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Poema da Ilusão "Todo poeta sofre de ilusão, De versos sem rima, Ritmo. Emoção..."

nov 2012 a 16/12/13 Volume I

Por João Filho

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“Eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer. Assim, aquele que planta não é nada, e aquele que rega também não é nada; só Deus é que conta, pois é Ele quem faz crescer.” 1Cor 3, 6-7

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Aos meus pais, às minhas irmãs, aos personagens que emprestaram suas histórias, a quem ama.

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Índice

1. Quando pequeno eu era

32. Gestando Palavras

2. Anúncio

33. Johnny, o menino legal

3. Viajem de Morpheu

34. As Sementes da Irmã

4. Despensa

35. O Padre e o Jipe

5. Último minuto

36. Deixa eu te amar

6. Encontro com a antiga natureza

37. O Thiago da Érika

7. Idades

38. Sou só mais um

8. Círculo Vital

39. Amor ao meio

9. Simples

40. Sol e Lua

10. Amigo que ama corujas

41. Mãe, Ar

11. Breu

42. Deixar de te amar

12. Doce Inflação

43. Um amor de passagem

13. Beleza Interior

44. Eu sonhei um poema

14. Próximos

45. Viagem de trem

15. O ódio e o amor

46. Versos inacabados

16. Gravitação (a)temporal do Amor

47. A Fênix da Alma

17. Contemplação

48. Anormal Eterno

18. Cheiro de domingo

49. Sal e Mel

19. Cúmplices

50. Sem tudo

20. Amar menos

51. O Amor já conquistado

21. Eu não ganhei uma rosa

52. Sei lá

22. Triste fim

53. Caridade

23. Um cálculo qualquer

54. Amor passageiro

24. Conjunção da Beleza

55. Navio Negreiro do Brasil

25. Jabuti, cabeça escondida

56. Cadê você?

26. Sentidos egoístas

57. Eu mesmo aos 92

27. Fechador de portas

58. Anjo meu

28. Geleia de morango à liderança

59. Se ame mais

29. Você à melodia

60. A arte imita a vida?

30. Nome completo

61. Minha mãe consola dor

31. Me liberta pra você

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Quando pequeno eu era Quando pequeno eu era, diziam-me insistentemente que leite com manga fazia mal. Triste ilusão! Quando pequeno eu era, soube de um tal disco voador que passara pela minha cidade, Mas que maldade, eu dormia profundamente! Quando pequeno eu era, subia nas árvores, nos telhados, chamavam-me arteiro. Apanhei no terreiro, varinha de goiabeira, corrião, chinelo, palmadas... Merecidas ou talvez não, Me ensinaram grande lição. Hoje ainda insistem que: manga não com leite, Disco voador só de enfeite, Árvore, telhado, arteiro não combinam mais. Quer saber? Continuo pequeno, Eu era feliz, Eu sou feliz. E hoje por mais Que não me sinta capaz, Sei que sou sempre pequeno, Mas a felicidade me corrói, E não deixa as marcas do chinelo doerem mais. Que saudade daquele chinelo, Que doía só por uns instantes, E hoje a dor que às vezes sinto, É tão forte, tanto quanto um diamante, Bilha, e é quase inquebrável. Mas se aparece um bom "diamanteiro", Sei que não sou mais arteiro, E em Deus posso confiar. 5


Anúncio Faça-se, Alegre-se pois, quem está contigo Te saúda por outro, Com alegria Ele vem, E com graça te faz Ave. Em mim, Que conceberá um Filho, Mesmo que homem algum conheça, Ele fará que conceba. Segundo tua palavra, Sem temor que abale, Ele será, é grande, O trono de Davi é seu, Que o anjo lhe deixe, A sombra do Altíssimo te cubra com poder, Alegra-te cheia de graça. Ave-Maria.

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Viajem de Morpheu Coisas boas podem ser feitas no escuro, Dormir, por exemplo, é uma boa pedida. Esquiar de olhos fechados, Refrescar-se num banho morno à meia-luz, Esperar pelo papai noel, Encenar uma peça, ter um papel, Dançar à vontade, Sorrir sem maldade, Sentir saudades. Faça no escuro, Não há mistério, Deixe de ser tão sério E vá dançar! Rodopie feito pião, Aumente o som, Puft! Caia no chão, Deite, vire. Veja de olhos fechados vários ângulos, Viaje a novas terras, Deixe que as serras cortem novas árvores, Madeiraaa! Bom dia!

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Despensa Existe amor com data de vencimento? Ache produtos, no supermercado, Não perecíveis, que nunca acabem. Todo produto paga imposto, Posso eu pagar também pelo amor? Vou vestir camisa vermelha, Fazer estoque, Pegar toda a produção. Só queria eu poder, ter na minha despensa. Ter muitos de você, Só para não deixar nunca De mim você... Se perder.

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Último minuto Não disse o que queria, Falou-se tudo para não falar de nada. Deu voltas pra chegar onde não se queria, Tantas curvas que retas não havia, Toque, toque-me, Com palavras, com sentido, Talvez com um pouco de emoção. Infelizmente só se fica à vontade na festa, na hora da saída. Dance o quanto puder... até o último minuto. Diga depois, adeus, a Deus, até breve, Vá com cuidado, até breve.

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Encontro com a antiga natureza Dei volta em uma ilha, só a metade, banhada de águas não calmas, Muitos postes foram acesos, As árvores foram podadas, Construiu-se ruas, Casas, praças, academias, Igrejas, capelas. Que pena! Não há mais breu Onde possa me esconder Para me escorar em uma árvore, Me encontrar em uma árvore. Os carros passam, O vigia fica apitando, Acho que ouvi vozes! Vamos embora, Já é tarde.

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Idades Deus é o 'velho' sábio que tudo governa, Jesus, o adulto que ama e trás a salvação Espírito Santo é o jovem disposto que trabalha, E eu, a criança que "vinde a mim... pois delas é o Reino dos Céus".

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Círculo Vital Há um canto Divino Que encanta toda a beleza, Nasce de uma simples manjedoura, É o amor tão grande de um Deus, Nos chama a sermos homens em barcos livres. O vaso aberto recebe a Água Viva, faz brotar a flor de delicadeza do Criador em nós. É somente o sopro de Deus, Tudo começa em Deus!

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Simples Sou tĂŁo simples quando o vento. VocĂŞ que me fantasia de carnaval. me faz ficar feito um coral, belo e imergido, para servir de abrigo pros peixes, morrer desiludido! Sou tĂŁo simples ...

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Amigo que ama corujas Tenho um amigo que ama corujas, Não as ama pela real aparência, Pela imagem da transcendência que meu intelecto é capaz de incompreender. Corujas, sábias, sofias, Sabedoria nas costas, Carrega o fardo pesado do conhecimento. Há uma capacidade, virar o pescoço pra praticamente todo lado, Quase tudo vê. Se esconde em uma toca, não gosta de visitas, se fecha pro eterno, só quer comida. Seus filhotes, lindos, pro lobo não comer. Quanta tristeza e falta de sabedoria da pobre sabida! Ainda não aprendeu e deixar seus filhos voarem, livres, separáveis, Para aprenderem a ser tão sábios quanto a mãe, Que agora já sábia sabiamente os livre deixa. Nos despedimos pra nos encontrarmos em instantes, Novamente sempre no mesmo lugar e na mesma hora, ao som badalador do sino que ressoa, Chamando para o horário do ápice Sol, que encanta os famintos de tanta beleza, cores diversas, frituras na mesa.

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Breu Apague a luz ao sair, Faça a visão não mais enxergar, O coração vai se acostumar. Que ninguém mais acenda essa luz, Ou quebrá-la eu vou. Meus olhos se ardem de claridade, Nem o breu o diminui, o reduz, Ele fala, é um espelho, Para qualquer sinal de amor, reluz. Vou fechá-lo e não mais abrir, Vai gritar, quer sair, O branco já fica vermelho, Que coisa! Adeus ó espelho.

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Doce Inflação Eu quero vinte moedas de balas, Centavos, Pois pararam de chover no meu quintal. Um telhado, bica, capa, direitinho, Talvez uma parede bem pintada, Cal, barro branco. Antigamente eu comprava muita bala, Hoje, nem telhado vinte centavos compra. Se eu quiser uma parede, Que eu vá ao fogão pra cozinhar, Cortar a lenha ninguém quer. Saudosismo do tempo de outrora, Jaz no sepulcro a minha vitrola, Que cantarolava alegre e feliz, Doce canção de viola.

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Beleza Interior Nos caminhos turvos de uma estrada gelada, A gota d'água descia pelo vidro do carro fechado, Chuva, respingava o caminho por inteiro. Deitado, de vermelho, azulado, triste? Em pé, de amarelo, branco, feliz? Havia uma árvore no cume da montanha, No espelho seus longos pretos cabelos penteava, Várias imagens de nada, que faziam sentido. A lente dos óculos coloquei frente aos olhos, Corretiva, refrativa, não entendo, A estrada que antes torta era, Chuva, gota, tempestade, sumiu, Quebra-se o espelho, O centro, dentro, faz mais noção, Haja beleza, quanto coração.

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Pr贸ximos Quisera eu falar de alegria, Eu? A euforia da estrela que brilha, Distante? O amante que surge no amanhecer, Sol? Talvez, s贸 se houver: Eu e voc锚.

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O ódio e o amor Ódio, triste, ruim, mal, pra baixo, intriga, ciúme, raiva, rancor, machucar, pecado, matar. Amor, euforia, sabedoria, inspiração, emoção, diversão, carinho, compreensão, companheirismo, razão, união, amor. Amor e ódio, ciúme, emoção, amor.

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Gravitação (a)temporal do Amor Triste destino do tempo, Corre veloz como o balanço do relógio, O amor é gerado com seu movimento, E tão rápido quanto ele se desvia. Não te tive tempo por muito tempo, E por menos ainda vou perder-te, Vive de alguém? Talvez seja só euforia. A desordem é a ordem do caos, A ordem se desdobra dos astros, Elipse orbital, Coração fatal, Volta tantas, gravitação. O movimento, a distância e a velocidade geram o tempo, Triste destino eufórico. Pare de dar voltas, pare o tempo, pare não, Ame.

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Contemplação Disse palavras direcionadas a Deus, complexas, quase indizíveis, tão simples, que nem precisariam ser ditas. São 11h31, fujo dele Tal qual, no relógio, O ponteiro maior corre do menor, Até que finalmente seja meio dia. Num invólucro com vidro eu O observei, Brilhava sem luz, A contemplação é o amor pesqueiro, O barco, ligeiro, Devagar... pausativo. Olho e sou olhado, Sou amado e espero que ame, Suas pupilas me refletem o que sou por inteiro, O que nada seria sem seu amor Nada passageiro. O silêncio faz meus olhos gritarem, Parados, imóveis, Sinto, Ele está do meu lado, Se os fecho, continuam abertos, Se os abro, Ele está ainda mais perto. O grito é involuntário, A alma arrepia, Seus olhos me fitam, Já é meio dia. Calor intenso, uma flecha no peito, Tábua de tiro ao alvo* O ego se dilui, O rio carrega, A alma se entrega. "Sem luz" não mais existe, É pura razão, O Deus que me ama, 21


Nunca é ilusão; Mesmo sem palavras Tudo fala, eu, que pobre infeliz, Não sei ao certo o que diz. Caminho de volta, Pisco os olhos, Só sei, Sou eterno, ele; Eu, aprendiz.

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Cheiro de domingo Sinto saudades do domingo, Dia da comida melhor, Do frango assado, Arroz com passas, Da maionese. Sinto saudades das horas vagas, Vagas lembranças, Lembranças sós. Sinto saudades do cheiro da infância, De subir em árvores, brincar de pique, de dar nós. Hoje, que tudo é segunda, Não há coisa alguma, nem domingo, nem infância, Nem vagão, pra transportar Levar a lembrança, Deixar fluir a imaginação.

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Cúmplices Não faleis filtros, mesas, quadros de aviso. Não faleis pois não apetecem que digam coisa alguma; Nada diga escada moribunda. Oh parede, em silêncio ficai! Ao chão, nem se diga, onde tudo cai. Esvaziem a água do bebedouro, Não permitam que ela faça barulho algum. Que os pés calçados pisem no chão frio, E que do mural se retirem todos os recados. À mesa ponha barreiras, cadeiras, E que lentamente se sente, em silêncio, ligeira. Nada diga, só reprima, Nada fale, só entale, Vá dormir, amanhã é um novo dia, Tudo mudo, muda, menos o silêncio, Do que quer, Do que não se devia.

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Amar menos Hoje eu só queria um romance real a base d'água, Pra chuva cair e desmanchar tudo, escorrer pelo chão, deixar ir para o ralo, diluir no rio cair no oceano, se afogar na imensidão indizível. Hoje eu só queria. Talvez a única coisa que eu preciso, é realmente amar menos, não dizer tanta coisa, coisa que de coisa nada tem. Hoje eu só queria ser capaz de deixar partir, em dois lados ou talvez três, ou até mesmo deixar distinto, prolixo, indiferente, aquilo que eu guardo, pra sempre, sempre, e que não posso arrancar, mesmo se eu cavucar, todo amor que eu só desejaria hoje... Amar menos. Hoje o dia não está bom, ontem acordei sentindo cheiro da manhã, Domingo, de Semana Santa, esse sobe e desce me atormenta, e desde quando eu consigo escrever estando tão feliz? ontem, coisa tão simples, não tive coragem de pedir... eu só queria um abraço apertado, pra me sentir amado, pra me sentir feliz. Não tive coragem, dormi abraçado, no meu travesseiro infeliz. Que, coitado, me aguenta, me ouve todo dia, se faz de aprendiz.

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Eu não ganhei uma rosa Eu não ganhei uma rosa Pois não me deram a rosa que conversa com o Cartola, aquela... que roubou todos os cheiros da pessoa amada. Ela era bela, Vermelha, gigante, À santa serviu de enfeite, Ao menos eu pude vê-la por um instante. Não te vejo, Seu cheiro nem as rosas o têm, Não te acho, Hoje olho pra dentro de mim, Não te encontro, Tem o perfume de eternidade, Não te procuro, Pois sei que está do meu lado. Você, como a rosa, Um dia perde as pétalas, A beleza já não tens mais, Mas eu sei que você está lá. Você não é a rosa, Mas a roseira, pronta a se libertar. Liberar seu aroma, Só pro Cartola cheirar, Escrever uma bela canção, E, finalmente... poder te amar.

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Triste fim Me jogaram no lixo, Que tristeza torpe! Não posso ter amigos, O trem descarrilou, foi para a direita... Estava tudo tão escuro, seus olhos mentiam descaradamente, Aquela minha risada medonha. Vi que seus braços estavam cruzados, coloquei a mão no bolso. Me deixa chorar? Havia tanta carniça, mexeram, fedeu. A lágrima cai. Depois de tantos abraços, A decisão decidiu: "Se esconda!", "Tenhais medo!". Cada um para cada lado, Triste fim.

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Um cálculo qualquer Quem dera eu pudesse Assimilar toda a tristeza Em apenas uma palavra qualquer, Sem importância, sem semântica, Sem tudo a ver. Quem dera a distância, fosse mera matemática, Que num cálculo se faz Resultar igual a zero. Quem dera o tempo, fosse apenas ilusão. Quem dera o amor Não passasse de emoção...

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Conjunção da Beleza Há a beleza que nunca acaba, Há a tristeza que nunca finda, Mas se a tristeza a beleza encontra, Nunca nunca. Tem fim.

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Jabuti, cabeça escondida Pra dentro, Pra dentro, Pra dentro. Não fala, não mexe, Atônito, Tão pra dentro que virou ao avesso. Credo! Nojento! Entranhas! Vísceras, por que és tão feia e Tão essencial? Dizem que os médicos gostam de vê-las, Os do coração, Vasculham tudo, Remexe, corta, costura, Fecha, põe tudo no lugar. Revirado ao avesso de novo, O avesso do avesso é o lado “normal”, Agora: bonito, lustrado, de boa temperatura, Jabuti “eu” volto. Ando... Pra fora, Pra fora, Pra fora!!!

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Sentidos egoístas Que os seus olhos jamais vejam tamanha beleza, Que a sua boca nunca beije tamanha doçura, Que os seus dedos jamais toquem a textura, Que o seu nariz nunca sinta o belo olfato da fragrância, Que os seus ouvidos jamais ouçam aquela bela melodia. Que apenas eu Que apenas eu Que apenas eu Que apenas eu Que apenas eu

seja seja seja seja seja

a beleza, a doçura, a textura, a fragrância, a melodia.

Que apenas você seja os sentidos meus.

31


Fechador de portas Chego à cozinha, Quase todas as portas estão abertas. O armário, coitado, Grita pedindo socorro, Já não suporta mais ficar tão exposto. No seu interior há tanta coisa, Que tanta coisa nem há tanto assim. Algumas panelas falantes, Raladores, abridores de lata, Havia até um elefante Com sua tromba gigante. Ou seria um ambulante, De bule de café a falar? Ele era branco, Cheio de gavetas, portas, Exatamente como deve ser. Ele reclamou, sim senhor... Ouvia-se Slam! blam! e Wham! bam! Enquanto eu trancava todas elas. Também se ouviu ecoar por toda a cozinha, A batida da vizinha que não parava de gritar; O tabuleiro, de longe, lisonjeiro, Correu e se escondeu pra eu não o usar. No fim de tanta dor, Ele permaneceu com a mesma cor, O branco de sempre, Assim como o dente, Que usou o aparelho E voltou para o lugar. Respirando eu volto, Olhando sorrateiro, Pra ver se nenhum hospedeiro, Vai voltar e se apropriar, Das portas do armário, Que ora abertas, fechadas, Já não podem mais falar.

32


Geleia de morango à liderança Moça, como é que faz geleia de morango? Menino, tem que saber do encanto! Vai açúcar, água, fogo, Panela, colher de madeira. Além disso um bom olfato também conta. Moça, não falta ingrediente nessa geleia não? Menino, tem a paciência, a boa vontade, A calma e a tranquilidade. Moça, e o ingrediente principal? Garoto, faça tudo sem esforço que é pra mão não suar. Se quiser dar um gosto, Coloque morango a desgosto, Que é pra geleia brilhar.

33


Você à melodia Voltar-me-ei ao meu recanto, Só pra ver se te encontro Do jeito que eu deixei. Se o seu olhar será o mesmo, Vai me deixar daquele jeito, Que só você sabe fazer. Ansioso eu busco Seu abraço de urso Que me aperta pra valer, E não deixa jamais O amor que sinto desaparecer. A porta aberta Me desperta Para um novo amanhecer. E o Sol a brilhar Só me faz lembra alguém... Você.

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Nome completo Tenho um nome composto, De pai, de mãe, De esforço. Sou xará de um precursor Dos tempos longínquos. Água era sua ferramenta, Palavra, sua tenda. Dizem que vivia no deserto, Quase nada comia, Só inseto. Tenho um sobrenome, forjador, ferreiro, De pai, de mãe, Guerreiros. O nome era do meu pai, Filho dele eu sou, Me colocaram um aposto, Uma explicação, Pra dizer que com amor, carinho, Esforço: _Eu te criei.

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Me liberta para você Não, não te quero querer mais, Não quero sofrer mais, Me deixa ir. Abre o casco e me liberta, Me liberta para que Eu volte correndo até você. Não me chame pelo nome, Não me diga que não mais Vai querer ficar perto de mim. Parta sem olhar para trás, Parta o meu coração, Pique em pequenos pedaços, E que ele não viva novamente. Dos cacos não dá pra juntar, Nem mesmo se colar, Não quero te deixar partir. Me mate, enterre os destroços, Não deixe nada aparente, Não guarde nada de mim, Nem as palavras, Tudo o que eu queria de mim era você. Eu não tenho meu caminho, Atrasado eu sempre vou estar, Sem você e sem você, Não vou mais escrever, Pois nada vai me restar. Fica. Fique. Eu te amo.

36


Gestando palavras Quem sabe na gestação, Vai sair alguma coisa? Eu tomo uma folha em branco, E como um barranco, Deixo a terra descer, Dou formato, Faço crescer. De agora em diante, Só escrevo coisas simples, Sem nenhum requinte, É como deve ser. Nem tudo o que sai é belo, Nem do jeito que eu quero. Não sou eu quem os faço, Eles se auto produzem, Dou forma, retiro a ferrugem, Só coloco no papel. O poema não é só fazer as rimas, Tem que ter autoestima, Tem que saber mudar.

37


Johnny, o menino legal Johnny era um menino legal, Emagrecer era seu plano ideal, _Tempo não tenho! Ele dizia, Ano que vem várias corridas ele faria. Seu codinome era Mutley, Animal perseverante, Medalhas não queria. Dizia ser a águia, Que de longe tudo vê. O coração em seu peito se abre, Poemas não sabia entender. Johnny só dormir queria, Mas de uma coisa ele sabia, A amizade é um tesouro, E a guardava como um touro, Como o guarda da padaria.

38


As sementes da Irmã Tem grande, pequena, Vermelha, marrom, escura, Tem de todo jeito, tamanho e altura. É o tesouro da irmã, Leva ao sabor dela... Doçura. Tem uma que abre, Fecha, tal qual caixinha de diamantes, Há outras, porém, Que é melhor deixar distante. Num potinho de plástico, Raras elas vão, As sementes e a irmã, Para uma nova missão.

39


O Padre e o Jipe Lá vai ele todo formoso, Chapéu preto, motor potente, É o padre no seu jipe todo sorridente. Pintura azul e capa preta, Não! O barulho não é de lambreta, É de força, daquela motriz, Que move o mundo, De quem, dentro do jipe, Está todo feliz. Se chuva der, Pronto ele está, Gosta de barro, pra modelar, Tal qual fez a Adão, o Criador, O barro é vida, Puro esplendor. Ele sacode, Seu remelexo é bacana, Não há quem não olhe, Ele não se acanha. Segue bravamente seu destino final, Voltar pra casa, Sua estrada real, Onde pomposo o rei passa, Alegre cantando ao seu Criador; Ele vai parando, Até que se desligue, afinal, O seu motor.

40


Deixa eu te amar Deixa eu te amar, Te dizer palavras bonitas, Seu cabelo pentear, Sua sobrancelha elogiar. Te jogar ao vento, Pegar todas as partes, Guardar no meu cofre, Não deixar partir. Seus mansos olhos, Pegar no espelho, Vestir sua mais bela roupa, A sua natural, Te desnudar. Sentir seu cheiro, Arrepiar todo, Pegar a fragrância, Jamais esquecer. Deixa eu te amar, Te fazer meu, Me fazer seu, Arrastar tudo a você, Deitar no seu colo, Te olhar lentamente... Me ver nos seus olhos. Deixa eu te amar, Ouvir sua voz cantando pra mim, Suspirar docemente, Me apaixonar loucamente, Fazer loucuras. Deixa eu te amar, Sentir sua falta, Sentir sua ausência.

41


O Thiago da Érika Thiago é um cara especial, Da Érika alegria total! Veneno, veneno doce, Não de cobra, serpentil, Mas daqueles que feliz se toma, Se injeta na veia, No sangue circula, É só alegria! Érika, a moça, inocente coitada, Usa do rapaz, Se faz de malvada. Matar ela não mata, Mas se sente mordida, Tal qual aquela maçã, Do começo da vida. Uma leoa domando um tigre, Quem manda é ela, Mesmo que não acredite. Ela espera ansiosa a ligação, Dele, pro veneno viciante levar, Dela, que de saudade já não pode mais aguentar.

42


Sou só mais um Eu sou só mais um, No meio de tantos. Eu sou só um, que soma tanto. Não sou um único, Tenho várias cópias de mim. Às vezes me faço, Ou talvez só disfarço. De várias facetas, A face desfaz, Eu escolho um lado, O outro me diz: Por que não eu? Respondo com a calma, Da escolha que fiz, De sempre escolher A face mais feliz. (A um amigo que perguntou por um poema alegre)

43


Amor ao meio Sinto sua falta hoje Que as palavras não seriam capazes de dizer, Precisaria de muito mais, Que um poema para chegar até você. Não entendo a distância Que não apaga a emoção, Não sei viver amor ao meio, Só o sei por inteiro. Estar sozinho é o melhor desencontro, De uma alma sem razão, Já que o amor é muito mais que emoção. Que não se conta, Nem pode somar, Mas traz mansidão, Aos que o sabem multiplicar.

44


Sol e Lua Como pode a Lua brilhar Mesmo tendo um desencontro Tão terrível com o Sol? Como pode o vento, Me deixar desatento, Olhando o tempo, Trazendo alento, À minha imaginação? Como pode o rio, se entregar ao mar, Mesmo sabendo, Que não mais existirá? Como posso eu te amar, afogar no brilho do seu luar, sem saber o que falar e deixar a coisa rolar? Se as palavras fogem, Vão pra bem perto, Pra dentro do seu coração, Onde está o que eu desejo, Seu amor que encontra o meu, e nos faz juntos brilhar.

45


Mãe, Ar Um ar que respira, um choro ecoa, Saindo do ventre, A vida ressoa. Uma perfeita criação de Deus, Bondade infinita, uma mãe nos deu. Olhar distante, Uma lágrima cai. De felicidade, Seus olhos buscam o fruto da sua vida, Seus filhos, Ainda que voando longe, são seus meninos, e a amam, Como a cada respiro, do ar da VIDA! (A um grande amigo e sua mãe)

46


Deixar de te amar Se me deixas partido fico, Se retornas encontro abrigo. Que dor é esta que não me permite ser livre? Queria que fostes, partistes sem olhar o passado, De todos os dias que esteve ao meu lado, As longas noites que te observava, E entristecido ficava por saber que algum dia Você morreria. Pra mim. O coração bate, mas é involuntário, O sorriso já não se abre, Tão distante hoje você está quanto No dia que estivemos muito próximos. Se me deixa sozinho, Só e tão só eu me sinto, Como a planta que alguém não rega mais, E que precisa procurar ou reter água pra viver. As músicas que aprendi com você, hoje só fazem doer, meu pobre coração, que não consegue mais, mesmo tentando, deixar de amar você.

47


Um amor de passagem Tento ver-te com bons olhos, Pois os maus já me consumiram por inteiro. Tento te sentir com os meus dedos, Que a distância fez entrar em desespero. Ter você tão perto e não poder te tocar, É ver o mar e não poder me afogar, É ter um sol que não queima. Te ver partir novamente, É ouvir um buraco em minha frente E querer me matar.

48


Eu sonhei um poema Eu sonhei um poema, Sonhos da mente profunda, Ouvi muitas m炭sicas, Tive muitos desejos, N達o prejulguei os acontecimentos, Vi, deixei rolar, Muitas cores, Muitas coisas, Vi, vivi, ouvi. N達o tinha que ter freios, Muito menos raz達o. O que comandava o meu sonho, Era a minha...

49


Viagem de trem Desculpe-me a vida que eu deveria ter, Só e não tão só uma eu tenho, O trem que passa não é passageiro, Deixa marcas, desgasta, ferreiro. Forjar a vida, as ações, No fogo, atrito, Forasteiro eu sou do outro mundo, O meu, tão só meu, Livre, nada óbvio, Do outro nada escuto, só vejo, Viajo de trem, Muito barulho remelexo, Seguro. Em alguns momentos é preciso mudar de lado, Ver, histórias de outrem, Que deixou seu mundo, Para viver o de alguém, Buscou seu real mundo, E de vez em quando volta, Volta sem voltar. Onde eu nunca fui, Nunca voltarei, Me desculpe.

50


Versos inacabados Se faz sentido, eu não sei, E se é compreensível, também não, Minha mão parece normal pra mim, Talvez não para Joaquim. Posso escrever o que penso, Depois não me arrependo, O que falo, vai muito mais fundo, A apenas dizer como um papagaio, Tem que ter pra mim, Um sentido, um fim, profundo Muito mais lógico que a própria lógica. Achei que pouco eu havia vivido, Mas se vejo, é um caminho longo, cumprido, La vie, vita, caminho, vida, Tudo muito semelhante, conexo. Poderia eu desassociar tamanha juntura? Creio que não! E também estes escritos, Serão de versos inacabados, Não como a vida, Onde quase tudo tem um início, meio e fim... Sem rima.

51


A Fênix da Alma Estive morto, Entregue aos corvos, O corpo rijo, Frio, sem sabor, Servido à mesa, Quase que com uma maça de enfeite, Daquela que se coloca na boca do defunto Para o banquete. Meu corpo, nu, Dissecado, exposto, Pronto para ser devorado. As corjas me negociavam, Faziam tal qual um monte de trapo. Nas minhas profundezas, Onde só eu habito, Nem eu tinha mais, Estava perdido, Entre o real e o irreal. Ouvi dizer que eu era um caso especial, O morto que eu estava, Pior ficou, Minha alma sobrou, Nela os corvos não mexem. Talvez só ela, Não seja tão rija, E entenda melhor que os corvos, A realidade escondida. Não vejo as coisas, Como os outros, A alma transcende, O que é duradouro, Tenho medo, muito medo De que um dia, Minha alma que me anima, Também seja incompreendida Por quem lá se sabe. Eu só espero que em alguns dias Possa vê-la ressurgida, Tal qual Fênix das cinzas, E radiante ela grite, Estive morta, Mas agora estou VIVA! 52


Anormal Eterno Já que não é pra ser normal, Prefiro ser um anormal feliz, Nesta vida, Onde todos e eu, sou um eterno Aprendiz. Se eu canto contos, Em canções onde nada se canta, Se eu planto feijões, Onde nada se planta, Se eu driblo a maré, Onde não deveria mais ter fé, Eu escolho viver, Normal, anormal, Mas não infeliz.

53


Sal e Mel O rio o mar beija, O que ama deseja, O beija a flor doce mel leva, O que ama se entrega, Seus filhotes, os amores, alimentar Ninho de amor ele farĂĄ, Doce e sal nĂŁo se misturam, Se conjugam, para um novo sabor criar.

54


Sem tudo Alguém Alguém Alguém Alguém

retirou o brilho da sua beleza, tirou o seu sorriso, roubou a sua alegria, usurpou...

55


O Amor já conquistado O que fazer com toda essa beleza Desprovida de razão? Usar apenas o que está à flor da pele, A emoção? Mergulhar em águas rasas, sem profundidade, sem inserção. Certeza de uma torpe ocasião Quando se pensa na celebração, De um romance inexistente, E tudo luta para sair. Amor, paixão, emoção, Palavras que vem do coração, Ou não. Atitude de se sustentar, Na base que não convém falar, Do amor já conquistado, É preciso repensar.

56


Sei lรก Sei lรก, Bem que o tempo podia voltar atrรกs, Pois eu vejo o que sua falta me faz, Os escombros sobre os meus ombros, Daquilo que sobrou do nosso amor.

57


Caridade Aos que amam, amor, Aos que choram, lรกgrimas, Aos que querem, poder, ร€ morte... vida.

58


Amor passageiro Quem disse que o amor é passageiro, Que se joga no terreiro, Faz macumba para acabar? Quem disse que o amor está no coração, E não na razão, De quem quer amar? Quem disse que a paixão, Vai do cérebro ao coração, Faz o corpo arrepiar? Quem disse que eu não posso Desejar que o meu próximo Também saiba amar? Afinal, quem é o próximo que mais próximo de mim está? Que não sabe amar, Que a paixão faz arrepiar, Que quer amar, Que acha tudo controlar? Eu.

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Navio Negreiro do Brasil Tento me colocar na pele de um negro, Um dos tantos vindos de barco, De barco fechado, Comida no buraco. Morte é fato, Certeza da vida. Já não sei mais, Onde está meu espaço. Tudo eu perdi, Dignidade já não sei mais o que é, Minha vida, meu tudo, Entreguei sem poder reclamar, Para minha terra não podia voltar. Meus filhos, netos, bisnetos, Que ainda terei, Não os conheço, Temo pelo o que eles sofrerão. Minha razão já não tem mais lógica, Minha emoção não pode gritar, Meu coração quer parar. O pior disso tudo é ser obrigado A me perder de mim mesmo, Saindo... perdendo meu lugar.

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Cadê você? Falta me faz seu abraço gostoso, Reclinar no seu encosto, Deixar o tempo passar... Falta me faz seu beijo caloroso, Seu olhar manhoso, sua capacidade de amar...

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Eu mesmo aos 92 Certo dia acordo, percebo que já tenho 92, 92 o que? O tempo passou, vi velhos amigos morrerem, Novos amigos nascerem. O que mais posso esperar? Quando olho para trás, Consigo ver tudo o que vivi como um “flashback” Percebo que poderia ter feito muito mais, “Amado mais, ter chorado mais”, sorrido mais, vivido mais. Mas mesmo assim, ainda sei que tudo o que fiz Foi o suficiente para demonstrar aos meus, tudo o que sempre fui. Será que de tudo o que passei, algo vou deixar, Quando a hora chegar e tiver de partir? Como a vida vai continuar? Já sou limitado, meus movimentos não acompanham os meus pensamentos, E quase sempre nem meus pensamentos funcionam como deveriam, Sinto incômodos em todo o corpo. Que saudade da minha juventude! Quando podia pular à vontade, sorrir à vontade, dançar à vontade, E não o fazia por achar que tinha de resolver tudo, Antes que o tempo acabasse. Os dias vão passando e na minha cabeça, A espera do que há de vir é cada vez mais convincente. Lembro-me de quando era criança, brincava com os amigos E inventava as regras do jogo; Pena que com a vida não dá pra ser desta forma, Ela tem sua própria regra, ela é sua própria juíza, Não existe revogação e nem mesmo acréscimo de tempo. De tudo o que passei, pensei, vi, ouvi e falei, Gostaria que restasse ao menos uma coisa, A minha gratidão por ter tido a permissão, De estar por aqui o tempo que estive, E fazer a diferença na vida das pessoas que amei, Além do mais, nada vai me restar, A não ser, a saudade que deixarei. Eu mesmo aos 92.

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Anjo meu Anjo bom, Anjo meu, Anjo humano, Não alado, Sensato. Anjo que não tem luz própria, Transmite a que vem do alto. Anjo que fala coisas bonitas, E está sempre ao meu lado. Anjo que aparece de repente, E some deixando rastros, De amor, carinho, E de abraços. Da guarda, Querubim, Serafim, Humano.

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Se ame mais De repente Vi que não estava só, Sabia que havia uma luz. Eu me amo mais, Mais que a mim mesmo, Eu me amo! Das trevas Visíveis a qualquer um, Um salto dei, Clarão se fez. Razão pra existir, Hoje tenho, rocha firme, Barranco eterno. De onde vem tanta força, Eu não sei direito, Ela arde muito em meu peito. Hoje sou tão feliz, Sei amar, Amo muito, Não mais que a mim mesmo. Dos abraços, Vida, Sinta a vida. De verdade sempre!

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A arte imita a vida? Nunca vi constar em tantos poemas, Tantas letras e palavras Que nada dizem. Versos inacabados Que nada falam, Sem que antes Eu escreva neles, Minhas próprias emoções, Que me visse espelhado, Como nas várias canções. Nunca vi em espelho algum, A real imagem de alguém, Ela fica invertida, Como em um conto sem partida. Pois o que sei, É que o espelho que me reflete, Nada é além de mim mesmo, Esperando que os primeiros raios de sol, Daquele último amanhecer, Me reflita, Na parede ou no chão, E que, repentinamente faça Minha sombra desaparecer. A espera já é longa, O caminho é difícil, Ninguém eu encontro, Nesse conto fictício. Mas, se a arte reflete a realidade, Então, reflete-a invertida, Esperando que à sombra do último sol, Mostre-a desmentida.

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Minha mãe consola dor Perfume melhor, nunca senti, natural, não fabricado, o mais caro do mundo. Cheiro suave, me faz repousar, meus olhos se fecham, fico a pensar, deixo o tempo passar, nem noto o dia. Sua palavras, tão sábias, me enxerga bem mais fundo, que talvez eu próprio pudesse fazer. Tão doce, suave; mas firme, prudente. Ponho minha cabeça em seu peito, o leão pulsa ferozmente, seu coração, que um dia não mais sentirei bater, me ama, de uma forma que nunca vai morrer.

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“Viver é algo além do tempo e saber que o valor da nossa existência consiste em deixar por onde passamos um pouco do que somos”. Autor desconhecido

João Filho joaobfilho@live.com poemadailusao.blogspot.com

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Poema da Ilusão - Volume I