Page 17

tar armada em certo alpendre ou quarto do palácio do Governo, na capital da Paraíba, Estado de que seu pai fora presidente, como se dizia à época. Conta-se que um dia desses, ao passar pela cidade onde nasceu, e dela não pronuncia o nome atual, por conta de tudo o que sabemos, foi Ariano Suassuna ao palácio para rever e recordar. De alpercata, calça e camisa, na sua encadernação dos últimos anos, barrou-lhe o guarda a entrada, censurando-o: – Como que quer entrar; sem paletó e gravata? A resposta veio firme e maliciosa, sem que o coitado do vigilante pudesse entender: – Pois saiba que já andei nu aí dentro muito tempo. E ninguém reclamava. Até achavam bonitinho e engraçado. A infância ensejou-lhe muito de amadurecimento antecipado, porque, como diz nestes versos, ela foi assim:    Sem lei nem rei me vi arremessado Bem menino ao planalto pedregoso Cambaleando cego ao sol do acaso Vi o mundo rugir tigre maldoso.  E veio o sonho e foi despedaçado E veio o sangue, o marco iluminado A luta extraviada e a minha grei. Naquele tempo, sabia-se do sertão como o sertão sabia do mar e, talvez por isso, esperava-se fosse cumprida a prédica de Antônio Conselheiro: “Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão: então o certão virará praia e a praia virará certão.” A profecia cumpriu-se pelo avesso: em 16 de junho de 1927, na Cidade de Nossa Senhora das Neves, capital do Estado da Pa-

raíba, filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna e de Rita de Cássia Dantas Villar, nasceu Ariano Villar Suassuna. Um ano depois, 1928, a família Suassuna regressa a seu lugar de origem, o sertão, na Fazenda Acauhan. Pois bem, o sertão recebeu da praia, do litoral, um seu grande intérprete. O menino pisou a pedra, ouviu os cantos dos pássaros, do povo e, com os professores Emídio Diniz e Alice Dias, aprendeu a ler os primeiros folhetos, os primeiros romances populares. O menino ouviu, pela primeira vez, os cantadores – Antonio Marinho e Antonio Marinheiro – e assistiu a uma peça de mamulengo. O menino se fez, ora descobrindo o imóvel das gravuras, nas capas dos folhetos, ora aprendendo a música do martelo, do galope, da sextilha, da gemedeira, onde gemem os cantadores. Os seus versos, a prosa, o teatro fazem parte da sua experiência vital. Por isso, o que produziu, proclama um tanto orgulhoso, se aproxima da parte do mundo que lhe foi dada, cheia de sol, de poeira, de atores ambulantes, de bonecos de mamulengo representando gente comum, de assassinos, de juízes, de avarentos, de homens e mulheres de bem, de prostitutas, de luxuriosos medíocres. Seu nativismo, adverte Silviano Santiago, não é tão “estreito” quanto os dos que pregam um ufanismo de portas fechadas, nem tão “aberto” quanto o dos que professam uma constante dívida, na construção do brasileiro, ao alienígena. Raimundo Carrero observa que nele “o processo de criação, a fabulação, a chamada agilidade dos diálogos, a arrumação de cenas, a escolha de personagens e a notável ‘arquitetura’ das tramas jamais traíram a

concepção de Arte e de mundo”. É a autenticidade costumbrista, digo eu, desse ressuscitador prodigioso da memória e da alma de sua gente. Muito do que pode parecer sem-vergonhice de algum dos seus personagens na verdade é a busca do indispensável à sobrevivência. É espécie de vitória da inteligência sobre a adversidade opressora. No Nordeste, a gente sabe que a astúcia é a coragem do pobre. Além do mais, esses recursos literários favorecem ao leitor ou ao espectador um suculento exercício de imaginação. Inspirando-se em bons e nada desprezíveis anônimos, em bons e nada desprezíveis analfabetos, a obra suassuniana foge do banal, porque a desbanalização ocorre exatamente por conta do quanto se mostra atenta ao homem e à magia do cotidiano. A sua graça, a sua originalidade vêm da empatia com a tradição popular, fazendo tudo que escreve ser espécie de coroa da arte do seu povo. Por isso, tão pura, tão fogo, tão fogosa, tão tradicional e tão original, tão novidadeira, tão ocupada – no sonho e na tradição – em redimir injustiças da vida real. Antônio Houaiss, com a sua precisão habitual, adverte que: Essa inserção no tradicional é, entretanto, tão espontânea e autenticamente estabelecida, que [...] embora possa parecer, a certos analistas metafísicos, um mero aproveitamento de recursos cediços sem originalidade, é, em verdade, uma rica lição de como o novo provém do velho, de um combinatório criador do velho, de modo que o novo apareça como decorrência precisamente desse combinatório.   Nela, é ostensiva uma fidelidade ao que

Maio/Junho/2017 |

17

Profile for joaodamasceno

GENIUS 25  

REVISTA

GENIUS 25  

REVISTA

Advertisement