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nio selvagem. A sua ascendência pessoal, nesse sentido, foi tanto mais viva quanto a nova geração o queria e admirava, como uma síntese que era, da força e da indulgência – as duas linhas verticais da Brasilidade. É, pois, para mim, um grande contentamento proclamar um ser tão nobre e comentar a imaginação, a suntuosidade verbal e a ternura lírica da sua obra literária. Se a vida de Luís Carlos foi tão edificante de bondade, a sua literatura não foi menos eloqüente de beleza. Para Luís Carlos nada existe sem uma razão de ser. Graças a essa simpatia por tudo, sua Musa é rica de imagens novas e imprevistas. A crítica dificilmente encontraria um livro, como Colunas, no qual a alma do Poeta e do Homem estivessem em tão perfeita correspondência. Luís Carlos mereceu da Fortuna, sempre tão avara para os artistas, esse equilíbrio quase providencial do espírito e do coração. Tudo em seus poemas é harmonia da razão e do sentimento, da idéia e da forma, da inteligência e do instinto. Vivendo numa hora tão atormentada e entre outras almas tão diferentes, a sua soube manter, inalterável e pura, a mesma poesia de nobre elevação, culto a estética da língua, amor à forma perfeita e paixão por todos os anseios da criatura humana no que ela tem de excelente nas idéias, nos sentimentos e nas exaltações magnânimas. A compreensão filosófica que tínhamos da vida era a de duas almas afins. Eu não posso deixar de recordá-la neste momento votivo. Toda a beleza espetacular do mundo visível, com o ritmo eterno das estações, com o múltiplo esplendor dos dias e a solitude misteriosa das noites, nada significaria para nós, se não fosse uma representação profusa do nosso espírito. Em si mesmas as coisas não têm realidade emotiva. É a sua correspondência com o cérebro e o coração que as torna interessantes ao nosso destino. Excluído da vida moral, que é uma volúpia do perfeito, o universo seria um grande nada. É nossa natureza imortal que lhe ausculta as forças latentes, estuda-as e compreende, como nas folhas de um livro de ilustrações, os signos vivos deste mundo. A poesia não está nas coisas, mas em nós. Só tem substância eterna aquilo que nós sentimos. É nisto que estão a nossa grandeza e a nossa miséria. E a Poesia é precisamente esse diálogo de esfinges entre o Homem e a Natureza. Pouco importa que os espíritos fáceis desdenhem dessas cogitações. Elas não são frutos da Vaidade. Como atribuir à vaidade a avidez de conhecer a vida para gozá-la em toda a sua

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| janeiro/fevereiro/março/2015

plenitude feliz? Esse desejo é a substância mesma de toda ideação. A ciência é ele realizado ou realizando-se no mundo das conjecturas, como a Arte e, especialmente, a poesia, é ele feito volúpia dos sentidos e do espírito, exaltação, desespero, arrependimentos, remorsos, fome e sede de santificação. É certo que hoje, mais que nunca, a humanidade parece entregue exclusivamente a paixões e a instintos de outra ordem. Mas notai bem que ela não é sincera. Pelo contrário. É uma fase de transição, que estamos passando nessa crise de alma humana, nessa paixão de riqueza material que faz da vida intensa uma tragédia de todo instante. Tanto é verdadeira esta impressão que os homens em sua generalidade pensam e sentem de um modo, agem e realizam de um outro. É o desacordo entre a consciência e os atos, impressivo sintoma de uma civilização incoerente. A vida não é, não pode ser essa obsessão do Rei Midas. Há interesses legítimos, como os há ilegítimos. Os primeiros não exigem, nem justificam a desarmonia entre os atos e a dignidade de seres livres e nobres. É essa noção do verdadeiro utilitarismo que o nosso século esqueceu. O que todos vemos, no geral, é a simulação e a dissimulação, ao invés de sentimentos equânimes e fraternos. Todo um sistema de pragmáticas e fórmulas desvirtua os intuitos e as aspirações superiores. Multiplicam-se, assim, as causas de aflições, os motivos de desgostos, e as almas delicadas têm a sensação de vazio num mundo alheio a todos os bons pendores e onde tudo é instabilidade, inquietude, angústia, vertigem, insatisfação. Por isso mesmo a nossa sensibilidade tomou proporções desconhecidas e a poesia de agora, a poesia moderna, tem acentos de profunda melancolia. O mundo, Senhores, é uma matéria plástica para a nossa imaginação. Trabalhá-la a camartelo, vivê-la na realidade impressiva das tintas, transformá-la nas retortas dos químicos, transfundi-la no milagre audível da música, estilizá-la como Flaubert, dar-lhe a eloqüência litúrgica das Basílicas e, na síncope do verso, imprimir-lhe o ritmo do próprio coração, – eis o grande dever, a nobre missão messiânica da Inteligência. A Graça divina não nos deu somente a Vida, mas também esse vasto cenário de maravilhas para a volúpia insatisfeita da nossa curiosidade. A virtude estética está precisamente em saber contemplá-lo e exprimi-lo. O poeta é uma voz íntima de tudo isso. É um temperamento autêntico, um revelador e um refletor do eterno. Para tanto

não lhe basta a maestria da composição. É preciso que esta lhe brote das estrofes animada da própria substância cardíaca dos ritmos... Como um ser vivo que é, se a sua composição não trouxer da gênese espiritual condições intrínsecas de seu próprio sangue, os versos não resistirão às vicissitudes do tempo. A finalidade do Poeta é imanente. Como os temperamentos são tantos quantos são os homens, a poesia tem necessariamente de apresentar múltiplos, indefinidos aspectos. É tão natural a poesia da dor como a do entusiasmo, como a de quaisquer outras efusões líricas ou dramáticas. Na Arte, como na Vida, não há hipocrisia impune. Iludem-se os intrusos que pensam confundir a multidão com uma angústia fingida ou que não tem raízes vitais em sua natureza imortal. Direi o mesmo dos temperamentos tristes que pretendem dissimular seu próprio psiquismo com uma efusão eufórica tanto mais débil quanto menos espontânea. Sem sinceridade é impossível comover, persuadir, exaltar. O artifício não dura mais que um minuto. Trai-se a cada instante. Pode, quando muito, criar fantasmagorias verbais. Nunca fará estilistas e, muito menos, poetas. Deslumbrará ingênuos ou leigos; mas será sempre vaidade, frivolidade, habilidade, invencionice. A poesia não é uma vaniloqüência e só aqueles que não são poetas, por fortuna ou infortúnio, poderiam julgá-la uma sublimidade ilusória. Há almas que vivem e morrem de êxtases e de enternecimentos. Como compreendê-las? Como defini-las? O que delas sabemos é somente o que têm de visível. Ignoramos, ignoraremos a sua verdadeira substância, que é um segredo inviolável para elas mesmas. Luís Carlos era uma dessas almas. Tudo conspirou para fazê-la plenamente feliz. Tê-lo-ia sido? Não sei. Para além da concepção egoística de felicidade há em certos seres eleitos carência absoluta de outros bens irreconciliáveis com as contingências planetárias. Também essas criaturas não são tão ingênuas que se recriminem ou culpem o mundo por serem tais. Preferem a resignação estoica à rebeldia estéril. Para elas, como disse Luís Carlos, o triunfo máximo está em florescer a frutificar em bondade e beleza, sejam quais forem as intempéries de cada dia. Pouco lhes importa o mais. Infelizmente a trepidação da vida raro permite que elas se mantenham na plenitude de sua espiritualidade. Daí, essa tristeza tácita, cuja causa obscura elas mesmas não percebem. Era o recôndito mal que Luís Carlos sentia e aceitava sor-

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