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A transposição das águas do São Francisco era um dos temas que RCL trazia consigo. Juntamente com os senadores Waldeck Ornellas e José Agripino, a preocupação ronaldeana consistiu em acelerar providências pelas quais de há muito se batia o senador pernambucano Marco Maciel: Queremos, então, apelar para o Poder Executivo, no sentido de imprimir ritmo mais acelerado na discussão e tramitação do importante Projeto de Transposição do Rio São Francisco. Nenhuma ação concorrerá tanto para a concretização dos objetivos maiores do programa do Governo, de justiça social, de geração de emprego e de redução da miséria e das desigualdades quanto o Projeto Integrado de Transposição(4). Como a transposição não encerra(va) apenas pontuações técnicas e financeiras mas políticas, essa implicação não escapava a Ronaldo Cunha Lima: (...) ao mesmo tempo, queremos apelar às elites políticas do Nordeste para sua grande responsabilidade na condução desse projeto. O Nordeste tem pressa em superar suas deficiências básicas e em recuperar a distância e o atraso dos outros. É indispensável que cada Estado do Nordeste se convença de que, apenas unida, a região conseguirá progredir na velocidade do mundo de hoje, e de que o progresso de cada Estado nordestino repercutirá, positivamente, nos Estados vizinhos. UMA TEMÁTICA DIVERSIFICADA A circunstância de o senador Ronaldo se sentir à vontade em questões como enxugamento da máquina estatal e transposição do São Francisco evidencia sua versatilidade. Daí a diversificação da temática. Com efeito, sem quase faltar às sessões, repartiu a primeira secretaria da Câmara Alta com a frequência com que comparecia à tribuna. Tal o que lhe permitiu verter temas como maior e menor remuneração entre os servidores públicos, biodiversidade e desigualdades, ciência e tecnologia na Universidade Federal da Paraíba, Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), situação dos anistiados, exploração de petróleo no Brasil e Nordeste em face do Mercosul. E ainda, incentivos fiscais, prerrogativas do Senado Federal, indústria fonográfica, seguro desemprego e mercado de trabalho para deficientes físicos.

Alguns desses, tal a consistência, merecem consideração. O de 16 de março de 1995, abordando a disparidade de salários pagos aos servidores públicos do Brasil, onde a diferença chega a trezentas vezes, contra nove na França e três na Suiça, toca em um dos principais alimentadores de nossas desigualdades. Em face do problema, Ronaldo propôs limite de quarenta vezes a distância entre os maior e menor salários pagos no país(5). Para o Senador paraibano, as disparidades regionais também provinham do setor quaternário onde os dispêndios do orçamento da União e estatais concentram-se em mais de 50% no sudeste e menos de 10% no norte-nordeste. Corrigir tal desnível na área da pesquisa constituiu a principal recomendação do discurso de 10 de maio de 1995. Uma das preocupações de RCL residiu na intocabilidade da Petrobrás. Trabalhista convicto que, por essa razão, saudaria as obras do Presidente Vargas, na Tribuna do Senado, comunicou à Casa os entendimentos com a Presidência da República para que a Petrobrás não fosse privatizada, em nome da flexibilização do monopólio. A questão envolvia tal delicadeza que o representante paraibano a ela retornou, em 1996 e 1997(6). Pronunciamento dos mais oportunos foi o de junho de 1997, “sugerindo aos governadores do Norte/Nordeste e à SUDENE modificações urgentes na legislação que trata dos incentivos fiscais, para evitar que empresas instalem-se nessas regiões e após gozarem dos benefícios fiscais encerrem, em seguida, suas atividades”. Ele se referiu à Azaléia Calçados, de Campina Grande, que “(...) simplesmente resolveu encerrar as atividades, sem qualquer comunicação, como se isso não causasse transtornos sociais para a cidade, após o desemprego de quase 500 pessoas”(7).

tando, ainda, as taxas de analfabetismo e as modernas implicações do trabalho humano. Para o representante paraibano, sem embargo dos primeiros êxitos, o Plano Real não deveria constituir fim em si mas alavanca impulsionadora de programas de alcance social: A tese da procura incessante da estabilidade monetária como preferência excludente não nos parece apropriada para países com largos índices de pobreza e com uma economia tão diferenciada. É preciso que pari passu programem-se metas para uma visão mais ampla do desenvolvimento econômico. (...) O Brasil de hoje já não é o mesmo de 1990, e pode conviver, agora, com medidas concretas na área social, ao lado do proveitoso programa de estabilidade(8).

SOCIEDADE, RELIGIÃO E CULTURA Fiel às origens gremiais e trabalhistas, coube a Ronaldo Cunha Lima infletir, com firmeza, pela problemática social. Nesse particular, aplaudiu o Encontro Paraibano de Vigilâncias Sanitárias Municipais, realizado em Cajazeiras, analisou, em 1996, os dois anos do Plano Real, denunciou as ameaças que pairavam sobre a pecuária leiteira paraibana, e a situação dos servidores públicos comprimidos pela falta de aumento, comen-

Ao voltar-se para a Igreja da Teologia da Libertação, Ronaldo fazia a ponte com a cultura, inspiradora de discursos parlamentares sobre José de Anchieta, Carlos Castelo Branco, Castro Alves, Arnaldo Niskier, Cruz e Sousa e João Calmon. Se este último era ressaltado em prol da luta pela educação brasileira, e o catarinense Cruz e Sousa evidenciava-se, ao lado do mineiro Alphonsus Guimarães, como expoente do simbolismo, o jornalista piauiense fazia-se merecedor de emocionadas palavras(10).

Entrementes, a questão do trabalho, focalizada em publicações como a da jornalista Viviane Forrester e encíclicas papais, associava-se ao desemprego em face do qual o Estado não se deveria omitir. Ao assim tornar a posicionar-se, Ronaldo Cunha Lima não olvidava a posição da nova Igreja, datando daí pronunciamentos acerca dos arcebispos Dom Helder Câmara e Marcelo Pinto Carvalheira. Se o primeiro, ao completar noventa anos, era reverenciado como “Peregrino Evangelizador, Padre do Povo, revolucionário cristão, educador e também poeta” -, Pinto Carvalheira tornava-se encarado em perspectiva legitimamente Cristocêntrica, isto é, social: Na Diocese de Guarabira, Dom Marcelo soube enfrentar os problemas dos trabalhadores rurais e as questões, sempre presentes, dos problemas fundiários. A história da luta pela terra tem em Dom Marcelo uma expressão legítima na defesa dos oprimidos, com coragem e com equilíbrio, com firmeza e com prudência(9).

__________. “Ainda a questão das águas do São Francisco” in op. cit, p. 97. __________. “A relação entre a maior e a menor remuneração entre os servidores públicos”, 16-3-95 in A Seu Serviço I, cit., p. 16/19. (6) Pronunciamentos do senador Ronaldo Cunha Lima no Senado Federal, in 4 de agosto de 1995, 10 de julho de 1996 e 16 de julho de 1997. (7) “Incentivos Fiscais”, 3-6-97, in A Seu Serviço II – Atividade Parlamentar. Brasília: Senado Federal, p. 144. (8) “O Real e a necessidade de novas políticas de desenvolvimento”, 24-4-96, in A Seu Serviço II, cit., p. 68. (9) “Registro – A posse de Dom Marcelo Pinto Carvalheira como Arcebispo da Arquidiocese da Paraíba”, 23-2-96, in A Seu Serviço I, cit., p. 102. (10) “Homenagem ao jornalista Carlos Castelo Branco”, 22-6-95, in A Seu Serviço I, cit., p. 48 e “Parabenizando o Acadêmico Arnaldo Niskier por sua eleição para a presidência da ABL”, 12-12-97, in A Seu Serviço II, cit., p. 148. (4) (5)

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| janeiro/fevereiro/março/2015

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