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pelos rumores sobre as atividades paranormais do local, King ganhou inspiração para escrever ‘The Shining’, sua mais aterrorizante novela, publicada em 1977. Motivado por essa obra, o diretor Stanley Kubrick, sob o mesmo título, produziu em 1980, um dos mais instigantes e extenuantes filmes de terror já montados. Com efeito, rodado no Hotel Timberlane (Oregon) estabelecimento redenominado, por Kubrick como “Overlook”, o longa sempre provocou as mais polêmicas interpretações. Já na montagem, a direção do Timberlane solicitou a alteração do número do quarto 217, no intuito de evitar possível estigmatização. Em vista disso, o cômodo 217 passou à numeração fictícia 237. E, tendo em conta, que o novo número remete à distância entre a Terra e a Lua (237.000 milhas), essa simples alteração fez reacender a teoria, de ter a NASA utilizado, na divulgação da conquista lunar, as imagens de “2001 Odisseia no Espaço”, obra precedente de Kubrick. Histerias interpretativas à parte, o certo é que o “Iluminado” dificilmente será desvendado, já que seu criador faleceu em 1999,  logo após seu último filme (“De Olhos Bem Fechados”). Os intérpretes, todavia, de olhos bem abertos, continuam a se debruçar sobre as mais inusitadas teorias, algumas delas presentes no premiado documentário de Ascher, “Room 237” (2012). Não obstante qualquer dissenso, as opiniões convergem quanto ao hotel ser uma metáfora a respeito do domínio exercido pelos Estados Unidos sobre o mundo (daí seu

nome ‘Overlook’ ). A estreita relação dessa obra com a história dos USA, resta evidente na cena em que o protagonista Jack Torrance (Jack Nicholson em seu melhor papel) aproxima ainda mais a fronteira entre pretérito e presente, ao notar-se em outro tempo, em plena comemoração do Dia da Independência O repetido uso do vocábulo ‘murder’ (assassinato) grafado ao inverso, bem como as imagens dispostas nas paredes e no mobiliário do ‘Overlook’ tornam evidente a dificuldade de uma nação em digerir seu passado violento (genocídio de índios, guerra

civil etc.). Outrossim, o roteiro de Kubrick aborda tanto os conflitos raciais (através de um assassinato) quanto os conflitos armados com menção ao holocausto, flagrado na escolha da máquina alemã ‘Adler’. Sem dúvida, um dos pontos geniais da obra é a combinação intrínseca entre a ‘Síndrome da Cabana’ (agressividade de pessoas confinadas) e a ‘Caverna de Platão’ (reflexo deturpado da realidade). O repetido provérbio (“all work and no play makes Jack a dull boy” – “muito trabalho e pouca diversão faz Jack um cara bobão”), datilografado, incansavelmente, no interior da caverna (leia-se: hotel), se mostra, a princípio, sem sentido. Mas, de fora da caverna, esse ditado ganha significado, já que na opinião de Kubrick filmes que não brincam com o público, são películas desprovidas de graça. Seguindo essa linha lúdica, a ironia mor é que, embora extremamente sucinto, o livro do personagem Torrance foi, de fato, publicado e bem aceito pelo mercado publicitário e leitores. Isso por representar tanto um ‘souvenir’ como por simbolizar a busca ensandecida de um escritor (e um cineasta) por argumentos e roteiros. O Labirinto é a metáfora mais significativa para os múltiplos caminhos interpretativos. A correlação entre a saída do labirinto e as tentativas de desvendar os enigmas dessa obra se estabelece no ato de olhar (ou andar !) para o passado, já que a saída da casa do Minotauro, sempre foi sua entrada. Assim, basta retroceder na estória do hotel, para encontrar algumas chaves deixadas por Kubrick. g

ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA FLÁVIO SÁTIRO FERNANDES OAB Nº. 17.131/PB

Fone: (83) 99981-2335

Conselheiro Aposentado do Tribunal de Contas do Estado Professor Aposentado da Universidade Federal da Paraíba Especialista em Direito Administrativo 6

| Maio/Junho/2017

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