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FOLCLORE O FOLCLORE, DE RODRIGUES DE CARVALHO A ADEMAR VIDAL(1) José Octávio de Arruda Mello (*)

Sumário: 1.0. Introdução. 1.1. O suporte de Fernando de Azevedo. 1.2. Um roteiro para a cultura brasileira. 1.3. A transição dos anos vinte. 1.4. Era Nova e Presença invisível.1.5. Da ideologia do Cancioneiro. 1.6. Manuel Diégues e o aprofundamento do Cancioneiro. 1.7. História social e sociologia do folclore. 1.8. Uma projeção rodrigueana: Ademar Vidal. 1.9. Contribuição frutífera. 1.10. Do cordel à nova cultura. 1.0. Introdução. Sempre que me disponho a estudo mais consistente, apoio-me em um ou dois livros de significação, como roteiro para o tema abordado. Agora mesmo, às voltas com monografia sobre o Auto Esporte Clube, de João Pessoa, recorro à muleta de Mário Filho e Mary del Priore. O primeiro por situar racismo e sociedade no esplêndido O Negro no Futebol Brasileiro (1964) e a profª. Del Priore pela maestria com que desenvolve a história do cotidiano e das mentalidades. 1.1. O suporte de Fernando de Azevedo – Assim, quando o jurista José Fernandes de Andrade, do CEJUS, designou-me para abordar Rodrigues de Carvalho, à luz do binômio Folclore/História Social, em bem montado seminário, lembrei-me, instintivamente, do estudo que roteiriza o folclore e a realidade cultural brasileira. Trata-se de A Cultura Brasileira – Introdução ao Estudo da Cultura no Brasil (1944), de Fernando de Azevedo, sobre o qual encomiasticamente se pronunciou Nelson Werneck Sodré. Este, ao lado de O que se deve ler para conhecer o Brasil (7ª ed., 1988), também anotamos para monitoramento de nossas concepções:

“Fernando de Azevedo – afiança Sodré – descreve a evolução da cultura brasileira, num dos trabalhos mais importantes que o Brasil conhece e naquela evolução não omite ângulo algum, ocupando-se das artes, das ciências, do ensino, de tudo aquilo que condicionou ou influiu no desenvolvimento cultural (...) A Cultura Brasileira está entre os livros de leitura obrigatória a todo aquele que deseje conhecer o nosso País”. 1 O imenso educador paulista não se tornou estranho à cultura universitária paraibana. Os professores José Rafael de Menezes e Pedro Nicodemos a ele recorreram, no período 1950/70, sendo que o segundo, mais que a Gilberto Freyre, dele extraiu o que marcou nossa cultura, ou seja, a dicotomia entre a concepção livresca, datada da ratiostudiorum dos jesuítas, e os que, concretamente, se ocuparam de nossa realidade.2 Como, porém, observa a profª. Linalda de Arruda Mello, aluna de ambos, a utilização de Azevedo por aqueles dois mestres verificou-se a nível de Educação, tendo em vista as disciplinas por eles ministradas – Didática Geral e Fundamentos Sociológicos da Educação.3 Isso explica, como, também responsável pela cadeira de Sociologia da Educação, no antigo Instituto de Educação, o professor e futuro governador Tarcísio Burity, considerasse A Cultura Brasileira uma das obras básicas de sua formação.4 1.2. Um roteiro para a cultura brasileira – No que tange a Rodrigues de Carvalho, nossa abordagem difere um pouco de Menezes, Nicodemos e Burity.

Para nós, e a partir do estudo com que recobriu o censo de 1940, o que interessa em F. A. é sua visão histórico-sociológica, ou seja, entendimento mais cultural que pedagógico. Este, aliás, em sintonia com o culturalismo germânico, então emergente, aparece em A Cultura Brasileira onde, para o autor, essa significa “a eclosão de um espírito crítico e criador que, fazendo-nos perder a atitude de superstição perante os textos, nos convida a saltar fora da cultura livresca para o mundo real e nos impele ao estudo de nós mesmos e de nossos problemas e à investigação da realidade em todos os domínios”.5 Ora, é exatamente dentro dessa linha que se deve entender a folclorologia de Rodrigues de Carvalho. Refratária ao artificialismo alienante e bovarista, ela representa incursão “pelo mundo real (...) e a investigação de todos os domínios”. Nesse particular, o culturalismo desenvolvido por Rodrigues de Carvalho associa-se com o que é próprio do sociólogo paulista, ou seja, valorização do idioma tupi em nossa formação onde jesuítas como Anchieta compilaram a língua geral, utilizada por mamelucos como Jorge Velho. Base religiosa de nossa cultura. Primazia do bacharel – mas não do bacharelismo – sendo Rodrigues de Carvalho um deles. Reabilitação de Dom João VI, em razão das instituições culturais de que dotou o Brasil.6 E ainda lendas e tradições recolhidas por autores como o primeiro Afonso Arinos em Pelo Sertão (1898). Ensino da História animada por Capistrano de Abreu, no Colégio Pedro II, ampliando as colocações de

*Exposição procedida a 16 de junho de 2017, no CEJUS, durante Seminário sobre Rodrigues de Carvalho, coordenado pelo jurista José Fernandes de Andrade. 1 SODRÉ, Nelson Werneck. O que se deve ler para conhecer o Brasil, 7ª ed. Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1988, p. 314. 2 Essa questão, sempre ressaltada por Nicodemos, representa constante em AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira, 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944, p. 168. A fonte mais remota da concepção referente à contradição entre o país real e o país legal, data de Oliveira Vianna em O Idealismo da Constituição (1ª ed., 1920), passim. 3 Entrevista com a profªLinalda de Arruda Mello, João Pessoa: Janeiro de 2017. 4 O então Secretário de Educação e Cultura Tarcísio Burity (1976/8) habitualmente citava Azevedo, em seus pronunciamentos, o que motivou a referência do texto. Recentemente, em conversa de fevereiro de 2017, a viúva Glauce Burity confirmou o entendimento. 5 AZEVEDO, Fernando de, in op cit. p. 170. 6 Idem, p. 125, 128 e segs, 161/157/164 e 182.

Maio/Junho/2017 |

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