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da Igreja e do Estado. Era mantido pelo poder civil, os professores funcionários públicos e o governo podia ter ingerência no regime da instituição. Foi o Seminário de Olinda que promoveu a Revolução de 1817 que sucumbiu com a ocupação do Recife pelas forças imperiais. O período de permanência de Ibiapina no Seminário foi curto e interrompido. Em 1823 retirase do Seminário e vai residir no Convento da Madre de Deus, voltando a Olinda somente em 1928. No dia 11 de agosto de 1827 foram criados os cursos Jurídicos de Olinda e São Paulo. O propósito seria proclamar uma segunda independência do Brasil dentro da concepção iluminista do Império das Luzes. Com a ajuda de amigos torna-se Bacharel em 1832. Nesse tempo surge uma nova classe na estrutura das elites dirigentes do País. Os bacharéis ocupariam o espaço dos clérigos na tomada de decisões. Após a conclusão do curso Ibiapina é logo comunicado de que seu nome fora enviado ao Ministério do Império com proposta de nomeação para professor de Direito Natural unanimemente aprovada pelos lentes da Faculdade em data de 10 de outubro de 1832. O Presidente da Província do Ceará propõe apresentar seu nome como candidato a Deputado Geral pelo Partido Liberal em 1833. O Presidente conhecia bem de perto a história de Ibiapina. Também candidato, elegem-se ambos. Antes de comentar o alcance político da visão de Ibiapina, preciso fazer referência a um episódio que parece ter influenciado seu nobre espírito sem que o afetasse na decisão ulterior de assumir o compromisso eclesiástico. Quando veio ao Ceará, logo depois de formado, Ibiapina demorou-se em sua terra por alguns

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meses de férias. Ao visitar a viúva de Tristão Gonçalves de Alencar, que fora, como seu pai, chacinado pela repressão aos confederados, foi recebido carinhosamente e ficou enternecido com sua tristeza e recolhimento. Voltando a freqüentar a casa encontrou graça na filha de Tristão, Carolina Clarence, por quem se apaixonou e propôs noivado que foi aceito. Comprometeu-se a voltar para o casamento logo após a posse na cátedra de Direito, em Olinda. Quando voltou ao Ceará, depois do evento, encontrou a cidade de Fortaleza sob uma onda de jocosa maledicência que teria, provavelmente, a intenção de toldar sua reputação. O fato é que Carolina Clarence, durante sua ausência, casou-se precipitadamente com um parente próximo com quem mantinha, desde antes, um namoro clandestino. Segundo um de seus biógrafos, Ibiapina suportou a injúria mantendo “silêncio obsequioso” sobre o fato, porém nunca mais voltou a falar em casamento. Dizse que, de certa forma o episódio concorreu para fortalecer sua vocação para dedicar-se ao serviço de Deus. Os que pretenderem acompanhar em detalhe seu itinerário político terão no livro do Cônego Sadoc, também cearense, uma cronologia histórica detalhada. Destaco apenas alguns tópicos que ficarão mais claros quando forem examinados aqui, a intervalos, junto com o papel de jurista que exerceu, quase simultaneamente, com o mandato parlamentar. Gostaria apenas de assinalar alguns aspectos importantes que pretendo resumir para atualizar a história e o personagem desse longo enredo de uma vida exemplar. Como político, foi um liberal moderado que só deixaria o discreto trabalho das comissões quando o impusesse a

defesa das justas causas do povo. Essa postura moderada foi considerada por alguns uma ingratidão face à memória do pai que lhe cobraria uma atitude política mais ousada. Acompanhou prudentemente, todavia, a crise do regime Feijó com a Igreja. Votou pela temporariedade da regência. Integrou a comissão que elaborou o projeto do Ato Adicional à Constituição de 1824. Quando se tratou de lidar com movimentos sediciosos, defendeu a atribuição ao Judiciário da competência para julgar responsabilidades, assegurada a ampla defesa dos acusados. O fato mais contundente de sua carreira parlamentar foi a proposta de sua iniciativa exigindo a substituição do Ministro da Fazenda, o cearense Manuel do Nascimento Costa e Silva, em virtude da prática de atos de improbidade no exercício do cargo. Na luta, adotou tal veemência que obteve a substituição do Ministro. Realizava assim sua convicção de que as autoridades prevaricadoras devem ser punidas. Aos 31 anos de idade, com um futuro promissor a sua espera, desistiu de continuar na vida pública. Penso que aqui posso encerrar esse breve discurso biográfico de Ibiapina enquanto político. Tudo quanto foi dito, entretanto, somente confirma a coerência e a fidelidade aos princípios de justiça que pervadiu sua existência sempre em busca do aperfeiçoamento. Essa busca demarcou seu papel missionário. Nenhuma avaliação da personalidade de Ibiapina pode ser obtida a partir do exame isolado de qualquer antecedente que tiver influenciado sua definitiva conversão. Houvesse ele assentido em permanecer como professor excelente de Direito e influente membro do alto clero arquidiocesano, após tornar-se padre, seu esforço

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