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CIÊNCIA POLÍTICA

A POLÍTICA PARAIBANA NA VISÃO DE UM CIENTISTA POLÍTICO FRANCÊS Renato César Carneiro

A IMPORTÂNCIA DAS ELEIÇÕES PARA A HISTÓRIA DE UM POVO A geografia eleitoral, como área da ciência que investiga uma sociedade localizada em determinada zona territorial, só foi iniciada, no Brasil, na década de 1950 e, o mais importante, na Paraíba, a partir da análise de dados empíricos da dinâmica e contraditória realidade política paraibana. Partidos políticos, lideranças políticas, disputas eleitorais, legislação eleitoral e outros fatores que compõem o intrincado jogo político das eleições da Paraíba, foram objeto de pesquisa, no ano de 1952, de um jovem bolsista do Instituto de Ciências Políticas de Paris, Jean Blondel. Blondel é o que podemos chamar de um brasilianista.1Ele analisou o nosso sistema eleitoral brasileiro, tendo sido a real politik da Paraíba o campo propício para a observação e formulação de suas ideias sem de dar conta de que, anos mais tarde, o seu trabalho seria incluído no rol das obras clássicas da Ciência Politica nacional. Antes da publicação de As Condições da Vida Política no Estado da Paraíba, produção científica de referência na avaliação comparada das instituições políticas franco-brasileiras, o Brasil havia registrado apenas cinco obras, também consideradas clássicas e que buscaram explicar o regime representativo brasileiro, a saber: 1. O Sistema Eleitoral do Império (1848), de Francisco Belizário Soares de Souza; 2. Dois Escritos Democráticos e Sistema Representativo (1868) e Reforma Eleitoral (1874), de José de Alencar; 3. Democracia Representativa – Do Voto e do Modo de Votar (1893), de Joaquim Francisco de Assis Brasil; 4. Eleição

e Representação (1931), de Gilberto Amado e, por último, 5. Coronelismo, Enxada e Voto – o município e o regime representativo no Brasil (1949), de Victor Nunes Leal. Essas publicações ocorreram em três momentos distintos da História Política nacional: as obras de Francisco Belisário Soares de Souza e de José de Alencar se deram durante a fase Imperial; os escritos de Joaquim Francisco de Assis Brasil e Gilberto Amado foram publicados, respectivamente, no início e no fim da primeira fase republicana e, finalmente, os escritos de Victor Nunes Leal foram editados em 1949, portanto, três anos antes da chegada de Jean Blondel em terras brasileiras. A pesquisa realizada em solo tabajara garantiu a Blondel a graduação no Institut d’Etuds Politiques de Paris, em 1953. A partir dela, tem-se início uma das mais ricas produções científicas do século XX a respeito do regime representativo, colocando o seu autor no rol dos grandes nomes da Ciência Política do século passado, no mesmo patamar de Giovanni Sartori e Maurice Duverger. Mais que isso, Blondel se tornou um dos precursores da Sociologia do voto, no Brasil. A PASSAGEM PELA PARAÍBA E O SEU LEGADO: O BLONDEL QUE CONHECEMOS Utilizando o método comparativo, (o mesmo que o consagrou no campo da Ciência Política), Blondel foi pioneiro nos estudos dos nossos costumes políticos. 2 O objetivo de seu trabalho, conforme ele próprio registrou, era dar um exemplo de uma vida política tradicional, em contraste com

os estados da região do Sul do Brasil. A análise científica, publicada inicialmente em 1957, no clássico As Condições da Vida Política no Estado da Paraíba, tornou-se obra inaugural da Sociologia eleitoral urbana brasileira, segundo o historiador José Octávio de Arruda Mello e antecipou os mesmos resultados aos quais chegou, alguns anos depois, o professor Orlando M. Carvalho, embora por outros caminhos da estatística, ressaltando na análise blondeliana as contradições e a fase de transição da política brasileira, experimentada no início da segunda metade do século XX, em que os chefes rurais e tradicionais começaram a ser substituídos pelos chefes urbanos.3 Nesse estudo sobre a política da Paraíba, Blondel elogiou a originalidade da nossa legislação eleitoral (na sua ótica, um misto de escrutínio uninominal4 e de representação proporcional) e do nosso sistema proporcional, comparando ao sistema francês que, até àquela época, adotava o sistema de listas, antecipadamente preparadas pelos Comitês Diretores dos partidos políticos. O cientista francês acusou a liberdade do eleitor paraibano, principalmente o da zona rural, e chegou a apontar alguns erros existentes nos nossos métodos de alistamento e de votação, abertos às fraudes de toda ordem. Registrou, ainda, a ausência de ideologias dos nossos partidos políticos, cujos programas significavam apenas estratégias para alcançar o poder. Dentre os quinze partidos existentes na década de 1950, no Brasil, destacou o caráter aristocrático do PSD e da UDN e a feição monárquica do PTB e do PSP. O eleitorado rural daquele período, tam-

A referida expressão é um neologismo que já foi incorporado ao DICIONÁRIO DO AURÉLIO e serve para designar o estrangeiro que se especializa ou estuda assuntos brasileiros. Em 1967, o historiador José Honório Rodrigues chegou a resenhar em uma de suas obras – Estudos Americanos de História do Brasil – textos e publicações norte-americanas acerca da América Latina e, particularmente, sobre o Brasil. Jean Blondel, a exemplo de Thomas Skdmore, este último autor de duas obras de referência da politica nacional (De Getúlio a Castelo e De Castelo a Tancredo), são exemplos de brasilianistas. Skidmore, historiador norte-americano, chegou a criar nos EUA, junto com outros autores norte-americanos e especialistas em assuntos brasileiros, uma fundação que reuniu professores e intelectuais, surgindo daí o neologismo brazilianist. 2 Na introdução de As Condições da Vida Política da Paraíba, Blondel afirma: “No decorrer da rápida viagem que fiz ao Brasil, no verão de 192, para estudar a vida politica, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais de perto um destes Estados, - Paraíba, aliás, Paraíba do Norte. Pude estudar, então, de modo bastante continuado, o comportamento político dos homens.” (in Op. Cit., p. 12). 3 Orlando M. Carvalho, prefácio à segunda edição, p. 08. 4 Segundo Blondel, o sistema é uninominal porque cada eleitor vota num só candidato, e nunca por lista; ao mesmo tempo, o sistema é proporcional porque vários partidos apresentam vários candidatos, tantos quantos são as vagas e a divisão delas se faz pelo número de votos obtidos por todos os candidatos de um mesmo partido (in As Condições da Vida Política no Estado da Paraíba, p. 25-26). 1

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| janeiro/fevereiro/março/2015

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