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Nº 11 > Dezembro 2011

UMA PUBLICAÇÃO DO INSTITUTO DE COMUNICAÇÃO SOCIOCULTURAL CANTO DA IRACEMA | ANO 12 | Nº 73 | DEZEMBRO2011

a cultura cearense pertinho de você!


...editorial...editorial Passou rápido. Aliás, o tempo está cada vez mais abreviado. 2011 chegou ontem. Setembro passou com outubro e novembro e cá estamos: dezembro. O mês do balanço de vida, de realizações; fazer e renovar promessas para o ano novo que já está às portas. Momento de festejar, felicitar, reunir gente querida. Durante esses meses reunimos pessoas queridas por nós, querida em nosso meio cultural para expressar e registrar o desenrolar da cultura cearense em seus diversos matizes. No quesito conquistas e realizações, compartilhamos com você, querido (a) leitor (a), um sonho há muito acalentado: o Ponto de Cultura Canto Cultural do Cedro; e a produção da revista em parceria com Associação Cultural Solidariedade e Arte – Solar, fruto da premiação no Edital Prêmio Literário para Autor Cearense 2010 da Secult.

FALHANOSSA Novembro 2011 | Na página 07, o correto no início do primeiro parágrafo é: A segunda edição FestCine Maracanaú-Festival de Cinema Digital e Novas Mídias. O crédito das fotos é de Arlindo Barreto. | Na página 10, o nome correto do autor do texto é José Leite Netto.

E assim fechamos 2011: Audifax Rios, como lhe é peculiar, tem a nossa querida Praia de Iracema como mote de suas crônicas. Nesta edição, nosso iracemita tece memórias sobre acontecimento marcante de nossa Iracema. Nosso contador de causos, Augusto Moita desta vez pega o músico Nonato Natureza. Em seu passeio pela cidade, Nilze Costa e Silva nos leva a um dos lugares mais peculiares do Centro de Fortaleza, a Praça da Lagoinha, templo do consumo popular e de muitas histórias. Acompanhe Calé Alencar numa viagem poética e estradeira em prosa, verso e imagem indo do Ceará à Souza na Paraíba. Em Fortaleza, A Cia. Vidança realiza trabalho social e por meio da arte busca mostrar novas perspectivas à comunidade do bairro Vila Velha na Barra do Ceará. Diante disso, só temos a agradecer pela leitura e pelo carinho sempre prestado a este Canto ao longo destes 12 anos. Desejando um Natal farto em cordialidade, fraternidade e solidariedade, bem como um 2012 repleto de realizações, de paz e abençoado. Desejamos à tod@s, uma Boa leitura!

// TIRAGEM 5 MIL EXEMPLARES

> QUEM SOMOS! coordenação geral zeno falcão • coordenador adjunto pingo de fortaleza • jornalista resp. joanice sampaio - jp 2492-ce • produtor executivo arnóbio santiago • assistente de produção tieta pontes • revisão rodrigo de oliveira - tembiu.pro.br • colaboradores nesta edição audifax rios | augusto moita | calé alencar | ítalo castelar | kazane | nilze costa | paula respira | ponto de cultura vidannça • conselho editorial augusto moita | audifax rios | calé alencar | erivaldo casimiro • diagramação artzen • contatos contatos> canto da iracema rua joaquim magalhães 331 | cep 60040-160 | josé bonifácio | fortaleza | ceará | (85) 3032.0941 | cantodairacema@hotmail.com > solar av. da universidade 2333 | benfica | fortaleza | ceará | (85) 3226.1189 | associacaosolar@gmail.com FOTO CAPA > ZENO FALCÃO | AS MATÉRIAS PUBLICADAS SÃO DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES!


AUDIFAXRIOS@YAHOO.COM.BR

Mestre Lula e O Mar

A PRAIA DO PEIXE ERA BEM MAIS DISTANTE DO CALÇADÃO DE HOJE E NO ANO DE 1944 FORAM COLOCADAS AS PRIMEIRAS PEDRAS PARA CONTER O AVANÇO DO MAR TENEBROSO DE JANEIRO. MESMO ASSIM A RESSACA DO ANO SEGUINTE ENGOLIU DEZENAS DE CASAS LEVANDO DE ARRASTO O FAMOSO RESTAURANTE DO RAMOM, NA RUA PACAJUS. INCONTINENTI, LUIS GONZAGA ASSUNÇÃO PUXOU PELO ESTRO E IMORTALIZOU A PRAIA DE IRACEMA NUM SAMBADO ADEUS. LULA ERA DO MARANHÃO MAS GANHOU CIDADANIA FORTALEZENSA (ESTAVA NO NOME) EM 1976 E AQUI MORREU EM 1987, AOS 85 ANOS. POR MUITOS ANOS FOI DIRIGENTE DA ESCOLA DE SAMBA QUE LEVAVA SEU NOME E TAMBÉM PIANISTA OFICIAL DA CEARÁ RÁDIO CLUBE, A INESQUECÍVEL PERRENOVE. A PRAIA DE IRACEMA SEMPRE RENASCEU DAS CINZAS E FOI REDUTO DA BOEMIA CULTURAL QUE SE ALASTRAVA PELO ESTORIL, LIDO, ALABAMA, PIRATA, CAIS BAR, OPÇÃO E MUITOS OUTROS PONTOS AMORÁVEIS. NA ATUAL ADMINISTRAÇÃO TEM SIDO OLHADA COM CARINHO ESPECIAL, ESTÁ DE ROUPA NOVA, VOLTA A SER FESTIVA E ALEGRE COMO DANTES. SEMPRE BEM-VINDA, PRAIA DOS AMORES. 04


A ONDA PROIBIDA – Meu pai só conseguia ver o mar de Iracema através das frestas das venezianas do casarão (era pecado) da Monsenhor Tabosa, o Seminário da Prainha, onde esteve internado durante três anos, nos idos de 1920 e lá vai pedrada. Depois disso muito frequentou a Volta da Jurema onde os sócios do Centro Santanense promoviam animados piqueniques para a colônia. Depois foi morar em Santana porque havia assumido cargo de tabelião do Cartório de Registro de Imóveis daquela comarca; e as visitas à Capital, sempre penosas, passaram a rarear. Antes de morrer manifestava a vontade de voltar a Fortaleza para rever o velho Seminário, a Sé inconclusa, a Praça do Ferreira, que deixara com o único prédio alto, o Excelsior, a que ele chamava simplesmente de Edifício... e o mar de Iracema com sua Ponte Metálica, seus coqueirais, seu extenso areal. Antonio Sales Rios faleceu há cinquenta anos, no dia 14 de novembro, com 65 anos de idade. Em 1961, o ano em que deixei Santana para, a pretexto de continuar os estudos, assumir a postura de cidadão iracemista.

EMENDANDO OS BIGODES – Dois iracemistas dos bons tempos: Lúcio Brasileiro e Lustosa da Costa. Amigos de boemia, colegas de trabalho. Atuaram juntos na antiga TV Ceará no programa “Eles fazem a cidade” produzido pelo saudoso Tarcísio Tavares. A partir daí vieram o Telejornal Crasa, Dimensão Total, ainda parceiros. Lustosa mantinha coluna política no jornal Correio do Ceará e fez na televisão o “Política quase sempre”. Lúcio escrevia sobre sociedade no mesmo vespertino associado e na TV fazia “Spot Light”, posteriormente “Dois minutos com Lúcio Brasileiro”. Os Associados sumiram do mapa, Lustosa foi para Brasília e ficou escrevendo no Diário do Nordeste. Brasileiro (que é Newton Cavalcante) foi para O Povo e TV Jangadeiro. Durante anos Lustosa fez das mesas do Ideal Clube o seu birô de trabalho, olhando para o mar de Iracema. Lúcio, por muitos anos, residiu à cobertura do Iracema Plaza Hotel, em frente ao Lido. Amigos e iracemistas para sempre, palavra de honra, avalizada por fios de bigode.

O HUMANISTA MARESIADO – Isso aí ao lado é um desenho baseado num retrato de término de curso ginasial. Fui orador oficial da turma de humanistas, e, desde já, perdoem o desastre nunca superado. Antes, quando cursava o primeiro ginasial em colégio da CNEG (depois CNEC – Campanha Nacional de Educandários da Comunidade) vim a Fortaleza pela primeira vez. No dia seguinte à chegada fui levado a conhecer a Praia de Iracema. Amor à primeira vista, nunca mais abandonei pedaço. Mesmo nos anos de decadência que coincidiram com minha renúncia às lides etílicas. Saudades dos bons tempos do Estoril e sua tribo engajada; da Ivone e as rodadas sobre o tronco náufrago; do El Paredón e sua biquara sapecada; do Opção animado pela gaitada sonora do Haroldão; do Cais Bar e a ruma de compositores, sua feijoada com choro do Macaúba e Pardal; E mais, Baixo Ideal dos publicitários, Cirandinha, Madrugada e todos os botecos de taipa cheirando a peixe e samba-canção. Escrevo estas olhando para o livro do Luciano Maia (Estoril) e uma antologia que organizei (Iracemar), esgotados como a geografia e a força dos velhos jangadeiros. Mas o monumento do Zenon acena com o arco retado que são dunas como diz outro Maia, o poeta e amigo Virgílio. 05


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PONTO DE CULTURA VIDANÇA Ações de ponto de cultura promovem encontro de gerações e o multiculturalismo para ampliar os horizontes de comunidades da Barra do Ceará

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A arte como meio de emancipação do ser humano. É com este princípio que a Cia. Vidança atua há 30 anos em Fortaleza, mas precisamente no bairro Vila Velha, na região da Barra do Ceará, mostrando uma nova realidade aos jovens e adultos do local.

em aulas de ballet para crianças, jovens, adolescentes e idosos. Envolve também jovens no estudo da percussão, em curso de corte e costura, carpintaria, artes manuais, além de diversos outros cursos profissionalizantes que acontecem com frequência.

O começo se deu quando a Escola do SESI (Serviço Social da Indústria) da Barra do Ceará foi extinta. Sentindo a necessidade de continuação deste trabalho de ensino da Dança, a coreógrafa Anália Timbó e um grupo menor de participantes da escola, então chamado corpo de baile, fundaram a Associação Vidança Cia. de Dança do Ceará. Anália, permanece até hoje na direção e os integrantes do corpo de baile se tornaram educadores do projeto, que envolve a comunidade

“A arte tem uma força imensa como universo de símbolos que ajudam a viver e enfrentar a vida. No esforço de dar sentido ao que se vive na partilha do mundo da dança, muda-se imaginariamente o que se viveu e, portanto, efetivamente se transforma sensibilidades e se prepara novas escolhas concretas de vida”, avalia a coreógrafa e diretora Anália Timbó.


Ainda no contexto do ensino da dança, entre os programas desenvolvidos está a Escola de Artes e Ofícios Vidança, desenvolvendo trabalho voluntário ministrando aulas de ballet clássico, danças dramáticas, laboratório de criação coreográfica, dança criativa, alongamento, consciência corporal, criações viso-manuais, criações literárias, capoeira, hip-hop, percussão, carpintaria, atendendo atualmente a 180 crianças e adolescentes. O projeto agrega o grupo de percussão Tambatuques do Vidança, formado por crianças e jovens, que é responsável pela música dos espetáculos da Cia. e também possui sua autonomia como grupo artístico.

// FOTOS DIVULGAÇÃO

Outras ações contemplam o estimulo à leitura, como o acesso à biblioteca comunitária, contação de histórias e cortejos nas calçadas. Estas atividades envolvem um diálogo entre literatura e dança, música (percussão) e cena teatral (cortejo). “Esse dialogismo é a própria forma como nossa gente, em suas matrizes multiculturais, se articula, ao articular arte e culturas diversas em diálogos artísticos de extremo valor também como experiência humana”, define Anália Timbó.

Encontro de gerações O grupo intergeracional Retalhos da Vida realiza encontros e propicia a troca dos saberes entre as gerações, como forma também de envolver e fortalecer os vínculos familiares e afetivos das crianças, adolescentes, jovens e adultos da ação educativa e artística do Vidança. O diálogo intergeracional tem sua forma mais consciente, fundamental para a elevação da autoestima de cada um. E para selar o compromisso com a comunidade maior desvela-se como descoberta pessoal e fortalece os grupos que constituem o todo do Vidança. Participam do grupo intergeracional mães e demais entes familiares que desempenham diariamente atividades de conscientização corporal e trabalhos manuais, juntamente com as crianças, adolescentes e jovens, que partilham das criações viso-manuais destes membros de sua constelação familiar.

CONTATO Vidança nos palcos A Cia. Vidança alcança os palcos montando espetáculos que envolvem dança, música e teatro. O grupo já se apresentou em festivais tanto em nível local como internacional. Entre seus espetáculos, um dos mais conhecidos é Quintal de Mangue. O espetáculo retrata a vida dos moradores da região onde o grupo é sediado.

Av. L, 761A | Conj. Nova Assunção | Vila Velha | Barra do Ceará | Fortaleza / CE | Fone: (85) 3262.7599 | 9985.3687 | vidanca@vidanca.org

WWW.VIDANCA.ORG Por: Joanice Sampaio | Jornalista

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Vida nova Por: ÍTALO CASTELAR | Músico e Escritor

Fortaleza, 16 de dezembro de 1920. Minha querida Mamãe, Sei que já faz muito tempo que não dou notícias. Espero que esta carta encontre você e as meninas gozando de boa saúde e que o inverno não tenha sido rigoroso. Embora hoje em dia a comunicação se dê cada vez mais através de fios, que são mais uma prova cabal do ilimitado engenho humano, o hábito epistolar é mais adequado para pessoas como nós. Ainda mais porque, se a conheço bem, a senhora ainda ignora as maravilhas da Telegrafia. Após um bom tempo vagueando pela Europa, foi na América do Sul, numa aprazível cidade do Nordeste do Brasil, que encontrei um lar. Fortaleza foi o local escolhido para o meu desembarque do navio onde, sem saberem quem eu era, fui tão bem tratado pelos brasileiros que aqui residem. Confesso que fiquei assustado ao desembarcar na ponte metálica que me deu acesso às terras Novo Mundo. Anoitecia, mas logo esqueci meus modos normalmente reservados e fiz muitas amizades cujas boas informações me levaram a tomar apartamento num bairro da zona leste da cidade. É escusado dizer que o dinheiro que trouxe bem costurado na parte interna do colete ajudou muito a me estabelecer confortavelmente. Um pouco desconfortável com o epíteto de “gringo” que me pespegaram nos primeiros tempos, tratei logo de adaptar meu português lusitano ao sotaque local. Com o tempo, e uma providencial renovação no vestuário, já passava por fortalezense. Os cearenses mostram-se ser, no trato diário, um povo laborioso e muito cordial. Notei também que zelam por algumas tradições referentes à valentia em tempos de batalha, à honra pessoal e ao amor à terra que lembram-me muito as do 08

nosso país na gloriosa época dos senhores feudais. Meus hábitos alimentares, sei que essa é de pasmar, também mudaram muito. Adaptei-me inteiramente à especial culinária desta terra. A panelada, um prato similar ao haggis tão apreciado na Escócia, é um dos meus preferidos juntamente com os feijões verdes, servidos bem quentes em panela de argila, acompanhado de paçoca ou do sarapatel que são frequentes em minha mesa e cujas receitas vão em anexo. A dulcíssima rapadura é um tônico solidificado em barras. Como-a aos pedaços no desjejum ou, raspando-a até virar pó, adoço o forte café matinal que me ajuda a dissipar o sono ao alvorecer. Infelizmente, ao contrário da grande variedade que encontramos em França, só encontrei duas espécies de queijo produzidas nesta bela terra: O de coalho e o de manteiga. Mas, neste caso, quantidade não quer dizer qualidade: ambos são uma delícia. E as frutas, mamãe? Ah, as frutas são um regalo


à parte: a manga, originária da Índia e tão bem adaptada ao clima, assim como a goiaba e o maracujá típicos da América Tropical, são iguarias onde o sabor rivaliza em encanto com a aparência e o aroma. O caju e a castanha são uma dupla delícia que, bem como o coco, a senhora e as meninas só vão acreditar que é real quando o tocarem e provarem. Com o milho, os nativos fazem uma série de pratos, maxime no mês de junho, quando festejam a colheita num evento que, embora pintado com as cores do cristianismo, é um retrato acabado dos antigos deuses da fertilidade no Velho Continente. Também fazem canjica, pamonha, pipoca e outros manjares que nem sonhava existirem. Sou obrigado a admitir que engordei um pouco. Sinto falta de você e das meninas, mamãe. Ao encerrar minhas andanças pelo mundo e após aquela péssima temporada que passei em Londres, onde a mentalidade protestante e burguesa de alguns – bem, esqueçamos o passado – passei a pensar em assuntos que antigamente não me passavam pela cabeça. Coisas como casamento e família, por exemplo. Sei que a senhora deve estar ainda mais espantada, mas não se surpreenderia tanto se conhecesse a gentil criaturinha de pele acobreada e traços aquilinos que tive a sorte de encontrar dançando num forró (explicarei depois em que consiste este curioso e excitante bailado) e que me trata, com uma comovente meiguice, de “Seu Vladimir”, tratamento respeitoso que os nativos dão aos mais velhos. Também penso em adotar crianças, mamãe. Há tantas pelas ruas que precisam do amparo de um pai e, entenda como lhe aprouver, do carinho de uma avozinha... Pronto, agora a senhora já sabe o leitmotiv da minha carta: estou apaixonado por uma cearense com quem pretendo contrair núpcias. Porém, como a senhora bem o sabe, sou um homem à moda antiga e não tomaria tão importante decisão sem saber a opinião sua e das meninas. Venham as quatro o mais rápido possível e em definitivo. Essa terra nos proporcionará uma existência longa e frutífera. Depois decidiremos com calma e ponderação o que fazer com o castelo. Seu filho, que vos ama, Vlad Drácula. 09


Nonato

...COISAS QUE CONTO! CONTO! CONTO! Por: Augusto Moita | Compositor

O Sábio

Nonato Natureza adotou esse nome artístico quando ser ecologista ainda não estava na moda. Oriundo do bairro que é considerado a Cornualha Brasileira, Prof. José Walter, é um dos melhores compositores que aquele afrodisíaco local já produziu. Nonato foi dar com suas insapientes nádegas nos altivos bancos universitários da nossa magnífica Universidade Federal do Ceará, não através do seu disputadíssimo vestibular, mas, por um motivo que tentarei explicar. Pelo fim da década de setenta houve na nossa Loura descaminhada pelo sol um congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Era o começo da abertura política e o campus do Benfica fervilhou não só de universitários, mas de pessoas dos mais variados segmentos da nossa urbe: músicos, secundaristas, pessoal do teatro, do cinema, artistas de vários matizes, todos ávidos em respirar os novos ares da liberdade. E como não poderia deixar de ser, tudo isso acabou com muito forró na quadra do CEU. Forró, diga-se de passagem, com a autenticidade conto! da sanfona, conto! zabumba (não confundir com o chá de mesmo nome), triângulo e ganzá.

...coisas que conto!

Ora, atenciosos leitores, foi a sopa no mel para o nosso sedento por conhecimento herói. Com seu consorte violão foi fazendo amizade com o corpo docente e discente daquela briosa instituição e por lá foi ficando. Entrava num curso, saía em outro até que adotou o curso de psicologia como seu preferido. Aqui faço um parênteses para elogiar os abnegados estudantes que conseguiram concluir seus cursos naquele certame. Sabe por quê? Existiu outrora um amaldiçoado bar chamado Quina Azul responsável por muita gente boa largar os estudos. Menos eu. Os meus ficaram irremediavelmente comprometidos nas plateias do Movimento Massafeira. Tudo ia bem quando, por volta do fim do semestre, houve as verificações finais. Em determinada cadeira, a maioria da turma se deu mal, só logrando êxito adivinhem quem? Raimundo Nonato. O dedicado lente, após lamentar o insucesso da maioria, dirigiu-se ao nosso pseudo-acadêmico: - Nonato, meus parabéns. Está havendo apenas um pequeno problema. Não encontro o seu nome entre os outros alunos. Dirija-se à secretaria para dirimir esse equívoco. - E nem é pra encontrar mesmo, não! - Por quê? Você não faz este curso? - Na realidade, não faço curso nenhum. Cheguei por aqui, gostei, e “fui que fui ficando”. 11


// FOTO DIVULGAÇÃO

Por: Nilze Costa e Silva | Escritora

Praça da Lagoinha

No banco da Praça um velho medita. Sobre a lentidão das coisas? A vida é longa e a praça é enorme. Ao calor da tarde morna, alguma lembrança o revolve, quem sabe um passado de praças abertas, quando levava para namorar uma daquelas damas de peitos faceiros, no tempo da sua juventude. Logo em frente uma mulher arrasta o filho pela mão e o outro chora em seus braços. Noutros bancos, casais de namorados se aconchegam e os pardais se alvoroçam numa canção estridente. Do outro lado, empresários andarilhos põem à venda seus mais variados produtos: eletrodomésticos, panelas, pomadas japonesas, raízes, confecções, produtos importados. São verdadeiros mestres da retórica na arte de seduzir o freguês. Ganham no grito e na voz. São os camelôs da famigerada “Feira dos Malandros”. Vindos dos bairros da periferia mais distantes, das favelas, de alguma cidade do interior, tangidos pela seca ou pelo desemprego, tornam-se os destemidos guerreiros na arte de sobreviver. Desenvolvem estratégias as mais diversas, 12

muitas vezes longe da ética. Correm do “rapa” e da polícia, são tinhosos e audazes, falantes e bem humorados.

Bem próximo dali existe ainda uma beleza de casa que eu sempre admirava quando tinha que me dirigir ao centro da cidade. O prédio imponente da Fênix Caixeiral de estrutura arquitetônica neobarroca, foi construído para abrigar a sociedade recreativa “União Fênix Caixeiral”, que reunia comerciantes locais. Inaugurado em 1914, foi durante muito tempo, ponto de encontro da sociedade fortalezense. Tempos depois foi comprado pela Caixa Econômica Federal em 1955 e restaurado em 1984, mantendo a fachada original. Num dos lados da Praça da Lagoinha, funciona o maior comércio ambulante de Fortaleza, o “Beco da Poeira”, sem dúvida o maior e mais popular centro comercial de Fortaleza. A molecagem cearense já denominou este comércio de “Cupuar”. O que parece uma pronúncia francesa, na verdade significa a posição em que muita gente fica para olhar os produtos que às vezes são expostos no chão. Então fala-se que as pessoas ficam de “cu pro ar”, ou seja, abaixadas. Hoje, a Praça da Lagoinha está presa por grades de ferro. Castro Alves parece tremer na tumba a gritar: “Libertem a Praça! A praça é do povo, como o céu é do condor”


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// FOTOSCALÉ ALENCAR

feito retratava a perna manca foi a queda na calçada foi fissura patelar. Deu de escrever cearensês no gesso branco tome furico tamanco abestado adular. Não se avexe nem vá botando boneco malino aperriado enxerido agoniado cu de grude Zé Bedeu. Ternanteonte miudim que faz carreira voado apapagaiado imbuança arengar. Catilogência intrigado mangue não não se bula fique frio pilôra desembestado tamborete tribufu magote encasquetar maracá maracatu.

Os intestinos do Brasil pegando fogo um caminho varando três cidades nordestinas veredas indo do Ceará no rumo da Paraíba pequenina masculina mulher macho sim sinhô passando pelo Juazeiro do meu Padim Ciço Romão na direção de Sousa e depois Cajazeiras onde à sombra de mangueiras anduris e pés de cajá repousa a estação velha da R.V.C. ali plantada caminhos de ferro rasgando sertão chão pó poeira vento quentura lascada. Pastorada pelo menestrel Naldinho Braga a estação velha serve de pouso a seres cantantes viajantes cavaleiros andantes de voz e viola afiadas feito gume de faca amolada na pedra água pingando dentro do sertão de dentro. Passa de noite pirilampos pela estrada carreira carro risada cochichos no banco ao lado passa o tempo estrela brilha no infinito luz luzindo. Eu sento e deito no cambão da Guanabara pego a estrada sigo a rota de antigos cantadores plantando versos jardim música que alegra o mundo leva eu leva Cadu leva palhaço Lulu Luiz Carlos e tambores. Passa de noite chega Quixeramobim Iguatu chega Jardim Missão Velha Batateiras. Segue passando chega a Terra do Padim Juazeiro não te alembras quando nosso amor nasceu Juazeiro me arresponda me diz mesmo se tu queres que eu te diga como foi que ele que te disse Juá. Chega na pista chega na rua de asfalto o carro de aluguel emparelha com o chofer Maradona paraguaio olho no olho pergunto se habla castellaño o índio vai e responde bancando superstar hablo sim, yes, my boy. Pela calçada tem andu e tem pequi tem moto tem automóvel ônibus até o Horto tem vela pra meu Padim. Hora do almoço hora do chá de cidreira tem laranja descascada na hora que fiz o filme. O filme

Falando nisso deu de voltar pro caminho da música pé na estrada pra não ter porém ninguém atrás logo cedo. Deixe o Ceará falar. Chegando em Sousa foi comprar um DVD na banca no mei da rua era Milton Nascimento cantando no Rock in Rio foi ver era Sepultura tudo negro tudo igual. Tudo era música e assim continua sendo pauta fusa semifusa colcheia semicolcheia notação e pentagrama. Quem mais me ama deu-me o mundo de herança. Estando eu em Sousa Paraíba veio a mim o vereador em pessoa limpou os sapatos no engraxate apertou mãos e confessou ser rubronegro e tricolor de aço que nem eu. A cantoria seguiu nos levando a mim, Cadu e Luiz Carlos noite adentro no rumo de Cajazeiras onde braços abertos nos esperavam e mais um forrozim bom que só.

Por: Calé Alencar | Cantor e Compositor

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Em Cajazeiras tinha céu e estação beliche água da boa brega pop star baião. No DVD morava Inácio Garapa primo irmão do Malazartes de João Grilo era irmão. A radiola troava na madrugada risco de estrela no céu o sono da meninada no café das nove horas teve até cuscuz com ovo vitamina de abacate passeio pela cidade olho aberto e pé no chão. Na cantoria eu cantava e quem queria podia cantar também dançar brincar ser feliz o cortejo passeava brilho de estrela passava pelo céu pelo sertão pela rua na calçada moto carro caminhão. Meu coração se encheu de luz na dança dela bela estrela iluminada no céu azul do sertão. Tinha um menino vestido de seleção tinha um pedaço de cama encostado na parede. O menino tinha máscara branca de caveira os meninos tinham máscara preta de maracatu. O maracatu de Fortaleza seguiu sua dança batuqueira rolando até altas horas foi varando a madrugada foi tambor na noite adentro madrugueiro baticum. Veio a menina veio a dança veio a noite veio tamborim baqueta veio cor e coração. O amigo veio o poeta também veio veio gente veio vindo e assim ganhei um abraço. Bate um tambor no coração da eternidade. (Calé Alencar – cantor e compositor)

> FULÔDOLÁCIO

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artes plรกsticas

Paula Respira | Artista Plรกstica

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> CAPAS DAS EDIÇÕES DE 2011

CANTO DA IRACEMA  

Revista cultural do Ceará.

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