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POESIA CUNCO POEMAS DE MANUEL BANDEIRA

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Poema de uma quarta-feira de cinzas

Pierrot Branco

Pierrot Místico

Atrás de minha fonte esquálida, Que em insônias se mortifica, Brilha uma como chama pálida De pálida, pálida mica...

Torna a meu leito, Colombina! Não procures em outros braços os requintes em que se afina a volúpia dos meus abraços.

Entre a turba grosseira e fútil Um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil Feita de sonho e de de4sgraça.

Não a acendeu a ardente febre, Ai de mim, da consumpção hética Que esgalga até que um dia quebre A minha carcaça caquética!

Os atletas poderão dar-te O amor próximo das sevícias... Só eu possuo a ingênua arte Das indefiníveis carícias.

O seu delírio manso agrupa Atrás dele os maus e os basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques.

Nem a alumiou a fantasia Por velar de rúbido pejo Aquela agitação sombria Que em pancadas de mau desejo

Meus magros dedos dissolutos Conhecem todos os afagos Para os teus olhos sempre enxutos Mudar em dois brumosos lagos...

Nublada a vista em pranto inútil, Dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil. Feita de sonho e de desgraça...

Tortura o coração aflito sugere requintes de gozo por concriar - sonho infinito – o andrógino miraculoso!

Quando em êxtase os olhos viro, Ah se pudesse, fútil presa, sentir na dor do meu suspiro A minha infinita tristeza!...

A chama que em suave lampejo A esquálida tez me ilumina, Não a ateou febre nem desejo, - Mas um beijo de Colombina.

Insensato aquele que busca O amor na fúria dionisíaca! Por mim desamo a posse brusca. A volúpia é cisma elegíaca.

Rondó de Colombina

A volúpia é bruma que esconde Abismos de melancolia... flor de tristes pântanos onde Mais que a mote a vida é sombria.

De Colombina o infantil borzeguim Pierrot aperta a chirar de saudade. O sonho passou. Traz magoado o rim, Magoada a cabeça exposta à umidade.

Minhalma lírica de amante Despedaçada de soluços Minhalma ingênua, extravagante, Aspira a desoras de bruços

Laou o orvalho o alvaiade e carmim. A alva desponta. Doi-lhe a claridade Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim Levou-a! e dobra o desejo à maldade De Colombina.

Não às alegrias impuras. Mas a aquelas rosas simbólicas De vossas ardentes ternuras, grandes místicas melancólicas.

Epílogo Eu quis um dia, como Schumann, compor Um carnaval todo subjetivo: Um carnaval em que o só motivo Fosse o meu própio ser interior... Qaundo o acabei, - a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor, E de frescura, e de mocidade... E o meu tinha a morta mortacor Da senilidade e da amargura... - O meu carnaval sem nenunha alegria!...

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O seu desencanto não tem um fim. Pobre Pierrot! não lhe queiras assim. Que são teus amores?... - ingenuidade E o gosto de buscar a própria dor. Ela é de dois?... pois aceita a metade! Que essa metade é talvez todo o amor De Colombina... ISSN: 2357-8335

Retirados do livro Carnaval.

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CARTA AO LEITOR

SUMÁRIO

A Paraíba comemora durante o corrente ano o centenário de nascimento de uma das figuras mais expressivas do cenário intelectual de nosso Estado, que foi escritor, poeta, cronista, historiador, biógrafo, arquivista, editor, bibliófilo, atuando em diferentes veículos da imprensa local, aliando toda essa atividade cultural ao seu mister de eficiente, diligente e dedicado servidor da Caixa Econômica Federal. A Eduardo Martins, esse multifacetário homem das letras e da cultura paraibana, GENIUS presta sua homenagem, na passagem dos cem anos de seu nascimento, reproduzindo o lúcido pronunciamento do Acadêmico José Octávio de Arruda Melo, no momento em que a APL comemorou a memorável data. Também nesta edição, alertada pela onda de nacionalismo que varre o mundo, GENIUS publica dois importantes trabalhos sobre a matéria. Um, de autoria de Professor Ivan Colangelo Salomão, trazendo-nos uma perspectiva história do nacionalismo brasileiro, indo fundo nas suas origens, para melhor conhecimento da matéria. Outro trabalho, não menos profundo, mas, sobretudo, original, revela-nos um “nacionalismo musical”, por meio do qual se manifesta a batalha travada nos anos 30 em que os meios artísticos nacionais se empenharam na luta contra o fado português, considerado ameaçador do domínio do samba bem brasileiro, luta da qual participou com denodo o compositor Orestes Barbosa, que entendia o fado como simples “coisa de português”. Tudo isso nos é revelado por Adalberto Paranhos, com seu trabalho “Nacionalismo musical: o samba como arma de combate ao fado no Brasil dos anos 1930”. Finalmente GENIUS, nesta edição, saúda o aparecimento do livro ERNANI SÁTYRO – AMIGO VELHO – Uma Biografia”, de autoria do nosso Diretor e Editor, Flávio Sátiro Fernandes, lançado no dia 4 de dezembro do corrente ano, na Fundação Casa de José Américo, nesta Capital. O acontecimento constituiu-se em um verdadeiro congraçamento cultural, tantos foram os que se fizeram presentes, dentre acadêmicos, escritores, professores, magistrados, admiradores do biógrafo e do biografado. A apresentação da obra foi feita pelo Dr. Bertholdo Sátyro e Sousa, Desembargador do Trabalho Aposentado (TRT-Brasília), filho do biografado, tendo o autor do livro feito uso da palavra, logo em seguida. Em outro local reproduzimos ambos os pronunciamentos. A sessão foi presidida pelo Professor Damião Ramos Cavalcanti, Presidente da Fundação Casa de José Américo. Nas páginas desta edição de GENIUS, além da reprodução das falas, se acham estampados vários flagrantes da reunião sócio-cultural e da noite de autógrafos ocorrida logo em seguida ao lançamento do livro. Através delas, de tudo terá ciência o leitor.

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CINCO POEMAS DE MANOEL BANDEIRA

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EDUARDO MARTINS E O CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA José Octávio de Arruda Mello

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NACIONALISMO BRASILEIRO EM PERSPECTIVA HISTÓRICA Ivan Colangelo Salomão

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NACIONALISMO MUSICAL: O SAMBA COMO ARMA DE COMBATE AO FADO NO BRASIL DOS ANOS 1930 Adalberto Paranhos

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UM CONGRAÇAMENTO CULTURAL Equipe GENIUS

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“DEVEMOS TER TOLERÂNCIA UNS COM OS OUTROS” Bertholdo Sátyro e Sousa

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UM HOMEM PÚBLICO ARREBATADO Flávio Sátiro Fernandes

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BEM AVENTURADO TU, ERNANI Evaldo Gonçalves O ERNANI DE FLÁVIO SÁTIRO Gonzaga Rodrigues O AMIGO VELHO DE FLÁVIO Francisco Gil Messias

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DE FLÁVIO SÁTIRO PARA ERNANI SÁTYRO: “AMIGO VELHO” Mário Tourinho

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TENHO UMA HISTÓRIA PARA TE CONTAR AMIGO VELHO Thomas Bruno Oliveira

Até breve!

Novembro/Dezembro/2018 - Ano VI Nº 34 Uma publicação de LAN EDIÇÃO E COMERCIO DE PERIÓDICOS LTDA. Diretor e Editor: Flávio Sátiro Fernandes (SRTE-PB 0001980/PB) Diagramação e arte: João Damasceno (DRT-3902) Tiragem: 1.000 exemplares Redação: Av. Epitácio Pessoa, 1251- Sala 807 – 8º andar Bairro dos Estados - João Pessoa-PB - CEP: 58.030-001 Telefones: (83) 99981.2335 E-mail: flaviosatiro@uol.com.br Impresso nas oficinas gráficas de A União Superintendência de Imprensa e Editora

Capa: Equipe GENIUS

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ISSN: 2357-8335

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COLABORAM NESTE NÚMERO: 4

ADALBERTO PARANHOS [Nacionalismo musical: o samba como arma de combate ao fado no Brasil dos anos 1930] Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia.

GONZAGA RODRIGUES [O Ernani de Flávio Sátiro] Escritor e jornalista. É considerado o cronista maior de nossa imprensa. Segundo os que com ele convivem, é a amarra que lhe impede maiores voos. É membro da Academia Paraibana de Letras.

BERTHOLDO SÁTYRO E SOUSA [“Devemos ter tolerância uns com os outros”] Desembargador Aposentado do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-Brasília). Ex-Presidente da SAELPA, Ex-aluno da Escola Superior de Guerra (ESG).

IVAN COLANGELO SALOMÃO [Nacionalismo brasileiro, em perspectiva histórica] Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

EVALDO GONÇALVES DE QUEIROZ [Bem aventurado tu, Ernani] Escritor, articulista, historiador, membro da Academia Paraibana de Letras, da Academia de Letras de Campina Grande e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Político, exerceu os cargos de Deputado Estadual e Deputado Federal. Presidiu a Assembleia

JOSÉ OCTÁVIO DE ARRUDA MELO [Eduardo Martins e o Conselho Estadual de Cultura] Historiador de ofício, segundo se classifica, com doutorado em História Social pela USP, em 1992. Integrante do IHGB, IHGP, APL, API e Centro Internacional Celso Furtado. Professor aposentado da UFPB, UEPB e UNIPE. Autor de várias obras sobre a história da Paraíba.

FLÁVIO SÁTIRO FERNANDES [Um homem público arrebatado] Professor aposentado e Conselheiro, também aposentado, do Tribunal de Contas do Estado. Escritor, jornalista, ensaísta, romancista, poeta, membro da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Diretor e Editor desta revista. FRANCISCO GIL MESSIAS [O Amigo Velho de Flávio] Procurador da Universidade Federal da Paraíba, cronista e poeta.

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MÁRIO TOURINHO [De Flávio Sátiro para Ernani Sátyro: “Amigo Velho”] Administrador Profissional. Superintendente da Associação de Empresas de Transporte Coletivo de João Pessoa (AETC). Articulista na imprensa paraibana.

THOMAS BRUNO OLIVEIRA [Amigo Velho, tenho uma história para te contar] Escritor, professor, pesquisador, membro do Instituto Histórico de Campina Grande, Membro da Sociedade Paraibana de Arqueologia.


CULTURA EDUARDO MARTINS E O CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA (*) José Octávio de Arruda Mello (*)

Sumário: O modelo dos notáveis. Dificuldades e ressurreição do Conselho. 3. Eduardo Martins e o CEC. 4. Uma contribuição para a História. 5. Na dinâmica do Conselho. 6 Do editor ao livro. 7. Nas despedidas do conselho, Bibliografia pela ordem de referências. O modelo dos notáveis - Foi durante o Governo Pedro Gondim, em meados de 1965, que se constituiu o Conselho Estadual de Cultura da Paraíba. Sensível a processo a que favoreceu, em termos de teatro, música, Imprensa, artes plásticas, bibliotecas, cinema, literatura e história, Gondim intuiu a necessidade de organismo coordenador desse esforço criador. Em outras palavras, impunha-se articular sistemática que, dotada de ônibus próprio e recursos do Plano de Extensão Cultural, já ensejava positivos resultados. Estes, ao longo do período 1963/5, expressavamse nas Semanas de Teatro do Santa Rosa, documentário cinematográfico Aruanda, de Linduarte Noronha, experimentos musicais dos maestros Luzia Simões e Pedro Santos, disseminação de Bibliotecas pelos bairros de João Pessoa, Porteiro do Inferno, de Jackson Ribeiro, publicações literárias de A União, Galerias de Arte, cineclubes, e conferências do centenário de Epitácio Pessoa. Essas iniciativas revestiam-se de feição esparsa, pontual. Datou daí o imperativo de ultrapassá-las, mediante modelo orgânico, mais racional e menos improvisado. Esse o objetivo do Conselho de Cultura cuja gestação se operou na Subchefia da Casa Civil do Governador onde seu titular, jornalista Carlos Romero, liderando o suplemento literário Correio das Artes, respondia pelas demandas culturais do gondinismo. Inspirado no padrão dos Conselhos Federal de Cultura, e Estaduais de Pernambuco e Bahia, a nova entidade consagrou o chamado mode-

lo dos notáveis. Começou a partir de posse no Palácio da Redenção, composição do ministro José Américo, escritores Oscar de Castro e Virginius da Gama e Melo, musicista Luzia Simões, professores Afonso Pereira e Arael Costa, e teatrólogo Altimar Pimentel. O Conselho encerrava, igualmente, feição corporativa, na medida em que doutor Oscar representava a Academia Paraibana de Letras, Virginius, a Associação Paraibana de Imprensa, Afonso e Arael, a Universidade, Luzia Simões, o grupo musical e Altimar, o segmento teatral. Essa composição também tornou-se fugaz, de maneira que em princípios de 1966, ante a nova administração, o CEC, em cuja presidência Virginius substituira a Oscar, com a Sra. Zuleide Ribeiro Rodrigues, na secretaria geral, afirmou-se com Oscar de Castro e Humberto Nóbrega, pela UFPB, Higino Brito, pelo segmento literário, Wills Leal, pelo cinema, Vanildo Brito, pelas Ciências Sociais, Hugo Moura, pela Comissão Estadual de Folclore e Paulo Melo, pela Diretoria Geral de Cultura. A cidade de Campina Grande viu-se contemplada com cadeira ocupada pelo sociólogo Lopes de Andrade, logo substituído pelo conselheiro Evaldo Gonçalves, egresso do Conselho de Educação. Dificuldades e ressurreição do Conselho – Ante o encerramento, em 1966, do Governo Pedro Gondim, o Conselho Estadual de Cultura mergulhou em dificuldades. Isso porque o novo governador João Agripino esvaziou o organismo, ao transferir as Letras e Artes para a duvidosa Secretaria de Assuntos Extraordinários, onde seu titular, Noaldo Dantas, se preocupava mais com o turismo e a louvação das mil obras da nova administração que com a cultura em si. Nesses termos, o Conselho somente recobrou espaço ao final do quinquênio agripinista quando o Secretário Francisco Arruda Fontes

retomou as Noites de Cultura, de resumo das atividades culturais, ao final do ano, e publicação do boletim Paraíba Cultural, confiado à diligência de Wills Leal. Na sequência do processo, a cultura paraibana, e com ela o respectivo Conselho, experimentou melhores dias. O governo era agora exercido por intelectual – Ernani Sátyro - cujo titular de Educação e Cultura, José Carlos Dias de Freitas, de reconhecida operosidade e competência, comparecia a todas as reuniões do órgão, realizadas em casarão da esquina das Trincheiras com a Rodrigues de Aquino. Desde 1972 que, elevando para treze, o número de integrantes, o Conselho de Cultura decompunha-se em três câmaras – de Artes e Ciências Humanas, Letras, e Patrimônio Histórico e Cultural, que lhe asseguravam funcionalidade. Sua dinâmica encontra-se toda nos seis números de Paraíba Cultural que, todavia, não vêm ao caso. Eduardo Martins e o CEC – Isso porque nosso tema consiste em Eduardo Martins. Agraciado com Menção Honrosa da Quinta Noite de Cultura, em 1972 o principal intérprete do Jornal A União ingressaria no Conselho Estadual de Cultura, em 1979, por iniciativa do Secretário João Maurício de Lima Neves, dos melhores da pasta. Convocando a, entre outros, Chico Pereira Júnior, José Octávio, Fernando Teixeira e Wellington Aguiar, Lima Neves, a quem o engenheiro Sebastião Vieira ofereceu continuidade, respondeu por uma das melhores fases do Conselho. A palavra de ordem consistiu em entrosá-lo com a sociedade civil, descer ao interior e aproveitar as efemérides do calendário Humberto Nóbrega, elaborado no início das atividades do colegiado, para levantamento de fontes e não exaltação apologética dos acontecimentos culturais.

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Foi com essa diretiva que a década de oitenta registrou o V Festival de Arte de Areia, responsável, segundo Wills Leal, por completa reorientação do certame. Centenário do Presidente João Pessoa e Cinquentenário da Revolução de 30, IV Centenário da Paraíba, de 1983 a 85. Início da auspiciosa série Biblioteca Paraibana, (re)editando alguns dos principais títulos da bibliografia paraibana, e realização dos primeiros Seminários Paraibanos de Cultura Brasileira (SPCB), reunindo alguns dos maiores intelectuais brasileiros, em Ciências Sociais. Além disso, sob a direção da conselheira Elizabeth Marinheiro, o período assinalou, em Campina Grande, os apoteóticos Congressos Brasileiros de Teoria e Crítica Literárias, acompanhados dos Seminários Internacionais de Literatura. Três fatores contribuíram para essa pulsão cultural: Presença do teatrólogo Raimundo Nonato, à frente da Diretoria Geral de Cultura, como gatilho do CEC, desde que um discutia e o outro executava, disponibilidade do Grupo José Honório Rodrigues, apoiado pelo Secretário e posteriormente Governador Tarcísio Burity, e assessoria discreta, porém, efetiva, de Eduardo Martins. A bem da verdade, na fase áurea dos anos oitenta e noventa do século passado, a cultura paraibana girou toda em torno do Conselho de Cultura. E durante sua maior parte, lá estava Eduardo Martins que, caladão, mas atento e participativo, não faltava a uma só das reuniões semanais do órgão. Era dos primeiros a chegar para versar trabalhos como a biografia de Argemiro de Sousa que sua sobrinha Diana Martins de Assis se encontra na obrigação de encontrar. Falava pouco, mas vinha sempre com a palavra exata em tudo que dizia. Primava pela propriedade das colocações. Uma contribuição para a História – Quando de sua chegada ao Conselho, em 1979, Eduardo Martins, a par de sólida contribuição poética, já se fazia senhor de três obras de peso – Carlos Dias Fernandes – Notícia Bibliográfica (1976), A União, Jornal e História da Paraíba – Sua Evolução Gráfica e Editorial (1977) e A Tipografia do Beco da Misericórdia – Apontamentos Históricos (1978). A sequência biográfica vinha forrada por Allyrio Meira Wanderley, em verdade seu discurso de posse na Academia Paraibana de Letras (1971), Coriolano de Medeiros – Notícia bibliográfica (1975) e Elyseu Elias César (também de 1975). O melhor deles reservar-se-ia a 1983, em plena floração do Conselho, com o esplêndido Peryllo Doliveira – Obra Poética, “coligida, anotada e precedida de um estudo bibliográfico do autor por Eduardo Martins”.

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Sem quase sair à noite, Martins, como o denominavam os colegas da Caixa Econômica Federal da Paraíba, onde trabalhava os dois expedientes, tinha no Conselho Estadual de Cultura verdadeiro laboratório de suas produções. Isso porque nele amadurecia colocações, vertidas para o papel, assim chegava em casa. No ano do ingresso no C. E., lançou um dos estudos que mais me agradam, pela temática e tratamento da matéria – Cardoso Vieira e o Bossuet da Jacoca (notas para um perfil biográfico), 1979. Fugindo ao paroquialismo de outros pesquisadores, ofereceu dimensão nacional e universal ao escravismo de que se ocupa. Tanto que, em A Escravidão na Paraíba – Historiografia e História – Preconceitos e Racismo numa Produção Cultural (1988), situei seu biografado ao lado de Saldanha Marinho, Belfort Duarte e José Mariano, “como um dos integrantes do apregoado Clube da Reforma de Zacarias, Nabuco de Araújo e Paranaguá”. Na dinâmica do Conselho – Analise-se a produção de Eduardo Martins e ver-se-á ter sido pouco antes e durante sua presença no Conselho de Cultura que ela mais se intensificou. Isto por uma razão. A frequente solicitação dos colegas para sucessivas empreitadas. Como um deles, aproveitei o centenário do Presidente João Pessoa, a que coordenava em bases inteiramente novas – um dos títulos foi o discutido Agora a Verdade sobre os Fatos de 1930 (1979), de Manuel Duarte Dantas, irmão do matador de Pessoa para solicitar-lhe o exato João Pessoa através de suas Mensagens Presidenciais (1978). Prefaciando-o, Osias Gomes louvou a nova moldura do pessoísmo, com a observação de que “o bronze sozinho não bastava”. Espécie de conselheiro ad hoc do centenário de Pessoa, Eduardo Martins nele desdobrou-se. Quando, com a bibliotecária Ana Maria Pereira, da Casa de José Américo, levantei o catálogo João Pessoa e a Revolução de 30 – Exposição Bibliográfica e Fotográfica (1978), preparado para a Biblioteca Central da UFPB, passei tardes inteiras na residência de Eduardo, recorrendo a sua biblioteca. Foi então que minha esposa e colaboradora Amável Mello espantou-se com o conteúdo da residência da mata de Jaguaribe, livros e coleções de jornais até na sala de jantar. Do editor ao livro – Antigo livreiro da cidade baixa, e por isso editor dos mais esmerados, Eduardo Martins aproveitou, magnificamente, sua passagem pelo Conselho Estadual de Cultura. Em 1980, o V Festival de Areia ensejou-lhe estudos sobre José Lins do Rego, patrono do certame, centenário do escritor maman-

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guapense José Vieira, e a respeito de José Américo cujo A Paraíba e seus Problemas ensejara momentoso seminário nacional, em setembro do ano anterior. A Eduardo Martins coube, através de A União Editora, produzir três livros que calçaram aquelas jornadas. Produzir é o termo exato porque, partindo das recomendações do Conselho, o compilador preparava-os e, depois, os editava. Foi assim que no primeiro trimestre de 1980 saíram, em rápida sucessão, José Lins do Rêgo – o Homem e a Obra, o romance, Vida e Aventura de Pedro Malazartes, de José Vieira e a terceira edição revista de A Paraíba e seus Problemas, de José Américo de Almeida. O sinete martineano reponta nítido em todos eles. Mesmo em José Lins do Rego onde a introdução cabe a José Américo, Martins oferece o tônus da coletânea pelo criterioso levantamento das vinte e quatro primeiras edições das vinte e oito publicações de Zé Lins, e ainda conceitos críticos, capas, depoimentos e reportagens. Também destinada ao V Festival de Areia, a segunda edição de Vida e Aventura de Pedro Malazartes recuperou José Vieira graças a cuidadosa Notícia Bibliográfica do produtor/ editor que não esqueceu “orelha” de Joaquim Ribeiro, filho de João Ribeiro, o maior de todos. A semelhança de perfil entre Eduardo e Vieira chega a explicar a eficácia do tratamento desse por aquele. Enfim, e devido ao labor de EM, despontou a terceira edição de A Paraíba e seus Problemas, a mais completa de todas. Os anteriores prefácios do autor e também os de Jackson de Figueiredo e Josué de Castro firmam contraponto para o de José Honório Rodrigues, correspondente à terceira edição e acompanhado de posfácio de Tarcísio Burity e nota introdutória de José Octávio. Duas outras saliências pontuam esse exemplar de 1980. Colocação de José Honório, situando, por via do cangaço, a antecipação, em José Américo, da teoria do banditismo social de Hobbsbawn, e envoltório alaranjado das capas de Eduardo Martins, retratando, pela alusão ao sol, o acento telúrico da obra. Nas despedidas do Conselho – Apesar da eficácia de sua contribuição, a passagem de Eduardo Martins pelo Conselho Estadual de Cultura encerrou-se, com alguma rapidez, em princípios da década de noventa do século passado. É que, nessa, o novo Secretário de Educação e Cultura entendeu de reformular o Conselho do qual passaram a fazer parte os chamados conselheiros institucionais como delegados dos organismos estaduais de cultura Casa de José Américo, FUNESC, IPHAEP e Diretoria Geral de Cultura aos


quais se incorporaram a Fundação Ernani Satyro, de Patos, e dois representantes de Cajazeiras, pelo alto sertão do Estado. Se a providência representou conselheiros do nível de Antônio Alcântara, Itapuan Botto, Lourdes Ramalho, José Romildo de Sousa e ainda Carlos Galvão, Rômulo Azevedo e Donaciano P. Donato Júnior, sendo que terceiros como Cláudio Santa Cruz e

Damião Ramos vieram depois, não alcançando Eduardo Martins, este e Wilson Seixas viram-se afastados. Ambos significavam a vertente historiográfica, já contemplada com outras luminares. Ainda assim, Eduardo continuou colaborando com o Conselho. Quando da montagem da Biblioteca Paraibana, como uma das melhores iniciativas do colegiado, acudiu com

várias raridades das obras escolhidas, para consumação dos títulos. Nisso outra mensagem do intelectual cujo centenário ora registramos. Para contribuir com a cultura não se torna indispensável pertencer às instituições estatais. O fundamental, como na lição de Eduardo Martins da Silva, consiste em agregar-se às ciências, letras e artes, em seus pluralismo e inteireza. g

BIBLIOGRAFIA PELA ORDEM DAS REFERÊNCIAS Entrevista com o ex Conselheiro Wills Leal em agosto de 2018, seguida de conversação com o ex vice Presidente do CEC, Chico Pereira Jr. Setembro de 2018. Arquivos do Grupo José Honório Rodrigues, depositados em João Pessoa com especialidade para as pastas do Programa Antena Política da Rádio Arapuan, 1961. Arquivos do Jornal A União, localizados no Distrito Industrial de João Pessoa, período 1961/5. SANTOS, Alex. Cinema & Revisionismo. João Pessoa: DGC/SEC, 1982. MELLO, José Octávio de Arruda. “Paraíba. Síntese Histórica e Evolução Cultural” in História da Paraíba. Lutas e Resistência. 13ª Ed. João Pessoa: A União, 2014. COSTA, Raquel Arcoverde Nicodemos da (org.). Centenário de José Pedro Nicodemos – Ensaios. João Pessoa: Ideia, 2016. LEAL, Wills (org.) Boletins Paraíba Cultural de números I a VI, com os de número IV e V, geminados, sd, correspondentes a 1970, 1, 2, 3,4 e 1975. _______________ Festival (de) Areia e/ou Festival (em) Areia in Revista do VI Festival de Arte Areia. João Pessoa: DGC/SEC, 1981, p. 416. MELO, Oswaldo Trigueiro de Albuquerque. Galeria Paraibana. João Pessoa: Conselho Estadual de Cultura / SEC, 1998, com relação de alguns títulos da Biblioteca Paraibana, os catorze primeiros dos quais organizados por Gonzaga Rodrigues e os restantes por Chico Pereira Júnior. Relatórios dos Seminários Paraibanos de Cultura Brasileira, e IV Centenário da Paraíba in Arquivos de Grupo José Honório Rodrigues. MARINHEIRO, Elizabeth (org.) Série Momentos de Leitura, Vivência, de 1977 a 89, com as produções dos Congressos Brasileiros de Cultura Literária, efetivados em Campina Grande. MARTINS, Eduardo - Peryllo, d’Oliveira. Era Poética. João Pessoa: A União Cia Editora, 1983, com relação das edições organizadas por Eduardo Martins. As produções deste encontram-se em Cardoso Vieira e o Bossuet da Jaroca da DGC/SEC, em 1983. MELLO, José Octávio de Arruda. A Escravidão na Paraíba. Historiografia e História. João Pessoa: A União, 1988, p. 55/6. _________ João Pessoa e a Revolução de 30 – Exposição Bibliográfica e Fotográfica, com a colaboração de Ana Maria Gonçalves Pereira para a Biblioteca Central da UFPB, 1978. Revistas Paraíba Cultural, nº 9, 10 e 11, bastante estilizadas e organizadas por Chico Pereira Júnior, para o Conselho Estadual de Cultura, em 1994, 5 e 6. Sempre associadas às respectivas Noites de Cultura (anuais). (*) Exposição proferida a 09 de novembro de 2018 na APL, em sessão alusiva ao centenário de Eduardo Martins.

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CIÊNCIA POLÍTICA NACIONALISMO BRASILEIRO EM PERSPECTIVA HISTÓRICA (*) Ivan Colangelo Salomão 1. Introdução A historiografia tradicionalmente reserva a designação desenvolvimentista – tanto em sua fase nacionalista, quanto na associada ao capital estrangeiro – à política econômica empregada após a década de 1930, em especial, aos governos Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Do ponto de vista da experiência histórica, há, portanto, relativo consenso entre os analistas de que se trata, o desenvolvimentismo, de um fenômeno vivenciado no século XX. Partindo-se do pressuposto de que, em suas origens, três foram as correntes as quais se amalgamaram para a formação do desenvolvimentismo – a saber, nacionalismo, industrialização e papelismo –, este trabalho propõe-se a sistematizar a história do nacionalismo no Brasil. Mais antiga vertente formadora do pensamento desenvolvimentista, as primeiras manifestações nativistas remontam ao período colonial. Este nacionalismo embrionário se expressava, àquele período, através de revoltas regionais as quais se opunham a todo tipo de opressão inerente do pacto colonial. E foi justamente este caráter localista que as impediu de serem caracterizadas, neste primeiro momento, como um processo consciente e de envergadura coletiva. Se durante a vigência do exclusivo metropolitano as rebeliões nacionalistas estiveram envoltas em uma aura política – com destaque para os levantes que antecederam a chegada da Corte portuguesa e o consequente rompimento do monopólio colonial –, foi a partir do início do Segundo Reinado que o movimento incorporou um viés mais econômico em suas reivindicações, substituindo o antigo inimigo externo pelo embate contra os grupos sociais que aqui o representavam.1 A despeito da saliente intersecção com cau-

sas paralelas observadas no decorrer do regime imperial, o movimento nacionalista ainda não defendia a industrialização como viria a ocorrer mais nitidamente a partir da proclamação da República. Conquanto as pautas destes dois grupos pudessem ser coadunadas em diferentes situações, observar-se-á que a quantidade não desprezível de nuances entre ambas recomenda ao analista a separação metodológica dos temas até, pelo menos, meados do século XX. É neste sentido que Lima (1988) afirma ter havido não apenas um tipo de nacionalismo, mas, sim, várias de suas versões. A fim de se atingir o objetivo proposto, dividiu-se o artigo em quatro partes, além desta breve introdução. Na seção dois, discorre-se acerca dos mais relevantes movimentos nativistas do período colonial e do Império. A seguir, apresentam-se alguns dos principais autores pertencentes ao chamado “nacionalismo agrário”. No próximo ponto, abordam-se intelectuais que compuseram o grupo do chamado “nacionalismo autoritário”, já no início do século XX. Por fim, tecem-se as considerações finais. 2. Raízes históricas do nacionalismo brasileiro A eclosão das primeiras manifestações nacionalistas respondeu a motivações diversas no decorrer da história do Brasil; da luta contra a escravatura à insatisfação com a baixa qualidade de vida da população nativa. Ainda assim, a concatenação cronológica do transcorrer histórico faz com que tais eventos tornem-se passíveis de alguma sistematização metodológica. A periodização oferecida por Sodré (1960) corrobora este entendimento ao pressupor em três os distintos momentos do nacionalismo brasileiro: os levantes que precipitaram a Inde-

pendência, a movimentação que precedeu a proclamação da República e, por fim, a articulação que desembocou na chamada “Revolução brasileira” de 1930. Não obstante tenham se restringido a agitações pontuais no tempo e no espaço, não se deve negligenciar a contribuição das chamadas revoltas nativistas para o despertar da consciência nacional. Ao se oporem, na maioria das vezes, à opressão tributária e ao sistema de privilégios atinente ao mercantilismo português, várias foram as tentativas de se contrapor ao poder discricionário com que a Coroa tolhia o desenvolvimento da economia brasileira, conforme será exposto a seguir. 2.1 Da emancipação política ao anticlímax monárquico A interrelação existente entre os fenômenos políticos e os de natureza econômica delineou a movimentação que culminou com a independência do Brasil. Fruto indireto da ideologia burguesa que se alastrava a partir da Europa, a emancipação do país respondeu à necessidade de expansão do mercado consumidor requerida pela Revolução Industrial, a qual se chocava frontalmente com a manutenção da prerrogativa comercial lusitana. Neste sentido é que se pode afirmar que a revolução tecno-produtiva inglesa veio a oferecer as condições que faltavam para que o pacto colonial fosse finalmente rompido. Em sua obra clássica sobre a Independência brasileira, Costa (1982) enfatiza a interligação entre a crise do sistema colonial e o crepúsculo do capitalismo comercial. A objeção inglesa aos monopólios de que gozava Portugal forçou D. João VI a adotar medidas liberalizantes as quais exacerbaram as divergências entre os luso-brasileiros e as elites

Trabalho originalmente publicado em Dimensões, v. 39, jul.-dez. 2017, p. 244-265. ISSN: 2179-8869. Neste sentido é que Lessa (2008, p. 243) reitera a funcionalidade da ameaça estrangeira para o fortalecimento da retórica nacionalista: “A mais óbvia matriz de nacionalismo surge quando, sendo necessário para o Estado Nacional defender território e povo, é alavancado o temor, ou seja, o nacionalismo surge como escudo, alimenta a sensação de pertinência a um corpo especial, para o popular ameaçado em seus direitos.”

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lisboetas. Assimilado de modo diferente pelos dois lados – para os metropolitanos, almejava-se cercear os poderes do monarca; para os colonos, ansiava-se pela liberdade comercial –, o liberalismo atuou como um verdadeiro catalisador no processo de emancipação do país. A transposição da Coroa portuguesa para o Rio de Janeiro consagrou-se na literatura como o início do movimento de Independência do Brasil. A consequente ruptura do monopólio comercial, por sua vez, inaugurou o processo que transferiria à Inglaterra a subserviência política e econômica antes dedicada a Portugal por imposição do exclusivo metropolitano. Por este motivo é que se deve analisar este evento de maneira conjugada aos acontecimentos os quais vieram a desembocar no 7 de setembro de 1822. Tratou-se da Abertura dos Portos às Nações Amigas2, em janeiro de 1808, o primeiro ato deste longo enredo, o qual estabelecia inicialmente uma tarifa geral ad valorem de 24% sobre todas as importações. Já em 1810, com a celebração do Tratado de Comércio e Navegação, o príncipe português outorgava uma tarifa de 15% aos produtos importados da Inglaterra, de 16% aos portugueses e de 24% aos demais. E, após a Independência, o governo imperial ainda assinou acordos comerciais com várias outras nações europeias, estendendo-lhes o mesmo tratamento, medidas que praticamente alienaram a ex-metrópole ibérica do comércio exterior brasileiro. Uma década depois, a eclosão da Revolução Liberal na cidade do Porto, em 1820, foi o evento que, finalmente, precipitou a sucumbência do pacto metropolitano. As lideranças do movimento, cientes do domínio político, militar e econômico que a Inglaterra passara a exercer sobre Portugal, trataram de propagar o ideário liberal com o fito de livrar o país do jugo britânico, e não propriamente com o de recolonizar o Brasil, conforme se alardeava no Rio de Janeiro. Diante da exigência do retorno de D. João VI a Lisboa imposta pelos revoltosos portugueses, o Príncipe Regente abandonou o país e abdicou do trono em nome de seu herdeiro, um jovem de apenas 22 anos de idade. Na nova sede do Reino, o chamado Partido Brasileiro, composto por latifundiários, burocratas e líderes da maçonaria, exigia a permanência do príncipe herdeiro no Brasil, a quem caberia assumir a chefia do país prestes a se emancipar. Conforme destaca Faoro (2001), a exacerbação do debate entre as elites dos dois lados do Atlântico, no início dos anos 1820, emoldurou a sucessão dos acontecimentos os quais culminaram no dia do Fico (9 de janeiro de 1822) e, meses depois, no suposto Grito do Ipiranga. A interpretação histórica da independência brasileira dividiu os autores desde as primeiras

publicações contemporâneas. Para Francisco Adolfo Vernhagen, um dos pioneiros entre os historiadores brasileiros, o rompimento do pacto colonial caracterizou-se muito mais pela continuidade do que pela ruptura com o sistema até então vigente. Opinião semelhante teceu o monarquista Manuel Oliveira Lima, para quem a Independência não passou de um “desquite amigável”, uma vez que se mantiveram as estruturas sociais do regime anterior, com destaque para a escravidão e a monarquia. No entendimento de Sérgio Buarque de Holanda, não houve associação direta entre a emancipação política e o surgimento de um sentimento pátrio, contrariando a opinião de José Honório Rodrigues, para quem a Independência pode ser interpretada como o florescimento de uma nova consciência nacional. Entre as duas visões dicotômicas, Fernando Novais e Carlos Guilherme da Mota propuseram uma leitura equidistante ao afirmarem ter se tratado, o Sete de setembro, do “início de uma longa ruptura” a partir da qual emergiu, paulatinamente, a concepção da nacionalidade brasileira (NEVES, 2011). Se o legado deste evento suscita divergências das mais variadas ordens, a excentricidade do caso brasileiro parece angariar determinado consenso. Para além do rompimento pacífico, porém longo e escalonado, a consagração de um regime monárquico, a ser encabeçado por um imperador europeu, tratou-se de um fenômeno único entre as ex-colônias latino-americanas. Depreende-se deste fato que, além da ínfima participação popular e da inexistência da figura do “povo brasileiro” durante todo o processo, a emancipação, seus condicionantes e suas consequências foram limitados ao que interessava às classes dominantes, apenas (SODRÉ, 1960). Nas palavras de Lessa (2008), a transferência da Coroa havia apenas “reciclado” e incorporado as antigas elites à Corte, afastando, assim, o risco de uma ruptura abolicionista e republicana. Conquanto formalmente emancipado, o Brasil levaria décadas para problematizar de forma autônoma os entraves políticos, sociais e econômicos herdados dos três séculos de colonização lusitana. A realidade do país recém-criado corroborava a ressalva de Hannah Arendt (1988), para quem os conceitos de “liberdade” e “libertação” não correspondem, na prática, à mesma situação: a “libertação pode ser a condição da liberdade, mas que não leva automaticamente a ela”. Deve-se a este hiato ao fato de que, mesmo independente, o país continuou economicamente subjugado ao exterior, motivo pelo qual se assistiu a uma série de novas revoltas nacionalistas as quais foram contidas somente na metade do século XIX.

2.2 As rebeliões nacionalistas no Brasil imperial (1822-1848) A emancipação política não atenuou os ânimos patrióticos que se viam aflorar desde o final do século XVIII. A onda de altercações observada após 1822 foi amainada somente ao final da década de 1840, já sob o reinado de D. Pedro II. Concentradas no período regencial, as sublevações não demonstravam um claro e unívoco viés nacionalista. Conforme observa Fausto (2009), nem todas se enquadravam numa moldura única, de modo que as peculiaridades regionais é que de fato delinearam tais manifestações. Em comum, verbalizavam a insatisfação social em relação às difíceis condições de vida a que se via submetida a população brasileira. Tão logo D. Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte, um levante iniciado em Olinda espraiou-se por diversos estados nordestinos, naquela que ficou conhecida como a Confederação do Equador (1824). Propagando ideais republicanos e federalistas, o movimento também apresentava um caráter nacionalista ao repudiar os benefícios de que desfrutavam os comerciantes portugueses nas cidades litorâneas da região. Tratava-se de uma clara continuação – mais popular e urbana, porém – da insurreição iniciada em 1817, a qual só seria totalmente debelada em 1848. Pernambuco tornava-se, assim, um centro liberal e irradiador das insatisfações sociais daquela região. Após a abdicação do monarca, uma série de novas rebeliões eclodiu pelo país.3 A descentralização política do decênio regencial (18311840), a qual incentivou a disputa entre as elites locais, respondeu pelo sincronismo das revoltas deste período. Dentre as que apresentaram alguma face nacionalista, as chamadas Setembrada e Novembrada, irrompidas, respectivamente, no Maranhão e em Pernambuco, inauguraram a era beligerante ainda em 1831, tendo por principal motivação o desarmamento, quando não, a expulsão dos portugueses que residiam nessas províncias. Mais longo enfrentamento bélico já ocorrido no Brasil – e cujos desdobramentos se fizeram assaz impactantes na política nacional –, a eclosão da Revolução Farroupilha (1835-1845) respondeu a uma confluência de motivos políticos e econômicos. Ainda assim, não se pode negligenciar a clara reivindicação nacionalista do movimento contra a política tarifária supostamente vantajosa ao charque importado da região platina. Ignorando as vantagens de que dispunha a produção estrangeira, baseada em mão de obra livre e em técnicas mais avançadas, os estancieiros gaúchos atentaram contra as tropas do governo imperial proclamando, por um curto

2 Deveu-se à imperiosidade das circunstâncias a maneira diligente com que D. João assinou o tratado quando a esquadra ainda se encontrava em Salvador, antes mesmo de aportar no Rio de Janeiro. Uma vez que o comércio ultramarino português havia sido praticamente interrompido pelas tropas francesas, não restava alternativa a um país tão dependente do setor externo, como era o Brasil colonial, que não a aceitação da “proposta” britânica (PRADO JÚNIOR, 1980). 3 Dentre as mais relevantes, podem-se destacar a Cabanagem (Pará, 1835), Sabinada (Bahia, 1837) e Balaiada (Maranhão, 1838) e as Revoluções Liberais (São Paulo e Minas Gerais, 1842).

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espaço de tempo, um governo autônomo. Considerada o último motim de vulto ocorrido durante o Império, a Revolução Praieira (1848) – cujo simbolismo fez-se ainda maior em virtude da concomitância com as diversas rebeliões democráticas que varriam a Europa naquele mesmo ano – também respondeu a insatisfações de naturezas distintas. Em que pese a multiplicidade das reivindicações, a causa nacionalista mostrou-se novamente presente ao incitar as manifestações antilusitanas que resultaram no assassinato de alguns comerciantes portugueses no Recife. As insubordinações observadas neste período capital da história brasileira vislumbravam a interposição de duas vertentes de pensamento, àquele momento, contíguas – nacionalismo e liberalismo, ideologias que viriam a empunhar causas divergentes décadas mais tarde. Somente após a estabilização política no Segundo Reinado é que surgiram, portanto, as bases para a consolidação de um pensamento verdadeiramente nacionalista com vistas ao desenvolvimento do país. 3. O nacionalismo agrário Faz-se relevante salientar que, naquele momento, nem toda manifestação nacionalista pressupunha obrigatória a industrialização como projeto de desenvolvimento econômico. A existência desta corrente de pensamento, a dos nacionalistas agrários, evidencia que a relação entre nacionalismo e indústria não foi coinci-

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dente nem linear ao longo da história. Dentre os autores dessa vertente, destacam-se, Américo Werneck (1855-1927), Alberto Torres (18651917), Oliveira Viana (1883-1951) e Eduardo Frieiro (1889-1982). Extrapolando o exercício de pensamento normativo, o nacionalismo agrário penetrava os domínios da moral, associando certo ufanismo à glorificação da natureza privilegiada do país. Ao aclamarem a vida rural como o destino da economia e da sociedade brasileira, delegavam os males da civilização ao processo de industrialização por que passava o país ao final do século XIX. A atuação do engenheiro fluminense Américo Werneck caracterizou-se pela plasticidade de seu pensamento. Abolicionista, militou pela revogação do cativeiro nos inúmeros periódicos nos quais atuou como jornalista. Após a queda do Império, elegeu-se deputado e ocupou alguns cargos na administração pública federal, sem alcançar uma posição de maior destaque político, porém. Como executivo, seu maior empreendimento foi a construção de um suntuoso balneário no município mineiro de Águas Virtuosas, para onde havia migrado em 1891, balizando o programa de urbanização da cidade de acordo com o modelo das estâncias europeias. A concepção econômica de Werneck consistia na harmonia entre os diferentes setores produtivos do país. Ainda que não considerasse excludentes as atividades agrária e industrial, o autor sugeria que o governo priorizasse o desenvolvimento da produção agrícola dada

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vantagem natural de que gozava a nação de território continental: “País novo, despovoado, de recursos limitadíssimos e de moeda depreciada, precisamos concentrar nossas forças em primeiro lugar na transformação do solo.” (apud LUZ, 1975, p. 90). Em que pese a sua clara inclinação à exploração das atividades primárias, Werneck não ignorava a relevância de se viabilizar as indústrias de base para o desenvolvimento do país. Ao reclamar abertamente a defesa do setor metalúrgico, “cujo desenvolvimento advogo há muitos anos, por ver nele a base do progresso nacional e do nosso edifício financeiro”, o autor demonstrava a necessidade de se fomentar, também, o estabelecimento de determinados setores fabris no país (apud CARONE, 1977, p. 28). O nacionalismo de Américo Werneck é caracterizado, desse modo, pela defesa da utilização de instrumentos que visassem à proteção moderada dos produtores brasileiros. Tratou-se o favorecimento dos fornecedores nacionais nos processos de licitação pública de uma de suas principais propostas. O prejuízo temporário em que incorreria o governo ao ver-se compelido a adquirir “por um ano ou dois uma mercadoria, talvez inferior a sua concorrente estrangeira”, seria plenamente recompensado pelo resultado obtido, uma “compensação larga e duradoura por alguns sacrifícios momentâneos.” (apud CARONE, 1977, p. 31). Diante da crise cambial que se abateu sobre a primeira década republicana, o autor propunha


que a única maneira de se reorganizar o sistema financeiro brasileiro seria valorizar a taxa de câmbio por meio da proteção alfandegária à indústria, a qual, diminuiria, por sua vez, as importações. Ainda assim, discriminava as que seriam merecedoras do amparo estatal daquelas que não se adaptariam à realidade econômica nacional, criadas, em sua maioria, “exclusivamente para a jogatina e a fraude.” (apud CARONE, 1977, p. 29). Evidencia a propensão agrarista de Werneck a clara distinção entre indústrias naturais e artificiais subjacente ao seu projeto de reforma tarifária. Conquanto protecionista, sugeria que o governo não deveria avalizar “as indústrias parasitárias, que nos impõem sacrifícios inúteis”, mas, tão somente, privilegiar a adoção de taxas as quais protegessem “principalmente a produção agropecuária.” (apud LUZ, 1975, p. 90). Tratou-se do jurista e jornalista Alberto de Seixas Martins Torres o mais consagrado intelectual deste grupo. Escritor prolífico, Torres foi o autor de maior impacto não apenas pela extensão de sua obra, mas também por seu aguerrido espírito militante. Suas críticas nasceram de desilusões vivenciadas no cotidiano da atividade política, passando da prática à teoria após ter exercido diversos cargos públicos.4 A primeira e, talvez, mais exacerbada de suas causas foi o seu patriotismo radical, o qual partia do princípio de que “todas as atividades exercidas por estrangeiros eram nocivas ao país.” Torres hostilizava os brasileiros urbanos por acreditar que as suas atividades beneficiavam os “países colonizadores” em detrimento da obra nacional. Xenófobo, opunha-se à entrada de imigrantes estrangeiros que aqui desembarcavam no bojo da política de substituição da mão de obra escrava (BARIANI JUNIOR, 2007, p. 4). O chauvinismo subjacente à sua concepção nacionalista chegava a beirar, em determinadas passagens, a ingenuidade panfletária à lá Policarpo Quaresma: “Somos um dos povos mais sensatos e inteligentes do mundo.” (TORRES, 1982b, p. 55). Para Torres, “nenhum povo tem melhores estímulos morais e mais alta capacidade moral que o nosso.” (TORRES, 1982a, p. 45). Acreditava, ainda, que o Brasil era “um país destinado a ser o esboço da humanidade futura.” (TORRES, 1982b, p. 135). A segunda de suas principais bandeiras era a valorização extremada da vida rural. Diante do processo urbanizatório que recém se iniciava no Brasil, exaltava as virtudes da realidade campestre em detrimento do cotidiano das cidades. Imobilizado em sua rígida dicotomia geográfica, atestava que a vida urbana era “fictícia e artificial”. Ufanista, enaltecia as matas vir-

gens, as riquezas naturais e a superioridade da vida do campo, sugerindo que o homem deveria “regressar ao trabalho da produção – as indústrias da terra”, pois o “Brasil tem por destino evidente ser um país agrícola: toda a ação que tenta desviá-lo desse destino é um crime contra sua natureza e contra os interesses humanos.” (TORRES, 1982a, p. 214). A originalidade e, àquele momento, a excentricidade de suas ideias marcaram a transição da hegemonia das doutrinas liberais – predominantes durante a República Velha – para a articulação de um ideário centralizador. Sua obra elevou-lhe a um dos pilares que embasou a formação do chamado pensamento autoritário da década de 1930. Trata-se, esta, da terceira característica marcante no pensamento de Alberto Torres: o autoritarismo que permeia sua concepção de sociedade parte da interpretação de que o Brasil era um país caótico e desorganizado. Imerso no influente conservadorismo fluminense, conforme descreve Fernandes (2007), acreditava que a democracia plena só poderia ser alcançada por meio de um Estado forte e centralizador. A responsabilidade indelegável deste ente onipotente era a de “formar o povo”, dever que extrapolaria as possibilidades de execução de uma democracia representativa: “Formar o homem nacional é o primeiro dever do Estado moderno.” (TORRES, 1982b, p, 229). Para tanto, o autor propunha a criação de um Poder Coordenador, cujo papel seria o de “construir, coordenar e organizar o país”, monitorando todas as suas esferas sociais. Do que se tratava para Torres, afinal, o “homem nacional”? O autor indicava que para se alcançar um patamar mais alto de desenvolvimento, o cidadão deveria possuir “fortes vínculos nacionais de civismo e patriotismo, base de uma consciência nacionalista que louvava a organização rígida do Estado.” (apud REZENDE, 2000, p. 38). O Estado como demiurgo da sociedade, portanto, pressupunha, implícita ou explicitamente, a tese de que “a sociedade civil é débil, pouco organizada, gelatinosa”, justificando, dessa forma, sua autoridade e supremacia na incumbência de balizar o progresso do país (IANNI, 2000, p. 57). A impossibilidade de se sistematizar o pensamento de diferentes autores em categorias herméticas reside no ecletismo temático de suas interpretações. Trata-se, este, do caso de Francisco José Oliveira Viana, aqui analisado como um nacionalista agrário cuja obra permitiria classificá-lo, porém, como um típico representante do nacionalismo autoritário dos anos 1930. Apesar de a questão nacional ter se tornado o objeto principal de sua produção intelectual,

Oliveira Viana ocupou-se de outros assuntos nem sempre a ela diretamente relacionados. Segundo Costa (1956), três foram os principais temas presentes em suas análises: o sertão, as raças e a centralização política. Apegado às coisas do campo, de onde raramente saía, Oliveira Viana representou a sociologia das grandes propriedades rurais: “Nós somos o latifúndio”, atestava o autor. Defendeu, ainda, a volta do homem ao campo e a distribuição de terras como meio de resolver os problemas do Brasil de seu tempo, embora não atribuísse a estas propostas um caráter normativo; apenas reconhecia a vida campestre como sendo a base da sociedade brasileira (WEFFORT, 2006, p. 262). O regionalismo herdado do modelo colonial teria atuado como uma barreira à afirmação de um sentimento nacional. Trata-se, esta, da premissa elementar a partir da qual o autor delineia toda sua obra. A impossibilidade de se criar um ideal nacional deveu-se à divisão fragmentária do território em capitanias, incentivando a ligação direta com a metrópole ao mesmo tempo em que a população se dispersava em núcleos regionais incomunicáveis: “Nada disto, nem sentimentos, nem estrutura são produtos de improvisação, e sim do tempo dos fatores históricos, dos fatores sociais, econômicos e agrários. Somos um país de baixa densidade demográfica de população dispersa e ganglionar.” (VIANA, 1999, p. 261). Por esse motivo é que o pensamento de Oliveira Viana pode ser classificado como agrarista. Segundo o autor, foi a população rural que constituiu as matrizes da nacionalidade e que singularizou a entidade do povo brasileiro. Viana sustenta que a gênese e o desenvolvimento da sociedade ocorreram a partir de uma configuração social fundamentalmente campestre, baseada no grande latifúndio, no trabalho escravo e nas relações de dependência pessoal. A dimensão continental do território brasileiro oportunizou a consolidação dessas “ilhas isoladas” e, por consequência, o desenvolvimento de sentimentos e representações regionais. A fim de se superar tais diferenciações localistas e de se criar um senso patriótico é que se faria necessária a instituição de um sistema político autoritário capaz de sobrepujar tais regionalismos. Neste sentido é que Viana defendia a centralização política e o estabelecimento de um organismo coeso e coordenado que conferisse um espírito coletivo e nacional ao país desintegrado.5 A seu ver, a federalização administrativa atuaria apenas no sentido de reforçar os laços de dependência e submissão dos homens livres aos proprietários de terra. Sua descrição do Brasil colonial desenvol-

4 Além da carreira intelectual, Alberto Torres exerceu os seguintes mandatos políticos: deputado estadual (1892-1893), deputado federal (1894-1895), ministro da Justiça (1895), governador do Estado do Rio de Janeiro (1898-1900) e, por fim, ministro do Supremo Tribunal Federal (1901-1907). 5 É neste sentido que o autor rechaçava o modelo republicano de governo, conferindo ao Império a responsabilidade não apenas pela manutenção da unidade territorial do país, mas também pelo “prestígio, grandeza [...] e uma longa fase de moralidade, legalidade, justiça, liberdade.” (apud CINTRA, 2011, p. 8).

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ve-se a partir do contraste entre a vitalidade do universo agrário e a estagnação das cidades empobrecidas. Aglomerações populacionais isoladas em um ambiente bucólico, a vida urbana era caracterizada pela dependência em relação aos latifúndios, representados como o legítimo núcleo da vida social brasileira. Neste contexto é que se fazia oportuna a emersão de um governo autoritário. Viana procura desmistificar a aura em que estava envolto o discurso liberal-republicano – inspirado por “ideais exógenos” à realidade brasileira –, procurando responsabilizá-lo pelas mazelas sociais. Indo além, atestava que aqueles que se insurgiram contra o antigo Poder Moderador não agiam em prol da liberdade política por ele supostamente negada, mas apenas reforçaram as tendências centrífugas de nossa formação social as quais embaraçavam a formação da unidade nacional. Embora simpático à centralização administrativa, Oliveira Viana não a considerava um fim em si mesmo. Tratava-se, apenas, de um meio através do qual o ente público ofereceria as condições necessárias ao esclarecimento da sociedade, a qual somente estaria apta a gozar das liberdades observadas nos países desenvolvidos se fosse previamente guiada pelo Estado. A visão edulcorada do autor em relação ao elemento rural entrelaçava-se à necessidade de um governo centralizador que se tornasse responsável pela formatação do legítimo, e único, sentimento nacional. Ao lado do sertanismo que emergiu e espraiou-se a partir do início do século XX, o pensamento autoritário ganhou nova forma e conteúdo nos anos 1920, vindo a se tornar a ideologia norteadora do grupo que ascendeu ao poder na década subsequente. 4. O nacionalismo autoritário Tornou-se consensual na literatura a associação entre a ideologia política do Estado Novo e o pensamento de autores como, além do próprio Oliveira Viana, Almir de Andrade, Azevedo Amaral, Francisco Campos, entre outros. Herdeiros de uma tradição intelectual conservadora cujas raízes remontam ao século XIX – tendo sido o Visconde do Uruguai e o Marquês São Vicente seus mais célebres representantes –, estes personagens influenciaram sobremaneira a estruturação do projeto varguista. Em comum, defendiam um regime político autoritário como o mais adequado à realidade brasileira e opunham-se ao caráter “exótico” da democracia liberal, considerada mera cópia dos modelos anglo-saxônico e francês. Um de seus mais ilustres propagandistas foi o médico por formação, e jornalista por ofício, Antônio José de Azevedo Amaral. Nascido em

1881, no Rio de Janeiro, Amaral veio a falecer precocemente, no mesmo município, aos 61 anos de idade. Defensor da intervenção estatal na economia, advogava a atuação do ente público como o único capaz de estabelecer um processo exitoso de industrialização. Assim como Oliveira Viana, Amaral também responsabilizou o liberalismo adotado pela elite agrária pela dificuldade de se criar um sentimento nacional entre os brasileiros. O primeiro traço característico de sua interpretação histórica reside no repúdio ao modelo de colonização lusitano.6 Diferentemente dos ingleses, os quais levaram a cabo uma estratégia que imprimia uma direção cultural e civilizatória permanente em suas colônias, os portugueses conduziram um processo de expansão ultramarino que teria se reduzido, em grandes termos, à mera extração de recursos naturais. Amaral retrata o Estado português através da figura caricata de um verdadeiro usurpador da riqueza nacional, reduzindo-o a um “parasita transatlântico”. A metáfora tornar-se-ia central em sua obra, pois à realidade a ela subjacente o autor creditou a origem do atraso brasileiro, invocando-a ao longo de toda sua narrativa histórica. A segunda e mais relevante característica de sua interpretação refere-se à visão economicista conferida ao fenômeno do desenvolvimento. Para Amaral, a identidade nacional seria concebida pela sua independência econômica, e não por uma determinada concepção política ou social. Em sua opinião, o processo de formação da nacionalidade brasileira já havia se desencadeado desde meados do século XVIII, quando se observou um primeiro surto industrial autóctone em Minas Gerais. O autor atribui relevância significativa ao empreendedorismo individual. Esta percepção reflete-se no destaque oferecido à trajetória de Irineu Evangelista de Souza (o Barão e, posteriormente, Visconde de Mauá), cujo retrato de industrial bem-sucedido opunha-se ao universo rural, dominado por uma classe retrógrada e refratária à modernização.7 Amaral delegava à livre-iniciativa da civilização anglo-saxônica o desenvolvimento econômico e político desta sociedade: não eram os clubs, as ligas e os sindicatos que o encantavam, mas a máquina a vapor, o telégrafo, as indústrias e as estradas de ferro que faziam da Inglaterra o arquétipo do futuro brasileiro (CINTRA, 2011). É neste sentido que o autor vinculava o nacionalismo à industrialização. Em sua perspectiva, apenas um projeto industrializante poderia conduzir o país à “verdadeira” independência nacional, incumbência, esta, que deveria ser necessariamente assumida pelo Estado: Uma Nação destituída de qualquer forma

de atividade industrial constitui verdadeiro contra-senso sociológico. Realmente se a ideia nacional envolve o conceito de uma existência autônoma [...] é evidente que uma sociedade obrigada a suprir-se fora de seu território dos artigos manufaturados de cujo consumo não pode prescindir é desprovida dos requisitos essenciais da organização nacional (AMARAL, 1930, p. 143). As forças do atraso ligadas ao mundo rural e às classes parasitas que se ocupam do Estado representavam o que Amaral classificou como “ameaça” ao projeto nacional. Neste sentido é que o autor exime a fragmentação política e social pela desintegração nacional, responsabilizando a ausência de uma coordenação econômica por este vazio de sentimento pátrio. Tratava-se, portanto, de eliminar o Estado político, vinculado ao Poder Legislativo, “inútil e anacrônico”, para que o Executivo moderno assumisse um caráter técnico e racional, coordenando as atividades produtivas, o processo de industrialização e o desenvolvimento econômico. Pode-se afirmar, desse modo, que autoritarismo e industrialização têm um sentido complementar no pensamento de Azevedo Amaral. Conforme destaca Abreu (2011, p. 3), estes elementos mantiveram entre si uma relação linear e dialética, “em que aquele (autoritarismo) seria uma condição para garantir a unidade nacional e instituir os órgãos necessários ao pleno desenvolvimento desta (industrialização), que, por sua vez, irá gerar a riqueza e consolidar a soberania do Estado nacional.” Ao Estado centralizador, representante dos interesses coletivos, caberia, portanto, coordenar o planejamento e o desenvolvimento econômico do país, desde que em harmonia com as “entidades representativas do empreendimento privado. A sua concepção intervencionista restringia-se, dessa forma, a estimular os investimentos privados, não devendo ser comparada ao dirigismo econômico dos estados totalitários. Além do meio e da raça, o autor também atribuía a fatores culturais, históricos e, principalmente, políticos o êxito econômico dos diferentes países. Evidencia-se, desta feita, sua concepção positivista: Azevedo Amaral não poderia ser classificado como um evolucionista típico, pois incumbia à atuação do homem a responsabilidade de transformar a realidade social, alterando, assim, o “vagaroso desenvolvimento evolutivo”, através do que foi por ele mesmo definido como “revolucionismo” (OLIVEIRA, 1982, p. 52). Assim sendo, observa-se que o nacionalismo de Azevedo Amaral baseava-se em uma clara leitura econômica acerca da atrasada realidade brasileira. Para se superar esta situação, far-se-ia

6 O viés racista de Amaral se evidencia quando, para além da questão econômica da colonização exploratória, o autor aborda a suposta inferioridade étnica do povo ibérico, uma vez que este se compôs pela miscigenação de “semitas e mouros” (AMARAL, 1935). 7 Diante do surto de industrialização que se verificava no Estado de São Paulo, Amaral revelava sua admiração pelo “espírito paulista”, o ethos econômico que fez com que ali surgisse e se desenvolvesse uma economia dinâmica e moderna. Era preciso, deste modo, difundir para o restante da nação esse espírito empreendedor (AMARAL, 1930).

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necessária, portanto, a atuação de um governo centralizador que lograsse balizar o desenvolvimento das forças produtivas sem a interferência de barreiras político-institucionais. A inclinação pelo fortalecimento do poder central foi compartilhada por outros intelectuais simpáticos ao regime discricionário liderado por Getulio Vargas.8 Tratou-se do jurista Francisco Luís da Silva Campos um de seus mais notáveis representantes. Nascido em 1891, na cidade de Dores do Indaiá, Minas Gerais, faleceu em Belo Horizonte, em 1968. Além de ter ocupado diversos cargos públicos9, Campos foi um dos responsáveis pela elaboração da Constituição brasileira de 1937 e pela redação do Ato Institucional número 1, de 1964. Francisco Campos é considerado o mais reacionário dos intelectuais ligados ao Estado Novo. De acordo com Medeiros (1978), pode-se sumarizar o seu pensamento em quatro vetores principais: “Uma visão apocalíptica da época; uma compreensão da sociedade moderna como sociedade de massa; uma concepção autoritária e antiliberal do Estado; e, por fim, uma apologia das elites, vislumbradas como agentes da história.” A esta concepção política estava diretamente relacionada sua visão depreciativa acerca da democracia de partidos, por ele considerada simbolicamente como a “guerra civil organizada e codificada”. O regime discricionário encetado após o golpe de 1937 foi positivamente interpretado como resultado de um imperativo de salvação nacional, já que o direito ao voto era pelo autor classificado como o “mito do sufrágio universal”. É nesse sentido que o regime ditatorial era tido como o caminho necessário para criar o verdadeiro sentimento nacional.

Em comum com outros intérpretes autoritários, Campos concebia “uma modernização do país de cima para baixo, prescindindo das mobilizações populares, especialmente quando não-controladas.” (FAUSTO, 2001, p. 46). Neste sentido, a legitimidade da atuação dos partidos políticos também passou a ser contestada pelo autor, que vislumbrava na democracia representativa uma ameaça ao bom funcionamento da máquina pública10: “Se a democracia de partidos já não comportava a luta política própria da época democrática e liberal, as novas formas de antagonismo político, peculiares ao nosso tempo, agravaram de modo impressionante os perigos que a democracia de partidos representa para a ordem e a paz pública.” (CAMPOS, 1942, p. 295). Justificava a sua concepção intervencionista no campo econômico o desequilíbrio intrínseco às forças de mercado. Enquanto as corporações representavam os interesses de seus controladores, tratava-se do poder público a institucionalização da justiça, de modo que a verdadeira licitude reclamada pela sociedade só seria encontrada sob os auspícios do Estado. Nos países em que a economia não se sujeitasse à regulação do governo, a liberdade se reduziria aos anseios dos mais poderosos, visto que, na ausência da justa arbitragem estatal, a medida da soberania passaria a ser a força. Em suma, o nacionalismo implícito ao pensamento de Francisco Campos faz-se presente no repúdio à livre atuação dos agentes políticos e econômicos. Ao incumbir o poder público pelo desenvolvimento do país em sua plenitude, o autor rechaçava a interferência externa neste processo, delegando somente ao Estado brasileiro a responsa

Considerações finais Liberais ou protecionistas, agraristas ou autoritários, o fato é que, em comum, os atores e autores nacionalistas acima apresentados influenciaram sobremaneira não apenas o pensamento de sua época, mas também a formação do ideário responsável pelo processo de industrialização levado a cabo no Brasil contemporâneo. A causa nacionalista envolveu a própria história da formação da identidade brasileira em seus mais diversos aspectos: político, social e econômico. O legado que estes homens e mulheres oferecem à constituição da noção brasilidade faz da análise de seu espólio tarefa obrigatória àqueles que se incubem da tarefa de alargar o entendimento acerca da realidade nacional. Ideologia subjacente aos principais momentos históricos da vida nacional, como as rebeliões emancipacionistas do final do século XVIII, o processo de Independência e a própria proclamação da República, o nacionalismo jamais abandonou a pauta do debate intelectual brasileiro; antes, ocupa espaço central na arena política e acadêmica atual. A despeito dos diferentes momentos por que passou e das distintas nuances que sempre a caracterizaram, a causa nacionalista não se notabilizou apenas por suas reivindicações próprias, mas também pelo embasamento que ofereceu a diversas outras manifestações políticas e intelectuais. Não se deve a outro motivo a sua consagração no prenome na ideologia que, aliada a outras ideias, viria posteriormente a formar: o “nacional”-desenvolvimentismo. g

8 A corrente nacionalista autoritária não esgotou o campo do pensamento conservador no Brasil do início do século XX, cujo espectro abrangia ainda a vertente fascista (Integralismo) e o denominado tradicionalismo católico, que teve em Jackson de Figueiredo e em Alceu de Amoroso Lima (o Tristão de Ataíde) seus nomes mais importantes (FAUSTO, 2001). 9 Eleito deputado estadual em 1919 e federal em 1921, assumiu o cargo de Secretário do Interior do governo mineiro em 1926 e o Ministério da Educação e Saúde em 1930. Já no Estado Novo, tomou posse no Ministério da Justiça em 1937 e, em janeiro de 1943, foi nomeado representante brasileiro na Comissão Jurídica Interamericana, cargo que exerceu até 1955. 10 De modo correlato, Campos também minimizava a relevância do Poder Legislativo para o bom cumprimento das responsabilidades públicas: “O parlamento não dispõe de tempo, nem a sua organização, nem os seus processos de trabalho são adequados a uma tarefa para cujo desempenho se exigem condições especiais, que não podem encontrar-se reunidas em um corpo político, cujo recrutamento se faz de pontos de vista inteiramente estranhos à competência que lhe é delegada pelas constituições.” (CAMPOS, 1942, p. 343).

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MÚSICA NACIONALISMO MUSICAL: O SAMBA COMO ARMA DE COMBATE AO FADO NO BRASIL DOS ANOS 1930(*) Adalberto Paranhos resumo A exemplo do que acontecia em outros cantos do mundo, respirava-se, no Brasil da década de 1930, um clima saturado de nacionalismos de todas as espécies. O campo musical não se manteve alheio à emergência, à direita e à esquerda do espectro político da época, de tendências que concebiam o estrangeiro como a encarnação do mal. Nesse momento de afirmação do samba como ícone musical da nacionalidade, a música popular que aqui se gravava incorporava especialmente o fado, o tango e o fox-trot, que eram, sem dúvida, os gêneros “estrangeiros” mais em voga. Até meados dos anos 1930 o fado encontrou no país considerável ressonância, a ponto de levar compositores como Orestes Barbosa a investir contra ele, “coisa de português”, tomada como sinônimo de atraso de vida. O samba, na contramão desses ritmos tidos como alienígenas, seria, acima de tudo, o escudo musical protetor da nação contra a “conspurcação” de seus costumes. palavras-chave: samba; fado; símbolo nacional. Musical nationalism: samba as a weapon for fighting fado in 1930s Brazil abstract Mirroring what was happening in other parts of the world, the 1930s in Brazil was filled with nationalist feelings of all sorts. The musical scene was by no means alienated from a very generalized mood (shared by both Left and Right) that viewed foreign products as the incarnation of evil. While samba emerged as a national icon, popular music did incorporate some foreign rhythms, wsuch

Nássara. Orestes Barbosa. Desenho (detalhe), s./d.

as fado, tango and fox-trot. As a matter of fact, until the mid-1930s, fado met considerable resonance among Brazilian audiences, leading composers such as Orestes Barbosa to condemn it as “a Portuguese thing” that symbolized backwardness. Samba, contrary to rhythms conceived as aliens to Brazil, became a sort of musical shield against the “corruption” of national habits. keywords: samba; fado; national symbol.

Assim como em outros quadrantes do mundo, os anos 1930 no Brasil corriam saturados de Nacionalismos de todos os tipos. Em maior ou menor medida, a música popular brasileira também transpirava esse clima. Foi nesse contexto que se processou a nacionalização do samba, que passou a ser tomado como o ícone musical do país. Tal imagem perdura até os dias de hoje, atravessando os tempos apesar de todos os contratempos no terreno da música popular brasileira. Denominador comum da propalada identidade cultural nacional no segmento da música, o samba urbano 1, como numa corrida de obstáculos, teve que enfrentar um longo e acidentado percurso até deixar de ser um artefato cultural marginal estigmatizado como “coisa de pretos e vagabundos” e receber as honras da sua consagração como símbolo de toda uma nação. Essa história, cujo ponto de partida pode ser recuado pelo menos até a virada dos séculos XIX e XX, foi permeada, de cabo a rabo, por idas e vindas, marchas e contramarchas, descrevendo dialeticamente uma trajetória que desconhece qualquer traçado uniforme ou linear. Sem ignorar que múltiplos sujeitos sociais intervieram nesse processo2, enfatizarei neste texto, sob a inspiração metodológica de E. P. Thompson, com sua proposta de uma “history from below” (a história a partir de baixo)3, uma pequena parte da importante ação dos sambistas compositores e intérpretes – na invenção do Brasil como terra do samba, retomando, dessa maneira, as pegadas de um estudo anterior de alcance mais abrangente4. As notas e as rotas trilhadas pelo “samba carioca” se conectaram ao cenário mais

Refiro-me aqui notadamente ao “samba carioca”, em particular ao novo samba urbano carioca calcado naquilo que Carlos Sandroni designou “paradigma de Estácio”, por alusão ao bairro de Estácio de Sá, encravado nas proximidades da zona central do Rio de Janeiro, que se destacou, a partir dos últimos anos da década de 1920, como ponto de irradiação de um samba que seus cultores concebiam como mais “marchado”. Ver SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Jorge Zahar/Editora UFRJ, 2001, p. 32-37. 2 Sobre o assunto, ver VIANNA, Hermano. O mistério do samba. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/Editora UFRJ, 1995 3 Ver THOMPSON, E. P. Patrícios e plebeus. In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, e A história vista de baixo. In: As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. Ver também, entre outros, HOBSBAWM, Eric. A história de baixo para cima. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998 4 PARANHOS, Adalberto. O Brasil dá samba? Os sambistas e a invenção do samba como ‘coisa nossa’. In: TORRES, Rodrigo (ed.). Música popular en América Latina. Santiago de Chile: Fondart, 1999 (disponível em <http:// www.samba-choro.com.br/debates/1055709497>) 1

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geral do desenvolvimento industrial capitalista que adquiria força no Brasil dos anos 1930 e 1940. Embora me dispense de abordar em detalhes as transformações econômico-sociais que estavam em andamento, aponto, de passagem, algumas mudanças fundamentais que levaram o samba a incorporar outras atitudes e outros tons. Como música popular industrializada, sua expansão girou na órbita do crescimento da incipiente indústria de entretenimento ou, como queira, da indústria cultural (incluída a consolidação das empresas fonográficas, da mercadoria disco e do rádio comercial). Para tanto jogaram um papel decisivo a urbanização e a diversificação social experimentada pelo país nas primeiras décadas do século XX. Não constitui novidade referir-se à conversão de símbolos étnicos em símbolos nacionais, inclusive no caso do samba. Uma extensa bibliografia já se ocupou disso, e não pretendo repisar fatos e argumentos facilmente acessíveis aos interessados no assunto. O que me proponho fazer aqui consiste simplesmente em ressaltar mais um ângulo de visão do mesmo tema. Trarei à tona umas tantas lutas simbólicas que agitavam o front interno da música popular brasileira, num momento em que a afirmação do samba como ele-

mento capital da singularidade musical da nação dependia, na ótica de muitos sambistas, de um combate diuturno à influência exercida por ritmos tidos e havidos como alienígenas, entre os quais o fado. O panorama musical do Brasil dos anos 1930 era, obviamente, um “campo de lutas” ou um “campo de força(s)”, como diriam Bourdieu5 e Thompson6, com disputas e concorrências que embalavam suas “lutas de representações”, para usar uma expressão à Chartier7 E o samba despontava como o gênero campeão em registros sonoros, como atesta um exame atento da Discografia brasileira 78 rpm.8 Nessas circunstâncias, um compositor em especial, o carioca Orestes Barbosa9 – misto de jornalista, poeta e boêmio –, sobressaiu-se na luta contra o fado. Ele, que já foi descrito como nacionalista “até a raiz dos seus poucos cabelos”10, primava por ser acima de tudo antilusitano. Parceiro de Noel Rosa em algumas canções11, Orestes celebrizou-se, na história da música popular brasileira, como o autor da letra de “Chão de estrelas”12, na qual se encontra, segundo o poeta Manuel Bandeira13, talvez o mais belo verso escrito até então no idioma português (“tu pisavas nos astros distraída”).

Os estalos de uma língua ferina Orestes Barbosa, conhecido por suas tiradas pontiagudas, não costumava desperdiçar oportunidade de falar mal dos portugueses. Sua língua ferina estalava ao embaralhar fatos históricos com assuntos do cotidiano e ao eleger os donos de casas de pequeno comércio (como as vendas e os botequins) provenientes de Portugal como um dos seus alvos prediletos. Como quem dá de ombros para a história dos “grandes vultos” lusitanos da era das navegações, ele proclamava, em 1933, deixando escorrer uma dose de fel pelos cantos da boca: “Por minha parte, com a autoridade de brasileiro nato, garanto que não quero, nem nunca quis saber quem foi Vasco da Gama. Eu quero saber é quem põe água no leite...14” Na mesma toada, o poeta fizera pouco, oito anos antes, de Pedro Álvares Cabral: “um grande navegador, que a caminho das Índias vem dar com os costados na Bahia, eu passo...” 15 Não era à toa que Orestes crivava de críticas Portugal e os portugueses. Eles, no seu entender – diferentemente de outros povos, a exemplo dos italianos16 –, eram sinônimos de atraso de vida. A despeito das aparências em contrário, nem sempre,

BOURDIEU, Pierre. Le mort saisit le vif. As relações entre a história reificada e a história incorporada. In: O poder simbólico. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002 THOMPSON, E. P., Costumes em comum, op. cit. 7 CHARTIER, Roger. Por uma sociologia histórica das práticas culturais. In: A História Cultural: entre práticas e representações.Lisboa-Rio de Janeiro: Difel/Bertrand Brasil, 1990. 8 SANTOS, Alcino, BARBALHO , Gracio, SEVERIANO, Jairo e AZEVEDO, M. A. de (Nirez). Discografia brasileira 78 rpm, v. 2 e 3. Rio de Janeiro: Funarte, 1982. Para medir a aceitação popular do samba pela régua do sucesso, ver SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, v. 1: 1901-1957. São Paulo: Editora 34, 1997, p. 99-186 9 A obra mais completa sobre a vida, paixão e morte de Orestes Barbosa é a de DIDIER, Carlos. Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta. Rio de Janeiro: Agir, 2005. Ver, complementarmente, dois fascículos, acompanhados de dois LPs, que lhe foram dedicados no todo e em parte: Orestes Barbosa – Nova história da música popular brasileira. São Paulo: Abril Cultural, 1978, e Custódio Mesquita & Orestes Barbosa – História da música popular brasileira. São Paulo: Abril Cultural, 1983 10 MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos. Noel Rosa: uma biografia. Brasília: Editora UnB/Linha Gráfica, 1990, p. 149. 11 Quatro no total, conforme os melhores biógrafos de Noel Rosa, das quais a mais famosa é o samba “Positivismo”. Ver MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos, op. cit. Positivismo (Noel Rosa e Orestes Barbosa), Noel Rosa. 78 rpm. Colúmbia, 1933. 12 “Chão de estrelas” (Silvio Caldas e Orestes Barbosa), Silvio Caldas. 78 rpm Odeon, 1937 13 Apud DIDIER, Carlos, op. cit., p. 549. 14 BARBOSA, Orestes. Samba: sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1978, p. 34 (ed. orig.: 1933) 15 Idem. O português no Brasil. Rio de Janeiro: edição do autor, 1925, p. 13. 16 Ele enaltecia, com todas as letras, o espírito empreendedor de capitalistas de outras nações e, em plena Primeira República, já tendia a identificar progresso com industrialização, concepção de que se impregnaria o vocabulário econômico-político-social brasileiro de décadas posteriores. De acordo com Orestes, enquanto outros estrangeiros, como os italianos, “dão passos largos no comércio e nas indústrias”, assumindo um comportamento “moderno”, “o português ficou na venda e no botequim”. Idem, ibidem, p. 107. 5 6

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no entanto, o compositor desancara tudo o que vira na “terrinha”, observação que se aplica igualmente ao fado. Em livro no qual desfia relatos de viagem a Portugal, em 1923, ele se reportava ao caráter multifacetado desse gênero musical, meio pelo qual, a seu ver, os portugueses não apenas cantavam suas emoções como resolviam seus problemas: “a alma dolente, é no fado que o português resolve tudo”. Para Orestes, o fado, “voz ritmada do povo”, se desdobrava em múltiplos aspectos, podendo ser classificado como sentimental, agressivo, histórico, filosófico, irônico, político, e cobria um amplo arco temático, indo dos fados “envinagrados” aos “gastrônomos”.17 A temperatura de suas avaliações, porém, iria se elevar nos anos seguintes. Para isso concorreu, ao que tudo indica, a recepção pouco calorosa, azeda mesmo – para dizer o mínimo, que as crônicas enfeixadas em Portugal de perto! tiveram naquele país, a ponto de resultarem na cassação do diploma que lhe fora outorgado como sócio-correspondente da Associação dos Trabalhadores de Imprensa. Sua aversão a Portugal e aos lusitanos ganhou corpo sobretudo em O português no Brasil, livro publicado em 1925. A epígrafe desta obra é, por si só, bastante esclarecedora. Ela reproduz as últimas palavras atribuídas a Felipe dos Santos, a maior liderança da Revolta de Vila Rica (atual Ouro Preto), a qual se insurgiu, em 1720, contra a exploração econômica e o controle metropolitano nas regiões auríferas de Minas Gerais, o que o teria conduzido, no desfecho desse episódio, ao enforcamento e ao esquartejamento, num ato típico do teatro político da violência patrocinado pelo jugo português. “Morro sem arrependimentos, certo de que a canalha que nos avilta será esmagada pelo patriotismo dos brasileiros!” como que serviriam de epitáfio para Felipe dos Santos.18 Orestes não se dispunha a firmar qualquer pacto com os lugares-comuns de fundo mítico e mistificador construídos em torno da “Pátria-mãe”, da “Pátria-irmã” e da suposta “amizade luso-brasileira”, uma “mentira”, mera “tapeação”19. Por sinal,

no primeiro parágrafo do prefácio do livro ele apontava suas armas: “Este livro, escrito sem ódio e sem amor, tem como objetivo único mostrar aos brasileiros o perigo que há em deixar o português solto, sem freio, no Brasil”20. Em O português no Brasil, Orestes oferecia ao leitor “provas” em profusão para a compreensão do seu antilusitanismo. Sim, para ele, impunha-se o dever de “provar”, “demonstrar” uma tese, sustentada por juízos de valor que se amparavam em “fatos”, estes concebidos sob um olhar positivista. Sua obra seria, em suma, uma coleção de “páginas de estatística e história”21. Longe de se reduzir a uma peça retórica “de um jacobinismo delirante” ou de “uma patriotada de cavação”, o poeta afirmava que sua prosa, em forma de reportagem, expunha “os dados desapaixonados da estatística”. Daí não acolher injúrias, pois “só registrei fatos visíveis e provados”22. Ao farejar, por todos os lados, os problemas acarretados ao Brasil pelo português, Orestes se apegava ainda a dados, de caráter geral, contidos nos boletins semanais do setor de Estatística Demográfico-Sanitária, principalmente do serviço da Inspetoria de Fiscalização dos Gêneros Alimentícios. E, por conta própria, estabelecia estreita associação entre a inutilização de gêneros alimentícios por motivo de saúde pública e a ação nefasta dos lusitanos. Sua conclusão era categórica: “não podendo mais matar o brasileiro no pelourinho, no tronco, na forca, nem no calabouço, o português mata falsificando a alimentação”23. Por essas e outras, ele despejava toda sua ira sobre a cabeça dos portugueses. Suas palavras soavam como um grito de guerra – “guerra justíssima”24– ao que procedia de Portugal, quer se tratasse de ideias ou de gentes. Pudera, para Orestes, a presença dos lusos no Brasil equivalia a uma ação de lesa-pátria, ante a qual convinha que todos os brasileiros se pusessem em guarda, porque somente “quando o português for corrido, de uma vez, do comércio, da indústria, das letras, da política, do jornalismo e do funcionalismo, o Brasil será o país que nós sonhamos muito

antes de 1822”25. Anos depois, ele condenaria o destino do ouro arrancado ao solo brasileiro: “o nosso ouro! [...] Virou ouro do Porto, cidade que nunca teve mina de coisa nenhuma. [...] O nosso ouro, que o lusitano levou todo”26. Como se raciocinasse em círculo, Orestes Barbosa chegava sempre ao seu ponto de partida. As histórias por ele costuradas se apoiavam sobre um fundamento comum: o português, que o jornalista enxergava com lentes de aumento, fora e continuava sendo o estorvo número um para o avanço do processo de civilização brasileira. O lusitano encarnava o “maior empecilho”, “um entrave”, “o maior inimigo” ao progresso do país, tragado que era pelo “rotinismo desolador”27. Entre os muitos exemplos que arrolava, tanto daqui como d’alémmar, todos eles convergiam para uma conclusão que funcionava também como o motor de sua reflexão: Portugal, em contraste com o Brasil, “ainda não tem civilização”28. Em seu texto mais extenso de O português no Brasil, quem ia para a berlinda era Lisboa. E ela, a lendária capital portuguesa tão decantada nos fados, se mostrava, aos olhos de Orestes, como uma carne viva exposta à devoração crítica. Quase todas as referências que o autor aciona se prestam para destilar seu sarcasmo29. Com toda sua contundência, ele tomava partido em favor da higienização, da civilização e da modernidade ou, melhor, do oposto ao que Lisboa representaria. A Orestes repugnava o cheiro exalado pela cidade, a começar pelas suas principais ruas: “a cidade toda cheira a peixe, a peixe vivo e a peixe frito”, preparado nas calçadas por “mulheres imundas” cobertas por um monte de saias que “esconde[m] o sujo”30. O ridículo dos nomes de logradouros públicos (como Rua do Ventoso de Cima, Rua do Ventoso de Baixo, Largo do Catarro), restaurantes dos bairros de Alfama e de Mouraria, onde se amarravam talheres com correntes, bem como os mictórios sem tapamento nas ruas, nada disso escapava à sua língua afiada. A sentença condenatória dos hábitos e costumes portugueses é, portanto, uma decorrência lógica do seu modo

Idem, Portugal de perto! (Crônicas). Rio de Janeiro: Jacintho Ribeiro dos Santos (ed.), 1923, p. 99 e 100. Entre os exemplos fornecidos sobre as várias modalidades e temas de fados, são relacionados os “envinagrados” (“Quando eu era pequenino/ Já dizia minha mãe:/ Tu tens cara de assassino/ E o teu pai tinha tambãe!”) e os “gastrônomos” (“Rapazes, quando eu morrer/ Leva-me devagarinho/ Ponde em cima do caixão/ Azeitona, pão e vinho”). Idem, ibidem, p. 104 e 109. Mais tarde, ele acrescentaria que até na hora da morte se explicitava a distância abissal existente entre o malandro carioca e o português. Um “malandro do morro” entoava em seu samba: “Amigos, quando eu morrer/ Não quero choro nem nada:/Eu quero é ouvir um samba/ Ao romper da madrugada”. Idem, Samba, op. cit., p. 80. 18 Apud idem, O português no Brasil, op. cit., p. 7. Há versões contrastantes sobre esse acontecimento da história colonial brasileira. A que é encampada por Orestes dá conta de seu “esquartejamento vivo pelos portugueses”. Idem. 19 Idem, ibidem, p. 9 e 92. 20 Idem, ibidem, p. 9. 21 Idem, ibidem, p. 51 22 Idem, ibidem, p. 10 e 11. Na concepção do autor, ao tomar por base o movimento anual na Casa de Detenção do Rio de Janeiro em 1924, uma prova dos nove contra o elemento luso aparecia na contribuição marcante da colônia portuguesa ao mundo do crime. E ele sentenciava: “o português tem, afinal, o primeiro lugar em alguma coisa no Brasil: na estatística criminal”.Idem, ibidem, p. 53. 23 Idem, ibidem, p. 39. 24 Idem, ibidem, p. 127. 25 Idem. 26 Idem, Samba, op. cit., p. 77 Em última análise, essa linha de pensamento crítico pode ser vinculada, ao menos parcialmente, à tese consagrada por PRADO JÚNIOR , Caio. História econômica do Brasil. 15 ed. São Paulo: Brasiliense, 1972, p. 13-23, ao se reportar à colonização nestes trópicos, sob o impulso da expansão ultramarina europeia, como uma empresa voltada para a exploração comercial. 27 Idem, O português no Brasil, op. cit., p. 9, 87 e 127. 28 Idem, ibidem, p. 43. 29 Idem, ibidem, p. 43. 30 Idem, ibidem, p. 23 e 117. 17

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de encarar Lisboa, que vivia mergulhada num “atraso de impressionar”31. Que não se pense, entretanto, que esses problemas atingissem em cheio tão-somente Lisboa ou Portugal. Os imigrantes portugueses, que formavam, no Rio de Janeiro de Orestes Barbosa, a colônia estrangeira mais numerosa, transportaram para cá, na visão do compositor, os seus vícios de origem. Para ele, como escreveu em “Biba a Baríola!”, em 1904, quando eclodiu a Revolta da Vacina, o português não pestanejou: resistiu às medidas médico-higienistas adotadas pelas autoridades governamentais, por ser “contra a vacina” e “a favor da varíola”...32 De igual maneira, opôs-se à modernização do espaço urbano da capital do Brasil. Em síntese, segundo Orestes, “foi uma luta o governo Rodrigues Alves. Oswaldo Cruz fazia o saneamento da cidade. Pereira Passos remodelava a capital. O português, a favor da varíola, combatia Osvaldo Cruz, e o prefeito Passos, para conseguir as demolições, teve de lançar mão da força federal”33. O dedo (sujo) dos portugueses era visto em quase tudo. Traindo determina-

das inclinações conservadoras do seu pensamento, Orestes embarcava na teoria da planta exótica34, um álibi para a repressão ao movimento operário da época: culpava “agitadores profissionais” de diferentes nações, especialmente de Portugal, por incentivarem a anarquia por estas bandas e corromperem ideologicamente o trabalhador nacional35. Nesse contexto, ao colocar o fado sob sua alça de mira, o poeta disparava suas críticas de forma a não restar pedra sobre pedra. Ele detectava a existência, por assim dizer, de uma linha de continuidade entre Portugal, atraso e fado. É bem verdade que, como viria a ser endossado posteriormente, pelo menos em parte, por pesquisadores de música popular, Orestes, em Samba, a despeito de contrapor tal gênero – concebido como carioca na sua essência – ao fado, admitia que este nascera no Brasil: “foi a lamúria do forasteiro quem o criou. Mas ele era tão português, que não ficou aqui”36. Como quem tapa os ouvidos diante dos enfados do fado, o compositor partia logo para a esculhambação: “O fado é um arro-

to! O fado só fala em miséria. Em cadelas de rua. Em bacalhau. Em catres de hospital. É sempre a mesma lamúria: ‘Minha mãe/ Minha mãe/ Minha mãe.’ Rimando com tambãe”37. No levantamento que realizei sobre fados gravados e lançados no Brasil ao longo dos anos 1930, canções como “Minha mãe”38, com Isalinda Seramota, “Carta à minha mãezinha”39 e “Minha mãezinha”40, ambas com Manuel Monteiro, “Amor da mãe”41, com Maria Albertina, “Carta a minha mãe”42, com Américo Ferreira, “Mãe do soldado”43, com José Lemos, e “Carinhos de mãe”44, com Nicolau Gomes Cunha, por certo só reforçavam a opinião de Orestes Barbosa. E não é preciso maior exercício de imaginação para supor qual seria sua avaliação do fado “A morte da ceguinha”45, interpretado por Manuel Monteiro... Os manueis e os joaquins do fado no Brasil Durante a década de 1930 ninguém registrou tantos fados em discos no Brasil quanto um Manuel (Monteiro) e um Joa-

Idem, ibidem, p. 23. Idem, ibidem, p. 103. 33 Idem, ibidem, p. 88. 34 O clichê ideológico da planta exótica foi utilizado à larga pelo Estado e pelas classes dominantes no Brasil. Conforme essa visão rasa da política, as lutas de classe, o anarquismo, o comunismo – esses “males” provenientes de outras terras e de outras gentes para inocular o vírus da agitação na sociedade brasileira – eram contrários à índole pacífica do nosso povo, que, apenas graças a processos de inculcação e manipulação ideológica, poderia ser arrastado por tais ideias consideradas perniciosas. Sobre o assunto, ver, entre outros, MAGNANI, Silvia Lang. O movimento anarquista em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 14-18. 35 Brasiliense, 1982, p. 14-18. Brasiliense, 1982, p. 14-18. 36 Idem, Samba, op. cit., p. 14. Ver, a propósito, TINHORÃO, José Ramos. A razão das umbigadas: o lundu, a fofa e o fado nos séculos XVIII e XIX. In: Os sons dos negros no Brasil – cantos,danças, folguedos: origens. São Paulo: Art, 1988, Fado: dança do Brasil, cantar de Lisboa – o fim de um mito. Lisboa: Caminho, 1994, e Intercâmbio Brasil- Portugal na área da cultura popular. In: Cultura popular: temas e questões. São Paulo: Editora 34, 2001. Visto como descendente do mesmo tronco do qual brotou o lundu, o fado é identificado como “dança de origem negro-brasileira destinada a virar canção em Portugal”. Idem, ibidem, p. 138. Por outro lado, o pesquisador português José Machado Pais reafirma que, “se o fado é um símbolo da identidade lusa, a história do fado mostra-nos que as suas raízes se encontram num Brasil africano”. Ao complexificar a análise desse fenômeno musical, o autor salienta, no entanto, que ele é o resultado de um tráfego de musicalidades múltiplas, produto “de um verdadeiro caldeamento musical”, o que explicaria o fato de ele ter “várias pátrias”. PAIS, José Machado. O enigma do ‘fado’ e a identidade lusoafro-brasileira. In: Vida cotidiana: enigmas e revelações. São Paulo: Cortez, 2001, p. 236, 228 e 238. Retrocedendo no tempo, ver, sobre o assunto, o capítulo II de uma obra clássica do luso Tinop, escrita em 1903, para quem o fado “tem uma origem marítima”. CARVALHO (Tinop), Pinto de. História do fado. 5. ed. Lisboa: Dom Quixote, 2003, p. 42. 37 BARBOSA, Orestes. Samba, op. cit., p. 80 e 81. 38 “Minha mãe” (Marques Coelho), Isalinda Seramota. 78 rpm Odeon, 1931. 39 “Carta a minha mãezinha” (Júlio Gonçalves Dias), Manuel Monteiro. 78 rpm Odeon, 1934. 40 “Minha mãezinha” (J. Fernandes), Manuel Monteiro. 78rpm Odeon, 1934. 41 “Amor da mãe” (C. Ramos e A. Neves), Maria Albertina. 78rpm Victor, 1934. 42 “Carta a minha mãe” (Antônio Pires e H. Pessoa), Américo Ferreira. 78 rpm Colúmbia, s./d. (provavelmente 1934). 43 “Mãe do soldado” (A. Santelmo e Carlos Campos), José Lemos. 78 rpm Colúmbia, 1934. 44 “Carinhos de mãe” (Abel D’Almeida), Nicolau Gomes Cunha. 78 rpm Colúmbia, s./d. (provavelmente 1937). 45 “A morte da ceguinha” (J. G. Fernandes e L. Marques), Manuel Monteiro. 78 rpm Odeon, 1934. 31 32

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quim (Pimentel). O cetro de o rei do fado pertence, sem dúvida, a Manuel Monteiro, que, quem diria, viraria verbete no Dicionário Houaiss/Ilustrado: Música Popular Brasileira46. Nascido em Cimbres, Portugal, em 1909, ainda adolescente ele se transferiu, com sua família, para o Rio de Janeiro, onde morreu em 1990. Sua estreia na vida artística ocorreu, em 1933, no Programa Lusobrasileiro, da Rádio Educadora. Naqueles tempos não eram raros programas do tipo, destinados em particular à colônia portuguesa radicada na capital da República. A carreira do cantor (excepcionalmente compositor) decolou sobretudo entre 1933 e 1935, a julgar pela quantidade de fonogramas gravados nesse curto período, 37 ao todo47. Tido como o primeiro intérprete lusitano a ser bem-sucedido em terras brasileiras, acendeu, como não poderia deixar de ser, a fúria de Orestes Barbosa contra ele. Tanto que, segundo consta, numa de suas exibições no Programa Casé, o redator de anúncios desse programa – que não era outro senão Orestes – investiu, com um punhal, na direção de Manuel Monteiro. Este, para evitar o pior, viu-se na contingência de interromper sua apresentação e sair em desabalada corrida...48 No rol de gêneros que compunham o cardápio musical de Manuel Monteiro sobressaíam os fados, seguidos de viras e marchas, sem falar de canções carnavalescas de autoria de compositores nacionais. Seu “primeiro grande sucesso foi o fado ‘Santa Cruz’49, lançado em 1933. Manuel se converteu numa referência nada desprezível no cenário artístico da época. Prova disso é que, em 1935, foi uma das estrelas do filmusical Alô, alô, Brasil, dividindo espaço, no elenco, com pesos-pesados da música popular brasileira, como Carmen Miranda, Francisco Alves, Silvio Caldas, Mário Reis, Ari Barroso, Almirante, Custódio Mesquita e Aurora Miranda50. Por sinal, o cartaz desse filme anunciava que dele “fazem parte os melhores elementos artísticos do rádio”.

Por esse meio, uma vez mais, os artistas saíam das sombras dos estúdios de gravação ou dos holofotes confinados aos programas de auditório ou aos locais de suas apresentações nessa ou naquela cidade para serem visualizados por plateias mais amplas, num processo em que se dava rosto à voz. Essas películas, recheadas de músicas do começo ao fim, desempenhavam a função de uma espécie de plataforma de lançamento de canções, iscas atiradas ao grande público. E Manuel Monteiro, impulsionado pelo filme, emplacou um sucesso retumbante, a marcha “Salada portuguesa”51, mais conhecida pelo nome de “Caninha verde”. Na contabilização que efetuei dos fados transpostos para os discos entre 1930 e 1939, eles alcançaram a cifra de 172 fonogramas52, levando-se em conta a identificação dos gêneros musicais referidos nas etiquetas dos 78 rpm. Aí predominava, com larga folga, a nomenclatura fado, se bem que, vez por outra, surgissem também as denominações fado-canção (6) e fadomarcha (3)53. Quem puxava a fila dos fadistas era Manuel Monteiro, com 45 fonogramas, vindo a seguir Joaquim Pimentel, intérprete e compositor eventual (com 29), cuja carreira no mundo dos discos deslanchou entre 1935 e 1939. No terceiro posto (com 20) despontava José Lemos, enquanto cabia à cantora (compositora bissexta) Isalinda Seramota (com 15) o quarto lugar. Uma imensa gama de cantores, cantoras, grupos musicais e instrumentistas (vários deles dedicados à guitarra, instrumento tradicional usado no fado) completava essa relação. Listados aqui em ordem alfabética, eram eles: A. F. da Conceição, Amélia Borges Rodrigues, Ana de Albuquerque Melo, Anita Gonçalves, Antônio Lopes, Artur Castro, Benício Barbosa, Berta Cardoso, Carlos Campos, Céu da Câmara, Desafiadores do Norte, Esmeralda Ferreira, Eugênio Noronha, Fábia Gil, Francisco Pezzi, H. da Conceição, Henrique Costa, Henrique Xavier Pinheiro,

Horácio Rodrigues, Ivone Guedes, João Fernandes, Joaquim Seabra, José Galante, Maria Albertina, Maria do Carmo, Mirandella, Nicolau Gomes Cunha, Santos Carvalho, Stella Gil e Zaíra de Oliveira. Como se vê, o fado estava longe de passar em brancas nuvens na produção fonográfica do Brasil. Pelo contrário, num momento em que, disparado, o fox ou o fox-trot era o gênero “estrangeiro” mais gravado, seguido pelo tango, o fado (excetuadas as valsas, compostas, em sua maioria, por autores brasileiros) ocupava um honroso terceiro lugar em número de gravações54. Essa ressonância da música portuguesa55 fora do espaço no qual se aclimatara irritava profundamente Orestes Barbosa. Como guardião de uma política nacionalista de eterna vigilância, ele se indignava contra a “macaqueação”. Macaquear era, aliás, um verbo corrente no vocabulário empregado por Orestes – como o fora e o seria por outros defensores de nacionalismos à brasileira em ocasiões distintas56 – para dar vazão à sua ojeriza ao “servilismo” para com o estrangeiro. Isso, todavia, não o impedia de recomendar: “copiemos dele[s] os processos de nacionalismo”57. Ele caía, assim, em contradição? Não é exatamente o caso. O compositor se mirava nos exemplos de outros países, como os Estados Unidos e a Argentina, por não haverem se tornado reféns nem da Inglaterra, nem da Espanha, respectivamente. O que suscitava a admiração dele era que essas nações corriam em raia própria, inclusive na área das artes, e se impuseram, musicalmente, por intermédio do fox e do tango. Esses exemplos, sim, eram dignos de imitação. Daí ser enfático: “É preciso criar a orquestra típica do samba, diferente da do tango e do fox. A Argentina e os americanos do norte fizeram assim...”58 De Portugal não existiria coisa alguma no que os brasileiros devessem se espelhar. De lá, para Orestes, praticamente não provinha nada merecesse ser exaltado. E se alguém lhe perguntasse sobre um dos

ALBIN, Ricardo Cravo (coord.). Dicionário Houaiss Ilustrado:Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro:Paracatu, 2006, p. 494. Esta e outras informações subsequentes dessa natureza foram contabilizadas por mim com base no que figura no v. 2 de SANTO S, Alcino et. al., op. cit. 48 DIDIER, Carlos, op. cit., p. 341 e 372. 49 ALBIN, Ricardo Cravo, op. cit., p. 494. “Santa Cruz” (Caramés e Domingos Santos), Manuel Monteiro. 78 rpm. Odeon, 1933. 50 Embora se achem, em diversas fontes, dados desencontrados sobre Alô, Alô, Brasil, ele chegou às telas, de fato, no início de 1935. Ver, por exemplo, o noticiário jornalístico (Correio Paulistano, São Paulo, 13 fev. 1935) e a informação disponível em <http://carmen.miranda. nim.br/aloalo2.htm/>. Acesso em 15 de agosto de 2011. 51 “Salada portuguesa” (Vicente Paiva e Paulo Barbosa), Manuel Monteiro. 78 rpm Odeon, 1935. 52 Excluí deliberadamente desse cálculo umas poucas reproduções das mesmas gravações. 53 Não ignoro, contudo, que, por mais que as etiquetas dos discos 78 rpm pudessem fornecer indicadores seguros para o enquadramento das canções sob um ou outro gênero musical, nem sempre elas eram plenamente confiáveis. A respeito dessa questão, de fundo metodológico, ver PARANHOS, Adalberto, op. cit., p. 224 (nota 27). Acrescente-se a isso que, apesar do valiosíssimo trabalho empreendido pelos organizadores da Discografia brasileira 78 rpm, em determinados casos – mesmo que estatisticamente pouco relevantes – não lhes foi possível obter os dados (completos ou não) sobre todos os discos gravados/ lançados nos anos 1930. 54 Refiro-me obviamente a gêneros de procedência “estrangeira”, pois nesse período prevaleciam, sem a menor dúvida, os gêneros “nacionais”, como o samba, hegemônico, ao qual se seguiam as marchas, as “canções” etc. A propósito, ver PARANHOS, Adalberto, op. cit., p. 205. 55 Sobre a ressonância do fado ao longo do século XX em Santos, cidade portuária de expressiva presença de imigrantes lusos, ver VALENTE, Heloísa (org.). Canção d’além-mar: o fado e a cidade de Santos. Santos: Realejo/Musimid, 2008. 56 Por exemplo, o crítico literário Silvio Romero, ao enfocar o segundo reinado no Brasil, ou profissionais dos meios de comunicação engajados na crítica ao caráter pretensamente antinacional da Bossa Nova. Ver, sobre o assunto, PARANHOS, Adalberto. Novas bossas e velhos argumentos: tradição e contemporaneidade na música popular brasileira. História & Perspectivas, n. 3., Uberlândia, UFU, jul.-dez. 1990, esp. p. 8 e 9. 57 BARBOSA, Orestes. Samba, op. cit., p. 69 e 107. 58 Idem, ibidem, p. 69. Nesse particular, Orestes Barbosa não falava sozinho. Tal proposta era bem acolhida por artistas de proa da cena musical brasileira. Um deles era Noel Rosa, como se lê em entrevista a O Debate, de Belo Horizonte, concedida em 9 de março de 1935. Nos seus termos, o fox-trot e o tango “representam duas raças distintas. Têm orquestras típicas. O samba ainda não a possui. Quando houver aqui uma orquestra típica de samba, o brasileiro poderá dizer que o seu país tem a sua música original”. Apud MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos, op. cit., p. 357. 46 47

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símbolos do samba, Carmen Miranda, natural de Marco de Canaveses, Portugal, ele tinha a resposta na ponta da língua: como se Carmen houvesse nascido portuguesa por acidente geográfico, Orestes a definia como “uma sambista carioca”. Ela desembarcara no Brasil com um ano de vida e teria sentido de perto, no corpo e na alma, a capacidade do Rio de Janeiro em forjar as pessoas à sua imagem e semelhança. De acordo com o autor de Samba, “ela, em verdade, é uma autêntica figura do meio, do meio que lhe absorveu, do ambiente que a plasmou, dando-nos mais um exemplo da força trituradora do Rio, que refina, como numa usina, os elementos aportados ao nosso torrão”59. Na sua cruzada antilusitana, ele ainda questionava os dogmas linguísticos portugueses, por entender que “temos o dever de guerrear a tradição”, como, por exemplo, a colocação dos pronomes, considerada uma “imbecilidade”60 portuguesa, com certeza. Que Camões, que Vieira, que nada! Para Orestes, se “língua é convenção”, “o que o povo aceita é que é o certo”61. Ele não vestia a carapuça ante a acusação, tantas vezes repetida, de que os sambistas promoviam a corrupção do nosso idioma62. Em sua defesa, proclamava, em alto e bom som: “nada mais necessário do que corromper a língua de Portugal”. Essa seria a forma de combater o bom combate nos domínios da linguagem. E, para conferir mais força à sua posição, invocava o escritor brasileiro Monteiro Lobato, que reconhecia a importância da “corrupção popular” do português, num processo semelhante ao que abriu caminho para que este corrompesse o latim63. Essas observações estavam em linha de sintonia com Macunaína, personagem gerado, em livro de 1928, pelo modernista Mário de Andrade, que já percebera e procurava apre(e)nder as “duas línguas da terra, o brasileiro falado e o português escrito”64. A preocupação básica desse autor, no caso, se nutria do desejo de captar a fala que nascia do Brasil popular, do “Brasil brasileiro”, como que a saborear o coco que o coqueiro dá. Nessa perspectiva, a sintaxe era submetida a um processo de abrasileiramento em busca de uma “língua brasileira”. E essa sintaxe, musicalmente

falando, seja para Orestes, seja para Noel Rosa e outros mais, era o samba. “É brasileiro, já passou de português” A batalha desencadeada por Orestes Barbosa contra o fado constituía parte de um todo. Outros compositores e intérpretes se engajaram, à sua moda, na luta contra as “más influências” oriundas do exterior. Estas se associavam ao peso econômico-político-cultural do império estadunidense, num momento em que sua música – amplificada pelo cinema falado e pelas empresas fonográficas – testemunhava para onde caminhava a humanidade: a emergência de uma nova potência hegemônica no mundo capitalista. No plano cultural, a reação nacionalista ao Fox adquiriu maior expressão na década de 1930. Se para determinados artistas (como Custódio Mesquita e Lamartine Babo) era perfeitamente aceitável que o sambista e o compositor de fox habitassem uma mesma pessoa, para outros (como Noel Rosa e Assis Valente) essa dualidade era intragável. Se de ambos os lados da trincheira da música popular brasileira era possível recolher manifestações em defesa do samba como ícone musical da identidade nacional, a adesão a um ritmo de procedência estrangeira os dividia, apesar de poderem até atuar como parceiros, como se verificou, por exemplo, com Noel Rosa e Custódio Mesquita. Com a reverberação no país de gêneros musicais tidos como norte-americanos, a penetração do fox se acentuou desde os anos 1920. A tal ponto que, em meio à gravação de uma boa quantidade de foxes nacionais ou estrangeiros (muitos destes como versões), Orestes Barbosa – sim, ninguém menos do que ele – se tornou coautor de diversos fox-canções e de fox-trots, sem contar “Flor do asfalto”65, um “fox-samba” que data de 1931. Armado esse cenário, compreende-se, então, por que, já em 1930, num samba amaxixado de Randoval Montenegro, Carmen Miranda aparecia na pele de uma nacionalista que, em “Eu gosto da minha terra”, declarava seu amor ao samba e desdenhava o fox-trot, esse intruso:

[...] Sou brasileira, reparem No meu olhar, que ele diz E o meu sabor denuncia Que eu sou filha deste país Sou brasileira, tenho feitiço Gosto do samba, nasci pra isso O fox-trot não se compara Com o nosso samba, que é coisa rara [...]66 E por aí ia esse precursor do “samba-exaltação”, a transbordar de felicidade com as belezas naturais do Brasil. Sem compartilhar de qualquer ufanismo tolo – supondo-se a possibilidade de existir ufanismo que não seja tolo –, Noel Rosa não se permitia arrebatamentos ou derramamentos grandiloquentes. O Brasil lhe deu régua e compasso para desenhar o “Brasil de tanga”, o país da “prontidão” (dos duros). De olhos voltados para o corpo a corpo do dia a dia, seu universo é povoado pela mulher, pelo pandeiro, batuque, violão, prestamista e vigarista, como em “Coisas nossas”, que ele cantava com sua voz pequena e em tom coloquial: [...] Malandro que não bebe Que não come Que não abandona o samba Pois o samba mata a fome [...] E o bonde que parece uma carroça Coisa nossa, muito nossa! [...]67 Fica claro que Noel se distanciava bastante da pregação de um nacionalismo impostado, ao estilo do governo Vargas e de seus ideólogos e acólitos, que valorizavam, em primeiríssimo lugar, a unidade nacional sob a batuta de um Estado forte, o “Estado Nacional”, mola propulsora do combate ao “divisionismo” e às temíveis lutas de classe68. Mas ele se afinava com as restrições ao modismo do fox-trot e condenava, em geral, o que lhe parecia americanizado, do mesmo modo como achava deplorável ver brasileiros cantando em outros idiomas. Ora, para Noel, do ponto de vista musical, nada havia de mais tipicamente brasileiro que o samba. Seu nacionalismo recendia a um nacionalismo popular. Nas palavras de seus

BARBOSA, Orestes. Samba, op. cit., p. 59. A “força trituradora” do Rio de Janeiro seria responsável, igualmente, por uma série de proezas, como a conversão do lutador de boxe Kid Pepe (nome de guerra de Giuseppe Gelsomino) num típico malandro carioca, que, por sinal, assumiu o papel (muitas vezes contestado, diga-se de passagem) de compositor de sambas. Ele até parecia “um filho do Salgueiro”.Com os ciganos, teria acontecido o mesmo,como atestava sua cota de contribuição ao samba.Idem, ibidem, p. 66 e 83. 60 Idem, ibidem, p. 34 e 33. 61 Idem, ibidem, p. 69 e 72. 62 Avançando no tempo, frise-se que defensores do vernáculo se arvoraram em vigilantes da ordem linguística. Matérias inseridas nas seções de música e radiodifusão da revista Cultura Política, publicada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) do “Estado Novo” entre 1941 e 1945, batiam nessa tecla. Um dos seus articulistas desfechou ataque à “gíria corruptora da língua nacional”. CASTELO , Martins. Rádio – VI. Cultura Política, n. 6, ago. 1941, p. 331. Ele abominava a “degradação” representada pela “baixa linguagem”. Idem, Rádio – XI. Cultura Política, n. 11, jan. 1942, p. 300. Manifestações desse teor, como as qualificou o romancista Marques Rebelo, eram próprias de “zeladores de gramatiquices” e de “perseguidores de letristas da música popular”. REBELO, Marques. A mudança – tomo 1 de O espelho partido. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 179. 63 BARBOSA, Orestes. Samba, op. cit., p. 89. 64 ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Círculo do Livro, s./d., p. 115 (ed. orig. 1928). 65 “Flor do asfalto” (J. Tomás e Orestes Barbosa”), Castro Barbosa. 78 rpm Victor, 1931. 66 “Eu gosto da minha terra” (Randoval Montenegro), Carmen Miranda. 78 rpm Victor, 1930. 67 “Coisas nossas” (Noel Rosa), Noel Rosa. 78 rpm Colúmbia, 1932. 68 Para uma análise crítica do nacionalismo apregoado pelo governo Vargas e seus defensores, ver PARANHOS, Adalberto. O roubo da fala: origens da ideologia do trabalhismo no Brasil. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2007. 59

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biógrafos, “os estrangeirismos simplesmente não combinam com seu jeito de ser. São chiquês de grã-finos e intelectuais enfatuados, pura moda, mania de exibição”. Sob a ótica de Noel, o Brasil “está aqui perto, na cidade do interior, no morro, na esquina. Ou mesmo no botequim, na gafieira, na pensão de mulheres, no carnaval, na roda de jogo, nos lugares enfim onde todos os brasileiros se igualam. Seu nacionalismo tem esse sentido. De gostar das ‘coisas nossas’. De preferir o samba ao fox-trot”69. E tudo isso foi sintetizado de maneira magistral por Noel Rosa numa composição de 1933, “Não tem tradução”, assentada numa sofisticada estrutura melódica. Em sua investida contra aqueles que, “dando pinote”, apenas queriam “dançar o fox-trot”, Noel punha as cartas na mesa: [...] Essa gente hoje em dia Que tem a mania de exibição Não se lembra que o samba Não tem tradução No idioma francês Tudo aquilo que o malandro pronuncia Com voz macia É brasileiro, já passou de português Amor, lá no morro, é amor pra chuchu As rimas do samba não são ‘I love you’ Esse negócio de ‘alô’, ‘alô, boy’ ‘Alô, Johnny’ Só pode ser conversa de telefone70 Compreensivelmente, esse samba arrancou expressões de entusiasmo de

Orestes Barbosa, que não economizou elogios ao seu criador: “uma maravilha de talento e de nacionalismo”71. Daí confessar ao seu parceiro Nássara que não hesitaria em trocar toda a sua obra por um verso de “Não tem tradução” – “é brasileiro, já passou de português” –, que provava, por a mais b, que “aquele sem-queixo é demais! Um gênio!72” Lamartine Babo, como já salientei, não era precisamente um nacionalista. Compositor aberto a todo tipo de música, nem por isso deixou de criar, em 1931, uma obra-prima do nonsense, o fox-charge em tom de deboche “Canção pra inglês ver”, como se fora uma “canção do Oeste”, com som de banjo no acompanhamento. A moral da história poderia ser resumida numa pergunta: quem entoa uma canção em inglês ou em francês terá alguma noção do que está cantando? O autor brincava com essa situação: [...] Morguet five Underwood I Shell No bonde Silva Manuel Manuel Manuel I love you To have Steven via Catumbi Independence lá do Paraguai Studebaker... Jaceguai! Yes, my glasse Salada de alface [...]73 Nacionalista assumido, Assis Valente se insurgia contra esse estado de coisas. Numa marcha gravada por Carmen Mi-

randa em 1932 e lançada no ano seguinte, “Good-bye”, ele aconselhava: Good-bye, boy, good-bye, boy Deixa a mania do inglês Fica tão feio pra você Moreno frajola Que nunca freqüentou As aulas da escola [...]74 Aliás, na sua estréia em disco, com “Tem francesa no morro”, Assis Valente confiara a Araci Cortes – dublê de cantora e estrela do teatro de revista nas décadas de 1920 e 1930 – a missão de demonstrar, com muita graça, que samba e “morrô” (ou seria “morreau”?) não rimavam com França: “[...] Vian/ Petite francesa/ Dancê/ Le classique/ Em cime de mesa [...]”75. Alguns anos mais tarde, em “Oui... oui...”, Floriano Pinho, pela voz de Sônia Carvalho, tornaria a insistir: [...] As francesas sambando Eu fiquei a sorrir Marcação de bailado À moda chic de Paris! [...] No Brasil o samba é patenteado E nós, os brasileiros, somos diplomados [...]76 Mesmo artistas que compuseram foxes ou versões de foxes – muitas delas de filmes musicais estadunidenses –, como João de Barro e Alberto Ribeiro, autores de notáveis marchas carnavalescas de sucesso, elegiam o samba como produto na-

MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos, op. cit., p. 242. “Não tem tradução” (Noel Rosa), Francisco Alves. 78 rpm Odeon, 1933. 71 BARBOSA, Orestes. Samba, op. cit., p. 52. 72 MÁXIMO, João e DIDIER, Carlos, op. cit., p. 244. No fascículo referente a Orestes Barbosa – Nova história da música popular brasileira, op. cit., p. 2, se garante que Noel compôs “Não tem tradução” depois de uma conversa com Orestes na redação de A Jornada, jornal de existência efêmera fundado por este e por Nássara. 73 “Canção pra inglês ver” (Lamartine Babo), Lamartine Babo. 78 rpm Odeon, 1931. 74 “Good-bye” (Assis Valente), Carmen Miranda. 78 rpm Victor, 1933. 75 “Tem francesa no morro” (Assis Valente), Araci Cortes. 78 rpm Colúmbia, 1932. 76 “Oui...oui...” (Floriano Pinho), Sônia Carvalho. 78 rpm Colúmbia, s./d. (provavelmente 1937). 69 70

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cional. Em “Touradas em Madri” (gravada em 1937 e lançada em 1938) quem ia para o trono, no Brasil, era o samba, como cantava Almirante, numa marchinha que foi acusada de tratar-se de um paso doble: Eu fui às touradas em Madri Pa-ra-ra-tchim-bum-bum-bum E quase não volto mais aqui-i-i Pra ver Peri-i-i, beijar Ceci Eu conheci uma espanhola Natural da Catalunha Queria que eu tocasse castanhola E pegasse o touro à unha Caramba Caracoles Sou do samba Não me amoles Pro Brasil eu vou fugir Isso é conversa mole Para boi dormir77 Quando se amplia a escala de observação da trajetória percorrida pelo samba, é possível perceber, como procurei evidenciar em outro trabalho, que o enaltecimento desse gênero corria paralelamente a uma série de outros processos em curso. Um deles apontava para as trocas culturais realizadas entre as classes populares e outros setores sociais, em especial as classes médias. O samba, ao extrapolar os territórios e os grupos sociais de onde se originou, era motivo de orgulho para os sambistas. Numa palavra, ele atuava como fator de afirmação e de identificação sociocultural de grupos e classes sociais normalmente marginalizados na esfera da circulação dos bens simbólicos. Pavimentava-se, assim, o caminho para a entronização do samba como símbolo cultural de toda a nação e não só desse ou daquele segmento étnico ou social78. Testemunha ocular e ativo participante dessa história da nacionalização do samba, Orestes Barbosa prestava o seu depoimento (na voz de Araci Cortes) em “Verde e amarelo”, calcado em música de J. Tomás. Nesse samba amaxixado, de 1932, revelavam-se sinais de um novo tempo:

Vocês quando falam em samba Trazem a mulata na frente Mas há muito branco e bamba Que no samba é renitente Não me falem mal do samba Pois a verdade eu revelo O samba não é preto O samba não é branco O samba é brasileiro É verde e amarelo [...]79 Para sublinhar o clima nacionalista, essa gravação é entrecortada por acordes do Hino Nacional Brasileiro. E mais: nos versos seguintes (“Nesta terra de palmeiras/ Onde canta o sabiá/ As almas das brasileiras/São da flor do resedá”), configurando um exemplo de dialogismo e/ou de intertextualidade, há uma citação do célebre poema Canção do exílio, do poeta romântico/nacionalista Gonçalves Dias. Nada aí é casual: o arremate recorda a coloração amarela da flor do resedá. O Brasil como que se enchia de cores, a julgar até pela denominação de algumas formações musicais, como o Grupo Verde e Amarelo, a Dupla Preto e Branco e a Dupla Verde-Amarela. Todo esse contexto era sintoma da mestiçagem que passou a ser cantada e decantada como nunca se viu por estas terras. Sua trilogia pode ser encontrada, por exemplo, na seqüência das marchas compostas por um dos maiores nomes dos carnavais brasileiros, o branco Lamartine Babo, originário da classe média. Em “O teu cabelo não nega”80, lançada em 1932, a mulata era reverenciada. No ano seguinte, ela cederia seu lugar à “Linda morena”81. Em 1934, Lalá cantaria “Dá cá o pé... loura”82. Em resumo, o que se tematizava musicalmente não era senão o caráter “misto”, “multirracial” da sociedade brasileira. A miscigenação, ora execrada, ora enaltecida, permanecia no centro de debates intelectuais que punham à mostra como a problemática da identidade nacional se ligava umbilicalmente à temática racial. E esse policromatismo, base sobre a qual se erigiu o mito da democracia racial brasileira, foi associado, com frequência, à ce-

“Touradas em Madri” (João de Barro e Alberto Ribeiro), Almirante. 78 rpm Odeon, 1938. Ver, a propósito, PARANHOS, Adalberto. O Brasil dá samba?, op. cit. 79 “Verde e amarelo” (J. Tomás e Orestes Barbosa), Araci Cortes. 78 rpm Colúmbia, 1932. 80 “O teu cabelo não nega” (Irmãos Valença e Lamartine Babo), Castro Barbosa. 78 rpm Victor, 1932. 81 “Linda morena” (Lamartine Babo), Mário Reis. 78 rpm Victor, 1933. 82 “Dá cá o pé... loura” (Lamartine Babo e Alcir Pires Vermelho), Lamartine Babo. 78 rpm Victor, 1934. 83 Ver, sobre o assunto, PARANHOS, Adalberto. O Brasil dá samba?, op. cit. 84 PAIS, José Machado, op. cit., p. 216 e 217. 77 78

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lebração da conciliação de classes (de alto a baixo na nossa sociedade) em torno do samba. De quebra, os temas da mestiçagem e do congraçamento/colaboração de classes foram retrabalhados pelos ideólogos de Estado, tendo em vista a exaltação da democracia racial e da democracia social pretensamente existentes no país.83 Último acorde O que foi exposto até aqui diz respeito a muitos “rounds” das lutas de representações que colocaram frente a frente o samba, de um lado, o fado, o fox-trot e outras manifestações culturais, de outro. Isso permite a quem envereda por pesquisas dessa natureza captar a interconexão dialética do um e do outro e/ou a analogia dos contrários. Afinal, é a partir das concepções que se produziram sobre os seus outros que o samba foi identificado pelos próprios sambistas como portador da suposta singularidade musical brasileira num processo de fabricação/invenção de uma tradição musical. Sob esse aspecto, o cientista social José Machado Pais, ao escrever sobre os fados do fado, lança luz sobre certos prismas da questão das identidades nacionais. Para ele, tais identidades não se constroem tomando como ponto de apoio uma “insularidade isolada. Antes, de uma insularidade que não se pode entender senão por alusão ao arquipélago a que suas distintas singularidades se reportam”. Vem daí que “cada vértice (ou ilha) dessa identidade, ao mirar-se ao espelho, o que vê é a imagem alheia que lhe é tão essencial para definição da própria imagem ou identidade”.84 (*) Versão ampliada de trabalhos apresentados em mesas redondas realizadas durante o XVI Congreso Internacional de Ahila – Asociación de Historiadores Latinoamericanistas Europeos (San Fernando/Espanha, set. 2011) e o X Congreso Internacional de la IASPMAL – seção latino-americanada International Association for the Study of Popular Music (Córdoba/Argentina, abr. 2012). Minhas pesquisas mais recentes, que cruzam história, política, cultura e música popular, contam com auxílio do CNPq e da Fapemig.


LANÇAMENTO UM CONGRAÇAMENTO CULTURAL Equipe GENIUS

Um verdadeiro congraçamento cultural foi em que se constituiu o lançamento do livro ERNANI SÁTYRO – AMIGO VELHO, de autoria do nosso Diretor e Editor Flávio Sátiro Fernandes, o qual representa a biografia de uma das mais expressivas figuras da política e da intelectualidade paraibana, que foi Deputado Estadual, Deputado Federal em oito legislaturas, Chefe de Polícia, Prefeito da Capital, Governador do Estado, Ministro do Superior Tribunal Militar, além de ter sido advogado diligente e dedicado homem de letras, escrevendo romances, ensaios, artigos igualmente destacando-se como orador consagrado, na tribuna do júri, na tribuna parlamentar e em comícios reuniões sociais. O evento teve lugar, às dezoito horas do dia 4 de dezembro, no auditório da Fundação Casa de José Américo, na avenida Cabo Branco, 3336, nesta Capital, conduzido pelo Presidente daquela entidade, Acadêmico Damião Ramos Cavalcanti, a quem coube, inicialmente, formar a Mesa Diretora, composta dele próprio, do autor da obra, escritor Flávio Sátiro Fernandes, do apresentado do livro, Bacharel Bertholdo Sátyro e Sousa, filho do biografado, do jornalista Gonzaga Rodrigues, representando a Academia Paraibana de Letras, Conselheiro André Carlo Torres Pontes, Presidente Do Tribunal de Contas, Flávio Sátiro Filho, ex-presidente da FCJA, Vanderlei Brito, representando o Instituto Histórico de Campina Grande, Ademar Régis Vinagre, Procurador Geral do Município de João Pessoa, Conselheiro Fábio Nogueira, Presidente da ATRICON. Usou da palavra, em primeiro lugar, o Dr. Bertholdo Sátyro e Sousa, cujo pronunciamento divulgamos em outro local, seguindo-se a ele o Acadêmico Flávio Sátiro Fernandes, cuja oração também está transcrita nesta edição. Com o auditório e o hall da Fundação lotados de convidados, a Equipe GENIUS con-

seguiu anotar, entre os presentes, além dos que compunham a Mesa, já mencionados, as seguintes pessoas: Acadêmicos Severino Ramalho Leite, Evaldo Gonçalves de Queiroz, Hildeberto Barbosa Filho, Maria das Graças Santiago, Ângela Bezerra de Castro, Luiz Nunes Alves, Juarez Farias, Francisco de Sales Gaudêncio, Humberto Melo, José Octávio de Arruda Melo, Wills Leal, Sérgio de Castro Pinto, Osvaldo Trigueiro do Vale, Historiadores Berilo Ramos Borba, Humberto Fonseca de Lucena, Auxiliadora Borba, Maria José Lopes, Jornalistas Roberto Cavalcanti, Diretor do Sistema Correio de Comunicação, Mário Tourinho, articulista semanal do CP, Frutuoso Chaves, Assessor-Chefe de Comunicação do TCE, Genésio de Sousa Neto, Assessor de Comunicação do TCE, Abelardo Jurema, colunista do CP, Gerardo Rabelo, colunista do CP, Deputado Nabor Wanderley, Empresários Manuel Alceu Gaudêncio, Rosângela Sátiro Fernandes, Escritores Ricardo Bezerra, Presidente da Academia Paraibana de Letras Jurídicas, Emmanuel Rocha Carvalho, Renato Caldas Lins, Neide Medeiros Santos, Thomas Bruno Oliveira, Ida Steinmuller, Folclorista Érico Dutra Sátiro Fernandes, Professores Francelino Soares, Maria do Socorro Aragão, Glória das Neves Escarião, Severino Dutra Filho, Roncali, Geralda Medeiros Nóbrega, Procuradores Carlos Martins Leite, Ana Teresa Nóbrega, médicos Fernando (Ana) Lianza, Ernani Leite, Jacinto Medeiros, Francisco de Assis dos Anjos, Francisco Fonseca, Paulo Oliveira Fernandes, Zuca Moreira e Sra., Jacinto Medeiros e Sra., José Juvêncio de Almeida Filho, Sras. Eliane Dutra Fernandes, Simone Mesquita Sátyro, Marilza Mesquita, Roberta Mesquita, Elisabeth Vieira Sátyro, Marília Bonavides, Aparecida Medeiros, Verônica Queiroz, Kelly Lira, Francisca Mota, Mércia Mota, Aparecida Medeiros, Amá-

vel Melo, Fátima Lucena, Socorro Fonseca, Enilda Leite Urquiza, Erivan Leite Gonzalez, Alice Coelho, Rogélia Cesarino Dutra, Flávia Dutra, Samara Longo, Andréia Escarião, Irimar Teódulo, Valdete Navarro, Maria Sílvia Araújo, Ana Lúcia Araújo, Petronila Leite, Elisete Souto, Auxiliadora Gonçalves Lucena, Mirtes Bezerra, Srtas. Zuleide Pereira, Socorro Pereira, Camila Teódulo, poetas Sander Lee e Sander Brown, Juízes Severino Ramos Maia, Tércius Gondim Maia, Manuel Maia Neto, Oswaldo Duda Ferreira, José Fernandes de Andrade, Gustavo Urquiza e Onaldo Queiroga, Conselheiro Arnóbio Viana, Desembargadores José de Lorenzo Serpa, Leôncio Teixeira Câmara, engenheiros Fernando Cavalcanti, Guarani Marques Viana, José Francisco Nóbrega, advogados Dario Dutra Sátiro Fernandes, Eugênio Nóbrega, Assis Camelo, Cleanto Gomes Pereira e Sra., Vicente Gayoso e Sra., Geilson Salomão, Flávio Sátiro Fernandes Neto, Caio Cunha Lima Sátiro Fernandes, Diego Dutra, Martinho Carneiro Bastos, José Falbo Abrantes Vieira, Renato César Carneiro, Afrânio Aragão, Geraldo Carvalho Junior, José Milton, Danielle Cavalcanti Sátiro Fernandes, Glória Virgínio, Maria do Socorro Brito, Paulo Guedes Pereira, Roberto Braga, Idácio Souto, Paulo Padilha, Idio Matos, Robson Cananéa, Auditores Raimar Redoval de Melo, Roberta Sátiro Cavalcanti, Matheus Lacerda, Késsia Araújo Sátiro Fernandes, Enio Norat, Isabel Nóbrega, Francisco Lins Barreto, Honorina Brandão, Paulo Rodrigues, Srs. Afrânio Bezerra Cavalcanti, José Irapuan Pereira Escarião, Alberto Lucena, Augusto Gonçalves, Osvaldo Mota, Ferdinando Fernandes, Deijaci Araújo, E. Crispim, Edson de Sousa e outros que escaparam ao registro da Equipe GENIUS. Nas páginas seguintes, alguns flagrantes do evento e da sessão de autógrafos concedida pelo autor.

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APRESENTAÇÃO “DEVEMOS TER TOLERÂNCIA UNS COM OS OUTROS”(*) Bertholdo Sátyro e Sousa

Caro Conselheiro Flávio Sátiro Fernandes, meu estimado primo. Recebo um exemplar da biografia de meu pai, de sua autoria, com incontida emoção. Procurarei desincumbir-me da melhor maneira possível da missão que me foi confiada de fazer neste momento uma  apresentação. Tentarei, inicialmente,  expor  algumas passagens da vida familiar de meu pai já que o livro condensa toda a sua atividade política. Acompanhou-nos a mim, minha mãe e minhas irmãs  sempre com entusiasmo e assistência, apesar de muitas ausências por conta de memoráveis e sucessivas campanhas políticas em que atuou. Ele mesmo dizia : “Vim ao mundo para participar”. Na Constituinte de 1946,  eleito deputado federal,  mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, então Distrito  Federal. Fomos morar no bairro da Tijuca. Lá havia uma praça, existente até hoje,  chamada Praça Saens Peña aonde ele nos levava todo domingo para assistirmos a um teatro de marionetes. Ah! que saudades! Gratas recordações. Estudávamos em um colégio infantil denominado Instituto Dídia Fortes. Eu e minha irmã Gleide fomos acometidos, na época, de coqueluche. Papai, com o carinho de sempre, acompanhado de nossa mãe nos levava a passear  pelos parques da cidade. Chegaram  a fretar um avião por recomendação médica para nos proporcionar uma melhora respiratória. Era assim, dedicado e carinhoso. De temperamento explosivo, tinha, no entanto, a maior compreensão com quem divergisse de seu pensamento. Lembrava: “Devemos  ter tolerância uns com os

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outros”. Não guardava ódio nem ressentimento. Só não contemporizava com a desonestidade. Foi inimigo número um do comunismo e do esquerdismo comunizante. Lembro-me  de uma passagem contada por Evaldo Gonçalves:  Ernani Satyro o convidou para assumir uma secretaria em seu governo lá pelos idos de 1971.   Evaldo retrucou: “Dr. Ernani eu não posso assumir. O exército não deixa”.  Ernani indagou: “Amigo velho, você é comunista ou subversivo?”  Ao que Evaldo respondeu: “não senhor, nem uma coisa  nem outra”  Então você vai ser o meu secretário, disse Ernani. E assim foi, sem que surgisse nenhuma contestação militar. Como todo ser humano, tinha lá  suas idiossincrasias.  Uma delas foi relembrada  há algum tempo por Abelardinho Jurema.  Ele  transportava meu pai, de carona, até a sua residência. Lá pelas tantas, por exigência do trânsito, parou para dar uma marcha à ré. Meu pai reclamou: “pare, deixe eu saltar”,  o que causou estupefação ao motorista.  Papai tinha horror a andar de marcha à ré com ele dentro do veículo, desde quando sofrera um grave acidente sem,  felizmente,  maiores consequências. São apenas pequenas recordações de um passado que se distancia. Disse Ernani Satyro em agradecimento às inúmeras homenagens que recebeu pela comemoração de seus cinquenta anos de vida pública, completados em 1984, referindo-se à fala de Evaldo Gonçalves na Assembléia Legislativa da Paraíba: “Até onde possa existir a biografia de uma pessoa viva, a minha já está feita na saudação de Evaldo Gonçalves. De certo modo, foi um bem

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maior do que o previsto na idéia inspiradora da homenagem: agora não há pressa em morrer, porque minha vida, nos seus aspectos essenciais, já está narrada e interpretada no luminoso ensaio...” Algum tempo depois daquele pronunciamento, em 8 de maio de 1986, morria meu pai deixando a família enormemente entristecida e órfã de seu grande líder. Hoje, já morto, meu pai recebe a grande e, porque não dizer, talvez a maior homenagem a que um homem, reconhecidamente estadista, de notável percepção política, poderia aspirar: sua biografia verdadeira, escrita pelo sobrinho ilustre Conselheiro Flávio Sátiro Fernandes.  Não importa que já não esteja mais aqui. Nós, da sua família, seus amigos e admiradores, não deixaremos nunca cair a bandeira sagrada que ele empunhou com tanta virtude e firmeza a vida inteira.  Sobre meu pai não mais aqui falarei. Essa missão está contida no livro do conselheiro Flávio Sátiro que com certeza dela soube se  desincumbir  com o mesmo brilho que sempre o acompanha. Flávio Sátiro Fernandes, autor da biografia que me cabe apresentar, nasceu em Patos, aos 13 de janeiro de 1942, filho de Sebastião Francisco Fernandes e Emília Sátiro Fernandes. Ostenta invejável folha de serviços prestados à nossa terra. Citarei, para não me alongar, o que consta da orelha do livro “Perfil Parlamentar”. Em 1964 graduou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Foi advogado de ofício da comarca de Patos por dez anos além de ter sido cofundador da Faculdade de Ciências Econômicas e Secretário de Educação e Cultura do Município.


Em 1974 assumiu a Secretaria do Interior e Justiça da Paraíba. No ano seguinte foi nomeado Procurador Geral do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba e depois seu Conselheiro. Foi presidente do Tribunal por três vezes, Ouvidor e também Corregedor, além de Coordenador da Escola de Contas Conselheiro Octacílio Silveira. Ele também exerceu o magistério na Universidade Federal da Paraíba, atuou como correspondente do Jornal do Comércio em Patos, e como repórter do Diário de Pernambuco, nos anos 60. Romancista, poeta, ensaísta, historiador e articulista, é autor de várias obras de ficção, poesia e historiografia, além de títulos jurídicos. Teve vários de seus trabalhos publicados em revistas e jornais especializados. Após aposentar-se, tornou-se diretor e editor de uma revista por ele criada, de cunho cultural – GENIUS – um dos mais importantes órgãos do gênero surgidos na Paraíba, que já alcança o número 32. O autor deste primeiro volume já alinhara em outras oportunidades, passagens biográficas do homenageado com o mesmo esmero que lhe é peculiar. Na série histórica “Paraíba - Nomes do Século - número 10”, ele retrata  com fidelidade e memória  admiráveis, a ancestralidade de Ernani Satyro, citando até longínquos educadores que acompanharam a sua alfabetização. Segue na apreciação de sua vida política, literária, jurídica, indo a detalhes que somente seus olhos percucientes alcançaram, não  permitindo que as brumas do tempo os fizessem cair no esquecimento.  O “Ensaio biográfico e seleção de documentos e discursos” de Flávio Sátiro Fernandes, que se insere no “Perfil Parlamentar nº 61”, de invejável feitura, editado pela Câmara dos Deputados, narra com precisa

minudência as “Origens, os Estudos, a Vida Pública, o Homem de Letras, Falecimento e Atuação Parlamentar de Ernani Satyro”, chegando até a enumerar as votações de cada sufrágio que o elegeu.  Já disse e repito agora: Ernani Satyro  comentou um dia que as melhores homenagens, as mais verdadeiras, as de maior valor não eram as prestadas no calor dos acontecimentos, porque aí ardia a chama das paixões, das incompreensões, do partidarismo, mas sim aquelas realizadas na quietude da posteridade, tal como agora. O livro que aqui apresento ao público, por solicitação de seu autor é obra completa, bem documentada, apoiada em pesquisa sólida, fincada em fontes primárias e secundárias, sobretudo jornais de todo o país, os quais atestam a passagem do biografado nos diversos cargos que ocupou durante toda a sua vida pública. A obra abrange o período que vai do nascimento de Ernani Sátyro até a queda do governo João Goulart, em 1964, discorrendo o autor sobre os verdes anos de Ernani, seus primeiros estudos, a sua educação no Colégio Pio X e no Lyceu Paraibano e, finalmente, na velha Faculdade de Direito do Recife, por coincidência, a mesma escola superior por onde Flávio, seu biógrafo, trinta anos depois, também colaria grau. O período no Recife, como narra Flávio, foi um tempo dedicado ao aprendizado jurídico, jornalístico, literário e, igualmente, político, pois, ali, Ernani Sátyro iniciou suas atividades públicas, elegendo-se Presidente do Diretório Acadêmico da vetusta Faculdade. Depois veio a atividade político-partidária, elegendo-se Deputado Estadual e substituindo seu pai Miguel Sátyro na liderança política de Patos e adjacências. Nessa fase um tanto conturbada de sua existência, além

de Deputado, foi Chefe de Polícia e Prefeito da Capital, depois do que mergulhou em um longo período de ostracismo, que Flávio classifica como um ostracismo produtivo, durante o qual se dedicou à advocacia e à literatura. Por essa época, conheceu aquela que, superando o direito, a política, a literatura, o jornalismo, seria, como diz bem Flávio, a sua maior paixão – Antonietta – com quem se casou e com quem teve os filhos que lhe povoaram a existência. Com a redemocratização do país, ingressou no glorioso partido da “eterna vigilância”, União Democrática Nacional, iniciando uma longa etapa política que chegou às culminâncias do cargo de Governador do Estado e de funções legislativas de relevo, assim como de Ministro do Superior Tribunal Militar. Tudo isso está repassado por Flávio que não esmoreceu em elaborar mais de setecentas páginas da biografia na descrição dos mais importantes momentos políticos de Ernani Sátyro Não vou me alongar nessas referências à obra de Flávio, pois, afinal, a tudo isso terá acesso o leitor, quando tiver em mãos o livro. Flávio, parabenizo-o e, como filho, agradeço em nome de toda a família pela confecção desta biografia, certo de que ela perpetuará a memória do homenageado. O sucesso da iniciativa é seu e é nosso: seu, pelo requinte da obra e nosso pela convicção de que é o legado maior para  que as gerações futuras conheçam a vida do grande paraibano que foi Ernani Satyro. g

(*) Texto da apresentação do livro ERNANI SÁTYRO – AMIGO VELHO, no ato de seu lançamento, na noite de 4 de dezembro de 2018, no auditório da Fundação Casa de José Américo.

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PALAVRAS DO AUTOR UM HOMEM PÚBLICO ARREBATADO(*)

Flávio Sátiro Fernandes

Este trabalho não é uma dissertação de mestrado, nem tampouco uma tese de doutorado, com suas idiossincrasias, suas falsas verdades, suas duvidosas certezas, seus supostos mitos e mitificações. É apenas a história de um Homem que durante toda a sua vida, desde a infância, passando pela juventude e vivendo a maturidade, sempre esteve envolvido com a Política. Ao tomar posse como Ministro do Superior Tribunal Militar, disse ele a seus pares:“Fui, até este momento, um político. Agora, sou um magistrado. Não tenham medo de político. Tenham medo, isto sim, de quem foi mau no seu ofício, qualquer que ele seja”. A essa assertiva se vem juntar outra, proclamada após retornar à política e ao completar cinquenta anos de atividade pública, quando declarou, numa homenagem que lhe foi prestada na Assembleia Legislativa da Paraíba: “Confesso que recebi com satisfação a notícia desta homenagem e que a aceitei porque vi nela uma valorização da vida pública. Eu que sou político e não me envergonho, antes me orgulho de ser político a serviço da causa pública...” Essas palavras, de fé e confissão, revelam o âmago do espírito de quem se dedicou durante toda a vida à Política, fazendo-a maior, por exercê-la com dois sentimentos que bem emolduram o retrato de um homem público: orgulho são e consciência verdadeira. Por isso, era um homem público arrebatado, quer quando se dirigia às multidões, quer quando se voltava para os seus colegas, da tribuna da Câmara dos Deputados, onde atuou por trinta anos, quer, finalmente, em tudo que fazia, pois,

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“Já disse muitas vezes que tudo quanto faço é com todo o meu ser: com a inteligência, com o coração, com os nervos, com o sangue, com o temperamento, com as minhas possíveis virtudes, as minhas deficiências e as minhas falhas”. Esse modo de agir era inato nele, o que fez um homem do povo, filósofo popular, residente em Patos, dizer a seu genitor, que lhe procurava mudar o comportamento exaltado, nos comícios, em praça pública: “Major, deixe o menino correr como ele sabe”. Nele, além do político dedicado, do advogado diligente, do juiz consciencioso, do parlamentar denodado, se mesclaram, ainda, o escritor, o romancista, o poeta, o ensaísta, o orador, facetas que corporificaram o intelectual brioso, revelado através de ensaios, romances, poesias, discursos. Fez-se, porém, refratário à história, à pesquisa, à memorialística, dizendo-se não propenso a tais ramos do saber e da escrita. Temperamental, impulsivo, arrebatado, não cultivava a vaidade, a vã vaidade, de que muitos são portadores. Ao contrário, era um humilde, embora não o parecesse. Isso atestaram testemunhas de seu viver, dentre as quais forçoso é destacar dois depoimentos dados a público: um, pelo Professor e filósofo Miguel Reale, manifestando testemunho de sua atuação como Relator Geral do projeto de código civil na Câmara dos Deputados. Afirmou o Catedrático da Faculdade de Direito da USP: “Seu Relator era o ilustre e saudoso Deputado Ernani Satyro, pessoa humilde, mas um jurista de profundos conhecimentos, como tive a oportunidade

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de verificar quando conversei com ele. Dedicado ao projeto do Código Civil, foi nada menos do que três vezes a São Paulo para entrar em contato comigo, a fim de analisar as 1.030 emendas oferecidas ao projeto nessa primeira fase”; outro, pelo seu confrade das letras, na Academia Brasiliense, João Emílio Falcão, em artigo divulgado no Correio Braziliense, no dia seguinte ao de sua morte, o qual também fala do homem humilde que ele via, diariamente, adentrar o Congresso Nacional com velha pasta surrada. Dizer que Ernani Sátyro era humilde não significa dizer que ele se considerasse inferior a qualquer dos seus semelhantes. Mostra, sim, que ele não se julgava superior a quem quer que fosse. É nisso que reside a essência da humildade, já se disse. Era um apaixonado da sua terra natal – Patos, Paraíba, Brasil. Esse sentimento de teluricidade ele extravasava amiúde em suas produções intelectuais – obras literárias, discursos políticos, pronunciamentos na tribuna da Câmara - nos quais abundam as evocações da terra natal, a memória dos antepassados, a recordação dos fatos e fastos sertanejos, a lembrança dos acontecimentos que povoaram a história de sua terra, fossem alegres, fossem tristes; a rememoração das lutas políticas de que participou desde a infância; finalmente, a defesa dos interesses do Brasil e do Nordeste, através de sua ação política e parlamentar. Os anais do parlamento brasileiro constituem, sem dúvida, uma fonte primária e essencial para o conhecimento da história de nossas casas legislativas,


em seus períodos ordinários e constituintes, assim como para o reconhecimento da ação de seus integrantes, através dos discursos, nelas proferidos e dos projetos de lei, requerimentos, questões de ordem, moções, nelas apresentados. Como a vida pública de Ernani Sátyro se desenrolou tendo a atividade parlamentar como seu conteúdo maior, evidentemente, a sua ação na Câmara dos Deputados haveria de consumir a maior parte das páginas que ora lançamos a público, as quais constituem o primeiro volume de sua biografia. Neste trabalho, procuramos traçar um retrato de corpo inteiro do biografado, sem, contudo, deixar que o nosso traço desbordasse dos limites do que devia ser: uma biografia. Em outras palavras, procuramos evitar que a sua figura e a sua ação surgissem além da moldura. Em momento algum ele foi para nós o maior, o melhor, o dono da verdade. Algum ou outro juízo, nesse sentido, com que se deparar o leitor, terá vindo de fora, da imprensa, sobretudo. Existe no Brasil, entre os analistas de esquerda, o vezo maniqueísta de dividir os políticos em bons e maus, segundo suas tendências ideológicas e políticas: bons seriam os de esquerda, os esquerdizantes, os esquerdistas, os comunistas, que eram e são chamados de democratas, nacionalistas, patriotas, em que pese defenderem e se mostrarem simpáticos aos regimes despóticos, tais como os da antiga União Soviética, Cuba e outros mais recentes; por outro lado, maus seriam os de direita, ou mesmo de centro, não comunistas, chamados de reacionários,

retrógados, “gorilas”, fascistas e outras pechas. Análise, como se vè, mais do que simplória. Cremos que apenas uma classe de políticos merece, e muito, o qualificativo de maus brasileiros: a dos políticos corruptos, que, hoje, mais do que ontem, infestam a vida pública nacional. A propósito da pecha de reacionário com que sempre Ernani Sátyro se viu agraciado, ouvi-o, certa vez, dizer, mais ou menos, o seguinte: “Chamam-me reacionário e eu digo que, realmente, sou reacionário. Quem é reacionário, o nome já diz, manifesta reação contra alguma coisa com que não concorda. Assim, eu sou reacionário contra a corrupção, sou reacionário contra o desperdício do dinheiro público, sou reacionário contra a fraude eleitoral”. Para finalizar esta Apresentação, não fujo à tentação de falar à Assis Chateaubriand que, por sua vez, falou à Joaquim Nabuco e dizer que Ernani Sátyro era o sertão, o brejo, o cariri, a caatinga, o agreste, o curimataú, o litoral; era o Pico do Jabre, olhando para as estrelas, mas com os pés fincados na Serra do Teixeira; era a Pedra do Tem Dó que quando baixa os olhos fita o formoso vale do Pinharas com a cidade e seu rio serpenteando lá embaixo; era o monolítico serrote do Espinho Branco, postado à margem do caminho, como sentinela avançada; era o trovão ecoando na Serra das Preacas; era o rio Espinharas, com a música de suas águas, descendo cheio nas invernadas de antanho, restrito no verão a finas faixas de areia; era o coronel, o matuto, o lutador, o tabaréu semicivilizado, o tropeiro

descendo a encosta no lombo do jumento; era o zagaieiro lembrando a figura do tio-avô; era o Pega e o Panati, valentes na luta contra o invasor; era o umbuzeiro frondoso, disposto a dar sombra e abrigo aos viajantes; era o chique-chique, o cactus, a coroa-de-frade, adustos como a sua sinceridade; era a canícula sertaneja, o sol escaldante do meio dia, o mormaço da tarde, a dar energia aos nativos; era o vento brando da noite, agasalhando os naturais do lugar e fazendo-os dormir embalados pela brisa afável que compensava a quentura do dia inteiro; era a música das novenas nas festas da Padroeira, a que o povo acorria, com grande elevação, algumas delas compostas por Mestre Braz do Teixeira; era o despertar luminoso do dia no sertão, com a orquestração de seus pássaros, entoando a canção do amanhecer. Era tudo isso que formava a beleza e a grandeza de uma gente e de uma terra que ele representou durante toda a sua vida pública. Era, enfim, o AMIGO VELHO, expressão que sempre lhe valeu menos como instrumental mnemônico, do que como demonstração sincera de simpatia, amizade e alegria em ver o outro. Diz o povo, em sua sabedoria: “Tudo que você faz, um dia volta pra você”. É o que ocorre com Ernani Sátyro. De tanto chamar os outros de Amigo Velho, ficou conhecido, ainda em vida, pela mesma alcunha. Daí, o título deste trabalho não poderia ser outro, senão ERNANI SÁTYRO – AMIGO VELHO, UMA BIOGRAFIA. g Texto de abertura do livro em epígrafe, lido na ocasião do lançamento. (*)

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Aspecto da Mesa dos trabalhos presidida pelo acadêmico Damião Ramos Cavalcanti

O dr. Bertholdo Sátyro e Sousa apresentador do livro que traça a biografia de Ernani Sátyro, seu pai

O acadêmico Flávio Sátiro Fernandes autor do livro, ao fazer seu pronunciamento

Vê-se acima o auditório da FCJA, totalmente lotado.

Adv. Geilson Salomão, Des. Trabalhista Edvaldo de Andrade, Acads. Flávio Sátiro e Evaldo Queiroz, Emp. Manoel Gaudêncio, Acad. Oswaldo Trigueiro e Acad. Ângela Bezerra de Castro.

Advs. Cleanto Gomes e Assis Camelo, Acad. Flávio Sátiro, escritor Emanoel R. Carvalho e Proc. Adelmar Régis.

Adv. José Milton, Acad. Maria das Graças, Historiadores Auxiliadora e Berilo Borba.

Acad. Sales Gaudêncio, Empresários Roberto Cavalcanti e Roberto Braga, Juiz Onaldo Queiroga.

Acads. Abelardo Jurema, Ramalho Leite, Gonzaga Rodrigues e Damião Ramos Cavalcanti.

Médico Fernando Lianza e senhora, Acad. Damião Cavalcanti, Cons. Fábio Nogueira e Acad. Flávio Sátiro.

Cons. André Carlo e Acad. Flávio Sátiro

Advogados Geilson Salomão e Diego Dutra ladeando o acadêmico Flávio Sátiro Fernandes.

Médico Francisco de Assis dos Anjos e senhora e o também médico José Juvêncio de Almeida Filho.

Des. Bertholdo Sátyro e Sousa, Acadêmicos Flávio Sátiro e Damião Cavalcanti e o coordenador do CCAS Flávio Sátiro Filho

Acadêmico Flávio Sátiro com o juiz Oswaldo Duda Ferreira, autografando seu livro.

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Com José Irapuan e Glória Escarião.

Com o ex-reitor Berilo Ramos Borba.

Com a assessora legislativa Samara Longo.

Com os professores Andréia Escarião e Roncalli Bezerra.

Com o jornalista Genésio de Sousa Neto.

Com médico (TCE-PB) Paulo Oliveira.

Com a professora Geralda Medeiros Nóbrega.

Com o Juiz Onaldo Queiroga.

Com o acadêmico Sales Gaudêncio.

Com o escritor Emanoel Rocha Carvalho.

Com a assessora do TRT, Marília Bonavides.

Com os poetas Sander Lee e Sander Braun.

Com a escritora Neide Medeiros Santos.

Com a representação campinense, escritores Thomas Bruno Oliveira, Ida Steinmüller e Vanderlei Brito.

Com o advogado Vicente Gayoso.

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OPINIÕES BEM AVENTURADO TU, ERNANI Evaldo Gonçalves

O escritor Flávio Sátiro, da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, acaba de lançar seu novo livro, Ernani Sátyro, Amigo Velho, quando, graças à sua reconhecida cultura e conhecimento da vida pública do Estado, enriquece a nossa história Política ao escrever a trajetória do líder paraibano. Sem o brilho do escritor Flávio Sátiro, em 1984, entreguei ao público paraibano a edição do livro Auroras que jamais entardecerão, contendo nos seus capítulos, Confissões, Estilo de governo, Realizações de governo, Parlamentar de hoje e de ontem, Realizações de governo, Brilhante e constante, Depoimentos e Repercussões na imprensa. Em discurso pronunciado na tribuna da Câmara Federal, exatamente em sessão de 11 de outubro de 1988, deixei nos seus Anais um depoimento tentando tacar um perfil do Governador Ernani Sátyro. Nele transcrevo patê de uma confissão sua, se autodefinindo: “costumo dizer que sou um otimista realista. Nada de pessimismo. Nada de pouco sonho. O melhor é sonhar acordado com os pés no chão, olhando as estrelas”. No livro de Flávio Sátiro, entre tantas afirmativas procedentes, uma é de excepcional coerência: é que, ao invés de direita radical, Ernani Sátyro era, por formação ética, um democrata convicto, respeitando sempre as divergências de opinião e os direitos das oposições exercerem suas divergentes. Ao concluir este depoimento acerca do Livro de Flávio Sátiro, transcrevo aqui parte de discurso por mim pronunciado na tribuna da Câmara dos Deputados, Bem Aventurado Tu, Ernani. “Fostes e serás, eternamente, construtor de Auroras, que jamais entardecerão. Tua Vida e tuas realizações são testemunhos evidentes de que não se morre quando se colabora com a obra da Criação, acrescentando o resultado de nossa ação construtiva ao prodigioso trabalho de Deus, criando o Mundo e o Homem à Sua imagem e semelhança. Bem Aventurado Tu, Ernani, nobre Varão das Espinharas, a quem rendemos nossas homenagens. (Transcrito do jornal Correio da Paraíba, de 11 de dezembro de 2018)

O AMIGO VELHO DE FLÁVIO Francisco Gil Messias

Pode-se dizer que essa era uma obra anunciada, prevista desde sempre, aguardando apenas o momento propício para vir à luz. E outra coisa: teria de vir inescapavelmente ou pelas mãos de Evaldo Gonçalves ou de Flávio Sátiro, os dois guardiões maiores da memória do ex-governador Ernani Sátyro, além de seus descendentes, é claro. Terminou vindo de Flávio a biografia de douto Ernani, mas se tivesse vindo de Evaldo a qualidade seria a mesma, pois ambos se parecem no gosto pelas pesquisas históricas e pela afeição dedicada ao biografado. Quiseram as circunstâncias que doutor Ernani tivesse a oportunidade e o prazer de governar a sua terá em pleno regime militar, marcado, como não poderia deixar de ser, pelo autoritarismo inerente aos governos não democráticos. Mas a verdade é que o autoritarismo federal não contaminou o governo estadual do pa-

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toense, até por conta de sua índole natural, de seu temperamento reconhecidamente informal e amigável. Amigo velho! Assim o ex-governador, com sua voz tonitruante, tratava conhecidos e estranhos, envolvendo a todos no aconchego sertanejo típico de sua Patos natal; e também assim ele demonstrava, de forma autêntica, a cordialidade de seu jeito de ser, principalmente quando, em meio a conversas, apreciava, sem inibições, o malte escocês, tão do seu agrado. Por isso, talvez, ele tenha sido o governador de maior convivência social que tivemos, tamanha a freqüência de sua presença em eventos públicos e privados, notadamente numa época em que as pessoas ainda recebiam muito em suas casas. Os amigos velhos tornavam-se velhos amigos. Cada qual tem o seu amigo velho na lembrança. Mas, por ora, a palavra fica com o operoso biógrafo Flávio que, certamente, muito tem para contar. Vamos ao livro.

O ERNANI DE FLÁVIO SÁTIRO Gonzaga Rodrigues

Trabalhão de 790 páginas o livro que Flávio Sátiro Fernandes dedica à vida política e literária de Ernani Sátyro. Trabalho honesto, sem disfarces, em que o autor não procura dissimular as próprias afinidades de ideias nem a febre dos discursos recuperados dos anais, a pretexto de uma postiça isenção. Até porque não há biografia animada ou viva sem a adesão ou, no mínimo, a grande admiração do autor pelo seu personagem. Flávio Sátiro vê com os olhos e o ardor do tio tudo o que se constitui marcante na trajetória de vulto dessa grande personalidade. Até na veemência do adjetivo quando crítica, por exemplo, o maniqueísmo “simplório” do esquerdismo. Caiu-me a carapuça. Mais de um terço do livro, quase metade, vem direto do discurso, da entrevista, da reação viva do personagem em seu envolvimento com a história política do país desde a redemocratização, gerando a Constituinte de 1946, até a saudação, dezoito anos depois, ao golpe militar que, na perspectiva do orador de então, a faria engrandecida. “Pode ser que surjam arranhões, - prevenia – pode ser que surjam algumas frestas, mas essas frestas, esses arranhões, hão de realizar uma democracia que o Sr. João Goulart, no seu primarismo e na sua maldade, não foi capaz de construir no Brasil”. Palavras em cima do 1º de abril. Trazendo o protagonista na força de suas próprias palavras, reaviva com ele até mesmo as reações ou o modo de ver adormecidos do outro lado. Está aqui, por exemplo, “A Novembrada” e “Um golpe dentro do golpe”, capítulos dedicados ao 11 de novembro, que o outro lado, onde eu estava, lia e via como o “golpe da legalidade”, afrontada com o discurso aberto de Carlos Lacerda e as manchetes da “Tribuna da Imprensa”. Falecido há poucos dias, José Ferreira Ramos, meu grande amigo e censor ideológico, que sendo do PSD de João Fernandes, seguia a linha de Ernani. Flávio Sátiro desencava uma qualidade encoberta pelo voluntarismo de Ernani: a humildade. Era um humilde, embora não parecesse. E ressalta essa virtude a partir de depoimento de Miguel Reale, o jurista-filósofo procurado por Ernani para examinarem emendas ao Código Civil do qual Ernani era relator. Humilde ele foi, escolhido governador, ao sair de entrevista a O Norte numa carona do locutor que vos fala. E num fusquinha 60, tinhoso na partida. Consegui virar, acelerar, e ao vê-lo dar partida, doutor Ernani bate a porta e grita: Este teu carro foi a maior obra do JK. Devia ter o nome dele”. (Transcrito de A União, de 12 de dezembro de 2018)


DE FLÁVIO SÁTIRO PARA ERNANI SÁTYRO: “AMIGO VELHO” Mário Tourinho

I

II

Foi das mais prestigiadas a solenidade de lançamento do volume I do livro “Ernani Sátyro – Amigo Velho – Uma Biografia”, de autoria de seu sobrinho Flávio Sátiro Fernandes, que além de romancista, poeta, ensaísta, historiador e articulista, notabilizou-se também como um dos mais ilustres membros do TCE-PB, do qual foi presidente por três vezes. Mas, de começo, na leitura deste texto, alguém pode estranhar havermos escrito o Sátiro de Flávio com “i” na segunda sílaba, em vez de com o “y” do Sátyro de Ernani, já que, obviamente, sendo sobrinho/tio, são da mesma família... “A quem interessar possa”, pode constatar com Flávio Sátiro Filho, que ele, imediatamente, e com mais do que “bom humor”, vai explicar que é assim mesmo: um Sátiro é com “i” e o outro Sátyro é com “y”! Foquemo-nos, porém, ao livro que, como já dissemos, teve lançamento muitíssimo prestigiado, em sessão realizada na terça-feira, dia 4, na Fundação Casa de José Américo, tanto a sessão quanto a Casa presididas com a classe, não só elegante, mas igualmente intelectual de Damião Ramos Cavalcanti. Se este é o primeiro volume, certamente o segundo já está a caminho. E neste primeiro, surgiu em nós, ao espiar sua capa, como que uma dúvida: esta é mesmo a foto de Ernani Sátyro? Claro que sim! É que estava em nós, ainda, a imagem do “Amigo Velho” governador do estado (março de 1971 a março de 1975), período que todos mais o víamos, inclusive pela foto oficial de 1º mandatário paraibano. A foto da capa do livro (cujo 1º volume ainda não contempla seu tempo de governador) parece representar os anos 40/50 em que foi bastante elogiada sua verve de romancista, tempo em que (1954) seu livro “O Quadro-Negro” recebeu de Carlos Drumond de Andrade as seguintes referências: “O Quadro Negro não me pareceu apenas um romance a mais, mas uma obra literária em que o dom de fixar o mundo exterior se alia a uma fina percepção do mundo interior, resultando daí uma impressão de verdade artística”. Está no livro de Flávio. Leia-o! E constate a dimensão do “Amigo Velho...

Como disséramos na primeira parte destes escritos sobre o livro “Ernani Sátyro – Amigo Velho”, de autoria de Flávio Sátiro Fernandes, ao expiarmos sua capa, como que em dúvida, questionáramos se a foto nela inserida era mesmo a do ex-governador paraibano, tal a juventude ali representada. E nós mesmos esclarecíamos: - Claro que sim! A estranheza decorria de que em nós ainda (ou só) preponderava a imagem do “Amigo Velho” governador do Estado, de 1971 a 1975. E considerando que sua biografia, neste primeiro volume, não contempla seus tempos como 1º mandatário da Paraíba, essa foto mostrava-o, talvez, nos anos 40/50... No entanto, o autor do livro, Flávio Sátiro Fernandes, em contato telefônico, esclareceu que nem dos anos 40/50 foi aquela foto, pois, ela correspondia à sua formatura (quero dizer a formatura de Ernani Sátyro) como Bacharel da já tradicional Faculdade de Direito do Recife, cuja solenidade dera-se em 7 de dezembro de 1933, ou seja, Ernani Sátyro ainda com 22 anos de idade, já que seu nascimento aconteceu em 11 de setembro de 1911. Estes informes, claro, estão no livro de Flávio! Também vamos constatar – e de nossa parte não o sabíamos – que Ernani Sátyro foi prefeito da cidade de João Pessoa. Já dissemos que não sabíamos! E você, leitor(a), sabia?! Lendo o livro aqui referenciado, vamos saber, sim, Ernani Sátyro exerceu as funções de prefeito da capital paraibana, embora que apenas por 20 dias: de 10 a 29 de julho de 1940. As razões desse período administrativo ter sido tão curto... por óbvio estão detalhadas no livro de Flávio Sátiro Fernandes, páginas 153 a 156. Como se nota, a história de Ernani Sátyro é rica e enriquecedora... como rico e enriquecedor é este livro de Flávio Sátiro Fernandes.

Acadêmico Flávio Sátiro e Eliane com os filhos, genrro e noras

(Textos transcritos do jornal Correio da Paraíba, 09 e 16 de dezembro de 2018)

Acadêmico Flávio Sátiro com os netos

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TENHO UMA HISTÓRIA PARA TE CONTAR AMIGO VELHO Thomas Bruno Oliveira

Amigo Velho, como diria Ernani Sátyro, tenho uma história para te contar. É que depois dessa beleza de estrada entre Campina Grande e João Pessoa, descer ao Planalto da Borborema é tarefa tranquila – como diria Zé Maranhão – e mais, com um convite para um evento cultural, o lançamento de um livro (e não qualquer livro!) e ainda mais na Fundação Casa de José Américo; é como um chamado, uma intimação, daquelas que a gente deixa tudo pra trás e segue mundo a dentro para respirar letras e histórias. Fui convidado pelo escritor Flávio Sátiro Fernandes para o lançamento de uma produção sua, um de seus mais importantes escritos, a biografia do seu tio Ernani Ayres Sátyro e Sousa, grande personalidade paraibana, filho das Espinharas (Patos-PB) – assim como o Flávio – e que ocupou lugares de relevância na vida nacional e local; foi Ministro do Superior Tribunal Militar, Governador da Paraíba, Deputado Federal por oito mandatos, Deputado Estadual, etc. Ernani escrevia poesias, foi também cronista e romancista, por cuja obra a Fundação Ernani Sátyro zela com labor. Sua poesia é lírica, o amor por sua Antonieta e também pelo seu rio são sempre temas. Ao falar do Espinharas de sua infância diz: “Todos cantam o seu rio/ O meu também vou cantar,/ Maior do que o Amazonas, Só menor do que o mar...”. Romances escreveu ‘O Quadro-Negro’ (1954), ‘Mariana’ (1957) dentre outros escritos. A biografia se chama: ‘Ernani Sátyro: Amigo Velho – Uma Biografia’ e abrange o período de vida do político patoense desde a infância até a queda de João Goulart,

narrando diferentes episódios da história dos quais ele foi importante personagem. Aí você me pergunta: e o restante de sua vida, ficou de fora? É, amigo velho, aí são outros quinhentos, ou melhor, setecentos; a obra tem nada mais, nada menos que 792 páginas recheadas de muitas histórias. Chegamos a Fundação. Sim, chegamos: Ida Steimüller, Vanderley de Brito e eu (ambos representando o IHCG). Na calçada, aquele marulho e cheiro do mar me extasiou. Por um momento deu vontade de jogar paletó e sapatos e banhar os pés no mar do Cabo Branco, e ainda mais nesses dias tão quentes. Estacionei mais adiante para poder caminhar um pouco no calçadão e ver as luzes cintilantes que contornam o mar até Tambaú, mas como João Pessoa está bela! Vanderley caminhou comigo, fumou seu cigarro e seguimos. No saguão do auditório, Flávio Sátiro e seu filho recepcionavam os amigos, momento de saudações, abraços e reencontros com “Amigos Velhos” que moram na capital. Muito bom ver Berilo Borba e sua Dora, Zé Octávio, Humberto Fonseca de Lucena, Wills Leal, Humberto Mello, Hildeberto Barbosa, Gonzaga Rodrigues e Paulinho. Logo de entrada fui dadivado com abraços desses ilustres. Sem atraso, auditório repleto, o presidente da Fundação e da Academia de Letras Damião Cavalcanti inicia a cerimônia com uma fala muito firme e elogiosa ao autor e à obra, momento em que eu, com ela em mãos, iniciei o folhear. Abri em uma notícula que finda o Cap. III (é que Flávio inteligentemente, deixando a obra mais leve, inseriu numa nota, ao fim

de cada capítulo, uma historinha de cunho jocoso ou histórico). Aquelas a que me refiro se chama “Autocrítica”. Conta Sátiro que um jornalista da Câmara, ao passar por uma das salas, ouviu o vozeirão do Dep. Ernani parecendo criticar alguém. Pensando em evitar atrito maior entre o Amigo Velho e o contendor, abriu a porta da sala e surpreendeu o líder udenista falando para si diante de um espelho. Não se perturbando, explicou: “Estou fazendo a minha autocrítica...” Naquele momento dei uma risada que não foi excessiva, mas duas pessoas que estavam em minha frente olharam pra mim. Folheei novamente e encontrei outra notícula: Histórias de Zé Prego II. O Zé era um sujeito “esguio, analfabeto, inteligente” e até filósofo que perambulava por Patos vendendo rede. Certa vez Ernani foi reprimido por Miguel, seu Pai, para amenizar nos discursos contra adversários. Zé Prego “a um canto da sala, falou: - Major, deixe o menino correr como ele sabe”, não me contive e: outro sorriso, me olharam novamente. Fitei a mesa e vi o autor, com o costumeiro olhar sereno olhando em minha direção, temi ter “pisado na bola”. E passei a ouvir o contundente discurso de Bertholdo Sátyro, filho de Ernani; depois, a elegante fala do autor (e o livro fechado!) Lá fora, ao assinar meu livro, esperei um puxão de orelhas, mas o que tive foi um carinhoso agradecimento pelo comparecimento. Tanto é que levarei essa dúvida pelos meus dias: será que ele ouviu meus sorrisos ou estava absorto escutando o discurso do primo com um olhar distante? E aí, amigo velho? Me tire essa dúvida...

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COLABORADORES

A. J. Pereira da Silva (In Memoriam) – 9, 11, 32 Abelardo Jurema Filho – 5, 11 Adalberto Targino – 25 Adelmar Tavares - 32 Adylla Rocha Rabello – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Afonso Arinos (In Memoriam) – 12 Afonso Arinos de Melo Franco (In Memoriam) - 30 Ailton Elisiário – 25, 29, 30 Alceu Amoroso Lima (In Memoriam) – 15 Alcides Carneiro (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 32 Alcir de Vasconcelos Alvarez Rodrigues – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Aldo Di Cillo Pagotto (D.) – 8 Aldo Lopes Dinucci – 9 Alessandra Torres – 9 Alexandre de Luna Freire – 1 Aline Passos - 21 Aluísio de Azevedo (In Memoriam) – 13 Aníbal Freire (In Memoriam) - 24 Álvaro Cardoso Gomes – 5 Américo Falcão (In Memoriam) – 9 Ana Isabel Sousa Leão Andrade – 15 André Agra Gomes de Lira – 1 André Lucena - 32 Andrès Von Dessauer – 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 21, 22, 23, 24, 25,26, 27, 29, 30, 32, 33 Ângela Bezerra de Castro – 1, 11, 25, 29, 32 Ângela Cassia Costaldello - 32 Ângela Maria Rubel Fanini – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Anna Maria Lyra e César – 6 Anníbal Bonavides (In Memoriam) – 8 Anton Tchecov (In Memoriam) - 30 Antônio Mariano de Lima – 4 Antônio Parreiras (In Memoriam) - 28 Ariano Suassuna (In Memoriam) – 14 Assis Chateaubriand (In Memoriam) – 12 Astênio César Fernandes – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 8 Augusto dos Anjos (In Memoriam) – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Aurélio de Lyra Tavares (In Memoriam) – 13 Austregésilo de Atahyde (In Memoriam) – 23 Auxiliadora Borba - 33 Bartyra Soares - 29 Berilo Ramos Borba – 3 Boaz Vasconcelos Lopes – 7 Camila Frésca – 5 Carlos Alberto de Azevedo– 4, 6, 11 Carlos Alberto Jales – 2, 12, 14, 16, 23, 25 Carlos Lacerda (In Memoriam) – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Carlos Meira Trigueiro – 2, 5 Carlos Pessoa de Aquino – 5 Celso Furtado - 16 Coriolando de Medeiros (In Memoriam) – 27 Chico Pereira - 16 Chico Viana – 1, 2, 4, 6, – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 10, 13, 14, 22, 24, 33 Ciro José Tavares – 1, 23 Cláudia Luna - 28 Cláudio José Lopes Rodrigues – 5, 6, 27 Cláudio Pedrosa Nunes – 7 Cleanto Gomes Pereira - 33 Cristiano Ramos – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Cristovam Buarque – 10 Damião Ramos Cavalcanti – 1, 11 Deusdedit de Vasconcelos Leitão - 24 Diego José Fernandes – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Diógenes da Cunha Lima – 6 Durval Ferreira – 7 Eça de Queiroz (In Memoriam) – 14 Eilzo Nogueira Matos – 1, 4, 7, 13 Eliane de Alcântara Teixeira - 6 Eliane Dutra Fernandes – 8, 14 Eliete de Queiroz Gurjão - 28 Elizabeth Marinheiro – 12 Emmanoel Rocha Carvalho – 12 Érico Dutra Sátiro Fernandes - 1, 9, 27 Erika Derquiane Cavalcante - 24 Ernani Sátyro (In Memoriam) –EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 7, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 11, 15, 16, 31 Esdras Gueiros (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Eudes Rocha - 3 Evaldo Gonçalves de Queiroz - EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 8, 31 Evandro da Nóbrega- 2, 4, 6, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 11, 14, 15, 21, 31 Everaldo Dantas da Nóbrega – 13 Everardo Luna (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Ezequiel Abásolo - 8 Fábio Franzini – 7 Fábio Túlio Filgueiras Nogueira - 30 Fabrício Santos da Costa – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Felizardo de Moura Jansen - 29 Fernando Gomes (D.) (In Memoriam) - 25 Firmino Ayres Leite (In Memoriam) - 4 Flamarion Tavares Leite – 8 Flávio Sátiro Fernandes – 1, 2, 4, 6, EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 7, 8, 9, 10, 11, 13, 14, 16, 21, 22, 23, 26, 28, 31, 33 Flávio Tavares – 3 Francisco Bley - 32 Francisco de Assis Cunha Metri (Chicão de Bodocongó) - 2 Francisco Gil Messias – 2, 5, 14 Gerardo Rabello – 11 Gustavo Rabay Guerra – 27 Giovanna Meire Polarini – 7 Glória das Neves Dutra Escarião – 2 Gonzaga Rodrigues – 6, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 11, 31, 33 Guilherme Gomes da Silveira d’Avila Lins – 4, 8 Hamilton Nogueira (In Memoriam) – EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Hélio Jaguaribe - 33 Hélio Zenaide – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Hildeberto Barbosa Filho – 11, EE José Lins do Rego/Novembro/2015, 31 Humberto Fonseca de Lucena - 23 Humberto Melo – 16 Ida Maria Steinmuller – 24, 32, 33 Igor Halter Andrade – 30

Inês Virgínia Prado Soares - 23 Iranilson Buriti de Oliveira – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Itapuan Botto Targino – 3 Ivan Bichara Sobreira - 31 João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (In Memoriam) – 4 João Cabral de Melo Neto (In Memoriam) – 27, 29 João Lelis de Luna Freire - 30 Joaquim de Assis Ferreira (Con.) (In Memoriam) – 6 Joaquim do Amor Divino Caneca - 28 Joaquim Osterne Carneiro – 2, 4, 7, 9, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 11, 14, 25, 32, 33 Jonathan França Ribeiro – 30 José Américo de Almeida (In Memoriam) – 3, 10, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 15 José Honório Rodrigues (In Memoriam) - 28 José Jackson Carneiro de Carvalho – 1 José Leite Guerra – 6 José Lins do Rego (In Memoriam) – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 José Loureiro Lopes – 16, 21 José Mário da Silva Branco – 11, 13 José Nunes – 16, 25 José Octávio de Arruda Melo – 1, 3, 6, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 9, 13, 15, 21, 24, 25, 28, 30, 31, 32, 33 José Romero Araújo Cardoso – 2, 3, 10, 11 José Romildo de Sousa – 16 José Sarney – 15 Josemir Camilo de Melo – 11, 28 Josinaldo Gomes da Silva – 5, 10 Juarez Farias – 5 Juca Pontes – 7, 11, 27 Krishnamurti Goes dos Anjos – 29 Ivan Lins – 27 Linaldo Guedes – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Lourdinha Luna – EE/Pedro Moreno Gondim/2014, 7, 13, 15, 29 Lucas Santos Jatobá – 14 Luiz Augusto da Franca Crispim (In Memoriam) – 13 Luiz Fernandes da Silva- 6 Machado de Assis (In Memoriam) – 9 Manoel Batista de Medeiros – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Manuel José de Lima (Caixa Dágua) (In Memoriam) – 13 Marcelo Conrado – 30 Marcelo Deda (In Memoriam) – 4 Márcia de Albuquerque Alves - 23 Marcílio Toscano Franca Filho - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 23 Marcos Cavalcanti de Albuquerque – 1 Marcus Vilaça - 25 Margarida Cantarelli - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Maria das Neves Alcântara de Pontes – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Maria do Socorro Silva de Aragão – 3, 10, 15 Maria José Teixeira Lopes Gomes – 5, 8 Maria Olívia Garcia R. Arruda – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Mariane Bigio - 28 Marinalva Freire da Silva – 3, 9 Mário Glauco Di Lascio – 2 Mário Tourinho – 13 Martha Mª Falcão de Carvalho e M. Santana - 22 Martinho Moreira Franco – 11 Matheus de Medeiros Lacerda - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Mercedes Cavalcanti (Pepita) – 4 Milton Marques Júnior – 4, 33 Moema de Mello e Silva Soares – 3 Neide Medeiros Santos – 3, 6, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, EE/José Lins do Rego/ Novembro/2015, 15, 23, 27, 32 Nelson Coelho – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Neno Rabello – 11 Neroaldo Pontes de Azevedo – 2 Octacílio Nóbrega de Queiroz (In Memoriam) - 6, 15 Octávio de Sá Leitão (Sênior) (In Memoriam) - 23 Octávio de Sá Leitão Filho (In Memoriam) – 16 Osvaldo Meira Trigueiro – 2, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 25, 27, 30, 32 Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo (In Memoriam) – EE/Epitácio da Silva Pessoa/ Maio/2015 Otaviana Maroja Jalles - 14 Otávio Sitônio Pinto – 7 Patrícia Sobral de Sousa - 21 Paulo Bonavides – 1, 4, 5, 9, 10, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 12, 14, 15, 16, 22,23, 25, 27 Pedro Moreno Gondim (In Memoriam) – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Peregrino Júnior (In Memoriam) - 22 Raimundo Nonato Batista (In Memoriam) – 3 Raúl Gustavo Ferreyra – 5 Raul de Goes (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Raul Machado (In Memoriam) – 4 Regina Célia Gonçalves – 22 Regina Lyra - 24 Renato César Carneiro – 3, 6, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014,7,9 Ricardo Vieira Coutinho – 31 Ricardo Rabinovich Berkmann – 5 Roberto Rabello – 11 Ronald de Queiroz Fernandes (In Memoriam) - 21 Rostand Medeiros – 12 Ruy de Vasconcelos Leitão – 16 Samuel Duarte (In Memoriam) – 21 Sebastião Aires de Queiroz - 33 Sérgio de Castro Pinto – 22 Serioja R. C. Mariano – 28 Severino Alves de Sousa - 28 Severino Ramalho Leite – 4, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 13, 15, 16, 29 Socorro de Fátima Patrício Vilar – 10 Thanya Maria Pires Brandão – 4 Thiago Andrade Macedo – 30 Tiago Eloy Zaidan – 11, 13, 21, 23, 29 Vamireh Chacon - 28 Vanderley de Brito - 32 Vanessa Lopes Ribeiro – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Verucci Domingos de Almeida – 5, EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Vicente de Carvalho – 16 Violeta Formiga (In Memoriam) - 21 Virgínius da Gama e Melo (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Waldir dos Santos Lima – EE/Pedro Moreno Gondim/Novembro/2014 Walter Galvão – 3, 9, 15 Wandecy Medeiros - 30 William Costa - 33 Wills Leal – 2, 7

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DEZ FRASES QUE... NÃO SÃO DE EFEITO... MAS QUE PODEM TER EFEITO...

VOCÊ NUNCA SABE QUE RESULTADOS VIRÃO DE SUA AÇÃO. MAS SE VOCÊ

“CORRA O RISCO. SE DER CERTO, FELICIDADE. SE DER ERRADO, SABEDORIA”.

É MUITO MELHOR PERCEBER UM DEFEITO EM SI MESMO, DO QUE DEZENAS NO OUTRO, POIS O SEU DEFEITO VOCÊ PODE MUDAR. DALAI LAMA

QUANDO EU PUDER SENTIR PLENAMENTE O OUTRO ESTAREI SALVA E PENSAREI: EIS O MEU PORTO DE CHEGADA. CLARICE LISPECTOR

NÃO FIZER NADA, NÃO

O FRACO JAMAIS PERDOA. O PERDÃO É UMA DAS CARACTERÍSTICAS DO FORTE.

HAVERÁ RESULTADOS. MAHATMA GANDHI

MAHATMA GANDHI

LAMENTAR UMA DOR PASSADA, NO PRESENTE, É CRIAR OUTRA DOR E SOFRER NOVAMENTE. WILLIAM SHAKESPEARE

ELEVE AS SUAS PALAVRAS E NÃO A SUA VOZ, PORQUE É A CHUVA QUE FAZ CRESCER AS PLANTAS E NÃO O TROVÃO. (FILOSOFIA PERSA)

VOLTA TEU ROSTO SEMPRE NA DIREÇÃO DO SOL E, ENTÃO, AS SOMBRAS FICARÃO PARA TRÁS. (PENSAMENTO ORIENTAL)

SE VOCÊ REMOVER PEDRA POR PEDRA, ATÉ MESMO UMA MONTANHA SERÁ DEMOLIDA. (PROVÉRBIO HINDU)

SÓ EXISTEM DOIS DIAS NO ANO EM QUE NADA PODE SER FEITO: UM SE CHAMA ONTEM E O OUTRO, AMANHÃ, PORTANTO, HOJE É O DIA CERTO PARA AMAR, ACREDITAR, FAZER E, PRINCIPALMENTE, VIVER. DALAI LAMA

ISSN: 2357-8335

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| Novembro/Dezembro/2018

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GENIUS 34  

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