Page 48

Luís Carlos, sucessor de Alberto Faria e o último laureado desta Cadeira, na ordem do tempo, foi também o único que lhe deu a glória da Poesia. Quis a vossa magnanimidade que participasse eu nessa glória, sucedendo-o. Quis ainda o Destino que fosse Adelmar Tavares o meu paraninfo nesta noite constelada de sonhos vivos e mortos, como a sua “Noite Cheia de Estrelas”. Rendo graças aos deuses por me haverem proporcionado a ventura de ser conduzido pelo Caminho enluarado dessa alma peregrina à serenidade grave e sábia da vossa Companhia. Impõe-me a nobreza do motivo por que me preferistes um duplo reconhecimento: – o do poeta que porventura vos pareceu plausível e o do homem que a boa fortuna identificou, por longa estimação e admiração recíprocas, àquele de cujo elogio posso vos dizer com Fagundes Varela: “Qualquer o fará mais belo. Ninguém tão d’alma o faria!” Ninguém, sim; porque ninguém conheceu tão de perto Luís Carlos nas suas qualidades e nos seus defeitos, – se são defeitos os excessos das qualidades. Uma vida é a projeção de uma alma no Mundo. Para bem conhecê-la é necessário, inda que sucintamente, considerar-lhe as contingências biológicas e as circunstâncias eventuais do desenvolvimento. Umas e outras, felizmente, não foram desfavoráveis a Luís Carlos. Era um belo tipo de homem, cujas tendências espontâneas uma boa educação soube orientar desde a infância. A educação, no meu modo de sentir, não tem maior conseqüência se o indivíduo, chegado ao estado de compreender, não submete à vontade própria as predisposições inatas. A vontade é que é a base física ou psíquica de nossas virtudes. Filho de um casal ilustre, – Dr. Eugênio Augusto de Miranda Monteiro de Barros, e dona Francisca Carolina Werna da Fonseca Monteiro de Barros, – Luís Carlos nasceu e criou-se num ambiente propício ao desenvolvimento daquela distinção pessoal e daquela nobreza de idéias que o sagraram um doutor da gentileza. Os seus pais participavam da intimidade da família imperial, e todos nós sabemos quanto era, de fato, uma verdadeira elite a alta sociedade dos últimos tempos do Império. O Conde de Afonso Celso, um dos mais notáveis sobreviventes desse período ilustre da nossa vida cultural, fez interessantes revelações, a propósito dos ascendentes de Luís Carlos, quando manifestou o seu pesar nesta Academia, pelo prematuro desaparecimento do poeta. Ouçamo-lo:

48

| janeiro/fevereiro/março/2015

Durante longo prazo a família dos pais e avós de Luís Carlos, então na infância, habitou prédio contíguo ao da família paterna do orador, que, mais velho do que ele vinte anos, o conheceu e apreciou desde criança – e que linda criança ele foi! O avô, de quem adotou integralmente o nome, – o Dr. Luís Carlos da Fonseca, – era mineiro, como o pai do orador, o Visconde de Ouro Preto, e, como este, senador do Império pela Província de Minas Gerais. A avó, filha da Condessa de Belmonte, camareira mor do Paço Imperial, e a quem foi confiado o futuro imperador D. Pedro II, quando nasceu, e sua professora de primeira instrução e educação, fazia versos encantadores, mas só os mostrava aos íntimos. Uma das irmãs dele, senhora exemplaríssima, esposou o hoje almirante Pedro Cavalcanti de Albuquerque, querido amigo do orador. Foram das mais estreitas as relações entre os dois lares vizinhos. Menino ainda Luís Carlos, a mãe dele, também notável, como seus ascendentes e a sua prole, pela inteligência e virtudes, companheira de infância e particular amiga da Princesa Isabel, a Redentora, enviou ao orador algumas composições poéticas do filho, indagando em carta: “Diga-me, com franqueza, se lhe acha jeito para a poesia, como o de mamãe.” Respondi que os versos me pareciam magníficos para a idade do poeta, a quem augurei fulgente destino social e literário. O delicado documento de carinho maternal entreguei-o a Luís Carlos, quando ele entrou para a Academia e ele mo agradeceu chorando. O orador evoca estas reminiscências, para outros insignificantes, mas para ele caríssimas, no intuito de comprovar que o prematuro desaparecimento de Luís Carlos não só o confrangeu no caráter de homem de letras, seu irmão espiritual na Academia, como ainda lhe feriu fibras profundas do coração que lhe dedicava um afeto algo parecido com a ternura e o desvanecimento paternais. Nasceu poeta, como se vê, o futuro autor de Colunas. Não só nasceu poeta, como teve a fortuna de contar um irmão poeta, e dos melhores líricos da época, Francisco de Paula Monteiro de Barros. Os excessos românticos criaram, entre as famílias, uma espécie de terror supersticioso contra a Poesia e os pais usavam de toda autoridade no preparo dos filhos para as vicissitudes quotidianas. É possível que, por este motivo, Luís Carlos se voltasse exclusivamente para o seu curso de engenheiro e só muitos anos depois reatasse, de novo, o ritmo de sua vocação literária. Durante essa longa ausência, as Musas não se teriam molesta-

do com as Matemáticas? As primeiras eram uma vocação; as outras uma contingência. Mas todos nós temos que obedecer a essa contingência e nem por isso precisamos renegar os impulsos estéticos de nossa natureza. A vocação, sendo inviolável, não vacila e os obstáculos, na maioria das vezes, a estimulam. Luís Carlos é uma prova do quanto a vocação pode aproveitar até mesmo a riqueza técnica, amoldando-a aos seus fins. DESTINO CÉLERE As energias do meu ser congrego-as/ No anseio de furtar-me a vãs demoras;/ Segundos, para mim, minutos e horas/São metros, são quilômetros, são léguas.../Pautam-me a vida os trilhos como réguas,/Por sobre cujas féveras sonoras,/Dias e noites, vésperas e auroras,/Jungido ao trem, vivo a correr sem tréguas.../E, enquanto, assim, desgasto a argila impura/Em terra, sinto em mim que, mais aflito,/O espírito, buscando o ideal na altura,/Sobre o alado corcel do velho mito,/Num galope fantástico procura,/Através do infinito outro infinito... Logo depois de formado e iniciado em sua carreira pública, passou ele a exercer as suas funções no Estado de Minas. Estava em plena primavera de vida e de coração, graças a um casamento feliz. Essa existência pura e tranqüila favoreceu-lhe o aperfeiçoamento profissional e a cultura geral do espírito. Favoreceu-lhe principalmente a comunhão ou, antes, a união emocional com a Natureza. O ambiente não podia ser melhor. Minas é um milagre de horizontes espetaculares para o olhar, e para o espírito, toda uma evocação de dramaturgia histórica. É sempre o mesmo desafio à volúpia mirífica da visão que se multiplica e amplia com a variedade telúrica dos seus aspectos e a fascinação de lanterna mágica dos seus céus cromatúrgicos. É sempre a mesma sugestão cívica para quem lhe recorda os lances de heroicidade sangrenta em holocausto à vitória, inda que tardia, da nossa libertação política. HORIZONTES Horizontes vastíssimos de Minas/– Volúpia eterna dos contempladores,/Vibram, na transfusão de vossas cores,/Claras sonoridades matutinas./Sois formados, talvez, de sensibilizada/Contextura sutil de pétalas cheirosas,/Porque em vós se pressente o olor que a madrugada/– Borboleta do Céu espiritualizada –/Com dois raios de sol, como antenas radiosas,/Dissolve nos jardins, desabrochando as rosas!/Quando

Profile for joaodamasceno

REVISTA  

GENIUS 9

REVISTA  

GENIUS 9

Advertisement