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Prova Final realizada sob a orientação do Arquitecto Gonçalo Furtado. Estágio realizado entre Dezembro de 2003 e Maio de 2004 sob a responsabilidade do Arquitecto Luís Costa Maia.


AOS MEUS PAIS E AVÓS Um MUITO OBRIGADO a todos os “meus” VIP’s (sem os quais esta prova seria impossível). Um agradecimento especial aos Arquitectos Gonçalo Furtado e Luís Costa Maia.


Índice

0. │ Abstract

I

1. │ Introdução

1

2. │ Da cidade à nova referenciação

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2.1. │ Da cidade à experimentação

8

2.2. │ Urbanidade: da transitoriedade à nova referenciação

17

3. │ Da revolução à queda: para um enquadramento económico social

23

4. │ “Tendências Alternativas”

33

4.1. │ CIAM vs. TEAM X

34

4.2. │ Tendência para as tendências

38

4.3. │ Uma tendência para a “Tendência”

42

5. │ Das “Tendências Alternativas” à Contemporaneidade

47

5.1. │ O legado das “Tendências Alternativas”

48

5.2. │ Das Utopias ao Real: Rem Koolhaas

52

6. │ Operatividade

63

6.1. │ Público vs. Privado

64

6.2. │ Gentrificação

67

6.3. │ Imagem

69

6.4. │ Novas tecnologias e mobilidade

72

6.5. │ Caso Português

75

6.6. │ Planeamento

79

7. │ Notas conclusivas

85

8. │ Bibliografia

91


0. │ Abstract

Nas últimas décadas as mutações no tecido urbano têm-se sucedido. Os territórios metropolitanos estenderam-se para lá das periferias, conformando mosaicos e tornando as cidades mais integradas e mais descontínuas. A condição urbana contemporânea é hoje diferente. Requer que se atentem a fenómenos físicos e performances sociais, avançando novas cartografias conceptuais, aqui desenvolvidas em torno da noção de “urbanidade pivot” (que visa entender a concepção arquitectónica com o urbano contemporâneo). Numa primeira parte procuramos reflectir sobre aspectos significativos da cidade. Faremos referência, com base em autores como Mumford, Benevolo, Certeau, Augé, Ignasi ou Montaner, às dimensões dialécticas física e social, com as suas temporalidades, cuja conjugação permite abordar a identidade e identificação (da cidade e indivíduo). Identificamos Lugar como Espaço praticado no presente e como dimensão da sedimentação histórica. Abordamos também a questão de Lugar e Não-lugar, identificando várias layers de cidade associadas ao tempo da história e a performances sociais e mutações do presente. Depois focamos a globalização vendo como essa tranformou a percepção da cidade e noção de colectivo e individual. Simultaneamente o fenómeno exponencial de novas mobilidades e da figura do fluxo criam na cidade uma ruptura que frequentemente dificulta a identidade e identificação. Associamos a emergência da nova cidade a dois fenómenos: a alteração da percepção do tempo e o abalo das grandes narrativas (fruto da aceleração da história e da acentuação das individualidades). Conjugando as definições supracitadas propomos a ideia de “urbanidade pivot” para compreender a cidade contemporânea enquanto composto de layers e temporalidades, correspondendo a primeira não a algo radicalmente novo, mas como dimensão-complexificação do existente. Numa segunda parte, com base em Soja, Varnellis, Lefebvre, Castells e Harvey, e tendo em conta este tema de estudo, avançamos um possível enquadramento delimitado por dois momentos da história recente: os distúrbios de Maio de ‘68 e a queda das Twin Towers em 2001. Aí ocorreu uma profunda reconfiguração da percepcãocartografia do urbano. No primeiro ocorre uma redefinição de mercados, sistemas de interpretação da realidade, e da arquitectura e urbanismo. Adivinhou-se um momento de viragem inserido numa “terceira fase de crise social”, que esteve associada ao “Pós-fordismo”. Por outro lado, “desaparecimento” das Twin Towers “representou” o fim do representativo-figurativo, resultado da inovação da relação entre consumidor e objecto consumido.


Abordamos as “Tendências Alternativas” que, ao reflectir sobre o Moderno, não deixam de funcionar como crítica positiva para a sua reformulação e fornecem mecanismos de reflexão acerca da urbanidade contemporânea. Nomeadamente os Team X, com a preocupação pela espeficidade do indivíduo, e outros movimentos experimentais que buscaram outras raízes para a cidade, por vezes abandonando a referencialidade, por vezes forçarando uma urbanidade pivot (de forma distinta ao que propomos, isto é, como layer e sedimentação). Estes movimentos experimentais, em destaque com a exposição-manifesto Super-

architettura, aceitaram os princípios da “superprodução” e procuraram uma maior relação do indivíduo com o seu meio. Depois avançamos para a contemporaneidade analisando criticamente a perspectiva urbana de Rem Koolhaas. Inspirado nestas “Experiências”, realiza um percurso pela evolução urbana das últimas décadas. Em particular tomamos um conjunto de temas que nos merecem reflexão de análise da condição contemporânea. Como a globalizacao , o genérico, a monumentalidade e os junkspaces, que servirão de base para a reflexão contemporânea. Numa última parte procuramos uma postura pessoal face ao projecto de Arquitectura e Urbanismo contemporâneo, transpondo a base cartográfica e noção de urbanidade pivot ao território próximo. Sequencialmente equacionamos um conjunto de apontamentos acerca de várias questões contemporâneas sobre a cidade que se nos afiguram importantes. Nomeadamente a construção dos espaços públicos, sua privatização e interiorização, tendo em vista a sua importância na cidade e sua influência no social. Associado a estes fenómenos de dispersão e fragmentação de espaços, tentamos compreender, com base em Lynch, as transformações no fenómeno de percepção da cidade e o papel da imagem para o individuo-colectivo. Com referência em Gianetti, Furtado e Portas, rapidamente vemos, o papel estrutural de inovações tecnológicas no espaço-cidade para a performences social-urbana actual. Num último momento, com base em Mendes, Portas e Távora, reflectimos acerca do panorama urbanístico nacional, forma como se desenvolve e organiza, e das possibilidades actuais de planeamento urbano. Tendo em conta os planos e a sua regulação procuramos perceber o impacto das mudanças anteriormente referidas no panorama Português. Em jeito de conclusão, propõe-se que a urbanidade pivot que identificamos sempre tenha existido sob variadas formas. Sobretudo no período observado. A nosso ver a “cidade pivot” varia consoante as temporalidades. Como o Não-lugar, não persiste, correspondendo mais a um estado transitório. Ou melhor dizendo, não existe apenas uma “urbanidade pivot” e, como corolário, uma forma única de projectar sobre ela. Antes várias que correspondem à medida do tempo com que são concebidas pelo indivíduo.


I

urbanidade pivot: da transitoriedade à sedimentação│prova final para licenciatura em arquitectura│FAup│2004.2005│João Carlos de Almeida e Silva


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CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO

1. │ Introdução

OBJECTO

Actualmente, o fenómeno de construção do urbano tem-se vindo a complexificar, muito pelo resultado de um processo de acumulação ou extensão, diferenciação ou complexificação verificado no território urbanizado. Tal processo fragmentou o espaço-cidade tornando-o difuso, composto tanto de transformações como de sedimentações, de modo a assegurar a coexistência de identidades sociais e temporalidades físicas diversificadas. Sendo a condição contemporânea de enorme importância para o trabalho do arquitecto, a escolha do tema da presente dissertação prende-se com as relações entre a transitoriedade dos devires futuros e a sedimentação de temporalidades passadas. Estas relações, não formulando uma zona claramente delimitada, representam as várias possibilidades de convivência entre as diversas identidades e temporalidades no constante presente. Tal convivência de temporalidades tem analogia na dimensão individual e colectiva da cidade, reformulando-a interactivamente. OBJECTIVO

Esta dissertação tem como objectivo encontrar um território “entre”, expresso nesta dissertação por “pivot”. Pensamos que essa característica “pivot” permite analizar as possíveis relações entre as sedimentações históricas da cidade e as transformações motivadas pelos desejos futuros, sempre em devir. Podemos distinguir na cidade uma dimensão sempre em reformulação interactiva, visível no constante presente. Por um lado, pretendemos desenvolver um conjunto de mecanismos que permitam reflectir desde o projecto, sobre o papel das novas performances individuais e colectivas no espaço urbano (físico e socio-cultural) e as suas relações com a história. Por outro lado, pretendemos perceber qual o papel do arquitecto-urbanista no delinear da cidade, num momento em que as dinâmicas sócio-culturais se nos afiguram a cada dia mais fugazes e transitórias. Isto é, tentar-se-á nesta dissertação compreender a forma como a Arquitectura, mais concretamente a sua dimensão Urbana, se posiciona hoje (e perante a multiplicidade de estímulos e experiências com que os indivíduos são confrontados) em relação à construção da cidade, tendo em conta a sua função histórica de criação de consenso entre temporalidades. METODOLOGIA

Em termos de metodologia revela-se necessário definir limites ao objecto de estudo, contextualizando-o histórica e culturalmente. Tal contextualização, servindo também de âncora histórica, focaliza a reflexão na problemática urbana Europeia nas últimas quatro décadas, com especial ênfase para alguns movimentos e projectos que constituíram expressões produtivas para uma reflexão actual.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Factores então emersos, como as novas tecnologias de trânsito, os mass media, os subúrbios etc, serão também tidos em conta para entender a cidade em implementação, com a qual o relacionamento individual já não é só abordável pelos parâmetros convencionais, mas mediada por uma imagem colectiva mutante e complexa que perdeu a estaticidade da representação Moderna. Tentar-se-á então explorar uma cidade, construída de sedimentação e desejo de mudança, tendo como referência de partida dois movimentos precisos no contexto Italiano (onde a presença da cidade histórica é forte) entre as décadas de ‘50 e ‘70, e a (suposta) ruptura que esta criou com o pensamento urbano de então. Isto por forma a perceber as reflexões e perspectivas que esta operou, e muito daquilo que eventualmente apontou para entender um pouco mais a nossa contemporaneidade e abordagens actuais. Tomando o prognóstico e crítica emergente nesse momento tentar-se-á desenvolver uma reflexão sobre a situação do urbano contemporâneo das décadas de ‘80 e ’90. Esta reflexão refere-se ao relacionamento individual e construção do espaço colectivo do urbano mediante uma abordagem crítica a um pensamento urbano influente hoje (e que se inspirou nos movimentos anteriormente abordados). Sempre com vista à contemporaneidade, reflecte-se acerca da sua operatividade. Ou acerca do modo como se desenvolve ou pode desenvolver o debate em curso acerca da prática urbana e arquitectónica. Nomeadamente sobre os modos convencionados de planeamento urbano e arquitectónico existentes hoje, que por vezes esquecem a História de um pensamento urbano critico recente e os desejos sociais de utopia Moderna e da sua reformulação interna. Isto é, pretende-se culminar no momento actual dando ao percurso abordado a reflexão teórica posterior com carácter operativo para o pensamento que sujeita o projecto de Arquitectura e Urbanismo actuais, com o intuito de clarificar uma postura crítica num momento em que o estudante se abeira da prática arquitectónica. CONDIÇÃO CONTEMPORÂNEA

Actualmente, as mutações no tecido urbano sucedem-se a um ritmo exponenciado pelas diversas performances requisitadas pelas actividades humanas. A mancha urbana das metrópoles alargou-se e os territórios metropolitanos estenderam-se para lá das periferias. Também a densidade média das aglomerações diminuiu em função do seu alargamento e as metrópoles estão, paradoxalmente, mais integradas e mais descontínuas. Entretanto surgiram novos programas e funções e simultaneamente novas performances ou imperativos comerciais. Deste modo a condição urbana contemporânea é hoje diferente da que se vivia há três décadas. Do shopping ao aeroporto, passando por inúmeros espaços de utilização colectiva, verifica-se uma crescente desintegração com o espaço-cidade enquanto expressão maior da colectividade. Tal deve-se, a nosso ver, à multiplicidade de estímulos a que a cidade é actualmente sujeita. Por isso, a sua compreensão requer que se atentem, não apenas nos fenómenos físicos (novas formas ou imagens), mas também nas novas manifestações de sociabilidade em si operadas a todo o momento.


CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO

koolhaas refere em Content que “a arquitectura é [hoje] uma amálgama desfocada de sabedoria ancestral e prática contemporânea, uma forma difícil de olhar o Mundo e um meio inadequado para nele operar. Cada projecto arquitectónico demora cinco anos; [e] não há uma única iniciativa - ambição, intenção, vontade - que permaneça imutável na condição contemporânea”.1 A nosso ver, tal é devido à instabilidade dos mercados, à emergência de novos modos de rentabilização comercial, ou simplesmente à constante redefinição das formas de comunicação e difusão. De facto, somos actualmente confrontados com uma multiplicidade de possibilidades projectuais (despoletadas por vezes pela criação de novos programas) promovidos por formas de negócio emergentes que criam o uso inexistente para o qual o edifício servirá. Acontece porém que muitas destas formas de negócio são efémeras ou em constante reformulação. O ritmo acelerado com que hoje se processa a história torna difícil a adesão, por parte da sociedade, a uma estética por vezes demasiado efémera que a própria cidade tem vindo a assumir e desenvolver. Do mesmo modo, é dificultada a referenciação do indivíduo no espaço que experiencia, porque esse possui estéticas por vezes de menor duração que o próprio periodo de projecto-construção da obra arquitectónica. Deste modo, num momento de profundas incertezas (sociais, económicas, urbanas) motivadas pelas rápidas mudanças nos diversos campos do saber, importa reflectir acerca do papel da Arquitectura e Urbanismo na redefinição da cartografia do actual território. Este território é aqui explorado com base na ideia de que todos os agentes que nele coabitam intervêm activamente na transformação e redefinição da imagem que dele criamos e consequentemente fixamos. Funciona como o reflexo de um imaginário colectivo materializado à escala local e ancorado numa visão global, sendo sensível a transitoriedades e sedimentações, assim como ao que estas modificam na percepção da cidade enquanto espaço contíguo e inteligível. Sendo transportada por e para novas realidades, a perspectiva colectiva altera-se continuamente criando novas memórias sobre as memórias de sempre, gerando fragmentos e alterando a relação do utilizador com o espaço. Por isso, optamos por focar a cidade nas suas dimensões interactivas: uma física e outra social. A interacção, entre a forma física e a diversidade de performances sociais expressas na cidade permite a criação de referenciação e identidade (física, social...). Porém tal identidade não é um fenómeno estável. Reformula-se de tempo a tempo e em sentido mútuo. Entre forma física e forma social, resultado de várias mutações (sociais, culturais, económicas, políticas) que acompanham a evolução histórica da cidade-civilização.

1. KOOLHAAS, Rem: Content, Koln, Taschen, 2004, p20, tradução livre.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

PIVOT: IMAGINÁRIOS E SEDIMENTAÇÕES

Urbanidade como “qualidade do que é da cidade, da urbe, do que é urbano”.2 Pivot como “agente ou suporte principal à volta do qual gira ou se fundamenta o resto”.3 Urbanidade Pivot como suporte à volta do qual giram duas qualidades do que é urbano: uma já construída e sedimentada; outra apenas imaginada (e por vezes já em vias de sedimentação). Pivot é por isso a noção chave desta prova e procura representar, de uma forma conceptual, a ideia de que a cidade representa um percurso na história construído de passado e futuro, em constante síntese no presente. Pela sua capacidade dialogante (entre passado e futuro) torna visível aos olhos do indivíduo a emergência de uma nova sociabilidade que se funde com as interacções pré-existentes. É uma urbanidade também de novos programas, funcionalidades, formas, temporizações, dimensões e performances. Ou a urbanidade que reformula a anterior condição da cidade num dado momento da sua história civilizacional. Josep Quetglas refere que “há que saber preferir um presente que acumule em si tudo quanto haja ocorrido e tudo quanto pudera haver acontecido e tudo quanto não foi possível acontecer”.4 Quetglas refere um presente como acumulação de diversas temporalidades passadas. Essas temporalidades são expressas pela componente física da cidade com um reflexo na sua componente social e vice-versa. Por um lado, ao servirem de identidade e identificação, referenciam o individual e o colectivo ao espaço urbano que habita (o contrário também acontece). Porém, o individual e o colectivo desde sempre manifestaram o seu fascínio pelo desconhecido, pelo que o futuro lhes reserva. Este futuro dos desejos tem expressão no presente. Por isso o presente comporta também a dimensão do devir. Não se trata da antecipação do futuro, mas tão só de o tornar presente no imaginário colectivo e individual. Tal presente poderá pois incluir em si a perspectiva de mudança, o delinear de novas formas e sociabilidades. A possibilidade de novas sedimentações. Esta realidade traduz-se num constante reacerto entre construído e desejado, entre a sedimentação e a transitoriedade, entre passado e futuro. Como refere Josep Maria Montaner “toda a cidade viva tem como missão servir de ponte entre o passado e o futuro, já que não pode existir futuro sem memória do passado”.5 De facto, historicamente, o urbano sempre assegurou a identidade e identificação. Entre cenário e sociabilidade dos indivíduos e a sedimentação de diversas temporalidades, num processo dinâmico e interactivo.

2. AAVV: Dicionário da Lingua Portuguesa Contemporânea da Academia das ciências de Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Verbo, 2000, p3681. 3. Op. Cit. p2874. 4. QUETGLAS, Josep: Miscelánea de opinions ajenas y prejuicios propios, acerca del Mundo, el Demonio y la Arquitectura, Madrid, El croquis, 1998, p4, tradução livre. 5. MONTANER, Josep Maria: A modernidade superada: arquitectura, arte e pensamento do século XX, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2001, p163.


CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO

Nos dias de hoje porém, dada a diversidade de fluxos (económicos, sociais, energéticos), despoletada também por novas sociabilidades, são suscitados outros modelos conceptuais de construção do urbano que expressa uma cidade complexa e múltipla sempre em devir. Pois não é por acaso que a própria cidade, na sua condição contemporânea, é fragmentada e desconcentrada, e que os novos modos de trânsito e complexificação urbanos se intensificam, expressando precisamente esse fenómeno de permanente reorganização progressiva (entre caos e fractalização). Tal reorganização progressiva, ao longo do seu curso, vai contribuindo para várias sedimentações e criando transitoriedades. Porque a cidade comporta em si o valor da sedimentação dos tempos históricos, a aceitação desse futuro passará, com o decorrer do tempo, a ser apenas um outro layer do território urbano. Com o tempo parte deste layer (porque há parte deste presente efémero que desaparece) enriquece o corpo físico e social da cidade com uma nova temporalidade. Com o tempo parte deste layer torna-se passado, numa ritualização da constante mudança. Para tentar compreender a condição urbana contemporânea, tentamos encontrar um território “entre”, a meio caminho entre sedimentação e devir: a “dimensão pivot” na temporalidade do constante presente. Esta “dimensão pivot” delimita, a nosso ver, a compreensão da cidade actual ao periodo que decorre entre a concepção da obra e a sua sedimentação. Ou até se tornar Lugar. Conduzindo o estudo na temporalidade do constante presente, colocamo-nos na posição transitória entre sedimentação e devir (momento pivot). Este momento pivot é por vezes o agente que provoca o desfasamento entre o urbano colectivo e a multiplicação de experiências individuais fragmentadas e múltiplas (motivadas pelo surgimento de novos meios de entender e utilizar o urbano). Este desfasamento tem analogia na forma da cidade, remetendo-nos para uma visão rarefeita da cidade, cada vez mais entendida como um somatório de partes que constituem um todo, que por vezes não corresponde à totalidade do território. Intuimos por isso que a questão aqui em estudo pode revelar-se operativa para uma reflexão posterior, explorando uma possibilidade de enquadramento e interpretação pessoal da disciplina arquitectónica e urbana num quadro cada vez mais vasto, complexo e incerto. De facto, a Arquitectura procura hoje novos caminhos, e num momento em que o Urbanismo se afigura cada vez mais como disciplina integradora dos seus gestos isolados, urge reflectir acerca das possibilidades de inserção da obra arquitectónica no tecido urbano. Para tal, opta-se por centrar o estudo numa visão de urbano que inclui performances múltiplas correspondentes a temporalidades diversas, porque a cidade na sua condição actual, manifesta-se um fenómeno demasiado complexo para ser compreendido apenas pela sua forma. Numa breve referência à cidade como ponto de partida, reflectir-se-á acerca da sua urbanidade actual, a urbanidade que, no limite, confronta o sujeito com uma outra realidade. A nossa “urbanidade pivot”.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO


CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

2. │Da cidade à nova referenciação

No capítulo 2, denominado “Da cidade à nova referenciação”, avançamos uma reflexão (mais pessoal do que outras partes da prova) acerca da condição urbana contemporânea. No ponto 1, “Da cidade à experimentação”, começamos por tentar compreender o que é uma cidade. Com base em Mumford e Benévolo distinguimos, na cidade, os seus suportes físico e social. A conjugação destes suportes permite identidade e identificação. Identidade porque permite perceber as temporalidades da cidade; identificação porque permite a referenciação do indivíduo . Tais temporalidades transportam-nos aos conceitos de Espaço e Lugar. Passando por Certeau e Augé, Ignasi e Montaner, chegamos ao Espaço como Lugar praticado no presente, e ao Lugar como dimensão da sedimentação histórica. Veremos aqui que o Espaço não é necessariamente Lugar. Por isso abordamos de seguida a questão de Lugar e Não-lugar, segundo Augé, que nos permite estabelecer uma analogia com os vários layers que identificam a cidade. Ao Lugar corresponderá o tempo da história. Ao Não-lugar deverá corresponder a

layer do constante presente-devir (aqui em estudo). A emergência deste Não-lugar está associada a novas performances sociais. Veremos como a globalização tranformou a percepção da cidade, e com ela a noção de colectivo e individual. Estes factores são, em parte, exponenciados pela emergência de outras formas de movimento representadas pela figura do “fluxo”. Tais fluxos criam na cidade uma ruptura, por vezes, traduzida num mosaico físico e social, que dificulta a identidade e identificação. No ponto 2, “Urbanidade: da transitoriedade à nova referenciação”, avançaremos para a questão do pivot conjugando as definições anteriormente encontradas. Num primeiro momento associamos uma possível cidade emergente a dois fenómenos: a alteração da percepção do tempo e o abalo das grandes narrativas. O primeiro é fruto da superabundância de acontecimentos que aceleram a história. O segundo refere-se à valorização da experiência individual múltipla, promovida também por novos espaços. Num último momento abordaremos a Urbanidade Pivot, para compreender a cidade contemporânea, não como algo radicalmente novo, mas como dimensãocomplexificação do existente. Tendo em conta a sedimentação de várias layers, correspondentes a diversas temporalidades, encontraremos a “urbanidade pivot” na layer do presente, sempre em reformulação.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

2.1. │ Da cidade à experimentação

DIMENSÃO FÍSICAVS.DIMENSÃO SOCIAL

Em 1937 Mumford, em What is a city?, definiu cidade como “a relação de grupos primários e associações propositadas, sendo que aos primeiros correspondem a família e a vizinhança e às segundas corresponde uma característica especial da vida urbana”.1 Uma cidade não se reduz apenas à sua componente física, mas também suporta associações sócio-culturais. Mumford alude a uma cidade como rede que alberga interacções humanas e acentua a capacidade própria da cidade em suportar as associações da sociabilidade. O suporte físico ou geográfico estabelece pois relações com a performance sóciocultural. Estrapolando para lá desta ideia podemos, ou não seria ainda errado, dizer que cada cidade permite alguma analogia com a sociedade que suporta. No seu conjunto, as cidades correspondem também àquilo a que poderíamos chamar o tipo de vida ou cultura urbana. Desde logo é na cidade que os sujeitos individuais por um lado encontram uma dimensão colectiva onde se podem identificar. Por outro lado, o todo colectivo não é somente a soma dos individuais. Interessa-nos acentuar nesta tese, um foco nas dimensões colectivas e individuais da cidade e seu relacionamento. A cidade e a vida urbana expressa, enquanto fenómeno identitário, as certezas que construiu ao longo do seu passado, mas simultaneamente também as incertezas que vive no presente e com que projecta o seu futuro. No presente, a cidade vive uma condição de síntese: entre individual-colectivo, entre a identidade assegurada pela sedimentação histórica e a volatilidade dos desejos. A vida da cidade constrói-se pois numa interacção entre as suas referências históricas e presentes, e os devires do futuro. Benevolo, em A cidade e o Arquitecto, distinguiu dois sentidos da palavra cidade: um primeiro para “indicar uma organização da sociedade concentrada e integrada, que começa há cinco mil anos no Próximo Oriente e que desde então se identifica com a sociedade civil; [e um segundo que indica] o cenário físico desta sociedade”.2 Valoriza-se também esta distinção num aspecto. “Pelo motivo prático que o cenário físico de uma sociedade é mais duradouro do que a própria sociedade e pode ainda encontrar-se quando a sociedade que o produziu já há muito desapareceu”.3 Esta definição distingue duas dimensões supracitadas: físicas e sociais; e a relação entre as suas temporalidades.

1. MUMFORD, Lewis: What is a City?. In: LEGATES, Richard, STOUT, Frederic: The city reader, Londres, Routledge, 2000, p93, tradução livre. 2. BENEVOLO, Leonardo: A cidade e o arquitecto, Lisboa, Edições 70, 1984, p15. 3. Op. Cit.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

Estas duas dimensões de cidade correspondem também, ainda nas palavras de Benévolo, a duas interpretações distintas: uma empírica e outra cultural. A primeira consiste numa “definição empírica da cidade – o conjunto dos artefactos introduzidos pelo Homem numa porção do ambiente natural, desde os que, à escala humana, formam os prolongamentos directos do corpo (os utensílios de todo o tipo) até aos que, numa escala mais ampla, modificam as relações entre o Homem e o espaço que o rodeia”.4 A segunda consiste numa “definição cultural da cidade, isto é, parte de uma organização das experiências em sectores pré-estabelecidos e reconhece na cidade a projecção externa de cada um dos sectores, que revela apenas as suas variações internas”.5 Entendemos a necessidade de estabelecer duas dimensões de cidade inter-relacionadas (nunca as queremos separar): a primeira corresponde ao corpo físico, sua organização, forma e projecção nos artefactos à escala dos objectos e espaços; a segunda ao seu corpo social, hierarquias e interacções. Esta distinção efectuada por Benévolo alude à dualidade existente no processo complexo de percepção da cidade. Por um lado, a cidade, só é perceptível empiricamente como projecção do homem no mundo dos objectos e espaços. Por outro lado, como suporte que organiza as interacções e relacionamentos dessa mesma sociedade. A cidade, a nosso ver, é este misto composto por um modelo social que determina a sua forma e vice-versa. IDENTIDADE HISTÓRICA VS. DEVIR

Após esta definição, gostaríamos de retomar a ideia supracitada da dialéctica entre passado-futuro, entre identidade histórica e devir. A nosso ver, é possível pensar na existência de uma relação entre a forma física e o social, que se reformula a cada momento da história. É uma dialéctica variável. Isto é, emerge associada à cidade que pré-existe e às experiências que a mesma desencadeia. A dimensão física da cidade possui a sua própria temporalidade. Essa acompanha, mas por vezes desfasa-se, da performance social. Como a ocorrência da performance social abrange também evoluções da forma da cidade, a cidade, no seu estado presente oferece uma síntese histórica dos diversos momentos sociais vividos, como também expressa as suas incertezas e desejos. Podemos entender a cidade histórica, como a dimensão de identificação cultural. E a cidade emergente como um novo layer de cidade, em formação, que expressa as aspirações do conjunto de sujeitos da colectividade vivenciando esse espaço. Este layer é frequentemente a-histórico porque está num estado de devir. E por vezes, mas nem sempre, este layer está associado às novas formas de sociabilidade e de edificação emergentes resultantes das interacções constantes entre os indivíduos.

4. BENEVOLO, Leonardo: A cidade e o arquitecto, Lisboa, Edições 70, 1984, p15. 5. Op. Cit.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Interessa portanto enfatizar duas ideias essenciais: a cidade é o cenário que suporta as relações sociais, mas também o cenário em que se desencadeiam-reflectem novas sociabilidades. À cidade histórica corresponde a uma temporalidade mais lata, porque ligada à história passada. Ao outro layer, corresponde a unidade temporal do constante presente, no qual a sociedade se está a desenvolver. O primeiro tempo refere-se ao perene-persistente da história. O segundo tempo referese ao fugaz e transitório em que a sociedade se desenvolve a cada momento. ESPAÇO E LUGAR (REFERENCIAÇÃO)

Se recorrendo a Mumford referíamos a ideia de cidade relacionada com as performances sociais, em Benevolo associa-se a dimensão morfológica como o cenário intrínseco dessas. Isto remete-nos também para outros conceitos: o de Espaço e o de Lugar. À conformação do espaço físico sobrepõem-se vivências individuais e colectivas que a tornam lugar urbano. Michel de Certeau, citado por Marc Augè, defende que o “espaço é um lugar praticado, um cruzamento de corpos móveis: são os que andam a pé que transformam em espaço a rua geometricamente definida como lugar pelo urbanismo. À relação entre o lugar como conjunto de elementos que coexistem numa determinada ordem, e o espaço enquanto animação desses lugares pela deslocação de um móbil, correspondem várias referências que lhe especificam os termos”.6 www.mabuse.cl, 2005.

Refira-se que o Lugar para Certeau “é o lugar do sentido inscrito e simbolizado, o

Espaço: Dogville, Lars von Trier, 2003

lugar antropológico”.7 Ou seja, o Espaço não é por si só Lugar. Por um lado, o Lugar expressa a dimensão lata do tempo histórico e, por outro, o Espaço é um lugar praticado no presente. Ignàsi Sola-Morales oferece uma reflexão operativa e de extrema acutilância relacionada com o tempo histórico e lugar. Para Solà-Morales,“a noção de lugar aparece indissociavelmente ligada à noçõo de tempo. Os lugares das culturas históricas foram, quase sempre desafios ao tempo, monumentos que acumulam a memória combatendo o esquecimento, evocações permanentes de pessoas, gestos ou instituições fundacionais”.8 O autor defende “o lugar como fundamento (...) como o que está por baixo, pertence a culturas que encontram a identidade lutando contra o passar do tempo... A arquitectura destas culturas também é parte destes mitos e rituais da fundação, da memória e da permanência”.9

6. AUGÉ, Marc: Não-lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Venda Nova, Bertrand, 1998, p86. 7. Op. Cit. 8. SOLA-MORALES, Ignasi: Diferências: topografia de la arquitectura contemporanea, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2003, p122, tradução livre. 9. Op. Cit.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

Na perspectiva de Solà-morales “o lugar contemporâneo há-de ser um cruzamento de caminhos que o arquitecto tem a capacidade de apreender. Não é um solo, a finalidade de umas imagens, a força da topografia ou da memória arquitectónica. É antes a fundação conjuntural, um ritual de tempo e no tempo, capaz de fixar um ponto de intensidade própria no caos universal da nossa civilização metropolitana”.10 Montaner, por outro lado, observa o lugar em duas escalas: interior e exterior. O lugar interior “é entendido como uma qualidade do espaço interior que se materializa na forma, textura, cor, luz natural, objectos e valores simbólicos”.11 O lugar exterior “é interpretado como genius loci, como capacidade para fazer aflorar as preexistências ambientais, como objectos reduzidos no lugar, como articulação das diversas peças urbanas... isto é como paisagem característica”.12 Para o autor, “uma ulterior e mais profunda relação entenderia o conceito de lugar, precisamente, como a correcta relação entre a pequena escala do espaço interior e a grande escala da implantação”.13 A nosso ver, a formação dos próprios Lugares é a conjugação da permanência e condição de mudança. Acumula uma colagge de tempos, da história ao desejado, que em comum partilham. É dessa interacção que o sujeito por um lado se referencia historicamente, e por outro se apercebe da transitoriedade dessa mesma referência. REFERENCIAÇÃO E INDIVÍDUO

Para entender o fenómeno de referenciação é essencial tomarmos o foco antropológico. Segundo Edward Hall, da Escola de Chicago, o Homem “é criador de uma dimensão nova [e exclusivamente sua], a dimensão cultural, da qual a proxémia14 é apenas um elemento. A relação que liga o homem à dimensão cultural caracteriza-se por uma modelagem recíproca. O Homem está agora em condições de construir por inteiro a totalidade do mundo em que vive (…). Criando esse mundo, o homem determina de facto o organismo que vai ser”.15 O indivíduo-Homem surge aqui entendido como sendo o único animal que transporta em si o factor que origina espaços enquanto lugares praticados. A capacidade de se reconhecer histórica e culturalmente, de se referenciar no mundo e na cidade. Por este motivo a cidade é a evidência física de que o sujeito não pode escapar à sua própria cultura, não podendo também evitar o fenómeno de continuidadememória do qual é refém.

10. SOLA-MORALES, Ignasi: Diferências: topografia de la arquitectura contemporanea, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2003, p125, tradução livre. 11. MONTANER, Josep Maria: A modernidade superada: arquitectura, arte e pensamento do século XX, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2001, p37. 12. Op. Cit. 13. Op. Cit. 14. Proxémia designa o conjunto de observações e teorias referentes ao uso que o Homem faz do espaço enquanto produto cultural específico e é o principal objecto de estudo de Edward Hall. 15. HALL, Edward: A Dimensão Oculta, Lisboa, Relógio d’água, 1986. p14.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Podemos dizer que “o homem e as suas extensões não constituem senão um único e mesmo sistema. É um erro monumental tratar o homem à parte, como se ele constituísse uma realidade distinta da sua habitação, das suas cidades, da sua tecnologia ou da sua linguagem”.16 Esta relação do sujeito com as suas extensões “não representa senão um modo particular e uma forma especializada da relação geral dos organismos com o seu ambiente. Mas quando um órgão ou uma função recebem uma extensão, o processo evolutivo torna-se de tal modo acelerado que esta pode ser levada a substituir aqueles”.17 INDIVÍDUO E FRAGMENTAÇÃO

O Homem e suas extensões são um mesmo tema relacional. Gostaríamos de referir no entanto que esse misto relacional tem uma história, onde assumiu historicamente uma forma unitária, e hoje fragmentativa. Na passagem do séc. XIX para o séc. XX, a implementação de novas concepções de urbano começou a acentuar um certo contraste entre as partes que compõem o urbano. Se até então a cidade possuía uma certa identidade representativa (do corpo social), intui-se uma posterior passagem para uma certa fragmentação. Nomeadamente quando a cidade acolhe a indústria, se expande e define grandes massas habitacionais. Retroceda-se, atendendo ao que afirma Michel Freitag, acerca das cidades da Antiguidade Clássica e da idade Média em comparação com as actuais. Nas palavras de Freitag “cada cidade tradicional formava uma realidade singular e fortemente autónoma; possuía uma organização social e espacial obedecendo a um princípio de coerência e de integração próprio que lhe permitia assimilar de maneira específica as influências exteriores que sofria, à maneira de um organismo. (…) Numa palavra, cada cidade possuía uma identidade, não apenas simbólica, mas concreta, que partilhava com os seus habitantes como maneira de ser”.18 Por outro lado, “a ordem unitária e relativamente estável da cidade tradicional dá [hoje] lugar a uma aglomeração numa lógica dinâmica de acumulação e diferenciação”.19 Com esta referência o autor evidencia que a cidade possuiu, enquanto espaço autónomo e identitário, uma ordem estável que mais tarde sofria processos de expansão, diferenciação e acumulação. Esta afirmação pode ser hoje intuída quando se observam que partes do corpo social são proprietários de partes de urbanidade, e estas partes possuem distintas referências culturais. A sociedade deu pois lugar a muitos temas sócio-culturais que não estão referenciadas à sua própria forma e geografia.

16. HALL, Edward: A Dimensão Oculta, Lisboa, Relógio d’água, 1986. p14. 17. Op. Cit. p213. 18. FREITAG, Michel: Arquitectura e Sociedade, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004, p53. 19. Op. Cit.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

Isto é, por um lado representam fragmentos do corpo social que coexistem no seu território, e por outro lado possibilitam uma rede de relacionamentos por meio de fluxos (de que falaremos um pouco à frente). LUGAR vs. NÃO-LUGAR

A nosso ver, a conjugação de Espaço e Lugar, e de Lugar e Não-lugar, nos termos que definimos agora, definem um carácter básico para falar do ambiente urbano e temporalidade, refrenciação-transitoriedade. Marc Augé acrescenta uma outra noção: ao Lugar como dialéctica entre lugar e espaço, acrescenta o conceito de Não-Lugar. O Não-lugar não é Espaço, mas também não meramente o oposto do Lugar. É um “Outro”. Augé define deste modo Lugar e Não-Lugar: “se um lugar pode definir-se como identitário, relacional e histórico, um espaço que não possa definir-se nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, definirá um não-lugar. seja, espaços que em si mesmos não constituem lugares antropológicos e que, ao contrário da modernidade Boudelairiana, não integram os lugares antigos. Inventariados, classificados e promovidos a lugares de memória estes ocupam naquela um lugar especifico e circunscrito”.20 Deste modo a cidade para nós pode ser vista como composta de Lugares, referenciais, e Não-lugares, mais transitórios. Mas também resta perguntar se o Não-Lugar está condenado a tornar-se referencial e, por consequência, Lugar. A cidade é desde sempre o espelho das sucessivas civilizações que a pensam e lhe dão forma, que a habitam. Tenta ser o prolongamento da dimensão social. Este espera também encontrar os seus desejos na dimensão física, construindo a cidade à imagem da sua temporalidade. Na história da cidade estabeleceu-se sempre, com maior ou menor ruptura, a ligação entre o existente e o desejado, entre a sociabilidade presente (fruto de todas as memórias) e a idealização de outras formas de interacção sócio-culturais. Entre Lugar e Não-lugar. Estamos pois perante uma ritualização repetitiva do contraste entre sociabilidade de sempre e socialidade emergente.Um contraste entre a oposição lugar-passado/ lugar-futuro. Ou talvez mesmo Lugar e Não-lugar, porque o lugar-futuro ainda não adquiriu o carácter de lugar (passado-histórico ou presente). O Lugar e o Não-lugar, nas palavras de Marc Augé, “são sobretudo polaridades esquivas: o primeiro nunca se apaga completamente e o segundo nunca se realiza

20. AUGÉ, Marc: Não- lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Venda Nova, Bertrand, 1998, p86.

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A hipótese aqui defendida é a de que a sobremodernidade produz Não-Lugares, ou

Aeroporto, Possibilidade de Não-lugar


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totalmente – palimpsestos onde, incessantemente, se reinscreve o jogo ambíguo da identidade e da relação”.21 O aparecimento dos ditos Não-Lugares na paisagem urbana contemporânea confronta o sujeito com a materialização de uma sociedade-sociabilidade existente mas até então imersa, recolocando o indivíduo no seu tempo através do contacto com o exterior físico. Na situação contemporânea, poderemos dizer que esse exterior é constituído por lugares e não-lugares, da mesma forma que poderíamos constatar que nunca a distinção entre uns e outros fora de tal forma acentuada, pois “frequentar os não-lugares constitui hoje em dia a ocasião de uma experiência sem precedente histórico, de individualidade solitária e de mediação não humana (basta um cartaz ou um ecrã) entre o indivíduo e o poder público”.22 PERCEPÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

A actual lógica de percepção e construção da cidade, associa-se por um lado à expansão desmesurada da sua forma física, e por outro lado às evidências da globalização que fomenta uma livre circulação na dimensão social e se expressa na forma da cidade. De facto, a cidade no contexto global tornou-se o espaço da mobilidade de pessoas, bens e serviços, e mostra o aumento de imagens e formas sugestivas de ícones da “pós-modernidade”. Esta nova organização global obedece a uma pluralidade de factores, normalmente

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não submetidos a princípios de integração, mas sobretudo a princípios de acumulação e expansão. Estes decorrem da imposição da lógica de escala maior e de previlégio de heterogeneidades que resultam nos novos modos de vida propiciados Barcode, Rem Koolhaas, acumulação e expansão da União Europeia

pelo desejo “pós-moderno” de diferenciação e trânsito. Estas transformações profundas estão em grande parte na origem do alargamento do alcance do sujeito elevando o seu raio de acção a uma escala que não teve precedente na história da evolução urbana. Esta mudança de escala manifesta-se nas contaminações múltiplas que acompanham a evolução da sociedade, na cidade. Na cidade expandida e heterogénea contemporânea, tem-se vindo a assistir à exponenciação do movimento. Dentro da cidade e entre cidades, onde deambulam pessoas, bens ou serviços, representados sob a forma abstracta do fluxo (materiais, humanos, energéticos).

MOVIMENTO E FLUXO

Esta ideia em grande parte não é distinta da identificada por Ignasi Solà-Morales no seu texto Arquitectura Líquida, onde para além de outras noções, avança a noção de fluxo.

21. AUGÉ, Marc: Não- lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Venda Nova, Bertrand, 1998, p123. 22. Op. Cit.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

Em determidado momento do seu texto, Ignasi recorda-nos o significado que teve a estratégia de 1953 levada a cabo por Louis Kahn para o centro de Filadélfia, em que partia de uma representação de movimento. Como refere Ignasi, “a cidade não podia entender-se como sistema de espaços gerados pela massa construída dos edifícios nem pelos vazios entre eles (…). A estrutura do espaço urbano era o resultado de sistemas de relações de diversas rugosidades que provocavam turbulência nos pontos de encontro e densidades distintas no interior dos próprios fluxos”.23 Ignàsi usa o termo, não deixando de referir a função da circulação encarada na Modernidade. Interessa-nos aqui anexar esta noção de fluxo, à dialéctica das duas ideias inicialmente avançadas: cidade-cenário e sociabilidade. À ideia de cenário corresponderia a componente física da cidade, que é mutável de acordo com a sua temporalidade. A sociabilidade está inter-relacionada com essa ideia como suporte e reflexo da transformação da cidade. A ideia de fluxo poderia ser aqui entendida (entre outras coisas) como o conjunto de trânsitos físicos, energéticos e culturais dentro desse cenário-sociabilidade. A cidade contemporânea, como a vimos procurando entender, é esse composto. Simultaneamente comporta uma dimensão mais perene ligada à história e outra que compreende a evolução dos seus espaços e grupos. Este cenário histórico complementa-se com um layer relacionado com os desejos presentes ou futuros do colectivo. COLECTIVO E INDIVIDUAL

Podemos dizer que nos dias que atravessamos a ideia de colectivo torna-se mais difusa e difícil de definir remetendo para posturas de negociação entre os individuais. Especular um colectivo cada vez mais heterogéneo e conjugá-lo com um cada vez maior número de vontades individuais. Recorde-se que a génese da condição actual remete para o pós-guerra e uma crise discutida dentro da própria “Modernidade Tardia” pelos seus protagonistas. Talvez procurando dar conta do ênfase colectivista Marxista, mas também a referência Sartriana. Esta concepção, de certa forma e num momento específico, entendia o universal como a verdade do particular. Actualmente vivemos já mais o que poderíamos chamar uma sensibilidade “pósModerna”, que corresponde a uma “sociedade das sucessivas colagens”. Felizmente ou infelizmente... Desapareceu uma cultura baseada no conceito de individualidade-tipo, associada à grande narrativa moderna visto que a experiência social estava associada a um espaço-tempo definido. Isto é, associada ao seu próprio zeitgest espácio-temporal, e noção de progresso refletindo-se em qualquer indivíduo da sociedade de forma semelhante, assegurando igualdade mas também, por vezes, normalização.

23. SOLA-MORALES, Ignasi: Territórios, Editorial Gustavo Gili, 2002. p133, tradução livre.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

INDIVÍDUO E APROPRIAÇÃO

A contemplação, essencialmente radical, de um novo indivíduo que se libertava da geral homogeneização do consumo no Pós-Guerra, expressou-se por exemplo nas experiências Situacionistas da deriva de 1956 que recuperou estratégias surrealistas. Em 1956 Guy-Ernest Debord escreveu Teoria da Deriva na qual explicava que “uma das práticas básicas dos Situacionistas era a deriva, uma técnica de passagem rápida através de vários ambientes. A deriva envolve um comportamento de gozo construtivo e consciente dos efeitos psicogeográficos, é assim diferente das noções clássicas de jornada ou passeio”.24 A deriva seria uma forma de passar de um quarteirão a outro, de uma casa a outra, através de deambulações confiadas ao acaso. Em traços amplos a deriva estava associada à ideia de psicogeografia. A psicogeografia seria um sentimento geográfico particular que permite reinterpretar certos lugares ou deslocá-los da sua história (detournement). A deriva pressupunha um novo ciclo de percepção urbana, conceptual, que privilegia a experiência individual do fenómeno colectivo de um modo (supostamente) mais livre. Esta perspectiva do urbano e sua apropriação, enceta em si duas espécies de críti-

www.vitruvius.com, 2005.

cas fundamentais: a da vida quotidiana Burguesa e a da sociedade do espectáculo (mercantil). Trata-se precisamente de libertar a vida do quotidiano normalizado da “opulência”, reconquistando o tempo livre, o usufruto da sua passagem tal como a consciência da sua rápida fuga. As actividades defendidas por Debord remetem-nos à descoberta e à invenção do Deriva: trajectos realizados durante um ano por uma jovem em Paris

ambiente urbano, que para os situacionistas seria a cidade-metrópole. Tal abordagem, apesar de radicalizar a experiência urbana, pode ser vista como um ponto de transição no que se referia à percepção individual do espaço colectivo. Saliente-se no entanto que esta necessidade surge já não no contexto das vanguardas Modernas que se batiam por uma igualdade social, mas num contexto de PósGuerra marcado pelo consumo, onde uma aparente liberdade individual está regida por uma lógica superior repressiva. A conceptualização da experiência espacial proposta por Debord e pelos Situacionistas, tal como as definições sociológicas de Augé e Certeau, de “lugar praticado”, exemplificam o que entre nós é agora comum: a deambulação por diversas urbanidades distintas dentro de uma mesma cidade fragmentada. Atente-se que tal não ocorre por escolha ou vontade, mas porque cada vez mais traçamos nos mapas de cidade os percursos das suas ainda rotinas diárias, das movimentações só raramente não programadas, que nos permitem (a cada indivíduo) a construção da (sua) própria urbanidade.

24. DEBORD, Guy-Ernest: Theory of the dérive. In: http://www.library.nothingness.org, 27/06/2005.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

2.2. │ Urbanidade: da transitoriedade à nova referenciação

APROPRIAÇÃO INDIVIDUAL

O fenómeno de aumento de apropriação-construção individual da sua própria urbanidade teve origem, entre outros, em dois aspectos importantes: por um lado, na consciência do tempo histórico, e por outro na superação da complexificação das

grandes narrativas25 que uniam o colectivo. Relativamente ao primeiro, há na contemporaneidade uma superabundância de acontecimentos que aceleram a história, alterando continuamente a forma como a apreendemos. De facto, a alteração da nossa percepção da dimensão temporal, está exponencionada por novas estruturas urbanas que servem às necessidades de trânsito. O impacto destas estruturas está ligado essencialmente a uma alteração de escala, e da relação do indivíduo com a cidade global. A cidade contemporãnea, dos tempos e dos fluxos de comunicação que emergem, altera a relação do sujeito com o seu exterior, e operacionaliza uma nova sensibilidade urbana. A mobilidade do sujeito-individual, com base em novas infra-estruturas que são físico-geográficas, permitem-lhe uma nova apropriação urbana ampliada e móvel. Vejam-se agora que algumas das estruturas e espaços contemporâneos de suporte ao trânsito que referimos, terminais de transporte, auto-estradas e estações de serviço, ou mesmo os centros comerciais, caracterizam-se pela sua auto-referencialidade. Augé, como referimos, denomina-os simplisticamente de Não-lugares. Pela sua vocação de passagem circunstancial, referenciam o indivíduo no Não-lugar circunscrevendo-o num ambiente de símbolos visuais que são conhecidos apenas enquanto entidade abstracta. A abstracção (ou a-referencialidade) destes espaços não reflecte mais do que uma construção do presente assente em perspectivas de futuro e daí criar-nos estranheza porque não os reconhecemos com a base identitária que possuem. E se hoje nos é estranha essa concepção de antecipação de futuro, num outro sernos-á estranha a antecipação e substituição deste por um outro. Relativamente ao segundo, a superação dos grandes sistemas de interpretação (científicos, sócio-políticos, etc.), que pretendiam dar conta da evolução do conjunto da humanidade, ou complexificaram-se rumo a um suposto “progresso” imparável. Segundo Jean-François Lyotard, “considera-se que o “pós-moderno”26 é a incredulidade em relação às meta-narrativas. (...) A função narrativa perde os seus functores, o grande herói, os grandes perigos, os grandes périplos e o grande objectivo”.27

25. Grandes Narrativas (ou Metanarrativas) são narrativas de segunda ordem que visam expicar as outras narrativas (a ciência ou a história) como por exemplo a filosofia. 26. Lyotard define “pós-modernidade” como a condição do saber nas sociedades actuais mais desenvolvidas e caracteriza-se por um conflito entre os campos de saber e as grandes narrativas que o procuravam legitimar. 27. LYOTARD, Jean-François: A condição Pós-Moderna, Lisboa, Gradiva, 1989, p12.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Assistimos à (suposta) valorização da experiência individual, promovida também por novos espaços, muito aberta ao trânsito e transformação que manifesta um desejo de liberdade perante as diversas estruturas sociais. Por outro lado, nunca como agora, essa experiência individual se liberta de grupos sociais. Pelo menos saltita entre grupos, por vezes numa inconsistência sócio-cultural. Ocorre uma multiplicação e diversificação dos gostos sociais que também reflectem a complexificação que a urbanidade tem vindo a assumir. MOSAICO FÍSICO E SOCIAL

Nuno Portas escreveu no epílogo de Políticas Urbanas que “a própria desorganização, real ou aparente, das paisagens urbanizadas contemporâneas é, além do mais, o retrato da acumulação de processos autistas ou erráticos com a convicção de que não se explicam apenas pelos interesses dos agentes económicos, mas também pelas incontornáveis diferenças de modos e estilos de vida da sociedade urbana e, ainda, pelas dificuldades de consenso na comunidade científica e na cultura urbanística a quem cabe modular com convicção as estratégias e os projectos das intervenções regeneradoras para as distintas partes do mosaico urbano”.28 Este mosaico urbano reflecte algo do que Collin Rowe29 chamou, noutro contexto obviamente, de “aceitação de fragmentos de utopia”. Chegamos a um tempo onde dificilmente conseguimos decifrar uma configuraçãodefinição de cidade precisa ou única. Uma cidade, que continha a cidade histórica e promovia esse tipo de urbanidade, vê agora emergir novas interactividades que resultam (e muito para lá do crescimento do corpo físico) em cada vez maiores aglomerados urbanos. Tais aglomerados urbanos-mosaico são compostos, não apenas por vários núcleos dentro da cidade, como também estabelecem relações em rede entre várias cidades. Este processo urbano de organização em rede, reflecte a organização global dominante (globalizante) da própria sociedade e o novo conceito de cidade só pode remeter para uma organização de aglomerados urbano-sociais. Contemplando a linha histórica e referencial que possui a urbanidade, pensamos ser possível que esta seja construída numa base de consenso entre Lugar e Não-lugar, entre os programas de sempre e as novas necessidades ou desejos que decorrem do evoluir da sociedade. No entender de Montaner, na essência das cidades interferem também “a representação, os símbolos, a memória, os desejos e os sonhos. É a sobreposição contínua dos diversos extractos que estruturam toda uma cidade, palco da diversidade e da polaridade, um fenómeno que não é possível interpretar de maneira unívoca”.30 Nas suas palavras, é na memória que “radicam os valores simbólicos dos elementos da cidade, já que simbolizar significa a representação de uma ausência, a ex-

28. PORTAS, Nuno: Políticas Urbanas: Tendências, Estratégias e Oportunidades, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, p214. 29. Collin Rowe é o autor de Ciudad Collage. 30. MONTANER, Josep Maria: A modernidade superada: arquitectura, arte e pensamento do século XX, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2001, p157.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

pressão de uma memória. Uma memória colectiva que se materializa e se expressa nos nomes dos lugares, nos monumentos, nas tipologias arquitectónicas, nos recintos de trabalho, nos espaços públicos, nas áreas para a vida comunitária, nos restos arqueológicos, nas fotografias e documentos antigos”.31 De facto, ao longo do seu percurso na história foi sempre o indivíduo dentro do colcomplemento, associando as suas capacidades à sua crença mais profunda. Tal pretende uma identificação do indivíduo com o fenómeno urbano do qual faz parte, referenciando-o e referenciando-se, reconhecendo-se culturalmente e em sentido mútuo.

Manifestação: identificação do individual com o colectivo.

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ectivo que desejou transpôr a relação social para o espaço urbano tornando-o seu

Rui Barreiros Duarte refere que “a cidade é talvez a manifestação mais complexa da intervenção do Homem à escala do território, dado que a cidade é o resultado de sucessivas apropriações que o Homem transforma e utiliza à medida das suas necessidades (...) de utopia, de sonho, ou meramente utilitários”.32 Deste modo, e tendo como referência a quase fusão entre mente, corpo e cidade (presente já na Antiguidade Clássica), podemos ver a cidade actual como reflexo de uma consciência cívica, na qual predomina hoje o efémero. Este efémero, promovido por uma crescente desvalorização da materialidade e do lugar da imagem, dá lugar ao fugaz, à cidade como colagem e sobreposição de lugares físicos e mentais. Disso é paradigma a (re) construção ininterrupta de cidades como Nova Iorque ou Tóquio (embora fenómenos distintos), e que acaba por lhes atribuir identidade. A diferença entre cidade clássica e contemporânea está relacionada com a adaptação a novas urbanidades, formas de as construir, mas também de as perceber. Tais diferenças resultam de mudanças profundas no modo como o indivíduo as apreende, e da redefinição das suas capacidades intrínsecas, face à velocidade, luz, voz, visão, etc. Por isso deve-se recordar a alteração de concepções espaço-tempo nas diferentes épocas. Hoje, as Áreas Metropolitanas são quase contínuas e ligadas num mesmo espaço ligado em banda larga e medido em Mega Bytes que ilude a ideia de conexão-ligação com uma pseudo-proximidade virtual. Mas antes polis-civitas-urbis delimitava-se do espaço rural por uma barreira física. Hoje essa é temporal. URBANIDADE PIVOT:TRANSITORIEDADES

Por urbanidade é aqui entendido tudo o que respeita à urbe e que contempla e ultrapassa a sua configuração formal. Centra-se fundamentalmente no carácter experiencial que a cidade, enquanto geradora e receptora de vivências, fornece e transmite (por veículos vários) ao indivíduo, o qual lhe atribui a sua ideia subjectiva de Urbano. Tomando como referência as palavras de Augé, se esta urbanidade é composta por Lugares e Não-lugares, não se deve esquecer o tipo de urbanidade que cada um produz (distintos por natureza mas, a nosso ver, rapidamente tornados no mesmo).

31. MONTANER, Josep Maria: A modernidade superada: arquitectura, arte e pensamento do século XX, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2001, p157. 32. DUARTE, Rui Barreiros: A construção da forma entre a rquitectura e escultura. In: Arquitectura e Vida, nº 55, Dezembro de 2004, p41.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Ao Lugar corresponde a urbanidade histórica, a quase totalidade do exterior que mantém o sujeito permanentemente em contacto com as memórias de sempre, presentes na geometria da rua ou da praça, catalogado e perfeitamente inteligível quer enquanto espaço, quer enquanto relação social que fomenta. Por outro lado, ao Não-lugar corresponde, em Augé, talvez uma urbanidade abstracta-transitória em devir querendo e tornando-se constantemente em Lugar - a que chamaremos urbanidade pivot (como denuncia o título da prova). Pela sua intrínseca valorização do efémero como acrescento à estabilidade, remete para uma experiência subjectiva baseada na impermanência e menos em referências físicas perenes. Os símbolos desta urbanidade não são os da geografia ou da história, mas mais os da sociedade inter e hiperactiva, que reportam o indivíduo para uma constante situação-cenário modificável a cada momento. O que chamaremos de “urbanidade pivot”, para melhor entender a cidade contemporânea na sua dialética físico-social e das temporalidades dos fluxos, será portanto uma certa parte da urbanidade-exterior comum do colectivo. Tal reflecte fundamentalmente uma nova sociabilidade-interactividade que permite ao sujeito articular mentalmente a sua própria cidade, organizando os fluxos de informação, movimento ou estímulos existentes na cartografia do Não-lugar conjugandoos com a história do Lugar e sua memória. Neste entendimento, os Não-lugares constituem a medida da época, a-referencial e a-histórica que, com o decorrer do tempo se referenciarão tornando-se Lugares e dando espaço à emergência de outro Não-lugar. Ora, esta medida, pegando na definição de Augé é “quantificável e possível de calcular se, à custa de algumas conversões entre superfície, volume e distância, adicionarmos as vias-férreas, aéreas e rodoviárias e os habitáculos móveis chamados meios de transporte (aviões, carros…), os aeroportos, as gares, as cadeias hoteleiras, os parques de lazer, e os grandes centros de distribuição, o labirinto complexo da rede de postes telegráficos ou sem fios, por fim, que mobilizam o espaço extra-terrestre para fins de uma comunicação tão estranha que se limita, muitas vezes, a pôr o indivíduo em contacto com outra imagem de si próprio”.33 Tal leva-nos a referir que o Não-lugar de hoje não será provavelmente mais do que parte de um processo evolutivo da própria urbanidade, relativamente ao qual ainda não temos distanciamento para lhe reconhecer as raízes. Avançamos para uma possível definição de urbanidade pivot. É uma urbanidade que, torna visível ao indivíduo a emergência de uma nova sociabilidade que se mescla com as interacções pré-existentes, pela sua capacidade dialogante. Uma urbanidade de novos programas, funcionalidades, formas mas, sobretudo, performances. Esta urbanidade está tão ligada ao espaço como ao tempo. Trata-se da urbanidade do alargamento do espaço físico territorial, que nos dá conta da aceleração das movimentações terrestres e consequente compressão temporal. Tal compressão manifesta-se na criação de infra-estruturas que permitem à cidade velha a inserção numa rede global de transporte de pessoas bens ou serviços.

33. AUGÉ, Marc: Não-lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Venda Nova, Bertrand, 1998, p123.


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CAPÍTULO 2: DA CIDADE À NOVA REFERENCIAÇÃO

Essa rede global, por ser globalizante, aposta num interface-pivot comum de modo a ser facilmente reconhecível pelo sujeito e utilizador. A urbanidade, provavelmente também neste sentido de expansão global, mostra a sobreposição de um espaço comunicante virtual ao espaço físico. Este é entendido como redes e fluxos de comunicação e informação, mas também de imaginários. Esta manifesta-se nos mais diversos tipos de media (que podem ser vistos como veículos de transporte de ideias e sonhos) não submetidos a fronteiras e limites. Por isso, a sociedade tem-se num conjunto de ligações em rede de transporte e comunicação física, entre os sonhos individuais e o imaginário colectivo. Usamos o termo “Pivot” para caracterizar esta urbanidade contemporânea porque esta é constituída muito por Não-lugares. Ou transitóriedades em conjugação com os Lugares de sempre (que servem de equilíbrio ou rede de suporte da mutação da cidade). Por uma constante oscilação de Lugar a Não-lugar e vice-versa, e entre temporalidades, constitui o reflexo da sociabilidade que emerge e transmite a possibilidade de relação entre o indivíduo e os novos hábitos que originam diferentes modos de estar no urbano. A essência da relação do indivíduo com a urbanidade reside na sistemática redefinição dos parâmetros sociais e culturais que interagem com o sujeito. Por seu lado o sujeito redefine continuamente a materialização (física) da urbanidade (momento pivot). Porque, como refere Montaner, “os Lugares já não são interpretados como recipientes existenciais permanentes, senão que são entendidos como: intrínsecos focos de acontecimentos, concentrações de dinamismo, torrentes de fluxos de circulação, cenários de factos efémeros...”34 Como verificámos, a cidade contemporânea é composta por uma cidade da Com o tempo o efémero-difuso (o que persiste) referencia-se, na dimensão física e social da cidade e torna-se memória. Com o tempo surge um novo efémero-difuso. A urbanidade pivot, aqui em estudo, funciona como intermediária entre uma e outra, construindo o efémero-difuso e conjugando-o com a memória, tranferindo-o da transitoriedade para a sedimentação. Tal reflecte o momento pivot que se situa entre a construção e a referenciação da obra arquitectónica. Pretendemos pois estudar esta urbanidade no que respeita às suas características dialogantes (entre passado e futuro), noção de evolução espacial e percepção que dela têm o individual e o colectivo. Essa percepção, sendo um fenómeno variável, acompanha a forma física num fenómeno de actualização recíproco e interactivo. Tendo em conta essa actualização, torna-se necessário perceber até que ponto esta nova cidade é representativa de uma nova urbanidade e, no limite, que urbanidade se assemelha aos nossos olhos como um novo devir (e sobretudo quando os desejos do sujeito são cada vez mais voláteis). E será que outras não o foram no seu tempo? Com o tempo haverá sempre um novo devir. Passará esta a ser o objecto de confrontação do indivíduo com o social. E qual a responsabilidade do arquitecto no planeamento-construção deste devir?

34. MONTANER, Josep Maria: A modernidade superada: arquitectura, arte e pensamento do século XX, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2001, p44.

www.dct.uminho.pt, 2005

memória, e pelo efémero-difuso que é a cidade transformando as visões existentes.

Sedimentação: os números indicam a ordem de sobreposição das “layers”.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO


CAPÍTULO 3: DA REVOLUÇÃO À QUEDA: PARA UM ENQUADRAMENTO ECONÓMICO-SOCIAL

3. │ Da revolução à queda: para um enquadramento económico-social

O capítulo 3, denominado “Da revolução à queda: para um enquadramento económico-social”, avança um possível enquadramento ao objecto de estudo, delimitado por dois momentos da história recente que selecionamos: os distúrbios de Maio de ‘68 e a queda das Twin Towers em 2001. Com base em Edward Soja, e passando por Varnelis, Lefebvre, Castells e Harvey, associamos um momento histórico a um processo económico e um cultural. Os distúrbios de Maio de ‘68 estão, de facto, muito associados a uma redefinição de mercados e a um repensar da Arquitectura e Urbanismo. Aqui é notória a necessidade de reformulação positiva dos princípios pelos quais se regiam os sistemas de interpretação da realidade. Por isso simbolizou um repensar da cidade e urbanismo como modo de vida. Ao evidenciar as mudanças ocorridas na vida diária dos cidadãos, estes distúrbios levaram alguns profissionais a envolverem-se activamente na defesa de uma “nova” cidade. Adivinhou-se portanto um momento de viragem que, segundo Soja se insere numa “terceira fase de crise social”, que esteve associado ao “Pós-fordismo”. Num segundo momento veremos que o “desaparecimento” das Twin Towers “representou” (salvaguardando, obviamente, a falta de distanciamento histórico para análise do fenómeno) o fim do representativo-figurativo, resultado da inovação da relação entre consumidor e objecto consumido. À produção massificada da década de 60, contrapôs-se a produção orientada em função do perfil sócio-cultural do consumidor alvo. Esta mudança progressiva foi transversal a todas as actividades da vida humana e sintetizou uma nova abordagem ao espaço público (suas funções, formas e temporalidades). Por um lado, as torres gémeas pretenderam cristalizar no tempo a relação entre a Economia e Urbanismo servindo-lhe de símbolo. Por outro lado, a sua queda poderá intuir o início da procura do efémero na cidade e da sua constante redefinição morfológica e visual. Por último veremos que o período decorrido entre estes dois acontecimentos correspondeu a uma reformulação profunda na cartografia das cidades contemporâneas. Estes acontecimentos servem assim de âncora histórica, e não de referências concretas, porque são encarados como uma das faces visíveis das reformulações urbanas avançadas na época em que aconteceram. Durante o período decorrido entre os dois momentos históricos referidos tem-se anunciado constantemente a construção de diversas cidades utópicas que demonstram marcos da nossa “urbanidade pivot”, como procuramos verificar nos capítulos seguintes.

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INSTABILIDADE ECONÓMICA E SOCIAL

Segundo Edward Soja, em Postmetropolis, durante a década de ’60 emergiu em todo o Mundo uma crise urbana, sinal de que o crescimento económico do Pós-guerra nos países industrializados comportava problemas. As possibilidades de expansão desse crescimento estavam a chegar ao seu limite, e o modelo no qual se movimentava abeirava-se do fim. Após a reconstrução da Europa, destruída durante a Guerra de 1939-1945, assistiu-se à tomada de consciência, por parte de profissionais ligados ao planeamento e sociologia, de algumas insuficiências do Modernismo. De facto, algum do Movimento Moderno mostrou dificuldades em estabelecer a ligação entre os princípios conceptuais de um modelo teórico e as necessidades reais de uma população insatisfeita. Intuiu-se a busca da satisfação e do prazer, de descobrir nas coisas o sentido de cada dia, e encontrando-as nas especificidades de cada cultura. Supostamente o cidadão-consumidor tinha conseguido os bens necessários que tinha perdido durante a guerra (necessidades básicas de alimentação, segurança e essencialmente habitação) e que era aquilo que a economia continuava a oferecer. Neste contexto, os “produtos” disponibilizados tornarar-se-iam obsoletos porque o consumidor pretendia novas coisas que pudessem sustentar, e até aumentar, o grau de satisfação e prosperidade que entretanto atingira. A classe média já tinha visto os seus desejos realizados e, como resultado, o consumo começou a ser abandonado. Em resposta, os produtores e vendedores entenderam que apenas pela total colonização da vida diária, através da criação do acto de consumo, o capital poderia continuar a crescer. Com este fim, a proliferação de bens considerados supérfluos (música, moda, design ou arte) durante estes anos é o produto do capital procurando novos, mais lucrativos e mais sustentáveis canais de investimento. De facto, com a globalização da economia, e juntamente com a proliferação de meios de difusão cultural emergentes, assiste-se a uma redefinição de mercados. Tal redefinição de mercados manifestou-se, entre outras coisas, numa diluição de fronteiras que conduziu ao quase desaparecimento do conceito cidade-campo e à sobreposição de fronteiras estabelecidas por factores económicos, culturais, geográficos. Evidencia-se pois uma incerteza crescente relativamente ao papel da cidade num contexto aberto a mudanças temporais impossíveis de definir. Soja refere que “o que se iniciou durante este período pode ser descrito como um processo de crisis-generated restructuring que seria sentido a todos os níveis da vida humana, do global ao local, marcando outro ponto de viragem na geo-história do capitalismo urbano-industrial”.1 A conjugação destas alterações no tecido económico, social e urbano (redefinição de mercados, crescimento repentino das cidades e mobilidade dos cidadãos) colocou em causa um período de alguma estabilidade iniciado com o final da Segunda Guerra.

1. SOJA, Edward: Postmetropolis, Blackwell Publishing, Reino Unido, 2000, p95, tradução livre.


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CAPÍTULO 3: DA REVOLUÇÃO À QUEDA: PARA UM ENQUADRAMENTO ECONÓMICO-SOCIAL

Refira-se que após a reestruturação urbana posterior a 1945, o enquadramento histórico-urbanístico até aos nossos dias poderá ser delimitado por dois acontecimentos que resultaram na redefinição da História recente do Mundo. Estes acontecimentos servem, não como factos que originam os fenómenos entretanto verificados, mas como âncora histórica de delimitação social da evolução urbana. O primeiro destes acontecimentos remonta a Maio de ‘68, Paris, e inscreve-se nos distúrbios estudantis relacionados com os distúrbios sociais. O segundo, sendo recente, refere-se à queda das Twin Towers em 11 de Setembro 2001, Nova Iorque, e é o produto da crescente vaga contemporânea de terrorismo internacional. DISTÚRBIOS SOCIAIS

Maio de 1968 foi possivelmente um dos acontecimentos mais emblemáticos e significativos desde o pós-guerra de 1939-1945. Este fluxo de manifestações contra a ordem instituída não é exclusivamente Francês. Paris foi, paradoxalmente, dos últimos países onde chegaram estas manifestações. americanas em 1964-1965, na luta pelos direitos civis e contra a guerra do Vietname”.2 Mas foi em França,3 durante o mês de Maio de 1968, que o protesto se consagrou como símbolo de uma geração. Durante este mês Paris consagrou-se como símbolo da revolta estudantil que se alastrou por toda a Europa. Maio de ‘68 surgiu como caso sintomático de um fenómeno com ocorrência em várias geografias, porque foi o de maior impacto mediático devido à sua força e importância cultural. Foi uma revolta dos valores instituídos e a sua abrangência foi transversal a todos os quadrantes da sociedade: desde a inteligentsia da época à massa popular, passando pela população estudantil que lhe atribuiu força e vigor e a dose necessária de utopia pela sua juventude. A relevância deste fenómeno para o contexto urbano reside na tentativa de oposição radical às formas que a modernidade assume após a Segunda Grande Guerra (contra as formas de reprodução do saber e o seu papel social). Pela primeira vez os estudantes do Ocidente não pretendem acelerar a modernização, convertendo-se em classe dirigente, mas antes o contrário. Era a revolta, não contra os ricos e poderosos, mas “contra os que engordam às costas do povo”.4 Os jovens Europeus, com Daniel Cohn-Bendit à cabeça, decidiram vir para a rua porque “estavam fartos do papá, da alienação e dos dogmas, da prosperidade e da rotina, da ditadura familiar, das caducas estruturas universitárias. Queriam uma revolução nos costumes, menos autoridade, menos estado, mais oxigénio e liberdade e arejamento”.5 “Não seremos como os nossos pais, não queremos o poder, não queremos esta vida

2. ROSSANDA, Rossana: O Maio que veio da China e estalou em Paris. In: Século xx, Público, p510. 3. À época Francois Miterrand e De Gaulle eram os dirigentes políticos Franceses. Ao mesmo tempo o protesto estendeu-se desde Nanterre e a Sorbonne até Cairo, Berkeley, Belgrado, Dakar, Buenos Aires ou Praga. Nesta última, meio milhão de soldados do Pacto de Varsóvia violaram a cidade, num movimento que fica na Hístória como Primavera de Praga. 4. LEGUINECHE, Manuel: Aquele ano de 68. In: seculo xx, Público, p532. 5. Op. Cit.

Barricadas, Maio de ‘68, Paris.

Século XX, p 511.

Como refere Rossana Rossanda, “o rastilho tinha pegado fogo nas universidades norte-


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nem o consumismo. Não queremos a produtividade, nem a uniformização, nem a segregação da diferença”.6 Foi com estas palavras de ordem que as manifestações se alastraram rapidamente, dando origem a vários movimentos um pouco por toda a Europa. Estava dado o mote que contextualiza o rápido crescimento da Arquitectura e Urbanismo com base no jogo, na sedução ou no espectáculo. Para o bem e para o mal. De certa forma o que se intuiu foi a vontade do cidadão comum em se libertar do peso da vida diária e da própria natureza da cidade. O indivíduo considerava-se no direito de participar e fruir o objecto que lhe era dado a consumir, sendo visível a sua necessidade de divertimento e entretenimento. TRANSIÇÕES ECONÓMICAS

Kazis Varnelis7 refere, em A brief history of horizontality (onde examina a relação da arquitectura contemporânea espectacularizada, a cidade e o capital), que “Maio de ‘68 marcou a consecução do capitalismo tardio”.8 Como expõe Varnelis, “Maio de ‘68, não foi uma rebelião para agarrar os significados da produção, mas como última tentativa de recuperar o controlo da vida de cada dia – o que cada um faz fora da esfera do trabalho – mesmo sendo completamente submetido pelo capital. O resultado foi uma nova cultura industrial, apta a engrenar e explorar os desejos da juventude do dia para a transgressiva, avant-garde, e perseguição do puro prazer sensual”.9 Também Fredric Jameson,10 citado por Varnelis, afirma que “depois da Segunda Guerra Mundial o capitalismo entra num novo estado que vem alterar as formas de vida humana”.11 Nestas formas estão incluídos desde os meios de produção aos meios de consumo que resultaram numa diferente concepção da vida diária. Não sendo um fenómeno unicamente Europeu, conseguiu aperceber-se da sedimentação do capitalismo tardio, questionando-o paradoxalmente pelo consumo. Talvez por isso tenha resultado no acontecimento que marca uma nova ordem de coisas, funcionando como corolário sócio-político de um conjunto de mudanças em curso. Os distúrbios estudantis em Maio de ‘68 foram o ponto de partida para um repensar da cidade e urbanismo como modo de vida. Ao evidenciarem as mudanças efectuadas na vida diária dos cidadãos, revelaram a transformação ocorrida na vontade do indivíduo e até então imersa.

6. ROSSANDA, Rossana: O Maio que veio da China e estalou em Paris. In: Século xx, Público, p510. 7. Kazis Varnelis é crítico e historiador. O artigo referido foi publicado na Revista Pasages, nº45, 2003. 8. VARNELIS, Kazys; A brief History of Horizontality: 1968/1969 to 2001/2002, In: Pasages de Arquitectura y critica, ano 5, nº45, 2003, p38, tradução livre. 9. Op. Cit. 10. Fredric Jameson (1934), constrói a sua análise a partir de um Marxismo metodológico que estuda as relações entre o desenvolvimento do capitalismo e a produção cultural, e do imaginário colectivo que marca a sua evolução histórica. Veja-se The Postmodernism, or the late cultural logic of capitalism (1991). 11. VARNELIS, Kazys; A brief History of Horizontality: 1968/1969 to 2001/2002, In: Pasages de Arquitectura y critica, ano 5, nº45, 2003, p39, tradução livre.


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CAPÍTULO 3: DA REVOLUÇÃO À QUEDA: PARA UM ENQUADRAMENTO ECONÓMICO-SOCIAL

É aqui notória a necessidade de reformulação positiva dos princípios pelos quais se regiam os sistemas de interpretação da realidade (do capitalismo ao urbanismo e arquitectura) adivinhando-se neste ponto um momento de viragem que, segundo Soja se insere numa terceira fase de crise social. REESTRUTURAÇÃO E MUDANÇA

Soja refere que o primeiro desses períodos de reestruturação e mudança se seguiu à Idade do Capital terminando no final do séc. XIX num período chamado Longa Depressão na Europa. O segundo correspondeu ao período compreendido entre os anos ‘20 e o fim da Segunda Guerra Mundial. A terceira fase de que fala Soja, que esteve profundamente ligada aos nomes de Henry Ford12 e John Maynard Keynes,13 emergiu entre 1920 e 1940. Soja refere ainda que nesta altura foi definindo o crescimento do Pós-guerra que viria a ser conhecido como Fordista e Keynesiano. Segundo Soja, esta fase Fordista-Keynesiana do desenvolvimento capitalista entrou “num período de crise em finais dos anos 60, e ainda hoje continua a ser significativamente reestruturada, e levando muitos adémicos a classificar a era actual como Pós-Fordista, Pós-Keynesiana, Pós-industrial, Pós-moderna, etc”.14 PERSPECTIVA URBANA

Acrescente-se ao fenómeno sociológico de mobilização das massas pela defesa do controlo da vida diária, a liderança intelectual destes distúrbios. Esta liderança atribuiu a verdadeira importância à “revolta” no plano físico e teórico da urbanidade, porque tentou transportar a vontade dos cidadãos para o plano social e urbano. Esta liderança é assegurada por Henri Lefebvre,15 na altura a “cabeça” do Instituto de Sociologia da Universidade de Nanterre. A acompanhar estes acontecimentos estavam também Alain Tourain,16 Jean Baudrillard17 e Manuel Castells.18 Soja expõe de forma clara, em Postmetropolis, a perspectiva de Lefebvre em relação à cidade. Esta perspectiva baseia-se no “direito à cidade, na luta social pela produção do espaço e na necessidade de uma revolução urbana específica, introduz uma nova

12. Henry Ford foi um dos grandes personagens do início do automobilismo. Criou a Henry Ford Com-

pany e a Ford Motor Company, onde iniciou a fabricação de carros em série. Henry Ford introduziu inovações importantes tanto no campo da mecânica como no da gestão: vendas a prazo, fomento da exportação, divisão do trabalho, sistema de retribuição por prémios, etc. 13. John Maynard Keynes (1883-1946) foi um dos mais importantes economistas da primeira metade do século XX. Influenciou a economia causando modificações tanto na teoria como na prática económica. O impacto do seu trabalho recaiu sobre o pensamento político e sobre as nuances capitalistas. 14. SOJA, Edward: Postmetropolis, Blackwell Publishing, Reino Unido, 2000, p111, tradução livre. 15. Henry Lefebvre defendia, nos anos ‘60, uma cidade completada pela sociedade. 16. Alain Tourain é um sociólogo francês nascido em 1925 e fundamenta a sua perquisa com base numa sociologia da acção. 17. Jean Baudrillard (1929) tem em Le sisteme des objects (tese de doutoramento sob orientação de Lefebvre) a sua primeira obra. Foi um dos responsáveis pelo “sucesso” relativo de Maio de ‘68. 18. Manuel Castells é o autor de obras como Crisis urbana y cambio social (1981).


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visão em relação às políticas e ideologias do espaço urbano bem como acerca da geo-história da modernidade e do capitalismo. Mais do que ninguém, a sua criatividade iniciou, se não uma actual revolução urbana, uma revolução conceptual nos estudos urbanos que culminariam numa pronunciada mudança espacial que viria a ser sentida não apenas nos estudos urbanos mas em todas as ciências humanas”.19 Lefebvre foi o teórico impulsionador do repensar da forma e sociabilidade da cidade e a sua influência na transformação radical dos estudos urbanos culminaria no seu livro La Production de l’ espace de 1974. Neste livro Lefebvre refere mais claramente as “fundações filosóficas para a dramática reconversão da especificidade espacial do urbanismo como objecto teórico bem como contexto problemático e consciente para uma acção política progressiva”.20 FRACASSO DOS DISTÚRBIOS

Contudo, com o fracasso de Maio de ‘68, o impacto das ideias de Lefebvre foi aproveitado por Manuel Castells que, criticando-o, reformulou a geo-história desta terceira revolução urbana. Castells refere que “o desenvolvimento do capitalismo industrial não trouxe uma fortificação da cidade mas o seu virtual desaparecimento enquanto sistema social relativamente autónomo, organizado à volta de objectivos específicos”.21 Do seu ponto de vista o capitalismo industrial tomou o controlo da produção social do espaço urbano. Manuel Castells, citado por Soja, expõe o pensamento da cidade que liga “espaço e sociedade num processo histórico de produção social que expressa e executa os interesses da classe dominante e implementa o poder do Estado, incluindo o domínio e condução da própria vida familiar”.22 Refere que, “ao mesmo tempo, as formas espaciais que surgiram destes processos sociais, se tornaram pontos centrais da resistência das classes exploradas, sujeitos oprimidos, mulheres dominadas. Finalmente, de tempo a tempo, estas comunidades de resistência cristalizam-se em poderosos movimentos sociais que desafiam o significado da estrutura social tentando reorganizar o Espaço Urbano visando que este possa comportar novas funções, formas, interesses, projectos, protestos e sonhos”.23 Para corresponder a novas expectativas exteriores à forma espacial, torna-se determinante reformular o urbano em função da vontade de quem lhe atribui qualidades. Aqui residiu uma enorme tensão entre as necessidades reais de uma população satisfeita com as necessidades básicas e um mercado em declínio. Este mercado necessitava de encontrar nichos de consumo, fomentando comportamentos inseridos numa linha espaço-necessidades até então inexistente.

19. SOJA, Edward: Postmetropolis, Blackwell Publishing, Reino Unido, 2000, p101, tradução livre. 20. Op. Cit. 21. Op. Cit. 22. Op. Cit. (Veja-se também The city and the Grass Roots, 1983) 23. Op. Cit.


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CAPÍTULO 3: DA REVOLUÇÃO À QUEDA: PARA UM ENQUADRAMENTO ECONÓMICO-SOCIAL

A conjugação entre as necessidades da população e a criação de mecanismos que fomentem o consumo individual promove uma constante reformulação da ofertaprocura. Esta reformulação traduz-se em alterações, com maior ou menor expressão, na forma e organização do espaço urbano comum do colectivo. ESPAÇO vs. NECESSIDADES

A partir desta inter-relação espaço-necessidades, Nuno Portas colocou uma questão de resposta não muito fácil em A arquitectura para hoje de 1964: “a da aceleração das mudanças que, por via das aquisições da técnica, da promoção social, das comunicações de massa, etc., se operam incessantemente nos conteúdos programáticos das funções arquitectónicas ou territoriais”.24 Portas explica por outras palavras: “como defender uma estética da adesão ao que é movediço, fugaz e rapidamente posto em causa por factores extrínsecos, emergentes e criadores de novas necessidades funcionais?”25 Esta constante tensão contida no espaço público gira à volta da diferença, por vezes de poder, entre as classes sociais, entre homens e mulheres, entre Estado e sociedade civil, que tem analogia na evolução das especificidades espaciais do Urbanismo. A este conjunto de factores acrescentamos as reformulações económicas e tecnológicas que aceleraram irreversivelmente a cartografia da urbanidade. A sua inclusão na definição do espaço comum da colectividade introduziu um novo conceito de global-local que tornou mais difícil a satisfação das especificidades de cada cidade-sociedade. Ou, pelo menos, existe a tentação de generalizar porque as semelhanças entre urbanidades são cada vez mais. Por outro lado, David Harvey,26 tal como Castells, defendeu “que as particularidades da paisagem, as especificidades da geografia urbana, são criadas à imagem do capitalismo, desenhadas sobretudo para facilitar o processo de acumulação”.27 Sendo a cidade o espelho das sucessivas sociedades que a pensam e lhe dão forma (ou como afirma Castells, sendo a própria sociedade) esta é construída à imagem da medida do seu tempo e em resposta às várias interrogações características de uma determinada época. Este período de incerteza existe entre nós ainda hoje e desde então (pressupomos que esta incerteza é uma constante na história das civilizações). A globalização do acesso e difusão de informação, bens ou serviços introduz um novo factor de sociabilidade: a contaminação cultural e criativa que esbate a diferença acentuando as afinidades. REPRESENTAÇÃO ECONÓMICA

Por outro lado, as Torres Gémeas manifestaram, na época, o princípio da dispersão

24. PORTAS, Nuno: A Arquitectura para hoje: finalidades, Dissertação para concurso de professor de arquitectura na ESBAL, 1964, p61. 25. Op. Cit. 26. David Harvey, autor de Explanation in Geography de 1969, defende que é necessário trabalhar com os factos da realidade, processá-los e analizá-los. 27. SOJA, Edward: Postmetropolis, Blackwell Publishing, Reino Unido, 2000, p99, tradução livre.


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do Capital. Pelo que simbolizaram em termos de imaginário urbano, mas também por aquilo que representa a sua ausência na construção da imagem de Nova Iorque, foram a face mais visível da construção que pretendeu simbolizar para o exterior um estado económico-social. www.mabuse.cl, 2005.

Começadas em 1966 e terminadas em 1972, foram um ícone de uma era que já então se prognosticava passada, apesar de serem um produto desse tempo. Foram um monumento a uma economia baseada na produção industrial num tempo que deixava essa economia para trás. Uma tentativa de exteriorizar a concentração Torres Gémeas

quando se adivinhava a dispersão de meios e serviços. Segundo Andrea Branzi,28 o projecto da cidade tinha chegado ao fim, pelo menos no que diz respeito à arquitectura. As Torres Gémeas foram os últimos arranha-céus significativos construídos na América do Norte e Europa. Isto porque, sendo elas o reflexo para o exterior de uma economia capitalista, e estando esta em plena reformulação não era mais necessário recorrer à representação. Da monumentalidade expressa pelas torres gémeas derivava um conjunto de sistemas de representação que à altura da sua construção começavam a dar lugar a outras formas de penetração no imaginário colectivo que não pela imponência ou marcação territorial. Como refere Branzi, o Empire State Buiding na época da sua construção foi, também ele, uma proposta de representação de um novo conceito de catedral. Com a proliferação de “catedrais” o seu impacto foi-se tornando irrelevante dado o elevado número de símbolos que pretendiam expressar a mesma situação. Com isto é criado um cenário urbano (demasiado) uniforme dentro da diversidade tornandose necessário o recurso a outras formas de representação inovadoras. É aqui que entra o fenómeno de dispersão da representatividade. A monumentalidade dá lugar, hoje, ao factor presença.

PRESENÇA ECONÓMICA

Tornou-se evidente a entrada num período de reconstrução do imaginário urbano a partir do declínio da economia que determinava a construção do anterior modelo. Por este simbolismo, a queda das Torres Gémeas em 2001, poderá ter representado o fim de uma era do representativo-figurativo, porque abrangeram, do início ao fim, a redefinição de uma lei de mercado. Esta nova lei de mercado passa a valorizar o efémero e o consumo do supérfluo ou construído em massa. Hoje, a construção da urbanidade é expressa pela conjugação da necessidade de criar novos produtos e formas de os apresentar ao consumidor. Criando surpresa no indivíduo, e confrontando-o com uma nova realidade de apropriação, redefine a forma física da urbanidade. Esta redefinição da urbanidade acontece porque estão presentes os seus símbolos (publicidade, imagem, etc.) na urbanidade que nos rodeia, e não pela imagem que temos das suas sedes. REPRESENTAÇÃO vs. PRESENÇA

O desaparecimento das Twin Towers é, a nosso ver, a pedra de fecho de um período

28. Andrea Branzi é arquitecto e foi um dos fundadores do colectivo Italiano Archizoom Associatti.


CAPÍTULO 3: DA REVOLUÇÃO À QUEDA: PARA UM ENQUADRAMENTO ECONÓMICO-SOCIAL

de gestação de uma nova ordem de coisas, baseada na inovação da relação entre consumidor e objecto consumido. A partir desse momento demo-nos conta da sociedade altamente capitalizada em que nos movimentamos. À produção massificada da década de 60, contrapõe-se agora a produção orientada em função do perfil sócio-cultural do consumidor alvo. Tal verifica-se em todas as actividades transversais à vida humana sintetizadas numa nova abordagem ao espaço público (suas funções, formas e temporalidades). Se as torres gémeas pretendiam cristalizar no tempo a relação entre capital e fenómeno de construção urbana servindo-lhe de símbolo, a sua queda intui o início da procura do efémero na cidade e da sua constante redefinição morfológica e visual. Resultado: a sua missão falhou redondamente porque cada vez mais a sociedadecidade é definida pela mudança, pela adesão a uma estética do efémero. A reformulação é a substância da qual a Metrópole que nos contém é feita. Cada um é diferente dos outros e pela sua diversidade um é igual aos outros e intercambiável. A vontade de fixação de uma medida temporal torna-se impossível, e isso é visível com a passagem desse mesmo tempo que se pretende cristalizar na história. A Metrópole que contém todas as diversidades torna-se a Metrópole Híbrida ou Genérica29(de que falaremos) “onde tudo já foi inventado, feito, vendido ou testado, o único caminho para crescer e criar algo novo é encontrado nos espaços do imaginário ético. Criados pela cultura, pelo sonho de um mundo que não existe mas pode vir a existir e que podemos começar a planear”.30 O período decorrido entre Maio de ‘68 e o 11 de Setembro de 2001 poderá ter sido o reformular de um conceito de sociedade e cidade já passado e impossível de recuperar. Tal como o capital, também a sociedade se move (agora) por territórios de indefinição, não se centralizando, aproveitando o fenómeno de dispersão para se infiltrar nas mais diversas culturas e geografias. É por isso que o 9-11 persiste pela sua carga simbólica: a queda definitiva da tradicional acumulação de capital substituída por outra, mais flexivel e adaptável às novas exigências entretanto criadas. É agora mais claro que esta crise urbana expôs profundas fraquezas nas teorias e práticas urbanas que foram desenvolvidas até então. De um período de certezas absolutas, salvaguardado pelo elogio da mecânica e da velocidade que esta proporciona, caiu-se num vazio conceptual. Este vazio conceptual verificou-se a partir do momento em que foram postos em causa os princípios generosos do Moderno e os confrontaram com teorias urbanas emergentes defensoras de um futuro incerto. Este futuro é expresso hoje, na cidade, das mais variadas formas. Porque este fenómeno de antecipação não é exclusivamente contemporâneo, existe pelo menos desde o pós-guerra e por vezes, como refere Gonçalo Furtado, desde a própria Arquitectura Moderna como veremos nos capítulos seguintes.

29. Para Branzi, a metrópole contemporânea é a Metrópole Hibrida; para Koolhaas esta é Genérica. Apesar de diferentes nomenclaturas, a definição é análoga: uma cidade abstracta e sem qualidades figurativas ou representativas, reformulando-se continuamente. 30. BRANZI, Andrea: La Quarta Metropoli: Design e cultura ambientale, Milão, Domus Academy, 1990, p5, tradução livre.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO


CAPÍTULO 4: “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS”

4.│ “Tendências Alternativas”

O capítulo 4, denominado “Tendências Alternativas”, tenta abordar o que para nós pode constituir um ponto de partida para novas perspectivas na forma de percepcionar, pensar e planear o urbano. Ao reflectir (tomando alguns pontos a facto e abandonando outros) sobre o Moderno, não deixa de funcionar como uma crítica evolutiva e positiva, para a sua reformulação. Neste contexto intui-se que os programas marginais em arquitectura das últimas décadas fornecem mecanismos de reflexão acerca da Urbanidade contemporânea. Remetendo-nos para anos de um intenso fervilhar de ideias e concepções, pensamos que poderemos encontrar elementos que, na sua utopia, nos permitem determinar uma evolução da cartografia da urbanidade (encontrando possíveis urbanidades pivot). O ponto 1, “CIAM vs. TEAM X” expõe de forma sintética o processo de transição dos CIAM para os Team X. Foca-se a sua preocupação com uma possível estandardização do indivíduo, salientando vários momentos e tudo o que nasceu nesta primeira crise. Refere-se, a título exemplificativo, a experiência Situacionista como uma das faces visíveis do “aproveitamento” de diversos profissionais face à crítica interna aos CIAM. O ponto 2, “Tendência para as tendências” refere vários movimentos alternativos que proliferaram um pouco por toda a Europa e que resultaram, em parte, das novas perspectivas introduzidas pelos Team X no panorama Arquitectónico e Urbanístico da época. Estas tendências são hoje consideradas um “Movimento” mas, na época, os seus protagonistas rejeitavam claramente tal denominação.Isto devia-se à sua defesa pela pluralidade de pensamento e, consequentemente, de propostas. Tal levou estes grupos a auto-definirem-se como “centros de operação”, ou “operadores”, na defesa de uma (suposta) desmistificação da sociedade, e da relação do autor com o utilizador. Estas tendências, julgando-se radicais (salientaremos que não o foram de facto) procuraram algo próximo da arte total através de uma suposta transversalidade artistica. O que se chamou “Arquitectura Radical” abrangeu o período que abraça duas das décadas mais ricas ao nível de pensamento arquitectónico e artístico: as décadas de ‘60 e ‘70. O ponto 3, “Uma tendência para a Tendência”, tem foco na tendência Italiana, iniciada com Superarchitettura, a exposição manifesto dos Superstudio e Archizoom. Com esta exposição foi colocada em marcha uma arquitectura pop que aceitava os princípios da superprodução. Destas suas intenções resultaram projectos para “supercidades” que procuravam uma maior relação do indivíduo com o seu meio através da não-referenciação ao território. Embora em contextos distintos, o contexto Italiano parece-nos significativo para pensar futuras evoluções que se podem tornar operativas no contexto em que o estudante desta prova irá exercer: Portugal.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

4.1. │ CIAM vs. TEAM X

RECONSTRUÇÃO EUROPEIA

No período do Pós-guerra, com a necessidade de reorganização da Europa, os princípios da Carta de Atenas foram absorvidos em pleno pela sociedade. Dada a sua racionalidade e aproximação aos meios de produção, através da estandardização de formas e programas e consequente economia de recursos, a “cidade funcional” foi então encarada como a solução para os problemas de reconstrução urbana. Deste modo foi facilitada a sua proliferação pelas mais diversas geografias. No entanto, na década de ‘50, alguns destes pressupostos começaram a ser postos em causa. O racionalismo cartesiano e a estandardização tecnológica produziam, por vezes e segundo os seus críticos, alguma uniformidade sobre o ambiente urbano europeu que podia ser problemática. Assim, após anos de maior consenso e de enorme influência na definição dos conceitos e formas a desenvolver (quer através do Estilo Internacional, quer da Carta de Atenas1) os CIAM vieram a perder vitalidade depois do fulgor proporcionado pela reconstrução maciça da Europa. REFORMULAÇÃO DO MODERNO

O descontentamento de alguns profissionais foi, em parte, motivado pela descrença na concepção de indivíduo-tipo por vezes proposta pelo Movimento Moderno. As condições sociais e humanas seriam então reequacionadas, com a pretensão de aproximar o sujeito ao urbano, o arquitecto à sociedade, e priviligiar a participação do sujeito na concepção do ambiente urbano. Este debate antecipou, no campo da arquitectura, o que os filósofos chamaram o abalar das grandes narrativas. Na arquitectura intuia-se a inadequação do conceito de Modernidade relativamente à sociedade que então se delineava, ou pelo menos a sua reformulação. O que alguns constatavam como um desfasamento entre arquitectura e sociedade, conduz a uma nova postura que origina todo um repensar da prática urbanística e arquitectónica. Conforma-se um ambiente propício à redefinição da disciplina e ao debate de novas formas de pensar e encarar o urbano, em paralelo com a instabilidade sócio-cultural que então se atravessava. Muitos dos profissionais, de diversos quadrantes, “denunciaram” uma possível de-

1. No CIAM IV em 1933 e subordinado ao tema “The functional city”, no qual se efectua uma análise a 34 cidades e se propõem soluções para os problemas encontrados, as conclusões daí retiradas resultam num documento publicado sob o nome The Athens Charter e é um dos mais controversos documentos produzidos por estes. Defende a cidade funcional e introduz o cidadão no Bloco Habitacional separado por zonamentos.


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CAPÍTULO 4: “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS”

sumanização da cidade, e por consequência da sociedade. Situação que surge na sua expressão mais visível do interior do CIAM que origina a criação dos TEAM X por alguns dos seus membros. EVOLUÇÃO vs. REVOLUÇÃO

Nomeadamente foi o grupo de jovens arquitectos incumbidos da concepção da agenda do décimo CIAM em Dubrovnic, no ano de 1956, que resolveu contestar o rumo que os postulados defendidos pelo movimento estava a tomar. Auto-apelidados TEAM X, pretendiam um misto de evolução e revolução. Não foi portanto defendida uma ruptura com o Movimento Moderno, mas sim a sua redefinição enquanto Movimento. Conceitos como a participação do utilizador no processo criativo, a rejeição da ultra simplificação e a adopção de conceitos como complexidade e contradição em Arquitectura, assim como a rejeição do Estilo Internacional completaram o conjunto de postulados defendidos por este grupo de profissionais. Com directrizes comuns, visaram introduzir a ideia de especificidade (geográfica, cultural, social) no acto de projectar. É neste ponto que reside o principal e mais visível afastamento em relação ao Movimento Moderno. O afastamento pretendido pelos TEAM X foi em parte motivado pelo receio de que uma análise simplista do indivíduo (entendido como Homem-tipo) deformásse a visão do arquitecto em relação à cidade-sociedade. Temiam que esta análise, que generosamente tentava a melhoria das condições de vida do sujeito, restringisse a experiência colectiva no tempo e no espaço, e do indivíduo nessa sociedade. E temiam também que se culminasse, de certa forma, encontrando uma solução tipo muito baseada nas condicionantes económicas e descurando a componente social da Arquitectura e Urbanismo. Desta forma, o receio dos efeitos que a uniformização de planeamento e projecto poderia vir a ter na cidade e nos cidadãos conduz a que o grupo composto e desenvolvido por Jacob Bakema, Georges Candilis, Rolf Gutmann, William Howell, Alison e Peter Smithson, Aldo van Eyck, John Voelcker e Shadrach Woods, manifestasse esse descontentamento aos seus pares. Têm por objectivo a introdução das ciências sociais e humanas no acto de projectar, introduzindo conceitos como cultura, história e regionalismo.2 Por outro lado, revelam interesse nos “sistemas”, não nos seus elementos mas nas suas funções. Pretendiam promover conceitos individuais de identidade arquitectónica e social, escala e significado, objectivos que foram compilados em texto num trabalho de Ali-

2. Veja-se por exemplo os casos de Távora em Portugal, ou Coderch em Espanha. Foi promovida uma busca pelas especificidades regionais, tentando encontrar um consenso entre Moderno e Arquitectura tradicional: a terceira Via. No caso Português, foi desta tendência que derivaram grande parte das propostas arquitectónicas actuais.


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son Smithson intitulado The TEAM X Primer3 e que pretendeu ser a síntese do trabalho dos TEAM X. Em 1956, numa exposição denominada “How is Tomorrow”, em Londres, Alison e Peter Smithson, em conjunto com Eduardo Paolossi, apresentam a Poor Cabin. A nosso ver, esta exposição contribuiu também para a pedra de toque para um novo enquadramento social da arquitectura. Em 1961 Bakema defendeu que “o homem necessita de se identificar com a sua própria terra, mas não apenas com a cidade onde se localiza. O sentido de pertença é uma necessidade emocional básica – as suas associações são de ordem simples. Do sentido de pertença – identidade – advém o enriquecimento da boa vizinhança. A pequena rua estreita do bairro ocorre onde o desenvolvimento espacial frequentemente fracassa. A arquitectura e o planeamento urbano são simples expressões da conduta humana. É objectivo de um arquitecto harmonizá-las – unindo a liberdade pessoal ao ambiente local. A nova sociedade será aquilo que ao indivíduo seja permitido fazer para expressar a sua opinião pessoal acerca da vida total”.4 Dentro dos CIAM os arquitectos não falavam então em uníssono, e era visível a fracturação existente entre os diversos profissionais e as ideias por si propostas e defendidas. Foi talvez devido ao contributo destes arquitectos que se abriram novas possibilidades que valorizam a pluralidade, especificidade e, acima de tudo, o pincípio da aceitação do individual enquanto sujeito em detrimento do individuo-tipo. Foram abertas novas perspectivas a nível de projecto e métodos de análise. Tal criou um ambiente no qual germinaram rapidamente núcleos de arquitectos que aproveitaram a onda de dispersão para se assumirem como críticos da produção arquitectónica sua contemporânea. INTERNACIONAL SITUACIONISTA

Gostaríamos de voltar a referir, como exemplo, o Situacionismo que estava no seu expoente. Com o Maio de 68 atinge o clímax desintegrando-se quase de seguida. A Internacional Situacionista (I.S.) reduziu a experiência urbana a um fenómeno quase totalitário pondo em prática, de forma algo radical, uma experimentação urbana exclusivamente para a condição sensorial do indivíduo.

3. Um primeiro texto, intitulado Doorn Manifesto, surgiu em 1954. A seguir ao CIAM IX e após reconhecida uma partilha de ideias, Bakema, Hovens Greve, Smithsons, Voelcker, D. van Ginkel e van Eyck encontram-se em Doorn em janeiro de 1954 para desenvolver as suas ideias. Estas ideias foram materializadas nesse documento, que enfatiza a importância da associação humana no ambiente urbano e também a importância de considerar qualquer comunidade em relação com o seu contexto. 4. Bakema, 1961


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Raramente antes da IS os artistas (plásticos, poetas, arquitectos, cineastas) pensaram o mundo de uma forma tão global e se tornaram tão revolucionários ao mesmo tempo na teoria e na acção. Esta corrente constituiu uma vanguarda artística que pretendeu a ultrapassagem das formas vigentes de arte e arquitectura colocando todas as energias ao serviço da revolução. A I.S. é criada em 1957, numa conferência em Cosio d’Aroscia, Itália, por membros da Internacional Letrista e do Movimento por uma Bauhaus Imaginista e resultou de diversas correntes de ideias: Dadaísmo,5 Surrealismo6 e Letrismo.7 Durante todo o período de actividade, a IS preocupou-se sempre em revelar os sintomas de decadência de uma sociedade e em analisar as novas formas de revolta suscitadas por essa sociedade. Como aconteceu, por exemplo, com as revoltas da comunidade negra de Los Angeles em Agosto de 1965. Apoiou todas as iniciativas operárias capazes de produzirem as suas próprias palavras de ordem, sem dependerem de sindicatos ou de partidos. “Para a IS, o Maio de 68 representava afinal a verificação das suas teses: um momento da história no qual a dissipação do pesadelo espectacular permitiria que os cidadãos voltassem a poisar os pés na terra. Porém, a partir de 69 o movimento parece ter entrado definitivamente em declínio. Em vez de ser o esperado começo, o Maio de 68 foi uma espécie de clímax para a vida da Internacional, a qual, após uma série de novas exclusões, se autodissolveu em 1972, sem qualquer espécie de nostalgia e anunciando outros tipos de luta: contra o nuclear e a poluição, ou pelo reconhecimento das minorias sexuais”.8 Eis então que, num tempo em que Racionalismo (e sua uniformização de conceitos e formas através da padronização do Funcionalismo) perdia fulgor, e durante a tentativa dos Situacionistas em transformar a experiência urbana num conjunto de teorias de deambulação pela construção urbana, surgia a reacção a estes pressupostos do desagrado de muitos profissionais.

5. Surge em 1916 e procura romper com os valores e princípios estabelecidos pela sociedade de então. A palavra que lhe dá o nome – dada – não tem outro significado senão a sua ausência, sendo portanto a essência deste movimento. Com sede no Café Voltaire em Zurique, fundado por Hugo Ball e ao qual se juntam Hans Arp, Marcel Janco e Tristan Tzara. A sua enorme actividade teórica leva-os a serem conhecidos em toda a Europa conquistando deste modo a adesão de artistas como Marcel Duchamp ou Francis Picabia. Propunham a actuação interdisciplinar como única maneira possível de renovar a linguagem criativa. Efémeo mas eficaz, o Dadaísmo preparou o terreno para movimentos tão importantes como o Surrealismo e a Arte Pop. 6. Tem origem com a publicação do “Manifesto do Surrealismo”, de André Breton, em 1924 e é a última das vanguardas europeias que sucede ao Dadaísmo radicalizando as suas propostas de liberdade, anti-convencionalismo e anti-tradição dos valores da cultura ocidental. Traz à tona os impulsos das regiões ainda inexploradas da mente, recorrendo aos temas fornecidos pelo inconsciente e subconsciente: o acaso, a loucura, os sonhos, as alucinações, o delírio ou o humor. 7. A Internacional propôs-se realizar na vida quotidiana as conquistas da poesia Moderna. Os letristas de Potlacht desdenhavam as artes como exercício “ocioso”. No seu entender arte deveria pressupôr acção. 8. http://zope.interaction-ivrea.it/inflatedego/Inflatable; 25/06/2005

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4.2. │ Tendência para as Tendências.

TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS

Refira-se que o clima de contestação para com a linha mais dominante no processo de criação e inovação proliferou em diversos contextos geográficos.9 Uma nova geração de arquitectos, que não esteve directamente envolvida na Segunda-Guerra Mundial, pretendeu refundar a disciplina arquitectónico-urbanística, por vezes em função do que eles entendiam ser as suas origens. Tais colectivos pretenderam repensar e refundar a Arquitectura, recentrando-a na relação do sujeito, com a tecnologia contemporânea e na interacção do indivíduo com o que consome (comercial, cultural, espacial). Tal aconteceu porque, como refere Peter Cook no artigo Natalini Superstudio, existia na época “uma exultação que deriva[va] do reconhecimento do Mundo das audácias privadas/desejos”.10 Esta exultação era resultado de “um [certo] sentido conspirativo partilhado por todos os membros de todos os grupos que se estabeleciam na Europa e Japão, Estados Unidos e mesmo Rússia (NER Group), lançados contra uma tendência comum: o contentamento dos nossos contemporâneos em se manterem a salvo, agregados aos arquitectos mainstraem”.11 ESPAÇO CULTURAL

De facto, estas experiências alternativas estiveram presentes em vários contextos geográficos. Porém, a nosso ver, e apesar do “sentido conspirativo” referido por Cook, os membros dos colectivos que deram forma a esta “Tendência Alternativa”, não pretenderam ser um movimento unitário mas apenas um espaço cultural onde interagiam vários centros de operação distribuídos por diversas geografias. O que pretendiam era constituir um espaço de reflexão e crítica onde cada centro de operação poderia questionar os conceitos e estratégias que orientavam a construção de uma civilização industrial (a base da civilização da época). Efectivamente, e tendo em conta as palavras de Andrea Branzi, fundador do colectivo Italiano Archizoom, esta corrente foi “um conjunto de experiências que possuem a car-

9. Em Inglaterra, o colectivo Archigram pretendeu explorar um método de análise e concepção urbana (a estética perversa do efémero e comercial ganhou aqui preponderância) com incidência na relação entre indivíduo e sociedade-cidade. Tal introduziu na cidade os conceitos de mutabilidade e adaptabilidade. Na França Yona Friedman propôs aglomerados urbanos conectados em redes de cidades, sobrepostas e intermináveis, enquanto os Utopie Groupe e Architecture Principe tentaram reinventar a relação do indivíduo com o seu ambiente através de engenhos pneumáticos. Na Áustria estas experiências foram uma forma de matriz de suporte através da qual seria possível quebrar a obscuridade e a segregação auto-imposta pelas diversas disciplinas. Por esta razão, o trabalho de Hans Hollein, Walter Pichler entre outros jovens arquitectos e artistas plásticos, tende a interpretar a cidade como um condensador de comunicações (escleróticas). Na Itália estas experiências oscilam entre o Design e Política, apresentando projectos para cidades ilimitadas, tornadas uniformes através do controlo climático e optimizadas com ligações à informação. Archizoom Associatti e Superstudio foram a sua expressão maior. 10. COOK, Peter: Natalini Superstudio. In: Architectural Review, nº1021, p48, tradução livre. 11. Op. Cit.


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acterística comum de se colocar de fora da linha recta profissional e de relançar, em diferentes direcções, uma refundação radical de toda a disciplina arquitectónica”.12 A refundação da disciplina arquitectónica era o suposto objectivo e, por isso, a palavra Radical surge como uma referência directa ao termo “raiz-origem” e pretendia exprimir esse propósito: aproximar a arquitectura da vida e o arquitecto das necessidades-desejos reais do seu interlocutor. Era pretendida uma maior atenção às relações existentes entre arquitecto-projectista e cliente, para que o produto final reflectisse a vontade do consumidor. Isto é, na relação do proposto-construído com o sujeito que lhe atribui carácter. Atribuiam ao consumidor, paradoxalmente, a responsabilidade última do produto do qual usufrui e deseja usufruir, numa tentativa de recolocar o indivíduo na rota do ambiente contemporâneo do qual faz parte. Nestes parâmetros, para estes “centros de operação”, o papel do arquitecto resumia-se a disponibilizar os meios de representação ao seu dispôr de modo a encontrar o desejo do cliente: não eram pretendidos programas ou estratégias uniformes porque era defendido o direito de cada um fazer e consumir a sua própria cultura. Com este objectivo, o kitsh, por exemplo, surgia frequentemente como alibi perfeito para referenciar o indivíduo à obra projectada-construída e a transversalidade das suas abordagens permitia intervir em todos os quadrantes da vida social. ARQUITECTURA INCLUSIVA

De facto, estes “centros de operação” pretenderam em grande escala a busca de algo próximo da arte total,13 procurando uma arquitectura como fenómeno inclusivo de todas as formas de expressão artística. Para estes jovens arquitectos, qualquer campo de acção era um campo válido de intervenção porque, como afirmou Hans Hollein, “tudo é arquitectura”.14 A ideia de inclusão total de elementos no projecto de arquitectura é o objectivo porque, no final, o projecto deverá ter sido pensado em todas as suas vertentes, do Da cidade ao objecto de design usado no dia-a-dia, tudo se havia transformado em arquitectura. Foi deste modo que intentaram revolucionar os conceitos arquitectónico-urbanísticos, tentando inventar novos mundos, criando pequenas utopias, jogos e situações irónicas e divertidas, fundando um (suposto) “radicalismo”. Para isso apostam na diferença de representação gráfica e de novas interpretações da realidade circundante, denunciando “um desentendimento entre o Estilo Internacional e a vida, entre a arquitectura, funcionalismo e cultura”.15

12. BRANZI, Andrea: A Long-term Strategy. In: Casabella, nº 402, Junho 1975, p8, tradução livre. 13. O termo Arte Total foi proposto pelo crítico de arte Adrian Henri para descrever o rico panorama de artwork ambiental, instalações e performances que estavam a ocorrer nas décadas de 60 e 70. Muitos artistas estavam descontentes com o facto de a arte estar restringida ao atelier e decidem transportá-la para as ruas e espaços públicos. Construindo arte com a qual o público pudesse interagir procuraram que esta chegasse à maior audiência possível. Joseph Beuys, Christo, Walter de Maria, Les Levine, Michelangelo Pistoletto, por exemplo, foram alguns dos artistas que tentaram trazer a arte para a rua. 14. SKREINER, Wilfried: Finding out architecture. In: Casabella, nº 371, Nov.1972, p25, tradução livre. 15. No-Stop Design-Interviewing Andrea Branzi. In: www.designvillage.it, 07/08/2004, tradução livre.

Supersurface, Superstudio,1971.

www.architettura.supereva.it, 2004

formal ao social.


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O SUJEITO INDIVIDUAL

Para os operadores desta “radicalidade”, o desentendimento entre as especificidades da cultura-indivíduo e as premissas de projecto foi um dos pontos que fomentou a crítica ao Modernismo, porque promovia, no seu entender, um afastamento do cidadão da cidade e sua urbanidade. Tal como descrito, acentue-se, no ponto dois da carta de Atenas, também estes colectivos valorizavam a condição individual, que “justapostos ao económico, ao social e ao político, valores de ordem psicológica, ligada à pessoa humana, introduzem na discussão preocupações de ordem individual e ordem colectiva. A vida só se alarga na medida em que se conciliam os dois princípios contraditórios que regem a personalidade humana: o individual e o colectivo”.16 No entanto, a grande diferença reside no conceito de indivíduo aqui defendido. Por um lado, e na óptica destes operadores, o Movimento Moderno entendia o individual como parte integrante e representativa da colectividade. Por outro lado, a experiência radical entendia-o como sujeito (defendendo a criatividade individual como meio de atingir o colectivo). CONTINUIDADES COM O MODERNO

Contudo, apesar de se afirmarem como opositores do Modernismo, e ambicionando uma refundação da disciplina em função da sua origem-raíz-radical, a sua actuação em muito teve que ver com os postulados defendidos pelo movimento que pretendiam “combater”. Embora por oposição, a maior parte das vezes a crítica surge como ironia e, baseando-se na cidade e arquitectura Racional, exponenciam as suas características fomentando a caricatura. Por isso, e apesar de se afirmar independente de legados prévios, esta “Tendência Alternativa” procura desenvolver-se através deles. Tentando transformar o mundo, estas novas perspectivas suportam-se nas bases formais existentes, delas extrapolando novas interpretações da realidade. Convém por isso destacar que, apesar da frontalidade das suas críticas e da sua oposição declarada ao Modernismo e Estilo Internacional, este conjunto de grupos não compõem uma verdadeira revolução, ao contrário do que queriam deixar transparecer. Ao passo que o Modernismo se apresentou como uma alternativa aos “cânones” em vigor, estes grupos nunca conseguiram abstrair-se completamente do Movimento Moderno não deixando pois de o ter como referência: fosse como ironia crítica ou como objecto de exploração formal. DIVERGÊNCIAS DA TENDÊNCIA

Apesar de uma directriz comum e do permanente contacto entre os vários operadores são visíveis diferenças no campo das propostas, até porque um dos seus princípios comuns era a ausência de princípios comuns. De facto, estes colectivos não pretenderam uma completa sintonia no respeitante a formas e programas, pois apenas partilhavam a mesma intenção de desmistificar a sociedade reduzindo a zero todas as tecnologias e sistemas de valores contemporâneos (estruturas morais da classe média).

16. CIAM: A Carta de Atenas, 1941, p23.


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Alguns colectivos limitaram-se a exercer a crítica das formas que acompanhavam parte do Movimento Moderno que, segundo estes operadores, ficara prisioneiro da sua própria fórmula. Outros procuraram novos métodos de procura de diferentes territórios nos quais reinventariam a ordem social. A linha dominante e estruturante é comum mas a sua materialização é diversa. Isto acontece porque defendem a pluralidade de pensamentos, conceitos, formas e programas. Enfim: contextos, condicionantes e conjunturas diversas são equivalentes a propostas e projectos diversos.

Deste modo, foram apresentadas propostas utópicas e visionárias que se baseavam na necessidade sentida de uma renovação teórica que substituísse a rigidez do Modernismo. Esta renovação visava colmatar muitas das insuficiências (apontadas pelos diversos operadores) nos postulados do Moderno, entre as quais a renovação do conceito de individualidade para, de forma irónica, introduzir uma suposta liberdade total do utilizador. A Experiência Alternativa inspirou-se nos desenvolvimentos no campo das tecnologias e das ciências cognitivas e foram suportados por publicações da especialidade, críticos e personalidades oriundas de alguns quadrantes do pensamento urbano e social. Tentaram criar uma nova aproximação à investigação em Arquitectura e uma nova visão experimental no campo do projecto, tentando redefinir a cartografia da urbanidade e a conceptualização de indivíduo. Objectivo: antecipar um futuro que imaginavam também ideal transportando-o para o presente “poupando-nos” a transição. De facto, Branzi defendia que “se a utopia é simplesmente para substituir o hoje pelo amanhã [em termos futurísticos] não nos levará a lado nenhum; mas levará se for utilizada como acelerador artificial do processo no qual pretendemos operar”.17 Este movimento pretendeu acima de tudo acelerar o processo de implementação do que convencionavam “pós-modernidade”, antecipando o futuro. Muito mais do que transformar a casa em máquina, pretenderam colocar a Máquina ao serviço do indivíduo tantando desmistificar a sociedade de modo a que cada sujeito pudesse encontrar o seu espaço suprimindo assim a falta de criatividade individual. É por isso que a cidade era vista, não como espelho da sociedade, mas como instrumento capaz de a mudar e de apontar novos horizontes de sociabilidade e urbanidade. De facto, estas experimentações estão inseridas num contexto onde predomina a visão de uma cidade “Pós-Moderna” que previligia de certa forma o seu conteúdo em detrimento, por vezes, da sua forma. Com ponto de partida numa visão utópica esta experimentação rapidamente evoluiu para uma progressiva maturação tornando-se mais política e culturalmente activa. A tendência não é a consideração da cultura como a agregação de normas linguísticas e técnicas, sem as quais é impossível fazer passar os valores de uma estética universal, mas tentar fazer coincidir essa cultura com os valores da natureza humana.

17. BRANZI, Andrea: A Long-term Strategy. In: Casabella, nº 402, Junho 1975, p9, tradução livre.

Twelve Ideal Cities, Superstudio

www.designmuseum.org,2005

PROPÓSITOS E INSPIRAÇÕES


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4.3.│Uma tendência para a “Tendência”

Os colectivos Italianos foram fortemente influenciados pelas manifestações de outros grupos,18 e instauraram uma caminhada prospectiva, procurando reflectir sobre os fundamentos da arquitectura. Tal como o Anti-design,19 esta tendência assumiu-se como uma opção de ruptura com o passado próximo, manifestando-se a favor de um repensar a arquitectura a partir das suas bases. Porém, o contexto Italiano apresentou uma particularidade que residiu em dois pontos que nos parecem fundamentais: a relação entre design e arquitectura e a politização do acto de projectar. DESIGN E POLÍTICA

Quanto ao primeiro ponto, a relação entre design e arquitectura, é devida à forte influência de Ettore Sottsass Jr.20 A visão transdisciplinar de Sottsass do acto de projectar serviu de introdução a uma (suposta) liberdade. Recorrendo ao material, cor, escala, apoiou o seu trabalho em numerosos escritos de opinião que se tornam instrumentos essenciais do projecto. Deste modo, assumiu-se a necessidade de comunicação das ideias recorrendo a “objectos” que continham em si próprios as premissas defendidas. Estes objectos serviriam de incubadora para conceitos a aplicar à escala urbana. Tal aproximação ao real distinguiu os colectivos Italianos que exploraram a transversalidade de vários meios de manipulação da realidade: do utensílio à cidade. Quanto ao segundo ponto, a presença do factor político no acto de projectar, acrescentou à transversalidade da experiência Italiana uma forte componente transformadora da realidade existente. Projectar em Itália não era operar com a realidade existente, mas colocar-se politicamente contra, determinando-a. Tal levou a linguagem arquitectónica a um estado ideológico (desejo de descontinuidade, de contraste, de levar a linguagem a extremos). Movidos politicamente, expõem as suas ideologias em pequenas peças conceptuais (ora de desmistificação, ora de ironia da envolvente real) veículos de mensagem cultural e política. Deste modo, tudo é extensível à ideologia. SUPER-ARQUITECTURA

Enquadrada pelas premissas supracitadas, esta experiência alternativa produziu projectos e protótipos irónicos no pensamento e na linguagem, críticos e inovadores na função, móveis e ao mesmo tempo referenciais.

18. Essencialmente pelos Londrinos Archigram e pelo o contexto Vienense de Hans Hollein, Walter Pichler, Haus-Rucker Co. ou Coop Himmelb(l)au, entre outros. 19. É um movimento que emerge em Itália no seguimento da exposição de mobiliário de Ettore Sottsass em Milão em 1966. O grupo rejeita os valores do movimento neo-moderno de design procurando renovar o seu papel cultural e político, acreditando que os objectivos originais do Modernismo se tornaram não mais do que instrumentos de marketing. 20. Ettore Sottsass nasceu em 1917 em Innsbruck na Áustria e actualmente vive e trabalha em Milão, Itália.


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Desta tendência destacamos Superstudio e Archizoom Associatti que iniciaram esta experiência alternativa em Itália com a mostra Superarchitettura21 em 1966. Esta mostra foi uma exposição manifesto inspirada na “arquitectura da superprodução, do super-consumo, da super-indução ao consumo, do super-homem e da benzina super”.22 Ambos aceitavam a lógica da produção e do consumo pretendendo exercitar uma acção desmistificante que reflecte parte do pensamento da época. Centramo-nos nestes dois colectivos Italianos porque sintetizaram, por um lado, grande parte das especificidades desta Tendência, e por outro, pensamos que revelam mais proximidade e significado para o contexto Português. COMPREENSÃO DO MUNDO

Os Superstudio foram um grupo de arquitectura e design formado em Florença por Cristiano Toraldo Di Francia, Alessandro Magris, Roberto Magris, Gian Piero Fassinelli e Adolfo Natalini (Alessandro Poli juntou-se ao grupo em 1970). The Continuous Monument é, a nosso ver, o seu projecto mais significativo. Datado de 1972 representa, nas palavras dos autores, “o limite extremo do mito do arquitecto como demiurgo e de uma arquitectura auto-suficiente que permanece como modelo ideal de desenvolvimento, tirando partido do uso crítico da disciplina”.23 A pretensão dos seus objectivos é em parte justificada através da sua própria definição de arquitectura: “arquitectura como compreensão do mundo”.24 Segundo os autores, este projecto é “a elaboração de um limite sobre as possibilium modelo arquitectónico de urbanização total. É o resultado da extrapolação lógica, a imagem limite de uma arquitectura orientada, pois a história do monumento começa com a idade da pedra procurando encontrar a realização de um monumento capaz de sintetizar o mundo inteiro”.25 A arquitectura tornar-se-ia um edifício fechado e imóvel que não leva a lado nenhum senão a si mesma e ao uso da razão.

The Continuous Monument, Superstudio, 1972

CIDADE E SOCIEDADE

Os Archizoom Associatti,26 também formados em Florença, foram fundados por Andrea Branzi, Gilberto Corretti, Paolo Deganello e Massimo Morozzi, aos quais se juntam, em 1968, os designers Lúcia e Dário Bartolini.

21. Exposição foi organizada em Pistóia (Itália) na Galeria Jolly2, no ano de 1966, por Adolfo Natalini fundador do Grupo Superstudio, e colega de estudos de Andrea Branzi, fundador dos Archizoom. Voltaria a ter nova edição em Modena no ano seguinte e igualmente com os dois colectivos a expôr conjuntamente, sendo a partir destas exposições que ambos ganham visibilidade internacional. 22. BURKHARDT, François; MOROZZI, Cristina: Andrea Branzi. In: www.prestinenza.it,07Ago.04, tradução livre. 23. DI FRANCIA, Cristiano Toraldo: Superstudio & Radicals. In: Arquitectura Radical. Sevilha: Junta de Andalucía, 2003, p335, tradução livre. 24. Op. Cit. 25. Op. Cit. 26. Foram inicialmente influenciados pelas visões utópicas do grupo de arquitectos ingleses Archigram e em 1974 dispersam para seguirem carreiras separadas.

www.guardian.co.uk, 2005

dade da arquitectura como instrumento para atingir sabedoria e acção através de


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Trabalharam essencialmente em propostas para cidades abstractas e no desenvolvimento de mobiliário expressionista. Dos seus projectos destacamos No-stop City, concebido entre 1969-1972. Por um lado, este projecto pretendeu ser um modelo de compreensão dos fenómenos estruturais da cidade e sociedade. Por outro lado, pretendeu ser a base para uma urbanização global que representava simbolicamente o estado de degradação da metrópole moderna. Domus, 496, p 50.

Com este projecto, os Archizoom pretenderam representar a possibilidade de criação de uma matriz abstracta. Como referem os autores, “mais do que identificar um sítio, No-stop city será um campo neutro onde a criação de identidade através do No-stop City, planta, Archizoom, 1972

consumo poderá ser desamarrada”.27 A propásito deste projecto, Kazis Varnelis refere que “para chamar o problema – que o tardo-capitalismo não tinha uso para a cidade tradicional ou para as qualidades do espaço e que a criação do sujeito através do consumo seria uma nova, menos alienada forma de homogeneidade – seria permitir a sua supressão. O resultado seria a proliferação de objectos sublimes sem uso conotando status e arquitecturalidade através de fachadas aplicadas do pós-modernismo e de fragmentos espectaculares do super-modernismo”.28 O consumo e a produção seriam uma realidade física e social absolutamente contínua e indiferenciada. Esta matriz abstracta, na óptica dos autores, poderia assegurar a apropriação do espaço proposto pelo indivíduo dada a sua não-referenciação, realizando a cidade num futuro onde o sistema integraria a sua ideologia programadora, tal como o supermercado ou a fábrica. Operando uma lição directa entre a metrópole e o mobiliário, a cidade por eles proposta é uma sucessão de mesas, cadeiras, etc., numa alusão directa à sobreposição de doméstico e urbano na qual privado e público coincidem totalmente. Da oposição entre o factor público e o privado resultaria a “paisagem interior” que poderia ser considerada como o elo mais geral de comunicação entre o privado e o público. A nosso ver, tal alude a uma vontade de dissipação entre interior e exterior, entre público e privado, o que exclui a metrópole como lugar visual e representativo: a metrópole-cidade passaria a ser um lugar experiencial. Os autores referem que “nos dias de hoje a única possível utopia é quantitativa. (...)À medida que os meios genéricos de referência desaparecem, o comportamento torna-se uma estrutura livre de alegorias morais. A liberdade, como objectivo, torna-se um instrumento de luta”.29 Como refere Varnelis, este projecto trabalha “uma extrapolação da condição ur-

27. Archizoom Associatti: Residential Parkings. In: DOMUS, 496, Março de 1971, p54, tradução livre. 28. VARNELIS, Kazys: A brief History of Horizontality: 1968/1969 to 2001/2002. In: Pasages de Arquitectura y critica, nº45, 2003, p40, tradução livre. 29. Archizoom Associatti: Residential Parkings. In: DOMUS, 496, Março de 1971, p55, tradução livre.


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CAPÍTULO 4: “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS”

bana pós-metropolitana – que foi simultaneamente utópica e não utópica”.30 Levando este diagonóstico da condição pós-urbana ao limite, No-stop city tornar-seia abstracta e sem qualidades, sendo uma crítica irónica à ideologia do Modernismo arquitectónico levando-o aos seus extremos. Abstracta porque suprime qualquer alusão à representatividade, e desmistificante porque, dada a sua abstracção, permite ao habitante experimentar um conceito de urbanidade desconhecido e portanto não referenciado física e socialmente. Aqui é notória a aproximação às formas do Movimento Moderno, seja por ironia à multiplicação indefinida de módulos funcionais ou pela facilidade de expressar um conceito que encerra novidade a partir de uma forma conhecida. GLOBAL TOOLS

No início da década de ‘70 o debate ampliou-se ao ponto de caricaturar o design de valências e significados sociais e existenciais, de lhe atribuir em definitivo um carácter de transformação dos modelos culturais. Na exposição Italy: the new domestic landscape, apresentada no MoMA de Nova Iorque em 1972, o design apareceu como o “instrumento projectual mais apropriado à reflexão da condição de degradação da metrópole moderna, tentando intervir para modificar a qualidade de vida e do ambiente”.31 Deste modo, os colectivos Italianos adiantam uma possibilidade de educação com a criação de uma “não-escola”. A Global Tools: Non-architecture School nasce a partir de um sistema de laboratórios em Florença para a promoção do uso de técnicas e materiais naturais. Entre 1973 e 1975 esta “não-escola” reúne na mesma causa Ettore Sottsass, Ugo La Pietra, Alessandro Mendini, Gaetano Pesce, Archizoom, Gruppo 9999 e Superstudio. Esta ideia nasceu, porque na óptica dos seus fundadores, a escola como a cidade nasce de uma necessidade de civilização passando a ser a própria civilização. Andrea Branzi referiu em The abolition of School que “o desejo de uma critica radical das instituições, seja académica ou urbana, não é transformá-las em instrumentos de revolução mas instrumentos ao serviço do ser humano tornando-o apto para uma progressiva libertação do trabalho. É pretendida a criação de sabedoria no espaço público, sem a obrigação de regras ou rotinas libertando o homem para as actividades (intelectuais) que mais lhe convierem ou interessem”.32 Com esta “escola” pretendeu-se a organização de uma civilização industrial tentando cumprir o objectivo de 1960 de Ettore Sottsass: “criar uma sociedade sem tecnocratas mas com todos aqueles que sejam capazes de o ser, sem artistas mas com todos aqueles que sejem capazes de o ser, sem padres...”33

30. VARNELIS, Kazys: A brief History of Horizontality: 1968/1969 to 2001/2002. In: Pasages de Arquitectura y critica, nº45, 2003, p40, tradução livre. 31. Radical Design-Ricerca e Progetto dagli anni ’60 ad oggi. In: www.exibart.com,07/08/2004, tradução livre. 32. BRANZI, Andrea: The abolition of school. In: Casabella, nº 407, Novembro 1975, p10, tradução livre. 33. SOTTSASS, Ettore: Public creativity, In: Casabella, nº 239, Maio 1960, p14, tradução livre.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO


CAPÍTULO 5: DAS “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS” À CONTEMPORANEIDADE

5.│ Das “Tendências Alternativas” à Contemporaneidade

O capítulo 5, denominado “Das “Tendências Alternativas” à Contemporaneidade”, prossegue o desenvolvimento do capítulo anterior, reflectindo acerca da evolução do pensamento, pecepção e planeamento urbano. Tomando essa leitura crítica e cartografia sintomática, avançar-se-á para a contemporaneidade por via da obra urbana de Rem Koolhaas (que inicia a sua actividade quando estas “Tendências Alternativas” estão no auge). O ponto 1, “O Legado das “Tendências Alternativas””, expõe o legado das experiêcias abordadas no capítulo 4 com foco no respeitante ao panorama urbano. Veremos que estas experiências, que podem de certa forma ser influentes hoje, tentaram repensar a cidade a partir das suas bases. Contudo e na prática, isto significaria ignorar a cidade existente por um lado, e forçar uma “urbanidade pivot”, por outro. Esta seria, não como aqui a defendemos (como layer e sedimentação), mas a totalidade do território. Ou seja, construir sempre, e na sua totalidade, cidade nova. O ponto 2, “Das Utopias ao Real: Rem Koolhaas”, refere o percurso no campo urbanístico de Rem Koolhaas. Inspirado nestas “Tendências Alternativas”, a obra urbana de Koolhaas permite realizar um percurso pela evolução urbana das últimas décadas. Sendo uma personalidade com um foco muito urbano, a investigação urbana que tem vindo a realizar, permite-nos identificar um conjunto de temas que nos merecem reflexão. Koolhaas avança, a nosso ver, alguns mecanismos de análise da condição contemporânea. Ao trabalhar com os fenómenos da globalização (de mercados, formas, imagens) define os espaços de intervenção actuais, delimitando o espaço de auto-regeneração da cidade. A questão do genérico, da monumentalidade e a mais recente criação de junk-

space são alguns dos temas que servirão de base para a reflexão contemporânea, em foco no capítulo seguinte.

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5.1│ O Legado das “Tendências Alternativas”

No seu conjunto, muitos outros colectivos como estes Italianos, actuaram entre cidades intermináveis e pequenas intervenções no campo do design, instalações e artes performativas. Moveram-se através de uma matriz comum, que pretendia denunciar uma (suposta) homogeneidade. O tema desenvolvido por estes “centros de operação” foi a tentativa de contacto com o real e com o cidadão comum, estabelecendo como veículo comunicativo e performativo a transversalidade artística. Tal levou-os a atravessar permanentemente as fronteiras entre arte e arquitectura (sua contemporânea), rejeitando por vezes o objecto em favor do seu contexto porque, de uma forma geral, centraram a sua pesquisa nas particularidades de cada cultura. Procurando em cada sítio a sua especificidade, tentaram implementar uma cultura de mercado poli-cêntrica por oposição ao mono-consumo modernista. Com isto esperavam conseguir transmitir ao utilizador uma nova realidade-sociabilidade. Apropriando-se de temas então estranhos, como os “clusters tecnológicos” ou, de outros mais ortodoxos, como o supermercado e a fábrica, intuiram nos seus projectos uma transfiguração da cartografia arquitectónica e urbana que iria ser sentida em todos os níveis da vida social. Essa transfiguração constituiu o que aqui definimos como um novo layer de cidade. Um layer que corresponde à unidade temporal do constante presente, no qual foi concebido, que se sobrepõe ao existente, transformando-o e complementando-o, e confrontando o indivíduo com outra imagem de si próprio. De facto, o que tentaram transmitir inseria-se na interpretação de uma realidade então emergente e, a seu ver, não percepcionada pelo Movimento Moderno. Em síntese, estas “experiências” tinham para si que transmitindo aquilo em que acreditavam conseguiriam alterar e interpretar a realidade envolvente. Para isso imaginaram antecipações de futuros próximos com o auxílio da técnica disponível. A tranversalidade das artes, a diluição progressiva de dicotomias como interior-exterior, público-privado, cidade-campo, etc, foram então equacionadas. Embora sem o impacto da obra construída, deixaram no papel gasto de revistas antigas visões que, pelo seu exagero formal e delírio tecnológico, nos tranportam para cenários sobre os quais importa reflectir (diversas possibilidades de construção de urbanidade). No âmbito desta tese interessa-nos acentuar um foco na metrópole proposta pelos colectivos que formaram estas experiências alternativas. Por isso, focando atentamente as suas intenções ao nível urbano pensamos poder identificar possíveis “urbaninades pivot”.


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IDEIA DE CIDADE

Engels, citado por Andrea Branzi em The dream of the village, definiu a cidade como “sistema económico e de organização territorial unidos por factores ideológico-culturais”.1 A partir desta noção de cidade, Branzi referiu que o debate sobre o planeamento urbano está indissociado da crença de que a cidade representa a mais alta expressão da cultura social, concluindo que “não se põe o problema de uma cidade diferente, somente da cidade actual. A ideia da cidade como trabalho colectivo está tão enraizada que nos é impossível distinguir o termo cidade de sociedade. A nova fronteira é a reformulação do problema da cidade em termos científicos: esta nova aproximação pode garantir, não utopias, mas soluções transversais; a neutralidade pode garantir não a imundície, mas um avanço para além da solução estética

Refira-se que, com esta conjuntura encontraram a liberdade necessária para repensar os caminhos até então dados como adquiridos, surgindo um reformular de conceitos que visava redefinir a “resolução da equação de uma nova habitabilidade, uma nova arquitectura e depois uma nova metrópole”.3 Este desejo era transversal a todos os centros de operação. Assim como também era transversal a sua ideia de cidade. Com referência em Branzi, vejamos a sua ideia de cidade. Andrea Branzi escreveu em 1990, em La Quarta Metropole, acerca da crescente visibilidade de uma metrópole por ele denominada “Metrópole Híbrida” que “a geração que fecha um século e abre um novo milénio tem oportunidade de escolher entre o silêncio e as estratégias ambientais, entre o colapso de todas as utopias e a possibilidade de salvar o mundo atribuindo-lhe novas qualidades”.4 Prosseguia defendendo que esta geração “opta pela arquitectura refundando-a noutras dimensões. Movendo-se numa vasta frente de componentes ambientais: sinais, sons, luzes, cores, informação, estruturas serviços e funções, compondo uma nova narrativa”.5 Por outro lado, continua Branzi, “pega no segmento dos detritos artificiais, para criar realidades não só capazes de perceber funções e serviços, mas que provoquem poética, simbólica, psicológica e espiritual uso delas próprias. A arquitectura e o design são meros instrumentos num grande design humanístico, um teorema cultural que vai mais longe que a disciplina individual. A arquitectura não é um fim em si própria. Flutua no grande universo artificial que é a

1. BRANZI, Andrea: The dream of the village. In: Casabella, Junho 1975, p9, tradução livre. 2. Op. Cit. 3. MUNARI, Bruno: Descendents of Leonardo da Vinci – The Italian Design, Tokyo, Graphic SHA, 1987, p12, tradução livre. 4. BRANZI, Andrea: La Quarta metropole: Design e cultura ambientale, Milão, Domus Academy, 1990, p4, tradução livre. 5. Op. Cit.

No-stop City, “Paisagem Interior”, Archizoom, 1972

Domus, 496, p 51.

– o elemento que agora bloqueia o uso livre e aberto das estruturas”.2


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cidade pós-industrial. Interessa-se, não pela terra firma das ilhas de mercado, mas nas suas quebras. Cria ordem movendo/ circulando como partículas frenéticas, tentando produzir a atmosfera cristalina enquanto produzimos poluição [visual]”.6 Prossegue escrevendo que “há vinte anos atrás foi vencido o estilo internacional baseado numa elementar e redutora linguagem situada no consumo de massas. Descobriu-se também que a linguagem familiar e as tecnologias regionais foram destruídas. As qualidades da vida não advêm do passado, há que encontrá-las nos CD’s do presente. Tentamos reconstruir culturas diferenciadas baseadas em materiais globais”.7 Do mesmo modo, na introdução ao projecto No-stop City, publicada na revista Domus em 1971, pode ler-se que “nos dias de hoje não pode haver hesitação em admitir que o fenómeno urbano é o ponto mais fraco em todo o sistema industrial. A metrópole, uma vez, o sítio de nascimento do progresso é hoje de facto o sector mais atrasado e confuso no seu estado actual: e isto é verdadeiro em tal proporção que somos levados a pensar se a cidade Moderna não é mais um problema que ainda não foi resolvido, ou, na realidade, não é um fenómeno histórico que foi objectivamente superado. Isto é, devemos determinar se o Capital ainda engloba a tarefa de manejar a sua própria organização e imagem num nível urbano, como fez há cem anos atrás, ou se as mudanças que tiveram e continuam a ter lugar não alteraram a sua actual esfera de acção, apesar de transformarem o conceito de cidade”.8 Tanto hoje como no passado, Branzi continua a defender o que Archizoom Associatti materializou com No-stop City: que a cidade é uma realidade mas também um conceito que varia com o tempo e história. Este conceito corresponde essencialmente a uma teoria geral do mundo que é modificada de tempo a tempo perseguindo novas configurações. Deste modo, os modelos teóricos não correspondem necessariamente à realidade mas servem para a explicar. A complexidade desta realidade leva à sua desmontagem teórica e à descoberta da temporalidade da cidade. Esta análise de Branzi permite-nos, de certa forma, verificar que na sua génese a problemática urbana contemporânea poderá ter analogia com a de há quatro décadas atrás. Isto é, de certa forma, estamos hoje a descobrir a emergência de uma nova temporalidade na cidade. Assim como há quatro décadas, tais temporalidades confrontam o indivíduo com outra imagem de si próprio. CONTEXTO ITALIANO

Os Italianos, através de Superstudio e Archizoom Associatti, possuem no seu legado

6. BRANZI, Andrea: La Quarta metropole: Design e cultura ambientale, Milão, Domus Academy, 1990, p4, tradução livre. 7. Op. Cit. 8. Archizoom Associatti: Residential Parkings. In: DOMUS, nº 496, Março de 1971, p53, tradução livre.


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dois projectos de especial relevância que, a nosso ver e apesar da formalização diversa, coincidem no objectivo: sem um exterior, estas “estruturas urbanas” potencialmente ilimitadas seriam tornadas uniformes através do controlo climático e optimizadas com ligações à informação. Servem de moderador entre duas forças contraditórias: o público e privado. O planeamento económico, ao organizar toda a produtividade social elimina o conflito e considera a contradição fictícia e defende a temporalidade individual como experimental. Por isso, tentaram fornecer ao utilizador o mais alto nível de liberdade dentro do cenário mais rígido possível, com o objectivo de que a arquitectura reconheça o seu destino no fenómeno urbano e a sua natureza no privado. Dando conta de um conflito entre cidade e arquitectura, entre esta e os objectos, entre o arquitecto e o projecto, produziram propostas utópicas e manifestos que incorporam arquitectura, planeamento e design destinado a mudar a atitude das pessoas na modelação do ambiente-envolvente. As propostas destes colectivos são sobretudo propostas de sobreposição ao existente, móveis no tempo e no espaço, de confrontação pelo contraste e antecipação de um futuro idealizado com base em intuições tecnológicas. RETROESPECTIVA

Felizmente ou infelizmente, o futuro por eles idealizado não se revelou do modo que Contudo estas visões, acima de tudo imaginadas, são instrumentos extremamente importantes para a análise do fenómeno urbano contemporâneo dado que nos remetem para problemas conceptuais como a globalização, mobilidade, flexibilidade e interacção do indivídio na urbanidade. A nosso ver, estas propostas são um exemplo possível do aqui definido como urbanidade pivot: a sobreposição de um novo layer à cidade existente, confrontando o indivíduo com uma nova forma de sociabilidade. Segundo Archizoom: “o problema é então, não mais a criação de uma Metrópole que é mais humana e melhor organizada, mas antes a compreensão das leis objectivas que controlam a forma do fenómeno urbano-arquitectural, desmistificando a ideologia complexa que envolve a discussão e termos da forma que toma”.9 Esta era a sua visão da problemática urbana. Estas propostas perderam o vigor em finais da década de 70, sobretudo devido à depressão económica do Ocidente, tornando-se evidente que nunca seriam executadas. No entanto, elas foram (e talvez continuem a ser) referências muito importantes na (re)construção do imaginário urbano e arquitéctónico actual, nomeadamente na obra de arquitectos como Rem Koolhaas, de que falamos no ponto seguinte.

9. Archizoom Associatti: Residential Parkings. In: DOMUS, nº 496, Março de 1971, p53, tradução livre.

No-stop City, Archizoom, 1972

Domus, 496, p 45.

anteviam, pelo que as propostas por si apresentadas não sairiam nunca do papel.


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5.2.│ Das Utopias ao Real: Rem Koolhaas

Rem Koolhaas10 dedica-se actualmente ao estudo das grandes mutações da sociedade e cidade. Como refere François Chaslin, “periodicamente anuncia que a urbanística tem as horas contadas, que é destinada à morte eminente devido à resistência que opõe o fenómeno observado e del ritarte com o qual se mistura”.11 Confrontado com esta afirmação, Koolhaas responde que tudo o que faz e diz, “tem uma parte de retórica, jogo e provocação. (...) Mas estou convicto que a urbanística, como é hoje pensada, não tem senso algum: o sistema de governação e controlo dos fenómenos que ela pressupõe não existem mais, e que tem diversas implicações. O facto é que se determinou uma profunda divergência entre a ideia que os profissionais têm da sua disciplina (a representação da coisa pública e da vontade colectiva) e aquilo que hoje vivemos, uma lógica de todo oposta, como é a do mercado e que, por definição, não concede espaço a este tipo de preocupações. Alia-se o cepticismo, hoje quase universalmente imperante no confronto da modernização, não mais fonte de progresso, à incerteza acerca da nossa capacidade de controlar o movimento”.12 Interessa-nos pois explorar a actividade de Rem Koolhaas enquanto urbanista. A vertente da sua obra que pretende avançar linhas de compreensão do Mundo na macro-escala, sua evolução e dimensão urbana. Em 1975, Rem Koolhaas fundou o Office for Metropolitan Architecture (OMA) com Madelon Vriesendrop e Elia e Zoe Zenghelis. Os objectivos do OMA passavam pela definição de novos tipos de relações (teóricas e práticas) entre a arquitectura-urbanismo e a situação cultural contemporânea. Retroceda-se contudo ainda antes da fundação do OMA. Entre 1970 e 1972 concebeu The Berlin Wall as Architecture, Exodus: or the voluntary

Prisoners of Architecture e The City of the Captive Globe. Contemporâneos (e na mesma linha) dos projectos das experiências alternativas referidas no capítulo 4 denunciam, a nosso ver, a relação directa entre estes movimentos e Koolhaas, personalidade que tem na sua obra um foco muito urbano.

10. Rem Koolhaas nasceu em Roterdão, Holanda, no ano de 1944. Começa por trabalhar como jornalista (no Haagse Post) e como cenógrafo. A partir destas actividades adquire o gosto pela análise e pela comunicação, o que lhe permite fazer a transição para a arquitectura. 11. CHASLIN, François: Architettura della Tabula rasa, Due conversazioni con Rem Koolhaas, ecc., Milão, Mondadori Electa spa, 2003, p37, tradução livre. 12. Op. Cit. p38, tradução livre.


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NATUREZA DA ARQUITECTURA

The Berlin Wall as Architecture foi concebido em 1970 conjuntamente com Elia e Zoé Zenghelis e Madelon Vrisendorp. Este projecto é o levantamento de um fenómeno urbano, por meio de desenhos, fotografias, filmes, etc. que alude a um problema real: o Muro de Berlim.13 À altura da visita de Koolhaas o Muro completava o seu décimo aniversário e o ainda estudante de arquitectura pensava que “o muro era uma simples e majestosa divisão norte-sul; uma limpa e filosófica demarcação”.14 O que verificou, no entanto, foi algo bem diferente. Nas suas palavras, “o muro não era uma coisa estável, e não era uma entidade única, [era] mais uma situação, uma evolução permanente e em slow-motion, parte dela completamente planeada, outra parte improvisada e aleatória”.15 Para o autor, a incursão a Berlim foi como se tivesse “ficado olhos nos olhos com a verdadeira natureza da arquitectura”.16 Por isso, o levantamento foi efectuado com um misto de paixão e realismo pelo que o resultado final, exibido três meses depois em Londres, foi algo que fugiu ao seu controlo. Segundo Koolhaas, “as imagens que apareceram no ecrã – condições primárias, conceitos, evolução – assumiram as suas posições numa sequência apaixonante (...); as palavras eram redundantes. Fez-se um longo silêncio”.17 ARQUITECTURA DE GUERRA

Concebe Exodus, or the voluntary Prisoners of Architecture em 1972 em conjunto com Elia Zenghelis, inspirado na condição política e urbana observada dois anos antes em Berlim. Koolhaas pensava ser “possível imaginar um espelho desta terrível arquitectura, uma força intensa e devastadora mas usada ao serviço de intenções positivas. Divisão, isolamento, desigualdade, agressão, destruição, todos os aspectos negativos do contra condições inconvenientes, neste caso Londres”.18 Deste modo, Exodus sugere que o Muro de Berlim poderia ser “exportado” para Londres, onde a arquitectura de guerra assumiria todas as suas qualidades.

13. Em 1953, tiveram lugar na RDA greves e manifestações estudantis, que reclamavam a saída do país das tropas Soviéticas. A repressão abateu-se sobre a RDA e os Alemães orientais abandonaram o país através de Berlim ocidental que continuava sob a administração da República Federal. A resposta a este êxodo foi a construção do Muro de Berlin (1961-1989) que dividiu a cidade em duas partes incomunicáveis. Foi provavelmente o maior “monumento” criado durante as Experiências Alternativas. Foi modernizado quatro vezes intuindo a intenção de uma certa perenidade. A população, mesmo a que lá vivia, apenas podia entrar com cartão de identidade ou permissão especial. 14. KOOLHAAS, Rem: Field trip: A (A) Memoir – The Berlin Wall as Architecture. In: S, M, L, XL. Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p219, tradução livre. 15. Op. Cit. 16. Op.Cit. p225, tradução livre. 17. Op.Cit. p231, tradução livre. 18. KOOLHAAS, Rem: Exodus: or the voluntary Prisoners of Architecture. In: S, M, L, XL. Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p5, tradução livre.

Exodus, or the voluntary prisoners of architecture, Rem Koolhaas, 1972

S, M, L, XL, pp10,11.

Muro, podem ser os ingredientes para um novo fenómeno: arquitectura de guerra


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Com influência nos escritos dos Situacionistas escreveu que “os habitantes desta arquitectura, fortes o suficiente para a amar, tornar-se-ão os seus prisioneiros voluntários, estáticos na liberdade dos seus limites”.19 Isto porque dentro do muro, a vida se tornaria “um contínuo estado ornamental frenético e de delírio decorativo, uma overdose de símbolos”.20 A história de Exodus consiste na divisão de uma cidade em duas partes: a parte boa e a parte má (Berlim Oriental e Berlim Ocidental, na sua opinião). Tal leva os habitantes da “parte má” da cidade a iniciar uma migração para a “parte boa” da cidade criando um êxodo urbano. Após tentativas falhadas, por parte das autoridades da parte má para conter os seus habitantes,”faz-se um selvagem e desesperado uso da arquitectura”21 construindo um muro à volta da parte boa tornando-a inacessível. A cidade é a Londres dos anos ‘70 e a divisão corresponde ao confronto entre o “bom” e o “mau”, numa alusão a Nietzsche22 e à oposição entre o “Bem” e o “Mal”. “O muro [funcionaria] como peça mestra”,23 ponto ou fronteira de confluência de diversas vontades individuais, promovendo um enclausuramento e fétiche. O muro é ao mesmo tempo separador e unificador, porque é habitável e acessível a ambas as partes. Funcionando em sobreposição ao existente, “numa confrontação contínua com a velha Londres, as estruturas existentes são destruídas pela nova arquitectura”.24 O relacionamento com a história é aqui de distanciamento aludindo à oposição entre cidade histórica e possibilidade de desenvolvimento. Assume-se a vontade de cristalizar parte da zona histórica e exterior à nova urbe mantendo-a como passado distante mas visitável através de uma escada que desce até à velha Londres. A nova cidade pousa na velha cidade alterando-a e alterando também a relação dos seus habitantes com esta. Este projecto, contemporâneo dos projectos No-stop City e Continuos Monument, significaria provavelmente uma vontade de confronto entre “existente” e “desejado”. Tal como nos projectos dos colectivos Italianos, era proposta uma nova cartografia de urbanidade que seria sobreposta à urbanidade existente: a capacidade humana de construir e controlar o seu próprio ambiente .

19. KOOLHAAS, Rem: Exodus: or the voluntary Prisoners of Architecture. In: S, M, L, XL. Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p7, tradução livre. 20. Op. Cit. 21. Op. Cit. p5, tradução livre. 22. Nietzsche (1844-1900) abriu a refutação contra os opostos. Nem o Ser nem Deus, nem a Substância nem a Razão, nem o Bem e o Mal. 23. KOOLHAAS, Rem: Exodus: or the voluntary Prisoners of Architecture. In: S, M, L, XL. Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p5, tradução livre. 24. Op. Cit. p11, tradução livre.


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CULTURA DA CONGESTÃO

Delirious New York é editado em 1978 e é uma espécie de manifesto retroactivo em defesa de um processo urbanístico sem paralelo. Numa referência a Manhattan, “capital da crise permanente, [anuncia] um programa para uma cultura da congestão”.25 Na opinião de Koolhaas, “não se trata de uma congestão física e material, mas da pressão exercida imaterialmente: rádio, telefone, etc. Neste sentido, a congestão é igual na cidade média ou na metrópole: é uma condição urbana, que se exerce mesmo fora da cidade. Existe uma situação de congestão, uma cultura da congestão, em parte concreta e em parte virtual, que faz com que as cidades mesmo não estando congestionadas, se mantêm em contacto com esse congestionamento”.26 Koolhaas refere, na conclusão de Delirious New York, que a metrópole se aproxima da ideia mítica do mundo totalmente construído pelo homem e, como tal, correspondente na totalidade aos seus desejos. Para exemplificar esta ideia, o autor apresenta várias propostas cuja pertinência, e ainda segundo o autor, não se esgotam em Manhattan. GRELHA VS. CENTRO-GLOBO

A nosso ver, a proposta mais significativa é The city of The Captive Globe. Datado de 1972 “é dedicado ao nascimento e concepção acelerado de teorias, interpretações e construções mentais e a sua inflexão no mundo. É a capital do ego, onde ciência, arte, poesia e formas de raiva ou loucura competem sob condições ideais para inventar, destruir e restaurar o mundo da realidade fenomenológica”.27 A cada “ciência” ou “mania” é atribuída uma base de granito equipada para “suspender leis indesejadas, verdades indesmentíveis, para criar condições físicas inexisSendo que cada uma destas bases tem o direito de se elevar até ao céu, indefinidamente. “Neste momento a proposta de Captive Globe [ou globo prisioneiro], suspenso no centro da cidade, torna-se aparente: todos estes institutos juntos formam uma enorme incubadora do próprio mundo; respirando no globo”.29 Neste projecto é apresentada uma cidade abstracta e possível de reproduzir indefinidamente. Por um lado encontram-se influências do Surrealismo que resultam na defesa do mé-

25. CHASLIN, François: Architettura della Tabula rasa, Due conversazioni con Rem Koolhaas, ecc. Milão, Mondadori Electa spa, 2003, p19, tradução livre. 26. Op. Cit. 27. KOOLHAAS, Rem: Delirious New York, Nova Iorque, The Monacelli Press, 1994, p294, tradução livre. 28. Op. Cit. 29. Op. Cit.

The city of the captive globe, Rem Koolhaas, 1972

Delirious New York, p295.

tentes”.28


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todo paranóico-crítico30 proposto por Salvador Dali. Por outro lado este projecto opera sobre as mudanças da cultura metropolitana, apresentando-nos dois conceitos chave: grelha e centro-globo. A grelha “descreve um arquipélago de cidades na cidade. Cada ilha celebra diferentes valores e cada unidade do arquipélago como sistema é reforçado. Porque a mudança é contida na componente ilhas, como sistema que nunca terá de ser revisitado. Neste sentido elas não só resolvem o conflito entre forma e função, como criam uma cidade onde os monolitos permanentes constituem a instabilidade metropolitana”.31 A grelha é uma base imutável sobre a qual se “pousa” qualquer tipo de fétiche. A conjugação entre a grelha e o fétiche assegura a estabilidade e a fugacidade necessárias à imagem da metrópole. O centro-globo alude à preocupação de Koolhaas com a questão da dependência do centro (ou a dicotomia centro-periferia). Da definição de uma grelha que define os vários centros parte-se para a definição de um centro (o globo) que serve de referência para todos os outros. Aludindo ao centro urbano, histórico e identitário, propõe que cada quarteirão seja o seu próprio centro evitando, deste modo, o seu aprisionamento. A nosso ver, é neste momento que Koolhaas se afasta das Experiências Alternativas (sobretudo as Italianas que abordàmos focadamente). Ao abandonar a sobreposição ao construído, o autor encontra na análise do urbano (centro, malha, quarteirão) a abordagem que o viria distinguir. A análise dos fenómenos económico-sociais com vista à elaboração de teorias efectivamente operativas. IDENTIDADE VS. NEUTRALIDADE

Em 1995 Koolhaas publica S, M, L, XL, com um grafismo inovador e mensagem polémica, onde define o carácter de Cidade Genérica.32 Define cidade genérica como “cidade privada de qualidade e identidade especí-

S,M,L,XL, p 1239.

fica, amnésica e destinada a expandir-se indefinidamente”.33 Nas suas palavras “é a cidade sem História. Grande o suficiente para todos, fácil e não necessita de manutenção. Se se torna Neutralidade, S,M,L,XL, 1995

pequena, expande-se. Se se torna velha, auto-destrói-se e reconverte-se.

30. Conceito proposto por Salvador Dali associado à ideia de “cadáver esquisito”, que consistia na concepção de frases aleatórias, procurando depois juntá-las formando poemas e textos com sentido. Esta concepção é aproveitada por Koolhaas para teorizar acerca da condição contemporânea: procedimento por fragmentos com responsabilidade descontínua e com a necessidade de formalizar um todo coerente. 31. KOOLHAAS, Rem: Delirious New York. Nova Iorque, The Monacelli Press, 1994, p296, tradução livre. 32. Esta definição-ensaio é de 1994 mas apenas publicada em 1995. 33. CHASLIN, François: Architettura della Tabula rasa, Due conversazioni con Rem Koolhaas, ecc. Milão, Mondadori Electa spa, 2003. p57, tradução livre.


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CAPÍTULO 5: DAS “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS” À CONTEMPORANEIDADE

É igualmente excitante – ou não – em todo o lado. E é superficial como um estúdio de Hollywood, podendo produzir uma nova identidade a cada manhã de Domingo”.34 Com esta definição Koolhaas cristalizou a condição urbana contemporânea que já intuía, de certa forma, nos seus próprios trabalhos da década de setenta. Uma cidade abstracta, sem qualidades descritivas ou figurativas, e não referenciada historicamente. Na introdução de The Generic City, Koolhaas pergunta: “será a cidade contemporânea como o aeroporto contemporâneo – all the same? Será possível teorizar esta convergência? Se sim, qual a configuração que aspira? A convergência é apenas possível pagando o preço da perda de identidade”.35 Por um lado, a perda de identidade é “sempre vista como uma perda, [contudo refere que] à escala que isso acontece deverá significar algo”.36 E de novo nova pergunta: “quais as desvantagens da identidade e as vantagens da neutralidade? O que é deixado após despida a identidade? O genérico?”37 Koolhaas opõe, nesta questão, identidade e neutralidade. Por um lado, o aeroporto é uma das mais recentes manifestações de neutralidade e, paradoxalmente, o veículo mais forte de diferenciação entre o genérico. Como explica o autor, o aeroporto “é a concentração do hiper-local com o hiperglobal. Local porque se encontra tudo como o que existem em todo o lado, Global porque tem o que não existe em qualquer outro lado”.38 Na sua óptica o aeroporto é exemplificativo da rede criada entre cidades e a condição in-transit é a sua face mais visível: a próxima cidade/aeroporto está à distância de um bilhete de avião. Por outro lado, a identidade deriva da substância física, histórica, do contexto e do real, contudo “não imaginamos algo contemporâneo a contribuir para essa condição”.39 Na óptica de Koolhaas, a identidade centraliza ao insistir numa essência: “como a esfera de influência se expande, a área caracterizada como centro torna-se cada vez maior”.40 CENTRO VS. PERIFERIA

Nas cidades concêntricas a insistência no centro representa o valor do significado e este é duplamente destrutivo.

34. KOOLHAAS, Rem, The Generic City. In: S, M, L, XL, Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p1250, tradução livre. 35. Op. Cit. p1248, tradução livre. 36. Op. Cit. 37. Op. Cit. 38. Op. Cit. p1251, tradução livre. 39. Op. Cit. p1249, tradução livre. 40. Op. Cit.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Como o sítio mais importante tem que ser simultaneamente o mais novo e o mais velho, o mais fixo e o mais dinâmico, a reconversão para outros usos é a única solução. Neste sentido a descoberta da periferia torna-a numa zona de potencial valor na proporção em que a dependência do centro aumenta: sem centro não há periferia. Segundo Koolhaas, a periferia assemelha-se-nos pior porque o centro continua vivo. Por isso, a obcessão pelo centro ou pela estrutura concêntrica das nossas cidades transforma-nos em tunnel-and-bridge people. Refira-se que esta cidade genérica que Koolhaas define nasceu nas últimas décadas e é um fenómeno que abrange as cidades de todos os continentes. Contudo, se uns a aguardam com expectativa, outros temem a sua chegada. O autor resume esta incerteza com um simples exemplo. “Um dia, uma cidade singular como Barcelona, pela simplificação da sua identidade, tornar-se-á genérica. Torna-se transparente como um logotipo. E o contrário nunca acontece... pelo menos por agora”.41 Ora esta cidade “é o que foi deixado depois de grandes partes da vida urbana terem cruzado/atravessado para o ciber-espaço. Comparada com a cidade tradicional, esta cidade genérica é sedada, normalmente percepcionada a partir duma posição sedentária. O plano urbano acomoda agora apenas o movimento necessário, fundamentalmente o movimento automóvel, a auto-estrada é uma versão superior de avenidas e praças, consumindo cada vez mais espaço. O que é novo nesta locomoção pública é que não pode ser medido em dimensões”.42 A originalidade desta cidade é o abandono de tudo aquilo que não funciona, ao mesmo tempo que contém o primordial e o futurístico, porque é tudo aquilo que restou do que costumávamos chamar cidade. Na opinião do autor, “é a pós-cidade preparada no lugar da ex-cidade”.43 BIGNESS

Koolhaas acrescenta o XL: a monumentalidade (BIGNESS) que a seu ver preenche o espaço que sobra-resta. Como refere Koolhaas, “para lá de uma certa escala, a arquitectura adquire as pro-

Content, p 189.

priedades do monumental e esta é a derradeira arquitectura”.44 Koolhaas explica que esta “derradeira arquitectura” se torna amoral, para lá do bem ou do mal, o seu impacto é independente do seu tamanho. Monumentalidade, Rem Koolhaas

Subsiste não sendo jamais parte do tecido urbano.

41. KOOLHAAS, Rem, The Generic City. In: S, M, L, XL, Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p1251, tradução livre. 42. Op. Cit. 43. Op. Cit. 44. KOOLHAAS, Rem: Bigness or the problem of Large. In: S, M, L, XL, Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p495, tradução livre.


CAPÍTULO 5: DAS “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS” À CONTEMPORANEIDADE

Nas palavras de Koolhaas, “existe, no máximo coexiste”.45 Para lá de uma certa massa um edifício transforma-se num grande edifício que não consegue ser controlado por um simples acto de arquitectura, “ou mesmo pela combinação de vários gestos arquitectónicos. Esta impossibilidade desencadeia a autonomia das suas partes, mas isto não é o mesmo que fragmentação: as partes continuam confiadas ao todo”.46 Koolhaas refere que o alargamento de escala transforma a arquitectura e a sua acumulação géra outro tipo de cidade. Nas palavras de Koolhaas, “o exterior da cidade já não é o teatro colectivo onde algo acontece; não foi deixado espaço colectivo. A rua tornou-se residual, propósito organizaçional, um mero segmento do plano metropolitano contínuo onde as reminiscências do passado confrontam os equipamentos de hoje. A monumentalidade pode exister em qualquer parte desse plano”.47 Esta monumentalidade “não só é incapaz de estabelecer relações com a cidade clássica [tradicional/compacta] – no máximo coexiste - mas na quantidade e complexidade das facilidades que esta oferece, ela própria é urbana. Esta não necessita da cidade; compete com ela; representa-a, antecipa-a; ou melhor, é a cidade. Se o urbanismo gera o potencial e a arquitectura o explora, a Monumentalidade recruta a generosidade do urbanismo contra a mesquinhez da arquitectura”48 Deste modo, Koolhaas conclui que a “Monumentalidade = Urbanismo vs. Arquitectura. Através da sua independência do contexto, é a única arquitectura que consegue sobreviver, mesmo que explorada, à agora nova condição de tabula rasa: (...) gravita oportunamente para localizações de máximo potencial estrutural; é finalmente a sua própria razão de ser”.49 Esta nova monumentalidade, contentora de novos programas será, segundo Koolhaas, o limiar de uma paisagem pós-arquitectónica: “inflexivel, imutável, definitiva”.50 Como exemplo desta monumentalidade, Koolhaas refere as torres gémeas que, construídas por volta de 1972, marcaram a paisagem sem no entanto fazer parte dela. Funcionaram como símbolo, monumento a uma realidade que se pretendeu fixar. Esta monumentalidade é o que compõe a cidade genérica defendida pelo autor: uma grelha bidimensional que define ruas e quarteirões.

45. KOOLHAAS, Rem: Bigness or the problem of Large. In: S, M, L, XL, Nova Iorque, The Monacelli Press, 1995, p495, tradução livre. 46. Op. Cit. p496, tradução livre. 47. Op. Cit. 48. Op. Cit. 49. Op. Cit. p515, tradução livre. 50. Op. Cit.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Nos quarteirões constrói-se a nova expressão da condição contemporãnea, que é auto-regenerativa. Esta condição auto-regenerativa (expressa no quarteirão) é hoje o espaço por excelência para o surgimento da “nossa” urbanidade pivot. INSTABILIDADE CONTEMPORÂNEA

Mais recentemente é editado o “Boogazine” Content. Segundo o autor, este “Boogazine” nasceu da instabilidade da globalização e do mercado, “é imediato, informal, e assume a instabilidade como nova fonte de liberdade”.51 O livro compila a totalidade da obra do OMA (agora em conjunto com a AMO) pósS, M, L, XL. Abrangendo uma década (1995-2004) é uma apologia à obra aberta e inclusiva-global. A nosso ver, fornece uma visão do arquitecto sobre a sociedade e seu desenvolvimento a partir do qual é possível contextualizar de forma mais concreta a sua obra. Neste livro, Koolhaas expressa, na forma e no conteúdo, a miscelânea de conceitos

Content, capa

e acontecimentos52 que envolvem a actualidade a um ritmo cada vez mais alucinante. Refere que existe hoje um conflito entre a vagareza da arquitectura e a volatilidade Content, Rem Koolhaas, 2004

do mercado. A seu ver, este conflito dificulta o papel do arquitecto na construção do objecto arquitectónico. Não há agora espaço para sintetizar espaços fixos e imutáveis sendo necessária uma abordagem programática fléxivel e uma aproximação a uma estética do efémero. Defende também que, com o início do liberalismo e da globalização nos anos setenta, o papel do arquitecto é dificultado. Por um lado, o início do liberalismo implicou uma perda de identidade e status, pois todo (ou quase) o trabalho do arquitecto é ao serviço do privado. Por outro lado, a globalização implica uma nova mudança: “alguma vez se poderá saber o que o «outro» necessita?”53 Neste texto-artigo, Koolhaas retoma o tema da monumentalidade questionandose se “a tarefa do arquitecto consiste em fazer masterpieces, os novos monumentos?”54

51. KOOLHAAS, Rem: Content, Koln, Taschen, 2004, p20, tradução livre. 52. Note-se que a queda das Twin Towers, por exemplo, foi significativa para o assumir de uma estética fugaz e efémera. Tal acontecimento foi impulsionador da viragem de conteúdos a que temos assistido. No caso de Koolhaas esta é notória na passagem de S, M, L, XL para Content. Verifica-se a passagem progressiva da globalização e multiplicidade de escalas para uma instabilidade de mercados, programas e formas. 53. KOOLHAAS, Rem: Content, Koln, Taschen, 2004, p44, tradução livre. 54. Op. Cit.


CAPÍTULO 5: DAS “TENDÊNCIAS ALTERNATIVAS” À CONTEMPORANEIDADE

Esta questão surge porque hoje, nas palavras do autor, somos convidados a representar uma intenção comercial.55 Tal acontece porque a emergência de novos negócios (cinema, música ou internet), dão-nos conta da volatilidade dos mercados, expressando a sua própria efemeridade. Estes mercados alteram-se com maior rapidez do que a implementação da arquitectura (processo desde a concepção à construção). Isto implica que, depois de acabado, o edifício carece imediatamente de reformulação dos princípios e conceitos que lhe estiveram na origem. Com o surgimento destes novos negócios, surgem, por um lado novos espaços de construção e, por outro lado, novas formas de comunicação na arquitectura. Porém, estes novos negócios são “temporários” e o espaço e comunicação que deles resulta também. Estão em constante mutação (funcional, formal, visual) tornando-se sempre espaços diferentes no mesmo espaço. Espaços em constante “delírio”. Estes espaços são, segundo Koolhaas, o resíduo do urbano, ou o que sobrou após a modernização. O autor define este espaço como junkspace: “o que sobra depois da modernização ter efectuado o seu percurso ou, mais precisamente, o que coagula enquanto a modernização está em curso. Junkspace é a apoteose da modernização, ou a sua miscigenação...”56 De facto, no “esqueleto” histórico da urbanidade é sobreposta a expressão da contemporaneidade, fugaz e efémera. O aqui defendido por Koolhaas é o aproveitamento do espaço residual, de tudo aquilo que sobra ou resta para construir a cidade. Daqui resultará uma cidade residual. A nosso ver, neste espaço sobrante é onde se manifesta hoje aquilo a que, nesta prova, chamamos urbanidade pivot: a medida da época, para o bem e para o mal. Koolhaas, a propósito de Content, refere que “é apresentado como uma revista - o congelar de um momento preciso. Como uma revista, poderá ser ressuscitado quando houver mais a relatar”.57 Como Content, assim são os supracitados junkspaces.

55. Rem Koolhaas estabeleceu um sistema representativo desta intenção comercial: o sistema ¥€$ que resulta da junção da primeira letra das palavras Yen, Euro e Dólar. Nas palavras do autor, “trabalhamos no seio do “sistema ¥€$”, trabalhamos integrados no “sistema ¥€$”, trabalhamos com o “sistema ¥€$”e trabalhamos contra o “sistema ¥€$”. Todas estas atitudes são possíveis e fazem parte do nosso trabalho.” Protótipo #007. 56. KOOLHAAS, Rem: Content, Koln, Taschen, 2004, p162, tradução livre. 57. Op. Cit. p20, tradução livre.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO


CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

6.│ Operatividade

O capítulo 6, denominado “Operatividade”, tenta sobretudo reflectir sobre uma postura pessoal face ao projecto de Arquitectura e Urbanismo. Esta parte da prova pretende transportar o campo da nossa “urbanidade pivot” (o campo por excelência da actividade do arquitecto) para o plano do real e sua inserção na cidade. Tenta-se por isso equacionar um conjunto de apontamentos acerca de várias questões contemporâneas sobre a cidade com analogia na arquitectura e que se nos afiguram importantes. O ponto 1, “Público vs. Privado” aborda a questão da construção dos espaços públicos, sua privatização e interiorização. Atentando em Borja, Bohigas, Portas e Ascher, referimos a noção de espaço público e veremos a sua importância reflectida na cidade e sua influência no social. O ponto 2 , “Gentrificação”, avança um possível desenvolvimento acerca de uma forma de segregação social e espacial. Referimos novos modos de construção e apropriação do urbano que, através de novas formas e programas, sectorizam a cidade contribuindo para a sua actual condição de dispersão e fragmentação. O ponto 3 , “Imagem”, tenta compreender o fenómeno de percepção da cidade e a importância da sua imagem no acto de planeamento. Recorremos a Lynch e Venturi (por motivos diversos) de modo a evidenciar que a cidade é portadora de uma imagem que a identifica. Também o indivíduo e o colectivo se revêem nessa imagem, pelo que se introduzidas alterações, reformula-se a relação entre as dimensões física e social da cidade. O ponto 4 , “Novas tecnologias e mobilidade”, reflecte acerca da introdução das inovações tecnológicas no espaço-cidade. Veremos que a sua aceitação é gradual e que a sua influência se torna determinante para a evolução das performences sociais e crescimento da forma física. O ponto 5 , “Caso Português”, reflecte acerca do panorama urbanístico nacional, forma como se desenvolve e organiza. Tendo em conta os planos e a sua regulação procuramos perceber o impacto das mudanças anteriormente referidas no panorama Português. Veremos que ainda não nos encontramos em sobremetropolização, mas em sobreconstrução que contribui para o caos urbano verificado nas últimas décadas. O ponto 6 , “Planeamento”, último tópico desta abordagem, procura dar conta das possibilidades actuais de planeamento urbano ( e inserção da dimensão pivot). Atendendo ao actual fenómeno de caos e fractalização, sedimentação e desejo de mudança, acumulação e diferenciação, veremos que é essencial definir claramente uma matriz bidimensional (malha urbana) que possibilite o suporte dos diversos actos isolados que a arquitectura fornece enquanto estrutura a dimensão colectiva.

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

6.1.│ Público vs. Privado

Os espaços denominados públicos, com o surgir de novas lógicas de mercado e de consumo, sofrem actualmente uma progressiva miscigenação (do público pelo privado e vice-versa) com analogia na construção da cidade e no relacionamento do individual-colectivo com esta. Independentemente da forma ou das motivações que estão na origem da sua organização e construção, o espaço público deixa de pertencer exclusivamente ao domínio público, em parte, pela sua apropriação por parte de privados. Tal é promovido pela mudança, deslocamento e surgimento de novos programas que compõem a cidade. CIDADE E ESPAÇO PÚBLICO

Oriol Bohigas citado recentemente por Jordi Borja referiu que “o espaço público é a cidade”.1 Borja, partindo desta afirmação, refere que “no séc. XIX é consolidada definitivamente a privatização de grande parte do solo urbano. As administrações públicas preservam espaços para a vitalidade, para infra-estruturas, para praças e parques. No final do século aparecem novos conceitos, regras e práticas de urbanismo, o zonamento e o traçado são alguns dos desenvolvimentos. Pouco depois, no início do século XX, começa-se a utilizar o conceito de espaço público. Um conceito originariamente europeu que seguramente é expressão de uma cultura urbana que valoriza a cidade como espaço de convivência, de intercâmbio e vida colectiva”.2 Também Nuno Portas referiu, no passado mês de Julho, que “nessas cidades anteriores ao Modernismo, esse espaço colectivo era basicamente a rua, a praça, o jardim, a frente de rio e pouco mais”.3 Por outro lado, continua Portas, “no Modernismo, o espaço público não tem forma: é o espaço resultante da relação entre os edifícios. O que se compõe artisticamente são os edifícios e a sua disposição. O espaço público serpenteia. (...) É desenhado a partir de uma ideia arquitectónica monumental, é encenado”.4 Note-se no entanto que o espaço público no Modernismo era já submetido ao desenho. Da relação entre os edifícios surgia a relação entre espaços de utilização colectiva. Neste contexto, Borja adianta duas possibilidades acerca da construção destes espaços: segundo uma lógica urbana capitalista ou segundo uma cultura social e profissional cívica. Ambas perduram durante todo o séc XX. Segundo Borja, “a primeira tende a privatizar e a fragmentar o espaço urbano, a segregar usos e grupos sociais, a produzir uma cidade hierárquica e desigual, a mer-

1. BORJA, Jordi: L’espai públic, ciutat i ciutadania. In: Revista Transversal, n.º 23, 2004, p12, tradução livre. 2. Op. Cit. 3. MILHEIRO, Ana Vaz e SALEMA, Isabel: Entrevista c/ Nuno Portas. In: Mil Folhas, Público, 23/07/2005, p13. 4. Op. Cit.


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

cantilizar as relações urbanas, a intensificar o uso do sólo urbanizável (...), e a potenciar dinâmicas especulativas em áreas periféricas ou degradadas ou promovendo inversões públicas ou promovendo operações descontínuas para valorizar o solo intermédio.5 Por outro lado, a cultura social e profissional, e ainda segundo Borja, “enfatiza um espaço público ordenador da cidade e polivalente, que segue um factor de socialização da vida citadina e de monumentalização dos centros mas também de qualificação das áreas deficitárias. Um espaço público equipado e animado, acessível e acolhedor. Um espaço público concebido como espaço colectivo, um espaço de liberdade, não redutível a uma concepção funcionalista ou especializada.6 PÚBLICO E PRIVADO

Como refere Francois Ascher, em Metapolis: acerca do futuro da cidade, “as cidades já não se fazem somente à custa de habitação social, de equipamentos públicos e de grandes infra-estruturas, pelo que devem por isso, ter mais em linha de conta as lógicas dos produtores de espaços privados tanto para as extensões, como para as transformações urbanas”.7 Estes construtores de espaços privados refereidos por Ascher promovem, para além de novas urbanizações, espaços privados de utilização colectiva. Isto provoca a transformação e deslocação de programas na cidade. Tal transformação e deslocação, e consequente redefinição do conceito de espaço público, introduz uma problemática na construção de cidade que resulta “de uma transformação das práticas urbanas e dos usos e estatutos dos diversos espaços

metapolitanos8”.9 Daqui deriva uma distinção entre “público/privado, exterior/interior, colectivo/individual, comunitário/urbano que são reajustadas pela desagregação social e funcional dos bairros, pelo desenvolvimento de novas centralidades, pelas novas sociabilidades, mais fundamentadas nas afinidades do que nas proximidades físicas, pela integração, através da função residência, de funções outrora exteriores, pelo desenvolvimento dos transportes rápidos, pela quase generalização do uso do automóvel, pelas concessões cada vez mais numerosas de obras e serviços públicos, etc”.10 Atentando no que refere Ascher, este conjunto de mudanças redefine a cartografia da problemática urbana contemporânea. Tornando o espaço cidade mais flexível, introduzem também novas premissas na construção do espaço de carácter público: este deixa de ser apenas a rua, a praça, etc, passando a compreender em si também espaços privados de carácter público.

5. BORJA, Jordi: L’espai públic, ciutat i ciutadania. In: Revista Transversal, n.º 23, 2004, p13, tradução livre. 6. Op. Cit. 7. ASCHER, François: Metapolis: acerca do futuro da cidade, Oeiras, Celta, 1996, p171. 8. Espaços metapolitanos como espaços pertencentes à metápole. “Ao estimar-se que o desenvolvimento das telecomunicações e dos transportes acabará por dissolver as cidades num imenso continuum semeado de unidades de habitação autónomas e telecomunicantes prevê-se uma nova forma urbana já emergente.” [Metapolis, 1996] O autor define esta nova aglomeração urbana como metápole que poderá ser a nova forma da metrópole (que engloba e ultrapassa a metrópole). 9. ASCHER, François: Metapolis: acerca do futuro da cidade, Oeiras, Celta, 1996, p172. 10. Op. Cit.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Deste modo, parte do espaço público passa a privado e vice-versa. O que é péssimo. Sendo a cidade, o espaço público é sensível às mudanças nela operadas. Por isso corresponderá ao evoluir de novas performances que resultantam em diferentes sociabilidades ou modos de estar no urbano. PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO

A progressiva reformulação dos espaços públicos resulta em parte de uma transferência das práticas urbanas e dos usos e estatutos dos diversos espaços constituintes da urbanidade (as noções de público e privado alteram-se, as separações espaciais e jurídicas redefinem-se).

www.tropicalisland.de, 2005.

Ascher refere que “a privatização da cidade acontece sobretudo nos centros comerciais, espaços cada vez maiores e cada vez mais urbanos, mas geridos e controlados de forma privada, o mesmo sucedendo com as estações de caminhos-de-ferro ou das empresas de transporte colectivo, cujas gares e estações de interconexão com as linha do metropolitano são espaços públicos concebidos e geridos segundo as Centro Comercial: Espaço privado de utilização colectiva

próprias lógicas de empresa”.11 De facto, como refere Federico Soriano,“hoje em dia desapareceu a relação entre propriedade e uso. Espaços de propriedade privada são usados de maneira pública (centros comerciais, aeroportos...) e vice-versa, espaços públicos são absorvidos por usos particulares. Apareceu uma nova modalidade na qual o colectivo, o uso de uma ampla agrupação de indivíduos, se converte na sua única característica constante”.12 Estes espaços “privatizados” remetem-nos para a questão da capacidade auto-regenerativa do tecido urbano e para quem promove essa regeneração. Em tempos os novos programas constituintes da urbanidade pivot eram “patrocinados” pelas entidades reguladoras de carácter público (do Estado ao Clero). Hoje, os operadores são distintos e, porconseguinte, os programas também. Dos palácios e Catedrais passamos ao Centro Comercial e Plataformas Intermodais in-transit promovidas por privados e de carácter global e globalizante. O novo espaço colectivo está assim associado a uma nova ordem de coisas que desponta paralelamente à emergência de outras formas de afirmação económica e urbana. Deste modo, podemos hoje limitar o fenómeno de reorganização da dicotomia privado-público a dois factores chave: a privatização do público (e sua progressiva interiorização); e a “publicização” do privado (a sua “abertura” ao experior). O espaço público é pois importante porque serve de interface entre cidade e cidadão, definindo a imagem da urbanidade e transportando o domínio do colectivo para lá das fachadas. Por isso, a miscigenação de espaços que agora ocorre cria uma tensão no espaço público que gira à volta da diferença de poder entre as classes sociais, entre homens e mulheres, entre Estado e Sociedade, que é manifestado na evolução das especificidades espaciais do urbanismo.

11. ASCHER, François: Metapolis: acerca do futuro da cidade, Oeiras, Celta, 1996, p172. 12. AAVV: Dicinário Metapolis, Arquitectura Avanzada, Barcelona, Actar, 2001, p 203, tradução livre.


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

6.2.│ Gentrificação

MUTAÇÃO FUNCIONAL E SOCIAL

A dicotomia privado-público (a “privatização” do público e a “publicização” do privado) está também associada à noção de gentrificação que por sua vez está associada à ideia de “enriquecimento”. Tal denominação associa-se à alteração da composição social original de determinada área da cidade no seguimento de programas de requalificação de espaços urbanos estratégicos. Significa a substituição de programas na sequência da tentativa de valorização de determinada área urbana (normalmente áreas urbanas degradas). Esta realidade está associada, desde logo, à referida diferença de poder entre as classes sociais, observando-se na componente social da cidade uma diversidade que por vezes promove a sua distinção e posterior segregação. Como refere François Ascher em Metapolis, “os Homens, sobrepondo-se à diversidade das línguas e modos de vida, aprenderam a viver nas metrópoles de modos diferentes e a aceitarem ser estrangeiros entre estrangeiros.”13 Tal resulta, em parte, de vários fenómenos que têm que ver com a diversidade social nas cidades contemporâneas. Várias linguas, raças, culturas ou hábitos, promovem (por vezes de forma perversa) uma crescente insegurança no cidadão local. Augé por outro lado refere que “o interesse da antropologia pela representação do indivíduo não reside apenas no facto de se tratar de uma construção social, mas também porque toda e qualquer representação do individuo é, necessariamente, uma representação da relação social que lhe é consubstancial. [Neste sentido],“o social começa com o indivíduo.”14 Se o indivíduo constrói o seu sentido de pertença partindo da noção de limite do seu raio de acção, as diversas identidades que moldam os seus hábitos iniciam um novo processo de construção cultural, uma vez que a sua abrangência é hoje global e as referências diversas e dispersas. Tal torna difusa a coincidência de identidades num mesmo espaço físico. Isto transporta a tarefa de construção do espaço colectivo para terrenos difíceis, dada a necessidade de ser simultaneamente diversificada e homogénea ou identitária. A nosso ver, este facto reflecte-se na componente física da cidade. De facto, um dos fenómenos que hoje despontam a si associados, é a vaga de condomínios fechados que cria, obviamente, cidades dentro da cidade. Tal como os bairros sociais criaram uma auto-reclusão, criando bolsas multifuncionais isoladas dentro da própria cidade, também estes complexos habitacionais (representativos de determinadas classes socias) ou culturais se isolam do restante tecido urbano. Interiorizando-se, criam sociabilidades específicas que resultam em espaços colectivos restritos aos moradores, afastando-os de diversas realidades sociais vizinhas.

13. ASCHER, François: Metapolis: Acerca do futuro da cidade, Oeiras, Celta, 1996. p1. 14. AUGÉ, Marc: Não- lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Venda Nova: Bertrand, 1998. p27.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

EXPOSIÇÃO MEDIÁTICA

Por outro lado, um dos fenómenos que desponta derivado deste “enobrecimento” é a “museificação” ou exposição da cidade. Como refere Solà-Morales em Patrimonio arquitectónico o parque temático, “no processo de substituição da realidade pelas suas imagens e o modo de ver os monumentos e lugares tende também a dissolver-se num imaginário que já não é controlável”.15 O autor refere um ambiente urbano dominado pela imagem do construído difundida pela indústria do turismo e do ócio. Segundo Ignasi, “o que podemos chamar o efeito parque temático sobre a recepção do património arquitectónico é, precisamente, a mais imediata consequência desta nova situação cultural”.16 Portadores de uma “imagem sedutora”, estes espaços museificados (edifícios singulares ou conjuntos edificados), para lá de funcionarem como referência visual para vastas par-

Frank Gehry, capa.

tes da cidade, são hoje mediatizados num processo de globalização da sua imagem.17 Actuando como ícone identitário são, por vezes, elementos acessíveis apenas a algumas partes do corpo social. Espaços culturais, de lazer ou trânsito, assumem um carácter excepcional, e por vezes meramente visual, interiorizando a experiência colMuseu Guggenheim, Frank Gehry Bilbao

ectiva, conferindo ao utilizador a sensação de exclusividade. É neste sentido que chegamos a um tempo em que a privatização do público assume a sua interiorização. Promove a reclusão voluntária de partes da cidade, criando por vezes uma dimensão turística e elitista na cidade, com origem na sua mediatização. Tal tendência poderá revelar-se “perigosa”, correndo o risco de resultar num afastamento do cidadão comum da cidade (ou pelo menos de partes dela). Com estes novos programas (que em certos casos constituem os actuais edifícios de excepção) emerge uma nova representação e organização dos recursos socioeconómicos. Estes “monumentos da sobremodernidade”, ao deslocalizarem e mediatizarem o centro de reunião das massas tornam-se em novos pólos de atracção de bens e pessoas. Do mesmo modo que as Catedrais concentravam em si a imagem colectiva e a interiorização do espaço-cidade hoje, aeroportos, gares, shoppings, etc, capitalizam a permanência à conta de novas organizações económicas e comerciais, e por consequência territoriais, promovidas por novos hábitos culturais. Este conjunto de fenómenos poderá levar à supressão do espaço público, ou à sua redução a elemento circunstancial e de trânsito (entre pólos mediáticos). Se no ponto um falámos da miscigenação do público, neste ponto falamos de um fenómeno que está indirectamente relacionado: o enclausuramento do público, imune à “vizinhança”, e a sua exposição como produto cultural e comercial.

15. SOLA-MORALES, Ignasi: Territórios, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2002, p202, tradução livre. 16. Op. Cit. 17. Veja-se por exemplo o fenómeno Guggenheim de Bilbao. Resultou de uma estratégia de revitalização urbana, transformando-se de seguida num ícone (turístico, cultural, comercial).


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

6.3.│ Imagem

O POTENCIAL DA IMAGEM

A questão da “museificação” transporta-nos para o potencial da imagem que a cidade comporta, através do público. Como “cenário” que é, a sua importância ultrapassa formal, abrangendo a vida de cada cidadão. Tal leva a que a imagem da cidade assuma um carácter identitário da própria urbanidade servindo de referência à identificação do indivíduo com a cidade que habita. Como refere Kevin Lynch, em The city Image and its elements, “parece haver uma imagem pública de cada cidade que é a sobreposição de várias imagens individuais. (...)Cada imagem individual é única, com um significado raramente ou nunca comunicado, mas que aproxima a imagem pública, que em diferentes ambientes é mais ou menos convincente, mais ou menos acolhedora”.18 Lynch define o conteúdo destas imagens de cidade, e que se referem exclusivamente a formas físicas, através de cinco tipos de elementos: vias, limites, zonas, nós e marcos.

Vias, são os elementos através dos quais, por serem onde geralmente o indivíduo se move, se percepciona a cidade. Ruas, passeios, auto-estradas, caminhos-de-ferro ou qualquer outro tipo de canal, são os elementos a partir dos quais a restante estrutura urbana se organiza, formal e visualmente.

Limites “são os elementos lineares não considerados como vias pelo observador. São as barreiras entre duas fases, quebras lineares na continuidade”.19 Muros e fins de urbanização, ou mesmo descampados, são referências e por vezes barreiras de passagem de uma zona a outra.

Zonas são as componentes das várias secções da cidade e são geralmente percebidas enquanto exterior ou interior. São bolsas de desenvolvimento com imagem própria que compõem o organigrama da cidade.

Nós são pontos estratégicos na cidade “onde o observador pode entrar, e que são focos intensos de e para onde ele viaja. Podem ser junções primárias, sítios de transbordo, um cruzamento de vias, momentos de mudança de uma estrutura para outra. Ou os nós podem ser simples concentrações, que ganham a sua importância por serem a condensação de alguns usos ou carácter físicos”.20 Os marcos-urbanos são também um ponto de referência mas nos quais o observador não participa activamente. “São normalmente objectos físicos : edifício, sinal (símbolo), loja ou montanha. Alguns marcos urbanos são distantes, visíveis de vários ângulos e distâncias para lá do topo dos elementos pequenos e usados como referências radiais”.21

18. LYNCH, Kevin: The City Image and its elements. In: The city reader, Londres, Routledge, 2000, p479, tradução livre. 19. Op. Cit. 20. Op. Cit. 21. Op. Cit.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

CONSTRUÇÃO DA IMAGEM

Também Robert Venturi em Learning from Las Vegas fala sobre a simbologia e a forma arquitectónica, falando da imagem da cidade. Venturi refere a imagem construída: a imagem enquanto símbolo. Esta imagem, segundo Venturi, deriva da imagem arquitectónica, e o exemplo de Las Vegas serve de caso de estudo para posterior reflexão sobre uma arquitectura do comercial (que segundo o autor dá origem a uma cidade comercial). Nas palavras de Venturi, “quando os arquitectos modernos abandonaram honradamente o ornamento sobre os edifícios, inconcientemente desenharam edifícios que eram um ornamento. Ao favorecer o espaço e articulação sobre o simbolismo e o ornamento, distorceram todo o edifício até o converterem num pato. Substituíram a prática inocente e barata da decoração aplicada no edifício pela distorsão bastante cínica e cara do programa e da estrutura para promover um pato; a maioria das minimegaestruturas são patos. Já é momento de reavaliar a declaração de John Ruskin segundo a qual a arquitectura é a decoração da construção, mas sem menosprezar a advertência de Pugin: está muito bem decorar a construção, mas nunca construamos a decoração”.22 Venturi alude à construção da imagem da cidade pela arquitectura, aprendendo a partir de uma paisagem existente. Tal como é referido pelo autor em Re-learning from Las Vegas, aquando o seu interessa pela dita cidade, há trinta anos atrás, ela representava a expansão da iconografia. Contudo é hoje inacreditável “porque Las Vegas se tornou cenográfica, tal como a Disneyland”.23 Neste sentido Venturi fala de uma oposição entre a Las Vegas de 1972 e a dos nossos dias: a primeira era predominantemente comercial; a segunda é espectacularizada e cenográfica. Esta evolução é, nas suas palavras fascinante e significativa, e representa uma “passagem da forma ao simbolismo – estamos agora no simbolismo”.24 MODIFICAÇÃO DA IMAGEM

Para além dos excessos por vezes cometidos ao previligiar a aparência de uma forma, a imagem é preponderante e pode ter um uso. De facto, atentando nas definições de Lynch percebemos o impacto que a imagem tem na mediação entre cidade e observador, entre urbanidade e indivíduo. Ao distinguir o cenério-cidade em cinco componentes, o autor identifica os elementos chave onde, introduzidas alterações, se passa a percepcionar e viver a cidade de outro modo. Dicionário Metapolis, p45.

Com a reformulação das noções identificadas por Lynch, assiste-se a uma redefinição do cenário urbano. Tal reflecte a importância da imagem na cidade contemporânea. Por isso, a cidade não poderá ser, para as pessoas que vivem o quotidiano, apenas uma imagem de fachada. É uma zona de “negociações” feita de uma multipliciAndaimes: superfícies comunicativas, modificáveis e efémeras

dade de sistemas que afectam directamente a vida de cada cidadão.

21.VENTURI, Robert: Aprendiendo de Las Vegas: El Simbolismo olvidado de la Forma Arquitectónica, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1978, p202, tradução livre. 22. Interview with Denise Scott Brown & Robert Venturi: Re-learning from Las Vegas. In: KOOLHAAS, Rem, Content, Koln, Taschen, 2004, p151, tradução livre. 23. Op. Cit.


CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

É um veículo transportador de sociabilidades e modos de estar e viver o urbano. Esta realidade remete-nos para uma alteração do modelo pelo qual se rege a construção do urbano: se em tempos recentes o edifício-ícone era a referência mais comum, hoje ela reside na comunicação de símbolos-logótipos. Tal reflecte uma transferência do espaço cidade para o espaço dos media: o importante é a abrangência da imagem e não a sua materialidade no território. Com a globalização, devida à massificação das comunicações globais, a imagem urbana é a cada dia mais dinâmica com os logos e os lugares comuns a ganharem preponderância. Caminhamos para uma desmaterialização da cidade, onde o símbolo do construído dá lugar à imagem simbólica da publicidade. É a emergência de uma nova palavra: a comunicação visual como transmissora de modos de ser estar na vida e na sociedade. Saliente-se que a comunicação (também informação), ao priveligiar o conhecimento e o debate, transmite e expõe as múltiplas possibilidades de actuação do arquitecto e da sociedade. Não impondo impondo uma vontade, por vezes influencia uma decisão-opinião. Neste sentido, estamos hoje numa sociedade onde a comunicação (de imagens, produtos...) ocupa um lugar cada vez mais decisivo nas actividades económico-sociais. De facto, como antevia Alvin Tofler, esta é a terceira era da civilização. Depois da era agrícola e da era industrial, vivemos agora a idade da comunicação e informação. Tal comunicação permite transportar facilmente a informação, anulando a distância e “encurtando” o espaço. Apesar desta globalização da imagem ela não deixa de tentar ser contextual ao introduzir-se num contexto tradicional. Denise Scott Brown adianta um exemplo: “é interessante ver como os anúncios da McDonald’s são diferentes na Europa. Eles usam os enormes arcos amarelos, mas colocam-nos num Forum Romano. São engraçados, e mais sofisticados do que os americanos”.25 Este fenómeno está em parte ligado ao avanço das novas tecnologias da comunicação, que não entrando abruptamente na vida dos cidadãos, vão moldando os seus hábitos. Gianetti refere que “a cidade é vista [hoje] como uma zona de batalha na qual este ou aquele género arquitectónico ou impulso idiomético luta pela sobrevivência. Imagens edificiais e superfícies superficiais definem a cidade contemporânea”.26 A palavra cenário-cidade ganha aqui outra abrangência: do sentido metafórico passa a significação literal. O espaço urbano é hoje o cenário por excelência para a apresentação de bens, serviços ou produtos: a cidade como enorme espaço publicitário, fotogénico e comunicativo. É por isto que é necessário procurar entender o impacto da imagem na cidade e as suas repercussões no individuo-colectivo, de modo a que a concepção da cidade corresponda às exigências do presente-devir e, simultaneamente, à história passada.

25. Interview with Denise Scott Brown & Robert Venturi: Re-learning from Las Vegas. In: KOOLHAAS, Rem: Content, Koln, Taschen, 2004, p156, tradução livre. 26. GIANETTI, Claudia: ARS Telemática: Telecomunicação, Internet e Ciber-espaço, Lisboa, Relógio d’água, 1998, p170.

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6.4.│ Novas tecnologias e mobilidade

TELECOMUNICAÇÕES E MOBILIDADE

Com a introdução do telefone nos modos de vida quotidianos, foi permitido um acréscimo das deslocações, de bens e pessoas, ao proporcionar as comunicações à distância. Tal promoveu a extensão do espaço cidade devido ao crescimento das deslocações que surgiram em consequência do uso desta tecnologia. Como refere Claudia Gianetti, em ARS telemática, “o “falar” a longa distância em tempo real estava, em princípio, solucionado com estas tecnologias. Faltava poder «ver» a longa distância, função que naturalmente seria cumprida pela invenção da televisão: tele (do Grego tele, longe) + visão”.27 Mais tarde, com a introdução do telemóvel, foi favorecida a mobilidade física. Tal tornou toleráveis os tempos de deslocação, transformando os automóveis em

Século XX, p795.

“lugares” multifuncionais. As telecomunicações constituem por isso, e paradoxalmente, um dos instrumentos de progresso dos transportes físicos, assim como fazem parte dos dispositivos que conTelefones sem fios Swatch

tribuem para uma redefinição (global) do espaço e tempo da vida económico-social. De facto, como refere Gonçalo Furtado em Notas sobre o espaço da técnica digi-

tal, “tem-se dissolvido a distinção cidade-campo, instaurado a cidade difusa e reorganizado o território sobre um entramado de redes e fluxos articuladores de uma nova geografia que reúne conceitos como “natural” e “urbano”, “local” e “global”, “privado” e “público”, “físico” e “virtual””.28 Tal contexto pode constituir um desafio para o arquitecto. Uma nova realidade que pode usufruir da crítica disciplinar que a arquitectura, com a sua tradição, pode oferecer. Gianetti refere por seu lado que os diferentes métodos de percorrer o mundo, territoriais ou mentais, “foram mudando e, com isso, os seus instrumentos de apoio. Todos os sistemas técnicos de transporte desenvolvidos desde a revolução industrial até aos nossos dias (...) são aperfeiçoamentos dos métodos de deslocação em relação às invariáveis espaço e tempo, com objectivos sempre idênticos: percorrer distâncias cada vez maiores num menor intervalo de tempo – dispôr do próprio corpo aderido a uma prótese técnica como meio de comunicação a longa distância”.29 Porém, a dimensão espacio-temporal está longe de de ser abolida ou diluída, uma vez que as telecomunicações não substituem as deslocações. A necessidade de comunicação e deslocação reformula no entanto as premissas velocidade e tempo promovendo uma progressiva alteração da métrica da cidade.

27. GIANETTI, Claudia: ARS Telemática: Telecomunicação, Internet e Ciber-espaço, Lisboa, Relógio d’água, 1998, p11. 28. FURTADO, Gonçalo: Notas sobre o espaço da técnica digital, Porto, Mimesis, 2000, p15. 29. GIANETTI, Claudia: ARS Telemática: Telecomunicação, Internet e Ciber-espaço, Lisboa, Relógio d’água, 1998, p120.


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

De facto, factores como a introdução da electricidade e iluminação pública, ou as comunicações telefónicas, fomentaram (involuntariamente) a expansão do território urbano e urbanizável. MOBILIDADE E FRAGMENTAÇÃO

Contudo, como refere Nuno Portas, “foi com a massificação do automóvel que chegámos definitivamente à cidade dispersa. E a cidade dispersa vive dele, quer queiramos quer não”.30 A generalização do automóvel no quotidiano foi o factor que permitiu a criação da actual condição contemporânea: paradoxalmente fragmentada e concentrada. Por um lado, é fragmentada na sua forma física, por outro é concentrada na conexão dos seus diversos fragmentos. Esta realidade, materializada na proliferação de auto-estradas organizadas em rede e conjugada com o reforço das redes ferroviárias, transforma a fragmentação do território na sua concentração. Com a facilidade de locomoção do indivíduo e comunicação atenua-se a percepção da dispersão territorial (ou mesmo que a tenhamos é diluída através do habitáculo automóvel ou de qualquer outro meio de contacto com o exterior). Fragmentos de civilização, utilização ou urbanidade são hoje em dia mesclados e conjugados de inúmeras formas. Mas é ainda possível distinguir os vários fragmentos que compõem a urbanidade. E podemos ainda dar conta de que as cidades globais coexistem com as cidades regionais, o que reforça o contraste entre as duas. CIDADE GLOBAL VS. CIDADE REGIONAL

Na opinião de Portas “as cidades globais são poucas. A maior parte das cidades são regionais. São é vítimas da globalização, sobretudo pela deslocalização de actividades que vão para outros sítios. Como é que é possível, hoje, termos uma cidade compacta, acabada, arrumada, quando quase tudo está em movimento na cidade contemporãnea. As cidades são um cruzamento, sempre o foram”.31 E de seguida define cidade global como sendo a cidade que “fala com o que está noutro continente; em matéria de bolsa, de tecnologia, de exportação de ciência”.32 Esta cidade global (ou no limite, cidade em vias de globalização) é comunicante por excelência, factor que se torna visível pela capacidade de transferência de informação, bens e pessoas. Neste sentido, a cidade é agora um fenómeno temporal, porque sendo um fenómeno fractal de repetição infinita do mesmo módulo ou modelo, importa o tempo que demoramos entre centros. Por isso, a distância é agora medida em unidades de tempo. Porque os meios de comunicação perderam em parte a escala métrica adoptando a escala da comunicação.

30. MILHEIRO, Ana Vaz e SALEMA, Isabel: Entrevista com Nuno Portas. In: Mil Folhas, Público, 23/07/2005, p14. 31. Op. Cit. 32. Op. Cit.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Gonçalo Furtado refere que, “para a compreensão da cidade contemporânea não se pode, a nosso ver, prescindir da identificação de uma sociedade movida pelos fluxos das redes e pelo incremento exponencional de um antigo desejo cultural [muito Moderno] de mobilidade. O incremento da “velocidade” esteve, de resto, na génese da passagem do “modelo mecanicista” ao “modelo pós-industrial” de cidade”.33 REFORMULAÇÃO DO TERRITÓRIO

De facto, a nova cartografia das redes de comunicação, promovida por necessidades de transmissão de bens e serviços emergentes e representativas de novas sociabilidades, reformula a urbanidade criando uma nova situação-cenário que resulta numa outra forma de aglomeração urbana. A formação destas novas aglomerações não ocorre como forma avançada de um processo de urbanização. Por isso é insuficiente a existência de novos meios de comunicação ou transportes para que produzam efeitos imediatos sobre as cidades. É necessário que a sociedade lhes confira uma utilidade, e logo que esta se sirva das suas técnicas, os efeitos tendem a surgir. Pela conjugação destes fenómenos é hoje visível uma alteração progressiva da escala (métrica e temporal) da cidade, que se inicia com a apropriação das inovações científicas e tecnológicas pelo espaço colectivo do urbano. A cidade é mais vasta e é paradoxalmente atravessada e percepcionada em menos tempo, o que desde logo condiciona-modifica a nossa experimentação urbana e apropriação do cenário dessa urbanidade. Neste contexto, em que é preponderante a conexão em rede, confundem-se no campo territorial as redes de cidades, de telecomunicações ou transportes. A sobreposição entre as diversas redes permite percepcionar hoje as várias layers de cidade. Porque hoje as aglomerações têm analogia na estratificação de funcionalidades independentes e paradoxalmente inter-relacionadas. É no seu conjunto, e não na sua análise individual, que nos apercebemos do verdadeiro impacto criado por estas tramas. Somente desse modo conseguimos compreender as metrópoles como elementos centralizadores de actividades estratégicas (identificadas por funções, por sectores de actividade ou profissões). Só assim a nodificação das cidades é visível, porque a existência de várias redes imprime uma nova importância ao conceito de interconexão que forma o que para Ascher é o efeito clube que consiste na intenção de pertencer a várias redes, reforçando a centralização à volta dos nós de conexão. Redes Hertzianas que complementam as redes que emergiram durante os sécs XIX e XX. (da rede ferroviária à auto-estrada), em conjunto com a internet, constituem diferentes faces de um mesmo fenómeno. Este fenómeno de transferência da inovação tecnológica para o espaço urbano, com maior ou menor receptividade, reprograma-nos fazendo-nos apreender, conceber e construir de outro modo o cenário-cidade.

33. FURTADO, Gonçalo: Notas sobre o espaço da técnica digital, Porto, Mimesis, 2000, p15.


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

6.5.│ Caso português

PROBLEMÁTICA URBANA

Fernando Távora referiu em 1969, no prefácio de A cidade como Arquitectura, uma nova cidade que, “é geradora de atritos de toda a ordem que não favorecem a vida física e espiritual dos seus habitantes”.34 Essa nova cidade resultava, nas sua acutilante percepção, de uma “evolução rapidíssima e num ritmo que acompanha os mais velozes de outras manifestações do homem contemporâneo”.35 Nuno Portas, três décadas depois referiu, acerca das mudanças e diferenças dos territórios do urbano Português, que “apesar das insatisfações que o seu estado provoque, a cidade herdada, também monocêntrica, compacta ou contínua, é consensualmente considerada como um património a conservar ou revitalizar nas suas diferentes componentes – social e cultural, mas também infra-estrutural e económica”.36 A hipótese levantada por Portas é a de que “esta cidade patrimonial (...), já não poderá, sem se descaracterizar irremediavelmente, conter no seu perímetro, nas suas muralhas administrativas ou “asfálticas”, o vasto leque de impulsos que movem estoutra urbanização que se adjectiva, à falta de melhor, como “contemporânea”. Esta cidade contemporânea configura-se, cada vez mais, como uma estrutura compósita de “cidade” (ou cidades) reconhecíveis pela sua história, e de “urbanizações” sem história, ou, dito de outro modo, com e sem “modelo”, impondo-se agora a gestão de ambas, como se de vasos comunicantes se tratasse. (que tradicionalmente mantinham a condição física das sucessivas adições), bem como a diversidade das centralidades, densidades e morfologias, não têm paralelo no quase meio milénio de história urbana moderna que termina com o próprio modelo metropolitano e, com ele, o dualismo centro-periferias que agora se esgota para dar lugar a situações muito mais complexas”.37 A nosso ver, os problemas apresentados por Portas em 2003 têm analogia com as preocupações apontadas por Távora em 1969. Desde então debatemos o problema do crescimento descontrolado das cidades e o que o origina. Tal pretende esboçar estratégias de ordenamento do território que permitam prever a evolução das necessidades sociais e o sentido do crescimento e revitalização territorial.

34. PORTAS, Nuno: A cidade como arquitectura: apontamentos de método e crítica, Lisboa, Livros do Horizonte, 1969, p6. 35. Op. Cit. 36. PORTAS, Nuno: Políticas urbanas: tendências, estratégias e oportunidades, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, p16. 37. Op. Cit.

Muralha Fernandina, Porto.

Portugal Eterno, p230.

As descontinuidades dos contornos e também dos próprios fluxos e espaços públicos


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Porque se por um lado ainda não fomos confrontados com a cidade global, fomos por outro confrontados com uma sobre-urbanização. Tal está em parte relacionado com a passagem de uma condição predominantemente rural no “pré-25 de Abril” para uma condição urbana fragmentada devido ao crescimento repentino das cidades (que ainda não conseguimos controlar e estabilizar). De facto, como refere Nuno Portas, “o território urbano português não escapa às tensões da terceira onda de urbanização. Como noutros países de desenvolvimento retardado e Estado-Providência incipiente, sentiu tarde as duas primeiras e, com a abertura ao exterior, a terceira veio sobrepor-se-lhe sem dar tempo para perceber as diferenças: mal terminavam os grandes (mas poucos) bairros sociais e ainda se tratavam muitos outros ditos de “génese ilegal”, e já estavam as auto-estradas, as actividades logísticas, os shoppings e multipexs, os parques temáticos, golfes, condomínios, etc., a colonizar os hinterlands entre cidades; formando novas centralidades ad hoc e vias rápidas urbanas, à mistura com as salvaguardas dos centros históricos e reservas ecológicas”.38 Esta “explosão urbana” que se acentuou com a revolução, ao ser transposta para o espaço urbano, originou o crescimento da especulação imobiliária resultando num processo construtivo caótico. De modo que o que existe hoje é espaço urbanizável: urbano ou na eminência de o ser. Neste contexto a arquitectura movimenta-se por terrenos instáveis devido à necessidade de acompanhar o ritmo construtivo do urbano e à incerteza com que este se processa. Com a globalização da economia, juntamente com a proliferação de meios de difusão cultural emergentes, começa a assistir-se a uma constante redefinição de mercados e a uma diluição (por vezes indefinição) de fronteiras. Tal conduz ao quase desaparecimento do conceito cidade-campo (devido ao crescimento repentino das cidades pequenas e médias) e à sobreposição de fronteiras estabelecidas por factores económicos, culturais, geográficos. MUDANÇAS SOCIAIS E TERRITORIAIS

É hoje evidenciada uma crescente indefinição relativa ao papel da cidade num contexto aberto a mudanças espaciais e programáticas de difícil definição. Esta realidade resulta numa enorme incerteza no acto de definir os mecanismos de planeamento devido às possibilidades multíplas de projecto com que nos deparamos. Manuel Mendes e Nuno Portas referem que, “neste clima de mudança, também tempo de crise cultural e ideológica, a liberdade de experiência viabiliza uma prática disciplinar policênctrica; uma prática de projecto que reflecte a diferença das escolhas projectuais e as opções de vontade estética pessoal, procurando consensos e rupturas entre opinião pública, produção e prática artística”.39

38. PORTAS, Nuno: Políticas urbanas: tendências, estratégias e oportunidades, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, pp16,17. 39. MENDES, Manuel; PORTAS, Nuno: Arquitectura Portuguesa Contemporânea: anos 60 - anos 80, Porto, Fundação de Serralves, 1991, p43.


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

Esta pluralidade, motivada em parte pela evolução dos padrões sociais e pelo constante reacerto de ideologias e modos de planear, é agora exponenciada neste início de milénio. As incertezas são maiores e reflectem o grau de complexidficação que a mutação sócio-económica em Portugal tem vindo a demonstrar. É um facto que, dia após dia, são mais frequentes as notícias de grandes centros urbanos, desertificados, marginalizados, vítimas do progresso expansionista que as nossas cidades têm vindo a desenvolver. Também é um facto que o tecido urbano, enquanto organismo vivo, se tem vindo a deflagrar ao longo dos anos, reflectindo a tendência clara da vontade dos agentes sociais em voltar a lançar os dados alterando as regras do jogo, tentando expandir criando novos modelos sociais mais dinâmicos e de acordo com as necessidades actuais. Contudo, é com esta realidade que nos confrontamos, e exactamente por isso, é com ela que os diversos agentes terão que interagir. Por isso se deve especial atenção aos mecanismos de regulação da expansão e revitalização do tecido urbano porque a sua preponderância no nosso país é determinante. MUDANÇAS E PLANEAMENTO

Nuno Portas equacionava em 1985 (quando a figura do Plano Director Municipal era ainda recente) a validade e actualidade dos planos reguladores levantando algumas questões: “o plano director municipal ainda se aguenta de pé? Ainda se justifica o esforço que essa nova figura implica? A resposta é positiva se o PDM for entendido pelos Municípios e pela Administração Central – e pelos técnicos nele envolvidos – com pragmatismos e inteligência: sem burocracia nem perfeccionismo”.39 Estes planos, tanto hoje como em ‘85, são a tentativa de entrecruzar todas as zonas do país, numa política económica e de planeamento o mais homogénea possível. Visam “coser” os diversos tecidos urbanos por forma a criar harmonia entre as partes que constituem o todo territorial. Contudo, e apesar de todos os esforços, é de salientar o seu relativo fracasso devido à falta de meios técnicos, financeiros e sobretudo de consensos. De facto, também Portas referiu há dois anos que “as agendas das políticas urbanas terão de incluir a “construção de consensos” que compatibilizem a “durabilidade” das propostas e o exercício da democracia, visando a formação de opiniões públicas mais esclarecidas sobre o que se quer e o que se pode querer, apoiando-se em cenários tão objectivos quanto os actuais níveis de conhecimento o permitam”.40 Pensa-se portanto que a solução não será a extinção dos planos, nem a criação de outros em alternativa, mas a criação de consensos que permitam o seu funcionamento.

39. PORTAS, Nuno: O PDM vale a pena? In: Cadernos Municipais, nº 30, 1985. 40. PORTAS, Nuno: Políticas urbanas: tendências, estratégias e oportunidades, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, p19.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

PLANEAMENTO E FLEXIBILIDADE

Nuno Portas em Políticas Urbanas41 refere que “fica apenas entreaberto um campo de pesquisa em que, entre desconhecimentos, insistências sobre modelos e soluções gastas, avaliações apressadas, importações simplistas de problemas e soluções estudadas ou praticadas algures, persiste um fosso entre a complexidade e a velocidade de transformação do “Portugal Urbano”, e a necessidade de criar sistemas e instrumentos de regulação mais adaptáveis, mais permeáveis à intersectorialidade e à articulação local-central”.42 Uma das soluções equacionadas refere-se à compatibilização e regulação destes planos no terreno. Como estes conjuntos de normas se mostram por vezes incompatíveis (não prevêm o desenvolvimento futuro ou as iniciativas que tenham em vista as necessidades locais), tornam-se obsoletos, desactualizando-se rapidamente. Por vezes mesmo antes da sua implementação. É pois de prever a sua marginalização em benefício de um planeamento aleatório que por vezes se “ajusta” às regras do mercado (onde tudo é possível). De facto, não raras vezes se tem verificado um planeamento avulso. Apenas num segundo momento se procura uma estratégia para “coser” os fragmentos. Mesmo com os esforços que se têm vindo a desenvolver (parte das autarquias e por vezes também de privados) tentando reabilitar e reorganizar as nossas cidades, a inércia dos proprietários perante as autarquias sem poder negocial sobrepõe-se, elevando o valor comercial de potenciais terrenos urbanizáveis, a preços exorbitantes. Perante este cenário, quer autarquias quer privados, desconfiam de todo e qualquer plano (seja a nível nacional ou a nível local) uma vez que todos eles se sobrepõem. Impondo normas rígidas e contrárias, por vezes impossíveis de cumprir por parte das iniciativas de desenvolvimento local, os planos debilitam-se à partida. Neste sentido, é mais urgente a criação de agentes reguladores dos planos, pondoos em prática e não apenas teoricamente. Ou seja, mediante a impotência das autarquias em controlar um crescimento caótico, e sabendo que os actuais regulamentos de nada valem, urge flexibilizar, clarificar e supervisionar. Com o passar do tempo e a mudança de vontades, estes planos foram-se corroendo, perdendo eficácia na sua actuação no terreno, desactualizando-se. Deste modo, presisamos de novos instrumentos de regulação flexíveis (em certa medida para que não sejam tão abertos que para tudo sirva). Face às possibilidades de concepção e construção contemporânea, estes planos devem ter um plano estratégico a montante que tenha a capacidade de regular a inserção da obra arquitectónica no tecido urbano (coordenando os diversos momentos pivot).

41. Políticas Urbanas “é resultado de um relatório expressamente preparado no Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, para apoiar - ou provocar - uma discussão sobre as políticas urbanas em Portugal, convocada pela Fundação Calouste Gulbenkian e que teve lugar em Junho de 2002”. [Políticas Urbanas, 2003, p15] 42. PORTAS, Nuno: Políticas urbanas: tendências, estratégias e oportunidades, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, p21.


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CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

6.6.│ Planeamento

PREVISÕES E EVOLUÇÕES

Alessandro Balducci referiu que “a planificação não soube tomar conta da dimensão evolutiva do futuro, de como o seu campo de aplicação é uma sociedade em contínua evolução, em contínua transformação, em contínua diferenciação. Não soube ter em conta a pluralidade dos objectivos de que somos portadores”.43 Atentando nas palavras de Balducci, percebemos a dificuldade de planear, de projectar cidade para o futuro. Isto porque o acto de planeamento é mais do que prever o crescimento da forma física da cidade. É também prever as possíveis evoluções do corpo social. Chegamos a um momento em que é inevitável o confronto com o acto de planear: qual será o seu papel na reorganização do território num momento da nossa história em que domina o difuso e fragmentado (da forma física à forma social)? Em 1969, em “A Cidade como Arquitectura”, Nuno Portas escreveu acerca da arquitectura urbana (“uma nova dimensão figurativa de intervenção no território”) que era necessária “uma mudança de óptica, a resolver pela educação permanente quando os problemas-chave da arquitectura actual [1969] se põem na escala urbana e na concepção de sistemas funcionais novos que põem as tipologias tradicionais irremediavelmente sob revisão. Sob o ponto de vista da arquitectura urbana não pode haver edifício que não faça cidade ou seja, não há tipologia que não esteja, por estrutura, penetrada por uma morfologia urbana. Fora deste sistema não há senão individualismo ou ilusão tecnocrática”.44 Já então Portas intuía a necessidade de compreender a cidade como disciplina integradora que deveria estar atenta às mudanças tipológicas operadas por via de novos programas. Esta preocupação persistiu e é, ainda hoje, um tema de debate: a dificuldade com que os profissionais se debatem em compreender as tendências de crescimento da cidade. Por outro lado, segundo Ascher, as novas tecnologias da informação reformularam as funções comerciais, estratégicas e de investigação. Tal resultou na necessidade de proximidade e conexão às grandes redes de comunicação: ou seja, qualquer zona de produção (indústria, comércio, serviços) deverá estar conectada aos nós de sistema de transporte, equipamentos culturais e desportivos, etc.

43. BALDUCCI, Alessandro: Il concetto di incerteza nelle recenti elaborazione teoriche urbanística, Lição para a prova de professor associado (policop), Milão, 1995. 44. PORTAS, Nuno: A cidade como arquitectura: apontamentos de método e crítica, Lisboa, Livros do Horizonte, 1969, p9.


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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO

Nas suas palavras é “nas metápoles que se concentram as empresas globalizadas que são também os principais mercados de construção, de obras públicas e de serviços em rede. É entre metápoles que se implantam os TGV, as fibras ópticas ou as auto-estradas, criando um fosso entre a construção e as obras públicas metapolitanas e o resto da industria da construção, que se encarrega de obras modestas em pequenas cidades”.45 Estas infra-estruturas caracterizam “o crescimento das metrópoles operando menos por adição, mas por mudança de escala e pela formação de vastíssimas bacias de habitação e emprego mais ou menos polarizada em volta de uma ou várias cidades principais. O crescimento das metrópoles não é assim apenas por dilatações concêntricas, mas também e essencialmente pela integração de territórios cada vez mais afastados”.46 A tentando em Ascher, percebemos que o cerscimento da cidade contemporânea se manifesta através da agragação de núcleos exteriores à cidade herdada. Tal é possibilitado pelo entramado de redes de comunicação que interliga, hoje, as cidades. Estas tramas permitem o alargamento do espaço físico tornando-o disperso e difuso, porque acentuam a fragmentação. EVOLUÇÕES E DESCONTINUIDADES

Em recente entrevista ao suplemento Mil Folhas do Jornal Público, Nuno Portas define as características desta cidade dispersa ou difusa dizendo-a “descontínua em relação à histórica. Mistura a cidade e o campo. Na cidade nova, nesta cidade contemporãnea, domina mais o espaço não construído do que o construído. Por isso, aquilo que hoje caracteriza esta cidade extensiva fora de portas, fora dos antigos limites, são espaços não construídos. Dizemos que são espaços sem nome, sem características”.47 Por outro lado, “há muitas rupturas, muita desconstrução na cidade contemporãnea. Admito que o espaço público esteja a passar também por um período de desconstrução. O Fernando Pessoa também usava a desconstrução, mas sabia que só faz sentido desconstruir em relação a uma coisa que tem uma sintaxe e uma semântica estabelecidas. A arquitectura de hoje está a transformar a excepção em regra. (...) Os signos em arquitectura são icónicos: aquilo que quero falar tem que estar de alguma forma expresso no sinal que uso. E o sinal que uso é entendido porque tem que ver com o meu comportamento. Os últimos anos registam um interesse particular: pelos materiais da história, um estudo dinamizado no interior específico do campo arquitectónico; pelo fortalecimento do plano teórico como condição da prática crítica de projecto; pela reavaliação do

45. ASCHER, François: Metapolis: acerca do futuro da cidade, Oeiras, Celta, 1996, p70. 46. Op. Cit. 47. MILHEIRO, Ana Vaz e SALEMA, Isabel: Entrevista com Nuno Portas. In: Mil Folhas, Público, 23/07/2005, p15.


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“território da arquitectura” como problema na contemporaneidade, como processo de relação com o real construído, como reencontro da prática artística com o colectivo”.48 Esta novas relações revelam-se essenciais. Por um lado uma organização de cidade movida pelos fluxos económicos, por outro uma cidade definida a partir de preocupações históricas. Por um lado uma cidade no plano teórico, por outro uma cidade com os seus reflexos na prática. De facto é imprescindível encontrar um consenso alargado entre os diversos agentes de modo a atingir um ponto de convergência. Entre a preservação da sedimentação histórica e a perspectiva de necessidadesdesejos futuros. Era desejável que, ao elaborar-se um plano, e estando este de acordo com as necessidades-desejos do corpo social, se tivesse em conta a sua desactualização tendo como referência a evolução das propostas no terreno. Para isso, seria necessária a sua flexibilização, bem como o diálogo-discussão entre os intervenientes de modo a complementar o plano tentando que este não caia em contradição, adaptando-se a todo o tipo de mudança e servindo de complemento (não de regente) de todo o tipo de intervenções. REAJUSTAMENTO FUNCIONAL

Num momento em que se verifica uma exponenciação da instabilidade (motivada por novas performances socias), Nuno Portas refere em Políticas Urbanas que “na cidade histórica, os lugares vazios procuram novos programas que sejam compatíveis com os seus condicionamentos patrimoniais ou de acesso”.49 Por outro lado, e ainda nas palavras de Portas, “nas extensões recentes, e inversamente, serão outros programas (porventura não menos importantes para a comunidade urbana) que procuram espaços menos condicionados, mas que poderão polarizar actividades e qualificar novos lugares - a começar pelos espaços públicos se forem bem geridos pela administração local”.50 Portas estabelece uma dualidade entre dois tipos de aglomerado urbano: o tradicional e o “contemporâneo”. Na opinião do autor a harmonização desta dicotomia é “o maior desafio para a sustentabilidade, a prazo, do conjunto urbano, justificando o desenvolvimento dado às políticas de âmbito mais abrangente”.51 Tal desafio ganha preponderância tendo em conta, e segundo Ascher, que a globalização tende para o reforço dos centros megapolitanos e metapolitanos, concentrando as funções estratégicas. Por outro lado, as actividades de produção e administração estão menos dependentes das grandes aglomerações.

48. MILHEIRO, Ana Vaz e SALEMA, Isabel: Entrevista com Nuno Portas. In: Mil Folhas, Público, 23/07/2005, p15. 49. PORTAS, Nuno: Políticas urbanas: tendências, estratégias e oportunidades, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, p21.d’água, 1998, p18 50. Op. Cit. p19. 51. Op. Cit. p19.


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É neste quadro de reformulação urbana (económico-funcional-cultural) que acompanha a rapidez das performances sociais que a comunicação e distribuição exercem efeitos centralizadores de enorme importância. Tal leva a que as funções se reajustem e reagrupem no espaço que ocupam, reformulando o espaço-cidade. Mas também este reajustamento se reformula, o que obriga a que o própio planeamento tenha em conta uma certa flexibilidade. Contemplando mudanças e medidas futuras (ainda que incertas) , retirando-lhe rigidez e propondo revisões periódicas e adaptações constantes, quer por parte de técnicos a actuar no terreno, quer pela atribuição dos meios financeiros necessários ao saudável desenvolvimento das propostas teóricas. A incerteza da operatividade do plano é uma constante, e cada vez mais, com as mudanças rápidas e profundas da nossa sociedade. O que torna clara a impossibilidade de elaborar um “plano vitalício” que aborde todas as questões cirurgicamente sem erros nem rodeios. Pelo que é impensável pensar a boa saúde dos planos (e cidades) se não houver diálogo entre as partes actuantes e uma vontade de reformular as premissas, que envelhecem com as mudanças. Parte de nós, enquanto indivíduos pertencentes à colectividade, discutir a problemática da cidade contemporânea, abordando os problemas e as soluções possíveis com a maior clareza disponível. Que apenas se deve planear o essencial, deixando margem para as diversas, e por vezes adversas, iniciativas privadas. Uma vez que a incerteza existirá sempre, é necessário contorná-la de modo a retirarlhe a evidência. para que esta deixe de ser o factor mais importante no planeamento em detrimento das problemáticas sociais realmente relevantes para o bom funcionamento do meio em que nos movemos. REGULARIDADE E INDIVIDUALIDADE

Segundo Nuno Portas, “a cidade é sempre uma dialéctica entre regularidade e individualidade. Hoje não aceitamos um pensamento único. A cidade tem que oferecer diversidade, porque já não há consenso quanto ao modo de vida. A cidadania é exactamente a manifestação da diferença”.52 A nosso ver, a manifestação da diferença referida por Portas, reflecte-se também no plano físico da cidade. Por isso cada vez mais a cidade é construída de “diferentes”, edifícios âncora ou “masterpieces”.53 Tais edifícios constituem, em grande parte, a projecção da dimensão física sobre a dimensão social da cidade. Ou a individualidade permitida pelo devir sobreposta à regularidade da sedimentação histórica.

52. Actualmente estes edifícios âncora (de certa forma os “nós” e “marcos urbanos” referidos por Lynch), são materializados nos Shoppings, Museus, interfaces de transporte, etc., e por vezes coincidem com os Não-lugares definidos por Augé. 53. MILHEIRO, Ana Vaz e SALEMA, Isabel: Entrevista com Nuno Portas, In: Mil Folhas, Público, 23/07/2005, p14.


CAPÍTULO 6: OPERATIVIDADE

Novas manifestações de “urbanidade pivot” que, confrontando o sujeito com novas realidades, se infiltram no tecido urbano. Tais manifestações assumem-se como Porém, e como vimos no ponto 3, a importância desta individualidade (que cada vez mais se reconstrói e reconverte) afecta a vida de cada cidadão. Os edifícios âncora, que comportam tipologias “escondidas” para lá das suas fachadas, têm de facto um papel essencial na identidade e identificação (da cidade por um lado, e do indivídual-colectivo com a urbanidade por outro). Assumem uma referência visual e programática na cidade e definem-se, por regra, como novos pólos (comerciais, culturais, empresariais) de confluência dos cidadãos. Tal “individualidade” revela-se numa outra plataforma de definição da cidade que não só a espaçial: a construção como portadora de identidade e identificação. Ao promover a excepção na cidade, e manifestando também o desejo de atrair os individuais numa mesma condição de cunsumo (comercial, cultural), cria novas centralidades (por vezes estratégicas) que auxiliam na coesão do plano horizontal. Como verificámos no ponto 1, a contaminação do construído pelo não construído é hoje um factor a ter em conta. Para lá das ruas que estabelecem a matriz de referência estão as (novas) tipologias, que deverão condicionar o processo de construção urbana. A rua ou a praça estende-se ao interior dos edifícios, prolongando o espaço público, interiorizando-o. Esta interiorização é, a nosso ver, um fenómeno adjacente ao espaço público tradicional. Por isso, e como refere Nuno Portas, “é preciso desenhar o chão. O chão é o espaço colectivo”.54 As ruas, segundo Portas, são o que realmente prevalece. Ao permitirem a diversidade e individualidade, conferem à cidade a regularidade necessária. As ruas “suportam” a criação e construção das diversas “individualidades” que se verificam ao longo da história. E asseguram também a coerência do tudo urbano (físico e social), porque mantêm uma parte da identidade e identificação. Efectivamente, como refere Lynch, as ruas são um dos pontos a partir dos quais se percepciona a cidade. E são hoje o elemento mais estável (se bem estruturado) da componente física da cidade. Por isso se mantêm como referência na memória individual e colectiva enquanto a massa construída se reconstrói e reconverte. De facto, e com toda a incerteza acerca da definição de um rumo possível para a cidade, é fundamental estabelecer uma matriz: as ruas, às quais se acrescem agora os espaços interiorizados. Como propôs Koolhaas em The city of the captive globe, as ruas (a sua grelha) são um suporte essencial para a manifestação da diferença. A cidade pode tornar-se genérica (auto-reconstruindo-se repetitivamente) mas, havendo uma base ou regra estável, a irregularidade poderá existir em qualquer área desse plano. Qualquer área poderá suportar a expressão de novas sociabilidades (e por vezes novas dimensões de “urbanidade pivot”).

54. MILHEIRO, Ana Vaz e SALEMA, Isabel: Entrevista com Nuno Portas, In: Mil Folhas, Público, 23/07/2005, p14.

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CAPÍTULO 7: NOTAS CONCLUSIVAS

7.│ Notas conclusivas

Esta dissertação teve como objectivo perceber as possibilidades de relação e conjugação entre a sedimentação histórica e as orientações subentendidas nos diversos desejos futuros. Para tentar compreender as possibilidades da arquitectura mediante a actual diversidade de caminhos, tentámos encontrar um território “entre”, a meio caminho da sedimentação e do devir, que permitisse estabelecer essa relação: uma “dimensão pivot”. Esta “dimensão pivot”, a nosso ver, limita a compreensão da condição urbana contemporânea (e o papel da obra arquitectónica) apenas ao período que decorre entre a concepção da obra e a referenciação da mesma pelo indivíduo (até ao momento em que constitui sedimento, referenciando e referenciando-se). Ou até se tornar Lugar. Centrando o estudo na temporalidade do constante presente, colocámo-nos na posição intermédia entre sedimentação e devir, que não é necessariamente o Presente, mas a sua transitoriedade (entre Passado e Futuro). A “dimensão pivot” é assim uma transição. Um estado fugaz e mutável de acordo com as temporalidades que lhe estão na origem. Por vezes porém, esta transição não é pacífica. A performance social desfasa-se da forma urbana (e o contrário também ocorre), criando um vazio na identidade da cidade e na identificação do indivíduo. Este desfasamento é temporário mas não deixa de ser fundamental para percepcionar, pensar e planear a cidade. Dada a importância que atribuímos a este desfasamento referimos na introdução três noções que a nosso ver poderiam permitir o seu estudo: cenário-cidade, sociabili-

dade e fluxo como fenómenos constantes na história da urbanidade-cidade. Ao cenário-cidade fizemos corresponder a dimensão física da cidade. A sociabilidade fizemos corresponder dimensão social da cidade: noção cultural e experiencial do indivíduo no cenário. A noção de fluxo foi associada ao conjunto das comunicações físicas e culturais (performances) dentro de um ou mais cenários-cidade. A partir da conjugação destas três noções definimos algo que representa de forma conceptual o desfasamento entre performance social e forma urbana: a “urbanidade pivot”. Esta urbanidade, pela sua capacidade dialogante, torna visível aos olhos do indivíduo a emergência de uma nova sociabilidade que se mescla com as interacções pré-existentes. Uma urbanidade de novos programas, funcionalidades, formas, temporizações, dimensões e, sobretudo, performances (ou a urbanidade que altera a génese da cidade num dado momento da sua história civilizacional).

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O que aqui defendemos foi a permanência destas três variáveis que, por serem variáveis, se alteram com as modificações introduzidas nas dimensões física e social da cidade, sem no entanto desaparecerem ou perderem importância enquanto conceitos. De facto, o cenário-cidade (leia-se cenário público) comporta em si todas as modificações operadas no espaço cidade, hoje exponenciado ao espaço comunicante e virtual da internet e afins e não apenas ao espaço físico propriamente dito, e é o espelho das reformulações interactivas do indivíduo na sociabilidade-sociedade. Tal sociabilidade é o que modifica a relação-percepção que temos do cenário e é cada vez mais tratada e percepcionada em rede (de cidades, de comunicações ou pessoas). A esta rede-interacção está associada a ideia de fluxo que, por sua vez, está associada à ideia de movimento e da métrica desse movimento (ou métrica da própria cidade-urbanidade). Estas três noções estão associadas àquilo que para nós é a “urbanidade pivot”: uma alteração do cenário-cidade tendo em conta a sociabilidade promovida pelo movimento ou fluxo de movimentos que a interacção entre os dois primeiros despoleta. Esta “urbanidade pivot” é por nós apelidada deste modo porque pensarmos que é a urbanidade que faz a ponte entre a cidade compacta, histórica e referenciada no tempo e no espaço e uma outra, a “genérica”, composta de mudança e sensível à volatilidade da inovação científica, tecnológica e comercial. Tal volatilidade promove a comunicação e transferência de pessoas, bens e serviços de uma forma completamente nova. Neste contexto, e num momento em que o estudante se abeira da prática profissional, foi aqui explorada uma possibilidade de enquadramento e interpretação pessoal da disciplina arquitectónica e urbana num quadro cada vez mais vasto e complexo. Como tentámos demonstrar ao longo destas páginas, a condição urbana contemporânea é hoje diferente da que se vivia há pouco mais de um quatro décadas. De facto ocorreu uma certa compartimentação e fragmentação de usos em função das especificidades sociais que emergem. Tal promoveu uma segregação (isolamento por vezes) dos conteúdos e formas da cidade. O público e o privado mudaram de carácter, por vezes fundindo-se, por vezes trocando de identidade. O público interiorizou-se, o privado abriu-se ao exterior. Para o bem e para o mal. Do shopping ao aeroporto, passando por inúmeros espaços de utilização colectiva, verifica-se uma crescente ambiguidade no espaço-cidade enquanto expressão maior da colectividade. Estes fenómenos originaram uma alteração da imagem da cidade. Aos olhos do indivíduo a cidade é hoje um somatório de acontecimentos ordenados ocasionalmente ou aleatoriamente. Tais acontecimentos revelam o carácter efémero da contemporaneidade. Tudo é mutável e intercambiável. Desta constante troca resulta uma crescente instabilidade no que respeita ao futuro da cidade que é nota dominante dada a impossibilidade de previsão de um novo momento pivot (entre passado e futuro).


CAPÍTULO 7: NOTAS CONCLUSIVAS

Da relação entre o espaço-cenário da urbanidade e o surgimento de novos meios de o entender e utilizar pretendeu-se estudar uma possível cidade emergente, fragmentada e descentralizada, apoiada em novas redes e fluxos de comunicação. Focámos com principal atenção a cidade contemporânea cada vez mais entendida como um somatório de partes que constituem um todo que nada tem a ver com a totalidade do território. Este território foi explorado com base na ideia de que todos os agentes que nele coabitam e intervêm activamente na transformação e redefinição da imagem que dele criamos e consequentemente fixamos. Esta imagem funciona como o reflexo de um imaginário colectivo materializado à escala local e ancorado numa visão global, sendo sensível a evoluções, revoluções ou regressões, assim como ao que estas modificam na percepção da cidade enquanto espaço contínuo, contíguo e inteligível. Por isso, toda e qualquer inovação (científica, cultural, comercial, etc.) modifica os dispositivos através dos quais damos conta da realidade envolvente, alterando assim a imagem que percepcionamos do espaço urbano. Estas modificações dão-se sobretudo nos espaços urbanizáveis ou em vias de urbanização, lugares por excelência para o surgimento dos Não-lugares. É importante tornar claro que esta nova urbanidade que emerge é o produto de um sem número de alterações económico-socias sem paralelo na história civilizacional, pelo que pensamos que estas sejam apenas a transição para outras que estarão para emergir. Esta urbanidade é composta de “masterpieces”, usando o termo de Koolhaas, que confrontam o indivíduo com novas possibilidades de experimentação e existência urbana. É a experiência transitória que atravessa a implementação de uma nova sociabilidade até ao seu reconhecimento na cidade-cenário durando apenas o tempo que a diversidade de fluxos leva a implementar novas formas de interacção. Actualmente somos referenciados por esta “urbanidade pivot” mas nada nos assegura que, num futuro mais ou menos próximo, esta não seja mais um fragmento de história que marca presença na memória dos que ainda com ela conviveram. Neste contexto, e sendo transportada por e para novas realidades, a perspectiva colectiva altera-se continuamente criando novas memórias sobre as memórias de sempre, gerando fragmentos e alterando a relação do sujeito com o urbano e com a sociabilidade que lhe é inerente. A estes espaços que agora despontam, resultado de uma apropriação do território reajustada ao seu tempo, podemos pois atribuir a função de confrontação do indivíduo com a forma urbana e contrato social que lhe dá origem e forma. A mudança ou transição em si é apenas um sinal dos tempos e, como tal, a sua medida ou temporalidade. É a resposta a novas funcionalidades (propostas ou pretendidas pelo utilizador) que assumem um carácter formal e social completamente diverso do até então idealizado.

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Ocupando os interstícios do urbano ou reutilizando imóveis em desuso, constitui uma (nova) expressão de urbanidade. A um tempo o antecipar de um certo futuro que se julga distante, a outro a expressão acabada do tempo no qual vivemos. Contudo, e do mesmo modo que as anteriores cidades não foram completamente redefinidas pelas diferentes metodologias projectuais precedentes, também as metrópoles actuais não deverão ser totalmente subvertidas pelas novas formas de metropolização comtemporânea. No sentido de ancorar historicamente este estudo, revisitámos ao longo destas páginas alguns projectos significativos que o comprovam (ou podem servir de argumento). Ao revisitar o que nesta tese chamámos “Tendências Alternativas” procurámos várias possibilidades de “urbanidade pivot”. A sua abordagem foi no entanto meramente analítica, não sendo por nós aqui prescrita. Pelo que Archizoom e Superstudio, ao encetarem uma construção de cidade pela negação do existente (ou pela sua anulação), tentaram forçar a construção de uma urbanidade pivot: no lugar da cidade ou nos seus interstícios. Promovendo uma suposta democratização e globalização, perseguiram uma cidade que ignorava a história. Pelas suas características a-referenciais, esta cidade poderia (supostamente) permitir ao indivíduo a total fruição do ambiente sem qualquer tipo de constrangimento (cultural, económico ou social). Tal pressupunha o abandono da História em abono do que definiram como “raíz” (ou origem, como algo próximo do primitivismo). No entanto, e pelo contrário, o que aqui defendemos foi a importância da História (na sua totalidade) no delinear das novas concepções urbanas. A sua importância é determinante porque, e como referia Quetglas, não existe futuro sem passado. Abordando Koolhaas percebemos uma transição entre algo próximo da tábula rasa e a infiltração no tecido histórico-existente da cidade. Koolhaas partiu das utopias propostas pelas “Tendências Alternativas” para tentar perceber as novas formulações do urbano. E com elas, novas formulações de “urbanidade pivot”. A sua abordagem resulta numa infiltração nas leis de mercado (que no seu entender definem a arquitectura e a cidade), adaptando-se às circunstâncias. Em Koolhaas percebe-se uma aproximação ao real e aos verdadeiros desafios que se colocam ao arquitecto num contexto dominado pelo fugaz-efémero promovido por novas lógicas de mercado e consumo. A perspectiva de Koolhaas serviu aqui como base para uma reflexão contemporânea. Tal reflexão, contemplou alguns pontos importantes para a construção da cidade e implantação da obra arquitectónica. As novas práticas de construção dos espaços públicos (sua privatização e interiorização) e os novos dispositivos performativos como a imagem ou as tecnologias e mobilidade, são o exemplo das reformulações constantes e interactivas entre performances sociais e forma urbana actuais.


CAPÍTULO 7: NOTAS CONCLUSIVAS

A Arquitectura procura hoje novos caminhos, e num momento em que o Urbanismo se afigura cada vez mais como disciplina integradora dos seus gestos isolados, urge reflectir acerca das possibilidades de inserção da obra arquitectónica no tecido urbano. Definitivamente, a “origem” proposta pelas “Tendências alternativas” não serve (já então não havia servido), mas necessitamos de facto de uma abordagem clara que permita a coabitação pacífica entre temporalidades, e a coexistência sem conflito das diversas performances sociais. Uma abordagem conceptual que possibilite a redução do fosso entretanto criado entre transitoriedades e sedimentações, criando consensos entre o construído e o desejado. O grande desafio deverá pois residir na capacidade de visão estratégica na antecipação ou previsão das mutações sócio-culturais. É por isso que o papel do arquitecto não poderá ser, nos dias de hoje, o de actuar apenas tendo em vista o presente. É necessária uma visão de futuro ancorada na história passada porque o presente é transitório, fugaz. O arquitecto não poderá pois deslumbrar-se com as diversas “modas arquitectónicas”, mas antes tentar criar consenso entre temporalidades, encontrando uma substância que persista. Que tenha a capacidade de se tornar Lugar (como recipiente das memórias e desejos do individual-colectivo) A nosso ver, tal poderá atenuar o desfasamento entre sedimentação e transitoriedade. Diminuindo o impacto das diversas “urbanidades pivot” (na linha histórica e referencial da cidade) pode-se também diminuir a crescente instabilidade que experienciamos actualmente. Ou pelo menos retirar-lhe importância na (re)definição das várias dimensões da cidade. Conclui-se por fim que a nossa “urbanidade pivot” existiu e existe (talvez exista sempre) sob as mais variadas formas. Pelo que tentámos demonstrar, a nossa urbanidade pivot é indefinível porque se manifesta de várias formas e de acordo com as diferentes temporalidades e performances sociais. Por isso e desde logo, a urbanidade pivot não persiste. É, antes de mais, um estado transitório. Assim como o Não-Lugar rapidamente se torna Lugar, também a urbanidade pivot se transforma num “outro”, num constante balanço entre a transitoriedade dos desejos e a sedimentação das memórias. Tal leva-nos a crer que não existe apenas uma urbanidade pivot. Existem várias e correspondem à temporalidade na qual são concebidas. Porque talvez a imagem da publicidade e marca global veiculada pelos meios de comunicação global e globalizante dê lugar a outra equação espaço-tempo que reformule o nosso lugar no mundo. A comunicação, como todas as outras inovações ou tecnologias, apenas se tornam evidência e tema de debate enquanto novidade, enquanto suscitam as mais variadas dúvidas. Após a sua massificação caem por norma na banalidade do dia-a-dia, sendo por nós procurada outra forma de nos relacionarmos com o meio dada a nossa curiosidade natural: outra forma de interpretar o cenário, reformulando-o, reformulando-nos.

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CAPÍTULO 8: BIBLIOGRAFIA

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URBANIDADE PIVOT: DA TRANSITORIEDADE À SEDIMENTAÇÃO


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