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logo a pergunta: – O senhor tem composto muito? Foi quando Suassuna, sem entender nada, observou-lhe: – Não, padre; eu não sou compositor. O padre, novamente perdido, rebate: – Mas o Dr. Brennand não acaba de dizer que o senhor é o autor de “La Cumparsita”? Escutem, agora em sério, Ariano e Zélia, pois os trato na intimidade acadêmica: dependurem, lá na casa da Rua do Chacon o diploma da Academia Brasileira de Letras junto àquele de benemérito da Associação dos Cantadores e Violeiros do Nordeste e, assim, promovam a união indissolúvel de Machado de Assis e Austregésilo de Athayde a Antonio Marinheiro e a Antonio Marinho, para não falar num montão de outras boas-gentes, como certamente se referira José Sarney. Depois, não esqueçam que aplaudem as cenas desta noite, outros paraibanos que se pernambucanizaram, desde André Vidal de Negreiros, passando por Odilon Nestor, Augusto dos Anjos, Virginius da Gama e Melo, Aderbal Jurema, Assis Chateaubriand, José Lins do Rego, e chegando a Marcílio Campos, a Tarcísio Pereira, a João Câmara e a Edilberto Coutinho. Ademais deles, também os doidos que fizeram a alegria de nossas respeitáveis Cidades – Taperoá, Lajedo e Limoeiro – porquanto cidade sem doido não merece respeito. Falo da Velha do Badalo, de Júlia Doida, de Manoel Penico e de Inácio Carreta.

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| Maio/Junho/2017

Pois bem, aquele que o saúda se empavona ao dizer que se apresenta nesta Sala solene com cheiro de pólvora, impregnado do suor das lutas políticas e familiares, entupido de códigos de honra e sempre com o olho na mira, por imposição das disputas de vida e morte. Devo, finalmente, anotar que o que eu disse de Ariano é muito pouco para o muito que ele é. Desejo combinar – e como combinam! – o fardão e a viola. Quando Manuel Bandeira assistiu a uma cantoria de viola entre os irmãos Dimas e Otacílio Batista, desabafou, em “Cantadores do Nordeste”:    Saí dali convencido Que não sou poeta não; Que poeta é quem inventa Em boa improvisação, Como faz Dimas Batista e Otacílio, seu irmão. Assim, para que ninguém duvide da harmonia fardão-viola – para que todos os presentes possam assistir, sem duvidar, a um desafio de viola, embora erudito, eu convoco à minha fala dois poetas (que dedicaram poemas entre si) e dois poemas; convoco o aqui já convocado Ariano Suassuna e convoco o pernambucano Marcus Accioly, aqui também presente. O desafio é em forma de martelo.

Ariano Suassuna começa, “ante um retrato de Camões”: Se, na noite de chuva, a tempest de em solitários galhos açoitados, revivesse os navios naufragados e o travoso gemer da soledade; se, da grave assonância da vontade entrever se pudesse o sacrifício, nesse claro e cansado frontispício quem, mais do que teus olhos, cantaria da vida o caso cego e a galhardia, a luz flamante e o sacro desperdício? Marcus Accioly responde, evocando o maranhense (rima e solução) Catulo da Paixão Cearense: Sobre as cristas das pedras pousam anjos Para ouvir estes rudes desafios Que só hão de cessar ao sol nascente Pois que a noite tem cantos como os rios E estes cantos são notas ou arranjos. De violas, rabecas e pandeiro Que, marcando o compasso do repente, Fazem os passos da noite mais ligeiros Porque o dedo da gente quando esfola o aço firme e sonoro da viola que parece chorar enquanto cata, Eu, lembrando Catulo quando falo, Ouço a lua cantar dentro do galo Que carrego por dentro da garganta.    Minhas senhoras, meus senhores,a cantoria vai continuar pela noite adentro, até o sol nascer. Cedo a retórica à poética. Talvez seja invulgar a cantoria nesta Casa, dentro desta Casa de Machado de Assis. Mas ela irá virar a noite, e eu devo dizer, agora, a todos: Boa noite. Até amanhã.  g

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