás, é o próprio esporte. A criação de grandes astros é importante e essencial para a área, mas, ultimamente, o marketing tem mandado bem mais que a qualidade do espetáculo esportivo. E entre o marketing e o espetáculo, o que realmente importa? Não é preciso ser especialista para responder.

Jornal Araguaia  

Jornal dos alunos do 4º período de Jornalismo da Faculdade Araguaia (2011/1).

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