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clusões. Pelo contrário, disse ele, eu apresentava a história de minhas indagações como se fosse uma novela de detetives. A objeção me chegou de forma amável; e dito examinador me sugeriu a ideia fundamental de que todo achado no transcurso da pesquisa deve ser “narrado” desta forma. Todo livro científico deve ser uma espécie de história policial, o relato da busca de algum Santo Graal. E creio que isso é o que tenho feito desde então em todas as minhas obras acadêmicas. [Eco, Umberto, Confessions of a Young Novelist. Harvard College, 2011]. STEPHEN HAWKING E AQUINO Um dos maiores físicos da atualidade, Stephen Hawking, sucessor de Einstein, cita repetidamente Tomás de Aquino no livro The Grand Design, que escreveu com seu colega Leonard Mlodinow [Bantam Books / Random House, Nova York, 2010]. De outra parte, o sistema de pensamento de Aquino é criticado, de um ponto de vista científico, nos seguintes quatro volumes (I, III, IV e VI) da Coleção “Motion Moutain: The Adventure of Physics”, do professor Christoph Schiller e dedicada ao ensino da Física a jovens cientistas: * Volume I - Fall, Flow and Heat [Edição 27.06, disponível on line como .pdf gratuito, com vídeos downloadáveis no URL www.motionmountain.net]; * Volume III - Light, Charges and Brains [idem, ibidem]; * Volume IV - The Quantum of Change [idem, ibidem]; neste livro, o autor faz uma brincadeira entre o “princípio da exclusão do férmion” e o “princípio da exclusão do anjo”, numa referência à célebre resposta dada por Tomás de Aquino à questão 52 da Primeira Parte da Summa theologiae: apenas um anjo de cada vez pode dançar na cabeça de um alfinete... Volume VI - The Strand Model - A Speculation on Unification [idem, ibidem]. PAPINI E TOMÁS DE AQUINO Quando Umberto Eco realizou uma daquelas “entrevistas imaginárias” para o jornal italiano Corriere della Sera, quem foi que ele escolheu como o “entrevistado” da vez? Claro: Tommaso d’Aquino... Saiu numa edição especial, Note Bompiani, Milano 2005. E, depois, veio a Edizione Speciale per il Corriere della Sera [Milano, 2010; página 22, com nota biobibliográfica do Autor - Collana “Le interviste immaginarie”]. Por falar em Corriere della Sera, certa vez esse diário italiano fez uma previsão: um dos novos livros do escritor Giovanni Papini seguramente iria ser excomungado e colocado no Index librorum prohibitorum da Igreja Católica. Não era por menos: na nova obra, o desbocado anticlerical Papini considerava

santo Tomás de Aquino como protettore e presidiatore [protetor e defensor] de “todo o exército da ralé prepotente de nossa época”. Dizia, em seu italiano desabusado (não tema: a tradução vai logo a seguir!), arranjando “ótimas” companhias para o Doutor Angélico: “Tutti i posapiani dello spirito, tutti i pirronisti da tre un quattrino, i cacas­ tec­chi delle cattedre e dell’academia, i trepidi cretini imbottiti di pregiudiziali, tutti i casosi, i sofistici, i cinici, i pidocchi della scienza e i vuotacessi degli scienziati, infine tutti i lucignoli gelosi del sole, tutti i paperi che non ammettono i voli dei falchi, hanno scelto a protettore e presidiatore Tommaso.” [TRADUÇÃO LIVRE: “Todos os posudos figurões do espírito, todos os pirrônicos ou céticos que não valem um centavo, os pusilânimes das cátedras e da Academia, os bolorentos e ansiosos cretinos embebidos de preconceitos, todos os sofistas cheios de dedos e de nove-horas, os cínicos, os piolhos da Ciência e os limpadores de latrinas dos cientistas — em definitivo, todos os vagalumes fartos do Sol, todos os bobos que não admitem voos de falcão escolheram Tomás de Aquino como seu protetor e defensor”...] TENHA A SUMMA DE GRAÇA No segundo volume da Catholic Encyclopedia [Robert Appleton Company, Nova York, 1907, mas também disponível on line], William Turner nos explica que Tomás de Aquino usou o Grande comentário do filósofo árabe Averróis como modelo para seus próprios escritos, inclusive a Summa theologiae, sendo aparentemente o primeiro escolástico a adotar tal estilo de exposição das matérias. Se Você quiser encontrar gratuitamente o texto latino completo da Summa theologiae na Internet e em formato .html, procure este string no Google: “Corpus Thomisticum: Sancti Thomae de Aquino Summa Theologiæ”. A organização religiosa NewAdvent. org oferece, também gratuitamente e em hipertexto, uma tradução inglesa da Summa. Tudo ficará mais fácil se Você for para a Wikipedia em inglês e procurar os dois artigos principais: “Thomas Aquinas’ e “Summa Theologiae”. Aí vai deparar rico material, inclusive listas de palavras traduzidas (glossários), concordâncias e textos acessíveis em .txt, .pdf, .doc, .html etc. O portal SacredTexts também disponibiliza uma tradução inglesa da principal obra de Aquino — mas não é a única, em absoluto! Você também pode OUVIR a Summa traduzida em inglês, graças aos arquivos LibriVox de domínio público. O Project Gutenberg já está com a Primeira Parte traduzida, também para o inglês. E há novas traduções sendo providenciadas. EM OPOSIÇÃO A AQUINO

Quando se estuda a Filosofia Medieval (ou, melhor, as Filosofias Medievais, aí incluídos os pensadores árabes, judeus e de outra extração que influíram no pensamento europeu), o Aquinates desponta como o maior expoente da Alta Escolástica. Especialmente por conta de sua multiabrangente Summa theologiae, o portentoso sistema tomístico ainda hoje influencia os campos da Filosofia, Teologia, Metafísica, Ética e Filosofia Moral, Religião, Psicologia, Ciências Sociais em geral, Política etc etc etc. Não se pode considerar intelectual completo quem não se aplicar, pelo menos por algum tempo, ao conhecimento, mesmo perfunctório, da vasta construção filosófica empreendida pelo Doctor Angelicus com a precípua finalidade de — por intermédio de proposições lógicas, inteligíveis pelo pensamento racional — contemplar toda a vida espiritual, moral e teológica do ecúmeno católico de sua época, para isto tentando conciliar a contribuição de “santos pagãos” do gênero Aristóteles, Platão, Sócrates, Buda, Confúcio e outros. Estudar Tomás de Aquino, mesmo que não em profundidade, obriga-nos a conhecer um leque maior de filósofos: os demais portentos europeus ou não que o influenciaram, que a ele se opuseram, que foram por ele influenciados, que de uma forma ou outra participaram daquele amplo painel criativo que foram a Escolástica e a Patrística. No elenco dos filósofos que se opuseram às ideias de Tomás de Aquino, contam-se sumidades como o teólogo inglês Duns Scot, cognominado “o Doutor Sutil”, um dos mais brilhantes intérpretes da filosofia escolástica, como defensor do chamado “realismo”. Entre outras coisas, o Doutor da Igreja que fundou o Tomismo e escreveu uma espécie de enciclopédia filosófica do Cristianismo, a Summa theologiae, definia o primado da inteligência sobre a vontade, ao que se opunha Duns Scot. Combateram Aquino, entre outros, figuras como Durand ou Durandus de Saint-Pourçain (circa 1275-circa 1334), dominicano, teólogo e filósofo francês; e Lorenzo Valla (circa 1407-1457), humanista, educador e retórico italiano, que, entre outras coisas, provou pela análise textual que a chamada “Doação de Constantino” não passava de uma falsificação. Outro Tomás italiano, Tommaso Campanella, cita Aquino, em sua Cidade do Sol, a propósito do entendimento tomista de que a geração de novos indivíduos por um casal não subentende a preservação do indivíduo, mas da espécie. Por tudo isto, quem talvez mais vibrou com este presente (a coleção de Tomás de Aquino que ganhamos do Dr. Wilson Aquino) foi um de nossos filhos, o megaleitor e filósofo Vladymir Mariz-Nóbrega, que, nos estudos medievais, dedica Setembro/outubro/2016 |

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