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MARES de SESIMBRA

A Informação que conta

Director: João Augusto Aldeia Foto: João Augusto Aldeia

5 de Janeiro de 2016, Ano 2, nº 26

António Pereira Jorge é mais conhecido como António da Alice – um apelido herdado da mãe, Alice da Conceição Pereira, uma maneira de distinguir os vários “Antónios” da Vila. Nasceu em Pero Mo-

niz, uma aldeiazinha entre o Cadaval e o Bombarral. Os pais eram feirantese vieram algumas vezes à festa das Chagas, até que acabaram por se fixar no “Bairro da Folha”, a nascente da vila. O pai

An tón i o d a Al i ce

– Francisco Jorge – tinha trabalhado numa fábrica do Montijo, onde aprendera a técnica de amolar tesouras e facas, trabalho que o ocupou durante algum tempo em Sesimbra, mas o apelo da

A p ri n ce sa d e Ca l h a ri z

No dia 1 9 de Outubro de 1 760 foi sepultado no adro da Igreja Matriz do Castelo de Sesimbra, Manuel Damásio, "moço da copa da Excelentíssima Princesa de Calhariz". Este título de nobreza referia-se certamente a Maria Ana Leopoldina de Holstein Beck, casada com Manuel de Sousa, senhor do Morgado de Calhariz. Não seria de estranhar a presença da princesa em Calhariz, mas estranho era o facto de Manuel Damásio ter sido sepultado no adro da

itinerância acabou por vencer, e partiu. A mãe, no entanto, vendo que os filhos estavam a crescer e a precisar de ir para a escola, e já não o acompanhou. Pág. 3

Igreja, por ser "pobre". Porque não teria a princesa oferecido os 600 réis necessários para que a sepultura se fizesse no interior da Igreja? A princesa Maria Ana, na realidade, passava por grandes dificuldades. O marido tinha sido preso no final de 1 758, envolvido no processo dos Távoras, acabando por morrer na prisão, sem direito a julgamento, e os seus bens tinham sido apreendidos. Pág. 2


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A Princesa de Calhariz Os Sousas de Calhariz podiam ser considerados como membros da nobreza, ainda que não tenham tido qualquer título até à época de Pedro de Sousa Holstein, que foi, sucessivamente, nomeado Conde (1 81 2), Marquês (1 823), e Duque (1 850). O seu avô, Manuel de Sousa, deteve o importante cargo de capitão da Guarda Alemã, um regimento de grande prestígio. Mesmo sem ser possuidor de título formal, Manuel de Sousa casou com uma verdadeira princesa: Maria Ana Leopoldina, de origem austríaca, que nascera na cidade de Linz em 2 de Agosto de 1 71 7, filha de Frederico Guilherme, duque de Holstein e herdeiro da Dinamarca e Noruega. Ainda hoje os titulares do Ducado de Palmela usam os apelidos Holstein Beck, herdados de Maria Ana Leopoldina. O processo dos Távoras

É bem conhecido o processo dos Távoras: um atentado à vida do rei D. José, em 1 758, serviu de pretexto para perseguição aos adversários de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês do Pombal, no âmbito da política de centralização do poder e consolidação do Absolutismo Num processo que envergonha o Estado português da época – foi constituído um tribunal especial, formado por membros do Governo, que obedecia aos caprichos do primeiro-ministro – quase to-

dos os membros da família dos Távoras, foram barbaramente torturados e executados numa grande cerimónia pública, a 1 3 de Janeiro de 1 759. O processo serviu também de pretexto para perseguir outras pessoas, e uma delas foi Manuel de Sousa, apenas por, supostamente, ter tido conhecimento prévio da conspiração. Foi feito prisioneiro numa altura em que se encontrava doente; colocado numa masmora, num dos fortes da margem do Tejo, viria a morrer, menos de dois meses depois, sem sequer ter sido julgado. A mulher, Maria Ana Leopoldina, saíu de Lisboa e refugiou-se em Calhariz, onde passou por grandes dificuldades, havendo vários testemunhos de que lhe faltavam meios de subsistência: um caso que teve ecos além fronteiras, dada a notoriedade da nobre família austríaca. Uma das pessoas que tentou interceder, junto do Rei, por Manuel de Sousa e pela sua esposa, foi Manuel Teles da Silva, que era casado com uma irmã de Maria Ana Leopoldina. O próprio primeiro ministro, hipocritamente, escreveu uma carta em que parece Maria Ana Leopoldina von Schleswig-Holstein-Sonderburgcondoer-se da situação da in- Beck, nasceu em Linz (Áustria) em 2 de Agosto de 1 71 7, e feliz princesa, como se não faleceu em Turim (Itália) em 7 de Fevereiro de 1 789. fosse ele o principal responsável da desgraça: sendo uma pessoa de tão ta que a referida Princesa se « O processo de Dom Ma­ de notória graduação pelo seu acha em Calhariz na última nuel de Sousa é certo que se deve continuar na forma da lei e de direito. Lembro­me contudo sobre esse assunto que aquele bárbaro se acha­ va casado com a Princesa de Holstein per si digna de toda a clemência de Sua Majesta­

nascimento e sendo além dis­ so cunhada de Manuel Teles da Silva, que já escreveu a favor de Dom Manuel de Sousa nos competentes ter­ mos que foram presentes ao dito Senhor. Sobretudo cons­

Registo do óbito de Manuel Damásio, " mosso de copa da Exmª Princesa de Calhariz".

indigência, sem ter de comer nem quem a sirva. E nestas circunstâncias me parece muito conforme à Real e in­ comparável piedade de Sua Majestade que, sendo o mes­ mo Senhor servido, me per­ mita avisar a tal Princesa que se pode recolher a esta Corte parecendo­lhe, e que vendo­ se a sua escritura dotal se lhe mandem separar logo e sem mais formalidades de juízo as arras [bens a herdar do marido] que pelo dito contrato se lhe devem.»

Esta carta, datada de 1 de Fevereiro de 1 759, é um notável exercício de hipocrisia, atendendo a que foi escrita pelo principal responsável pela prisão de Manuel de Sousa. O registo da falecimento do criado da princesa, no final de 1 760, prova que ela continuava em Calhariz e a viver em grandes dificuldades. João Augusto Aldeia


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gente não pode ficar aqui à espera, não sei se vem mais, se vem menos". Então arriscámos a entrar. Acontece que quando chegámos ali a meio, mais ou menos a meio da muralha, dá um cachão mais forte – um mar! – na barca, e com esse cachão (como as pranchas agora) a barca engargalhou em cima do mar, e quando largou o mar, foi só virar para dentro. Atrás da gente vieram outras embarcações, caíram homens ao mar aqui à entrada do porto de abrigo: da barca do Zé Rolha caíram quatro homens ao mar, caiu também um da barca do Manelinho, mas apanharam todos.

An tón i o d a Al i ce

Quer dizer que fizeram a entrada paralelamente ao molhe?

Sim. O molhe é assim, e a gente chegou ali, quando o mar largou a barca, foi só fazer assim para dentro. Essa manobra era perigosa?

Era, porque aquilo era Depois da separação dos pais, António, a mãe e os irmãos, ainda viveram uns meses em muito baixinho ali, a entrada Lisboa, em casa duma avó, mas regressaram a Sesimbra, onde a mãe reconstituiu família com era muito baixinha. Júlio Casaca, da qual nasceram mais três filhos. A escola primária, já fez em Sesimbra?

Já, com a Cecília Cruz, na escola de Santa Joana. Não eramos orfãos – eramos três, na altura, os filhos do meu pai – mas a minha mãe era muito amiga da Cecília Cruz, que era uma professora emblemática em Sesimbra. Era um espectáculo, tinha refeitório e tudo.

com o Carocho Serafim, que era um homem que era dono do armazém onde a gente depois passou a viver, porque o armazém depois foi dividido a meio, a gente vivia num lado. Enquanto andou na escola primária, chegou a traba­ lhar como moço?

Não. Fiz a quarta classe com nove anos! Porquê? E fez ali os quatro anos Porque eu faço anos dia cincom a mesma professora? co do mês que vem, de amaSim, sim, sempre com a nhã a um mês, e quando fiz a mesma professora. quarta classe ainda tinha nove anos, foi no mês de Julho. Era boa professora? E então fui trabalhar para um Era. Era muito rude, era barquito, que depois acabei uma pessoa muito... por ir para casa desses indivíduos, que eram o SebasMas antigamente a escola tião e a Marina. era assim. Era, era o normal. Qual era a arte? Lembro-me que ela tinha Andava-se à chaputa, ao uma régua, e que baptizava aparelho. as réguas por "Dona Mafalda". Então, quando ela não Começou como moço de estava, a gente agarrava na terra? régua e levávamos para a caMoço de terra, a aprensa de banho, partíamos a ré- der, a trabalhar, empatar, a gua. E ela mandava fazer iscar, e tal, tal, tal. Depois outra, e então era a "Dona com onze anos, mais ou meMafalda 1 ª", "Dona Mafalda nos, já ia para o mar com 2ª", as réguas eram baptiza- eles. das assim! E o seu padrasto, qual era a profissão dele?

Mas aos onze anos ainda não passavam a cédula?

Não. Só tirei a cédula Era do mar. Andava à com catorze. Naquele tempo chincha, e depois mais tarde não havia fiscalização neandava dentro de uma aiola nhuma, não havia nada.

A primeira barca em que andou, já tinha cabina?

Não. não tinha cabina. Quando eu comecei a andar ao mar, a barquinha não ticabina, nem luz, bem tiLevávamos aí duas ho- nha nha capacidade para levar ras, à chaputa. muito gasóleo, era um depoDuas horas até encontrar o sitozinho pequenino, com dezasete cavalos. mar? Mas é longe! É, é longe. A barquinha E apanhavam sempre pei­ dava aí seis milhas hora, ain- xe? da dava aí doze milhas, doApanhávamos sempre, ze-treze milhas até aí fora. não é bem assim! Mas apanhava-se com mais frequênE nunca apanharam mau cia do que se apanha agora. tempo? Então não apanhámos! A chaputa também tem Várias vezes! Eu apanhei o épocas, não é? dia 8 de Maio [1 970] ! E já tem. A chaputa é não foi nessa barquinha, já um Tem, peixe migratório. foi noutra. Ainda iam muito longe, na barquinha, ou era aqui per­ to?

Nesse vendaval ainda morreram pescadores.

Morreram três pessoas: dois do Augusto Caminhão, e morreu um filho do Rabuja aqui na costa do Norte. E estava onde, quando veio esse vendaval?

E quando não havia chapu­ ta?

Andávamos aí à pescada, andávamos ao roliço, à faneca – na pedra da Greta, ali junto à Arrábida, há ali uma pedra antes da boia da barra, numa grande extensão, íamos para ali à faneca, ao roliço, aos pargos. Íamos à chincha buscar selhas de pica, para depois iscarmos. Pica: agora já não existe.

Estávamos na Coroa Velha, em frente a Sines, é cinco horas de caminho daqui, para aquela barquinha. Viemos para cá, com dificulda- Iam mais longe pescar cha­ de, mas quando chegámos puta, por ser uma espécie aqui a doca não dava entra- mais cara? da, havia já outras embarcaSim, e apanhava-se mais ções a pairar. Não era esta quantidade. muralha, ainda era a outra. Por acaso até era eu que vinha ao leme, e então eu disse para o tio Sebastião: "A


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5 de Janeiro de 201 6 intensão que era peixe. Como aprendeu a trabalhar com a sonda?

Com indicações dos técnicos que vieram montar. Quem instala, depois dá as informações. É tudo em teoria, e depois na prática...

E a seguir a essa barca?

Foi a outra do vendaval, que era do Sebastião Bronze dos Santos, o apelido dele era o Sebastião Forquilha. Essa barca já tinha cabina. Foi uma barca que era do "Anões", isto é, do Ernesto Zé e do Américo Zé.

E tinha rádio­telefone?

Não, ainda não tinha rádio-telefone, nesse tempo. Mais tarde, já no fim, depois é que se meteu um rádio-telefone.

Quem era o mestre, nessas barcas?

Da barca pequenina, era o dono. Quando comprámos a outra barca – foi comprada com uma história engraçada: eu saí da tropa, tinha 26 anos já. Já tinha tirado a carta de arrais em Setúbal, e evidentemente que a partir daquela data, eu era um rapaz que, tudo quanto via, levava tudo à minha frente, e acontece que eu pedi ao tio Sebastião para comprar uma barquinha maior, para a gente se expandir, porque depois começou a aparecer as sondas, e a barquinha pequenina não tinha ponte de leme, não tinha capacidade para nada. E eu saí de casa da minha mãe, fui para casa deles, fui criado com eles desde os oito anos, dáva-me com a minha mãe, mas fui criado com eles desde os oito anos. Eles dois, pessoas já com alguma idade, andavam a engonhar, tal e tal. O Ernesto Zé e o Américo Zé, que o apelido deles era os "Anões", eram família aqui do Joaquim Maquino, estavam a fazer ali um barco que era a Margarida Angelina, e aquilo, a barca deles era muito boa, era mais de cem cães a um osso, e eu um dia, sentados à mesa, os três em casa, a jantar, digo eu assim: "Então, vai-se comprar a barca ou não?" e eles: "Assim... Assado"... sempre a mesma história. Ele tinha o hábito, quando chegava a casa todos os dias, tinha um divãzinho, quando trazia o dinheiro fazia as contas, agarrava no dinheiro punha em cima daquele divã, que era o divã onde a filha dormia, quando era solteira,. Eu não ficava em casa, dormia no armazém e todas as manhãs é que ia para casa. Eu chego lá para matar o bicho e nesse dia de manhã agarro em cinco contos – uma nota de cinco contos – e vim entregar aqui ao Anão. Sem ele saber! Digo eu assim para o Ernesto: o Sebastião mandou-me trazer este dinheiro para sinal da barca. Aqui nesta rua, rua da Caridade, havia ali uma mercea-

Então essa barca era das melhores na altura?

Era equivalente àquelas que havia, boas, para aqui para a costa. Porque depois o Ernesto Zé e o irmão foram para o Garrincha, ao peixeespada branco, e para longe. E nessa sua barca, qual era a quantidade de pessoas da companha?

Tinhamos cinco homens a bordo, e três em terra, eramos oito ao todo. Depois quando o bairro da Folha foi deitado abaixo, para fazer lá a praça da Califórnia, viemos para aqui. Começaram a construir lá, depois aquilo foi tudo embarDireito ao Trabalho, o primeiro barco da cooperativa de que gado. António da Alice foi um dos fundadores, em Agosto de 1 976. Foi paga a pronto, cinria, onde está agora a taberna, ao lado da barbearia, ha- quenta contos, já tinha dado via ali uma mercearia, ele sai cinco... do armazém dele, entrou na mercearia, rasgou um bocado E, nesta barca, quem era o dum papel pardo, e pôs em mestre? Comecei eu a ser o mescomo tinha dado cinco contos tre. Porque o barco tinha de sinal. uma sonda, e ele não sabia ler. Uma sonda a papel – porE quanto custava a barca? Cinquenta contos. Eu que antes sondávamos à chego a casa, e digo: "Olha, mão. já comprámos a barca!" O que é que eu fui fazer! Aquilo Para encontrar os mares? Sim. Também comecei a para eles, perder cinco contos, naquela altura, era... aprender de volta com eles. Pronto! Fomos à Doca ver a Ali é que me fiz homem, e ali barca. A Margarida Angelina, é que foi. que era o nome do barco – era o nome das filhas dele! – Compraram vocês a son­ estava quase pronto, e co- da? Comprou-se a sonda e meçámos a tratar da coisa. meteu-se dentro da barca! Qual era o carpinteiro que o Uma sonda de 400 braças... estava a construir?

Era o Manuel Albano. Mas quem estava a fazer o barco deles era o Ferreira. Fomos à Doca ver a barca, ficaram satisfeitos com aquilo que viram. Ao fim dum tempo, venderam a barquinha pequena para Setúbal, e fomos tratar daquela, pintar, tal, tal, e depois ancorámos a barca no tal célebre bairro da Folha, em frente, que antigamente as barcas estavam todas ancoradas em frente da praia.

E facilitou muito?

Pois! Espectáculo!

A sonda era usada para na­ vegação, para encontrar o pesqueiro, ou também para encontrar peixe?

Quando o bairro da Folha foi abaixo, ainda ficou a Vila Pinto?

Ficou a Vila Pinto, ainda muito tempo. E nós passamos para aqui [rua da Galé] ao lado da peixaria que havia aqui, que era do Zé Maquino. Esta casa aqui ao lado era do Palmela. Nesta rua havia muito mo­ vimento de pescadores.

Havia lojas aí por todo o lado! Desde que a nossa Câmara escorraçou os pescadores, mandou os pescadores embora. É evidente que agora vêse catrapazes por todo o lado a dizer "Sesimbra é Peixe", mas não se lembram de que escorraçaram os pescadores, para mandar para a mata, e para o porto de abrigo, e para todo o lado. Querem agora fazer turismo com aquilo de antigamente, mas não conseguem. Já não conseguem! Essa barca já era mais se­ gura?

Sim, tinha 9 metros, essa barquinha. Nessa barca é Para navegar, e encontra- que apanhámos o dia 8 de va também o peixe. Marcava Maio. o fundo em baixo, e por cima marcava aquela coisa, não se via que peixe era, mas o volume que marcava lá, dava-nos a nós muitas vezes a


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barcos, em conjunto com o pessoal de Setúbal, do Sindicato, e então comprámos lá o Rio Novo do Príncipe e o Foz do Príncipe. Aquela empresa, que estava estabelecida no Cais das Pirâmides, era a empresa Rio Novo do Prínci­ pe, vendeu aqueles dois barcos, para mandar fazer um barco em ferro, que se chamava o Príncipe do Vouga. E então foi o Rio Novo do Prín­ cipe para Setúbal e veio o Foz do Príncipe para Sesimbra, que se passou a chamar Direito ao Trabalho.

Navegava bem?

Era, dava aí 8 milhas.

Também andou ao peixe­ espada.

Então não andei! A seguir a essa barca, depois eu zanguei-me com eles, saí de casa, e depois acabei, ao fim duns anos, por voltar para casa outra vez, que comprei uma barca para mim. Isto é uma história complicada, porque é assim: eles tinham um genro, e o genro tinha um barco deles, e de vez em quando zangava-se com os sobrinhos e com o irmão, que era o sócio do irmão, vinham para o sogro, e eu via-me aflito sozinho, não tinha ninguém para me ajudar, chegou a uma altura em que eu disse para o Sebastião: eu quero saber com quem é que eu trabalho, que eu ganho uma parte, tenho que dar aqui meia parte em casa, ando a governar uma barca, você já está em terra, e o que eu ando a fazer é sobrehumano. E o homem disse para mim: isto só tem um dono, e não posso dar mais nada. E a partir dali não havia mais conversa. Eu fui ter com o Mário Águas. [responsável da Casa dos Pescadores em Sesimbra] Como mestre duma embar­ cação, ganhar só uma par­ te, era pouco.

Era pouco. Aquilo eram embarcações pequeninas, passei a ganhar mais foi nos barcos grandes, depois já lá vamos.

Qual era o nome dessa barca? Essa barca era a Marina Gaspar. Continuando: foi ter com o Mário Águas.

Fui ter com o Mário Águas, para comprar a Re­ novadora, uma barca que era do "Dezanove", o Januário Sebastião Flórido. Fui pedir 50 contos emprestados ao Mário Águas, para comprar uma barca por 80. Pedi 50 para comprar uma barca por 80. Como é que é possível? Foi assim: o homem tinha uma dívida do motor de 55 contos e fomos à Romar, o pagamento daquela dívida passava para mim, ainda dei 25 contos ao homem, ainda fiquei com 25 para comprar material. Mas na altura havia sete pedidos de pescadores para a Junta Central da Casa dos Pescadores, no tempo do Tenreiro. E havia lá um indivíduo que era secretário do Tenreiro, que era o Saraiva,

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Tiveram também subsídio, ou só empréstimo?

era padrinho da filha do Augusto Caminhão. E então ali no muro, os pescadores em conversas uns com os outros, o Carlos Alberto diz para mim: António, foste pedir 50 contos emprestados ao Mário Águas, mas olha que não vem dinheiro nenhum. Digo eu assim: – “Não vem dinheiro nenhum? – “Então?” – “Queres que venha o dinheiro?” – “Não quero agora!” – “Vais fazer uma coisa que eu te vou dizer: vai ter com o Augusto Caminhão para pedir ao compadre, só assim é que te safas.” E foi ele que foi o impulsionador disso. Quando veio o dinheiro, só veio dinheiro para mim. O Mário Águas madou-me chamar, e assim que eu chego lá, ao gabinete do senhor Mário Águas, o homem disse para mim: – "Eh amigo, você tem um grande conhecimento!" Digo eu assim: – “Olhe, desenrasquei-me conforme pude!” E então fiquei logo a dever 54 contos, para pagar num ano, mais a dívida do motor. O que é que acontece? Era para pagar a 1 0 por cento do bruto da pesca. Eu fui para o mar a primeira semana, quando faço contas, eram feitas as partes para a embarcação, aqueles 1 0 por cento era tirado só do dinheiro da embarcação, os homens tinham que levar o que era deles. Não chegava. Para pagar o motor, para pagar os apetrechos de pesca, não chegava. Eu lastimei-me, ali no muro, os pescadores uns com os outros, e diz o tal Carlos Alberto assim para mim: – "Vais fazer uma coisa que eu te vou dizer: apontas isso tudo, as contas que fizeste, as despesas que ti-

veste com gasóleo, com iscas, com tudo, e vais ter com o Mário Águas, para pedir a ele para passar isso a 5%, que ele passa". Então eu agarrei e fui falar com o Mário Águas, o Mário Águas era escasso a receber as pessoas, tive que ter um bocado de paciência, e quando eu apresentei aquilo o homem disse-me para mim: – "Então vamos lá ver uma coisa, você quer que passe isto para 5%, você garante-me que paga isto durante um ano?" E eu disse: "Pago sim senhor". Levámos seis meses a pagar aquilo! O peixe estava a montes aí para apanhar, eu arriscava mais um bocadinho, que era uma barquinha que andava até mais. Foi assim é que veio o dinheiro para a barca. Mais tarde depois eu compro o barco que era aqui do António da Gertrudes, que era a Pérola Dourada, eu comprei esse barco, que depois vendi ao Judas, do Judas foi para o João Caturra e depois foi para o fundo, no Algarve. Depois a partir daí eu formei a cooperativa Di­ reito ao Trabalho. Mas antes fui governar o Zimbro, e depois do Zimbro é que formei a cooperativa Direito ao Tra­ balho. E antes do Zimbro tinha andado em que barco? Era a Renovadora. Depois da Renovadora foi a Pé­ rola Dourada. Tudo barcos do aparelho?

Tudo barcos do aparelho e do peixe-espada branco. Aqui na costa?

Já ia para mais longe. Já ia para o Garrincha, Já ia para o Algarve, Já ia para a zona de Sines. Para a cooperativa, fomos a Aveiro comprar dois

Tivemos empréstimo e subsídio. Já foi em 1 976, depois fomos lá para cima, para aquele armazém que era da [armação] Restauradora, ao pé da Cruz [morro do Calvário]. E saiu da cooperativa porquê? Esses barcos ganhavam muito dinheiro.

Ganhavam, ganhavam, ganhava-se dinheiro! Andavam pelos Açores, andavam pelas Canárias... Como é que as cooperati­ vas acabaram, se eram barcos que ganhavam tan­ to?

Vamos lá a ver: as cooperativas têm tendência a acabar porque, só duas palavras eu vou-lhe explicar tudo. Quando a cooperativa começou, tinha um mestre, que era eu. Ao fim de dois para três anos, já tinha 43 mestres. E acaba aí! Porque toda a gente quer mandar... Não tem hipótese. Já o Marcelino Folques me disse a mesma coisa.

O Marcelino, formou aqui a cooperativa, foi lá aconselhar-se com a gente, na altura. É do mesmo ano, é da mesma data, é de 76, A gente depois formámos a cooperativa, tenho essas datas na memória, a 6 de Agosto de 1 976, e depois só comprámos o barco, só conseguimos fazer a escritura do barco – o barco já estava com uma promessa de compra e venda, já apalavrado – só conseguimos fazer a escritura a 24 de Março de 1 977, e só depois a partir daí é que começámos a funcionar. Nesse período, eles foram lá acima aconselhar-se com a gente: como é que a gente tinha feito... Andámos em Lisboa pelo Instituto António Sérgio, e até mandaram para cá pessoas, para nos orientar com a escrita e essa


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coisa toda. E depois de sair da cooperativa, que barco é que arranjou?

Depois ainda fui fazer aí uns meses com outro barco, a trabalhar como contramestre, andei com o “Dezanove” depois. Fui governar aquela cooperativa que chegou a ser do Sargo, o Salta-à-Vara e o Sargo, que era o Praia Mar, da cooperativa Juventude Sesimbrense. Ainda andei um ano a governar esse barco. E depois mais tarde apareceu aí um holandês e quis-me levar para dentro do barco dele, para andar aí a passear turistas, que era o barco o Big Fish. Andavam aqui na costa?

Andávamos aí a passear turistas, e aos espadartes, aí às tintureiras, e à pesca. Como é que se chamava o holandês?

Era Toni. Depois, nesse ano, acabou a época balnear, e ele diz para mim: – “António, vamos parar porque agora mete-se o Inverno e já não dá para a gente funcionar”. No outro dia, sai lá do hotel e vem-me perguntar se eu queria ficar com o barco, a trabalhar à pesca profissional, e eu disse que sim. Depois tinha que escolher uma arte. Idealizei pôr covos, fui a Peniche à procura, depois acabei por pôr redes, e mais tarde pôr covos, e depois armei às lixas e aos carochos, e aquilo durou ali de 83 até 87, ainda foram quatro anos. Lixas e carochos é com aparelho...

É. Tubarões de profundidade, agora a pesca até está proibida, está a zero. E ganhou-se muito dinheiro, muito dinheiro mesmo. Aproveitavam os fígados, não era?

Sim. Chegou uma altura que era assim: deitava-se o peixe fora e vendia-se os fígados. Depois chegou uma altura que havia lá um barco que era esse barco que está aí, o Lúcia de Jesus, que era [antes] o Chiloango. O barco tinha vindo de Angola, estava lá abandonado na doca, era dum indivíduo retornado, que estava hospedado em Olhão no edifício Siroco. E então, esse barco gripou motor – andava aí ao mar – e depois esteve ali um ano e tal, quase dois anos, abandonado. Depois esse barco foi a leilão, o banco pôs o barco

MARES DE SESIMBRA em leilão. Licitei o barco por dois mil e um conto. Pus uma ponte de leme, pus uma casa da máquina, meteu-se o motor, meteu-se aquilo tudo, depois a partir daí eu já meti três motores dentro daquele barco, e agora vendi o barco.

para saber onde é que a gente estava, e depois dali fazer o rumo. E como é que aprendeu?

Aprendi quando tirei a carta de Mestre Costeiro. Eu tirei a carta de Mestre Costeiro. Agora tenho uma carta E o sr. António está agora a de recreio, equivalente àquela que eu tinha de Patrão de trabalhar? Eu trabalhei até há dois Costa. anos no mar. E o rádio­goniómetro? O rádio-goniómetro era Mas podia­se ter reformado outra coisa. Era pelo som. há mais tempo... Eu já estava reformado, Um indivíduo falava, do outro desde os 65, e já vou fazer lado, e eu sintonizava, e da71 , estou reformado há 6 va-me o rumo daquele indivíanos. E tenho os documen- duo. Até tenho uma história, tos prontos para matricular, do Direito ao Trabalho, que se for preciso. Tenho a carta, há uma ocasião que o Ómetenho a cédula. Agora ando ga – depois a seguir ao Lodentro de um bote, aí aos ran veio os Ómegas, que também exigiam uma carta chocos. própria, com umas linhas, acontece que um dia tinha E nesse último barco, esse rádio avariado, e tinhaandava ao quê? Ao peixe-espada preto, e mos gelo a bordo e tudo preo barco continua nessa pes- parado para abalarmos para os Açores. ca. E eu, com algum conhecimento que já tinha, digo Aqui próximo? Anda aí a 20 milhas da para o pessoal: - “O barco vai costa, anda aí por sul da Ro- para o mar.” E íamos para os Açores! E alguém me levanca. tou a questão: – “Éh pá, então? Vamos sem o Ómega?” E agora anda numa aiola? Agora ando no meu bote- – “E então qual é o problezinho. Quando entreguei o ma?” Agora [vou] explicar como barco, fiquei com o bote. Ané que fiz a navegação. A do à toneira. gente captava as estações [de rádio, comerciais] que Mas é só em certas alturas estavam a funcionar. do ano, ou há sempre que pescar?

Não, agora falhou mais. A gente apanha aí 4, 5, 6, 7 quilos, conforme calha. Levase para comer e vende-se e para a ajuda da gasolina. E dá para entreter, um gajo a levantar-se, comer, dormir, comer, dormir, éh pá, isso é o Nenuco! Não se consegue adaptar a ficar em casa?

Agora! Nem pensar!

Adaptou­se bem a esses aparelhos electrónicos?

Espectáculo! Depois apareceu o aparelho de falar, o rádio-telefone. Depois a partir daí estabilizou muito tempo, depois quando começou a aparecer os barcos maiores, depois é que começou a aparecer os Ómegas, que é agora o GPS. E ainda antes do Ómega, apareceu o Loran, que era um aparelho que tinha uma janelazinha, e depois apareciam duas borboletazinhas, e tinha que alinhar aquela borboleta para nos dar a latitude e a longitude. E depois tínhamos que agarrar na régua de paralelas, compasso e o triângulo, e ir lá à carta, pôr lá o ponto,

Para já, sabia que o rumo era numa certa direcção...

Mas isso não invalida, porque a gente, em três dias de navegação – não é brincadeira, são setenta e tal horas – as marés correm para um lado e correm para o outro, e tem que haver rectificações, muitas rectificações. E conforme as fases da lua, mais água corre. Então o que é que acontece? Apanhava aqui o Rádio Clube Português, que tinha a antena ali em Monsanto, e eu quando saí do Espichel, iame regulando pela popa, mas fazia navegação inversa, que eu não apanhava São Miguel Rádio, não apanhava o outro lado. Depois quando chegou ali ao meio da viagem, tinha um dia – mais ou menos, um dia, dia e meio – que nem apanhava de cá nem apanhava de lá, fiz a navegação estimada. Quando comecei, ao fim desse dia e meio, a captar São Miguel Rádio, pronto, estava em casa: era pela proa. Depois quando cheguei à ponta do Arnel, que é a ponta de leste da Ilha de São Miguel, já dava para fazer o

5 de Janeiro de 201 6 rumo para o mar. Pronto. E fizemos a pesca. E à vinda para cá fizemos a mesma coisa. A pesca nos Açores não durou muito tempo?

O problema, na altura, quando eu comecei a trabalhar nos Açores, só tinha a carta de Arrais Costeiro, e a carta de Arrais só dá até 25 toneladas de arqueação bruta, e 11 homens. Eu tinha 28 a bordo. E andava dentro dum barco com 1 90 toneladas de arqueação bruta. Quando lá fui as primeiras vezes, quase sempre que eu atracava em Ponta Delgada, ia sempre à Capitania, que era hábito, quando não vinha o Cabo de Mar, a gente ia lá. Se não fosse lá, vinham eles buscar-nos. E então quando foi ao fim de dois anos – andámos lá quatro anos a trabalhar – ao fim de dois anos já nos pediam... E depois, no Instituto António Sérgio, começámos a pedir para eles fazerem pressão sobre a Secretaria de Estado das Pescas e puseram, em 1 979, puseram um decreto-lei em vigor, que dava acesso a irmos de Arrais Costeiro a Mestre Costeiro, e eu fui para Pedrouços, fiquei uma viagem em terra para tirar a carta. Como é que eu fiz? Comprei a matéria, tenho o livro em casa, que é só a Arte Naval Moderna – conhece esse livro ? – tem 800 e tal páginas, e eu quando estava no mar, pelo caminho, para a terra e para o mar, quando não estava moído, estudava, e depois fui fazer exame. E como está a pesca agora?

Isto está mau, e depois não facilitam nada cá em terra. Cá em terra só prejudicam as pessoas. Evidentemente que, como estava antigamente, não podia continuar porque isso era apanhar peixe e deitar fora – não estou a falar da minha arte, estou a falar das artes... – mas também tem que se olhar um bocado para a barriga das pessoas, que as pessoas não podem viver com os barcos parados. E aliás: os barcos não se fizeram para estar parados. Os barcos fizeram-se para trabalhar. E então esta história de cortar aqui, cortar ali, cortar acolá, não ligaram importância às pescas, que é o que o nosso Governo faz, isto está muito mau. Chega ao ponto da frota estar parada. João Augusto Aldeia

Mares de Sesimbra  

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