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BIOGRAFIA RUMO À CAPITAL PARAIBANA Flávio Sátiro Fernandes

Esboço de um capítulo do livro em preparo Ernani Sátyro – Uma biografia Terminado o que hoje se chama ensino de 1º grau, Ernani teria de deixar a terra natal e seguir rumo à Capital paraibana, a fim de prosseguir os estudos. A cidade natal já lhe proporcionara o que tinha de oferecer, relativamente aos primeiros ensinamentos. A criança que até então jamais se ausentara dos Patos iria se afastar do lar e, notadamente, dos cuidados de Dona Capitulina, rígida no modo de educar os filhos, sem, contudo, abrir mão do carinho, da devoção, da dedicação que emprestava aos filhos, Ernani e Avani, além dos dois outros do primeiro casamento (Tiburtino e Firmino), sem contar o enteado e as enteadas, advindos do primeiro matrimônio de Miguel Sátyro (Emília, Antônia e Clóvis). Viu-se, pois, o pequeno Ernani na contingência de deixar Patos e fixar-se em João Pessoa para continuação de sua educação. A viagem de Patos a João Pessoa se fazia, àquele tempo, em carros particulares, pois, ainda não havia ônibus de linha, para usar uma expressão muito em voga naquela época e região. Só alguns anos após, apareceriam os coletivos de transporte de passageiros, as chamadas “sopas”, interligando as cidades do sertão a Campina Grande. Em Campina Grande era possível tomar o trem para a Capital ou prosseguir de automóvel. A ida de Ernani para a capital ocorreu em 1924. Como as perspectivas de inverno eram muito precárias, Miguel Sátyro ainda quis adiar, apelando para um melhor inverno, pois, conforme relatou, certa vez, Ernani Sátyro, “fazendeiro, naquele tempo, por mais bens que ele tivesse, era de uma vida dura, como ainda hoje é. O homem do campo, no Nordeste, está sujeito sempre às intempéries na natureza, às variações climáticas: ou a seca, ou o inverno”1. Mas Dona Capitulina foi incisiva: “Não; ele vai 1 2

de qualquer modo; com seca ou com inverno, ele vai. Nós temos aqui umas reservazinhas...”2 E assim se fez... Emblematicamente, a data fixada para a partida foi o dia 19 de março ou, mais caracterizadamente, dia de São José, em quem os sertanejos depositam as últimas esperanças de um inverno que tarda, mas que há de vir por intercessão do Patriarca. Nesse dia, Ernani, antes de tomar o rumo da Capital foi à Igreja Matriz, assistir à missa, em louvor de São José, em companhia do Major Miguel e de Dona Capitulina. Mal terminava o ofício religioso, uma chuva forte desabou sobre o pequeno burgo das Espinharas. Foi preciso esperar que o aguaceiro amainasse para que pudessem partir, em busca da cidade da Parahyba, como então se chamava a capital paraibana. Viajariam em um veículo Ford de bigode, de propriedade de Dionísio Cunha, que o conduziria. Além do Chefe político local e seu filho, estavam entre os passageiros o Sr. Francisco Lustosa Cabral, comerciante local, mais conhecido por Xixi Cabral e seu filho Nelson Lustosa Cabral. Xixi Cabral era filho de Manuel Romualdo da Costa o famosíssimo Manduri, notável por suas piadas, chistes e críticas irônicas, nos quais engolfava todo mundo, inclusive o Major Miguel. Nelson Lustosa Cabral seria, tempos depois, bacharel em direito, auxiliar de governo e escritor. Pertenceu à Academia Paraibana de Letras, juntamente com seu irmão Wilson Lustosa Cabral. Em relação a Nelson, releva salientar que ele foi um dos passageiros que, milagrosamente, salvaram-se do naufrágio do avião Savoia Marchetti, em que viajava também o Ministro José Américo de Almeida e em que faleceram o Interventor Antenor Navarro, o Diretor da Inspetoria de Obras Contra as Secas, Engenheiro Lima Campos, e um radiotelegrafista da Marinha que prestava serviços a bordo do avião sinistrado.

À porta de casa, Dona Capitulina, chorava e, num misto de alegria e de saudade, despediu-se do filho, abraçando-o e fazendo-lhe as recomendações próprias das mães: que estudasse, que se comportasse bem, que fizesse suas orações. Major Miguel apressava as despedidas, pois ainda tinham de pegar Xixi e Nelson, e compensar o atraso ditado pela pesada chuva que caíra, trazendo alegrias e esperanças para os sertanejos. Naquele tempo, gastava-se quase um dia no percurso Patos-Campina, no qual se leva, hoje, pouco mais de duas horas. Assim, era mais de meio-dia quando o carro de Dionísio chegou a Joazeirinho e todos foram almoçar no Hotel de Simeão. Depois dali, retomaram a viagem, com destino a Campina Grande, aonde foram ter por volta das dezoito horas. Naquela cidade, em frente ao Hotel Pernambuco, também conhecido por Hotel de Nozinho, situado na rua das Areias, hoje João Pessoa, onde iriam ficar hospedados, Miguel Sátyro e o filho despediram-se dos demais companheiros de viagem que, no dia seguinte, prosseguiriam de automóvel, enquanto eles tomariam o trem, com o mesmo destino. A viagem de trem foi, sem dúvida, urdida por Miguel Sátyro para propiciar ao filho essa novidade, e foi uma das tantas maravilhas que se abriram para o menino que saía, pela primeira vez, dos acanhados limites de sua cidade, para admirar-se com tudo que fosse capaz de provocar-lhe deslumbramento. Sentado próximo à janela do vagão, o menino se comprazia em ver a paisagem verde que surgia aos seus olhos. A composição atravessava os canaviais e outras plantações, dando ao pequeno viajante oportunidade de contato com paisagens bem diferentes das visões áridas do sertão paraibano. A locomotiva adentrava as pequenas povoações, parava nas estações, onde pessoas se comprimiam, umas esperando o momento de subir aos vagões, outras que

Depoimento, CPDOC. Idem.

Setembro/outubro/2016 |

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