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TEXTOS E DOCUMENTOS QUE INTERESSAM À HISTÓRIA DA PARAÍBA

O CONFLITO DE CAMPINA2 Samuel Duarte

O SENHOR SAMUEL DUARTE (para uma comunicação) – Sr. Presidente, ainda repercutem no espírito público os tristes acontecimentos de que tem sido teatro a Paraíba, em face das violências criminosas praticadas contra a população inerme de Campina Grande e de outros atentados à liberdade dos cidadãos e aos direitos individuais. O Sr. Ernani Satyro – Permita V.Exa. um aparte. Os fatos da Paraíba serão suficientemente esclarecidos e a opinião pública brasileira verá então, esclarecida, ter sido o que se passa naquele estado provocado pela Coligação Democrática Paraibana, a que pertence V.Exa., coligação que temendo, como teme, o destino das urnas prepara toda sorte de perturbações para justificar a derrota que o povo livre e consciente da Paraíba lhe deverá inf ligir. Terei oportunidade de esclarecer suficientemente os fatos paraibanos, para que a nação brasileira veja com justiça e serenidade com quem está a razão. O SR. SAMUEL DUARTE – É irrisória a afirmativa do Sr. Deputado Ernani Satyro de ter havido provocação por parte dos elementos da coligação... O Sr. Ernani Satyro – Os fatos de Campina Grande, por exemplo, ocorridos no dia em que nós da Aliança Republicana realizávamos a nossa festa – por sinal a maior que já houve naquela cidade –, mostram, de modo suficiente, que não poderíamos ter interesse em promover perturbação de ordem, precisamente na data em que efetuávamos uma grande concentração cívica. Tal perturbação foi originada por uma passeata acintosa, realizada pela coligação, sem ordem da polícia, sem licença para comícios. O SR. SAMUEL DUARTE – Peço ao nobre deputado Ernani Satyro me permita continuar as considerações que vinha fazendo. O Sr. Ernani Satyro – Pedi permissão para apartear V.Exa. O SR. SAMUEL DUARTE – Consentirei nos apartes de V.Exa, mas depois de concluir o meu pensamento. Causa irrisão – repito – a afirmativa do nobre deputado Ernani Satyro, quando em todo noticiário, as informações das fontes mais O SR. SAMUEL DUARTE – Evoco, ainda, o apelo dirigido ao Sr. Ministro da Guerra por D. Anselmo Pietrulla, bispo de Campina Grande, para que essa alta autoridade militar

faça destacar ali elementos do Exército a fim de assegurar a ordem naquela cidade. O Sr. Ernani Satyro – Tenha V.Exa. a bondade de ler o documento, a fim de ver se ele afirma tratar-se de um ataque policial ou se foi um choque entre grupos exaltados de ambos os lados. O SR. SAMUEL DUARTE – Se a alta autoridade eclesiástica fez um apelo à Força Federal para que destaque em Campina Grande, é porque não existe confiança na polícia local e mais grave, nesta altura, é que o delegado de polícia, um oficial da Força Pública, ainda continue no seu posto, quando o primeiro dever do governo, pelo menos em satisfação à opinião pública estarrecida, seria afastar a autoridade suspeita, substituindo-a por elemento capaz de inspirar confiança ao povo. Sr. Presidente, ainda ressoam em nossos ouvidos os ecos dos tristes acontecimentos e chegam mensagens a respeito de violências noutros pontos do estado. O telegrama, que passo a ler, recebido pelo Sr. Ruy Carneiro, presidente da Comissão Executiva do PSD paraibano, é confirmado pelo deputado Tertuliano Brito e reza o seguinte: “Acabo de receber notícias Serra Branca... (Serra Branca é um distrito do município de São João do Cariri) ... de violências praticadas pela polícia contra nossos correligionários. Cidade cheia de capangas armados. Reina clima de terror. Acabo dirigir novo apelo governador, pedindo providências. Saudações Tertuliano Brito”. O outro despacho dá notícia da passagem pelo município de Pombal do que o signatário chama de “A caravana da morte”. O Sr. Ernani Satyro – “Caravana da morte” foi a que esteve em Areia. O SR. SAMUEL DUARTE – Quem diz é o signatário: Ruy Carneiro – R. Ouvidor 90. Comunico eminente conterrâneo Caravana da Morte pernoitou anteontem fazenda Osório Cabeludo, passando dia seguinte Pombal. Testemunham-se ali dentro automóvel, armas automáticas, bem como bolsa aberta, exibindo pacotes numerário. O Sr. Ernani Satyro – Isto é até irrisório, V.Exa. em vez de apontar um fato concreto, vem dizer que a caravana conduzia armas e pacotes. Caravana da morte foi a que passou em Patos, armada até de metralhadoras.

O Sr. Presidente – Atenção! Peço ao nobre deputado permita ao orador concluir suas considerações. O Sr. Ernani Satyro – A coligação está perturbando a ordem na Paraíba: não confia nos destinos das urnas e procura dar a impressão de um clima de insegurança no estado. A verdade deve ser anunciada a toda a nação brasileira. O SR. SAMUEL DUARTE – Consenti no aparte ao telegrama. O Sr. Presidente – Advirto ao nobre aparteador que a presidência tem muito prazer em lhe conceder a palavra, logo após o discurso do Sr. Deputado Samuel Duarte... O Sr. Ernani Satyro – Muito obrigado a V.Exa. O Sr. Presidente – ... por se tratar de questão de palpitante interesse para a política nordestina. O SR. SAMUEL DUARTE – Consenti no aparte ao telegrama que estou lendo. Continuarei, Sr. Presidente: Corre sangue, corre dinheiro. Componentes caravanas ostentavam acintosamente armas cinturas. Salve nossa estremecida Paraíba desta onda de cangaceiros e o nosso país das garras sangrentas deste bando selvagem – José Fernandes Vieira. Sr. Presidente, já tive oportunidade, desta tribuna, de fazer um apelo ao governador do Estado, traduzindo, nesse apelo, os sentimentos da população paraibana que aguarda providências enérgicas contra essa onda de violências criminosas. Ao mesmo tempo dirigi, em nome da minha bancada, apelo ao Sr. Presidente da República para que contenha o seu secretário nesta campanha, para que ele não estimule a prática de atentados à Constituição que nos rege: que tenha um pouco de consideração para com a sorte dos paraibanos ou os que limitam no campo oposto ao de S.Exa., pois bastou a presença do chefe da Casa Civil na Paraíba para que recrudecesse o ambiente de terror que está martirizando a minha terra. Estamos reunindo o dossiê de tudo que se relaciona com esses acontecimentos. Se as autoridades administrativas nos falharem com as garantias elementares que devem ser dispensadas aos nossos correligionários, bateremos às portas do Poder Judiciário, como último apelo, para que faça reinar o império da Constituição g no Estado da Paraíba.

Publicado no DCN, edição de 18 de julho de 1950, pág, 5514.

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Setembro/outubro/2016 |

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