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CAPA

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POESIA CINCO POEMAS DE CHICO VIANA

Para Augusto dos Anjos

Visão Num tempo que demanda calma e siso, já antevendo a sombra do sol-posto, do meu pobre lugar eis que diviso a iluminada aurora do seu rosto.

Perscrutando com afã a Natureza, viste no homem a espécie corrompida, e para resgatar sua nobreza deste-lhe a Dor como única saída.

Sol ou onda, bateu com força, e tudo que em mim dormia ou parecia quieto despertou. Vi-me então, fraco e desnudo, mover os passos ao caminho incerto.

Depois, entre razão e desvario (e mais aprofundando a tua lupa), viste na carne, esse algoz sombrio, o motivo maior da sua culpa.

Não o pude trilhar, e o ser errante se foi, como em silêncio morre o dia, levando no sorriso a tentação.

Mas quando, por efeito do pecado, vias o ser humano condenado ao verme, ao fedor, à podridão, surpreendeste na força da Beleza, que alivia do mundo a aspereza, o caminho da sua redenção.

Carpe Diem Ao fim da vida gongórica, quis estampar no seu túmulo uma inscrição retórica.

Tourada Finge a tourada ser um esporte de igual perda ou igual prenda. Mas é um teatro em que a morte já tem por certa a encomenda. Era preciso que o toureiro (para que fosse justo o circo) abdicasse por inteiro do que no jogo é cálculo e siso.

Cunhou a frase bombástica com verve, capricho e nítida intenção encomiástica. Mas veio o destino sádico e sem rumor nem estrépito (mas dos seus desígnios ávido) fez que lá chovesse a cântaros: a água, num fluxo intérmino, afogou como num pântano

Ou que o touro, aceso o lume que lhe aclare o cego instinto, ficasse, como o outro, imune ao que nessa contenda é risco.

aquele ornamento gráfico. Agora lhe enfeita a lápide só o silêncio sarcástico!

Nada, porém, detém-lhe a sanha. E o bicho dá-se por vencido só quando já o sangue o banha em meio ao estúpido alarido.

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No entanto me fez, por um instante, encher de novo o peito de alegria, de novo bater forte o coração.

Soneto Zangado Se você permanece indiferente à dor dos outros; se mente sem pejo; se para ter vantagem até consente em (como Judas) disfarçar um beijo; Se prega a honestidade mas, no escuro, age como uma ave de rapina, roubando aqueles que batalham duro por meio do conchavo e da propina; Se pensa que toda mulher é fácil; que o estudo é coisa de pascácio e basta ter dinheiro pra vencer, então, amigo, pode ficar certo de que você, com esse jeito esperto, não passa de um grande efedepê.


CARTA AO LEITOR

SUMÁRIO

A presente edição de GENIUS é um brinde que oferecemos ao leitor, tamanha a diversidade de assuntos e de autores que frequentam suas páginas, tudo no interesse dos que buscam uma boa leitura. De cara, cinco poemas de Chico Viana, o gramático, o teórico da literatura, o conhecedor profundo do vernáculo, o especialista em Augusto dos Anjos, o qual, despindo-se de todas essas roupagens, veste a túnica inconsútil da poesia, a louvar o poeta do EU ou lamentar o sangue que banha o touro abatido no esporte cruel. Saudamos o escritor e causídico Cleanto Gomes Pereira, pela homenagem que recebeu da Assembleia Legislativa do Estado, conferindo-lhe a Medalha Epitácio Pessoa, num reconhecimento dos seus feitos, como advogado e homem de letras. O nosso preito de solidariedade manifesta-se pela transcrição de seu discurso de agradecimento. O historiador José Octávio, marcando a presença que sempre imprime em nossas páginas, disserta sobre duas figuras sempre marcantes em nossa literatura: o jornalista e escritor Orlando Tejo e a lendária figura de Zé Limeira, “o poeta do absurdo”. A personalidade multifacética, como chama Hélio Jaguaribe, de Celso Furtado é analisada por esse membro da Academia Brasileira de Letra, recentemente falecido, para tristeza do mundo intelectual brasileiro. Para tanto estampamos o seu discurso na Casa de Machado de Assis, quando fez o elogio do Ex-Superintendente da SUDENE, a quem substituiu naquele sodalício. O tribuno Alcides Carneiro mais uma vez está nas páginas de GENIUS, desta feita em um artigo assinado por Joaquim Osterne Carneiro e Maria Ida Steinmuller, que repassam variados aspectos da sua vida como orador e poeta. O nosso Diretor e Editor Flávio Sátiro Fernandes retoma trabalho elaborado e divulgado há quase dez anos, apontando nomes que se dedicaram ao estudo do direito na Paraíba, acrescido de nomes que não constavam na versão primitiva. O rol de juristas envolve advogados, professores, membros de tribunais superiores, parlamentares. Finalmente, Gonzaga Rodrigues, o nosso cronista maior brinda-nos com um texto primoroso, como tudo que sai de sua pena brilhante: História (quase conto) de um homem que disse: não!

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CINCO POEMAS DE CHICO VIANA

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TRÊS FILMES PARA MARTE Andrés von Dessauer

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UM GALARDÃO QUE ME CINGE E MUITO ME HONRA Cleanto Gomes Pereira

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ÂNGELA William Costa

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DE ORLANDO TEJO A ZÉ LIMEIRA: UM PARALELISMO ENTRE DOIS MUNDOS José Octávio de Arruda Mello

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UMA PERSONALIDADE MULTIFACÉTICA Hélio Jaguaribe

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MÚLTIPLO HILDEBERTO Milton Marques Júnior

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ALCIDES VIEIRA CARNEIRO: O ORADOR POETA QUE ENCANTAVA AS MULTIDÕES Joaquim Osterne Carneiro Maria Ida Steinmuller

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A PARAÍBA E O DIREITO Flávio Sátiro Fernandes

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PADRE IBIAPINA, MISSIONÁRIO DO NORDESTE Sebastião Aires de Queiroz

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O ESPELHO Auxiliadora Borba

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HISTÓRIA (QUASE CONTO) DO HOMEM QUE DISSE: NÃO! Gonzaga Rodrigues

Aproveitem e boa leitura.

Setembro/Outubro/2018 - Ano VI Nº 33 Uma publicação de LAN EDIÇÃO E COMERCIO DE PERIÓDICOS LTDA. Diretor e Editor: Flávio Sátiro Fernandes (SRTE-PB 0001980/PB) Diagramação e arte: João Damasceno (DRT-3902) Tiragem: 1.000 exemplares Redação: Av. Epitácio Pessoa, 1251- Sala 807 – 8º andar Bairro dos Estados - João Pessoa-PB - CEP: 58.030-001 Telefones: (83) 99981.2335 E-mail: flaviosatiro@uol.com.br Impresso nas oficinas gráficas de A União Superintendência de Imprensa e Editora

Capa: Equipe GENIUS

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COLABORAM NESTE NÚMERO: 4

ANDRÈS VON DESSAUER [O direito nas telas] – Mestre em Economia e Ciência Política, pela Universidade de Munique, Alemanha. Comentarista cinematográfico no triângulo Rio de Janeiro-São Paulo-João Pessoa sobre filmes Cult. Articulista em vários periódicos nacionais. AUXILIADORA BORBA [O ESPELHO] Escritora, historiadora e educadora. Mestra em Serviço Social, foi fundadora e professora do curso de Serviço Social da UFPB, chefe do Departamento e coordenadora do mesmo curso. Ocupou a Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários, fez mestrado, com área de concentração em Educação na UFRJ, onde obteve os títulos de especialista em Psicologia Social e Psicologia da Personalidade. É autora de várias obras, dentre as quais se destaca Saberes e fazeres do povo. CHICO VIANA (Francisco José Gomes Correia) [Cinco Poemas] – Professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Letras, pela UFRJ, título obtido com a tese O Evangelho da podridão: culpa e melancolia em Augusto dos Anjos. Dirige o Curso Chico Viana, onde leciona, e mantém o site www.chicoviana. CLEANTO GOMES PEREIRA [Um galardão que me cinge e muito me honra] Graduado em Direito pela UFPB), em 1977. Foi procurador jurídico e presidente do antigo Instituto de Previdência do Estado da Paraíba (Ipep), e procurador-chefe da assessoria jurídica da Funesc. Advogado militante, foi conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil na Paraíba (OAB-PB) e membro do Tribunal de Ética. Autor do livro Minhas Admirações, escreve regularmente para os jornais Contraponto e Correio da Paraíba. É membro da Academia Paraibana de Letras Jurídicas (APLJ). FLÁVIO SÁTIRO FERNANDES [A Paraíba e o Direito] Professor aposentado e Conselheiro, também aposentado, do Tribunal de Contas do Estado. Escritor, jornalista, ensaísta, romancista, poeta, membro da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Diretor e Editor desta revista. GONZAGA RODRIGUES [História (quase conto) do homem que disse: não!] Escritor e jornalista. É considerado o cronista maior de nossa imprensa. Segundo os que com ele convivem, é a amarra que lhe impede maiores voos. É membro da Academia Paraibana de Letras.

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HÉLIO JAGUARIBE (In Memoriam) (Rio de Janeiro, 1923 – Rio de Janeiro, 2018) [Uma personalidade multifacética] Em 1946, graduou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Recebeu o grau de doutor honoris causa da Universidade de Mainz, Alemanha, da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade de Buenos Aires, Argentina. Teve destacada atuação política e cultural, dele podendo-se dizer que foi dos poucos intelectuais que tomaram a si pensar o Brasil. Durante o período militar, transferiu residência para os Estados Unidos. Membro da Academia Brasileira de Letras. JOAQUIM OSTERNE CARNEIRO [Alcides Vieira Carneiro: O orador poeta que encantava as multidões] Engenheiro agrônomo, escritor e historiador. Pertence ao IHGP, Instituto Paraibano de Gene alogia e Heráldica, Institutos Históricos de Campina Grande, de Serra Branca, do Cariri Paraibano e do Rio Grande do Norte, Academia de Letras e Artes do Nordeste – Núcleo da Paraíba, Academia Paraibana de Engenharia e Academia Limoeirense de Letras. JOSÉ OCTÁVIO DE ARRUDA MELO [De Orlando Tejo a Zé Limeira: Um paralelismo entre dois mundos] – Historiador de ofício, segundo se classifica, com doutorado em História Social pela USP, em 1992. Integrante do IHGB, IHGP, APL, API e Centro Internacional Celso Furtado. Professor aposentado da UFPB, UEPB e UNIPE. Autor de várias obras sobre a história da Paraíba. MARIA IDA STEINMULLER [Alcides Vieira Carneiro: O orador poeta que encantava as multidões] Historiadora e Professora, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande, também chamado Casa Elpídio de Almeida, entidade que se constitui em guardiã da memória campinense. MILTON MARQUES JUNIOR [Múltiplo Hildeberto] Professor da Universidade Federal da Paraíba, com lotação no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, tem-se especializado e dedicado ao estudo e ao ensino dos clássicos, sobre os quais tem versado vários trabalhos de grande significação literária e histórica. SEBASTIÃO AIRES DE QUEIROZ [Padre Ibiapina, Missionário do Nordeste] Médico, escritor. Membro da Academia Paraibana de Medicina. WILLIAM COSTA [Ângela] Nasceu em Campina Grande e mora em João Pessoa desde 1972. Jornalista, escritor, poeta paraibano. Pertence aos quadros funcionais do jornal A UNIÃO, em cuja redação atua, já tendo ocupado diversas funções, tais como, repórter, editor de Cultura, secretário de Redação, subeditor geral adjunto e editor geral. É autor do livro Para tocar tuas mãos (Crônicas).


CINEMA TRÊS FILMES PARA MARTE

REDENTOR (do caos)

Andrés von Dessauer Especial para a revista GENIUS

Caros leitores da revista GENIUS ! Outro dia, fui perguntado, no meu whatsapp internacional, TOPCINE, quais três filmes eu levaria para o planeta MARTE para oferecer aos marcianos. Os filmes escolhidos deveriam ter sido produzidos neste século. Ademais, um deveria ser brasileiro, até porque tenho um passaporte emitido pela Pátria Amada. Mesmo sabendo que muitos terráqueos não concordarão com a escolha, envio a minha crítica sobre dois dos três. Como a felicidade se faz aos poucos, publicarei a crítica da terceira obra, o ‘filme de todos os filmes de todos os tempos’, só em outra edição da GENIUS. Empatado com este terceiro (ainda) ‘surpresa’, figurava A GUERRA DO FOGO, até porque, os marcianos teriam interesse em saber como se deu a evolução dos terráqueos. Mas o filme do J.J. Annaud que, será exibido e comentado, por mim, na Fundação Casa José Américo, foi eliminado, pois foi para as telas internacionais no ano de 1982 e não neste século. Quanto às películas aqui comentadas: REDENTOR inicia seu percurso com a obra magnífica de Carlos Gomes e, representa um dos retratos mais fieis do Brasil. Como representante de bancos internacionais, achei que era minha obrigação, entregar um DVD (com legendas em inglês) para que os investidores estran-

geiros pudessem ter ciência em que terreno escorregadio estariam caminhando por aqui. Quase sem gordura, o REDENTOR tem um roteiro que oscila entre drama e comédia para chegar a uma apoteose do tipo “feel good” que foi, injustamente, rebaixada pelos críticos profissionais. Já com o INCÊNDIOS, o canadense Villeneuve, realizou uma façanha inédita, ao reunir a matemática pura com um drama puríssimo, à Shakespeare e, ademais, dar uma forte rasteira nos espectadores.

A primeira obra cinematográfica de Claudio Torres (2004) começa grandiosa, ao som do “O GUARANI”, de Carlos Gomes. Com efeito, o movimento de ascensão dessa ópera equivale ao da câmera que escala o Cristo Redentor do Corcovado, rumo ao seu olhar pétreo. Nas costas desse monumento se encontra a Barra da Tijuca, bairro sinônimo de emergência social e nele se desdobram as principais ações, com o protagonista, um jornalista (Pedro Cardoso) e com o antagonista, um empresário (Miguel Falabella). Não resta dúvida que o filme, em questão, com seus “faraós” (os detentores do poder), “escravos” (os pobres sem teto) e “fariseus” (a classe média) traz fortes referências bíblicas. Porém, mais que a soma de várias alegorias religiosas esse trabalho retrata o caótico “brazilian way of life” e serve de cartilha para qualquer “principiante” neste país. A atemporalidade é outro elemento de robustez desse longa já que, mesmo após dez anos de seu lançamento, o mal da corrupção nunca esteve tão disseminado e, consequentemente, atual. Sob esse prisma, a visão de uma bomba atômica arrasando o quartel general da corrupção, Brasília, parece uma fantasia comum aos que almejam se livrar dessa moléstia estrutural. Estrutural porque os gargalos do sistema econômico brasileiro são tantos que só a eficácia do dinheiro parece capaz desatar os nós górdios da burocracia. E para quem não conta com a precisão da espada de Alexandre, o Grande, ou seja,

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com a força do dinheiro, a solução é apelar para o esforço físico, e encontrar no esgoto uma saída. Com relevantes estrelas nos mais diversos papéis, cortes certos e um texto minuciosamente talhado, o thriller se revela um casamento bem sucedido entre a comédia e o drama - algo raro nas produções nacionais. Como em um teste de resiliência, cada personagem principal tem o seu momento de surto garantido e, após alcançá-lo, jamais retorna ao seu original. Duas cenas merecem destaque: a primeira está centralizada na solidariedade entre os “sempre pobres” e os “novos pobres”, rebaixados da classe média (Stênio Garcia x Fernando Torres). De fato, não receber salário e ver toda sua poupança afanada, coloca essas classes sociais em pé de igualdade. A outra cena marcante envolve a Fernanda Montenegro quando, ao sentir o peso do dinheiro sobre seu peito, passa de uma honesta religiosa a uma oportunista obsessiva. Há, por fim, quem defenda que o desfecho dessa película tenha sido ‘excessivamente’ metafísico. Mas, considerando que o Brasil é um país tão religioso quanto supersticioso e, que o filme pretende ser popular, talvez tal crítica não se sus-

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transcendental, tal solução tem sua razoabilidade na medida em que na vida real, o cidadão espera por justiça e salvação – algo que o Poder Público não lhe concede.

tente, já que, aparentemente, todos são culpados e inocentes e, em um momento de delírio (e Deus também é delírio), o protagonista vem a assumir essa culpa difusa, redimindo os demais. Apesar de

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INCÊNDIOS – um exercício de matemática pura O “suspense” é um gênero bastante comum na cinematografia, mas, o mesmo não se pode dizer da habilidade de surpreender o público. INCÊNDIOS, filme do canadense Denis Villeneuve, baseado no livro homônimo de Wajsi Mouawad, possui essa característica peculiar. E a comédia dramática “No se Aceptan Devoluciones” (campeão de bilheteria no México e na comunidade hispano-americana, 2013), bem como o dramático argentino “El Secreto de Sus Ojos” (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro 2010) também pertencem a esse rol. A produção de INCÊNDIOS levou cinco anos e, seu convincente roteiro aliado a uma trilha sonora irretocável, bem como a fascinante fotografia matizada com os cinzas do Canadá e os amarelos do Oriente resultaram em uma obra visceral. Mesmo assim, perdeu, injustamente, o Oscar de melhor filme estrangeiro para o dinamarquês ‘Em um Mundo Melhor’ (2011). g


HOMENAGEM UM GALARDÃO QUE ME CINGE E MUITO ME HONRA(*) ADVOGADO PARAIBANO É HOMENAGEADO PELA ASSEMBLEIA

Cleanto Gomes Pereira Na fase crepuscular da vida, ao sol poente da humana trajetória, a viver de carpidas e nostálgicas recordações, nada mais reluzente e deleitante ao espírito inquieto de um eterno cultor das letras e das magias do berço natal que o reconhecimento e o tributo dos coestaduanos, por sua legítima instituição – o Poder Legislativo do Estado – a essa tenaz, pulsante e insofismável devoção. Este é, com efeito, o momento emblemático de tal laurel, o instante áureo, a passagem culminante com que me distingue e enaltece o poder legisferante da Paraíba ao conceder-me a mais alta honraria a paraibanos de escol, escolhidos, a seu caprichoso critério, a tamanho ressalte e coroamento quanto a mim, a maior e mais significante das homenagens auferidas ao longo das lides públicas – a medalha Epitácio Pessoa, uma insígnia que por si só matiza a dimensão e notoriedade da rara condecoração. À parte esse talante e as razões em que fundou o autor da heráldica propositura – o ilustre e carismático deputado Aníbal Marcolino, devo ressaltar, menos por soberba, um tanto avessa ao meu indisfarçável caráter, que por dever da cerimônia, um pouco do périplo trilhado por um sonhador, desde jovem, inflamado pelos crepitantes ideais dos vultos e luminares que, afinal, construíram a singularidade heroica e cultural da terra Tabajara. Ideais urdidos ao bem coletivo e à grandeza de nossa memória cívica, desde cedo transidos na sua alma impetuosa e visionária, logo despontados nos grêmios e movimentos estudantis do Lyceu Paraibano e da velha Faculdade de Direito, nos duros e sombrios tempos do regime militar no governo do país. Dessa quadra, inobstante memorável, sobrevém à lembran-

Cleanto ao agradecer a homenagem

ça mestres, todos influentes na formação jurídica, do entono de um Luís de Oliveira Lima, Flávio Sátiro Fernandes, Ridalvo Costa, Joacil Pereira, Francisco Espinola, José Gabínio, Antônio Elias de Queiroga, Genival Veloso de França, Marivardo Toscano, Paulo Maia e João Jurema, este, deputado aguerrido nesta Casa e constituinte de 1947, entre outros, com suas aulas e lições memoráveis. Nessa esteira evoco o primeiro e destemido brado de cunho histórico-cultural, que irroguei, no discurso de orador da turma concluinte de 1977, à vista de altas autoridades do estado – um dramático apelo à mantença da Faculdade de Direito no

O advogado Cleanto Gomes Pereira foi homenageado pela Assembleia Legislativa da Paraíba, que lhe concedeu a Medalha Epitácio Pessoa, a maior comenda por ela instituída, para destacar personalidades que se têm distinguido em diferentes setores de atividades, querendo com isso reconhecer publicamente os méritos dos agraciados. No caso, a concessão da Medalha teve por finalidade ressaltar o trabalho de um dos profissionais da advocacia mais atuantes em nosso Estado, desempenhando o que ele próprio chamou de “apaixonada e febricitante advocacia”, nascida sob a inspiração de seu avô o brilhante causídico e jornalista Osias Nacre Gomes, que foi diretor do jornal A UNIÃO, o mais antigo órgão de imprensa paraibano. No âmbito da advocacia, o Dr. Cleanto Gomes Pereira atuou como Conselheiro da Seccional da OAB na Paraíba, assim como no Tribunal de Ética e Disciplina na mesma Secção, valendo ressaltar que no âmbito da administração pública estadual, exerceu o cargo de Presidente do Instituto de Previdência do Estado da Paraíba (IPEP), responsável pelo trabalho de interiorização daquela autarquia. É também escritor e colunista na imprensa local, tendo publicado o livro Minhas admirações, onde desenha o perfil de vultos e figuras de profissionais da advocacia, professores, escritores, poetas, que lhe granjearam a admiração ao longo dos anos. GENIUS associa-se às homenagens prestadas pela Assembleia Legislativa ao Dr. Cleanto Gomes Pereira, postando nesta edição o seu discurso de agradecimento e dois flagrantes do evento.

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Aspecto da Mesa Diretora dos trabalhos

vetusto e lendário Mosteiro de Malagrida, então ameaçada de transferência para o campus universitário. Um postulado enfim acatado pelos dirigentes universitários da época, para orgulho de nossa póstera e altiva paraibanidade. Desse azo em diante, haurido nas lições e conselhos do grande preceptor de minha vida, o saudoso e idolatrado oráculo e avô. Osias Nacre Gomes, um ícone então festejado por expoentes do estrelato cultural da Paraíba, como Oscar de Castro, Boto de Menezes, Mário Moacir Porto, Abelardo Jurema, João Gonçalves de Medeiros, José Rafael de Menezes e o próprio José Américo de Almeida, que lhe pedira a revisão vernacular de “A Bagaceira”, em 1928, e memorado por autores atuais do substrato de Wilson Aquino, Francisco Gil Messias, José Caitano de Oliveira, Evandro Nóbrega, José Otávio de Arruda Melo, Hildeberto Barbosa e Sérgio de Castro Pinto, desatei o gosto incoercível, permanente, obsessivo, pelos livros, sobremaneira os da literatura clássica transecular de Shakespeare, Milton, Dante, Cervantes, Gogol, Tolstoi, Dostoievski, Goethe, Eça de Queiroz, Machado, Humberto de Campos, Thomas Morus, Victor

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Hugo, Proust, Garcia Marques e Hemingway entre muitos e muitos outros e de poetas, esses “legisladores da humanidade”, segundo a máxima de Sheley, da lira de Castro Alves, Pereira da Silva, Bilac, Vicente de Carvalho, Cruz e Souza, Jorge de Lima e o grande, indimensível e torturado Augusto dos Anjos, em cuja obra encontrei a identidade na morbidez de um hipocondríaco mergulhado até a morte nas insondáveis tristezas e angústias da alma. De outro lado, a esse tempo, irrompi a incursionar por uma apaixonada e febricitante advocacia, numa militância pública e privada, por quase todos os rincões do estado, em quarenta anos de desvelado e pressuroso exercício profissional, perdurável até hoje, os quais convenceram-me tratar-se o direito de caminho único da luta contra a tirania de governantes opressores e da redenção democrática de todos os povos, assegurada, em nosso país, pelas garantias individuais e sociais, insculpidas em cláusulas pétreas de nossa Carta Magna. Ainda na seara do exercício jurídico recordo o Conselho e o Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional da Paraíba, onde convivi

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por alguns mandatos com a desenvoltura de um Vital do Rego, um Assis Camelo, um Afrânio Aragão, um Yanko Cirillo, um João Pereira de Lacerda, um Ovídio Mendonça, um Laurindo Pereira, entre outros, verdadeiros esgrimistas da honradez e da credibilidade da mais polemizada das carreiras, nos julgados e processos da ética e da representada conduta profissional. Devo, de resto, acentuar, nesse compromisso de gratidão com a Paraíba e especialmente com o seu Poder Legislativo, o surpreendente trânsito de minha vida pública pela direção do antigo e inolvidável Instituto de Previdência do Estado da Paraíba – o IPEP, então o mais complexo e multifário órgão assistencial do governo, a que ascendi por escolha pessoal do então governador e meu admirado professor Tarcísio Burity, confiante no promissor espírito público do ex-aluno, jejuno de prendas administrativas, que, no entanto, somente nesse particular, somaria o seu governo a mais expansiva e profícua expansão dos benefícios previdenciários em prol do funcionalismo público com a instalação de inúmeras novas agências da instituição por todas as regiões do estado. Seduzido sempre pelo fulgor de nos-


sos astros literários de projeção nacional, a cuja leitura me entregava horas a fio, Augusto, José Lins, José Américo, Pedro Américo, não só pintor, mas também poeta, Padre Rolim, Pereira da Silva, Celso Furtado, Alcides Carneiro, Ariano Suassuna, Maciel Pinheiro e Epitácio Pessoa, realcei no livro “Minhas Admirações”, publicado recentemente, e à luz de exaustivas pesquisas, aspectos bizarros e insólitos, de suas vidas e obras geniais, os quais revelam, sem favor algum, a primazia cultural da Paraíba, entre os estados nordestinos e seu destaque no cenário nacional, bastando enfatizar nesse cotejo a difusão do “Eu e outras poesias”, com toda sua ontológica complexidade, como obra poética com mais de 300 edições, mais lida, debatida e editada da língua portuguesa. O galardão com que me cinge e muito me honra, neste momento especial de minha vida, esta casa parlamentar tem relevância extraordinária porque cognominado Epitácio Pessoa, o maior e mais intrépido estadista da República, com sua biografia ascensional ímpar, sem precedentes e até hoje insuperável na história política do nosso país. Parlamentar, deputado e senador, ministro da Justiça e ministro do Supremo Tribunal Federal, embaixador brasileiro à Conferência de Paz em Versalhes, membro da Corte Internacional de Haya, Presidente da República, num triênio par-

ticularmente atormentado por todas as intempéries políticas – ninguém, nenhum outro no país subiu tão alto aos três poderes. Ninguém o excedeu em brilho, clarividência e sabedoria política, nem mesmo esse milagre feito cérebro que se chamava Ruy Barbosa, por ele vencido nas eleições presidenciais de 1919. Entre os grandes feitos e realizações do seu histórico governo, por todo o país, importa frisar os grandes focos de salvação coletiva do Nordeste, com a construção de vastos açudes, aqui na Paraíba a exemplo de Piranhas, São Gonçalo, Orós e Coremas, a minimizar o dramático sofrimento do sertanejo nas longas estiagens, até então relegado, nos recantos e confins desolados da pátria, a verdadeiros derrelitos humanos. Sua vida, portanto, para nosso ufanismo, à maneira de um Churchill na Inglaterra, Franco na Espanha, Salazar em Portugal, Rossevelt nos Estados Unidos, atingiu o grandioso, o épico, o legendário. Senhor presidente da Sessão e proponente da outorga, Deputado Aníbal Marcolino, exemplo de político capaz e ilibado de nossa época, deputados, amigos queridos aqui presentes, Paraíba culta e pensante, compartilhante de tal glorificação, impõe-me o reconhecimento e a gratidão a todos os que de uma forma ou de outra contribuíram, abrindo-me os espaços necessários para esse alcance e consagração inesquecível, entre os quais João Manuel

de Carvalho, Walter Galvão, Manoel Raposo e Sandro Galvão e Josinato Gomes, na imprensa importante do nosso Estado. Agradeço a Deus, por quem sempre desde tenra infância proclamo uma crença inabalável, a clarear meus passos nas vicissitudes e vitórias desta vida. Além, claro, do amor à família querida, aos livros e à memória do avô Osias, devo declarar ademais, sem falsa modéstia, duas outras qualidades que me dão imensa alegria: sou dedicado aos amigos e amo profundamente e com notório bairrismo a minha terra, esta Paraíba precursora da Nacionalidade com o martírio e o heroísmo de Peregrino de Carvalho e Vidal de Negreiros, Paraíba do encanto irresistível de suas praias tépidas e incomparáveis, do verde de sua Capital e de suas paisagens viridentes e bucólicas, da majestade serrana da Borborema e de Bananeiras, das belas e pomposas auroras do Cabo Branco, dos decantados arrebóis de Jacaré, da aura magnética de seu povo gentil e hospedeiro, atrativos de milhares de brasileiros a este solo hoje definitivamente radicados. Esta terra, enfim, como apregoou o grande e eloquente Alcides Carneiro – que se fez pequena para não parecer tão grande e se fez tão grande, para se consolar de ser tão pequenina! g (*) Discurso de agradecimento por lhe ter sido concedida a Medalha Epitácio Pessoa, a maior comenda oferecida pela Assembleia Legislativa do Estado.

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LITERATURA & CINEMA

ÂNGELA William Costa

Há uma frase, atribuída ao cantor e compositor Caetano Veloso, que diz mais ou menos assim: “É impressionante a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer”. O sentido dessa expressão me veio à memória ao assistir, sexta-feira à noite, na Academia Paraibana de Letras (APL), o filme “Um certo modo de viver”, dirigido por Mirabeau Dias, cinebiografia da professora e crítica literária paraibana Ângela Bezerra de Castro. O documentário – na verdade, uma entrevista, conduzida, no caso de Ângela, por Humberto Fonseca de Lucena, do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP) – integra a coleção Memórias Paraibanas do Século XX, por meio da qual Mirabeau homenageia homens e mulheres que se destacam na cena cultural da Paraíba. Entre os dez cinebiografados figuram, além de Ângela, o crítico de cinema João Batista de Brito e o poeta Sérgio de Castro Pinto. O título do filme faz alusão ao livro “Um certo modo de ler” (Ideia, 2008), de Ângela, no qual a autora reúne excepcionais exercícios de crítica literária, além de textos em outros gêneros, todos, porém, de circunstâncias literárias. Obra altamente recomendada, para leitores de língua portuguesa, pelo olhar novo que Ângela deita sobre a linguagem, extraindo-lhe sentidos que ampliam muito o horizonte estético dos autores que tiveram a sorte de tê-la como leitora. Para não dizerem que fiquei apenas atirando flores do balcão, devo confessar que não gostei muito do título da coleção idealizada por Mirabeau – esse grande guerreiro das causas do cinema. Memórias Paraibanas do Século XX remete a fatos e personalidades de um tempo remoto, quando os personagens estão bem vivos, embora, infelizmente, um – o jornalista Hélio Zenaide – somente na memória. Mas esse detalhe não tira o mérito do acervo.

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Ângela nasceu para ser o que é (e isso se torna mais claro e evidente ao se assistir ao documentário de Mirabeau): uma mulher inteligente, intrépida e insubmissa. Esses atributos afastaram-na de panteões conservadores, como o casamento tradicional, por exemplo, e foram fundamentais na superação das barreiras impostas pelo preconceito. Seria fácil ser apenas a “bela do Brejo”, mas Ângela queria algo além da beleza; talvez sua essência: o saber. O percurso de Ângela vai da infância em Bananeiras e Araruna e dos estudos em um colégio de freiras em Olinda (PE), até a vinda para João Pessoa, onde exerceu o magistério no Colégio Estadual de Cruz das Armas, na Escola de Professoras do Estado, no atual Instituto Federal de Educação da Paraíba e na Universidade Federal da Paraíba, além de dirigir a Escola de Serviço Público do Estado (Espep) e a Escola Superior da Magistratura (Esma-PB).

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Ângela é bacharela em Direito (UFPB), licenciada em Letras Vernáculas (UFPB), mestra em Letras (PUC-RJ) e doutora em Teoria da Literatura - lato sensu -(UFRJ). Exerceu os cargos de secretária-adjunta da Educação e Cultura da Paraíba, respondendo interinamente pela Subsecretaria de Cultura. Com o livro “Releitura de A Bagaceira: Uma aprendizagem do desaprender” (José Olympio, 1987) venceu o Prêmio José Américo de Literatura, em nível nacional. O documentário de Mirabeau, no entanto, não fica apenas na enumeração das muitas conquistas de Ângela, seja na academia, seja no serviço público. Revela, acima de tudo, os valores e princípios que regem sua vida - os quais ela defende intransigentemente, doa a quem doer -, além de apresentar seus amigos e, digamos assim, mentores intelectuais, como o padre Luiz Gonzaga de Oliveira, o intelectual Odilon Ribeiro Coutinho e o professor Juarez da Gama Batista. Esses princípios e valores a tornaram alvo da ditadura militar, cuja perseguição dificultou muito, mas não impediu o sucesso de sua trajetória profissional. A generosidade, outra das graças de Ângela, não a deixa esquecer daqueles que a guiaram pela estrada do saber, como sua mãe,Miriam Bezerra Carneiro da Cunha, e os professores Flóscolo da Nóbrega e Gibson de Andrade, além dos já citados padre Luiz Gonzaga de Oliveira e Juarez da Gama Batista. Saí da sessão ainda mais apaixonado por Ângela. É muita felicidade ser contemporâneo de uma paraibana que manda alguns críticos nacionais de “notório saber” a parar com suas empulhações, ensinando-os a ler direito uma obra literária. Uma mulher que não precisa levantar bandeiras - feminista, por exemplo -, por ser, ela mesma, uma bandeira. Pena que o espaço acabou. Sugiro ao leitor continuar a leitura, pelo excelente filme de Mirabeau. g


FOLCLORE DE ORLANDO TEJO A ZÉ LIMEIRA: UM PARALELISMO ENTRE DOIS MUNDOS(*) José Octávio de Arruda Mello Sumário: Introdução. Do Conselho ao Livro. Qualidade da obra e mercado consumidor. Da empatia de um autor/ator. Em contexto histórico e antropológico. O homem das madrugadas. Justiça Social e Paralelismo de destinos. Notas ao texto. Introdução - “Para José Octávio, brilhante historiador, jornalista emérito, professor de sete fôlegos, plutocrata de talento, com admiração e apreço”. Foi com essas palavras, sumamente generosas, que, a 4 de dezembro de 1973, Orlando Tejo me ofereceu Zé Limeira, poeta de absurdo. Editado poucos meses antes, pela Nova Paraíba Indústria Gráfica, consumava trajetória cheia de peripécias. Do Conselho ao Livro – Estas foram relatadas pelo próprio Tejo, antecipando-se ao amigo Waldemar Duarte que, pelo Correio da Paraíba, produziu resenha crítica das mais aprimoradas (1). Assim, coube ao autor verter, em dois sucessivos momentos, as dificuldades com que se defrontou para efetivação da obra. Em “O Vai e Vem do Sai não Sai”, incorporado à primeira edição de Zé Limeira. Tejinho detalhou as dificuldades com que se defrontou para converter em livro o catarpácio elaborado entre novembro de 1968 e janeiro de 1969 (2). Sem ainda haver experimentado a pulsão editorial correspondente à passagem de Tarcísio Burity pela Secretaria de Educação e Cultura e Governo do Estado, publicar livro era então muito difícil, na Paraíba. Tanto assim que Orlando andou de seca em meca, de Campina Grande a João Pessoa e de Recife ao Rio de Janeiro, antes de concretizar a edição às expensas da mãe (3). Nesse ínterim tal como relatado em “Conselho Estadual de Cultura: os Doutores do Absurdo” o autor defrontou-se com a

resistência do C.E.E. de Pernambuco. Neste, inesperadamente, o musicisita Cussy de Almeida, egresso da Paraíba, duvidou da autenticidade do livro, sob a alegação de tratar-se de compilação do cantador Otacílio Batista, apropriado por Tejo (4). Para complicar, falando pelo colegiado pernambucano, o cronista Paulo Fernando Craveiro e o historiador Gonsalves de Melo Neto justapuseram-se à perfídia, o que obrigou Tejo a detalhadas explicações no próprio Conselho a que compareceu. Felizmente, o presidente Gilberto Freyre e os conselheiros Mauro Mota e Olimpio Bonald salva/guardaram a legitimidade da criação. Desta, Otacílio Batista foi apenas valioso colaborador, como tantos outros, utilizados por Tejo para recomposição da cantoria limeireana (5). Qualidade da obra e mercado consumidor – Essas vicissitudes bem que valeram a pena. Isso porque, deparando-se com os custos para edição do estudo – repetiu-se então: !esse livro sae ou não sae? – o poeta e cordelista deparou-se com a boa vontade do prefeito pessoense Dorgival Terceiro Neto. Este não só se dispôs a adquirir quantidade da edição como elaborou valiosa nota constante da orelha da primeira edição. Para Dorgival, folclorista dos mais conceituados, Limeira “Analfabeto, mas de imaginação fértil, comunicou-se com a sua geração através de uma poesia inocente e desconchavada” (6). Essa foi uma das muitas manifestações que saudaram Zé Limeira, Poeta do Absurdo (1973) como original criação da literatura paraibana. Para mim, a força do livro de Tejo reside na assimilação pelo mercado. Tanto é assim, que chegou, facilmente, à décima edição, não faltando inclusão à valiosa coleção Nor-

deste da ABEU, até hoje apenas integrada por, além de Tejo, três autores paraibanos – Pedro Américo, José Américo de Almeida e José Octávio (7). Nesses termos, a criação tejeana comprova existência de mercado consumidor de livros na Paraíba. Ao contrário do que se propala, o paraibano compra e lê livros dos conterrâneos. Basta que sejam de boa qualidade e atentos às exigências do mercado (8). Da empatia de um autor/ator – Ora, essa condição é o que não falta ao grande livro de Tejo. Sobre a capacidade de equilibrar-se entre ficção e realidade à procura do mito, como marca registrada das verdadeiras biografias, Zé Limeira, Poeta do Absurdo resultou da empatia entre biógrafo e biografado. De tal sorte que, não raro, a gente procurando Zé Limeira encontra Orlando Tejo e vice-versa. No ensaio, existe, aliás, passagem que expressa isso. A certa altura, Tejo confessa que “Pela Maciel Pinheiro, eu ia pensando em Zé Limeira”. Pois bem. “Quando pisei a calçada daquela farmácia do espírito estava inexplicavelmente diante de Zé Limeira (...) vinha com a habitual indumentária aberrante com que inaugurava, sem intenções publicitárias, o tropicalismo no Brasil” (8). Data dessa simbiose como, até hoje, ninguém retratou o vate teixeirense com tanta exatidão quanto Orlando Tejo: “(...) Que são as pessoas, senão estradas humanas? Umas longas, outras curtas, retas, curvilíneas, todos somos estradas. José Limeira, porém foi uma estrada singular: sem transversais, sem óbices, sem terminal. Uma estrada por onde a vida viajou, alegre, sessenta e oito anos, subindo, descendo, cantando, sorrindo, curvando”(10). A referência às estradas deriva da circunstância de que o vate dispunha de uma

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característica. Só andava a pé, como da vez em que tirou do Pajeú a Campina Grande em duas semanas, com apenas ligeiras interrupções, em Soledade (11). “Caboclo de estatura avantajada, desinibido e desabusado, (...) carismático (...) criador inconsciente de metáforas”, conforme ainda Orlando Tejo, “ninguém voou mais alto pelos céus da loucura do que Zé Limeira” (12). Na visão tejista, dotado de exemplar simplicidade, Limeira só temia uma coisa – o trem, a que chamava “imbuá de ferro” e que, de certa feita, deslocando-se de Patos ao Crato, foi atanasá-lo na fazenda Melancias onde se encontrava com o estudante Nestor Rolim, e suas cantorias (13). Em contexto histórico e antropológico – Não ignoro existirem, nesta Academia, figuras mais ajustadas ao binômio Orlando Tejo / Zé Limeira. Tais Eilzo Matos, Elizabeth Marinheiro, Evaldo Gonçalves, Juarez Farias, Gonzaga Rodrigues, Chico Pereira Júnior e Luiz Nunes Alves, alguns dos quais o conheceram pessoalmente. Avantajando-se sobre os demais, Eilzo, como estudante em Campina, partilhou do cotidiano tejista, embora residissem em pontos extremos da cidade. Se aqui, porém me encontro, é pelo contexto histórico e antropológico em que, situado entre os anos quarenta e sessenta, biógrafo e biografado curtiram tempo es-

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pecífico de Campina. Era o da rápida urbanização de uma cidade que transitava do movimento estudantil dos Grêmios Estudantis e assembleias do Centro Estudantal Campinense para os cabarés, dos mais requintados aos mais sórdidos. Eis o mundo de Zé Limeira. Sem se constituir, como Moacy Tiê, em um cabaretier, valia-se das vizinhanças do Eldorado e da “paisagem noturna da Manoel Pereira de Araújo, do Bordel do Quarenta, do Açude Velho, dos Coqueiros de Zé Rodrigues, do Deserto “para o público das cantorias. Segundo Tejo, como seu consumado frequentador: “A rua Manoel Pereira de Araújo estendia os grandes braços contaminados para o encontro da orgia; escancarava a bocarra velha para receber o ósculo pestilencial da luxúria, para cantar a canção prostituta do ludíbrio. A artéria comportava sua quotidiana paisagem: grupos de boêmios; cavaquinhos repetindo Waldir Azevedo; estudantes que gazeavam aulas do Alfredo Dantas; adolescentes discípulas de Maria Garrafada – o ABC do amor campinense – cães vadios virando latas de lixo ao meio fio; radiolas tocando discos de Nelson Gonçalves (14). Dos colegas acadêmicos foi Wills Leal quem melhor mergulhou, a nível de informação, nesse universo. Conterrâneo do escritor em Alagoa Nova, o cineasta acompanhou a transferência de Orlando para Campina, graças aos dois casamentos da mãe

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deste. Se do primeiro marido, pai de Tejo, este herdou a dignidade do Juiz de Direito, do padrasto abonado senhor de engenho alagoanovense, deslocado para a Rainha da Borborema, proveio o numerário para as rodadas da noite campinense e prostíbulos de Zé Pinheiro. O encontro com Zé Limeira verificou-se aí (15). O homem da madrugada Tal como Zé Limeira cujas manifestações artísticas singularmente musicadas prolongavam-se noite a dentro, Orlando Tejo tornou-se cidadão das madrugadas. Como em certa ocasião de Sapé Zé Limeira não estava, mas constituía a inspiração dos que acompanhavam Tejo – Manoel José de Lima, o famoso Caixa D’Água, expoente do surrealismo ensandecido, o poeta matuto Quito Dias e o campinense Edvaldo Perico, também notívago e dado às musas. Dirigiram-se ao coreto da praça Gentil Lins e ali permaneceram, durante toda noite, declamando, bebendo, fumando e cantando. Pela alta madrugada como se encontravam duros foram dormir na casa de Quito, que era sapeense. (16) Foi, aliás pela madrugada, que melhor conheci Orlando Tejo. Assessor cultural da Secretaria de Educação, cruzei com ele, após reunião no Teatro e permanecemos conversando das dez da noite às três da matina, em banco da praça da Bandeira.


Tejo, dono de excelente papo, contou-me então que, integrante do gabinete do prefeito Severino Cabral, despachava com este, em casa, deitado numa rede, à sombra de uma árvore onde o edil se abivacava após nela espetar o palitó. Numa das vezes, seu Cabral, encolerizado com as perseguições do coronel Octávio Queiroz, decidiu não transferir a este, de Campina mas o Batalhão Ferroviário Federal inteiro, o que realmente aconteceu. O episódio explica a indisposição verdeoliva para com o prefeito que, eleito vice-governador na chapa de João Agripino, terminou sem poder tomar posse porque perseguido pelo movimento de 31 de março. Nessa mesma noite, o biógrafo de Zé Limeira relatou-me sua prisão no 15° RI da capital. Como o oficial em serviço lhe perguntasse se estava armado Tejo respondeu que sim e ato contínuo lhe apresentou a caneta. A blague valeu-lhe um safanão como batismo ao xadrez.

Justiça Social e Paralelismo de Destinos – Independente e irredento, Orlando Tejo não era propriamente homem de esquerda, mas nas palavras de Eilzo Matos um humanista que se pôs a vasculhar o entorno de Campina e a Paraíba inteira, além dos Estados de Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, à procura das raízes populares do folclore e do cordel. Tornava-se, assim, como Zé Nilton e Oswaldo Meira, um folclorólogo. Nesse particular e à semelhança do malandro Agápio como uma das melhores criações da biografia de Zé Limeira, não tinha pirreps (18) daí porque sempre formou ao lado dos deserdados e excluídos. Em demonstração de enviesada justiça social, colocou na boca do jornalista Olinto Tinto – seu pseudônimo no jornal O Rebate – pensamento equivalente ao de Zé Limeira. Uma vez mais, biógrafo e biografado uniram-se no mesmo barco de um paralelismo de destinos. Temos então o testamento ideológico de Orlando Tejo e Zé Limeira:

“Um dia, esse regime podre cairá: homens de vergonha haverão de governar este País e esses quadros hediondos não se repetirão. Desse dia em diante em vez de morrer na lama da sarjeta o Povo será aquecido pelo sol da Justiça. Desaparecerão os canalhas e haverá trabalho e paz social. Esse dia abolirá a ribalta espúria e macabra dos “Agápios” e das “Donas Divas” e em seus lugares viverão estudantes e mães de família honrados, os párias serão uma triste reminiscência histórica, uma pálida e vergonhosa lembrança desta canalhocracia infame que em pleno ano de 1954 constitui uma mancha na História de um Povo. Essa canalhocracia não resistirá mais dez anos – profetizava” (19). g (*) Exposição procedida A 10 DE AGOSTO DE 2018, na Academia Paraibana de Letras, quando de sessão conjuntamente dedicada ao poeta Orlando Tejo, Dra. Beliza Áurea de Arruda Mello e cineasta Nelson Pereira dos Santos.

NOTAS AO TEXTO (1) DUARTE, Waldemar “Orlando Tejo e o centauro Zé Limeira” In A União “Jornal de Domingo” João Pessoa: 18/19 de agosto de 1990. (2) TEJO, Orlando “ O Vai-e-Vem do Sai-não sai” in Zé Limeira, poeta do absurdo. João Pessoa: Nova Paraíba Indústria Gráfica Ltda. 1973. (3) Ibidem. Curiosamente, Tejo não numerou as primeiras páginas de seu livro. (4) Tejo, Orlando. “Conselho Estadual de Cultura: Os Doutores do Absurdo”, in Jornal da Semana n° 47, Recife: 2 a 8 de novembro de 1978. Publicado na seção “Gente da Gente”, o texto revestiu-se da forma de carta aberta. (5) Ibidem. A questão do plágio de Tejo foi retomado, semanas depois, pelo Jornal da Semana mediante o artigo “Zé Limeira e o absurdo do rabequista” (recorte sem data existente nos arquivos do Grupo José Honório Rodrigues – doravante GJHR). (6) TERCEIRO NETO, Dorgival. “A Poesia Caótica” in Tejo, Orlando, Zé Limeira, Poeta do Absurdo, como comentário constante da orelha, cit. (7) Com a participação do editor David Campos Fernandes, da UFPB, a quem coube articular oito editoras nordestinas, a coleção Nordeste registrou, além de Orlando Tejo no ano 2000 os seguintes autores paraibanos: Pedro Américo, com A Ciência e os Sistemas (2001). José Américo de Almeida, com Antes que me Esqueça (2003) e José Octávio, com A Revolução Estatizada – Um Estudo sobre a Formação do Centralismo em 30 (2014). Embora cearense, José Aderaldo Castelo incorporou-se ao universo paraibano com José Lins do Rêgo – Nordeste e Modernismo (2001). (8) Em artigos para A União e Revista A Semana José Octávio repisou a questão. (9) Tejo, Orlando – Zé Limeira, Poeta do Absurdo, cit p 214. (10) Ibidem, p.270 (11) Ibidem p. 214 e também 105 e 183. Nesta última, Orlando calcula a marcha diária do andarilho Zé Limeira em sessenta quilômetros, com seus apetrechos de sol, fumo, cuecas, papel de cigarro, jaca, cordas de violão, garrafa de ginebra, feixe de pena de cordoniz para curar mordida de cobra, mel de uruçu. No ombro esquerdo, viola e bengala de aroeira. (12) Ibidem, p. 33/5. (13) Ibidem, p. 185 e segs. Em p. 207/08 à pág. 187, 0.T. descreve o sertão de Zé Limeira, reproduzindo, nesse particular, inspirado poema de Eilzo Matos. (14) Tejo, Orlando. Zé Limeira, poeta do absurdo, cit. P 235. (15) Ibidem, p.45 e sgs. Ao ouvi-lo, pela primeira vez, numa tarde de sábado de 1950, no baixo meretrício campinense, Tejo contraiu o compromisso de estudar e divulgar Zé Limeira. (16) Informação do poeta Manoel José de Lima, “o famoso Caixa D’Agua”, creio que em 1975. (17) De uma conversação do autor com Orlando Tejo, provavelmente em 1979. A condição tejeana de causeur foi ressaltada por André Luiz Mota in “Vida na poesia”, alusivo à morte de Tejo in Caderno 2 do Correio da Paraíba de João Pessoa, 3 de julho de 2018. (18) No capítulo XIII da biografia de Limeira – “A cantoria que não foi ouvida” (p.213/34) – Orlando Tejo elenca, no cafageste Agápio, “terror da Lagoa dos Canários”, um dos mais hediondos tipos de sua galeria: “malandro de dezoito anos, exímio manejador da navalha, mestre da capoeira, maconheiro inveterado, escrunchante nas horas vagas (...) Era um moreno pálido, esguio, olhos raiados de sangue, dentadura perfeita e unhas grandes, bem tratadas” (p.223) (19) Tejo, Orlando. Zé Limeira, poeta do absurdo cit, p.232. ISSN: 2357-8335

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PARAIBANOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

UMA PERSONALIDADE MULTIFACÉTICA(*) Hélio Jaguaribe Senhor Presidente, Autoridades, Embaixadores, Querida Rosa Freire d’Aguiar Furtado, Estimados Confrades, Senhoras e Senhores: Ser eleito para esta Academia constitui, para qualquer intelectual brasileiro, a mais alta distinção. Fico imensamente grato aos preclaros confrades por sua generosidade. Não posso deixar de referir, pessoalmente, esse quinteto mozartiano da cultura, composto por Afonso Arinos, Alberto Venâncio, Cândido Mendes, Cícero Sandroni e Pe. Fernando Bastos de Ávila, amigos que tanto se empenharam para que eu ingressasse nesta Casa. Como todos aqui presentes, estimaria que não me tocasse suceder Celso Furtado porque ele continuaria vivo entre nós, nos brindando com sua lucidez. Uma vez que nos antecedeu na saída deste mundo, nada me poderia ser mais grato do que sucedê-lo. Mantive com Celso estreita amizade por mais de meio século, identificado com suas idéias e projetos e por ele tendo tão grande estima quanto alta admiração. Há autores que se tornaram grandes porque escreveram grandes obras. Proust e Joyce, entre outros. Bem mais raro é o grupo dos que escreveram grandes obras porque eram grandes homens. Celso Furtado é certamente um desses. Senhor Presidente: Nesta Casa a Cadeira n.o 11 tem como patrono essa amável figura de romântico tardio que foi Fagundes Varela e por primeiro ocupante Lúcio Furtado de Mendonça, intrépido militante da República e principal instigador da fundação desta Academia. Sucede-lhe o preclaro jurista Pedro Lessa. Eduardo Pires Ramos, fino espírito satírico, não chega a ocupar a cadeira, na sucessão de Lessa. A ele se segue esse alegre trovador que foi Adel-

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mar Tavares e, depois dele, o eminente neurologista Deolindo Augusto Nunes Couto. O cintilante Darcy Ribeiro será o sétimo ocupante da Cadeira Nº 11. Personalidade exuberante, com chispas de gênio e espantosa vitalidade, Darcy foi, ao mesmo tempo, um grande antropólogo e educador e um homem de ação. Agregou à sua obra antropológica a fundação da Universidade de Brasília e a militância trabalhista, ao lado de João Goulart. Foi Ministro da Educação no gabinete parlamentar de Hermes Lima, quando Celso Furtado ocupava a pasta do Planejamento. Amigo e admirador de Darcy, Celso teve muito trabalho para conter, dentro das modestas possibilidades do orçamento federal da época, as chamadas “metas educacionais mínimas”, de Darcy, cujo atendimento comprometeria quase que a totalidade do orçamento. Afetado por gravíssimo câncer pulmonar, Darcy, então no exílio, proscrito pelo regime militar, recebeu autorização para voltar ao Brasil, para o que todos supunham seria sua eminente morte. Com sua indomável energia e espantosa vitalidade, Darcy fugiu da sua segunda internação no hospital e logrou, por conta própria, equilibrar sua saúde por bastante tempo. É para mim, como cientista social, extremamente auspicioso o fato de estar sucedendo, na Cadeira nº 11, a dois dos mais eminentes cultores dessa matéria. Essa sequência, de que tanto me regozijo, é uma demonstração, entre muitas outras, da medida em que, não obstante sua natural preferência pelas letras literárias, esta Casa confere a outras disciplinas humanas particular atenção. Vida e Obra de Celso Furtado Senhor Presidente, Senhoras e Senhores: Estimaria, agora, delinear, com nostál-

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gicas saudades, alguns breves comentários sobre Celso Furtado e sua obra. Celso Furtado foi uma personalidade multifacética, que deixou profunda marca nas muitas dimensões do espaço que ocupou. Salientaria, como principais, a do teórico e a do planejador do desenvolvimento, a do militante da democracia social e a do humanista. Influenciado pela preocupação positivista com o rigor científico, pelo pensamento histórico-sociológico de Marx, por Keynes e sua escola e, particularmente, por Raúl Prebisch, Celso sempre considerou, seguindo Max Weber, a necessidade de se compreender historicamente o social e sociologicamente o histórico. Como teórico do desenvolvimento insistiu na importância de se inserir, nos esforços sincronicamente analíticos da economia, uma visão diacrônica, de caráter histórico-sociológico. Por outro lado, Celso sempre entendeu que a realidade social, como processo histórico, era mutável e susceptível de uma intervenção orientadora e reguladora do Estado, sempre que este dispusesse de satisfatória autonomia decisória. Daí sua ênfase na preservação da autonomia de Estado e no planejamento indicativo. Concomitantemente, Celso Furtado era profundamente motivado pela necessidade, no caso de um país como o Brasil e, de um modo geral, da América Latina, de se mudar seu extremamente injusto perfil social, o que lhe parecia exeqüível por via de uma ativa democracia social. Era radicalmente oposto a todas as formas autoritárias e cético das revoluções, que tendem a descambar para o autoritarismo. Acreditava na eficácia da militância reformista por via democrática. E nisso intervinha seu profundo humanismo. No curso de seus profícuos 84 anos, a vida de Celso se desdobra em cinco períodos bem diferenciados: (1) o período formativo, de seu nascimento em Pombal, no


sertão da Paraíba, em 26 de julho de 1920, a seu ingresso na CEPAL, em 1949; (2) o período cepalino, daquela data a 1958, quando se desliga da instituição; (3) o período brasileiro, em que exerce relevantes funções públicas, até o golpe militar de 1964; (4) o período de exílio, de grande fertilidade intelectual, predominantemente passado na Sorbonne, em Paris, até seu regresso ao Brasil, em 1985; e (5) finalmente, seu novo período brasileiro, até seu falecimento em 2004. No período formativo de Celso Furtado, dos estudos iniciais na capital da Paraíba a seu ingresso na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1940, e, por concurso em 1943, no DASP, destaca-se sua atuação na Itália, na Segunda Guerra Mundial, como Aspirante a Oficial, integrante da FEB. Dessa época surge seu primeiro livro, Contos da Vida Expedicionária, de 1946. Em 1946 ingressa no curso de doutoramento em Economia da Sorbonne e se diploma, em 1948, com a tese “L’Économie Coloniale Brésilienne”, sob a direção do Prof. Maurice Byé. Em agosto desse mesmo ano retorna ao Brasil e se junta ao quadro de economistas da Fundação Getulio Vargas. A fase cepalina de Celso Furtado será decisiva na ultimação de sua formação intelectual. Nela lhe é dado manter um convívio assíduo com Raúl Prebisch, dele absorvendo um dos marcos de seu pensamento, a díade “centro-periferia”. Nos seus dez anos de CEPAL Celso teve a oportunidade de estudar ampla e profundamente os problemas da América Latina e de manter freqüente contacto com relevantes personalidades da região. Datam desse período seus livros A Economia Brasileira, de 1954, o importante estudo Uma Introdução à Técnica de Pro-

gramação, de 1955, Uma Economia Dependente, de 1956, sua conferência no ISEB, “Perspectivas da Economia Brasileira”, de 1958, e, no curso de um estágio na Universidade de Cambridge, seu clássico Formação Econômica do Brasil, de 1959. A fase “brasileira” de Celso Furtado será a mais importante, no que se refere à sua atuação como planejador do desenvolvimento e como militante de uma reforma social democrática. Designado, pelo Presidente Kubitschek, interventor no Grupo de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste, elabora “Uma Política de Desenvolvimento para o Nordeste”, que dará origem ao Conselho do Desenvolvimento do Nordeste. No ano seguinte, de passagem pela Universidade de Cambridge, seu já referido clássico Formação Econômica do Brasil. Em 1960 o Congresso aprova a Lei da Sudene e Celso é nomeado superintendente da nova agência, com sede em Recife. Nesse mesmo ano publicou Subdesenvolvimento e Estado Democrático. Concomitantemente com sua profícua atividade na direção da Sudene – que imprimirá ao Nordeste uma taxa de desenvolvimento superior à média brasileira – Celso publica, em 1961, o livro em que desenvolverá sua original visão do problema, Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. No governo parlamentar, sendo primeiro-ministro Hermes Lima, Celso exerce a pasta de ministro do Planejamento. É nesse período que prepara um importante projeto, o Plano Trienal, em que indicou as medidas necessárias para retomar, nas difíceis condições daquele momento, o esforço de desenvolvimento nacional. O golpe militar de 1964 impediu a execução do plano. Celso, que então já havia retornado para a direção

da Sudene, é cassado e parte para o exílio. O período do exílio o manterá fora do país, predominantemente na Sorbonne, em Paris, de 1964 a 1985. Esse período, para Celso, diversamente do ocorrido com outros proscritos do país, foi da mais intensa atividade intelectual. No curso de seus vinte anos de exílio Celso publicou Teoria e Política do Desenvolvimento, em 1967. No ano seguinte, Um Projeto para o Brasil. Em 1969, Formação Econômica da América Latina. Análise do Modelo Brasileiro aparece em 1972. No ano seguinte, A Hegemonia dos Estados Unidos e o Subdesenvolvimento da América Latina. Em 1974 surge O Mito do Desenvolvimento Econômico. Segue-se A Economia Latino-Americana, de 1976, Prefácio a uma Nova Economia, do mesmo ano, Criatividade e Dependência na Civilização Industrial, de 1978, Pequena Introdução ao Desenvolvimento, de 1980, O Brasil Pós-Milagre, de 1981, A Nova Dependência, Dívida Externa e Monetarismo, de 1983, e Cultura e Desenvolvimento em Época de Crise, de 1984. Em 1985, com a anistia e a restauração democrática, Celso Furtado retorna ao Brasil. Nesse último período de sua vida Celso voltará à atividade pública, como Embaixador junto à Comunidade Européia, em 1986, e ministro da Cultura, no Governo Sarney, de 1986 a 1988. Em 1997 é eleito para a Academia Brasileira de Letras e, em 2003, para a Academia Brasileira de Ciências. Nesse período, publica A Fantasia Organizada, em 1985, Transformação e Crise na Economia Mundial, de 1987, A Fantasia Desfeita, em 1989 e, nesse mesmo ano, ABC da Dívida Externa. Seguem-se, em 1991, Os Ares do Mundo e Introdução ao Desenvolvimento, em 2000, O Capitalismo Global, em 1998,

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e, em 2002, Em Busca de um Novo Modelo. Sua obra autobiográfica seria reunida em três tomos, por sua segunda esposa, Rosa Freire d’Aguiar, sob o título Obra Autobiográfica de Celso Furtado, publicada em 1997. Celso falece subitamente no dia 20 de novembro de 2004. O que empresta a maior originalidade à teoria do desenvolvimento de Celso Furtado é o fato de que, alicerçada em ampla cultura histórica, sociológica, econômica e política, sua contribuição, tratada com superior inteligência e elegante estilo, introduz um novo entendimento da economia, que é abordada, concomitantemente, a partir de uma diacrônica visão histórica e de uma rigorosa análise sincrônica. Dentro dessa perspectiva diacrônico-sincrônica, Celso se vale do conceito prebischeano de “centro-periferia” para lhe conferir um sentido muito mais amplo, o que lhe permitirá uma nova compreensão da díade “desenvolvimento-subdesenvolvimento”. Essa nova visão do complexo desenvolvimento-subdesenvolvimento permite a Celso a definitiva superação do tratamento clássico da questão, de Ricardo a Keynes. Celso mostra que o desenvolvimento não é uma fase “madura” do subdesenvolvimento, nem este uma fase “primitiva” daquele. O que ocorre é algo de muito diferente. O que ocorre é que as economias da Europa Ocidental, a partir dos descobrimentos marítimos e da Revolução Mercantil, são conduzidas a formas de acumulação do excedente social que lhes permitirão incorporar as inovações técnicas que surgem dos séculos XVI a XVIII e encontram, na segunda metade deste, grande aceleração, na Revolução Industrial. Esse processo de acumulação do excedente, sob forma mercantil, inicialmente, e a partir de fins do século XVIII, sob forma crescentemente industrial, conduz esses países a instituir, com os países que se conservam meramente produtores de bens minerais ou agrícolas, um regime assimétrico de trocas que maximiza, naqueles países, os lucros e benefícios do intercâmbio, convertendo-os em países centrais e tornando os outros numa periferia. Naqueles se processa um crescente desenvolvimento. Estes, permanecem estagnados na condição de subdesenvolvidos. Desenvolvimento-subdesenvolvimento é o resultado histórico, econômico e sociológico de um longo processo diferenciado de acumulação do excedente, favorecedor dos países centrais, em detrimento dos periféricos. Naqueles o progresso técnico se efetua mediante modalidades cada vez mais eficazes de produção. Nestes, o progresso assume a forma de mera “modernização” e se manifesta na crescente sofisticação no

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consumo dos bens importados pelas minorias dominantes dos países periféricos. Essa visão do processo de desenvolvimento comandará a atuação de Celso como planejador do desenvolvimento do Brasil do Nordeste. Seus projetos se orientam no sentido de transferir o progresso técnico do produto para a produção. Profundamente motivado para contribuir para a modificação do pérfido perfil social brasileiro, Celso, como militante democrático-social e como humanista, se empenha no sentido de que os projetos de desenvolvimento, ademais de orientados para a crescente eficácia dos modos de produção, sejam, igualmente, orientados para maximizar a inclusão, em melhores níveis de educação, de capacidade de trabalho e de vida, das imensas massas marginais do Brasil. Como tive a oportunidade de dizer, ao iniciar esta exposição, Celso não foi apenas o autor de uma grande obra, mas a produziu porque foi um grande homem. A personalidade e a obra de Celso Furtado constituem uma indicação, dentro da extrema heterogeneidade que caracteriza a sociedade brasileira, da medida em que nela continuam a surgir, como ocorreu em seu passado, pessoas que se revestem da maior universalidade. Se, no caso de alguns como, por exemplo, Tobias Barreto ou Farias Brito, seu universalismo decorreu da completa assimilação de uma das grandes vertentes culturais do Ocidente, a alemã, naquele, a francesa, neste, o universalismo de Celso Furtado se revela na medida em que uma profunda identificação com suas raízes regionais e nacionais o leva ao mais compreensivo entendimento do mundo. Subsistem, na personalidade de Celso Furtado, as grandes características do sertanejo nordestino, como a sobriedade da conduta, a austeridade dos hábitos, ou o entranhado amor à própria terra e aos seus costumes. Todas essas características, entretanto, são administradas por uma alta cultura universal e uma penetrante lucidez, o que o leva ao alto nível de universalidade que lhe foi internacionalmente reconhecido. Consumismo Intransitivo Senhor Presidente: Como sucessor de um homem de espírito tão universal como Celso Furtado, continuamente atento a tudo o que ocorria no mundo e a seus reflexos sobre o Brasil, não poderia deixar de considerar, ainda que brevissimamente, os sérios problemas com que o Brasil e o mundo se defrontam, neste início do século XXI. Creio que, dessa imensa problemática, possam ser destacadas duas

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questões particularmente relevantes, aquela que se refere ao destino dos Estados nacionais, confrontados com o processo da globalização, e a que se refere às sociedades ocidentais, nas quais a erosão dos valores religiosos e tradicionais, ademais de outros fatores, suscitaram um consumismo intransitivo, adverso à preservação da transcendência do homem. Não me proponho, nas sucintas considerações que se seguem, discutir em termos mais profundos a problemática da transcendência. Considerada, de um modo geral, transcendência, como nos ensina Santo Agostinho, é o processo em virtude do qual um ser, permanecendo o que é, se ultrapassa a si mesmo. Dar-se-á tal fenômeno porque um ser absolutamente transcendente, Deus, se encontra, como dizia Teilhard de Chardin, no início e no fim de tudo, como alfa e omega do universo? Ou, segundo outra visão filosófica, de que pessoalmente participo, porque o cosmos contém, como uma de suas propriedades ou constantes, uma transimanência, em virtude da qual, entre outros efeitos, surgiram a vida, neste planeta e, nele, um ser dotado de liberdade racional, como o homem? Aqui deixando sem resposta esta magna questão, observarei apenas que nenhuma antropologia filosófica consistente pode omitir a constatação de que ocorreu, na extraordinária série evolutiva da vida, no curso de cerca de 3,5 bilhões de anos, algo que, a partir de uma emergente protobactérica originaria, conduziu, há cerca de 70 milhões de anos, ao aparecimento de animais dotados de superiores qualidades, como os primatas, e dentre estes à emergência, há cerca de 2 milhões de anos, de uma linha que conduziu ao homo sapiens, dotado de liberdade racional. O exercício da liberdade racional requer uma complexa pauta de valores, que historicamente se configuraram a partir de diversas e sucessivas mitologias e teologias, culminando com as grandes religiões monoteístas, entre estas sobressaindo o cristianismo. O curso do pensamento filosófico e científico, no Ocidente, a partir, notadamente, do século XVIII, suscitou sérias criticas às concepções religiosas do mundo. À crise resultante do conflito entre a razão e a fé, de que há esparsas manifestações desde a Antiguidade grega e no Renascimento, conduziu, sob o influxo de outros fatores, ao consumismo intransitivo que caracteriza os setores afluentes das sociedades ocidentais contemporâneas. O completo relativismo do chamado pensamento pós-moderno coonesta, teoricamente, esse consumismo intransitivo. Não se consome para viver. Vive-se para consumir. Nesse contexto cultural a transcendên-


cia humana fica submergida no imediatismo do consumo e soçobram os valores superiores de que depende a viabilidade de formas igualmente superiores do convívio humano. Daí surge uma cultura da fraude e da violência, que ameaça se generalizar no mundo civilizado. Pode-se esperar, realisticamente, uma saída desse imanentismo, que restaure, não arbitrariamente, uma hierarquia de valores compatível com formas superiores de sociabilidade? Escaparia às dimensões convenientes para esta exposição qualquer intento de mais profunda discussão dessa questão. Limitar-me-ei, por isso, a duas ordens de considerações. A primeira consiste em recordar o fato de que o consumismo intransitivo não é uma invenção de nosso tempo, dele havendo numerosos vestígios históricos. Assim ocorreu no primeiro período intermediário do antigo Egito, de 2200 a 2050 a.C., algo de que nos dá notícia o “Canto do Harpista”. Assim ocorreu na Babilônia de Baltazar, de cuja condenação a Bíblia nos narra a terrível inscrição que surge nos muros do palácio real, “mene, tekel, phasin”. Assim na Roma de Nero, como nos conta o Satyricon de Petrônio. Assim muitos outros exemplos. O que ocorre, em síntese, é o fato de que as sociedades de cultura intransitiva não perduram a longo prazo. Ou se auto-reformam como, para o caso romano, contribuíram o estoicismo e o cristianismo, ou são destruídas por outras sociedades, como na Babilônia. Já é manifesta, no mundo contemporâneo, a ocorrência de um autocorretivo ao consumismo intransitivo, com a emergência de uma elite de poder, mais visível nos EUA de Bush, mas igualmente existente nos demais países ocidentais, que conduz

ao domínio dos consumistas intransitivos por diversas modalidades de controle social. Por outro lado, emerge, concomitantemente, uma nova ética social, um neo-humanismo social e ecológico, de que são mensageiros os grandes pensadores de nossos dias, de Karl Jaspers, Max Scheler e Cassirer a Habermas e de que são veículos diversos movimentos populares, dos “verdes” às várias modalidades religiosas de neofideísmo. Ao consumismo intransitivo, no Brasil e no mundo, está se opondo esse emergente neo-humanismo, como alternativa a uma mera elite de poder. Instituições como esta Academia, ademais de suas funções de preservação da língua e da cultura de que somos portadores, são agências a que cabe a alta tarefa de conservar e difundir os valores superiores do humanismo. Esse humanismo que mantém o legado do humanismo clássico e renascentista, de Sócrates a Montaigne, bem como do humanismo contemporâneo de Ortega, Horkheimer e autores já mencionados, assim como, entre nós, Sergio Rouanet, Mario Vieira de Mello e Miguel Reale, com o indispensável agregado, em nossos dias, de um sentido social e ecológico, como no caso de Celso Furtado. Destino Nacional A outra grande dimensão dos problemas com que atualmente se defrontam o Brasil e o mundo diz respeito à situação do Estado nacional, ante o acelerado processo de globalização de nossos dias. A concentração de poder econômico-tecnológico, cultural, político e militar, na única remanescente superpotência, os Estados Unidos, permitiu a

esse país se apropriar do processo de globalização e fazer de sorte a que, na atualidade, os processos de modernização se confundam com os de americanização do mundo. Ante esse processo, as nações do mundo, com poucas exceções, estão perdendo a possibilidade de preservarem, isoladamente, sua identidade nacional e seu destino histórico. Estão se convertendo, rapidamente, em meros segmentos indiferenciados do mercado internacional e em províncias do “Império Americano”. Um império distinto de todos os precedentes históricos, do Romano ao Britânico, porque não se realiza sob a modalidade de uma dominação formal, exercida por um procônsul ou vice-rei, mas sob a forma de constrangimentos irresistíveis, de caráter econômico, tecnológico, financeiro, cultural, político e, quando necessário, militar. Suas “províncias” conservam as aparências da soberania, hino nacional, bandeira, exércitos de parada, até, nos países democráticos, eleições. Os dirigentes desses países, todavia, independentemente da forma como assumam o poder, se defrontam com um intransponível conjunto de constrangimentos que os compelem a atender às exigências do mercado internacional e, em última análise, de Washington. Os países europeus, apesar de seu alto nível de desenvolvimento, tiveram, para escapar a esse destino, de se integrar na União Européia. Países continentais, como China e Índia, logram preservar sua identidade nacional na medida em que mantenham, como o estão conseguindo até agora, uma acelerada taxa de crescimento econômico e de desenvolvimento próprio. Um país como o Brasil, a despeito de sua condição semicontinental, sofre de uma ter-

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rível deficiência de integração social. Para lograr, isoladamente, um nível de integração social que lhe assegurasse um desenvolvimento sustentável, o Brasil necessitaria do transcurso de, pelo menos, três gerações, ou seja, de cerca de meio século, e isto se lograsse, no curso desse período, manter satisfatórias taxas de crescimento econômico. A História não nos dá esse prazo. Não dispomos de mais de vinte anos para alcançar esse desejável patamar de desenvolvimento auto-sustentável. Depara-se, assim, nosso país, com um gigantesco desafio. Ou adota, pronta e eficazmente, medidas que lhe permitam enfrentar o desafio de uma globalização americanizadora e alienante ou, a relativamente curto prazo, se converterá, como está ocorrendo com tantos outros e do que já há muitos indícios no nosso, em mero segmento indiferenciado do mercado internacional e província do império. Ante esse terrível desafio surge a pergunta: “O que fazer?” Mais uma vez as dimensões desta exposição não me permitiriam mais ampla discussão dessa decisiva questão. Seja-me permitido, assim, dar-lhe uma resposta sintética, que contenha o essencial daquilo que está em jogo. Essa resposta tem duas dimensões, uma interna, outra externa.

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A dimensão interna consiste em retomar, energicamente, o caminho do desenvolvimento, tal como magnificamente ilustrado pelo Governo Kubitschek. Algo que requer apropriado ajustamento às novas condições do mundo. Algo que tem como premissa fundamental o fato de que todas as grandes reformas de que necessita o Brasil têm, como pressuposto, uma pronta e profunda reforma política. A dimensão externa é a integração sul-americana, a partir da consolidação de Mercosul e, esta, da constituição de uma séria, confiável, e reciprocamente vantajosa aliança argentino-brasileira. Mencione-se, a respeito de nosso sistema político, que a redemocratização não instituiu, no Brasil, uma democracia representativa e sim uma democracia de clientela. Daí a escandalosa situação que está sendo presentemente revelada. O atual sistema político brasileiro nos proporciona uma classe política extremamente deficiente. É surpreendente que, assim mesmo, surjam alguns homens públicos de alta qualidade. Cabe reconhecer que se não introduzirmos, urgentemente, amplas e profundas reformas, que instituam o regime distrital misto e o financiamento público das eleições, que conduzam à eliminação dos partidos anões, que são balcões de negociatas políticas, que im-

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ponham a fidelidade partidária e que adotem medidas que levem, para cada legislatura, à formação de uma coalizão partidária estável, dotada de programa e liderança únicos, e que assim assegurem maioria parlamentar responsável, nada se poderá fazer. O prazo é igualmente curto para que aceleremos o processo de integração da América do Sul. Um importante passo, nesse sentido, foi dado com a recente constituição da Comunidade Sul-Americana de Nações. Importa agora, a partir de uma sólida e reciprocamente benéfica aliança do Brasil com a Argentina, consolidar o Mercosul e consolidar essa Comunidade. Se o fizermos, nos situaremos, com os demais países da região, entre aqueles aptos a preservar suas identidades nacionais e seus respectivos destinos históricos. Se não o fizermos, nos converteremos em mera geografia, num grande espaço territorial ocupado por um povo que perdeu relevância histórica. g Obrigado.

(*) Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Celso Furtado, a quem fez o elogio, na sessão solene de 22 de julho de 2005.


LITERATURA MÚLTIPLO HILDEBERTO(*) Milton Marques Júnior Amigo e aprendiz

Hildeberto Barbosa Filho nos dá a lume um novo livro – A constelação dos signos –, um livro com vinte ensaios, a partir de assuntos variados, sobre escritores, escritura, teoria, crítica e, o que me parece mais prazeroso, mas não menos sério, uma carta-ensaio ao erudito Evandro Nóbrega, discutindo sobre um verso de Augusto dos Anjos, uma carta-leitura a W. J. Solha e uma carta-prefácio a José Bezerra Filho. Em seus ensaios variados, Hildeberto ressuscita Vinicius de Moraes, apontando que a aliança entre a música popular e a poesia revela-lhe o lado criativo e apura-lhe o sentido estético, indo na contramão de uma certa crítica que vê mais o músico que o poeta. Revela-nos o José Américo de Almeida como um leitor e crítico, diferente do romancista e do político, que estamos acostumados a conhecer. Quando faz a leitura do livro de Ângela Bezerra de Castro – Um certo modo de ler – expõe-nos a sua maneira clara e precisa de leitura “sem a empáfia e o pedantismo dos que fazem da teoria literária um espetáculo de exibicionismo conceitual na mais das vezes impertinente e vazio”. Isto para, na realidade, nos brindar com seu conceito a respeito de teoria. A teoria não pode calar o texto, senão fazê-lo falar. A teoria é, antes de tudo, “um conhecimento auxiliar”, importante e “seminal” é o texto: “A teoria, voz singular, deve estar a serviço da voz plural do texto. Em lugar de silenciá-lo, deve fazê-lo falar...” É deste modo, colocando a teoria no seu devido lugar e sendo fiel ao que prega, que Hildeberto faz o texto falar, através dos ensaios de múltiplas faces que compõem o seu livro.Assim, temos o privilégio de ler um crítico que admite a nossa

impotência diante do conhecimento. Se a crítica deve fazer o texto falar, jamais será possível fazê-lo dizer tudo o que guarda, em virtude de ser“precário e provisório o saber, deixando dúvidas e indagações em aberto”. É no ensaio “Uma Crítica de Paixão” que Hildeberto deixa bem claro o quanto a crítica deve ser livre, ainda que regrada por suas leis intrínsecas. Tudo o que a crítica não deve ser é como “certa crítica sisuda, acadêmica, crítica de óculos pesados e bisturi à mão, vassala de métodos e de esquemas estatísticos, com setinhas, organogramas e tudo o mais”. Neste momento, Hildeberto ressalta uma caraterística que o marca, embora pouco conhecida por muitos: o sarcasmo. Parece que estou vendo a sua satisfação ao dizer isto, fazendo gestos de miudezas com os dedos e repuxando os cantos da boca... O mais importante, porém, é saber que a crítica deve fazer falar, mas tem seus limites no que diz respeito ao conhecimento e, sobretudo, no que concerne aos seus critérios. É guiado pelos critérios da qualidade literária que Hildeberto afirma, de modo categórico, “se tudo vale, nada vale”, ou reconhece, por exemplo, em Ivan Bichara, um “analista que chega a antecipar notações da teoria literária contemporânea”. Nessas duas afirmações, Hildeberto nos mostra que a crítica deve pôr de lado o achismo ou o impressionismo, tanto quanto a relativização que hoje se apoderou do pensamento brasileiro, de modo geral, e, mais especificamente, de uma certa crítica, estabelecendo que tudo é literatura e, pior, tudo tem a mesma qualidade. O que se vê, portanto, neste livro de Hildeberto não é só mais um livro em que ele aplica os métodos da crítica, mas sobretudo um livro em que ele faz reflexões muito pertinentes

com relação ao método crítico. Muitos se aventuram no campo da crítica literária, desconhecendo, contudo, o seu método ou simplesmente desdenhando, por achar que a literatura e seus exercícios metatextuais são terra de ninguém. Em sendo um metatexto, a crítica não pode se desvincular do texto que a origina, não pode se desvincular, sobretudo, das dobras desse texto. É nas dobras, nas reentrâncias, nos meandros, no que se vela consciente ou inconscientemente, que o crítico vai descobrir a maravilha da tessitura do texto. Com a Teogonia de Hesíodo, aprendemos que Gaia, a Terra, quando pare Uranos, o Céu, o faz, literalmente, vir à luz, pois o filho vem acompanhado de luz, por nascer o Céu já constelado. É a maneira de ela própria, Gaia, se iluminar, tornando-se uma referência a todos, mortais e imortais, e distinguindo-se, de uma vez por todas, da escuridão do Caos. Para que o poeta pudesse expressar essa luz primeva, foi necessário, no entanto, que as Musas concedessem ao pastor apenas preocupado com a sua sobrevivência, o sopro divino da criação poética e ele passasse a ver nas estrelas mais do que o reconhecimento das estações e da orientação segura para as suas viagens. Que o pastor agora transformado em poeta, passasse a ver nas estrelas a luz que lhe permite sair do apenas fisiológico, para o ilimitado reino da criação poética. O Céu constelado torna-se, a um só tempo, com a ajuda das Musas, o guia do poeta e daquele que o desvenda com a crítica, entre as variadas constelações dos signos. Este é o Hildeberto crítico e bastante produtivo, que todos nós conhecemos. Gostaria, no entanto, de falar de um outro Hildeberto ou de outros Hildebertos,

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começando pelo que se define como “um leitor voraz, obsessivo, onívoro, doentio, patológico”, na “Carta-Leitura a W. J. Solha”. O mesmo que, como Montaigne, “não viaja sem livros nem na paz nem na guerra”. É exatamente, nas três cartas-ensaios que vamos encontrar um Hildeberto pouco conhecido de seus leitores, o homem erudito, mas arraigado a seu cariri pedregoso, homem erudito que ainda não decidiu se Jorge de Lima é Bíblia ou Vade-Mecum. Estas três cartas, sem desdouro para os demais textos, são excelentes do ponto de vista do crítico e da sua verve, que ajuda a constituir o múltiplo Hildeberto. Sim, Hildeberto Barbosa Filho é múltiplo. Na realidade, nós os amigos, que privamos de sua intimidade, deveríamos sempre nos referir aos Hildebertos. É múltiplo como ser humano, que transforma o homem ensimesmado e aparentemente carrancudo, lacônico, no falante que se empolga na roda de amigos, quando motivos para empolgação há de sobra – literatura, flamengo e paixão, o que, na realidade torna-se uma coisa só – ou quando fala de Lara, a netinha. É múltiplo quando escreve – analista, crítico, memorialista, poeta e epistológrafo. Devorador de livros numa compulsão quase incontrolável, levando a outra compulsão, a de escrever. Assina coluna semanal em pelo menos dois jornais, com textos diferentes, claro, e uma coluna no Correio da Artes, além

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dos incontáveis livros publicados, com material suficiente para tantos outros, dele próprio e sobre ele, fruto de longos anos de convívio íntimo com a literatura. Mas essa multiplicidade não se restringe à literatura. Hildeberto se multiplica na história, filosofia, sociologia, antropologia e vai alimentando o espírito e as folhas de papel, hoje tela do computador, que deverão se tornar novos livros, num exercício incansável, como um Sísifo às avessas e prolífico: a cada montanha escalada com a rocha desbastada de suas arestas – o livro lido e anotado –, devidamente colocada no cume da montanha, Hildeberto faz o percurso da descida, não para buscar a rocha que lhe escapuliu das mãos, mas para rolar uma nova. Multiplica-se o homem taciturno por trás dos óculos e sob o chapéu, que rói as unhas, no enfrentamento aflitivo da vida; multiplica-se no eloquente que discorre com prazer sobre livros e leitura e sobre a paixão de viver, insuflado pelo sopro etílico e pela companhia dos amigos. Um homem que desejaria ser vaqueiro e, no descanso entre uma pega e outra de boi, zagueiro de peladas. Multiplica-se no criador de passarinhos, que coleciona livros e armas brancas, usando à larga aqueles, mas, espero, apenas prelibando o fascínio provocado pela potencialidade da peixeira pernambucana; multiplica-se no frequentador dos bares e apreciador dos loucos; mul-

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tiplica-se no que sabe traduzir em poesia a aspereza orográfica de suas origens, em estilo, muitas vezes, euclidiano. Sempre eloquente, jamais loquaz, no sentido costumeiro do falastrão. Os Hildebertos são uma enciclopédia, que vão destilando os saberes e os aprofundando na leitura percuciente do crítico. Ex-judoca e ex-advogado, Hildeberto abandonou a luta no tatame e nas barras dos tribunais. Deixou de lado as firulas do Direito e a complexidade dos ippons, para lutar a luta mais vã, a luta das palavras cotidianas transformadas em literatura, expressando amor à palavra a ele ensinado por Drummond e Antônio Houaiss, como ele próprio confessa. Talvez quem mais se aproxime de Hildeberto seja o multimídia Jomard Muniz de Brito, analisado neste livro, a ele antípoda, no que concerne ao enfrentamento da fruição de um e da racionalidade do outro. Ambos sólidos nas suas argumentações e nas suas produções em suas respectivas áreas. Acertadamente, Jomard o chama de HildeBarthes, assim como João Batista de Brito o epiteta de Hildebardo. Nada mais apropriado do que juntar em um único ser, a multiplicidade do crítico e do poeta. g

(*) Palavras de apresentação do livro A constelação dos signos, na noite de 18 de outubro de 2018, na Academia Paraibana de Letras.


MEMÓRIA ALCIDES VIEIRA CARNEIRO: O ORADOR POETA QUE ENCANTAVA AS MULTIDÕES Joaquim Osterne Carneiro Maria Ida Steinmuller

A Paraíba, um dos menores Estados da Federação, tem ofertado ao nosso país personalidades que engrandecem a todos nós. Dentre os grandes vultos paraibanos, lugar de destaque é conferido a Alcides Vieira Carneiro, que se constitui sem duvida, num dos maiores paraibanos de todos os tempos. Neste trabalho enfatizaremos sua oratória, sem olvidar de enfocar sua atuação como administrador, como político, como conferencista, como poeta e como jurista. Entendemos, preliminarmente, que se faz preciso recordar que, no período de 08 a 11 de junho de 2006, com a participação do Governo do Estado da Paraíba, da Assembleia Legislativa, do Tribunal de Justiça, do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, da Academia de Letras e Artes do Nordeste - Núcleo da Paraíba, da Fundação Casa de Jose Américo, da Academia Paraibana de Letras e da Prefeitura Municipal de João Pessoa, foi devidamente comemorado o centenário de nascimento do grande tribuno paraibano. Durante o evento CARNEIRO (2006) lançou um livro, enquanto ARNAUD (2006) fez um pronunciamento enfocando a vida e a obra do inesquecível orador. Filho de Vicente Vieira Carneiro e de Maria de Azevedo Vieira Carneiro (Maroquinha), Alcides Vieira Carneiro nasceu em Princesa - PB, no dia 11 de junho de 1906, vindo a falecer no dia 22 de maio de 1976, em Brasília, Distrito Federal. Osias Gomes, magistrado, professor universitário, escritor e advogado dos mais conceituados, no prefácio intitulado Motivação da Iniciativa, constante do livro “Ao Longo da Vida”, de autoria de Alcides Carneiro, descreveu deste modo a terra natal do grande tribuno: “Todo mundo por obrigação

poética precisa conhecer Princesa, terra natal de Alcides e de seu padrinho de batismo José Pereira, o másculo proclamador do Estado Livre em 1930. É um sossegado burgo com sua matriz e o seu cartório, as lojas de fazenda em numero limitado e a farmácia sede da maledicência regional. Nas suas ruas se podem comprar na época própria pinhas de tamanho descomunal. Epitácio Pessoa lá está em estatua de bronze na praça ajardinada, como que participando das delicias sensórias do clima particularmente dulçuroso”. O próprio Alcides, na Mensagem a Princesa e aos Princesenses, inserida às folhas 31 e 32 do seu primoroso livro “Ao Longo da Vida”, da primeira edição publicada em 1976, teceu as seguintes considerações sobre o seu torrão natal: “Não posso nem devo ir a Princesa, minha doce terra. Revê-la, agora, seria exigir demais do meu ralentado coração. Basta-me saber que ela é imortal, jovem e linda como sempre. Mas os velhos amigos e os companheiros de uma curta infância estão quase todos mortos. E a longa ausência não permitiria que eu suportasse o doloroso convívio das suas sombras. Nem mesmo a consoladora presença dos vivos. Se eu fosse, agora, a Princesa, não teria o direito de dizer ao regressar: até logo. E morre-se um pouco ao dizer se adeus. Prefiro recordar, de longe, a vila de outrora, pobre e silenciosa, escondida na serra, chamejante de vagalumes nas noites escuras, ou vestida de branco, envolta na claridade lendária do plenilúnio. Prefiro visualizar a modesta igrejinha em que me batizei e ter a satisfação de saber que, em seu lugar, outra foi erguida pela Mao predestinada de Frei Anastácio, um pastor conduzido pela Mão de Deus. Determinado e incansável pastor que, sozinho, construiu um templo tão belo

que mais parece um presente do céu para agradar a terra, que um presente da terra para agradar ao céu. Assim, Princesa, princesenses, não posso dizer até logo nem vos dizer adeus. Considerai-me presente. Conto com vossa compreensão. Peço aos céus que abençoe a terra e a gente mais querida do meu coração. Que na torre da nova igreja não pare nunca o relógio modesto que vos mandei - fruto de esmolas pedidas em nome de Nossa Senhora do Bom Conselho, excelsa padroeira que, hoje, ao ver, entre louvores, renovados seus altares magníficos, renova, carinhosamente nossa fé e nossas esperanças”. No decorrer de sua fecunda existência, como afirmamos anteriormente, Alcides Carneiro se destacou como tribuno, como poeta, como jurista, como integrante do Ministério Público, como advogado e como administrador. Os dotes tribunicios surgiram ainda em plena infância, aos 10 anos, no final do ano letivo de 1916, na Escola do Professor Adriano Feitosa, em sua cidade natal, quando ao fazer uso da palavra, os outros notaram que Alcides nascera para ser orador. Em seguida, após concluir o curso primário em 1917, foi estudar no Colégio São Luiz, em Fortaleza-CE, tendo concluído o curso secundário no Liceu do Ceará. Em 1922, aos 16 anos ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, onde cursou os dois primeiros anos, transferindo-se depois para a tradicional Faculdade de Direito do Recife, onde concluiu o Curso, em 1926, com apenas 20 anos de idade. No Recife, como aluno da denominada “Casa de Tobias”, se fez conhecido, admirado e respeitado como um orador dos mais aplaudidos.

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Após concluir o Curso de Direito, se engajou na campanha da Aliança Liberal, tendo incendiado o Brasil de ponta a ponta com os seus magistrais pronunciamentos. Sua participação no Movimento Revolucionário de 1930 e a dedicação à causa da Aliança Liberal, fez com que fosse convidado para assumir a Prefeitura de Princesa, sua terra natal, Isabel-PB, função que não aceitou, preferindo exercer idêntico cargo na cidade paulista de Itápolis. Posteriormente, ocupou os cargos de Inspetor do Ensino Secundário do Distrito Federal; Procurador da Republica no Estado do Espírito Santo; Advogado da Policia Militar do Distrito Federal; Curador de Massas Falidas do Ministério Publico do Distrito Federal; Curador de Menores e Curador de Família; Presidente do IPASE - Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado; Deputado Federal pelo Estado da Paraíba; 13º Procurador da Justiça do Estado da Guanabara; Presidência da CNEC- Campanha Nacional de Escolas da Comunidade; e Ministro do STM - Superior Tribunal Militar, tendo sido Vice - Presidente daquela Corte, no biênio 1969/1970. Em face de seus indiscutíveis méritos, foi agraciado com diversas comendas, sendo também membro da Academia Paraibana de Letras, da Academia Carioca de Letras e da Federação das Academias de Letras do Brasil, na qualidade de Delegado da Academia Paraibana de Letras. Hoje, é o Patrono da Cadeira Nº 50, da Academia Paraibana de Poesia e da Cadeira Nº 11, da Academia de Letras e Artes do Nordeste – Núcleo da Paraíba. Com a queda do Estado Novo, em 29 de outubro de 1945 e a redemocratização do país, foi candidato ao Governo do Estado da Paraíba pelo PSD - Partido Social Democrático, tendo como concorrente seu fraterno amigo Oswaldo Trigueiro de Albuquerque

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Mello, candidato da UDN - União Democrática Nacional, perdendo a eleição por uma diferença de 10.960 votos. Confirmado o resultado, encaminhou ao seu competidor o seguinte telegrama: “No momento em que a preferência já definida nas urnas livres recai sobre o seu nome ilustre, cumpro o dever democrático de apertar, com o coração bem elevado, a mão que guiará os destinos de nossa terra. Peço a Deus que o inspire e também aos seus amigos, na penosa e dignificante tarefa que vai iniciar para que a Paraíba não tenha de que se arrepender. Se assim for, como é desejo de todos os bons paraibanos estaremos ambos compensados no ingente esforço que fizemos”. No período 1947-1951, exerceu o cargo de Presidente do IPASE, na época uma das mais importantes instituições do nosso país, destacando-se como um grande administrador da coisa pública. Nessa entidade foi pioneiro na construção de casas destinadas aos servidores públicos federais, as quais eram financiadas a preços módicos. Concomitantemente, com a sensibilidade de poeta e a responsabilidade de cidadão, construiu por este Brasil afora, hospitais e sanatórios que ainda hoje atendem a quem os procuram. A respeito do Hospital que construiu na cidade de Campina Grande afirmou: “Em Campina Grande – Ó Campinenses, como me recordo daquele dia em que inaugurei o hospital a que deram o meu nome. Lembro-me de ter dito: “Deus fez a Paraíba com o braço e Campina Grande com o coração”. E aquele hospital que orgulha o Nordeste e o Brasil era o sonho dos campinenses. Eu realizei esse sonho”. Ao inaugurar o Hospital dos Servidores do Estado, localizado no Rio de Janeiro declarou: “Este Hospital nasceu da bondade dos que sentem e viverá da confiança dos que sofrem”.

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Na inauguração do Sanatório que tem o seu nome no Distrito de Correias, município de Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, disse com muita propriedade: “Esta é uma casa que por infelicidade se procura, mas por felicidade se encontra”. Como Deputado Federal pela Paraíba (1951/1955) se distinguiu pelos conceitos constantes de seus pronunciamentos e pela firmeza com que defendia suas idéias. Além de parlamentar diligente e de tribuno inigualável, Alcides Carneiro se notabilizou como conferencista, como poeta, como advogado e magistrado sensível e humano. Nesse sentido, como Ministro do Superior Tribunal Militar, sempre se comportou com altivez, dignidade, tirocínio e independência, sendo um dos magistrados mais respeitados daquela Corte, tendo inclusive sugerido a sentença que hoje figura na entrada daquele Tribunal: “Deus e Vosso Direito”. Ao mesmo tempo, no epitáfio que escolheu declarou: “Foi Juiz, se absolveu por compaixão, não condenou por fraqueza”. A figura de Alcides Carneiro, máxime os seus excepcionais e inesgotáveis dons oratórios foram consagrados por políticos, magistrados, jornalistas, historiadores, professores, críticos literários, enfim por personalidades as mais diversificadas possíveis. Nessas condições, o historiador paraibano Evandro Nóbrega, editor do livro de Alcides, Ao Longo da Vida, Segunda Edição, Revista e Aumentada, lançado em 2001, afirmou:“DUPLA CONSAGRAÇÃO A ALCIDES CARNEIRO – A Academia Catarinense de Letras incumbiu seu Presidente, o escritor Nereu Correa, de escrever um livro sobre os dez mais notáveis oradores brasileiros. Da relação, consta o nome do nosso conterrâneo Ministro Alcides Carneiro. O jornal O Globo comentando o acontecimento acentua que se trata de ato de justiça e coerência,


pois que, revela o matutino carioca, “O Ministro Alcides Carneiro, com seu extraordinário talento oratório, já figura com grande destaque no livro Historia Universal da Eloquência (em 3º volume), citado como um dos 50 maiores oradores mundiais de todos os tempos”. Colocado ao lado de Epitácio Pessoa, Alcides Carneiro é o segundo paraibano a figurar na coletânea consagradora, organizada pelo jurista e historiógrafo Hélio Sodré. Apresenta-se a Paraíba – viveiro de Tribunos – com dois representantes, na galeria dos mais famosos oradores da humanidade”. Muito do que produziu principalmente seus discursos feitos de improviso, não ficaram registrados para a posteridade. Sua obra consta dos seguintes trabalhos:

neiro, Nov. 2001. Publicação organizada por Solidonio Lacerda. Como poeta de sensibilidade superior escreveu trovas e poemas de rara beleza. Assim, ao tratar da alergia e da aflição escreveu: Dessa doença esquisita, Que bons cuidados requer, Só um caso não conheço, Alergia por mulher.

Ao falar dos amores escreveu as seguintes trovas: Ninguém pode neste mundo, Dizer que amores não tem, Casei-me com a solidão, Já hoje lhe quero bem.

II) Discurso de Posse na Academia Carioca de Letras. Separata (IV) do Boletim da UERJ, números 112 e 114- agosto e outubro de 1975

Para agradar meu amor, Sou capaz de beber fel, Já andei até pensando, Em ser-lhe um dia fiel.

III) Conceito Sintético do Direito. A União Companhia Editora, 1975.

Amigo, não voltes nunca, Aos seus amores passados, Os mortos por mais queridos, Devem ficar sossegados.

IV) Discursos em 14 Tempos. Brasília, CNEC/Gráfica Itamarati, 1976 V) Ao Longo da Vida. Editora Universitária/UFPB, 1976. VI) Discursos em 14 Tempos. 2ª Edição. Fortaleza, CNEC/ Tipogresso, 1978. VII) Ao Longo da Vida. 2ª Edição, Revista e Aumentada. Gráfica JB. João Pessoa, PB, 2001. VIII) Alcides Carneiro o Que ficou Esquecido “Ao Longo da Vida”. Rio de Ja-

Tristonho, evoco as vidas que levei, E os combates, os sonhos, as baladas O que fui! E o que sou eu bem não sei. Um mês antes de falecer, compôs sua última oração dedicada a São Judas Tadeu Marta, santo de sua predileção:

Mulher feia dá desgosto, Mulher bonita aflição, Já notei que andar aflito, Me faz bem ao coração.

I) Discursos Escolhidos, publicação da Imprensa Universitária da UFPB, cuja primeira edição foi lançada em 1971 e a segunda naquele mesmo ano.

Venci batalhas, conquistei lauréis, E agora, quando, insone, nas caladas Da noite, escuto a voz dos menestréis.

No soneto “Caminhos Perdidos” dá uma ideia da sua vida: Fui monge, fui poeta, fui guerreiro, Nas conquistas do amor desventurado, Bati às portas do universo inteiro, Por toda parte fiz ouvir meu brado. Na cela estreita e escura de um mosteiro, Quebrei as garras vis do vil pecado, Sob a luz do luar fiz-me troveiro, Cantando estrofes, da harpa ao som magoado.

“São Judas Tadeu, nosso irmão, nosso protetor, tão compreensivo para a miséria e os sofrimentos do mundo, como para as fraquezas e tormentos das criaturas. Tu, que nos livras da morte que é o fim de tudo na terra, livra-nos da angústia, que é o começo da morte. Faz que, com amor e compreensão, aceitemos os outros como Deus os fez; e soframos os males da vida com resignação e coragem. Afasta de nós a descrença, a aflição e o desespero, tu que és a esperança dos desesperados. Fortalece-nos o espírito de caridade e de renúncia, contra o ódio, a ambição, a inveja, o orgulho, o desejo e a vingança. Não deixes que pereçam os que querem sobreviver para praticar o bem. Nem que soçobrem – vítimas da iniquidade – os inocentes, os que trazem no coração a boa fé, a confiança, a ternura, o perdão das ofensas. Não nos abandones numa hora só, que todos os instantes necessitamos de tua bondade e da tua assistência. Lembrado e honrado sejas sempre por todos os que libertas do peso da angústia”. Ao concluir, queremos afirmar que Alcides Vieira Carneiro foi um homem bom, austero, simples, um sentimental, possuidor de uma inteligência luminosa e um preparo intelectual que engrandeceu e elevou o nome da Paraíba, “terra que se fez tão pequenina para não parecer tão grande e se fez tão grande para se consolar de ser tão pequenina”, como muito bem declarou. g

BIBLIOGRAFIA CARNEIRO, Alcides. Ao Longo da Vida. Editora Universitária/UFPB. João Pessoa, 1976 __________________Ao Longo da Vida . Segunda Edição, revistae Aumentada. Grafia JB. João Pessoa, PB, 2001. CARNEIRO, Joaquim Osterne. Alcides Vieira Carneiro:Inesquecível Orador Poetadas Multidões e dos Salões. João Pessoa: A União, 2006; ARNAUD, Raphael Carneiro. Pronunciamento. Sessão Especialdo Tribunal Pleno. Auditório Alcides Carneiro, 09 dejunho de 2006.joão Pessoa-PB. ISSN: 2357-8335

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DIREITO & HISTÓRIA

A PARAÍBA E O DIREITO Flávio Sátiro Fernandes

É bastante expressiva a relação dos paraibanos que se distinguiram no estudo da ciência jurídica. Diferentemente de Pernambuco e de São Paulo, cujas Faculdades de Direito, criadas em 1827, exerceram grande influência, não só nessa matéria, mas também em outros ramos das ciências ditas sociais, a projeção jurídica dos demais estados só se fez a nível individual mediante o esforço e a dedicação, isolados, de estudiosos voltados para o ensino do direito ou para o exercício consciente da atividade profissional. Em 1950, um grupo de bacharéis encetou um movimento visando à criação de uma escola superior de direito em nosso Estado. A Faculdade de Direito da Paraíba, objetivação concreta daquela ideia, passou, então, a receber os paraibanos desejosos de seguir a carreira jurídica, decrescendo, a partir daí, gradativamente, a influência da Faculdade de Direito do Recife. Vários foram os nossos coestaduanos que se destacaram desde o século passado, como professores de direito, advogados, magistrados, membros do Ministério Público. Alguns deles se fixaram em outras unidades da Federação, enquanto alguns mais aqui permaneceram, o que não os impediu de mostrar a sua cultura jurídica, por meio de trabalhos de inegável valor científico. É em torno deles que se estendem estas anotações, as quais, após serem divulgadas em jornal local, foram ampliadas e incluídas dentre os fascículos que constituíram a cole ç ã o CULTURA e História, criação do saudoso jornalista Nelson Coelho, publicada,

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semanalmente, no jornal A UNIÃO, para comemorar os 500 anos da descoberta do Brasil, no ano 2000. Referimo-nos, aqui, somente aos desaparecidos e que foram, com certeza, os que mais se projetaram, até hoje, no campo do direito, integrando aquelas diferentes categorias, a saber: NICOLAU RODRIGUES DOS SANTOS FRANÇA LEITE – Foi um dos primeiros paraibanos a se bacharelar pela Faculdade de Direito do Recife, ao tempo em que a vetusta escola tinha por sede a encantadora cidade de Olinda. Integrou a turma de 1834. Nasceu em Conceiç ã o, na região do Piancó, a 7 de abril de 1803. Espírito combativo, já na mocidade assim se revelava, a ponto de polemizar com o professor Trigo de Loureiro, pela imprensa e contra ele representar perante a Congregação da Faculdade. Exerceu intensa atividade política, representando a Paraíba, na Assembleia Geral, em duas legislaturas. Foi um dos fundadores do Instituto dos Advogados, de que foi Presidente. Escreveu comentários à Constituição do Império aos quais denominou de Considerações políticas sobre a Constituição do Império do Brasil, livro só postumamente publicado, mais precisamente em 1872. Faleceu em 1867. BRAZ FLORENTINO HENRIQUES DE SOUSA – Sem dúvida, uma das mais brilhantes figuras dentre quantas compõem esta relação. Nasceu na capital paraibana, a 5 de janeiro de 1825. Fez par-

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te de seus estudos no Seminário de Olinda. Desistindo da carreira eclesiástica, ingressou na Faculdade de Direito de Olinda, por onde se bacharelou, em 1851. Em 1855, foi nomeado professor daquela escola, na qualidade de substituto, galgando, em 1858, a posição de catedrático. Como professor, fez parte da Comissão incumbida de dar parecer sobre o projeto do Código Civil, elaborado por Teixeira de Freitas. Nomeado presidente da província do Maranhão, em 1869, é no exercício desse elevado cargo que vem a falecer. Publicou os seguintes trabalhos: Comércio a retalho, em que, segundo observação de Clóvis Beviláqua, já revela, apesar de jovem, sólido preparo em direito e economia política. O casamento civil e o casamento religioso (1859); O Poder Moderador (1864); O recurso à Coroa (1867); Lições de direito criminal (póstumo, 1872). Desses trabalhos, O Poder Moderador foi o que mais repercussão obteve. Clóvis Beviláqua considera-o, como aplicação de princípios e como desenvolvimento da tese da Constituição monárquica, mais erudito e mais lógico do que o livro de Zacarias, Da natureza e limites do Poder Moderador. Morreu a 29 de março de 1870. JOSÉ SORIANO DE SOUSA – Irmão de Braz Florentino, José Soriano de Sousa nasceu, também, na capital paraibana, a 15 de setembro de 1833, tendo falecido a 12 de agosto de 1895. Formado em medicina, doutorou-se em Filosofia, pela Universidade de Louvrain. Concorrendo


com Tobias Barreto, obteve a cadeira de Filosofia, do Ginásio Pernambucano. Em 1891, foi nomeado professor da Faculdade de Direito do Recife. Publicou: Ensaio médico-legal (1862); Compêndio de filosofia (1867); Lições de filosofia elementar, racional e moral (1871); Elementos de filosofia do direito (1880); Apontamentos de direito constitucional (1880); Pontos de direito romano (1884); Princípios gerais de direito público e constitucional. A propósito desta última obra, observou Clóvis Beviláqua que ela é de valor didático muito apreciável, pela clareza e segurança da doutrina, que é, em matéria constitucional, de excelente cunho. ALBINO GONÇALVES MEIRA – Audaz defensor das ideias republicanas, esse paraibano, nascido em Pilar, após bacharelar-se no Recife, foi nomeado professor da velha Faculdade, em 1882. Sobre sua figura diz Beviláqua: “Homem de talento e de cultura, dispunha de notável clareza de raciocínio, servida por correspondente facilidade de expressão. Na cátedra professoral esteve sempre à altura de sua elevada função”. Em 1889 passou a catedrático. Militante político, exerceu o elevado cargo de governador de Pernambuco. Faleceu em 10 de junho de 1908, no Recife. AUGUSTO CARLOS VAZ DE OLIVEIRA – Nascido a 20 de junho de 1847, faleceu a 3 de setembro de 1915. Foi professor e diretor da Faculdade de Direito do Recife, onde mostrou-se um zeloso administrador, conforme o testemunho de Clóvis Beviláqua. Na Revista Acadêmica daquela escola, por várias vezes Augusto Vaz se fez presente, com trabalhos de grande interesse prático: Citação (Nº X), Ação de assinação de dez dias (Nº XII), Instituição do dote (vol. XIII), Simplificação do processo (Nº XIII) Flagrante de delito; Ação posterior ao arresto;Cobrança de aluguéis de casas (vols. XIV e XVI), Prisão civil (Nº XVII). ADOLFO CIRNE – Foi este paraibano uma das mais brilhantes inteligências voltadas para o estudo do direito no Nordeste. Nascido na cidade de Parahyba (João Pessoa), aos 24 de agosto de 1855, Adolfo da Costa Cirne bacharelou-s pela Faculdade de Direito do Recife em 1876. Em 1885 passou no concurso para lente daquela Faculdade, função que assumiu

como substituto em 1887. Tornou-se catedrático em 1891. Foi também professor de latim e francês no Ginásio Pernambucano. Dedicou-se ao Direito Civil e foi conhecido nesse ramo, exercendo intensa atividade advocatícia no foro do Recife. Aqui, mais uma vez, o testemunho de Clóvis: “era o tipo do perfeito professor, sem prejuízo de sua banca de advogado, em certo período, a mais ativa do Recife. Exposição metódica, simples e clara, conhecimento seguro das matérias ensinadas, inteligência lúcida e pronta afabilidade no trato, eram qualidades que o faziam estimado dos alunos e dos colegas”. Escreveu Ações sumárias e na Revista Acadêmica, da Faculdade de Direito do Recife, encontram-se publicados, de sua autoria: Parecer sobre os bens das Princesas (nº II), Os civilistas e o Código Civil (nº VI) O fideicomisso fica perempto pela morte do fideicomissário? (nº XXV), O júri (nº XXVIII). Além de professor da Faculdade de Direito, Adolfo Cirne foi seu Diretor e a praça onde se localiza a velha escola leva o seu nome, um reconhecimento público de suas qualidades de professor, administrador e advogado. Adolfo Cirne faleceu aos 21 de junho de 1922. EPITÁCIO DA SILVA PESSOA – Sem dúvida, a mais brilhante inteligência de quantas se acham aqui relacionadas. Foi Presidente da República, Senador, Deputado Federal, Ministro da Justiça, Ministro do Supremo Tribunal Federal, Juiz da Corte Permanente de Justiça Internacional. Porém, em sua longa e intensa atividade de homem público, nenhuma outra condição sobreleva a de jurista, grande e profundamente afeito às coisas do direito. Após bacharelar-se em direito, em 1886, pela Faculdade de Direito do Recife, foi promotor em Bom Jardim e no Cabo (Pernambuco). Com a proclamação da República e convocação da primeira Assembleia Nacional Constituinte, em 1890, foi eleito representante da Paraíba naquele congresso. No governo Campos Sales, foi Ministro da Justiça, tempo em que se preocupou de dotar o país de um novo Código Civil, para o que convidou Clóvis Beviláqua para redigir o respectivo projeto. Como Ministro do STF, coube-lhe, conforme legislação da época, exercer a função de Procurador da República. Sua obra jurídica, disseminada em pareceres, discursos, mensagens e outros documentos, encontra-se reunida nas suas Obras Completas, editadas pelo extinto Instituto Nacional do Livro. Embo-

ra não tenha escrito uma obra sistemática de direito constitucional, observou Castro Nunes que “quem quer que se disponha a estudar nas suas aplicações a Constituição brasileira, há de encontrar, a cada passo, uma contribuição de sua lavra, porque raros são hoje os assuntos constitucionais que não tenham sido por ele versados, com o vigor da dialética que lhe é peculiar”. FRANCISCO PINTO PESSOA – Consoante informação de Clóvis Beviláqua, em sua célebre História da Faculdade de Direito do Recife, esse paraibano bacharelou-se na turma de 1856. Em 1859, com a remoção de José Bonifácio para a Faculdade de Direito de São Paulo, abriu-se uma vaga de professor substituto. Concorreram a ela Aprígio Guimarães, João José Pinto Júnior e Francisco Pinto Pessoa. Foram os três aprovados, classificando-se, porém, em primeiro lugar, Pinto Júnior, que foi nomeado. Em 1871, ocorrendo outra vaga, com a promoção de Tarquínio de Sousa, houve concurso a que compareceu Pinto Pessoa, que foi aprovado e nomeado a 23 de março daquele ano. FRANCISCO DE ASSIS CHATEAUBRIAND BANDEIRA DE MELO – Diz Clóvis Beviláqua: “É tenuíssimo o laço que o prende à função professoral”. De fato, formado em 1913, em 5 de janeiro de 1916 assumiu o lugar de substituto na Congregação da Faculdade de Direito do Recife. No entanto, como é sobejamente sabido, a grande vocação do jovem professor não era o magistério o sim o jornalismo, a que se entregou e no qual se integrou com grande paixão, abandonando, por ele o posto de professor da velha escola, construindo um admirável império jornalístico, que compreendeu jornais, rádios, revistas e emissoras de televisão que ele comandou até o fim dos seus dias. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, nela empossou-se sucedendo a Getúlio Vargas, de quem fez o elogio, no seu discurso inaugural. Foi saudado pelo ex-Professor da Faculdade de Direito do Recife, Aníbal Freire. Em seguida, foi sucedido pelo poeta João Cabral de Melo Neto, que lhe fez o elogio. RAUL MACHADO – Embora conhecido como poeta e homem de letras, o autor de “Lágrimas de cera” foi, também, um cultor do direito, tendo publicado vá-

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rias obas de cunho jurídico, destacando-se entre elas Direito Penal Militar (1928) e A culpa no Direito Penal (1929). Membro do Tribunal de Segurança, por algum tempo existente no Brasil, Raul Machado colaborou frequentemente em revistas especializadas em direito, a exemplo da Revista Forense, onde saíram: Julgamento por livre convicção (Nº LXXXI), Do livramento condicional a delinqüentes políticos (Nº LXXXIII), A constitucionalidade do Tribunal de Segurança Nacional desde a sua instituição (Nº XCVI). Também na revista Direito, dirigida por Clóvis Beviláqua e Eduardo Espínola, ele publicou: A independência do Ministério Público na justiça militar (Nº LXVII), Da preterintencionalidade (Nº XXVIII), Apologia de crime (Nº XL), Da inaplicabilidade de livramento condicional a delinquentes políticos (Nº XV), Direito e força (Nº XVI), Do julgamento por livre convicção (Nº XII). Além de membro do Tribunal de Segurança Nacional, Raul Machado foi Corregedor e Procurador da Justiça Militar em Pernambuco, Auditor de Guerra, no Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Paraná e Ministro togado do Conselho Superior da Justiça Militar. GEMINIANO MONTEIRO DA FRANCA – Nasceu na capital paraibana, a 3 de janeiro de 1870. Bacharelou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, 1892. No ano seguinte ao da formatura, foi nomeado Promotor em Tietê (SP). Exerceu os cargos de Delegado de Polícia em Niteroi e Juiz Municipal em São Francisco de Paula, atual Trajano de Morais e de Bom Jardim, ambas do Rio de Janeiro. Foi, outrossim, Juiz de Direito do Distrito Federal e Desembargador da Corte de Apelação do Distrito Federal. Em 1922, viu-se alçado às elevadas funções de Ministro do Supremo Tribunal Federal, sendo o segundo paraibano a integrar a mais alta corte de justiça do país. ODILON NESTOR DE BARROS RIBEIRO – Natural de Teixeira, nasceu a 15 de março de 1875. Jornalista e advogado, antes de ingressar no magistério superior foi Promotor de Justiça em São José do Egito (PE) e Rio Branco (MG), além de deputado estadual na Paraíba. Exerceu, também, o cargo de Procurador da República, seção de Pernambuco. Nomeado professor-substituto da Faculdade de Direito do Recife, em 1907, passou a catedrático a 26 de maio de 1920. “Fino homem de letras, poeta e professor estimado”, são as palavras com que Clóvis Beviláqua o enaltece, em sua História da Faculdade e Direito do Recife. Na Revista Acadêmica

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daquela Faculdade encontram-se, de sua autoria: Execução de sentenças estrangeiras (Nº XXII), A condição dos estrangeiros na antiguidade (Nº XXVI), Reforma constitucional do Senado de Pernambuco (Nº XXIX) Discurso de abertura do curso de direito constitucional (Nº XXXI). Há, ainda, de sua autoria uma História da Faculdade de Direito do Recife. JOSÉ RODRIGUES DE CARVALHO – Nasceu na povoação de Tauá, município de Alagoinha, a 18 de dezembro de 1867. Bacharelou-se em direito pela Faculdade de Direito do Ceará, em 1906. Foi professor de geografia e de lógica, do Liceu Cearense. Após a formatura, regressou à Paraíba, entregando-se à advocacia e à política. Exerceu os cargos de deputado estadual, Secretário Geral do governo Castro Pinto, consultor jurídico do Estado, presidente do Montepio dos Funcionários do Estado. Além dessa intensa atividade político-administrativa, notabilizou-se como poeta, folclorista e etnógrafo, deixando obras de grande significado, como Cancioneiro do norte e Aspectos da influência africana na formação social do Brasil. Foi Procurador Geral de Justiça e autor de inúmeros trabalhos jurídicos dos quais a Revista do Foro publicou: Ensaio de estatística criminal (Nº 1), Regime penitenciário (Nº 2), Acidentes do trabalho e a sua garantia jurídica (Nº 3), Cheque visado (Nº 5), Usos comerciais (Nº 9), Do Recurso extraordinário (Nº13), Sucessão nos bens deixados pelos filhos ilegítimos (Nº 14). Fez parte do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e da Academia Cearense de Letras. É o patrono da cadeira de nº 20, da Academia Paraibana de Letras. Faleceu em 1935. JOSÉ FLÓSCOLO DA NÓBREGA – Nasceu em Santa Luzia, aos 2 de fevereiro de 1898. Formado em direito pela Faculdade de Direito do Recife, foi nomeado consultor jurídico da Prefeitura de João Pessoa, em 1927. Exerceu, ainda, os cargos de sub-prefeito de Santa Rita e Procurador Geral do Estado, tendo se dedicado à advocacia. Em 1935, foi nomeado Desembargador da Corte de Apelação, depois Tribunal de Justiça, onde permaneceu até 1955, quando se aposentou. Foi um dos fundadores da Faculdade de Direito da Paraíba, ali lecionando a disciplina Introdução à Ciência do Direito. Também integrou o corpo docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Paraíba, ocupando as cátedras de Psicologia e Lógica e a Psicologia Educacional. Foi membro da Academia Paraibana de Letãs. Na área jurídica publicou Introdução à Ciência do

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Direito, trabalho que continua a merecer sucessivas tiragens por editoras sulinas e A teoria egológica do direito. Em revistas especializadas deixou diversas contribuições entre as quais é de justiça destacar: na Revista do Foro, Da responsabilidade sem culpa (vol. XXIII), O direito industrial (vol. XXIII), O novo código de processo penal (vol. XXV); na Revista Brasileira de Estudos Políticos, As eleições de novembro na Paraíba (nºs 23 e 24); na Revista da Faculdade de Direito da Paraíba, O existencialismo no direito (nº 1), O direito como forma de vida (nº 2); na Revista Forense, As imunidades parlamentares e as constituições estaduais (vol. CXV), Sociologia do júri (vol. CXVII), A liberdade como função social (vol. CXX); na Revista dos Tribunais, A teoria egológica do direito (Vol. 390). AGNELO AMORIM FILHO – Nascido em Cabaceira, aos 12 de agosto de 1921, bacharelou-se em direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, em 1945. Após a formatura, radicou-se em Campina Grande, onde passou a exercer a advocacia. Foi Conselheiro da OAB/PB e integrou o corpo docente da Faculdade de Direito da Paraíba, lecionando as disciplinas Direito Internacional Público e Direito Civil. Foi também Procurador Geral de Justiça. Nomeado Juiz Federal na Paraíba, como tal faleceu, em 12 de setembro de 1968. Publicou trabalhos jurídicos nas principais revistas especializadas do País, notabilizando-se dentre eles “Critérios científicos para distinguir a prescrição da decadência e para identificar as ações imprescritíveis”, considerado até hoje o mais importante trabalho versando sobre a diferenciação entre aqueles dois institutos jurídicos. AURÉLIO MORENO DE ALBUQUERQUE – Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1937. Exerceu o magistério primário em Monteiro, Caiçara e Ingá. Ingressando no Ministério Público, foi Promotor das Comarcas de São João do Cariri, Bananeiras, Areia, Itabaiana, Santa Rita, Campina Grande e da Capital. Alçado a desembargador do Tribunal de Justiça, foi seu Presidente, de 1977 a 1978. Seu nome não pode deixar de figurar nesta relação, e nela aparece desde a sua primeira versão, tendo em vista a grande movimentação que sempre se preocupou em dar ao estudo do direito e à divulgação das lides forenses, obtendo espaço na imprensa local, por dois períodos, para edição de uma página destinada a trabalhos jurídicos e notícias do foro. Da primeira vez, nos fins dos anos quarenta,


dirigiu e colaborou na “Página do Ministério Público”, de a união, a qual foi editada durante três anos. Da segunda vez, conseguiu, também em A UNIÃO, a publicação de uma página intitulada “Direito e Justiça”, no decorrer dos anos de 1956 e 1957. Graças ao seu esforço, grande número de colaborações jurídicas, da lavra de juízes, promotores, advogados, professores, não só da Paraíba como de outros Estados, é veiculado através daquele jornal. Aurélio de Albuquerque faleceu pouco antes de completar a idade limite para prestação de serviço público. ERNANI AYRES SÁTYRO E SOUSA – Nascido em Patos, aos 11 de setembro de 1911, Ernani Sátyro bacharelou-se em 1933, pela Faculdade de Direito do Recife, mas logo foi requisitado pela política, elegendo-se deputado à Assembleia Estadual Constituinte de 1935. Com o golpe de 37 e fechamento do Congresso Nacional e Assembleias Legislativas, foi Chefe de Polícia e Prefeito de João Pessoa. Exonerado desta última função, dedicou-se intensamente à advocacia, com atuação em Campina Grande, Patos e Comarcas vizinhas. Data dessa época a plaqueta que escreveu, intitulada O novo conceito de legítima defesa. Com a redemocratização, em 1945, elegeu-se deputado à Assembleia Nacional Constituinte. Foi deputado federal por seis legislaturas. Em 1968, foi nomeado Ministro do Superior Tribunal Militar. Os seus votos, no exercício daquela elevada função, foram por ele enfeixados no livro Direito Penal Militar e Segurança Nacional. Aposentando-se foi eleito Governador da Paraíba, exercendo o cargo de 1971 a 1975. Voltou quatro anos depois ao Congresso Nacional, quando lhe coube relatar importantes projetos de lei, dentre os quais o da anistia. Mas a grande contribuição

de Ernani Sátyro ao direito brasileiro foi, sem dúvida, a relatoria que exerceu sobre o projeto do novo Código Civil Brasileiro, quando de sua tramitação na Câmara dos Deputados. Em seu parecer, aprovado por aquela casa legislativa, o deputado paraibano procedeu a uma análise jurídica, criteriosa e minudente das emendas oferecidas ao projeto no âmbito da Câmara. Depois de sua aprovação pelos deputados, a matéria foi encaminhada ao Senado Federal. Testemunho de sua atuação como relator e de sua capacidade jurídica deu o professor-filósofo Miguel Reale, um dos autores do projeto do Código, ao dizer: “Seu Relator era o ilustre e saudoso Deputado Ernani Satyro, pessoa humilde, mas um jurista de profundos conhecimentos, como tive a oportunidade de verificar quando conversei com ele. Dedicado ao projeto do Código Civil, foi nada menos do que três vezes a São Paulo para entrar em contato comigo, a fim de analisar as 1.030 emendas oferecidas ao projeto nessa primeira fase”. EVERARDO DA CUNHA LUNA – Campinense de nascimento, era Everardo Luna filho do celerado poeta Mauro Luna. Fez o curso jurídico no Recife e obteve a cátedra de direito penal daquela escola em concurso que disputou com dois renomados advogados recifenses. Tive o privilégio de ser seu aluno, em 1962 e 1963, na disciplina cuja cátedra ele obtivera no ano anterior. Aquela turma, aliás, foi a primeira a quem ele lecionaria após a conquista do cobiçado lugar. Em suas aulas, discorria Everardo Luna com tranquilidade e segurança, versando os diferentes pontos do programa traçado para o ensino do direito penal. A sua tese para o concurso da cátedra denominou-se Do Resultado. Publicou, além dela, Abu-

so de direito, afora inúmeros trabalhos divulgados em revistas jurídicas. OSWALDO TRIGUEIRO DE ALBUQUERQUE MELO – Bacharelou-se pala Faculdade de Direito do Recife, em 1924. Passou a exercer a advocacia, com incursões pela política. Foi Governador da Paraíba, Deputado Federal pelo mesmo Estado e Embaixador do Brasil na Indonésia. Em 1965 foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, do qual foi Presidente. Deixou uma vasta oba jurídica, com destaque para O regime dos Estados da União americana (1942), A descentralização estadual (1943), Problemas do governo democrático (1976) e Direito constitucional estadual (1980), além de numerosos artigos espalhados por diferentes revistas especializadas. DJACI ALVFES FALCÃO – Nasceu em Monteiro, aos 4 de agosto de 1919, filho de Francisco Cândido de Melo Falcão e Inês Alves Falcão. Cursou a Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau a 4 de dezembro de 1943. Já no ano seguinte, prestou concurso público para o cargo de Juiz de Direito promovido pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco, sendo aprovado em primeiro lugar. Exerceu a magistratura nas Comarcas de Serrita, Triunfo, São Joaquim do Monte, Paulista e Recife. Em março de 1957, foi escolhido Desembargador daquela Corte, da qual foi Presidente em 1961. Também integrou o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco e dele foi, igualmente, Presidente. Por ato do Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, datado de 1º de fevereiro e 1967, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, na vaga decorrente da aposentadoria do Ministro Antônio Martins Vilas Boas. Foi Presidente e Vice-Presidente do

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STF. No magistério superior, foi professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade Católica de Pernambuco. LUIZ RAFAEL MAYER - Filho de Marco Lino Mayer de Freitas e Lydia Rafael Mayer, Luiz Rafael Mayer nasceu aos 27 de março de 1919, em Monteiro. Depois de estudar nos colégios Salesiano e Pedro Augusto, no Recife, ingressou na Faculdade de Direito, tendo sido membro do Diretório Acadêmico daquela escola. Ali bacharelou-se em 1943, regressando à terra natal. Foi Prefeito de Monteiro, de 1944 a 1945. Regressando a Pernambuco, prestou concurso público para o Ministério Público de Pernambuco, tendo exercido o cargo de Promotor nas Comarcas de Serrita, Marial, Gameleira, Igarassu, Paulista e Recife. No Ministério Público foi também Promotor Auxiliar da Procuradoria Geral do Estado, membro do respectivo Conselho Superior, Sub-Procurador Geral do Estado de Pernambuco, Presidente da Associação do Ministério Público de Pernambuco. No magistério superior, foi professor de Direito Penal da Escola de Serviço Social de Pernambuco; professor de Instituições de Direito Privado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Pernambuco; professor de Direito Administrativo do curso de administração da Faculdade de Ciências Econômicas da UFPE; Professor Assistente da Faculdade de Direito da UFPE, por onde se aposentou. Por decreto de 13 de dezembro de 1978, da lavra do Presidente Ernesto Geisel, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, na vaga do Ministro José Geraldo Rodrigues de Alckmin, cuja presidência exerceu. Foi, igualmente do Tribunal Superior Eleitoral.Trabalhos Publicados: “O Processo Administrativo Disciplinar e o Direito de Defesa” (in Revista da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Pernambuco - 1962); “Autarquias” (in Anais do Encontro Jurídico do MINTER, 1972); “Supremo Tribunal Federal: Expressão da Independência” (in Revista da Ordem dos Advogados do Brasil, vol. 10, 1973); “Direito de Irrigação no Brasil” (in Revista de Direito Agrário – INCRA – nº 2, 1973); “A Natureza Jurídica dos Territórios Federais” (in Revista de Direito Administrativo); “Disposições Constitucionais sobre o Contencioso Administrativo” (Arquivos do Ministério da Justiça); “Pareceres da Consultoria-Geral da República” (vols. 85 a 90); “O Controle Constitucional dos atos do Poder Público” (Memória de Las Cortes Supremas da Justicia – Iberoamericana, Caracas); “Do Supremo Tribunal de

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Justiça ao Supremo Tribunal Federal” (in Arquivos do Ministério da Justiça). ANTÔNIO TORREÃO BRAZ - Nascido na histórica Princesa, em 28 de setembro de 1928, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade do Recife. Foi Promotor Público na Paraíba, de 1956 a 1963; Governador interino do Território de Roraima (antigo Rio Branco), em 1961 e Secretário Geral do mesmo território; membro do Conselho Consultivo do Banco de Crédito da Amazônia; Promotor Público efetivo do Distrito Federal (1963 a 1969); Procurador da República requisitado junto à Procuradoria Geral da República (1965 a 1967); membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil; Procurador da República efetivo, a partir de 3 de novembro de 1969; Ingressou no Tribunal Federal de Recursos em 19 de dezembro de 1977. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, foi o TFR foi extinto, criando-se em seu lugar o Superior Tribunal de Justiça, do qual Torreão Braz passou a fazer parte, foi Presidente e se aposentou, aos 4 de outubro de 1995. Faleceu em 22 de outubro de 2016, em Brasília, aos 88 anos. ARTHUR DE SOUSA MARINHO – Nasceu em 1899 e faleceu aos 16 de fevereiro de 1959. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Recife, turma de 1928, doutorando-se pela mesma Faculdade, em 1934. Antes de graduar-se em Direito, bacharelara-se em Ciências e Letras, pelo Lyceu paraibano, no ano de 1927. Ainda estudante de direito, atuou como professor em colégios particulares, no jornalismo e como adjunto da Promotoria Publica da Comarca do Recife. De 1930 a 1932, foi Secretário de Estado da Justiça e Negócios Interiores, do governo de Pernambuco. Foi também Professor de Sociologia Educacional da Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Pernambuco. Em 1934, foi aprovado em concurso público para a livre-docência de Direito Constitucional da Faculdade de Direito do Recife. No ano de 1939, foi Juiz Pretor da 8ª Pretoria Criminal do antigo Distrito Federal, no Rio de Janeiro e, de 1940 a 1944, trabalhou como Juiz de Direito da 3ª Vara Cível do Distrito Federal. Em 1952, foi promovido a Desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. No ano seguinte passou a lecionar, na condição de Professor Catedrático, Direito Constitucional e Administrativo na Escola Nacional de Ciências Estatística do IBGE. Por decreto de 23 de dezembro de 1954, foi nomeado para o elevado cargo de Ministro do Tribunal Federal de Recursos e nessa qualidade integrou o Tribunal Superior Eleitoral. Presidiu o TFR,

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de 2 de janeiro de 1958 a 16 de fevereiro de 1959, data de seu falecimento. Escreveu e publicou: A legítima defesa (estudo saído em Pernambuco), A tendência econômica no Estado contemporâneo (tese apresentada em Recife – 1933), “Constituição, seu sentido e transformação” (Revista Acadêmica – 1934), “O sentido das constituições” (Revista Arquivos do Ministério a Justiça e Negócios Interiores - vol. 5, nº 21, março/1947) ALCIDES VIEIRA CARNEIRO – Nasceu em Princesa, aos 11 de junho de 1906, filho de Vicente Vieira Carneiro e Maria de Azevedo Vieira Carneiro. Começou seus estudos em Princesa Isabel, aluno do professor Adriano Feitosa, prosseguindo-os em Fortaleza, no Instituto São Luiz e no Liceu Cearense. Iniciou o curso de  Direito na capital cearense, mas transferiu-se para a Faculdade de Direito do Recife, onde bacharelou-se, em 1926, aos 20 anos de idade. A partir de 1930  começou a sua escalada como homem público. Foi nomeado, então, interventor do município paulista de Itápolis. Outros cargos que exerceu: Inspetor do Ensino Secundário, no Rio de Janeiro; Procurador da República, no estado de Espírito Santo; Oficial de Gabinete do Ministro da Educação; Consultor Jurídico do Ministério da Educação, Advogado da Polícia Militar, no Rio de Janeiro e Curador de Massas Falidas, no Rio de Janeiro. Exerceu, ainda, as Curadorias de Menores e de Família e Procurador de Justiça. Na política, foi Deputado Federal, pela Paraíba, e Governador deste Estado. Foi Embaixador do Brasil na Indonésia. Antes, por ato do Presidente Eurico Dutra, foi nomeado Presidente do IPASE – Instituto de Aposentadoria dos Servidores do Estado – realizando uma das mais operosas gestões daquele órgão. Em 1947, candidatou-se ao cargo de Governador da Paraíba, pelo PSD, não logrando, contudo, eleger-se, saindo vitorioso do pleito o Dr. Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo, da UDN. Celebrizou-se por seus dotes de orador consagrado, admirado em todo o Brasil. Por decreto de 2 de fevereiro de 1966, foi nomeado Ministro do Superior Tribunal Militar. Tomou posse e entrou em exercício do cargo em 7 de março do mesmo ano. Faleceu em Brasília no dia 22 de maio de 1976. Nota do autor: Na elaboração de alguns verbetes aqui postos, vali-me das informações consignadas pelo escritor e jornalista Evandro da Nóbrega no livro Ministros paraibanos em Tribunais Superiores, Edições TJPB, 2012. g


MEMÓRIA

PADRE IBIAPINA, MISSIONÁRIO DO NORDESTE Sebastião Aires de Queiroz

Assim era chamado IBIAPINA, Advogado, juiz e professor, Político, sacerdote e orador, Nestas missões buscando sua sina. Sua vida foi sempre peregrina E cumprida com zelo e imenso ardor, Trabalhando com fé e com amor Em prol da pobre gente nordestina. Pra pobres fez açudes e barreiros, Capelas, igrejas e cemitérios E fundou as “Casas de Caridade” Como o apóstolo Thiago entendia E ele, que pregava e muito fazia, Sem as obras, a fé é nulidade. José Antonio de Maria Ibiapina (antes de ser padre, José Antônio Pereira Ibiapina) nasceu numa fazenda situada no Município de Sobral-Ce, em 05 de agosto de 1806, e faleceu em 19 de fevereiro de 1883, na “Casa de Caridade Santa Fé” - então distrito de Araras-PB e, atualmente, situada

em áreas do município de Solânea-Pb - às vésperas de completar 77 anos. Era o terceiro filho de Francisco Miguel Pereira e Terezinha Maria de Jesus. Ibiapina acompanhou a família em suas mudanças para as atuais cidades cearenses de Icó (1816), Crato (1819) e Vila Jardim (1820), onde fez estudos regulares, aprendendo latim, nesta última, com o professor e latinista Joaquim Teotônio Sobreira de Melo. Em 1823, toda a família se transferiu para Fortaleza onde, pouco tempo depois, morreu sua mãe. Ibiapina ingressou no Seminário de Olinda, no qual permaneceu por curto período. Em Fortaleza, seu pai e o filho mais velho, Alexandre, participaram do movimento revolucionário conhecido como “Confederação do Equador”. O pai foi fuzilado em 1825 e o irmão de Ibiapina foi enviado preso para Fernando de Noronha, onde morreu misteriosamente. Foi por conta desses trágicos acontecimentos que Ipiapina deixou o seminário e retornou a Fortaleza, onde teve que assumir os encargos de criação de uma irmã e mais dois irmãos. Sabe-se que chegou a manter, quando ingressou na política, como veremos, compromisso de casamento com uma moça de nome Carolina Clarence. Entretanto, para sua desilusão,

a noiva, na sua ausência, fugiu para casar com um primo. Foi mais uma entre as muitas desilusões que sofreu. Em 1828, retornou ao Seminário de Olinda para continuar os estudos, mas aí só permaneceu por seis meses. Optou, então, por ingressar no curso de direito que funcionava na Faculdade de Direito de Olinda, concluindo seu bacharelado, aos 26 anos (1832), como participante da primeira turma de bacharéis de Olindal. Homem culto e de boa formação, assumiu, interinamente, no ano seguinte, o cargo de professor de eloqüência sagrada da mesma Faculdade. Em dezembro, alçou ao cargo de juiz de direito da comarca de Campo Maior, hoje Quixeramobim-Ce. Exerceu, em seguida, o mandato de deputado geral pelo Ceará, no Rio de Janeiro (1834-1837). Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife, onde passou a exercer a advocacia, atuando, inclusive, por três anos, na cidade de Areia, na Paraíba. Sabe-se que patrocinava, sobretudo, as causas dos pobres ou desvalidos. Em 1850, de repente, decepcionado e desiludido com os ofícios da vida civil que exerceu, fechou o escritório de advocacia, separou-se dos livros de direito e abando-

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nou a carreira. Entre 1850 a 1853, Ibiapina viveu na solidão, recluso em sua casa, rezando, refletindo, meditando e estudando filosofia e teologia, Freqüentava, apenas, sacerdotes e pessoas da igreja. Após a visita, numa tarde do domingo de 1853, de seu amigo Dr. Américo Magalhães, aceitou como uma graça da Providência a sugestão e intermediação deste, junto ao bispo de Olinda, Dom João Perdigão, para abraçar o sacerdócio, na condição de ser dispensado da formação regular no seminário. Tinha ele consciência de que estava preparado espiritualmente para a missão e de que detinha todos os conhecimentos necessários para sua ordenação. Ademais, não queria ser tratado, aos quarenta e seis anos, como um jovem seminarista. Depois de relutar, mas inteirando-se da boa formação intelectual, moral e cristã de Ibiapina, bem como, antevendo os grandes serviços que ele poderia prestar à Igreja, o bispo concordou com seu pleito e o acolheu. Em 19 de julho de 1853 foi ordenado subdiácono, poucos dias depois foi ao diaconato e, no domingo, 16 de julho do mesmo ano, foi ordenado sacerdote. No dia 29 de julho de 1853, celebrou sua primeira missa na igreja da Madre de Deus. Tinha, então, quase 47 anos. Logo foi designado pelo bispo do Recife como Vigário Geral da Diocese de Olinda. Tempos depois, pediu e obteve do bispo a permissão para lançar-se ao trabalho

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missionário junto aos pobres do Nordeste, com cujo sofrimento se comoveu durante a incidência de uma epidemia de cólera que ocorreu no estado de Pernambuco. Continuou a sua ação missionária, que se estendeu, depois, do Piauí a Pernambuco, incluindo Ceará, RG do Norte e Paraíba, regiões onde exerceu, a partir de 1860, um apostolado social em favor de desvalidos e carentes – população escassa, dispersa e pobre. Foi, no dizer do Padre Comblin, o maior missionário do interior do Nordeste do século XIX. Adotou como lema missionário as expressões: Trabalho, caridade e Fé. Exerceu seu devotado apostolado no período de 1860 a 1875, durante o qual, além dos trabalhos de evangelização, no qual usou metodologia própria, construiu, com a ajuda do povo e das chamadas beatas (irmãs não canonicamente religiosas) vinte e duas casas de caridade para recolher meninas abandonadas, ensinar a crianças pobres, recolher e dar atendimento a doentes e oferecer hospedagem aos peregrinos. Além disto, abriu cacimbas, construiu barreiros, açudes, capelas, casas de caridade, hospitais e cemitérios, e tudo isso, no curso de quinze anos. Ao final desse período, sofreu de graves acometimentos, tais como, reumatismo, asma e pleurisia. Estava muito doente, em 1876, quando chegou a Santa Fé nos ombros de pessoas, depois

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de haver padecido de “congestão” (AVC). Viveu seus últimos sete anos com lucidez e administrando as casas de caridade, mas imobilizado em uma cadeira de rodas, por apresentar paralisia dos membros inferiores. Seus males foram se agravando a cada ano. Teve novo ataque em 1879 e mais um, bastante grave, em 1882, até que faleceu em 1883. Seu ministério foi exercido pela pregação, com testemunho de vida e pela incansável atuação em favor dos pobres, e através de muitos empreendimentos sociais que realizou, praticando a caridade através das obras da fé, segundo os ensinamentos de São Tiago. Segundo o Padre Comblin, o primeiro bispo de Guarabira, Dom Marcelo Carvalheira, interessou-se e resolveu ressuscitar a memória e a mensagem do Padre Ibiapina. Com recursos financeiros vindos da Alemanha, com a mediação do Padre Cristiano Muffler, foi possível restaurar a antiga Casa de Caridade de Santa Fé, que recebeu novas ampliações e melhoramentos na administração de Dom Muniz, segundo bispo daquela diocese e do atual prelado, Dom Lucena. FONTES: Padre Ibiapina – José Comblin – “O Missionário Padre Ibiapina” - Antonio Vicelmo (jornalista) - Enciclopédia WIKIPÉDIA - Biografia do PE. Ibiapina (vídeo) – Andrezinho Silva. g


POESIA

O ESPELHO Auxiliadora Borba

1 Ao mirar-me no espelho Expurguei insigne lágrima De saudade, por tempos idos, Com dores, tristezas e mágoas.

6 Obrigada, espelho amigo! De ti sempre hei de precisar, És sincero e não escondes As faces, o corpo e o andar.

2 Volto a mirar-me, outra vez, olhos tristes, embaçados, rolando lágrimas na tez por sonhos idos, passados.

7 Refletes os bons momentos Do céu, da terra e do mar E também muitos transtornos, De forma peculiar.

3 Hoje o contemplo, novamente, Com total maturidade, Rugas firmes documentam A minha terceira idade.

8 Não guardas... Pois, só refletes, Mas cumpres bem a missão De mostrar para o cliente A real situação.

4 Espelho bom ou cruel? Documentas o real, Culpa não tens! Mel ou fel? Registras o bem e o mal.

9 Ontem novo, hoje velho; É assim a vida humana. Este ciclo se repete E tu a ninguém enganas.

5 Se pudesses, para sempre Guardarias os velhos fatos, Mas não tens esta função Que nos oferecem os retratos.

10 Fechei os olhos serenos E a voz do espelho ouvi: Guarda contigo a lembrança Dos risos lindos que eu vi.

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MEMÓRIA HISTÓRIA (QUASE CONTO) DO HOMEM QUE DISSE: NÃO! Gonzaga Rodrigues

O pior era ter de demitir um homem que o acompanhara a vida inteira. Mais que isto, um homem que o tinha na conta de amigo, quase da mesma terra, apenas separados pelas posições na vida. Examinou o processo, voltou a estudar os mínimos detalhes, crente de encontrar atenuante. Nada. A força dos deslizes se sobrepunha à boa vontade do juiz sem oferecer alternativa. Então, João fechou os olhos, despregou a mão do tique em caroço que amassava nervosamente entre os dedos no rosto curtido e magro, e lavrou a sentença que o havia de perturbar, sem trégua, o tempo todo: demissão a bem do serviço público. *** Semanas depois, força a porta do gabinete uma voz súplice de moça compenetrada e triste. A demissão do pai, nas condições morais em que se dera, furtara-lhe o encanto ainda adolescente da voz e o desembaraço de encarar o juiz com altivez. Mas a necessidade falava mais alto: - O senhor nos tirou a escola, a mim e a meus irmãos. Pior é que nos tirou até o suprimento da mesa. Meu pai precisa voltar ao emprego que o senhor lhe tirou. É pelos filhos dele que lhe peço. O homem afundou o magro corpo na poltrona, a mão no caroço, experimentando a sua primeira grande solidão. A sala, o gabinete, afundara-se com ele num vácuo

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sombrio e embargante, do qual submergiam, no fundo do esquecimento, todas as palavras e raciocínios do uso diário. Pela primeira vez puxou pela voz e não foi atendido. Não havia cometido uma injustiça, estava certo disto, mas tinha provocado, com o instante de uma assinatura, a desagregação de uma família. Era duro, ele. Voltou a encarar a moça, mediu-lhe o desconsolo do olhar e dos gestos e arrastou das entranhas o monossílabo cruel, desnorteante: - Não, não tenho como readmitir seu pai. *** Foi o não mais constrangedor de sua lembrança. Outros, bem muitos, lhe haviam escapado, até mais arrogantes e peremptos, mas nunca com aquele peso interior. Queria olhar por outras janelas, botar a alma do lado de fora, endereçar o espírito para as máquinas de rasgar caminhos, os fios de romper trevas, os muitos milhares de casas e carteiras escolares e até a multidão de outras mesas que havia surgido dos seus atos, das suas decisões, mas quanto mais olhava para fora mais aquele não incômodo o perturbava. “Foi a mais dura decisão do meu governo”. A memória chegava sutil, esvoaçava pelo birô, intrometia-se nos despachos, passou a acompanhá-lo até mesmo nos instantes de céu amplo, serra acima serra

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abaixo, trazendo o eco de outros nãos remotos de mesas e salas distantes. Nãos pronunciados a gentes de outras línguas e naturezas, quando lhe coube decidir, pelo País, a forma de exploração dos nossos minérios, contrariando os surtos de corrupção nacional, constrangendo medidas de força e até divergindo de condutas maiores do bloco parlamentar a que se integrara desde a Redemocratização. Mas todos eles negativas que nunca chegaram a lhe fazer mossa. Prorrompia o não e ia se deitar tranquilo. Muitas e muitas vezes foram nãos a amigos. Gente que o seguiu desde a primeira hora. *** Decisões mais temerárias que um simples não pouco o incomodaram. Era o seu primeiro teste de fogo na lide política. A cidadezinha dividida entre os que achavam que ele ia e os que não achavam. Os que não achavam eram muito mais, formadas as tocaias nas esquinas, o gatilho pronto a disparar se ele fosse homem para dizer uma só palavra. Fala, não fala, ele já havia dito que ia. Subiu ao palanque, olhou os que estavam com ele, viu que eram poucos...e falou. Foi o primeiro ataque pessoal da carreira e o primeiro passo para a escalada dos comícios e auditórios gerais. Desceu do palanque menos são do que salvo, mas como se nada tivesse ocorrido.


Tal como se deu, 25 anos depois, quando desceu de uma aterrissagem forçada do avião oficial que sobrevoava a Borborema e espatifara num dos despenhadeiros de Areia. - Está bem, governador? – foi a pergunta aflita. - Como vocês resolveram contornar a pedra e prosseguir com o corte da estrada? – foi a resposta à tensão dos que o esperavam apavorados. *** Só aquele não dito em ambiente de calma e a quem não tinha armas para o revide, arrastara-o para o vácuo sombrio e fundo, perturbando-lhe a voz e o raciocínio. Noutra ocasião não tivera um instante de dúvida. O homem escrevera a ele e a todos os principais da cidade, garantindo que em Catolé ele não pisaria. Isso vinha de longe, de piquetes em estradas, insultos por vias travessas, toda a cidade sabendo que os dois tinham de se passar a limpo no primeiro encontro. Leu novamente a carta, tomou o carro e seguiu para a cidade apreensiva, parando apenas para se negar à admoestação dos amigos: “Não vá que ele está com a capangagem.” Foi, atravessando uma cidade que estava mais por trás das janelas do que nas ruas. Entrou no hotel, sentou-se, um olho nos passantes suspeitos e o outro na porta que dava para a jogatina, nos fundos da casa. De vez em quando a porta rangia para dar passagem à cara sombria de alguns perus ou parceiros. Atravessavam

o salão – como vai, dr. João? – e quebravam porta fora. Olho nos capangas, olho no quarto do carteado, podendo notar que o jogo silenciara. Nenhuma voz de naipe, nenhuma batida na mesa, pressentindo apenas o tinido de fivela que alguém que abotoasse o cinto. Era o delegado, penúltimo parceiro a botar a cabeça fora do quarto. O que vinha em seguida era ele, o adversário que o proibira de pisar na cidade. À medida que o delegado e o homem se aproximavam, João foi se levantando para a porta. Plantou-se no batente, um olho na calçada e outro no homem, e desembuchou, as caras palmo a palmo: - Só quero saber se você confirma os termos desta carta (a carta na mão esquerda e a mão direita pronta). O homem engrossou as veias, tropeçou na língua e soltou a voz embotada: - Fui... foi eu! O braço magro e ossudo já estava na cara balofa, o homem no chão, debatendo-se, e o cenho debaixo da tapa magra. Nem puxou a arma. Nem precisou. Largou a cena sem qualquer peso na consciência. Nada que parecesse com aquele não dito a uma menina desarmada, vinte e cinco anos depois. *** Discordou na Sudene, nas convenções, nos gabinetes ministeriais, na tribuna, em nenhuma dessas ocasiões travando o remorso de ter agredido ou ofendido os parceiros de poder. Munia-se de razões para discordar e dava-se por pago. Desta vez tinha razão e não tinha sossego. Aquele quadro de desamparo pesa-

va-lhe mais que todos os tumultos juntos. De outras vezes o argumento lhe chegava fácil; desta, agora, não. O general do IV Exército lhe fizera ver que não havia razão para o jogo, o do bicho, continuar aberto na Paraíba, quando em todo o país mantinha-se fechado. - Diga-me onde empregar esse povo e fecharei também no meu Estado. - É um problema de todos os lugares – revidou o general. João contra-ataca: - Mas em todos os lugares se joga com o jogo fechado. Preferivel o jogo aberto, sem perigo de corrupção. - Se me mostrar que se joga onde está proibido, cessam as minhas objeções. Horas depois João volta ao general e lhe mostra uma pule do dia, o jogo feito a dois palmos do quartel-general. *** Um dia, não se conteve, mandou localizar a casa da moça e pediu para entrar. A dona da casa abriu a porta sem ter muita certeza do que tinha diante dos olhos. Ele entrou, ele mesmo puxou a cadeira e pediu que a família se reunisse à mesa. As palavras foram mais ou menos estas: “Olhe, seu pai eu não readmito. Mas obrigo a que vocês escolham, agora, o mais capaz e mais responsável dos irmãos com o compromisso de trabalhar para manter a família. Emprego um de vocês nestas condições. Foi escolhida a moça. g

(Republicado de O Norte, de fevereiro de 1988)

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COLABORADORES

A. J. Pereira da Silva (In Memoriam) – 9, 11, 32 Abelardo Jurema Filho – 5, 11 Adalberto Targino – 25 Adelmar Tavares - 32 Adylla Rocha Rabello – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Afonso Arinos (In Memoriam) – 12 Afonso Arinos de Melo Franco (In Memoriam) - 30 Ailton Elisiário – 25, 29, 30 Alceu Amoroso Lima (In Memoriam) – 15 Alcides Carneiro (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 32 Alcir de Vasconcelos Alvarez Rodrigues – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Aldo Di Cillo Pagotto (D.) – 8 Aldo Lopes Dinucci – 9 Alessandra Torres – 9 Alexandre de Luna Freire – 1 Aline Passos - 21 Aluísio de Azevedo (In Memoriam) – 13 Aníbal Freire (In Memoriam) - 24 Álvaro Cardoso Gomes – 5 Américo Falcão (In Memoriam) – 9 Ana Isabel Sousa Leão Andrade – 15 André Agra Gomes de Lira – 1 André Lucena - 32 Andrès Von Dessauer – 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 21, 22, 23, 24, 25,26, 27, 29, 30, 32 Ângela Bezerra de Castro – 1, 11, 25, 29, 32 Ângela Cassia Costaldello - 32 Ângela Maria Rubel Fanini – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Anna Maria Lyra e César – 6 Anníbal Bonavides (In Memoriam) – 8 Anton Tchecov (In Memoriam) - 30 Antônio Mariano de Lima – 4 Antônio Parreiras (In Memoriam) - 28 Ariano Suassuna (In Memoriam) – 14 Assis Chateaubriand (In Memoriam) – 12 Astênio César Fernandes – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 8 Augusto dos Anjos (In Memoriam) – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Aurélio de Lyra Tavares (In Memoriam) – 13 Austregésilo de Atahyde (In Memoriam) – 23 Bartyra Soares - 29 Berilo Ramos Borba – 3 Boaz Vasconcelos Lopes – 7 Camila Frésca – 5 Carlos Alberto de Azevedo– 4, 6, 11 Carlos Alberto Jales – 2, 12, 14, 16, 23, 25 Carlos Lacerda (In Memoriam) – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Carlos Meira Trigueiro – 2, 5 Carlos Pessoa de Aquino – 5 Celso Furtado - 16 Coriolando de Medeiros (In Memoriam) – 27 Chico Pereira - 16 Chico Viana – 1, 2, 4, 6, – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 10, 13, 14, 22, 24 Ciro José Tavares – 1, 23 Cláudia Luna - 28 Cláudio José Lopes Rodrigues – 5, 6, 27 Cláudio Pedrosa Nunes – 7 Cristiano Ramos – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Cristovam Buarque – 10 Damião Ramos Cavalcanti – 1, 11 Deusdedit de Vasconcelos Leitão - 24 Diego José Fernandes – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Diógenes da Cunha Lima – 6 Durval Ferreira – 7 Eça de Queiroz (In Memoriam) – 14 Eilzo Nogueira Matos – 1, 4, 7, 13 Eliane de Alcântara Teixeira - 6 Eliane Dutra Fernandes – 8, 14 Eliete de Queiroz Gurjão - 28 Elizabeth Marinheiro – 12 Emmanoel Rocha Carvalho – 12 Érico Dutra Sátiro Fernandes - 1, 9, 27 Erika Derquiane Cavalcante - 24 Ernani Sátyro (In Memoriam) –EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 7, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 11, 15, 16, 31 Esdras Gueiros (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Eudes Rocha - 3 Evaldo Gonçalves de Queiroz - EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 8, 31 Evandro da Nóbrega- 2, 4, 6, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 11, 14, 15, 21, 31 Everaldo Dantas da Nóbrega – 13 Everardo Luna (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Ezequiel Abásolo - 8 Fábio Franzini – 7 Fábio Túlio Filgueiras Nogueira - 30 Fabrício Santos da Costa – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Felizardo de Moura Jansen - 29 Fernando Gomes (D.) (In Memoriam) - 25 Firmino Ayres Leite (In Memoriam) - 4 Flamarion Tavares Leite – 8 Flávio Sátiro Fernandes – 1, 2, 4, 6, EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014, 7, 8, 9, 10, 11, 13, 14, 16, 21, 22, 23, 26, 28, 31 Flávio Tavares – 3 Francisco Bley - 32 Francisco de Assis Cunha Metri (Chicão de Bodocongó) - 2 Francisco Gil Messias – 2, 5, 14 Gerardo Rabello – 11 Gustavo Rabay Guerra – 27 Giovanna Meire Polarini – 7 Glória das Neves Dutra Escarião – 2 Gonzaga Rodrigues – 6, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 11, 31 Guilherme Gomes da Silveira d'Avila Lins – 4, 8 Hamilton Nogueira (In Memoriam) – EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Hélio Zenaide – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Hildeberto Barbosa Filho – 11, EE José Lins do Rego/Novembro/2015, 31 Humberto Fonseca de Lucena - 23 Humberto Melo – 16 Ida Maria Steinmuller – 24, 32 Igor Halter Andrade – 30 Inês Virgínia Prado Soares - 23

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Iranilson Buriti de Oliveira – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Itapuan Botto Targino – 3 Ivan Bichara Sobreira - 31 João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (In Memoriam) – 4 João Cabral de Melo Neto (In Memoriam) – 27, 29 João Lelis de Luna Freire - 30 Joaquim de Assis Ferreira (Con.) (In Memoriam) – 6 Joaquim do Amor Divino Caneca - 28 Joaquim Osterne Carneiro – 2, 4, 7, 9, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 11, 14, 25, 32, Jonathan França Ribeiro – 30 José Américo de Almeida (In Memoriam) – 3, 10, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 15 José Honório Rodrigues (In Memoriam) - 28 José Jackson Carneiro de Carvalho – 1 José Leite Guerra – 6 José Lins do Rego (In Memoriam) – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 José Loureiro Lopes – 16, 21 José Mário da Silva Branco – 11, 13 José Nunes – 16, 25 José Octávio de Arruda Melo – 1, 3, 6, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 9, 13, 15, 21, 24, 25, 28, 30, 31, 32 José Romero Araújo Cardoso – 2, 3, 10, 11 José Romildo de Sousa – 16 José Sarney – 15 Josemir Camilo de Melo – 11, 28 Josinaldo Gomes da Silva – 5, 10 Juarez Farias – 5 Juca Pontes – 7, 11, 27 Krishnamurti Goes dos Anjos – 29 Ivan Lins – 27 Linaldo Guedes – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Lourdinha Luna – EE/Pedro Moreno Gondim/2014, 7, 13, 15, 29 Lucas Santos Jatobá – 14 Luiz Augusto da Franca Crispim (In Memoriam) – 13 Luiz Fernandes da Silva- 6 Machado de Assis (In Memoriam) – 9 Manoel Batista de Medeiros – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Manuel José de Lima (Caixa Dágua) (In Memoriam) – 13 Marcelo Conrado – 30 Marcelo Deda (In Memoriam) – 4 Márcia de Albuquerque Alves - 23 Marcílio Toscano Franca Filho - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 23 Marcos Cavalcanti de Albuquerque – 1 Marcus Vilaça - 25 Margarida Cantarelli - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Maria das Neves Alcântara de Pontes – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Maria do Socorro Silva de Aragão – 3, 10, 15 Maria José Teixeira Lopes Gomes – 5, 8 Maria Olívia Garcia R. Arruda – EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Mariane Bigio - 28 Marinalva Freire da Silva – 3, 9 Mário Glauco Di Lascio – 2 Mário Tourinho – 13 Martha Mª Falcão de Carvalho e M. Santana - 22 Martinho Moreira Franco – 11 Matheus de Medeiros Lacerda - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Mercedes Cavalcanti (Pepita) – 4 Milton Marques Júnior – 4 Moema de Mello e Silva Soares – 3 Neide Medeiros Santos – 3, 6, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, EE/José Lins do Rego/ Novembro/2015, 15, 23, 27, 32 Nelson Coelho – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Neno Rabello – 11 Neroaldo Pontes de Azevedo – 2 Octacílio Nóbrega de Queiroz (In Memoriam) - 6, 15 Octávio de Sá Leitão (Sênior) (In Memoriam) - 23 Octávio de Sá Leitão Filho (In Memoriam) – 16 Osvaldo Meira Trigueiro – 2, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 25, 27, 30, 32 Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo (In Memoriam) – EE/Epitácio da Silva Pessoa/ Maio/2015 Otaviana Maroja Jalles - 14 Otávio Sitônio Pinto – 7 Patrícia Sobral de Sousa - 21 Paulo Bonavides – 1, 4, 5, 9, 10, EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015, 12, 14, 15, 16, 22,23, 25, 27 Pedro Moreno Gondim (In Memoriam) – EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014 Peregrino Júnior (In Memoriam) - 22 Raimundo Nonato Batista (In Memoriam) – 3 Raúl Gustavo Ferreyra – 5 Raul de Goes (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Raul Machado (In Memoriam) – 4 Regina Célia Gonçalves – 22 Regina Lyra - 24 Renato César Carneiro – 3, 6, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014,7,9 Ricardo Vieira Coutinho – 31 Ricardo Rabinovich Berkmann – 5 Roberto Rabello – 11 Ronald de Queiroz Fernandes (In Memoriam) - 21 Rostand Medeiros – 12 Ruy de Vasconcelos Leitão – 16 Samuel Duarte (In Memoriam) – 21 Sérgio de Castro Pinto – 22 Serioja R. C. Mariano – 28 Severino Alves de Sousa - 28 Severino Ramalho Leite – 4, EE/Pedro Moreno Gondim/Maio/2014, 13, 15, 16, 29 Socorro de Fátima Patrício Vilar – 10 Thanya Maria Pires Brandão – 4 Thiago Andrade Macedo – 30 Tiago Eloy Zaidan – 11, 13, 21, 23, 29 Vamireh Chacon - 28 Vanderley de Brito - 32 Vanessa Lopes Ribeiro – EE/José Lins do Rego/Novembro/2015 Verucci Domingos de Almeida – 5, EE/Augusto dos Anjos/Novembro/2014 Vicente de Carvalho – 16 Violeta Formiga (In Memoriam) - 21 Virgínius da Gama e Melo (In Memoriam) - EE/Epitácio Pessoa/Maio/2015 Waldir dos Santos Lima – EE/Pedro Moreno Gondim/Novembro/2014 Walter Galvão – 3, 9, 15 Wandecy Medeiros - 30 Wills Leal – 2, 7


DEZ FRASES QUE... NÃO SÃO DE EFEITO... MAS QUE PODEM TER EFEITO...

“SEJA UM INCENTIVADOR DE PESSOAS,

O MUNDO JÁ TEM

CRÍTICOS DEMAIS”. “NÃO ESPERES ATITUDES NOBRES DE PESSOAS DE ESPÍRITO POBRE”.

“O DIA TERMINA... MAS DEUS CONTINUA OLHANDO POR TI.

TODOS OS CAMINHOS ESTÃO ERRADOS QUANDO VOCÊ NÃO SABE AONDE QUER CHEGAR.

“A ÚNICA COISA QUE CAI DO CÉU É CHUVA; TUDO O MAIS É LUTA”.

(William Shakespeare)

“CAIU? LEVANTE-SE. E NÃO DERRUBE

QUEM TE DERRUBOU. ELE VAI CAIR

POR ELE MESMO”.

“QUANDO VOCÊ PRECISAR FICAR PROVANDO SEU VALOR, SAIBA QUE É HORA DE DAR NO PÉ”.

FAÇA UMA ASSINATURA ANUAL DE GENIUS.

“TRABALHA PARA QUE TEUS CLIENTES TE PROCUREM NÃO POR SERES O MAIS BARATO, MAS O MELHOR”.

“SE VOCÊ NÃO DER

UM PASSO À FRENTE NUNCA VAI SAIR

“O FUNDO DO POÇO DÁ LIÇÕES QUE O TOPO DA MONTANHA NÃO CONSEGUE ENSINAR”.

DO LUGAR”.

FAÇA UMA ASSINATURA ANUAL DE GENIUS.

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