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CINEMA

PARA COMER COM OS OLHOS Andrès Von Dessauer

Uma cena doméstica, materializada no ato de amamentar, deu origem ao primeiro filme sobre gastronomia. Este flagra foi captado por um dos irmãos Lumiére, tendo como protagonista o pequeno Andrée Lumiére. A partir de então essa corrente, hoje, intitulada ‘food movies’, progrediu ao ponto de alcançar até a animação gráfica. Tanto é assim que, em ‘A DAMA E O VAGABUNDO’ um jantar romântico é celebrado entre caninos em volta de um prato de espaguete. De tão relevante, a alimentação está vinculada, intrinsecamente, à identidade do homem e a comida sempre foi um forte divisor de águas na estrutura social dos povos. Para ser mais preciso, basta apontar que a esmagadora parte da humanidade, come sem direito a opção, enquanto que uma pequena parcela pode escolher seus alimentos e, apenas um ínfimo grupo de pessoas se dá ao luxo de indagar-se sobre qual restaurante frequentar. Até o ano 2015 foram produzidas aproximadamente 150 importantes películas ligadas à gastronomia. Dentre essas vale destacar duas obras, que, parafraseando o título acima, pode-se dizer que são “PARA COMER COM OS OLHOS”. VATEL UM BANQUETE PARA O REI Quando o filme de Rolland Joffé, Vatel, abriu o Festival de Cannes no ano 2.000, as críticas amargas não pouparam nem mesmo o ator Depardieu, que no papel de Vatel, “chef de cuisine”, adoçou a corte do “Roi Soleil” por um creme por ele inventado: o Chantili. Apesar das críticas, no ano seguinte, a obra levou o César (Oscar francês) de “melhor filme de direção de arte”. A trama baseada em fatos reais se desenvolve no castelo que recebeu o mesmo nome do referido creme e que foi palco de inúmeras paixões e matrimônios entre aristocratas e “quase matrimônios” entre “não tão aristocratas” como o do Fenômeno Ronaldo (com quem mesmo?). Perseguindo o objetivo de cair na graça de Luís XIV e, assim, sair de um buraco financeiro, o Príncipe de Condé delegou

ao seu maître d’hotêl, Vatel, no ano 1671, a tarefa de orquestrar o que hoje podemos chamar de o primeiro “Cirque du Soleil” gastronômico da humanidade. O suntuoso banquete elaborado para uma comitiva de mais de 1.000 pessoas da corte francesa, se estendeu por três dias e três noites e, mais que saciar, tivera desde o início, a pretensão de extasiar aqueles convidados, combinando de forma surpreendente, sabor, beleza e criatividade, em um mesmo momento. Três séculos mais tarde essa incumbência delegada a esse ‘chef de cuisine’ resultou nesta película sobre gastronomia e paixão. No século XIX o filósofo alemão, Max Stirner, cunhou a frase ‘Der Mensch ist was er isst’ (‘O homem é o que ele come’). Subindo alguns degraus na escala social, afinal estamos falando da ensolarada corte francesa, faria sentido ajustar essa dicção para: “o homem não é apenas o que ele come, mas como come”. Sendo certo que a combinação entre comida, bebida e sensualidade instiga reações explosivas, o filme de Joffé vai além da exposição de pratos sofisticados e igua-

rias exóticas. De fato, comandar a elaboração, montagem e apresentação de um evento desse porte requer, além de muita sofisticação, uma logística apuradíssima e um conceito inovador de arte. Como a verdadeira nobreza não é monopólio de uma classe social, fica evidente que, a lealdade e a vontade de executar com perfeição sua missão fazem de Vatel uma pessoa mais nobre que qualquer aristocrata de berço. Não por menos, Mme de Sevigné, renomada escritora da época reconheceu e dissertou sobre as qualidades desse homem. Vatel se identificou tanto com sua missão que, ao vislumbrar a possibilidade do peixe fresco não chegar na Sexta-Feira-Santa, sentiu-se desonrado e seguiu a tradição dos royalistas japoneses, cometendo o haraquiri. Sendo, inclusive, esse ato final parte de um espetáculo que não pode parar. Até porque a corte, indiferente, em vez de apregoar: “Le Roi est mort! Vive Le Roi!” diria: “O Cozinheiro está morto! Viva o Chantili!”. DINNER RUSH Uma Receita para a Máfia De tão original o título ‘Dinner Rush’, utilizado no filme de Bob Giraldi (2.000), não conseguiu ser captado por nossos tradutores. A expressão “rush” já foi incorporada ao nosso vocabulário, quando nos referimos ao trânsito congestionado em determinadas horas do dia. Nesses termos, para a apreensão do sentido do título original, bastaria um pequeno esforço interpretativo do tradutor. Isso porque não é difícil perceber que a denominação inicial intenciona, por meio de uma reinvenção lingüística, descrever a extenuante tarefa de fazer com que, em uma única noite, mais de 250 pratos de alta sofisticação, venham a sair da cozinha em direção à mesa de uma exigente clientela. Não se sabe se o filme, no Brasil, foi rebatizado com o nome Uma Receita para a Máfia, por falta de capacidade de interpretação ou puro marketing. Mas, o importante é que essa rotulagem mal empregada não mitiga em nada a alta qualidade da obra. janeiro/fevereiro/março/2015 |

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