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Comissariado Geral

Apoios

Exposição de Fotografia

José Pedro Angélico e Pedro Brito

Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa (Porto)

Fotografias: João Lopes Cardoso Comissariado: José Pedro Angélico Montagem: Hospital de São João

Iniciativa

Exposição de Arte Sacra

Livro

Serviço de Humanização do Hospital de São João

Comissariado: Laura Castro e José Pedro Angélico

Textos: António Ferreira, Filipe Almeida, Hélder Pacheco,

Serviço Religioso do Hospital de São João

Projecto de Arquitectura: Bernardo Brito

José Nuno Silva, José Pedro Angélico, Laura Castro,

Montagem: Serviço de Instalações e Equipamentos (HSJ) e

Manuel Clemente, Mário Cláudio.

Dalmática

Fotografia: João Lopes Cardoso

Embalagem e Transporte: Dalmática

Design: Tratto - Design e Comunicação Revisão: Pedro Brito e José Pedro Angélico

Colaboração

Pré-impressão e impressão: Rocha Artes Gráficas

Dalmática - Conservação e Restauro

ISBN: 978-989-96238-0-4


Agradecimentos Especiais Câmara Municipal do Porto | Seminário Maior do Porto – Museu de Arte Sacra e Arqueologia

Agradecimentos Agostinho Marques | Álvaro Mancilha | Amélia Ferreira | Ana Paula França | Ângela Alves | António Reis (Seiva Trupe) | Avelino Leite | Bernardo Brito | Cabido da Catedral de Lamego Colaboradores da Capelania do Hospital de São João | Cooperativa Árvore | Coro da Paróquia da Senhora da Conceição | Coro da Paróquia de S. João da Foz Coro da Paróquia de S. Martinho de Aldoar | Coro da Paróquia de S. Martinho de Cedofeita | Coro Gregoriano do Porto | Eugénio Amorim | FMUP - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Filipe Veríssimo | Helder Pacheco | Helena Venda | Herdeiros de Daniel Faria | Ideias Maiores | Inês Ferreira | ISPUP - Instituto de Saúde Publica da Universidade do Porto| João Ricardo Freitas Joaquim Azevedo | José Fernando Oliveira | José Luís Carrapa | José Matos Silva | Laura Castro | Manuel Clemente | Manuel da Costa Mota | Maria João Matos | Mariana Araújo | Mário Alves Mário Cláudio | Paróquia da Foz do Douro (Porto) | Paróquia de Macedo de Cavaleiros (Macedo de Cavaleiros, Bragança-Miranda) | Paróquia de S. Simão e S. Judas Tadeu (Vila do Conde, Braga) Paróquia de Malta (Vila do Conde, Porto) | Paróquia de Sobrado (Valongo) | Paróquia de Valongo (Porto) | Patrícia Mestre | Paula Guerra | Paulo Amaral | Raquel Lopes Reitoria da Igreja de S. João Novo (Porto) | Ricardo Cascalho | Rita Venda | Salvador Santos | Teatro Nacional São João | Teresa Ferrão | Vera Mesquita


ÍNDICE 5 PÓRTICO(S)

1 3VOZES VÁRIAS

7H o s p i t a l d e S ã o J o ã o . L u g a r e s A l t o s . O l h a r e s 1 4 A H i s t ó r i a d a R e c a p i t a ç ã o A n t ó n i o F e r r e i r a d e S ã o J o ã o B a p t i s t a n a C i d a d e d o P o r t o L a u r a C a s t r o 8 O H o s p i t a l e o D o e n t e , “ o l h a r e s ” q u e s e c r u z a m 1 6 D o A l t o c o m o V e r d a d e i r a M o r a d a d o F i l i p e A l m e i d a H u m a n o N o t a s p a r a u m a a n t r o p o l o g i a m o n t a n h o s a d a e x i s t ê n c i a J o s é P e d r o A n g é l i c o 1 0 C o m o u m a P a l a v r a P r o n u n c i a d a P e . J o s é N u n o F e r r e i r a d a S i l v a 2 4 D o S ã o J o ã o d o P o r t o H e l d e r P a c h e c o 2 8 H o s p i t a l d e S ã o J o ã o o u J o ã o f e i t o H o s p i t a l D . M a n u e l C l e m e n t e 3 1I t e r P r a e c u r s o r i s M á r i o C l á u d i o


4 5SÃO JOÃO - LUGARES ALTOS

7 1SÃO JOÃO - OLHARES

8 3VI(D)A

4 6 D o M i s t é r i o d o F u t u r o

7 2 D o M i ( n i ) s t é r i o d o F u t u r o

8 5F ó r u m P e r m a n e n t e C u l t u r a e S a ú d e

5 1D o M i s t é r i o d o S i l ê n c i o

7 4 D o M i ( n i ) s t é r i o d o S i l ê n c i o

8 6 O M e n s a g e i r o F o z d o D o u r o I r e n e V i l a r

5 2 D o M i s t é r i o d a Á g u a

7 6 D o M i ( n i ) s t é r i o d a P a l a v r a e d a Á g u a

6 5D o M i s t é r i o d o S a n g u e ( e d a H o s p i t a l i d a d e )

8 0 D o M i ( n i ) s t é r i o d o S a n g u e

8 7 A q u i t e r m i n a a p r o a m a i s o b a r c o ( I n é d i t o ) D a n i e l F a r i a


António Ferreira P r e s i d e n t e d o C o n s e l h o d e A d m i n i s t r a ç ã o d o H o s p i t a l d e S ã o J o ã o

Hospital de São João. Lugares Altos. Olhares No 50º Aniversário deste Hospital, indelevelmente ligado, pelos seus nome e fundação, à cidade e às festas do seu Santo Padroeiro, faz sentido olhar esses lugares altos da toponímia são-joanina, que o povo percorre e visita em obediência a uma tradição mesclada de paganismo e religiosidade.

possivelmente, dos balões de São João, apontam para o alto, para o lugar que o Sol ocupa no firmamento. Mas a festa popular, se eivada de elementos pagãos, é profundamente centrada na figura do Santo Baptista, aquele que preparou o caminho, na profecia do anúncio, na ideia de uma época nova.

As labaredas dos fogos acesos nos cimos dos montes, celebrações pagãs do solstício e raízes das fogueiras e,

É sensato, então, celebrar os cinquenta anos do Hospital apelando ao simbolismo desses lugares altos

que anunciam, de forma bem visível, o sentido do Homem, o sentido do seu lugar, a plenitude da sua dimensão. E se o Hospital de São João é um lugar do Homem, na planura da sua implantação geográfica, na humildade da sua inserção urbana, ele assume-se como o lugar mais alto da cidade e do mundo, porque nele a dimensão humana se eleva à altura do Sol.

7 são joão | lugares altos, olhares


Filipe Almeida D i r e c t o r d o S e r v i ç o d e H u m a n i z a ç ã o d o H o s p i t a l d e S ã o J o ã o

O Hospital e o Doente, “olhares” que se cruzam Nascer, viver e morrer são os três andamentos de uma caminhada que ao homem cumpre realizar. Caminhada que, no seu trajecto de aventura e intensidade, ombreia paredes-meias com o Hospital. Desde o nascer (o início deste grande percurso que assim põe fim ao nada) que o hospital acolhe este homem pela sua imensa fragilidade. Lança-o na e para a vida, para que faça o seu trajecto maior que é o seu viver. A este homem, caminheiro paradoxal da liberdade e da dependência, a este homem o hospital deixa a sua porta aberta, seguro de que sempre será o seu reduto nas horas mais vulneráveis. Exactamente como o são as horas do fim desta viagem, prenhe de grande intensidade humana. Precoce ou longínquo na medida do tempo, este fim carrega tensões, medos, angústias, doenças, às quais importa dar respostas adequadas, igualmente de grande intensidade. Respostas a um tempo técnicas e humanas. O Hospital tem profissionais de saúde capazmente habilitados a tratar os doentes, dos mais simples aos com maior complexidade patológica, procurando com 8 são joão | lugares altos, olhares

denodo a cura, a recuperação da saúde, mitigando a dor, adiando o fim. Detentores de um incomensurável poder sobre a doença, procuram curar e afastar a morte do horizonte dos seus doentes. Nesta jornada, ao desafio terapêutico de curar a doença, de pendor tecnológico, impor-se-á sempre o desafio terapêutico de cuidar o doente, de matiz primordial humano. E, ainda que perante uma ausência de solução curativa, jamais o Hospital escolherá um desordenado e desproporcionado esforço tecnológico, na peugada de uma inultrapassável afirmação farmacológica. A uma ausência de solução curativa oferecerá uma solução humana, a que responde não às necessidades de quem procura recuperar a saúde física mas de quem almeja recuperar a serenidade e a paz no seu tempo de morrer. Por tanto, e através dos seus profissionais, o Hospital não hesitará contrapor o olhar ao monitor, a presença ao fármaco, um “ethoscópio” ao estetoscópio. Porque é neste patamar que consegue ser e não apenas estar. Deixar-se seduzir pelo fenómeno humano, numa absoluta abertura ao homem doente que vem, é a genuína sabedoria de uma comunidade hospitalar, capaz

assim de secundarizar o inapelável fascínio tecnológico que, de sempre, despertou sedutora tentação nos profissionais de saúde. É a nova tarefa de quantos têm em suas mãos doentes que experienciam um bios que fenece e uma Vida que quer ser acção e memória, uma boa memória de si! Para eles é devido então um “olhar” hospitaleiro, numa visão comprometida com o incontível que brota do olhar de cada doente, porque é aí que o Hospital acontece, é aí que o Hospital se faz. Um “olhar” para o alto porque é lá, no mais elevado patamar da vida institucional, que se encontra este doente em concreto. Um olhar que seja um inteiro “olhar”, a um tempo doce e imperativo, capaz de, como S. João, preparar os caminhos de cada doente. Na hora do seu nascer, na lonjura do seu viver e no trilho do seu morrer. Simples controvérsias?


Pe. José Nuno Ferreira da Silva D i r e c t o r d o S e r v i ç o R e l i g i o s o d o H o s p i t a l d e S ã o J o ã o

Como uma Palavra Pronunciada João, o Baptista. O São João do Porto. No Porto, por excelência, o São João é o seu Hospital. Só o Hospital de S. João é, puramente, o S. João. Quem vai ao S. João, ou, mais ainda, para o S. João, é para o Hospital de S. João que vem. Talvez porque apenas o Hospital trace, no sentir colectivo portuense do tempo, uma linha que une e separa, como João, na História, separando e unindo dois tempos diferentes, duas alianças, marco miliário que assinala passagem de era. De quantas concretizações desta experiência existencial, da experiência da linha que une e separa no devir biográfico da pessoa, o hospital não é lugar! Lugar de nascer – que é passagem – e, até, de ser gerado – que é princípio, passagem intocável do nada ao ser. Lugar da evidência do frágil drama da condição e do encontro da ciência e do cuidado que pede – e passar, superar, crescer, maturar. Lugar de sofrer e de morrer – passagens maiores, quando as palavras se quedam, mudas e reverentes, ou, revoltadas, lembram golpes incontidos de lâmina cortante a abrir caminho onde ele teima acabar. Lugar de destino e lugar de liberdade. Lugar que fazemos quanto nos faz. Lugar nocturno e lugar de 10 são joão | lugares altos, olhares

esperança. Lugar rosto, lugar costas. Lugar memória e esquecimento. Lugar que nos guarda e que guardamos. Lugar de nós, nosso lugar. Lugar do Tempo. Dia primeiro e sua véspera. Dia a dia. Dia último e seu seguinte. Dia novo. O S. João, o Hospital, em quantas e quantas vidas, lugar desta linha que une e separa instaurando um dia novo, como João, o Baptista, prenunciando o Dia Novo da História, na palavra pronunciada – Ecce Agnus Dei! – desferindo a parábola da salvação, gestos e sinais, passos, com-paixão entre pobres e dolentes e esperantes de novidade da dor e morte redentora. Celebrar o Cinquentenário não pode não ser um momento de refontalização, de regresso prospectivo à consciência originante da missão e aos valores que lhe dão concretude histórica. Regresso prospectivo a tudo o que, em S. João, Santo da Cidade, encontrou uma expressão cultural – e crente, porque não há por que escondê-lo – para se dizer. Cinquenta anos! Nestes, concretamente, quantas descontinuidades e rupturas e quantos horizontes de sentido, colectivamente reconhecidos em 1959, conheceram alterações, alargamentos e estreitamentos, aprofundamentos e superficializações; horizontes comuns que, então,

naturalmente, nesta Cidade, permitiram chamar o Hospital pelo nome do Baptista. Hoje, ao meio século, somos nós os chamados ao exercício de releitura da História, semelhante àquele em que João gastou a sua vida, para, último dos profetas, recapitular toda a profecia e a identificar cumprida num rosto de Homem que apresentou como face de Deus. Somos chamados, pelo apelo fontal do Cinquentenário, a esse exercício de releitura, feita nossa, reconstrução de horizonte comum, que permita assumir como presente o que, nos patamares do passado, João significou e tornou indeclinável tarefa do futuro: reconhecer em rosto de Homem face de Deus. É professar o absoluto que cada pessoa é para cada outra pessoa: palavras outras, mais universalmente pronunciáveis, porventura, no exercício de releitura em comum a que nos chama, das origens, João. A este exercício não nos podemos furtar, sob pena de estarmos a faltar, à sucessão das gerações, com o contributo necessário da geração que somos, confrontada com o ápice ainda provisório e já inaudito do potencial da obra das próprias mãos. Esta profissão de fé e humanidade, adivinhável como condição de possibilidade do milénio, espera-nos. Espera-nos e há-de encontrar-nos, por razões acrescidas a nós porque


Laura Castro E s c o l a d a s A r t e s U n i v e r s i d a d e C a t ó l i c a P o r t u g u e s a

A História da Re-capitação de São João Baptista na Cidade do Porto Todos temos consciência da importância que as exposições de obras de arte têm na actualidade. Desde que a exposição de arte surgiu como fenómeno público – e esta é uma história que terá pouco mais de 200 anos – que ela se tornou no meio mais importante de divulgação artística. À medida que se diversificaram e aperfeiçoaram os recursos da exposição, tendo em conta os fins e o público a que se destina, e à medida que a investigação histórica se interessou por este objecto como fenómeno cultural importantíssimo que é, percebeu-se também que a exposição não se limita a ser um simples meio de divulgação, mas que é, ela própria, um campo de investigação e de construção da história da arte. Este entendimento encontra expressão literal nos acontecimentos que rodearam a Exposição Iconográfica de S. João Baptista integrada no projecto Lugares Altos, Olhares, promovido para celebrar o cinquentenário do Hospital de S. João, no Porto. A ideia era trazer ao espaço do hospital, pouco habituado às obras de arte, um conjunto de peças que ilustrassem o culto a S. João Baptista no norte do país. Encontrou, assim, abrigo na Capela do Hospital de S. João um pequeno conjunto de imagens oriundas das dioceses de Porto, Braga, Lamego 14 são joão | lugares altos, olhares

e Bragança-Miranda, mas significativo dos modelos que a representação de S. João Baptista seguiu no quadro da história da arte. No âmbito dos textos que nesta publicação se encontram, a este cabe narrar uma das descobertas que a presente exposição motivou e que vem confirmar o que, no início do texto, se referia sobre o papel hoje cometido a estas iniciativas – o de contribuir para a releitura e a reescrita da história. A selecção das peças a mostrar levou-nos ao Museu de Arte Sacra e Arqueologia / Seminário Maior do Porto onde obtivemos uma revelação que se afigurava tão surpreendente quanto plena de promessas que viriam a cumprir-se. Nesse museu, segundo indicação de Monsenhor Manuel da Costa Mota encontrava-se um fragmento de uma escultura em pedra, mais concretamente, a cabeça de um S. João Baptista. Essa cabeça teria pertencido a uma imagem cujo corpo, segundo o mesmo relato, se encontrava nos jardins da Casa Tait, junto do alpendre de um edifício que servira de cocheira à antiga casa, hoje desactivada da sua função doméstica e integrada na sede do Departamento de Museus e Património Cultural da Câmara Municipal

do Porto1. Esta narração inesperada viria a completar-se com os factos que teriam motivado a separação de cabeça e corpo, bem diferentes daqueles que, na história sagrada, haviam levado à degolação de S. João Baptista. Desconhecendo-se, em rigor, a proveniência da escultura, permanecendo o seu autor no anonimato e sendo a sua datação apenas aproximada, sabe-se, no entanto, que ela esteve na Torre da Calçada de D. Pedro de Pitões, junto à Sé do Porto, e que, na segunda metade da década de 70, no quadro da agitação popular que então se viveu, ela se encontrou no meio de uma turbulência que provocaria a sua fragmentação. Recolhida a cabeça por iniciativa do Seminário Maior, o corpo viria a ser recolhido, mais tarde, pelos serviços do Património Cultural da cidade do Porto e depositado nos jardins da Casa Tait. Assim permaneceram os restos pétreos de S. João Baptista no que parecia uma separação irremediável. Três décadas depois o pretexto de uma exposição trouxe ao conhecimento dos seus mentores e intervenientes a existência da escultura e das condições em estava, gerando a oportunidade certa para a devolver à cidade. No entanto, da ideia inicial da simples exposição, cedo se passou à hipótese de a escultura poder regressar


A hierofania revela, na imensidão caótica de toda extensão espacial, um ponto fixo, central e, portanto, cósmico, que configura a ordem do real. Por isso, quando se consagra um determinado lugar, repete-se a cosmogonia, aquela vitória primordial do cosmos contra o caos (Chaoskampf). Aí, o espaço sagrado adquire a função de Axis mundi 16. É, pois, na categoria de Axis mundi que a montanha adquire um lugar peculiar no contexto cósmico. Há, na mentalidade mais antiga, a concepção cósmica distribuída em três níveis: Terra, Céu e regiões inferiores, que se comunicam através deste eixo do mundo, «que liga e ao mesmo tempo sustenta o Céu e a Terra, e cuja base se encontra cravada no mundo de baixo (o que se chama “Infernos”). Tal coluna cósmica só pode situar-se no próprio centro do Universo, porque a totalidade do mundo habitável estende-se à volta dela»17. A montanha é, no conjunto de toda a configuração geográfica, o espaço natural privilegiado da comunicação entre o Céu e a Terra. Por isso, em quase todas as religiões encontramos montanhas sagradas e, mesmo no Cristianismo, que veremos ser radicalmente diferente, os santuários encontram-se não raro em lugares altos. Na literatura veterotestamentária, podemos ver como as montanhas são consideradas sagradas, lugares privilegiados do encontro com Deus. Na verdade, também o povo bíblico se serviu do simbolismo que a montanha encerra como de lugar especial da manifestação divina. Uma e outra vez, é a própria configuração geográfica daquele espaço, de montes e colinas, que outorga ao Povo de Israel essa visão


simbólica. Não nos admira, por isso, que o tema da montanha abunde, nas páginas da Escritura, principalmente como marcador das grandes fases da História de Salvação que Israel vive. Assim, exemplos como o sacrifício de Isaac18, a hierofania a Moisés no monte Horeb19, o monte Sinai20 ou a oração de Elias no monte Carmelo21 e muitos outros manifestam esta consciência religiosa de proximidade com Deus, que o homem bíblico sente nos lugares altos22. 3. Do lugar alto para a consciência cristã... No cristianismo quase tudo se altera; ou melhor, transfigura. A montanha perde o seu valor quasisagrado: «Jesus declarou-lhe: “Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade»23. No Cristianismo, a verdadeira montanha sagrada é Jesus Cristo. Ele funda um novo tempo que transfigura as relações entre Deus e os homens. Uma questão fundamental, à hora de reflectir sobre o Cristianismo, é a Incarnação. Do artigo de Fé24, no qual afirmamos o fazer-se (factus est) da Palavra (Verbum) em carne (caro), três elementos se implicam mutuamente – Verbum, Caro, Factum – porque constitutivos de uma mesma realidade pessoal: Jesus de Nazareth. Para nós, distanciados cronologicamente da sua vida terrestre, resta-nos somente a possibilidade do factum, uma vez que


o «ponto de partida para a compreensão de Jesus Cristo é o factum, quer dizer, o acontecimento, o dado do Filho de Deus que se fez homem. Dado que uma fé autenticamente cristã (portanto, uma teologia autenticamente cristã) se justifica ou se anula, se tem ou não como conteúdo próprio a incarnação do eterno Logos, quando falamos de incarnação devemos fazê-lo a partir do factum, isto é, do acontecimento de Jesus Cristo»25.

piedoso israelita27 – essa, de subir a Jerusalém –, mas da ascensão existencial que cobre uma época significativa da vida de Jesus28. Pelo Primeiro Testamento, o qual nos diz que Deus em pessoa «estabeleceu o seu rei em Sião, sua montanha santa»29, no mesmo lugar em que Abraão sacrificou o seu filho, a esta santa montanha, tão rica de recordações divinas, sabe-se que o israelita deve subir30, cantando os «cânticos de subidas»31, e voltar a ele sem cessar32, com a esperança de permanecer e morar a ali para sempre com o Senhor33.

Pela Incarnação do Verbo, tudo foi transfigurado. Toda a realidade é, para o Cristianismo, ponte para a eternidade, criando ruptura com o temporal e sendo ao mesmo tempo temporal. Toda a realidade, ou melhor, todo o mundo, que é realidade acrescida de sentido, é, para a mundividência cristã, um processo espáciotemporal orientado para um fim como futuro. Neste sentido, a matéria pode exprimir a realidade divina; por isso, ainda que num outro plano, podemos dizer com Boff que «o futuro do mundo consiste em ele poder revelar Deus de forma perfeita e transparente. Assim como os sons bucais podem exprimir uma voz humana e a voz humana os sentimentos mais profundos e as músicas mais sublimes, de forma semelhante acontece com a matéria: ela, quando atingir a sua meta, irá exprimir Deus na medida máxima que cada ser material comporta dentro da sua estrutura material»26. Por tudo, no Cristianismo, já não é a montanha o lugar do encontro, mas sim uma pessoa.

Para a geração dos cristiformes, subir à montanha do Senhor é ascender ao mais alto lugar da relacionalidade e querer permanecer, como outrora no Tabor. Desta forma, o lugar cósmico da montanha aparece no Cristianismo como símbolo do lugar pessoal que significa a construção de uma relação. Por relação ao Cosmos, o ser humano está fundamentalmente chamado a habitar, com tudo que isso implica: trabalhar, transformar e transfigurar uma realidade que seja mais que matéria orgânica, dando-lhe sentido e tecendo-lhe uma trama histórica. De acordo com a pertinente reflexão de Heidegger34, a profunda relação etimológica entre construir e habitar, do alemão bauen, permite-nos esta ousada, mas interessante, perspectiva de um habitar que é também construir. É, pois, na medida em que habita o Cosmos, cultivando-o e transformando com o trabalho, que o homem se faz homem.

Contudo, a própria vida de Jesus está marcada pelo elemento da montanha. Para Lucas, a subida para Jerusalém representa o caminho de glória para a Cruz. Não se trata somente da peregrinação que faz o

O ser humano está, por isso, desde a sua constituição original feito para habitar e, dessa forma, ser habitado: feito para habitar o Cosmos, sua verdadeira oikos, que lhe permite situar-se, sentir-se em casa, ter uma casa; e

feito, desde a mundividência cristã, para ser habitado por Aquele que, desde sempre, é habitante do Cosmos, porque seu princípio. Assim, o homem cria habitando, tal como Deus, por quem foi criado à imagem e semelhança. O ser humano cria, habitando o mundo. E desde aqui, o lugar alto não é senão símbolo dessoutro que se constitui em relacionalidade. 4. Do lugar alto como profecia para o tempo presente... Encontramos em toda a consciência religiosa uma clara associação do numinoso às realidades celestes – O Sagrado Celeste. A própria prece cristã do Pai-nosso é expressão dessa consciência, pois são seus elementos a transcendência, a força, a sacralidade, o infinito/ altura e o brilho: «Sem precisarmos sequer de atentar na efabulação mítica, o Céu revela directamente a sua transcendência, a sua força e a sua sacralidade. A simples contemplação da abóbada celeste provoca, na consciência primitiva uma experiência religiosa»35. No alto estão a força e a imutabilidade36. Na Grécia Antiga, a altura dos deuses, primeiro de Uranos, cujo culto praticamente se esfumou, e depois de Zeus, era um claro sinal do seu poder, até mesmo criador37. Na Península Itálica, idêntica consciência religiosa se afirmava: Júpiter era adorado nos lugares elevados, pois a montanha funcionava como que uma sinfonia simbólica: elevada, próxima do Céu e lugar onde as nuvens – qual manifestação divina! –, geravam a trovoada. Por seu turno, entre os celtas conhecia-se Taranis38, um deus do céu impetuoso.

21 são joão | lugares altos, olhares


Do ímpeto e das forças numinosas do alto não coube a João, mas sim a Tiago de Zebedeu, o cognome de filho do Trovão, Boanerges. Deste noroeste peninsular, Gallaecia chuvosa e montanhosa, nos vem a tradição do cadáver do filius Tronitui que à costa deu. E deu-o, muito provavelmente, não por via marítima e fáctica, mas por via da inculturação cristã: «o cristianismo encontrou na Península uma tradição religiosa secular que era a peregrinação pagã ao Fim da Terra, o lugar em que o Sol morria. E o Sol era Júpiter, o soberano do Céu e da Terra e dos seus quatro elementos – o Tempo, o Pó, o Trovão e o Raio. Júpiter tinha exactamente, entre outros, o nome de Fulgurator (o que lança o relâmpago) e o de Tonitrualis (o que lança o trovão). Do Tonitrualis ao Filius tonitrui do Evangelho (Filho do Trovão: Mc 3, 17) o salto era nenhum, e o contexto religioso o mesmo. Nem se pense abusivo aplicar preferentemente a Tiago o epíteto de 'filho do Trovão'»39. Portanto, o paganismo, por mais que pareça vencido ou reprimido, ressurge de diversos modos. E ressurge nos lugares onde, desde sempre, o sagrado foi acessível através de uma hierofania. Junto à capela em que os peregrinos oravam a Maria ou a um santo, se encontrava uma fonte, uma árvore ou uma pedra que antes tinha sido objecto de culto pagão40. A celebração solstícia joanina não é senão mais uma das sínteses da inculturação, como a do próprio nascimento de Cristo no solstício de inverno. E é precisamente essa síntese que permite, da primitiva intuição cósmica da divindade, afirmar o humano naquilo que o diferencia do entorno cósmico. Contudo, viver no tempo pode comportar uma dimensão religiosa nem por isso evidente, porque a proximidade do divino não aparece à 22 são joão | lugares altos, olhares

tona do quotidiano. Segundo Luís Maldonado, é a dessacralização da natureza, a desvalorização da actividade cultual fundada na sacralidade cósmica que dá lugar à profecia da justiça e da transformação pessoal, individual e comunitária41. João Baptista entra, nesta reflexão, como anunciador profético de um lugar alto da existência humana. Não anuncia o que não sabe e, portanto, não se coloca na frente dos profetas das previsões nem das futurologias mágicas a que o mundo antigo, à excepção de Israel, se havia habituado. Não fala do futuro, mas do presente. Na linha dos grandes sábios de Israel, João Baptista coloca-se, ainda que provavelmente de forma inconsciente, ao serviço das pessoas. Não é o filho do trovão, mas a sua presença entre os seus contemporâneos constitui-se, paulatinamente, em ameaça. Ameaça trovejante pela linguagem que dos evangelhos nos chega42. E ameaça cortante, que ironicamente lhe custou a vida num prato43. É sintomático que João Baptista seja, por muitos do seu tempo, associado ao grande nome dos primórdios da profecia em Israel: Elias44. Ele é a figura arquetípica do profeta, da qual João participa, pelo menos para a consciência dos seus contemporâneos, consciência essa expectante da sua volta45. Não diferentemente do ambiente profético do Próximo Oriente Antigo, também a figura de João Baptista aparece rodeada de algum mistério. E essa aura misteriosa deve-se fundamentalmente à função social e religiosa46 que os profetas cumprem no grupo: a mediação entre a palavra divina e a resposta humana47.

Não se tratava, portanto, de presidir a discursos futurológicos, mas sim de colocar diante dos olhos do povo a verdade da mensagem para o tempo presente. Não obstante o carácter de antevisão que as suas palavras por vezes assumiam – e diga-se antevisão, não previsão –, os profetas eram movidos pela consciência clarividente da presença de Deus no meio da comunidade crente e, necessariamente, das consequências práticas para o correr dos dias. Quando toda a relação transcendental e amorosa já definhava e as memórias de uma trama histórica de diálogo com Deus já se olvidavam, era então que o profeta entrava em acção: colocava ante os olhos de todos (e, por isso, uma e outra vez, antevisão, não previsão!), num presente muito concreto, a verdade da mensagem. Também João Baptista coloca diante dos olhos de todos a verdade da vida humana. Para ele, a ordem deste mundo havia já terminado. Um novo tempo assumia o velho. Por isso, pôde dizer Xabier Pikaza, que, ao contrário de Jesus, mensageiro de vida, João Baptista era um profeta de morte48. E de morte era também a celebração solstícia em ambiente pagão. Esta celebração solstícia era nocturna, como nocturna é da inculturação cristã. E assim o diz Arnaldo Saraiva: «o S. João é também uma festa nocturna, como o Natal com que estabelece claras relações: o dia 24, meio ano depois, as cascatas que lembram presépios, as fogueiras... – mas não as comezainas, a missa, o espaço fechado, ou a família, substituída pela comunidade. Trata-se de afirmar ou confirmar noutro tempo (mais tardio) e de outro modo (mais “natural”, mais profano) a energia da natureza (terráquea, cosmológica) e da pessoa humana;


energia que, misteriosa, oculta, instintiva, inconsciente, pede não obstante a renovação, a fecundação, a fecundidade, e seus encantos, magias e exaltações»49. É essa espera ansiosa da vigília nocturna, outrora do deus Sol, que sublinha, nas entrelinhas do tempo e da vida, a verdade da mensagem: há vida, apesar da morte. Mas também há morte, apesar da vida. A consciência da mortalidade é humanidade em acto. Na verdade, «na gigantesca história da evolução, com quinze mil milhões anos, o sinal inequívoco da presença do homem no mundo são os rituais funerários. O surgimento dos primeiros túmulos e dos rituais funerários é o sinal característico e decisivo da data do aparecimento do homem: pela primeira vez está no tempo alguém que é consciência do tempo e da mortalidade e que, em simultâneo, recusa ser definitivamente aniquilado. Já não estamos na presença de “algo”, mas de “alguém”»50. Pode dizer-se que a consciência da morte está presente em toda a história consciente da humanidade. Desde que a consciência tomou lugar, a morte tornou-se algo de inevitavelmente pensável. No seu caminhar histórico, o ser humano constata naturalmente duas realidades: nem sempre existiu e não existirá para sempre. Desta consciência da contingência nasce o questionar humano, que pergunta de onde se vem e porque se existe. Mas é a morte que coloca o questionar mais agudo sobre o para onde se vai, o para quê viver e o que acontecerá depois. Ora, este desejo de sentido que se esconde por detrás deste questionar significa desejo de «inteligibilidade e valor»51 da vida.

No seu belíssimo conto The Dead, James Joyce faz um passeio literário pela questão da morte. Quase no fim, Gabriel, depois de tomar conhecimento, pela boca da sua própria esposa, da história de um homem que anos antes havia desafiado a morte por amor, ele mesmo se coloca a questão de todo o seu viver, de toda a sua história pessoal, exclamando em forma de suspiro: «é melhor passar audaz ao outro mundo no apogeu de uma paixão que definhar funestamente pela vida»52. Com efeito, a morte é, indubitavelmente, algo que afecta o homem todo53. Por isso, é um problema hermenêutico-existencial: «A morte reveste a forma mais clara e aguda de situação e experiência-limite, enquanto nela emerge o enigma da existência humana, em toda a acuidade e urgência, quer a nível de experiência vivida (instinctu cordis), quer de consciência reflexa (recogitanti homini)»54. Por isso, pôde Agostinho de Hipona dizer que «incerta omnia: sola mors certa»55. Desde o início da vida, o ser humano encontra-se num processo mortal. Por isso, pôde dizer Heidegger que o ser humano é um Sein zum Tode. É nesse sentido que Karl Rahner considera importante não olhar para a morte como um instante, mas sim como um processo que se alarga pela vida toda, isto é, uma prolixitas mortis56. Assim, é «preciso assumir seriamente a prolixitas mortis dentro da própria vida, o que significa que, ao longo de toda a vida, se dá uma confrontação permanente e iniludível, ainda que irreflectida, da liberdade com a morte»57. Este confronto inevitável acontece em todas as experiências premonitórias da morte, como a doença, o malogro e a dor. Nesse enfrentar premonitoriamente a morte, todo o ser humano está em causa.

Ora, a unidade do ser humano como pessoa, na diversidade de todas as suas dimensões e da trama temporal em que se encontra inserido, constituem a morte em interpelação última para a definitividade existencial e para um compromisso total da liberdade. Por isso, ela não só conduz à consumação da existência como projecto, como também à vivência da sua totalidade fáctica, que é a morte total. Mas são essas experiências premonitórias, da doença e do malogro, que outorgam ao ser humano essa consciência de si. São, na verdade, eixos fundamentais da vida humana, entroncamentos que se constituem em nós existenciais (Knotenpunkte)58. É esta a realidade que do mais alto lugar joanino da Invicta se anuncia profeticamente no tempo presente, como quem coloca ante os seus olhos uma realidade em processo de ocultação: a morte e a doença. Solstício e João, paganismo e cristianismo entrecruzam-se, assim, na trama histórica do agora, re-velando o véu entretanto imposto à cosmicidade do fenómeno humano, que é de mortalidade e definhamento. Se a potencialidade do humano se actualiza, no todo do processo evolutivo, com a auto-consciência da contingência existencial, ou seja, se o homem devém humano por se saber mortal, então a humanidade habitará o lugar hospitalar tanto mais quanto mais este se deixar moldar pela altitude dos nós existenciais que está chamado a acolher, e nos quais a vida devém particularmente montanhosa.

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Sabem lá estes getas o que é esta noite?! S. João da minha terra, S. João da minha mocidade! Ricardo Jorge, C a n h e n h o d e u m V a g a m u n d o , 1 9 1 9


Helder Pacheco

Do São João do Porto Festas havia-as, muitas, na cidade, dos Santos de Junho ao resto do ano, afirmando a vivência de um território repartido por bairros, lugares, largos, ruas e vielas, como locais de animação participada. Uma política cultural democrática não deveria então apoiar, acarinhar, incentivar a continuidade destas festas quase familiares, que faziam do Burgo um corpo social coerente e humanizado por uma causa comum? Ou não será isto cultura? Creio que para alguns não é. E aí reside a razão por que a morte de certas tradições de evidente alcance social – como as festas – é coisa de pouca monta. Vulgaridade. Sem relevância para a modernidade que – como dizia o outro - torna a cidade cada vez mais cosmopolita. Todavia, além dos festejos são-joaneiros, muitos outros tinham a ver com iniciativas que marcavam o carácter social e a identidade das comunidades que cimentavam a coesão da Urbe, reunidas em torno da sua igreja paroquial ou de outras marcas e elementos simbólicos (como capelas, nichos de santos e até cruzeiros) que davam conteúdo às manifestações da religiosidade popular. E, queiram ou não, gostem ou não os arautos

da pós-modernidade, tais manifestações constituíam formas coerentes de participação das populações na vida colectiva, de amor aos lugares, de procura de certa margem de evasão e de sonho e, para alguns, de determinado sentido da transcendência do ramerrão quotidiano, que não tenho dúvida em aceitar como Fé. Ou alegria. Ou felicidade. Ou necessidade da folia e do divertimento. Ou, no sentido mais profundo, de descontinuidade com a realidade habitual. Tais manifestações expressavam a vitalidade das comunidades que faziam da cidade uma festa repartida. Representavam, também, nas décadas de 1930 a 50 e até 60, a força do associativismo que congregava os moradores dos bairros em espécie de projecto comum para fazerem a festa (S. João e outras). Tudo isto morreu, ou quase. Tragadas na voragem de uma suburbanização coerciva e centrifugadas da cidade por políticas incompetentes, injustas e talvez mesmo socialmente criminosas, as populações, na maioria dos lugares, desligaram-se das referências e afundaram-se no mais soez conformismo e apatia cívicos. Basta ver a quase total ausência de comissões organizadas pelos

vizinhos onde actualmente existem ruínas, ou silêncio, desolação, abandono e isolamento. Em alguns casos, já nem sequer existe desertificação, porque, pura e simplesmente, os lugares foram varridos do mapa da cidade. Basta ver o rol do que não existe para compreendermos o desaparecimento de certa forma de ser portuense dissolvida num lento mas contínuo processo de desarrumação cívica. E, no entanto, quem fazia as festas eram as comissões da Fontinha (que saudades!), do Mercado do Peixe (ainda hoje os vendedores do Bolhão de dentro vão mantendo este costume), da Corujeira, da Rua Chã (um deserto de electrodomésticos), da Bainharia, de Ciríaco Cardoso, das Guelas de Pau (nada resta), do Covelo, da Rua da Glória (outra saudade!), das Carvalheiras (ruínas, ruínas), da Rua da Piedade (mais ruínas), do Ribeiro de Campanhã e até – céus – Rua de Santa Catarina, etc., etc. E é melhor ficar por aqui, para não acabarmos com o coração partido e a alma (tripeira) moribunda. Para honra deles e vergonha de muitos que abdicaram, salvam-se, neste panorama, os moradores de Miragaia (e da sua Junta), Fontainhas e pouco mais... 25 são joão | lugares altos, olhares


Mas o mais saliente é a diversidade de locais onde a festa se realizava. À cabeça, as Fontainhas «e ruas imediatas, onde tocarão 3 bandas de música». E, depois, a Fontinha. Que Porto e que humanidade vibrante ali cimentavam o espírito do lugar, «com cascata movimentada, concertos musicais, mastro de cocagne, fogo de bonecos, lançamento de aeróstatos, entre os quais o dirigível de 7 metros “Avante pela Fontinha”!, etc.» Havia festa de arromba nas ruas Santos Pousada, «iluminação à moda do Minho, fogo do ar e música», e de Gomes Leal (com cascata «construída hábil e pacientemente pelo Sr. Eng. Luís Peixoto da Silva e Manuel Silva»). E também na Travessa das Musas; Azevedo; Santo Isidro; Guelas de Pau; Bairro Alegre; Mousinho de Albuquerque; Corujeira; Ilha Velha; Ramaldense F.C.; S. Sebastião e Corpo da Guarda; Travessa das Águas; Lugar dos Moinhos (a Gomes Freire), etc. No Campo Pequeno «esteve grande multidão (...) foram muito apreciadas as iluminações e o fogo». No Clube dos Fenianos, no Salão do Corpo da Guarda e noutros sítios. Isto para o povo. Para a média e alta burguesias, havia no Palácio, a festa paga – a 5$00, sem lugar marcado, e 7$50 com. A festa «da distinta e 26 são joão | lugares altos, olhares

enorme concorrência, reunindo as melhores famílias do Porto e do Norte, que se dão de rendez-vous na Avenida das Tílias». Eis a mais profunda dimensão cívica do S. João do Porto: era de toda a cidade, organizado e repartido por mil e uma comunidades. Nos territórios afectivos com que cada família se identificava. Bairrismo? Sim, e depois? Só os zoilos do pensamento único consideram a íntima ligação ao bairro ultrapassada, quando significava, no fundo, o cimento cívico da urbe, o amor aos sítios, o esplendor da vida solidária nos lugares e colectividades. O S. João era, pois, no verdadeiro sentido do seu significado, a festa na cidade e através dela. Através de sítios outrora estuantes de animação e em que agora existe apenas o vazio, fazia-se a festa, numa cidade que deveria ter continuado a ser folgazã, altaneira, orgulhosa de si. Tripeiríssima. E, se me disserem que festa assim, diversificada, compartilhada, tradicional, do nosso tempo e de todo o tempo, se tornou impossível porque tudo mudou, respondo:

mudou o que foi destruído e subvertido por uma civilização de má fé, medíocre e normalizadora. Porque onde o progresso e a cultura tecem o quotidiano das cidades e os cidadãos continuam integrando uma vivência democrática, existem, grandiosas e exaltantes, as Fallas, de Valência, o Santo Isidro, em Madrid, as festas da padroeira de Liège, o Palio, de Siena e muitas mais, Europa fora. Afirmar o S. João no que ele sempre foi – a Festa Grande – não seria outra maneira, sagaz, inovadora, perseverante, de, internacionalizando-a, tornar a cidade também competitiva?


D. Manuel Clemente B i s p o d o P o r t o

Hospital de São João ou João feito Hospital Talvez não encontremos melhor nome para os dias de hoje, com a urgência que trazem. João (= “o Senhor faz graça”) significa um dom de Deus; Baptista chamaramno porque baptizava, dando a esse gesto o sentido purificador que todo o recomeço requer. Como o requer a nossa cidade, também ela ansiosa de recomeço. Ainda mais do que o seu centro desabitado, ainda mais do que os seus “bairros” indefinidos, ainda mais do que a sua população envelhecida, somos todos nós que almejamos uma manhã diferente e inaugural, onde a sociedade renasça na limpidez dos olhares, na simplicidade dos gestos e na disponibilidade das almas. Almejamos sim. E por isso mesmo, nos passos apressados em que andamos, ou nos passos lentíssimos que arrastamos, não deixamos de dirigir um olhar para quem passa também, depressa ou devagar. Olhares de cidade, que ainda buscam, ainda esperam. Buscam e esperam algum “dom de Deus”, a cujo acolhimento se abriguem, a cujo incentivo despertem e a cujo brilho recomecem. Assim agora mesmo, há dois milénios já. O Evangelista escreve “naqueles dias”, maneira de indicar uma altura e de nos incluir nela, pois não é vaga, mas aberta: “Naqueles dias, apareceu João, o Baptista, a pregar no

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deserto da Judeia. Dizia: 'Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu'” (Mt. 3, 1-2). Temos então o deserto, temos aí o apelo de João. Necessariamente aí: no deserto nascera o povo bíblico, com Abraão e os seus; através do deserto renascera, com Moisés, a caminho da terra; no deserto nasceria agora a última novidade. Quem lá anda ou lá vai – ao deserto – só pode levar o mínimo, para que caiba o máximo. Ou levar o máximo de expectativa, para ganhar o único necessário. Como João, que assim fizera também, tornando-se na expectativa que agora alargava ao povo: “crescia, o seu espírito robustecia-se, e vivia em lugares desertos, até ao dia da sua apresentação a Israel” (Lc 1, 80). A expectativa andava há muito nos corações. Em torno do “Reino” anunciado pelas profecias se fixavam os olhos da alma, enquanto não o divisassem os do corpo. Seria talvez ostensivo, poderoso e alargado, como o de David ou maior ainda… Seria certamente definitivo e herança única dos justos… Seria o triunfo, o descanso e a paz... Seria a abundância, a recompensa e a saúde… Mas quando João aparece como graça e dom de Deus, adianta uma condição, que implica empenhamento sério e decisão total. Exactamente como acontecera com ele,

a quem bastavam o deserto, uma pele de camelo, um cinto de couro, além de gafanhotos e mel silvestre por alimento… Tudo “simbólico” decerto, pois se veste e alimenta à maneira dos antigos homens de Deus, qual novo Elias. Mas não menos real e concreto, pois a sua figura impressionou vivamente os contemporâneos, como o dizem fontes bíblicas e extra-bíblicas. Na nossa cidade, os sinais voltam a ser concretos, tanto em quem procura como em quem oferece. E quem se oferece como um dom de Deus, guarda de Deus a simplicidade total e a fortaleza sóbria. Vive no ser, sem se distrair em teres e haveres. Por isso “aparece”, e não meramente “parece”. Quando encontramos alguém assim encontramo-nos também a nós, no que temos de essencial como procura, no que temos de absoluto como esperança. João insistia: “Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu”. Pois bem: o Reino não seria território, mas convivência. O acesso chamava-se conversão, mudança radical de mentalidade e critério, desarme completo diante d'Aquele que João reconhecia e apontava: Jesus! Comemorando o Hospital de São João, reconhecemos João no Hospital. Aí mesmo, onde os olhares mais


interrogam e demandam. Aí mesmo, onde por vezes demoram a abrir. Aí mesmo, deserto de solidões que se podem tornar em recomeços. Aí mesmo, onde a cidade não tem pretexto para não o ser, porque só podemos ser com os outros, pelos outros e para os outros. Precisamente aí, onde não faltam Joões nem Joanas, autenticamente graças e dons de Deus, pelos gestos e pelas vozes, conjugados ambos. Definitivamente a partir daí, porque por eles e além deles se define a figura do Filho muito amado, no qual o Pai põe o seu encanto (cf. Mt 3, 17). Um pouco mais e com Ele nos identificamos todos, recomeçando a cidade. Graças a Deus!


Mário Cláudio

Iter Praecursoris

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vi fuit homo missus a Deo cui nomen erat Iohannes vii hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum vii non erat ille lux sed ut testimonium perhiberet de lumine

(Joh 1:6-8 VUL)

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A Apareceu um homem, enviado por Deus, cujo nome era João. Este veio servir de testemunha para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio dar testemunho da luz.

João, I, 6-8

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1 O Anjo fala no templo, rompe a semente do homem. João. Mora o Espírito no lugar da inocência: nuvem de incenso, língua represa, breve vagido. Oitavo dia, antiga aliança. Iohannes. Eis o que profetiza, o que rasga o caminho.

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ii O júbilo agita a linfa, empolga o menino. Ventre. Lenta caminha a que traz a eternidade: paz da escolhida, fímbria da túnica que toca o pó, sinal da estrela. Meses contados, meses ainda. Venter. Eis a carne onde a carne floresce, a que nos abre a luz.

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111 A voz abate a árvore, lança às chamas a que não dá fruto. Machado. Sermão erguido, rio deitado: arco-íris da tarde, respiração de libélulas, vento do Norte. Esperança do infinito amanhã. Securis. Eis o que clama, o que se cala na sombra.

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1v Tocam as raízes do chão, os vidros do ar. Sandálias. Como desprendê-las no conhecimento dos dedos: fio de mel, voo de gafanhoto, lã de ovelha. Areias do deserto, outros passos. Calceamenti. Eis o que vem de sempre, o que nunca nos deixará.

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v Suspendem-se as asas, aquieta-se no azul o coração. Pomba. Desce a água pelos cabelos: canto de espuma, seixo que rola, labareda de almas. Coro das nuvens, verbo dos tempos. Columba. Eis o que habita, o que principia sem fim.

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vi Tange nos mármores do átrio, dança da amante da morte. Tamborim. Ouve-o do cárcere o anunciador: cama do ódio, artelhos que giram, sangue da espada. Negro festim, noite da noite. Tympaniolum. Eis o que se muda em cordeiro, o que sobe ao altar.

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vii O sangue tinge os cabelos, molha os beiços entreabertos. Cabeça. Cala-se a palavra de fogo: mordedura da abelha, cintilante versículo, voz da claridade. Beijo da serpente, chaga redentora. Caput. Eis o que escuta, o que se eterniza.

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viii O Anjo canta nos céus, esboroa-se o coração do mensageiro. João. Volta o Espírito ao princípio sem fim: ar rarefeito, perpétuo balbuceio, sopro infinito. Sempre de sempre, eterna união. Iohannes. Eis o que se demora, o que permanece.

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B Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor. Ap. V, 12

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xii dicentium voce magna dignus est agnus qui occisus est accipere virtutem et divinitatem et sapientiam et fortitudinem et honorem et gloriam et benedictionem (Ap 5:12 VUL)

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Sテグ JOテグ lugares altos


Da Capela S達o Jo達o do Carvalhinho, Burg達es (Santo Tirso)


Da Igreja Matriz, São João da Corveira (Valpaços)


Do Eremitério de São João da Fraga, Pitões das Júnias (Montalegre)


Do mistério do silêncio Durmo à sombra do tempo. Ausentei-me da vida algumas horas. Moro agora onde moras, Serenidade! Silêncio pétreo com luar em cima, E um céu de seda, lá da eternidade, A olhar um corpo que se reanima. Miguel Torga

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Do mistério da água Suor, rio, doçura. (No princípio era o homem...) De cachão em cachão, O mosto vai correndo No seu leito de pedra. Correndo e reflectindo A bifronte paisagem marginal. Correndo como corre Um doirado caudal de sofrimento. Correndo sem saber Se avança ou se recua. Correndo sem correr, O desespero nunca desagua... Miguel Torga

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Do Alto de S達o Jo達o das Arribas, Aldeia Nova (Miranda do Douro)


Do Alto de São Salvador do Mundo, São João da Pesqueira (São João da Pesqueira) 55 são joão | lugares altos, olhares


De frente para as Fontainhas, Bonfim (Porto)


Do Terraço, Teatro Nacional São João (Porto) 58 são joão | lugares altos, olhares


Do Telhado da Igreja, S達o Jo達o Novo (Porto) 61 s達o jo達o | lugares altos, olhares


Do Largo da Igreja de S達o Jo達o, Foz do Douro (Porto)


Do Mosteiro de São João d’Arga, Arga de São João (Caminha)


Do mistério do sangue (e da hospitalidade) Ergo os braços ao céu, desesperado. (Lama rasteira, nem ao menos posso Ter a nobreza altiva dos penedos! Em vez de lanças de granito, dedos De carne e osso Num leque de impotência!...) Com a corda ao pescoço, Peço clemência A quem, a que tirano? A nenhum Deus que veja Ou anteveja Peço clemência, só por ser humano. Miguel Torga 65 são joão | lugares altos, olhares


Do Mosteiro de São João de Tarouca, São João de Tarouca (Tarouca) 66 são joão | lugares altos, olhares


Do Terraço, Hospital de São João (Porto) 69 são joão | lugares altos, olhares


SÃO JOÃO olhares

Dos profetas não se sabe se o que preside à sua existência é o mistério ou o ministério. Se, na antiguidade, o mistério significava não mais que uma cerimónia religiosa secreta, hoje cabe a toda a realidade que vive do segredo. O percurso de João Baptista vive de um entrecruzar existencial do mistério no ministério ou ao contrário. E vive de uma relação paradoxal do futuro com o princípio, do já conhecido e do ainda porvir, do silêncio com a palavra, da água com o sangue...

Mistério – do grego myô (fechar), vem-nos o seu mais profundo, e quiçá antigo, sentido: fechar-se, estar fechado, ter a boca ou os olhos fechados são significados que nos dizem da realidade velada que constitui toda vida de um profeta. Coberta com um véu para os outros, porque incompreensível, e indecifrável para o próprio, porque para além do evidente. Silêncio: condição existencial de todo aquele que é habitado pelo mistério – a humanidade! Por isso,

silenciosa é a realidade da qual vive o serviço profético. E serviço (ministerium), porque de um trabalho ao lado dos outros se trata, de um acompanhar (ypourgía) o mistério do silêncio que a todo o humano cabe viver. E esse silêncio impõe-se nos compassos do tempo, do passado e do presente por relação ao futuro (futurum) – etimologicamente do particípio futuro do verbo esse latino: a haver de ser... Futuro: quem pensas que será este menino? 71 são joão | lugares altos, olhares


Do Mi(ni)stério do futuro Quid putas puer iste erit? ( Q u e m v i r á a s e r e s t e m e n i n o ? ) Lc 1, 66

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M u s e u d e A r t e S a c r a e A r q u e o l o g i a , S e m i n á r i o M a i o r d o P o r t o N o s s a S e n h o r a c o m o M e n i n o e S ã o J o ã o , S é c . X V I I ( J o s é J o ã o S i l v a ) Ó l e o s / t e l a ( 6 2 x 5 3 c m )

M u s e u d e A r t e S a c r a e A r q u e o l o g i a , S e m i n á r i o M a i o r d o P o r t o S a g r a d a F a m í l i a c o m S ã o J o ã o , n / d ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) Ó l e o s / c o b r e ( 4 1 , 5 x 3 4 , 5 c m )

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Do Mi(ni)stério do silêncio Puer autem crescebat et confortabatur spiritu et erat in deserto… ( E n t r e t a n t o , o m e n i n o c r e s c i a , o s e u e s p í r i t o r o b u s t e c i a s e e v i v i a n o d e s e r t o . . . ) Lc 1, 80

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I g r e j a P a r o q u i a l d e M a l t a , V i l a d o C o n d e S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X V I I I ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) T e r r a c o t a P o l i c r o m a d a ( 8 0 x 4 0 x 3 0 c m ) 75 são joão | lugares altos, olhares


Do Mi(ni)stério da Palavra e da Água Ego quidem aqua baptizo vos. Venit autem fortior me... ( E u b a p t i z o v o s e m á g u a , m a s v a i c h e g a r a l g u é m m a i s f o r t e d o q u e e u ) Lc 3, 16

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P a r ó q u i a d e S o b r a d o , V a l o n g o S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X I V ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) P e d r a d e A n ç ã ( 7 3 , 5 x 2 5 , 5 x 2 1 c m )

M u s e u d e A r t e S a c r a e A r q u e o l o g i a , S e m i n á r i o M a i o r d o P o r t o S ã o J o ã o B a p t i s t a , n . d . ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a p o l i c r o m a d a ( 6 6 x 2 8 x 1 8 c m )

I g r e j a M a t r i z d e M a c e d o d e C a v a l e i r o s S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X V I I / X V I I I ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a p o l i c r o m a d a e d o u r a d a ( 7 6 x 2 5 x 2 1 c m ) 77 são joão | lugares altos, olhares


I g r e j a P a r o q u i a l d e S . S i m ã o e S . J u d a s T a d e u , V i l a d o C o n d e S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X V I I I ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a p o l i c r o m a d a e d o u r a d a ( 9 5 x 4 1 , 5 x 3 0 c m ) 78 são joão | lugares altos, olhares

I g r e j a d e S ã o J o ã o N o v o , P o r t o S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X V I I I ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a p o l i c r o m a d a ( 1 6 0 x 6 0 x 5 0 c m )

I g r e j a P a r o q u i a l d a F o z d o D o u r o , P o r t o S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X V I I I ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a p o l i c r o m a d a ( 1 8 0 x 6 0 x 5 0 c m )


C a t e d r a l d e L a m e g o S ã o J o ã o B a p t i s t a , S é c . X V I I I ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a P o l i c r o m a d a ( 4 5 , 5 x 1 8 x 1 0 c m )

C a p e l a d o H o s p i t a l d e S ã o J o ã o S ã o J o ã o B a p t i s t a , 2 0 0 9 ( A v e l i n o L e i t e ) Ó l e o s / t e l a ( 1 , 2 0 x 8 0 c m )

I g r e j a P a r o q u i a l d e V a l o n g o , V a l o n g o B a p t i s m o d e J e s u s , S é c . X I X ( F r a n c i s c o J o s é d e R e s e n d e ) Ó l e o s / t e l a ( 2 8 4 x 2 2 0 c m ) 79 são joão | lugares altos, olhares


Do Mi(ni)stério da Sangue Da mihi, inquit, hic in disco caput Ioannis Baptistae ( D á m e , a q u i n u m p r a t o , a c a b e ç a d e J o ã o B a p t i s t a ) Mt 14, 8

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M u s e u d e A r t e S a c r a e A r q u e o l o g i a , S e m i n á r i o M a i o r d o P o r t o P r a t o c o m a c a b e ç a d e J o ã o B a p t i s t a , n / d ( A u t o r D e s c o n h e c i d o ) M a d e i r a p o l i c r o m a d a ( 5 3 x 4 4 x 6 c m )

C o o p e r a t i v a Á r v o r e C a b e ç a d e J o ã o B a p t i s t a , 1 9 9 0 ( J o s é R o d r i g u e s ) M ú l t i p l o b r o n z e p o l i d o , p a t i n a d o e m c a s t a n h o ( 5 0 x 4 5 x 1 5 c m ) 81 são joão | lugares altos, olhares


vi(d)a

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Hospital de São João | Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto

Fórum Permanente Cultura e Saúde O Processo São João - Lugares Altos, Olhares, pela força do seu próprio dinamismo e de quanto envolve e suscita, traz-nos à consciência de que o Hospital de S. João é, ele mesmo, um Lugar Alto, capaz de um olhar único sobre a realidade cultural do Tempo e, nesta, dos fenómenos humanos da saúde e da doença, da vida e da morte, do sofrimento e do sentido. Olhar único sobre estas questões existenciais indeclináveis que assume como missão oferecer ao encontro plural de olhares em que a Cultura se define. A vontade de dar continuidade a esta contribuição específica do Hospital à Cultura, na sua mais profunda função identitária, concretiza-se, agora, no horizonte dos Lugares Altos, Olhares, que referiu o Hospital à Cidade e à Região do país que serve, na parceria estabelecida entre o seu Serviço de Humanização e a Unidade de Antropologia da Saúde do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, para a criação do Fórum Permanente Cultura e Saúde, em 15 de Junho de 2009, ano Cinquentenário do HSJ.

O objectivo da criação desta parceria é a manutenção de um fórum permanente de diálogo e reflexão interdisciplinar sobre os vínculos de recíproca determinação existentes entre cultura e saúde, partindo da verificação da sua concretização na sociedade e produzindo investigação científica e reflexão crítica, essenciais para a compreensão deste fenómeno e da importância de que se reveste na contemporaneidade. A Assinatura do Protocolo de Parceria decorre nesta data, em Sessão realizada com esse fim e em que várias figuras de diversos campos do saber e da sociedade abordarão o tema ‘Para uma consciência nova da missão do Hospital’. Procura-se, com este tema, abordar o Hospital enquanto instância culturalmente criadora, investido, como está, na missão de ser o espaço para o qual grandes experiências limite da condição humana, com as questões que suscitam, são transferidas e onde se impõem como interrogações quotidianas.

Por outro lado, importa também considerar o Hospital enquanto produtor de ciência e veiculador de valores éticos, tentando perceber o influxo que este facto exerce na evolução das mentalidades, numa sociedade altamente medicalizada. Finalmente, o Hospital é um lugar antropológico cuja cultura institucional humanizada muito depende de chegar a constituir-se interlocutor de outras instâncias produtoras de Sentido interventoras nas diversas comunidades humanas e espaço integrado nos roteiros das manifestações culturais. O Fórum Permanente Cultura e Saúde é fruto do Processo São João - Lugares Altos, Olhares e procurará direccionar Olhares sobre a Cultura e os fenómenos da Saúde como essencialíssima dimensão desta, a partir do Lugar Alto, porque de evidência definitiva do Mistério do Homem, que o Hospital constitui na Cidade.

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O Mensageiro - Foz do Douro


Aqui termina a proa mais o barco São dos teus olhos as asas derradeiras O teu poema pouco a pouco fica inteiro E terás que celebrar o teu regresso No cimo fica a talha e fica a casa E no meio da casa alguém que canta Então perceberás pelo mosaico Que ou acende luminoso como a água Ou pela tristeza com que aceno Que é agora a hora de partir Escuta quem te chama e vai sem medo Pois sei que um dia voltaremos Como os versos que precisam de raiz Ou porque tudo tudo se inicia 87 são joão | lugares altos, olhares


Referências ao texto de Laura Castro Para o restauro da obra foi chamado o Centro de Conservação e Restauro da Universidade Católica Portuguesa. O arquitecto Bernardo Brito concebeu o suporte e a instalação definitiva da imagem nos jardins do Hospital. 1

Referências ao texto de José Pedro Angélico Cf. ZUBIRI, Xavier, Inteligencia sentiente, I: Inteligencia y realidad, Madrid: Alianza, 1991. 2 Cf. TEILHARD DE CHARDIN, Pierre, Hymne de l'Univers, Paris: Éditions du Seuil, 1961. 3 Cf. LAÍN ENTRALGO, Pedro, El cuerpo humano. Teoría actual, Madrid: Espasa-Calpe, 1989. 4 Cf. MERLEAU-PONTY, Maurice, Phénoménologie de la perception, Paris: Gallimard, 1976, pp. 324-344. 5 Cf. ARNHEIM, Rudolf, Arte e Percepção Visual. Uma Psicologia da Visão Criadora, São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004, p. 293. 6 Cf. LÉVI-STRAUSS, Claude, Mito e Significado, Lisboa: Edições 70, 2007, p. 27. 7 Ibidem, p. 28. 8 «O que tentei mostrar, por exemplo, em Totémisme ou La Pensée Sauvage, é que esses povos que consideramos estarem totalmente dominados pela necessidade de não morrerem de fome, de se manterem num nível mínimo de subsistência, em condições materiais muito duras, são perfeitamente capazes de pensamento desinteressado; ou seja, de compreender o mundo que os envolve, a sua natureza e a sociedade em que vivem». Ibidem, p. 28. 9 ELIADE, Mircea, O Sagrado e o Profano. A essência das religiões, Lisboa: Livros do Brasil, 1999, p. 35. 10 BOFF, Leonardo, Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos. Minima Sacramentalia, Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 9. 11 ELIADE, Mircea, O Sagrado e o Profano, p. 36. 12 WATSUJI, Tetsuro, Antropología del paisaje. Climas, culturas y 1

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religiones, Salamanca: Sígueme, 2006, p. 32. Ibidem, pp. 33-34. 14 Cf. Ibidem, pp. 66-87. 15 Ibidem, p. 38. 16 Cf. ELIADE, Mircea, O mito do eterno retorno, Lisboa: Edições 70, 2000, pp. 26-32. 17 Id., O Sagrado e o Profano, p. 50. 18 Gn 22, 1-19. Neste relato, em que Abraão é posto à prova, na eminente necessidade de imolar o filho Isaac, por quem tanto havia ansiado, dois movimentos literários caminham concentricamente para indicar a importância da altitude. Como afirma o importante exegeta belga, «Si le centre de la structure met en évidence la promesse d'une descendance nombreuse et victorieuse, le mouvement de la promesse va de la bénédiction d' Abraham a celle des nations a travers la descendance. La section centrale est tout entière concentrée dans la substitution du bélier au fils, la parole de l'envoyé qui refuse le fils, et l'action d'Abraham qui offre le bélier en holocauste “a la place de son fils”. L'attention au vocabulaire de cette section permet de constater de nombreux liens, avec ce qui précède. Je l'ai déjà montré en ce qui conceme le discours divin, mais cela vaut également pour la description du sacrifice d'Abraham au verset 13 et pour la nomination du lieu, au verset 14 ou convergent deux lignes: celle du “lieu” et celle du “voir”. On est bien au Môrîya, au “lieu de la vision”. Le verset 14 apparaît ainsi comme le véritable point culminant de la scène». WÉNIN, André, L'homme biblique. Anthropologie et étique dans le Premier Testament, Paris: Cerf, 1995, pp. 64-65. Um lugar alto é indicado para a imolação, identificado, no caminho, pelo olhar de Abraão que se ergue e o qual consagra. A tradução portuguesa deixa-o bem claro: «Abraão chamou a este lugar: “O Senhor providenciará”; e dele ainda hoje se diz: “Na montanha, o Senhor providenciará”» (Gn 22, 14). 19 Ex 3, 5. 20 Ex 19, 3. 13

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1Re 18, 42-46. Cf. CROW, Loren D., The Songs of Ascents (Psalms 120 – 134). Their Place in Israelite History and Religion, Georgia: SBL, 1996. 23 Jo 4, 21-24. 24 «propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est». 25 SCOLA, Angelo, Cuestiones de Antropología Teológica, Madrid: BAC, 2001, p. 7 26 BOFF, Leonardo, Vida para além da morte, Petrópolis: Vozes, 2002, pp. 109-110. 27 Cf. Lc 2, 42. 28 Cf. Lc 9, 51-21, 38; cf. Lc 18, 3. 29 Sl 2, 6. 30 Cf. Sl 24, 3. 31 Cf. Sl 120-134. 32 Cf. Sl 43, 3. 33 Cf. LÉON-DUFOUR, Xavier, “Montaña”, in LÉONDUFOUR, Xavier (Dir.), Vocabulario de Teología Bíblica, Barcelona: Herder, 1988, pp. 558-559. 34 Cf. HEIDEGGER, Martin, “Batir, Habiter, Penser”, in HEIDEGGER, Martin, Essais et Conférences, Paris: Gallimard, 1980, pp. 170-193. 35 ELIADE, Mircea, Tratado de História das Religiões, Porto: Edições Asa, 1992, pp. 69-70. 36 «As regiões superiores estão saturadas de forças sagradas. Tudo quanto está mais próximo do Céu participa, com intensidade variável, na transcendência. A 'altura', o 'superior' são assimiladas ao transcendente, ao 'sobre-humano'! Toda a ascensão é uma ruptura de nível, uma passagem para o Além, uma ultrapassagem do espaço profano e da condição humana. (...) Transcender a condição humana, pelo facto de penetrar numa zona sagrada (templo, altar), pela consagração do rito, pela morte, exprime-se concretamente por uma 'passagem', uma 'subida', uma 'ascensão'». Ibidem, pp. 142-143. 37 «A supremacia pertence ao Pai, isto é, ao Criador, artífice de todas as coisas. Este elemento 'criador' existe evidentemente em Zeus, não no plano cosmológicos (pois não foi ele que fez o Universo), mas no plano biocósmico: ele dirige as fontes da fertilidade, ele é o dono da Chuva. E, visto ser 'fecundador', é 22


também o 'Criador' (...) Ora esta 'criação' de Zeus depende, em primeiro lugar, de todo o drama meteorológico, sobretudo da chuva. A sua supremacia é ao mesmo tempo da ordem paternal e soberana: ele garante a boa situação da família e da natureza, por um lado pelas suas forças criadoras, e, por outro, pela sua autoridade de guardião das normas». Ibidem, pp. 116-117. 38 Da grande família de idiomas celtas taran = trovejar; e do gaélico (irlandês), torann = trovão. Vide etiam KRUTA, Venceslas, Los Celtas, Madrid: EDAF, 2000, pp. 191-198. 39 CUNHA, Arlindo de Magalhães Ribeiro da, Santiago em Portugal. A devoção e a peregrinação, Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2001, pp. 47-48. 40 Cf. MALDONADO, Luis, Génesis del Catolicismo popular. El inconsciente colectivo de un proceso histórico, Madrid: Cristiandad, 1979, p. 40. 41 Cf. Ibidem, p. 125. 42 «Vendo, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu baptismo, disse-lhes: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos de conversão e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: 'Temos por pai a Abraão!' Pois, digo-vos: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo». Mt 3, 7-10. 43 «De facto, Herodes tinha prendido João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de seu irmão Filipe. Porque João dizia-lhe: “Não te é lícito possuíla”. Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo, que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Herodíade dançou perante os convidados e agradou Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: “Dá-me, aqui num prato, a cabeça de João Baptista”. O rei ficou triste, mas, devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Baptista na prisão. Trouxeram num prato, a cabeça de João e deram-na à jovem, que a levou à sua mãe». Mt 14, 3-12. 44 Cf. 1Rs 17-21; 2 Rs 1-2. 45 Cf. Sir 48, 10; Ml 3, 1-2. 22-24; Mt 3, 1-6; 11, 14; Lc 1, 17. 46 «Prophets have numerous social and religious functions, but these functions may be broadly divided into two categories.

First, prophets may appear on the periphery of a society and direct their activities toward social and religious change. Peripheral prophets of this sort frequently appear in groups which lack political, social, or religious power within the society and which use the authority of the prophetic message to attempt to rectify their powerless state. Because of the divine authority with which these prophets speak, the society as a whole is usually willing to listen to them and to make social and religious changes which might not otherwise be made. Socially and religiously peripheral individuals who become prophets sometimes join with others who have had the same experience and form a peripheral cult group which is a counterpart to the main cultic organization of the society. This peripheral cult group supports its members and attributes authority to their prophetic utterances, even when the rest of the society will not. Second, prophets may appear within the established power structure of the society. In this case they usually have the function of maintaining the social order, although this maintenance does not preclude criticism of the society. Prophets of this sort are not usually opposed to social and religious change but are interested in insuring that change takes place in an orderly way so that the social structure as a whole is preserved. Both peripheral and establishment prophets may, of course, appear within the same society». WILSON, Robert R., “Early Israelite Prophecy”, in MAYS, James Luther – ACHTEMEIER, Paul J. (Eds.), Interpreting the Prophets, Philadelphia: Fortress Press, 1987, p. 7. 47 Cf. Ibidem, p. 1. A respeito da profecia bíblica vide etiam as seguintes referências bibliográficas. Da mesma obra editada por James Luther Mays e Paul Achtemeier: WOLFF, Hans Walter, “Prophecy from the Eighth through the Fifth Century”, pp. 1426; TUCKER, Gene M., “Prophetic Speech”, pp. 27-40. Outros títulos relevantes: MILLER, John W., Meet the Prophets, New York: Paulist Press, 1987; VON RAD, Gerhard, The Message of the Prophets, London: SCM Press, 1973; GOWAN, Donald E., Theology of the prophetic Books. The Death and the Ressurrection of Israel, Kentucky: Westminster John Knox Press, 1998. 48 Cf. PIKAZA, Xabier, Antropología Bíblica. Tiempos de Gracia, Salamanca: Sígueme, 2006, p. 226. 49 SARAIVA, Arnaldo, “O S. João”, in O Sentimento do Porto, Porto: Campo das Letras, 2001, p. 221. 50 BORGES, Anselmo, “Antropologia do processo de morrer”, in Brotéria 150 (2000), 188-189.

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ALFARO, Juan, De la cuestión del hombre a la cuestión de Dios, Salamanca: Sígueme, 1997, p. 19. 52 «Better pass boldly into that other world, in the full glory of some passion, than fade and wither dismally with age». JOYCE, James, Dubliners, London: Penguin Books, 1996, p. 255. 53 Cf. RAHNER, Karl, “Muerte”, in Sacramentum Mundi IV, Barcelona: Herder, 1973, p. 818. 54 MARTO, António Augusto dos Santos, Esperança Cristã e Futuro do Homem. Doutrina Escatológica do Concílio Vaticano II, Porto: Edição do Autor, 1987, p. 49. 55 AGUSTÍN, “Enarraciones sobre los Salmos”, 38, 19, in Obras de San Agustín XIX, Madrid: BAC, 1964, p. 714. 56 Cf. RAHNER, Karl, “Muerte”, p. 441. 57 Ibidem, p. 442. 58 «A vida, especialmente em sua dimensão biológica, possui momentos-chave. São uma espécie de nós existenciais onde se cruzam as linhas decisivas do sentido transcendente do humano. Nestes nós existenciais, o homem sente que a vida não se sustenta por si mesma». BOFF, Leonardo, Os Sacramentos da Vida, p. 56. E especifica-os: «Estes entroncamentos ou nós existenciais são o nascimento, a maturidade, o casamento, a enfermidade, a morte, o comer e beber, a experiência do próprio alienamento (pecado e culpa) e a experiência da consagração e do serviço ao totalmente outro (culto)». Id., “O Pensar Sacramental: sua estrutura e articulação”, in Revista Eclesiástica Brasileira 139 (1975), 534. Poema de Daniel Faria Inédito Publicado com autorização dos herdeiros. Poemas de Miguel Torga Citados a partir de TORGA, Miguel, Poesia Completa, Lisboa: Dom Quixote, 2000 (ISBN:972-20-1708-X). São João Baptista (Avelino Leite, 2009) Fotografia: Pedro Leite São João Baptista Granito Fotografia: Rui Barbosa

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