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DIVAGAÇÕES OS ALEMÃES E A COMUNIDADE Carlos Alberto Jales

Eles formavam um casal jovem, marido e mulher que vieram da desenvolvida Alemanha organizar e coordenar uma ONG, numa das comunidades do Rio de Janeiro. No seu país, tinham aprendido um mínimo da língua portuguesa e foi com muito entusiasmo que enfrentaram a aventura no Brasil. No início o impacto foi grande, uma espécie de choque térmico diante da miséria que encontraram no local onde iam trabalhar. Mas o Rio de Janeiro é o Rio de Janeiro e ficavam extasiados diante de tantas belezas naturais: a Baia de Guanabara, o Corcovado, o Pão de Açúcar, a Floresta da Tijuca, as praias a perder de vista. O choque da chegada foi amenizado por uma cidade que encantava seus olhos. O fascínio do Rio compensava qualquer sacrifício. É verdade que havia o calor insuportável para quem vinha de tanto frio, as ondas de mosquitos, mas nem isso foi obstáculo para o entusiasmo do jovem casal. Para ele era seu limite. Transcorridos alguns meses, os alemães passaram a se inquietar. Estranhavam a dificuldade de reunir os moradores da comunidade para debater seus problemas e encontrar as soluções. Não compreendiam como as pessoas marcavam um compromisso com hora determinada, mas não apareciam nem davam nenhuma satisfação depois. Não entendiam como os moradores aceitavam a inexistência de escolas, de postos médicos, de farmácias, de praças, sem reclamar ou reivindicar. O jovem casal não conseguia aceitar porque o Estado era tão ausente para onde quer que se olhasse. O espanto foi aumentando com o tempo e os alemães começaram a se perguntar e a perguntar aos moradores: por que as pessoas aqui parecem tão felizes, por que vivem nos botecos beben-

do cerveja e aguardente, por que cantam e dançam por qualquer motivo, por que fazem churrasco nas lajes daquilo que chamam de casas, de onde vem o dinheiro para gastar, por que são tão apaixonados por futebol, ao ponto de vestir as camisas de seus clubes? À noite, quando se recolhia para descansar, o casal relembrava sua Alemanha com suas crianças bem nutridas, com seus ônibus, trens e metrôs funcionando como um relógio suíço, sua previdência que pagava seguro-desemprego e relembrava suas despesas com médicos e hospitais, mas faziam um grande esforço para aceitar a realidade em que viviam no Rio de Janeiro. No entanto, era duro aceitar a passividade dos miseráveis, era quase impossível aceitar que seres humanos vivessem naquelas condições. A carência absoluta marcava seu cotidiano. Na Alemanha tinham escutado seus avós e seus pais falar de uma Alemanha pobre, com uma agricultura fraca, com pessoas endividadas pela inflação da moeda. No entanto eles só tinham conhecido uma Alemanha rica que surgiu depois da 2ª guerra mundial e notícias de pobres só chegavam por jornais que descreviam imigrantes turcos, gregos, portugueses, espanhóis, italianos do sul da bota. Mas tudo muito longe deles, como se a miséria fosse uma coisa muito distante de suas vidas. Agora, não. Agora o casal estava frente à frente com ela, estava frente à frente com a morte de crianças que mal completavam um ano de vida, agora conheciam meninas que se prostituiam mal saídas da infância. Estavam sobretudo cara a cara com a subserviência, com a indiferença de pessoas ao seu próprio sofrimento. Nem Freud, nem Marx, nem Nietsche, nem Weber, tinha previsto

uma situação como esta. Como soava longe a voz dos seus professores na universidade, falando do imperativo categórico de Kant, do super homem de Nietsche, dono de seu destino. Como parecem artificiais as palavras de Marx e Engels, clamando aos oprimidos do mundo que se unissem. Eles, os oprimidos, não tinham nada a perder, mas tudo a ganhar. A Escola de Frankfurt havia condenado com toda a força o mundo do lazer, do divertimento, da festa como uma manobra das classes proprietárias para manter os explorados longe das reinvidicações e protestos sociais. O casal coordenador da ONG se perguntava agora se os frankfurtianos não teriam razão... Um ano depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, a jovem alemã entrou num processo de violenta depressão diagnosticada por médicos brasileiros. Para ela, o que estava vivendo lhe parecia um pesadelo. A lógica das pessoas da comunidade em que trabalhavam era um desafio para todos que haviam estudado e o pensamento de René Decartes, fundado na racionalidade do sujeito pensante, parecia um delírio. Os psiquiatras que consultou, vendo seu estado depressivo, aconselharam que voltasse definitivamente à Alemanha. O marido ainda ficou alguns meses, cumprindo o resto do contrato que havia assinado com a ONG. Depois retornou também ao seu país. Hoje, os dois recordam, entre nostálgicos e saudosos, o tempo vivido naquele aglomerado urbano chamado pudicamente de comunidade e escutam às vezes as vozes zombeteiras dos deuses e no meio de sorrisos sobressai uma voz que diz: “miseráveis do mundo, separai-vos pois nada tendes a ganhar, a não ser um churrasquinho numa manhã de domingo, numa certa comunidade do Rio de Janeiro...” g

Maio/Junho/2017 |

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