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Para não mais esquecer Reportagem de João Bragança no Festival Paredes de Coura Imagens cedidas por Hugo Lima

Depois de 10 anos de ausência, os Ornatos Violeta reservaram o anfiteatro de relva da vila minhota para regressarem aos palcos. É o concerto mais aguardado da 20.ª edição do Festival Paredes de Coura que este ano traz 15 novas bandas que se estreiam em Portugal e que prometem deixar marcas no público. Foram 5 dias de festival e o JUP esteve lá para contar a história.


13 de agosto. Depois das curvas tortuosas a caminho da mítica vila situada no Alto Minho, um “finalmente chegamos” é solto e o espírito do Taboão entra nas vias respiratórias dos festivaleiros. Por muito que se tente explicar através dos livros de Freud ou de Nietzsche, o sentimento por Coura não é decifrável. Há milhares de acampamentos já montados há mais de uma semana. Aqui não se faz campismo por “obrigação”: é paixão. E não é só pelo festival. É pelo “Campingaz” à porta da tenda, pela sombra das margens do rio Coura, os banhos de água gelada, os almoços improvisados, a vizinhança que não deixa ninguém dormir, as sandes de atum e as subidas à vila que quase se assemelham a uma etapa do projeto "À conquista dos Picos do Mundo" do João Garcia. Este primeiro dia de festival, chamado dia 0, dedicado à receção dos campistas, é um aquecimento para os próximos dias de festival. Os primeiros acordes do festival, dados pelos portugueses Brass Wires Orchestra, trouxeram a chuva que não “largou” o resto da noite. O grupo indiefolk, vencedor do concurso Hard Rock Rising, apresentou uma sonoridade influenciada por bandas

como Beirut ou Mumford and Sons e muito marcada pela introdução de instrumentos de sopro - dois trompetes e um saxofone - em praticamente todas as músicas. Saíram com chuva do palco. Chuva de palmas. Numa noite totalmente portuguesa, cheia de novos talentos e "esperanças" nacionais, coube a B Fachada fazer as honras de cabeça de cartaz desta segunda-feira. O novíssimo “Criôlo” foi a principal refeição servida pelo Tio B, que ainda passou o balanço herege de “Deus, Pátria e Família” e cantou “Portugal está para acabar, é deixar o cabrão morrer”, surpreendendo com a utilização de sons muito pouco usuais no repertório do músico que, durante anos, se fez acompanhar apenas de instrumentos acústicos. Antes disto, ouviu-se a dupla portuense Salto numa performance rock com um forte lado eletrónico que fizeram o público levantar os pés do chão com o “Saber Ser e O Teu Par” e ainda League que apresentaram aos festivaleiros o seu rock eletrónico profundamente marcado por psicadelismo. A noite fechou com os dons na arte do DJing de Quim Albergaria conhecido como baterista dos PAUS -


que trouxe consigo músicas de Beyoncé e outros artistas pop que fecharam a noite de receção ao campista.

14 de agosto. A chuva ainda era o prato (e o copo) do dia. Na vila, os stocks de guarda-chuva e as galochas esgotam em minutos. O pequeno comércio na vila de Paredes de Coura vive os seus dias áureos nos dias do festival. Em poucos minutos, as coisas de inverno que estavam guardadas no armazém desaparecem. Mas os festivaleiros não precisavam de se preocupar com esta quebra de stock. A EDP oferecia chapéus de sol que imediatamente se tornaram guarda-chuvas. Há lama, não se pode cozinhar improvisados pitéus dos deuses, mas há festival. Um Paredes de Coura sem chuva, é como um café sem Sport TV. Hoje, os Sun Araw abriram o palco Vodafone FM. Cheios de sonoridades experimentais, sintetizadores, uma drum machine e efeitos de loop, os sons hipnóticos e dançáveis arrancam as primeiras palmas a um público que ainda pensa na forma como sobreviveu ao dilúvio de ontem. Atrás de si, na tela, são projetadas imagens a preto e branco de catos e outra flora que refletem, de certa maneira, a

sonoridade proporcionado pelo duo texano: tribal e quase tropical.

A chuva não deva tréguas mas não impediu os canadianos Japandroids de fazerem a sua estreia em terras lusas. Mostram que apenas uma guitarra e uma bateria fazem uma plateia vibrar e esquecer as coisas lá fora. Um espetáculo rock com pedaços de punk provoca os primeiros moches do Paredes de Coura. A guitarra agressiva e a bateria imparável mereceram a primeira demonstração de carinho do festival: centenas de festivaleiros entoaram o nome da banda para satisfação dos canadianos. A estreia em Portugal não podia ter corrido melhor. E eles vão voltar.

E como não há uma sem duas, os tUnE-yArDs também fizeram a sua


fulgurante estreia em Portugal. Liderados por Merril Garbus que, apesar de tímida, irradia simpatia e é portadora da energia que o festival estava a precisar. Com um ukelele (utensílio musical que descende de antepassados portugueses como a braguinha, o machete e o rajão, que os emigrantes madeirenses levaram para o Havai) e maestra de uma “orquestra” de loops de percussão, que ela mesmo monta, tUnE-yArDs tornam-se memoráveis e até a chuva deu tréguas só para os ouvir. Toda uma miscelânea de ritmos, que se passeia pelo R&B, experimental, wonky pop e afro-beat acabaram, de forma inesperada, por criar uma pequena legião de fãs. E não esquecer uma merecida vénia à secção de sopros com apontamentos quase sempre inesperados mas que davam mais brilho à musicalidade da banda norte-americana. O selo de “next big thing” (como diz a Pitchfork) fica bem a esta banda e Paredes de Coura agradeceu este maravilhoso espetáculo. Um dos melhores do festival. Stephen Malkmus and The Jicks foram os que se seguiram no alinhamento. Arrefeceram o clima que os tUnE-yArDs haviam escaldado minutos antes. Uma sessão de indie rock, dada pelo Stephen Malkmus,

catedrático com currículo reconhecido (fez parte dos Pavement). Malkmus parece não envelhecer, tanto fisicamente, como na forma como continuar a fazer canções que prolongam os anos 90 para sempre. Foram particularmente felizes nas canções mais pop, como “Tigers” e “Senator”, devedoras dos Pavement que puseram o “alternativo” nas rádios. A noite continuou com Friends com a sua vocalista, Samantha Urbani, a vir disfarçada de polícia e a proporcionar um autêntico "stripconcert": a cada música, tirava uma peça de roupa para delírio da plateia masculina. No fim, revelou um t-shirt da banda punk russa "Pussy Riot" que tem recebido atenção devido à sua detenção. Com música a fazer lembrar os Yeah Yeah Yeahs, sobretudo pelos guinchos orgásticos à moda de Karen, Samantha Urbani fartou-se de mergulhar no público e teve aí os pontos altos da atuação. Os PAUS, que dispensam apresentações, mostraram a sua força com a bateria siamesa partilhada por Hélio Morais e Quim Albergaria a guitarra de Makoto Yagyu e as teclas de João Pereira. A juntar ao poderoso reportório habitual da banda, ainda se ouviu uma versão do "Umbrella" da Rhianna e uma história de amor que os PAUS


trouxeram ao palco Vodafone FM. Nunca saberemos o seu fim, mas eles satisfizeram o pedido de um tal de Michel, rapaz que não leva troco de Margarida Lemos. PAUS são autênticos. Encheram o público de agradecimentos e Quim Albergaria resumiu, numa frase, o espírito do Paredes de Coura: "Quando se gosta de música à séria, não é uma "chuvinha" de merda que nos impede de vir". A noite fechou com o ator Nuno Lopes em modo DJ set a passar o melhor da música de dança para queimar os últimos cartuchos do dia.

15 de agosto. E ao terceiro dia, dEUS trouxe o sol. E ele – o sol - não deixa os campistas ficarem nas tendas por muito mais tempo. Está quente e o verão chega finalmente à pacata vila minhota. Depois da quebra dos stocks daquilo que restava da coleção Outono-Inverno nas lojas da vila, desta vez é o gelo quem não aguenta muito tempo dentro das arcas frigoríficas. Os comerciantes, claro, aproveitam o excesso de procura e inflacionam o preço. Não é brincadeira: ainda ontem chovia e hoje, na estreia do Palco EDP, só se está bem junto da margem do Taboão. As "contas" aos

estragos provocados pela chuva ficam para depois, por ninguém sabe se o sol veio para ficar. Quer dizer, até se sabe. Talvez as aplicações do Android estejam certas e a chuva não volte mais. O bom tempo voltou ao melhor anfiteatro natural do mundo. Adeus impermeáveis, adeus lama, adeus galochas. Hoje é dia de estreia do palco JN com os Glauco as fazerem as honras de estreia numa plateia repleta de chapéus de sol e toalhas estendidas no chão, a usufruírem do "Jazz na Relva". Sucederam-lhes em palco os dois vencedores do concurso organizado em parceria com o "JN" os Elektra Zagreb e A Beta Movement. Às 18h00, subiu ao palco Vodafone FM Willis Earl Beal. Diretamente de Chicago, o canto-autor muitas vezes comparada a Tom Waits, revela um vozeirão, que não teme em exibir, em contraste com uma expressividade profunda, que tão bem nos transmite os mais óbvios sentimentos de abandono e solidão. Muito intenso e só, Willis Earl Beal, de óculos de sol e luvas de motoqueiro numa figura muito imponente e acompanhado apenas por uma base pré-gravada, arrancada das profundezas da sua alma um blues-soul que mantém de


perto algumas dezenas de curiosos, apostados em decifrar o enigma que, em palco, canta como quem se exorciza. Ali mesmo ao lado, no Palco EDP, faz-se a estreia do "anfiteatro" com a família inglesa Kitty Daisy and the Lewis com um estilo retro, à anos 50 e a partilharem os instrumentos entre si numa mescla de sons que fazem querer sentar na relva e ouvir a música suavemente enquanto se imaginam bolas de sabão a voar junto a suas cabeças. Os Midlake foram os senhores que se seguiram. Os texanos ativos desde o ano de 1999 tocam um aparentemente estimulante cruzamento entre o folk e o indie rock mas que raras vezes transpõem a fronteira da modorra. Um som bucólico, completo por uma flauta, inúmeros instrumentos de sopro e ainda um órgão, adequa-se perfeitamente ao espírito contemplativo da audiência ao início da noite que prometia ser longa. Repentes no palco do Paredes de Coura, os The Temper Trap arrancaram o entusiasmo do público com “Love is Lost” e “Fader” fazerem recordar o espetáculo de há dois anos da banda australiana em terras lusas.

Junto ao palco secundário, centenas de fãs agruparam-se para ver Patrick Watson. Artista de culto em Portugal, Watson recebe em Paredes de Coura a curiosidade e o reconhecimento dos presentes, que não hesitam em aplaudi-lo canção após canção. E sob a luz de um único holofote, toca “Words in the Fire”, numa versão muito intimista, acompanhado apenas por guitarra e "serrotista". Delicado, quente, ao vivo transforma-se em algo igualmente belo, mas mais intenso e libertador.

Todo este cenário contrasta com a potência que Alexis Krauss e os seus Sleigh Bells trouxeram ao palco EDP. Uma descomunal parede de amplificadores ligados a duas guitarras numa filosofia "quanto mais alto melhor", a banda apareceu com um "terrorismo sonoro", um rock eletrónica que rasgou por completo a plateia e que faz tremer a paisagem calma da vila. É impossível ficar indiferente a esta excelente estreia dos Sleigh Bells em Portugal. A intensidade foi a nota maior de uma


atuação que deverá ditar o regresso em breve dos nova-iorquinos aos palcos nacionais. Com 15 bandas a fazerem a sua estreia em Portugal no festival EDP Paredes de Coura 2012, este foi um dos grandes concertos do festival, a par dos tUnE-yArDs. A noite prosseguiu com o regresso a Portugal dos belgas dEUS. Há muito familiarizados com os palcos lusos, a banda belga revisitou os pontos altos da discografia. “Instant Street”, uma das mais rodadas da banda nas rádios portuguesas, foi o grande momento do concerto, com o seu final, instrumental, a ser um exemplo do melhor que o grupo tem para oferecer. O público agradeceu o entusiasmo com palmas e ele retribuiu num português "afrancesado". Para fechar os concertos do dia no palco principal, o duo germânico, Digitalism trouxe música eletrónica num registo techno/trance contagiante que tomou de surpresa os resistentes. Nem o formato peculiar da plateia a que Jens Moelle e Ismail Tufeckçi não devem estar habituados, os impediu de transformar o anfiteatro de Paredes de Coura numa enorme pista de dança. Mas isto não ficou por aqui. Horas depois, no Palco Vodafone FM, espaço para a eletrónica de Totally Enormous Extinct Dinossaurs. O

inglês Orlando Higginbottom apareceu "mascarado" de dinossauro (numa imagem que o difere, e bem, dos mais comuns DJ's) e fez-se acompanhar de 3 bailarinas que completaram um espetáculo eletrónico-visual de grande nível. “Household Goods”, “Dream On” e “Garden” foram as canções que "obrigaram" o público presente a libertar o demónio da dança do corpo. Grande estreia do produtor de música eletrónica britânico em Portugal. A seguir a ele, e para fechar a noite em grande, o francês Kavinsky trouxe a sua eletrónica futurista dos anos 80. A fazer lembrar um qualquer filme de ficção científica e a trazer a Paredes travos dos Daft Punk, o autor da banda sonora do filme Drive fechou em grande a noite em que a música eletrónica foi dona e senhora dos palcos.

16 de agosto. Há dias em que nos sentimos num paraíso na terra. Depois de uma intensa noite onde o corpo não conseguiu resistir aos estímulos eletrónicos que o cérebro recebia, um sol quente, uma brisa leve e agradável, uma bebida fresca e a companhia certa faziam o cenário paradisíaco perfeito em Paredes de Coura. Ainda por mais, logo à noite


há Of Montreal, The Whitest Boy Alive e Kasabian. Antes disso, o jazz da Mizi Band e a poesia de O CoPo revelaram-se um belo entretenimento para os que não aproveitaram para repor as energias gastas ontem. O apelo ao rio era forte: hoje, o pequeno rio Coura parece um qualquer porto chinês ou um mercado flutuante tailandês tal é a afluência de barcos. Talvez seja esta a explicação para o facto da atuação de Gang Gang Dance estar despida de público. Com as canções a fazerem viagens livres e algo morosas pelas galáxias dub, eletrónica e world music, a banda nova-iorquina abriu o palco principal no penúltimo dia de festival. Os Of Montreal trouxeram o indiepop dançável e as letras quase brejeiras de Barnes que desde cedo conquistaram o público, com “Coquet Coquette” a sagrar-se o momento do concerto, a par com as mudanças de roupa do vocalista e do espetáculo visual por ele proporcionado. Foram felizes quase sempre, mas foram mais do que isso em “The Past is a Grotesque Animal”, canção extraterrestre no mundo extraterrestre da banda de Kevin Barnes. Mas momento da noite já estava agendado: The Whitest Boy Alive, o

projeto de Erlend Oye dos Kings of Convenience, que vai dos arranjos quase jazzy aos toques de funk, revelou-se contagiante, com a plateia a evidenciar um prazer genuíno em ouvi-los. “Gravity” e “Courage” revelaram-se verdadeiras delícias para o público, que veria mais tarde “Intentions” a ser apresentada por Oye com um elogio cantado à palavra saudade. A capacidade do norueguês fazer muito com muito pouco ficou, mais uma vez, provada. Este concerto vai constar na ata de "Melhores do Paredes de Coura 2012". Anna Calvi, muitas vezes comparada a PJ Harvey, apresentou-se muito bucólica e negra. A nova princesa da música britânica sofreu, diga-se, do desenquadramento na programação que hoje está mais propensa à festa. A técnica é perfeita e a voz poderosa reproduz fielmente as músicas que lhe conhecemos. No entanto, todo esse profissionalismo torna-a fria e isso custa-lhe o apreço do público, paralisado. Há coisas que se devem dizer mesmo que sejam politicamente incorretas: há bandas que só funcionam com as plateias assustadoramente cheias. Kasabian traz uma setlist dirigida às massas, com os clássicos, como “Club Foot”, a marcarem presença, a par da recente “Days Are Forgotten”, usada como


banda sonora do anúncio do festival. Tom Meighan, a percorrer de lés-a-lés o palco em passeios rápidos e constantes e a contagiar o público, arriscou as primeiras doses de moche à séria no festival com "Fire", muito possivelmente o maior momento de loucura no público até ao momento.

Os copos de cerveja a voar, o crowdsurfing que se repetia minuto após minuto não deixa mentir: o rock de massas chegou e arrasou o anfiteatro de relva. Esta noite, no After Hours do Palco Vodafone FM, os Crystal Fighters subiram ao palco e ao pódio do Paredes de Coura. Donos de uma das músicas deste verão, “Plage”, levou a multidão a acotovelar-se para ver mais de perto a banda hispânico-britânica de folktronica que bem merecia ser "agraciada" pelo palco EDP, pelo menos fez por isso.

17 de agosto. Hoje é o dia que muitos ansiavam há anos. Já passaram 10 anos desde a separação dos Ornatos Violeta.

Marcaram os anos 90 com as letras que refletem a angústia de qualquer jovem. Os amores e desamores, o querer desaparecer, a distância de alguém... Enfim, passaram-se 20 anos desde que existem mas o legado continua vivo, as emoções continuam cá. A ansiedade para ouvir o Manuel Cruz a entoar finalmente ao vivo, as músicas que deixam o corpo com arrepios frios mesmo estando a ouvir num mp3. Ao 5.º dia de festival, eis a ressurreição que todos vão querer assistir. Volvida uma década, desde um final de "travo amargo" do coletivo para uma legião de fãs, eles aí estavam de novo. Quase em começo de dia, o destaque vai para os Best Youth, a dupla constituída por Catarina Salinas e Ed Rocha Gonçalves, aos quais se juntou um baterista, conseguiu animar a pequena multidão que se aconchegou para os ouvir no palco secundário. No palco principal desfilaram ainda os Ladrões do Tempo, projeto liderado por Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, e que inclui outras caras bem conhecidas do panorama musical português, como Pedro Gonçalves e Tó Trips, dos Dead Combo, e os Capitão Fausto, e à parte o facto de integrem figuras de proa do panorama musical português, a sequência destas duas bandas não


foi merecedora de grandes acenos, apesar de uma legião de fãs temporária dos Capitão Fausto (que há um ano faziam parte dos milhares de espetadores) e a sua "Teresa" se ter feito sentir. Numa noite quase portuguesa, os "intrusos" foram os ingleses The Go! Team. Liderados por Ninja, sobem ao palco dispostos a conquistar um público expectante. Atiram canções rápidas que misturam rock, eletrónica e rap "old school", e imediatamente fazem a festa entre a plateia, que dança e pula de braços no ar. Nota para os irlandeses God Is An Astronaut que atuaram quase ao mesmo tempo de The Go! Team. A banda instrumental conseguiu emanar uma energia mágica junto de muitos que se juntaram para os ver no palco secundário. É como um feitiço a ser conduzido para dentro do corpo por tamanha viagem astral, ritmada ao sabor fluido das guitarras. Quando os Dead Combo começaram a tocar, já a casa estava quase cheia. Trouxeram consigo “Lisboa Mulata”, mas interpretaram canções de toda a sua discografia, incluindo a poderosa Cato. Acompanhou Pedro Gonçalves e Tó Trips Alexandre Frazão, na bateria, sendo a percussão uma adição interessante ao som da dupla. Ainda que de forma fugaz, cria-se um quarteto quando Peixe dos Ornatos

Violeta é convidado para os acompanhar. "Putos a roubar maçãs", “A Menina Dança”, “Elétrica Cadente”, “Pacheco”, "Lisboa Mulata" e ainda a cover de “Temptation” do Tom Waits, fizeram os deleites da plateia presente. Os Dead Combo arrebataram o público esta noite, com o seu som cheio, quente, rodopiante e assombroso. Dizem que o melhor fica sempre guardado para o fim. E os Ornatos Violeta fizeram jus a este "ditado" popular. Manel Cruz, Nuno Prata, Peixe, Kinörm e Elísio Donas voltaram a reunir-se para celebrar o tão aguardado regresso da banda de culto. Os monstros precisam de amigos e os Ornatos arrancaram com “Tanque” e desde logo um turbilhão de emoções há muito guardada no fundo da alma apareceu à tona da pele. Arrepios dos pés à cabeça. Ora frios, quentes. Ou ora amargo ora doce. Levou, decerto, as pessoas ao expoente máximo da loucura. É impossível ficar indiferente ao poder das letras e das melodias dos Ornatos. Não há mais nada para trás, esquece-se tudo o que se viu e ouviu aqui. É impossível descrever com as palavras certas o que foi o concerto em Paredes de Coura. Faltará sempre alguma palavra ou expressão. O próprio Manuel Cruz olha para a


multidão que se estende até ao fim possível do anfiteatro de relva e não sabe o que dizer. Foram muitos anos privado de tal emoção, carinho e devoção. Tocam "O Monstro Precisa de Amigos" de uma ponta à outra, literalmente, com a voz de Manuel Cruz a entoar junto de um coro de cerca de 25 mil pessoas ali presentes que, em uníssono, faziam o tributo possível à banda. Nada conseguia ser tão intenso como aquilo fora até agora. Além de emotivo, foi também um concerto que se fez em modo festa, como Manel Cruz a saltar para o meio da audiência em “O.M.E.M.”. Não é só mais um “Dia Mau”, é um dia para nunca mais esquecer. Nem se sabe onde dói ou se realmente dói alguma coisa. Devem ser efeitos secundários da poesia de Manuel Cruz. Rapidamente, o "Fim da

Canção" chegou mas ainda houve tempo para uma "evasão" da equipa técnica dos Ornatos e dois inéditos que remetem para os primórdios da banda. Nunca ninguém vai Ouvir dizer "Deixa Morrer" este "Capitão Romance". Todos viram e agarraram este pedaço único na vida de alguém. Ninguém se escondeu e agarraramse às mais simples mas profundas emoções deste final do Paredes de Coura. Saíram do palco quatro vezes e quatro vezes voltaram. À quinta foi de vez, o público não queria esquecer a viagem que finalmente ganhou um sentido. O sonho cumpriu-se. O palco agora estava deserto mas a voz do Manuel Cruz ainda entoava baixinho dentro dos corações. E vai continuar a entoar, para sempre. De facto, o 20.º Festival Paredes de Coura será para nunca mais esquecer.


Reportagem Festival Paredes de Coura 2012