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coisas. José Américo, revelando as qualidades que mais o seduziram no livro, ressalta: “É mais uma homenagem filial do que uma confissão. O senhor de engenho que movia a máquina obsoleta é o verdadeiro personagem, com sua autoridade patriarcal dissolvida em bondade e compaixão.” Outra característica do escritor se estrutura na escolha da linguagem que não trai sua formação clássica, mas sabe dar expressão verdadeira aos personagens e traduzir os costumes sem falsear o tom local. Forma e conteúdo indissociáveis, na construção do estilo. José Augusto fala de “uma leitura substanciosa, como um amoroso conselho paterno”, Essa síntese encantadora reconstitui o próprio sentimento da convivência com padre Luís, que continua vivo na percepção do valor humanístico de sua criação. Hoje, tudo me parece escrito para a continuidade de sua presença no mundo através da palavra. Para a sutil reiteração de um compromisso existencial que se exerceu pela prática simultânea de ações religiosas, pedagógicas e políticas de tal

forma entrelaçadas que, às vezes, fica impossível precisar onde começa uma e a outra termina. No entanto, a prevalência dos valores que fundamentam o humanismo cristão, ainda que não transpareça ostensivamente, converte-se na ideologia dominante de todos os textos produzidos por padre Luís. Na publicação de A Tragédia do Major, destaca-se o direcionamento do narrador para imputar ao personagem a responsabilidade pelos atos praticados. É uma forma de contestar a força do Destino, tal como se coloca na teoria da Tragédia. De modo que a palavra, no título do romance, não tem o peso da tradição literária ou mitológica. Significa apenas um acontecimento negativo que leva à queda, ao sofrimento e à tristeza. Mas, sendo o homem dotado do livre arbítrio, poderia ter sido evitado. Verifica-se. portanto, uma absoluta negativa da Fatalidade, categoria que na tragédia grega submetia o personagem à reviravolta da felicidade ao infortúnio, sem que este pudesse opor qualquer resistência. No prefácio à primeira edição do roman-

ce, o autor alerta que aquelas páginas em torno de uma vida constituem uma lição. Eu direi que este aviso é válido para a obra que ele construiu em sua prática de cidadão, de mestre e de sacerdote. A lição está em todas as páginas que ele escreveu e também naquelas que não escreveu, mas que foram talhadas pelos gestos. Encerro esta homenagem de gratidão apropriando-me de um parágrafo que integra em Figuras e Paisagens o perfil de meu avô paterno, Joaquim Pereira de Castro. Pois aprendi com o grande mestre Juarez da Gama Batista que quem retrata o outro também se revela. “Quem pinta se pinta” - era sua forma exata de dizer. Padre Luís, “um belo tratado da grandeza humana. Não se afastou um milímetro daquele programa que certamente traçou para si de levar a existência no meio dos homens, prestando a estes o exemplo do que precisassem ser, para recomendação mesmo de tudo que apregoamos como valor”. (Pronunciado em 25 de março de 2017, no Teatro Geraldo Alverga, na cidade de Guarabira) g

Maio/Junho/2017 |

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