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os olhos mergulho em vossa calma/E longínqua alagoa policroma,/Tem-me o corpo a feição de erma redoma,/Porque me vai, dentro dos olhos, a alma! Ambiente, como se vê, de pura brasilidade. Foi inefável a sua influência na imaginação de Luís Carlos. Ele guardou, para o sempre, na retina e na alma, essa impressão de grandeza e serenidade. Enquanto nos centros intelectuais se discutiam escolas e se injustiçavam reciprocamente parnasianos e simbolistas, Luís Carlos se entretinha consigo mesmo e compunha os seus poemas sem outros cânones que os ditados pelos próprios estremecimentos íntimos. Identificado, por bem dizer, com a majestade daquele meio físico e com as doutrinas clássicas, a única forma que convinha às suas idéias e emoções era a tradicional. Entre os poetas, já então considerados mestres, preferiu Alberto de Oliveira e Augusto de Lima; o primeiro, por seu panteísmo imagético; o segundo, pelo surto haekeliano da imaginação cósmica. Também os dois luminares do Verso souberam estimar o discípulo amado. O primeiro, o Príncipe dos Poetas, disse-lhe em carta: – “Seus versos, como as rimas, não cedem em lavor aos mais apurados. Se o tempo, consoante autorizado juízo, não respeita senão as obras em que entra como colaborador, estas Colunas, lavradas com tanto desvelo, não são das que facilmente se derrocam; se tal se desse, até as pedras, as preciosas e sonoras pedras que as formam, clamariam contra o atentado.” O segundo, cuja memória estará sempre viva neste Cenáculo, pelo impressivo e imprevisto dos seus arroubos panteístas, não foi menos eloqüente: – “Poeta de grande estro, servido por uma imaginação privilegiada, conhecendo bem a língua e sabendo tirar dos temas mais simples os efeitos mais comoventes, o Sr. Luís Carlos tem já pronto um formoso livro a que deu o título de Colunas e em que há versos de uma grande beleza interior e modelados com perfeita maestria.” Não obstante o seu culto por esses dois nomes gloriosos, Luís Carlos tem expressão própria, como todo verdadeiro artista. Nela é que está o cunho da inteligência ou da sensibilidade pessoal. A expressão poética é a fisionomia da nossa alma. Na poesia, como na Música, a faculdade inventiva é tão interessante ou menos que o processo verbal, com seus arranjos e combinações prosódicas, suas alegorias e símbolos, suas cadências e ritmos. É ela que comunica a quem lê ou ouve a mesma disposição lírica em que o poeta concebeu e viveu intima-

mente o seu poema. Desde que o verso produza o milagre dessa consubstanciação lírica, isto é, se imponderabilize com a idéia ou com o sentimento que queria transmitir a outrem e consiga transmiti-lo, não vejo como diferençar o pensamento da sua plasticidade expressional, ou seja, a idéia da forma; pois transmitimos nossa emoção a estranhos tal como a havíamos recebido e desejávamos que eles igualmente a compreendessem e sentissem como nós. Parece, pois, que aquela distinção é mais teórica que real e só tem personalidade estética quem é capaz de se objetivar distintamente, individualisticamente. O autor de Colunas, Astros e Abismos e Amplidão satisfaz, como raros, essa condição ingênita a toda obra de arte realmente duradoura. É, por suas faculdades líricas de ideação e estilização, um poeta autêntico. Mereceu a consagração dos críticos, da imprensa, da elite espiritual das duas últimas gerações. Mereceu-a, porque tinha emocionalidade inata e sabia comunicá-la. Sua lira foi bem um septicórdio. Quando quer, orquestra estrofes sonoras e vivas como um brasileiro, estrofes cujos efeitos prosódicos dão a impressão cromática do calor de verão dos meios dias tropicais. SERTÃO A canícula escalda... Espadanando adusto/No espaço os raios crus, relumbra, a pino, o fausto/Do Sol. A terra esturra... O vegetal, exausto,/Se estorce, sopesando a ramaria a custo!/Alastra o amplo deserto a estagnação de um susto./Algares e álveos nus soltam, na ânsia de um hausto./O bafo bochornal, que exsica o solo infausto./Tudo estarrece, ao sol, num sofrimento augusto!/ Um boi galgaz estrinca, ao longe, a agra caatinga./Numa heróica ilusão, vingando todo o estorvo,/Em busca de um marnel, onde água, enfim, distinga!/E por sobre a amplidão do panorama torvo,/Num sarcasmo feral, porque o sol já se extinga,/Surge a noite à feição de um formidável corvo! Quando é outra a sua emoção, este mesmo aguafortista se transfigura no pintor das tardes brasileiras, em cujas perspectivas seráficas parece que o desmaio das claridades tem melancolias a Schumann. Sossego... Hesita o Azul... Timidamente,/Vésper espia, no alto, e, embaixo, espia,/ Agonizando atrás de uma vertente,/O Sol, entre os troféus finais do dia.../Seguindo o rubro funeral do poente,/A sombra alastra a Altura... O tempo esfria./Vibram, pelo ar,

as coisas sutilmente//Uns vagos sons de estranha melodia.../Calma... Já pela síncope do ocaso/O dia apenas transparece raso./ Espessa, a noite cerra-se e flutua.../No espaço há um calafrio rutilante.../Calma... Como um suspiro do levante,/Entre silêncios vem surgindo a lua... Qualquer das cordas do seu instrumento produz a mesma encantação. Nesta encantação Luís Carlos teve momentos de pura extasia. A sua intuição de poeta apreende, aqui e ali, motivos, cuja beleza realiza com imagens ou analogias inéditas. São verdadeiras criações. Para o seu impressionismo há sempre combinações imprevistas no mundo sensível. Sabeis, meus Senhores, que a razão conhece o mecanismo lógico dessas combinações ou correspondências; porém, somente a curiosidade intuitiva pura e divinatória do poeta entrevê ou julga entrever essas afinidades esotéricas das coisas. Não só das coisas consideradas objetivamente, mas das suas relações com a nossa imaginação criadora, em cujo espelho interior como que tudo se reflete, integrando-se à pura espiritualização. Para interpretar e exprimir esses estados de alma é que os poetas se servem de processos indiretos, sugestões, imagens, metáforas. A metáfora é uma ênfase lírica. Só as almas reférteis de beleza, cheias de graça, isto é, de sensação imediata e de visão instantânea, conhecem esses recursos mágicos de dizer os seus enternecimentos imortais. Para elas cada palavra já é, em si mesma, uma metáfora, senão uma entidade móbil e múltipla nos efeitos de sua significação musical e léxica. É um poeta, e verdadeiro, todo aquele que tem esse dom evocador, revelador ou criador de metáforas – dom que a cultura pode aprimorar, mas que só os deuses conferem. Luís Carlos tinha essa riqueza de metáforas, conseqüência de um temperamento exuberante. Tinha-a nos livros de versos, como nos outros. No prosador de Encruzilhada e do Rosal de Ritmos há toda a floração verbal do poeta de Colunas, Astros e Abismos e Amplidão. O seu estilo é um só. A imaginação é sempre a força dominante no desdobramento dos assuntos. A cor, o som, a luz e a sombra são inerentes à visualidade tropical de Luís Carlos. Para ele, escrever é, antes de tudo, impressionar. Não resiste à eloqüência que Deus lhe deu. O escritor é um pintor. Sua pena é uma paleta e prefere a imagem ao desenho, o esplendor do vocábulo à seqüência fria do raciocínio. Para ele, a emoção é que convence, é que interessa, é que persuade. Para ele o que orienta a inteligência criadora é o sentimento, origem e fim de toda janeiro/fevereiro/março/2015 |

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